sexta-feira, 25 de março de 2011

sexta, 25, end of the road


...e pronto, termina hoje. sem espalhafato, na certeza de que «fui feliz aqui» e sê-lo-ei noutro tasco que surgirá, calhe assolarado o dia.

obrigado pela companhia. houve momentos (muitos, gigantes) em qu'ela foi importante. mesmo nos hiatos de silêncios as releituras e recordações estiveram cá, nunca foi um abandono. nem agora o é. é um arquivo necessário, uma mudança de caderno porque uma chávena de café entornou-se e borrou-lhe as folhas. mesmo quando secar a mancha não desaparecerá. por isso... cara alegre e... «ala, que se atrasa a mala!»

:-(

em fim de road: a puta da crise


após rápida leitura da imprensa, no final do dia D+1: os nossos promitentes novos chefes apresentaram a 1ª cura: subir impostos; lá fora, adiou-se a decisão sobre o reforço do fundo de apoio ao Euro para Junho - mas aposta-se que até Maio nós 'quebramos', a srª Merkel pôs a alguém as orelhas vermelhas e não há quem cale o sr. Trichet, e em Espanha houve milagre: todos - governo, oposição, sindicatos, patrões - juram que não são portugueses e não querem nada connosco e com os nossos remédios. e aquela malta do rating sacou outra vez das tesouras.

acho que já estou a entender. fizemos a merda mal feita e estamos entregues à bicharada. não é novidade mas custa sempre um bocado. desta vez, até palpito que custará um bocado mais que isso.

ouço rir. será que vem da Islândia?

quinta-feira, 24 de março de 2011

em fim de road: um alfinete na memória


não esqueçamos o jasmim. há dois meses atrás era-nos a flor mais importante.

em fim de road: memorabilia aniversariante



...porque o Gonzaga Coutinho, o 'nosso Gonzas', fez ontem anos, recupero esta velharia e junto-lhe o seu "Sucedeu Assim", de António Carlos Jobim, aqui em bela parceria com Ivan Lins.

em fim de road: apontamento de geopolítica


além do velho conflito com a NATO, tipo "quem tem a pilinha maior" - e como ela é importante quando se trata de domínio global..., a nova-velha Rússia tem presente o mesmo fantasma de sempre: a auto-estrada geológica que se estende das Ardenas até aos montes Urais, ora sem o pára-choques das ex-repúblicas soviéticas da Bielorússia, Ucrânia et al (Polónia, as falecidas vizinhas RDA e Checolosváquia, Hungria), por onde sofreu duas violentas invasões (Napoleão e Hitler), além do novo fantasmão islâmico do Caúcaso aloirado com a emergente força turca a mirar futuros. e o seu importante Mar Negro ameaçado...
mais uns pós amarelos a irritarem os olhos do grande urso e está encontrada a justificação do mega investimento militar projectado. a declaração pública acerca do reforço no nuclear é muito de fait-divers: obviamente qu'ele estaria sempre presente (este é o séc. XXI, não o esqueçamos). porém o resto da parafernália militar vai ser revisto, polido e musculado de fio a pavio.

ou George Friedman os leu bem, ou lá leram-no. e concordaram.


mapa geológico da Europa



mapa do Cáucaso

arquivem-se os autos



por inutilidade superveniente da lide, as laudas deste blogue serão em breve levadas à conta e depois arquivadas.
oportunamente e noutra e-comarca será instaurado novo processo, ups!..., digo, blogue.

"Preocupamo-nos sempre com as coisas erradas, não é?"


(...)
"Hesitam ambos. Será que ela não ficaria contente por ir já dormir? Um está sempre a beijar, o outro está sempre a ser beijado. Obrigado, Proust. Ele sabe que ela ficaria igualmente contente por prescindir do sexo. Porque se mostra mais fria em relação a ele? Está bem, ele tem uns quilos a mais à volta da cintura, e sim, o rabo dele já não aponta para norte. E se ela está a deixar de o amar? Isso seria trágico ou libertador? Como seria se ela o deixasse?

Seria impensável. Com quem falaria ele, como faria as compras ou veria televisão?

Esta noite, Peter vai ser o que beija. Daí a algum tempo, ela vai ficar feliz. Não vai?

Beija-a. Ela devolve-lhe o beijo de bom grado. Afinal, parece entusiasmada.

Agora já não consegue descrever a sensação de a beijar, o sabor da boca dela, demasiado próximo do sabor dentro da sua própria boca. Toca-lhe no cabelo, pega numa madeixa e puxa-a docemente. Durante os primeiros anos, era um pouco mais rude, até compreender que Rebecca já não gostava disso, que provavelmente nunca tinha gostado. Há ainda estes gestos que restam, repetições suaves de outros antigos, quando estavam juntos havia pouco, quando passavam o tempo a fazer amor, embora já nessa altura Peter soubesse que o desejo que sentia por ela fazia parte dum quadro mais vasto; que ele tinha tido sexo mais intenso (embora menos prodigioso) exactamente com três outras mulheres: uma que estava apaixonada pelo companheiro de quarto dele, outra que estava apaixonada pelos fauvistas e uma terceira que era simplesmente ridícula. O sexo com Rebecca foi extraordinário desde o início por ser sexo com Rebecca; com o seu espírito ávido, a sua ternura sensata e os indícios, à medida que se foram conhecendo um ao outro, daquilo a que ele só podia chamar o seu ser mais profundo.

Ela passa-lhe a mão pela coluna, com suavidade, pousa-a no rabo. Ele larga-lhe o cabelo, rodeia-lhe os ombros com a concavidade do braço, gesto que sabe de que ela gosta - dessa sensação de que a abraçam com força (uma das fantasias dele sobre as fantasias dela: ele segura-a no ar, a cama desapareceu). Com a mão livre, e com a ajuda dela, puxa a T-shirt para cima. Os seios de Rebecca são redondos e pequenos (quando inverteu aquela taça de champanhe sobre um deles para demonstrar que cabia, teria sido na casa de Verão em Truro ou na pensão de Marin?). Talvez os mamilos se tivessem tornado um pouco mais espessos e escuros - agora são precisamente do tamanho da ponta do dedo mindinho dele, e da cor de borrachas de lápis. Em tempos teriam sido um pouco mais pequenos, um pouco mais rosados? É provável que sim. Na realidade, Peter é um dos poucos homens que não ficam obsecados com mulheres mais novas, no que ela recusa acreditar.

Preocupamo-nos sempre com as coisas erradas, não é?

Aperta nos lábios o mamilo esquerdo, brinca com ele com a língua. Ela solta um murmúrio. Tornou-se uma coisa invulgar a boca dele nos seios de Rebecca e a resposta dela a isso, esse murmúrio exalado, o minúsculo estremecimento que ele sente a percorrer o corpo dela, como se ela não pudesse acreditar que aquilo, aquilo, estivesse a acontecer de novo. Agora o sexo dele endureceu. Nem sempre consegue dizer, nem isso lhe importa, quando está excitado por si mesmo, ou por ela também estar. Rebecca aperta-lhe as costas, já não consegue chegar-lhe ao rabo, ele adora o facto de ela gostar do rabo dele. Descreve círculos no mamilo dela com a ponta da língua, bate ligeiramente no outro com o dedo. Esta noite vai ser principalmente o orgasmo dela. As coisas passam-se assim muitas vezes, é assim há anos - assumem a sua forma, em qualquer noite (quando foi a última vez que fizeram amor que não fosse à noite, na cama?), em geral são decididas antecipadamente, por quem beija quem. Então este é para ela. É o que aquilo tem de excitante.

Ela tem uma prega de carne na barriga, as ancas tornaram-se mais pesadas. Mas, Peter, tu também não és propriamente uma estrela porno."
(...)

"Ao cair da noite", Michael Cunningham, Gradiva, 2010

dia D+1



‎3 horas, 3 prolongamentos, cento e tal cestos convertidos num total de 276 pontos. ganharam os Lakers.
é irrelevante. desportivamente foi épico, dos tais para um dia contar aos netos.

bom dia

...Portugal está a jogar.
que vamos contar 'amanhã'? eu digo: aguentar sacando prolongamentos que (se nos) respirem, e depois a cavalgada do cesto final.
não há outra maneira. Lakers ou Suns? não (me/nos) interessa, e menos ainda aos que ouvirão quem viu e, assim, também jogou.

quarta-feira, 23 de março de 2011

superior à morte



disseram-me, num comentário no Facebook, que hoje há uma nova estrela no céu com um olhar azul-violeta. acrescentei: ...e ganda desbunda à espera! o Richard já estava sentado nos degraus à espera dela ;-) com uma botelha de mais ainda tudo por encetar.

é... as vidas são espartilhos nalgumas relações, inexplicavelmente densas para (se) suportarem (n)o hálito animal.

releituras


...evidentes.

um original impresso em 1670 de que tenho a edição 'moderna' de 1943 ("Arte de Galanteria por D.Francisco de Portugal", Domingos Barreira - Editor), na minha primeira releitura que, quanto a isto, já se leu e julgou ler tudo quando se chega a estas idades e ditosos estados.

afinal não. nunca. folheio-o e pasmo. evidente! tal e qual! mesmo naqueles tempos decanos a Arte do Galanteio, esse sublime rejuvenescimento contínuo e, talvez, às vezes, quiçá quiçá quiçá, deu voltas e aprimoradas maroscas mas assenta nas mesmas pedras: «me Tarzan, you Jane». punhos de renda e bilhetinhos, versos e capa estendida, sim, claro que sim, mas uns olhos castanhos pedem o seu beijo com a veemência do íman e o galã não pode defraudá-los. morre logo ali, perece-lhe o estatuto e caminhará solitário em jardins abandonados pelas damas se a hesitação se prolongar a ponto da fera fêmea apagar o brilho das estrelas, fazendo-se lua distante, onírica, poética mas platónica.

a saliva deve saltar das rimas e mergulhar na sua igual. poesia? linda, bonita, encorajadora. frustrante, quando se chega ao último estremecimento e é um livro numa estante, um jardim onde as flores são bonitas mas com o passeio da solidão perdem a sua graça inspiradora. poesia, retrato de nós? talvez. tantas vezes talvez. mas melhor, bem melhor, é a faísca duns olhos castanhos que salivam por lerem em braille. o resto é literatura, e quanto a eles estou bem servido, obrigado.

abandonei a poesia, 'cansei', e releio materialismo dialéctico.

quinta-feira, 17 de março de 2011

as tardes de Março



muito do triste é muito belo. a alma não morre porque no exterior a radioactividade dos dias nos mata.
(dançável em privado)

generalidades, mas que nos interrogam


onde a encontrei tem esta legenda ('acertei-lhe' o português):

"Nalguns momentos o medo deixa-nos vivos, noutros ele impede-nos de viver..."

broken confidence - Sebastien Cloutier


porquê? mau título para tanto virtuosismo.

o número de ouro, áureos olhares




quando olhamos e sentimos d'algo emanar um feeling especial, um estremecimento inexplicável, será ele? a presença do número de ouro?



excelente. seria porque lhe chamam o número perfeito que M. S-C o escolheu para título?

'7'

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.


Mário de Sá-Carneiro

quarta-feira, 16 de março de 2011

a transição




não tenho a certeza de qual, mas foi com um destes três livros que dei o salto da banda desenhada para os "grandes, sem bonecos". suponho que foi o Conde de Monte Cristo mas acho que a preferência vem de, destes, ter sido o mais grosso e da satisfação que me deu ter conseguido ler um calhamaço daquele tamanho. quanto às capas, mal me lembro delas e das três imagens que escolhi só a do "Conde" me dá ideia de ser parecida, se não a mesma edição. depois houve o Ivanhoe, o Davy Crocket, o Vinte Anos Depois, o Moby Dick, os livros biográficos em versão juvenial, de que recordo o do dr. Albert Schweitzer e a saga de sir Edmond Hillary à conquista do Everest, tanto que ambos me fascinaram, mais os inevitáveis sobre a Segunda Guerra Mundial, espionagem, e os ets que são fabulosos a qualquer miúdo sedento de mais e mais. a leitura é um vício bom - embora... no fim digo.

o meu pai era um feroz leitor de livros policiais, aqueles de bolso da colecção Vampiro. em casa havia sempre dezenas, e quando se apercebeu de que eu me iniciara neles seleccionava os que eu podia ler. claro que procurava era logo ler os outros, aqueles que, tendo-os ele já lido, eram discretamente dissimulados nas pilhas no seu quarto. e, escondido na casa-de-banho, saltava páginas pouco preocupado com enredos mas à procura do beijo escandaloso, de descrições ardentes, extasiado com novos rubores que descobria em mim. também fascinado com descrições pormenorizadíssimas de crimes lavados em sangue e tripas fora, como nunca me apareciam nos 'meus', os autorizados. foi outro início, Agatha Christie veio depois.

isto no tempo dos alfarrabistas, em que se trocavam usados num intercâmbio que bem gerido permitia existir sempre literatura nova para ler. ao habitual 'leva dois, trás um', que despachava monos e trazia promessas de pepitas, juntavam-se os que ia comprando, ele, mais os que depois comecei eu a comprar, principalmente com os formidáveis saldos feitos à porta do cinema Império, na av. de Angola (LM, Moçambique), que mal soava a campainha e as cortinas eram corridas os putos, aqueles a quem ainda faltavam algumas zucas* e muitas quinhentas* para comprar o bilhete mágico para a matiné de caubóiadas, saldavam a existência ao preço da, diríamos hoje da uva mijona, mas à época e local seria mais correcto dizer que ao preço da tsintshiva.

então, eu, que me calculo nos meus dez, doze anos, lia como todos os miúdos os da série 'Os Cinco' ('Os Sete' vieram depois, e nunca agradaram tanto), e o meu pai trazia consigo a lista dos "em falta", pormenor que nunca esqueço. precisamos destas memórias, os pequenos gestos de amor, essas formas discretas que se têm para transmitir sem palavras afagos. tive-os! e um deles era a listinha no seu bolso, que de vez em quando me presenteava com uma nova aventura dos 'Cinco', húmus adequadíssimo às imaginações naquela idade.

a minha irmã, a Milly, também estava contagiada por este vírus da leitura. mais ainda, que já então escrevia: é poeta precoce, e das verdadeiras. sendo menina tinha as suas leituras próprias, mas foram livros que também não me escaparam. li com (muito) agrado o 'Mulherzinhas' e mais alguns do género, incluindo a sequela deste de que agora não recordo o nome. lia-se de tudo. as Selecções do Reader's Digest, principalmente os artigos que falavam de carros e a secção de livros condensados, dicas que nunca esqueci e muitos dos comprados já na adolescência obedeceram não a um impulso mas à memória do resumo que lá lera.

acho que nunca mais parei. sôfrego. excessivo? talvez. talvez mesmo! não sei quantos leio ao mês mas são muitos e de diverso género. sou um leitor ecléctico, e tanto pego num thriller da moda como num ensaio sobre literatura, e acreditem-me se vos disser que na minha "livralhada" tenho manuais de jardinagem e de construção de abrigos nucleares domésticos. e folheio-os a todos, pelo menos a isso nenhum escapa dando-me a noção, vaga mas existente, do que tenho e onde o tenho. tanta vez me sento à secretária só a olhar-lhes as lombadas, em estado de hipnose aparente em que nada se agita excepto a história que cada uma me vai contando.



e hoje lembrei-me de falar nisto.


-/-



uns chamam-lhe revisitar jardins. outros (eu), digo que são só memórias. interrogando-me continuamente se não teria sido preferível ter passado mais tempo a jogar futebol no passeio e a namoriscar as miúdas, sentado no muro do prédio. há argumentos pró e contra, mas não me livro da sensação de que tenho um 'peso livresco' excessivo, por prematuro, e se dei o primeiro beijo aos 18's (olá Carla! onde andarás?) o excesso dos que lera e suspirara escondido na casa de banho é que o atrasou. e isso, isto tudo, ainda permanece. ficaram golos por marcar, ficaram sim. este goal average negativo hoje pesa-me, e há momentos em que sinto tanto peso como parte do desagradável que é sentir-me um tótó romântico, uma volta ao mundo depois convencido que o melhor de tudo é a poesia.


*em calão laurentino, zuca era uma moeda de 2$50, e a quinhenta uma de 50 centavos

terça-feira, 15 de março de 2011

eu amo os meus livros



SONETOS

1.

Quem de meus versos a lição procura,
os farpões nunca viu de amor insano,
Nem sabe quanto custa um vil engano
Traçado pela mão da formosura.

Se o peito não tiver de rocha dura,
Fuja de ouvir contar tamanho dano,
Que a desabrida voz do desengano
O mais firme semblante desfigura.

Olhe que há-de chorar, vendo patente,
Em tão funesta e lagrimosa cena,
O cadafalso infame e sanguinoso.

Verá levado á morte um inocente:
E condenado a vergonhosa pena
O mais fiel amor, mais generoso.

2.

Cantar Marília ouvi, tão docemente,
Que o coração, prostrados os sentidos,
Imaginou que até pelos ouvidos
Seus olhos o assaltavam de repente.

Entrara a doce voz tão brandamente
Quais entram na alma os olhos seus, movidos
Com formoso desdém, quando rendidos
Pisa desejos mil tiranamente.

O poder milagroso da harmonia,
Que no peito em triunfo campeava,
Na mão por palma os olhos seus trazia.

Eu, que no carro fatal atado andava,
Se era vê-la ou ouvi-la, não sabia:
Sei que os novos grilhões não estranhava.

3.

Espargindo dourados resplendores,
De teus anos, angélica Maria,
Nasce o ditoso, o suspirado dia,
Dia das Graças, dia dos Amores.

Juncada a terra de orvalhadas flores,
Em sinal de prazer e de alegria,
Das frautas alternando a melodia,
Travam coreias ninfas e pastores.

Pelas côncavas fragas retinindo,
O brando som de versos sonorosos
Teu nome estão os montes repetindo.

E os sátiros camponeses, cobiçosos
De ver os olhos teus, teu gesto lindo,
Se penduram dos álamos frondosos.

4.

Ao som dos duros ferros que arrastava,
A lira de ouro Corydin tangia;
De Márcia o doce nome repetia,
Mas no meio do canto soluçava.

No rosto macerado, que enfiava,
O lagrimoso pranto reluzia;
E nos olhos, que aos altos céus erguia,
O pensamento intrépido voava.

Não se assombra de ventos insofridos,
Nem com ousado lenho arar intenta
O pólo do futuro nebuloso.

Menos chora terrenos bens perdidos;
De pouco um peito grande se contenta:
Antes quer ser honrado que ditoso.

5.

Tu és, Dircea, filha do Tirreno,
Eu, um dos filhos sou do pobre Alceste;
Mas nem por fado teu tal pai tiveste,
Nem eu por culpa minha sou pequeno.

Bem sei que te pretende o rico Alceno;
Mas, se peles e lãs mais finas veste,
Também no amor o venço, qual cipreste
Excede no robusto ao brando feno.

Deixa vaidades da justiça alheias:
Não desprezes afectos e ternura
Por teres mais cabritos e colmeias.

Faze, Dircea, reflexão madura:
Vê que a virtude própria em mim premeias,
E nele só premeias a ventura.

6.

Não cobre vastos campos o meu gado;
O maioral não sou da nossa aldeia;
Do meu trabalho como, mas, Dircea,
Ainda que sou pobre, vivo honrado.

No jogo da carreira e do cajado
Até o destro Algano me receia.
Qual loura espiga de grãozinho cheia,
Me alegra ver teu rosto delicado.

Se queres minha ser, fala a verdade,
Não vestiras as peles mais vistosas,
As finas lãs tecidas na cidade.

Trajaras das que eu trajo as mais mimosas:
Fá-las-á de mais preço a sã vontade
Com que quisera dar-te as mais custosas.

7.

Amor, nos olhos da formosa Clara,
Armado não de setas, de ternura,
Cruéis vinganças implacável jura,
Guerra fatal aos corações declara.

Dos brandos tiros que dali dispara
Ninguém pode, ninguém fugir procura,
Que do mesmo poder da formosura
Nenhum peito de bronze se depara.

Seus lindos olhos, com desdém movidos,
Pisam desejos mil, rendem mil peitos,
Lançam por terra corações feridos.

Se esquivos causam tão cruéis efeitos,
Inda causam mais ânsias, mais gemidos,
Quando se deixam ver a amor sujeitos.

8.

Não minto, não, se disse que os Amores
Estavam no ar suspensos, esperando
Que tua voz divina modulando
Aplacasse dos ventos os furores:

Ergue, Mafalda, os olhos vencedores,
Vê-los-ás para aqui andar voando,
E, os retorcidos arcos afrouxando,
Largar das tenras mãos os passadores.

Não vês o fulvo Tejo c'o tridente
Os cavalos azuis estar detendo,
As levantadas ondas reprimindo?

Se isto sente, Mafalda, quem não sente,
Que não sentirei eu, ouvindo e vendo
Tua angélica voz, teu rosto lindo?

9.

Estavam as três Graças penteando
O cabelo subtil de Amor um dia;
Qual c'o marfim assírio lhos abria,
Outras andam mil gemas preparando.

Amor, como rapaz, de quando em quando,
Co'a dourada cabeça lhe fugia;
Porém, vê que Eufrosina se sorria,
Porque Aglaia lhe está as cãs tirando.

O Menino, pasmado, vê no espelho,
Por entre os anéis de ouro reluzente,
Branquejar a saraiva da velhice:

Suspira e diz: Oh! Saiba a cega gente
Que Amor, nascendo moço, se faz velho,
Que ter um velho amor, não é tontice.

"Cantata de Dido e outros poemas", Pedro António Correia Garção, Livraria Clássica Editora.

o meu exemplar é uma 2ª edição, de 1965. consta das primeiras folhas, carimbado, que foi uma oferta da Secretaria de Estado da Cultura. lembro-me desse momento. mesmo olhando no tempo e sob os olhos de agora, esse e o resto do caixotinho que me deram foi uma oferta justa. ajudara a implantar um Centro Cultural e a amabilidade tida foi correcta. até que, trinta anos depois, tenho-o, uso-o, leio-o e transcrevo-o e está em excelente estado: como novo. eu amo os meus livros.

porquê?



se bem nos recordarmos a Islândia foi o primeiro país europeu "a dar o berro" aquando da crise financeira mundial iniciada em 2007 pelo famoso rebentamento da bolha imobiliária norte-americana. com uma economia assente em bancaria e aplicações financeiras de alto risco, tudo ruiu mais depressa que, então, voltarem a pôr os barcos na água e dedicarem-se àquilo onde sempre foram bons: a pesca (não é gozo). foi uma escandaleira, contagiou entre outros a Grã-Bretanha que ficou a arder com vultuosos depósitos, etc. se bem continuo a lembrar-me, foram empréstimos de emergência feitos pela Rússia que permitiram à ilha não ir ao fundo.

passaram quatro anos. saltamos de crise em crise, e esquecemos. ajudam-nos a esquecer. não o mau, que esse está sempre presente, seja para salivar os protos-leitores, seja por qualquer desígnio que me escapa e sobre qual não desejo reflectir muito, mas a verdade é que há uma notícia boa vinda de lá e que nos interessa, nós um dos mais "à rasca": está em curso e com sucesso uma revolução islandesa e tem sido 'apagada' dos jornais e dos telejornais, esses pastéis mediáticos feitos para nos adormecer, indignando-nos só na 'justa medida', controladinha.

têm-na ocultado, silenciado perante nós, os "à rasca". surpreende? não. nem pelo atroz jornalismo que considera que só as más notícias é que fazem boas manchetes. é mais profundo, suspeito, é um roçar as bordas das teorias da conspiração de que não gosto, mas para as quais me sinto muito suavemente empurrado. e - palavra! - prefiro um empurrão sério, fdp q.b, que estes maneirismos manipuladores.

porquê? este silêncio serve quem?

porque o sucesso está a ser conseguido fora das receitas formatadas que se impingem por toda a Europa doente. foge à bula oficial e ao rol de medicamentos tão recomendadíssimo que não há quem o queira de bom grado, o Índice Terapêutico Europeu: FEEF e FMI, ou na nossa actual versão suave "desenrasquem-se então lá, mas fazendo como nós mandamos". sem açúcar, só com o sucedâneo da ameaça das alternativas serem piores. serão?

tivemos a manif de dia 12 que é um facto político não possível de meter ao canto, arrumá-lo nos fait divers fortuitos, e uma semana depois continua tudo como dantes. se se mobilizaram 200.000 (mesmo que com o auxílio de sindicatos, mas eles existem é também para isso) em volta dum protesto apartidário, num passa-palavra virtual que só depois galgou para os jornais e tv's, a sociedade civil não está totalmente KO, ainda respira além de gemer - e protesta.

porém, como evitar a 'revolução na rua', que no nosso estado de endividamento financeiro-compromissos internacionais, seria tão perigoso como contratar-me para cozinheiro dum lar de idosos?

constantemente se zurze no estado da nossa democracia, elegendo por norma o bombo de serviço, i.e. o partido e a cara de quem está no Governo. deitando fora do prato os providencialismos, os 'salvadores da pátria', também suspeito que não há lugar à criação dum novo partido político que seja aglutinador dos descontentamentos. creio mesmo que as divisões ideológicas não permitem governos de 'salvação nacional', tipo centrões ou abas reunidas. não funcionaria, que os ódios de estimação ideológica são tantos e tão ensimesmados que mais depressa se tornavam espiões-boicotadores uns dos outros que efectivamente legislariam e governariam num interesse comum, com sentido de Estado. penso que é dentro dos partidos existentes que há que transformar. dar voz à rua e aos silêncios dos descontentes. alterar o habitual numerus clausus que nos impinge quadrianualmente como caras-candidatas a chefe de todos quem um concílio sempre dos mesmos previamente escolheu. concílio inquinado por interesses viciados, clientelas salivantes, rotundos status e que tudo fazem para não o perderem. então escolhem o seu 'chefe' que nos irá ser apresentado como a única de já parcas opções. assim não vale, é democracia a fingir.

se se sente o apelo da política, mais a mais se por descontentamento, não é errado militar. pelo contrário. a Islândia encontrou a sua via - e parece que funciona. a fórmula, para cá, na verdade descreio dela. há tipicidades próprias e temos muito mais holofotes apontados que eles no período mais crítico, mesmo não estando ainda em falência técnica assumida, como eles tiveram de assumir, engolir e dizê-lo: o futuro da moeda única europeia, das políticas fiscais únicas, etc, passará um bom bocado pela forma como nós iremos reagir, embora concerteza já existam os planos B e até o C. a revitalização dos partidos políticos só se consegue pela injecção maciça de novas opiniões, novas vontades, novos votos que elegerão alternativas ao mais-do-mesmo que nos cansou. esvaziar de inevitabilidades más a pescadinha de rabo na boca, interromper o círculo, criar alternativas sem fazer ruir o edifício.

vale o que vale. é a minha ideia, hoje. ninguém ma pediu e ninguém lhe ligará nada em especial. mas tenho um blogue onde pespego tanto coisa, incluindo disparates e outras coisas assim bonitas, e não vejo porque é que não hei-de aqui colocá-la. ah! não me vou inscrever em nada. nada de nada. sou excessivamente individualista para isso. eu.

ps: post sob inspiração na leitura da crónica de Pedro Lomba, no Público de hoje (sem link, que a visualização é só para assinantes-pagantes)


(na imagem: a versão - de 1590 - de Abraham Ortelius do mapa da Islândia, atribuído ao bispo dinamarquês de Gudbrandur, Þorláksson. encontrado aqui. vénia)

Atlântida ibérica


tem a ver com maremotos (tsunamis, mas existe a palavra própria em português) mas não tem a ver com 'a crise'. uma alternativa de leitura para desempoeirar!

segunda-feira, 14 de março de 2011

'Te odio', by Los Seis Días


'Te odio', dos barceloneses "Los seis días".

(tem de se ver no YouTube, mas vale bem o clique suplementar)

quem mo mandou disse-me: «não tenho tomates para publicar isto».
eu tenho, tenho-os. cinquagenários, velhos e rezingões. irritadiços até à menor palha, tanta vez.
vendo bem, ouvindo, acho que não é caso para tanto. susceptibilidades!


a letra:

Te odio
por la nota que dejaste al despertar
huyendo

Te odio
por los dias que has estado sin estar
dentro de mi

Te odio
por dejarme a medias antes de llegar
al extasis

Te odio
por tu boca que carece de verdad
y sigue asi

TE ODIO
COMO NADIE EN ESTE MUNDO TE ODIARÁ
TE ODIO
COMO NO SE PUEDE ODIAR A NADIE MAS

Te odio
porque siempre sigues, siempre sigues, siempre sigues, siempre sigues ahí...

Te odio
tanto que podria hacerte resucitar
del miedo

Olvidaste mi alma al cuaderno en el que solias preguntar quantos dias quedan para vernos tengo el corazon apunto de estallar


TE ODIO
COMO NADIE EN ESTE MUNDO TE ODIARA
TE ODIO
COMO NO SE PUEDE ODIAR A NADIE MAS

Te odio, te odio, te odio, te odio, te odio

(intervalo)



porque ainda é a poesia que de nós diz quase tudo.

livros perdidos neste trânsito


... e dou com o bom do Gabeira, no FB! até ele! (já o tinha anexado como 'amigo' mas só hoje o visitei)
Fernando Gabeira de que li um único livro, nos anos 70/80's ("O que é isso, companheiro?"; jóia que me desapareceu), e a quem perdi o rasto depois. ultimamente, em contacto com malta dos brasis tenho perguntado por ele. lá me vão dando notícias. assim-assim, valha a verdade. mas "lêmo-nos" no FB. coisa boa, isto, que tanto permite.

me House, you?...


leio que o dr. House está de regresso. 7ª temporada. hoje, às 21:30, na Fox. eu, seu under ego assumido, não vou perder :-)

PEC-sonhos


para no irmos aclimatando ao PEC 5, 'eles' lá vão soltando as dicas.
obviamente afectará mais os Opel Corsa que os Lamborghini Aventador: a uns usámo-los, e para isso comprámo-los. aos outros... vemos as fotos nas revistas e pela net, e lá calha uma vez ao ano ver um a passar. toda a diferença!

turistando maldades




leio o post-pub no Facebook e o pensamento imediato é: «vá lá que não é em Mourão!» vá lá, porquê?
porque nada do que gosto - e gosto do conceito 'turismo rural', evoca-me muito do que desejo - tem escapado à conspurcação contínua: poesia, literatura francesa, as músicas que me foram queridas.
deliberada? certamente que não. mas que é insensível, é. por aqui se vê o peso específico do proclamado como importante, a sua real importância.
zero tem quatro letras, tal como outras 'palavras bonitas'.

golfe? disse mesmo... golfe?



(para além do sensacionalismo demagógico do título - o turismo é importante para a economia)

... este gajo sabe, calcula, vá lá, que o país está em vias de fechar por desistência de ânimo? que os transportadores reclamam uma correcta diminuição do imposto sobre o gasóleo? isto, neste momento, é... é tudo menos CORRECTO!
o golfe não é um bem essencial. mais a mais sabendo-se que no previsível PEC 5 - já em marcha, nos 'laboratórios fiscais' - muitos bens ESSENCIAS perderão a taxa de IVA abonatória passando à 'normal', a dolorosa (de 6 para 23%!).
se por um lado o país não pode parar - e há que legislar o que for considerado necessário para revitalizar sectores - não se compreende como, neste momento, isto está em cima da mesa. há prioridades, e o sub-sector 'golfe' perde naturalmente relevância quando em confronto com tanto que nos aflige. falta de tacto político, em versão 'simpática'!



(na imagem, "Prisioneiro do Estado", de Zhao Ziyang (Casa das Letras, 2010), que foi primeiro-ministro da República Popular da China, ostracizado após Tiananmen sob mil e um pretextos, incluindo-se a sua paixão pelo jogo de golfe)

(a tentar entender França'12)


"(...)rapprochement entre Copé et Sarkozy n’était pas une bonne stratégie pour 2012 étant donné les positions extrémistes concernant le débat sur l’islam que Copé veut lancer au sein de l’UMP pour l’instrumentaliser"; "le débat sur les religions n’est pas l’affaire des partis politiques et d’autant plus lorsqu’il vise et conduit à discriminer ou stigmatiser une population selon les mêmes méthodes que Marine Le Pen"; "Derrière le débat sur l’islam et la laïcité se cache la peur de l’arrivée de nouveaux migrants du fait des confrontations politiques dans le monde arabe, cette révolution démocratique qui a d’autre part suscité l’admiration et le soutien de l’ensemble du monde démocrate occidental. Certains agitateurs de cette peur, comme la députée UMP Brunel, orientent et font converger les opinions islamophobes et xénophobes"; "La majorité des musulmans français sont des laïcs engagés politiquement dans les différents partis de droite comme de gauche";

...e não é 'dos meus'! que dizer, mais? :-(

googlando-me, sem querer: "onde está Wally?"

revelando-me, sem querer.

sábado passei a tarde a arrumar livros, coisa sem fim e ainda bem que é assim. é neles que estou 'em casa', sem chatices, que mesmo as memórias que me trazem consigo triturá-las de forma a... aceitá-las. triturar, porque não o consigo por menos. aceitar, porque todos e cada foram partilhados e a traição literária é a única aceitável. (escrevi "montes" enquanto arrumava. mas 'já não é importante!...', como o sinto e me dói!)
calhou que comecei a adoecer lá, nessa tarde, mas só à noite me caiu em cima 'tudo', com a merda duma sopa de alho francês que fiz, provavelmente segui mal as instruções do pacote, e comi dois pratos a ferver com ela mal cozida. acordei só à bocado! isto cá dentro é frágil e qualquer coisa me arruma. fim de aiar.
naquela tarde encontrei o amalaya!, de Silvia Zayes (edições tema, 2006), e pensei logo em fazer um post no Facebook dedicado à amiga Lola Canosa, galega militante e uma das gargalhadas que me acompanham no autismo informático que é aquela paranóia do FB. é também por ela que vale a pena andar por lá!
precisava duma imagem da capa do livro - cá em casa, só o teclado e o monitor funcionam, nem impressora, quanto mais o scaner - e pus-me a googlar, santo dos santos que me desenrasca de quase tudo que preciso. só que, desta vez, encontrei-me! dei por mim, cara chapada e ao que me lembro de olho disfarçadamente guloso, a assistir à performance da boa da Silvia na apresentação no Clube Literário do Porto, no já tão longe 2007, do tal livrinho (estou em 5 fotos, vejam lá...), no Filo-Café "Ritos e Rituais", organização da Incomunidade, uma das boas iniciativas do Alberto Augusto Miranda & Cªa, que me fazem lamentar este estar tão longe de tanto que gosto neste 'desterro' na lezíria, tão perto de Lisboa que acaba por ser longe, tão perto de tanto mais que, como agora, leio e não acredito como houve um tempo em que me mexia e de facto tinha um outro mundo, vivido. (e continuando, à procura da capa que não encontro, encontro::

"Um filo-café é um triciclo. Movimenta-se pelos próprios. Não tem petróleo. A sua combustão é activada pelo desejo. Não se paga, não se paga. Apaga-se. E vem outro. Cabeças sem trono. Um filo-café lembra-se. Desaparece sem dor."

fico-me por aqui. matutando sobre o que vale a pena e o que foi excessivo. o que valem 'os livros' («"só pelas palavrinhas bonitas?» - perguntaram-me e não o esqueço) e se é só assim, tão redutor que ofende (ofendeu). se calhar ser-se puta é melhor que ser-se filho-da-puta, também o penso. quero apagar três anos da minha vida e não consigo. foram importantes, mesmo que neste fim acabe como estou: googlando-me e, sem encontrar o que desejava, acabando a reflectir sobre o inferno das coisas, minha estante desarrumada.

sábado, 12 de março de 2011

at last away?,.. new heaven, I dream... should I stay?



levou-me. não sei bem a quê, ou onde, mas levou-me. e tou lá, a gostar de estar lá...


(o original, Etta James, aqui)

cios perigosos



a filha-do-outro já cá anda a meter o bedelho.

versão B) os bedelhos de cá já andam a querer acasalar com ela.

afinal eu Gosto do Acordo Ortográfico



...quando leio notícias do meu país.

a sensação de que há 'erro', de que está tudo errado, é um filme e irei acordar e não é nada assim. que sabemos escrever bem o nosso português Portugal. que é um pesadelo, um erro. um erro, que com o afinco de fazer bem e escrevê-lo melhor para amanhã ser bem lido, ortograficamente nos corrigirá.

sexta-feira, 11 de março de 2011

uma receita de guizado, duas pilas e macadame


"Na Austrália, durante os últimos dez anos*, foram mortos mais de vinte e cinco milhões de cangurus. (...) Para justificar o massacre, os Australianos evocam os estragos que o voraz marsupial provoca nas culturas: não sem motivo, acusam-no de devorar os tenros rebentos das culturas em crescimento**. (...) come-se a sua carne, da cauda sobretudo, extremamente saborosa, e a exportação de conservas de carne de canguru contribui notavelmente para o equilíbrio da balança comercial australiana.

Mas talvez esta ferocidade se baseie numa outra razão menos confessável, já que acentuaria simultaneamente um curiosidade malsã e uma inveja pura e simples: digamo-lo claramente, estes mamíferos primitivos, que são os cangurus, têm a particularidade de possuir dois pénis! Assim o diz Henry Miller, no 'Trópico de Câncer', com uma ponta de inveja:
«O canguru tem dois pénis, um para os dias de semana, o outro para os feriados.»

Os Australianos, aborígenes ou não, consideram que a cauda do canguru possui extraordinários poderes afrodisíacos. Justamente. E também é justamente que eles temperam este pedaço real com noz de macadame, fruto de uma pequena árvores de folha persistente que cresce na costa nordeste do seu continente.

A noz de macadame deve o se nome ao químico McAdam, o inventor do sistema de empedramento das estradas também baptizado com o seu nome. Misturada com a cerveja australiana, constitui um dos filtros de amor mais consumidos na ilha. Certa receita, da qual os aborígenes guardam o segredo, preconiza a sua mistura com o mel da região, opaco e espesso, para confeccionar uma máscara de beleza que que amacia a pele. Introduzida na Polinésia, em finais do século XIX, a noz de macadame também aí é muito apreciada pelos indígenas, pois
«serve para a beleza e para o amor». Uma vez que esta utilização nos interessa ao mais alto ponto, façamos uma paragem imediata sobre este:

GUISADO DE CANGURU COM NOZ DE MACADAME



Para 2 pessoas

350 g de carne fresca de canguru
(incluindo os dois pénis do animal)
farinha
óleo de palma
3 cebolas
50 g de noz de macadame moída
toucinho
alho
piripiri

Corte a carne em pedaços e passe-os, tal como os dois pénis que este animal possui, por um prato de farinha.
Prepare um picado com as cebolas, o toucinho, o alho e o piripiri.
Ponha óleo de palma a aquecer numa grande frigideira e frite a carne em lume vivo.
Assim que os pedaços de carne estiverem bem dourados, panha-os num tacho com o picado de toucinho e a noz de macadame, cubra com água e deixe cozer durante bastante tempo."



bom proveito. depois contem... ;-)

in Cinco Mil Anos de Cozinha Afrodisíaca, Pino Correnti, ASA, 1994, que logo à entrada trás esta

NOTA DO EDITOR FRANCÊS

Em doses excessivas, certos ingredientes mencionados nas receitas podem ser tóxicos ou ter efeitos secundários desagradáveis. O editor declina qualquer responsabilidade em caso de incidente após a sua ingestão.

incidente? "incidente"? o gajo é parvo! humpf



* a edição original deste livro, nas Éditions Robert Laffont, S.A., é de 1992;

** Bill Bryson, no seu Na terra dos cangurus, relata o problema da convivência entre as duas necessidades, incompatíveis: a preservação do esforço e salvaguarda do investimento, as culturas; e a manutenção integral das espécies selvagens.
ou que assim se tornaram: diverso, quer pela dimensão da chacina, quer pelos prejuízos causados, é o dos coelhos, que nunca existiram naquele continente antes da chegada do homem europeu. duma 'importação' dalgumas dezenas para fins venatórios, então soltos para reprodução, calcula-se que hoje atinjam... centenas de milhões. com as consequências que calculamos.

poesia e um frio túmulo, onde habitam mornos fantasmas




Demócrito

Prefiro entender o que sei
a poder ser, na Pérsia, rei.


Bartolomeu Dias

Dobrado o Assombro, foi o que tu viste
não ser o mar diferente. Então, voltaste.
Desflorado o mistério, não existe
motivo para novo esforço: cessaste.


Copérnico

O céu que viste era o céu
de Ptolomeu. Mas diferente
foi a forma de o olhar.
No modo de julgar, teu,
a Terra, astro movente,
demitiu-se de pensar
que era o centro do mundo:
assim ver, que abalo fundo!


Pascal

Não penso, no vasta espaço denso,
encontrar a minha dignidade:
tão só no domínio do que penso.
Ter mundos é pura insanidade:
qual átomo, o espaço me devora
e anula; e só o pensamento
que me habita e em mim demora
me dá, do universo, entendimento.


Van Gogh

Demora-me a sede de infinito.
Que vou fazer? Como resolvê-la?
Decido: saio para a noite e fito
o espaço nu, a luz duma estrela.


Einstein

E igual a mc dois
abriu as portas do ignoto:
o que há-de vir depois
é o frio: aqui o noto.

-/-

Epílogo


Hipótese - II ( O outro inverno)


O caminho da entropia

Um frio estelar roupa à glória a memória.
Ao mais e ao menos uma fria brisa alisa.
Arrefecido o homem, já da sua história
fica só nada, que o fluir do tempo pisa.
Do que fomos, nem de nos termos esquecido
traço fica. Inocente, o tempo, liso, flui,
nem sabendo que não sabe. O já ter sido
é nem ter chegado a ser: o passado alui.
Eterno, sem lembrança, o frio acontecido.


"O Ilimitável Oceano", Eugénio Lisboa, Edições Quasi, 2001

"sabe bem pagar tão pouco"


o pequeno-almoço é uma refeição importantíssima. deve ser calórica mas não pesada, e seleccionada nos sabores para nos predispor de corpo e mente para o dia que começa.

dias que são uma colecção de trunfos que se jogam para fazer vasas, mas cada vez mais pequenos pois o baralho gasta-se com uma velocidade impressionante.

fui às compras ao supermercado.

à entrada, logo logo mal se cruzam as portadas bip-bip, cubos de ananáz. dois. com palito, à finesse. segue.
na charcutaria havia tostinhas com pedacitos de queijo de Azeitão. chiça, que estavam bons! três.
ziguezagueando passa-se pela frutaria e cometi o crime mais universal: o famoso bago de uva. um, que não sou abusador, sou um pequeno larápio gourmet.

na caixa: lata de atum marca Pingo Doce, € 0,54. na cafetaria: café (no sugar), € 0,55. total : pança confortada, latita para as reservas, e dispêndio de € 1,09.

...porém não é tão barato como isso. depende do ponto de vista, que a latita é importante.

no concorrente Modelo, a um quilómetro, na cafetaria há uma promoção que suponho vitalíca pois sempre lá a vi: café + pastel de nata (com canela, aproveita-se tudo) por € 1.
só que a latita, da sua marca mais branca entre as brancas, a "é", custa € 0,45. mas é raro encontrar queijo, chouriço ou fruta oferecidos (porém, há as uvas; também as têm sempre).

quid juris?

não sei! amanhã penso nisso (lol)

quarta-feira, 9 de março de 2011

a guilhotina: um conto de terror


A Carla fez esta manhã o périplo scalabitano de livrarias e da biblioteca, e fui com ela. Necessita de certos livros que não possuímos para um trabalho que trouxe para férias, férias que terminam hoje. Pouco se encontrou, é assim. Mas conto o pormenor que me fixa a contá-lo, o que senti. Os livros (eu e eles), e o seu destino nesta modernidade insensível a tudo – até às sobras dos livreiros.

Nunca se editou tanto. Bom sinal, embora haja a convicção de que a comprá-los são sempre os mesmos, em ginásticas cada vez mais impossíveis e com pesadelos divididos entre os que ainda se desejam e os problemas domésticos com os que já não se desejam pois já se compraram (às vezes “fanam-se”, mas isso é de artista, adicto, e desesperado. cumulativamente.) Basta um único romance dum novo nome internacional aterrar cá no burgo e ser um sucesso de vendas, seja por espectacularidade literária, série televisiva ou magia de supermercado, para os editores correrem a comprar os direitos de todos os anteriores ao best-seller, tentando aproveitar a vaga e a moda, que sabem-nas quase sempre pouco dadas a perenidades de catálogo nobre, capa dura e edições especiais. É o negócio deles, e hoje a edição é sobretudo um negócio.

Por isso é com um toque de encanto de fim das coisas que vou lendo devagarinho o último Enrique Vila-Matas, Dublinesca, a história dum editor (Samuel Riba) que gosta de se pensar como o último dos editores clássicos, velho embondeiro do bom papel, ou velho elefante que, página a página, carícias que os nossos olhos lhe dão,

“Pertence à cada vez mais rara estirpe dos editores cultos, literários. E assiste todos os dias comovido ao espectáculo de ver como o ramo nobre do seu ofício – editores que ainda lêem e os que se sentiram sempre atraídos pela literatura – se vai extinguindo no começo deste século. Teve problemas há dois anos, mas soube fechar a tempo a editora que, ao fim ao cabo, embora tendo alcançado um notável prestígio, rolava com assombrosa obstinação para a falência. Em mais de trinta anos de trajectória independente, houve de tudo, êxitos mas também fracassos. O declínio da etapa final atribui-o à sua resistência em publicar livros com as histórias góticas na moda e outros pastelões, e esquece assim parte da verdade: que nunca se distinguiu pela sua boa gestão económica e que, por outro lado, talvez o tivesse prejudicado o seu excessivo fanatismo pela literatura.” (logo de entrada, na primeira página)

vai encaminhando o punho ao Autor, e assim o destino, para Dublin (Ulisses, Joyce), quem sabe o que o barcelonês lhe fará, cemitério celta e com rituais próprios para deuses frustrados, ou outro apogeu qualquer. Confio mais em Vila-Matas que numa holding de supermercados.

E assim os livros novos que não sejam de consagradíssimos têm um tempo de vida útil e exposta que ronda os três meses. Os livreiros precisam do espaço para exporem as novidades que, semanalmente, edificam a garantia do bom pagamento das contas.

O que acontece às sobras? São devolvidas à distribuidora e, sendo essa a sua deixa e a contabilidade do deve e haver pronta, os entregará nas mãos (obviamente desagradadas) da editora (talvez nem sempre, talvez…) E são armazenados, o seu sítio na Internet actualizado com as “promoções”, as feiras do livro municiadas, e os mais pobretanas até deverão mandar rezar missas se forem de fés menos prosaicas que pegarem no dinheiro em caixa e embebedarem-se, aguardando o solicitador de execuções e os selos nas portas. Avé, só as árvores é que morrem de pé porque as raízes não as deixam fugir.

Acredito que quem trate com amor – bela palavra – esses livros rejeitados pelas multidões ou por overdose dos bibliófilos, serão os Samuéis Ribas sobreviventes. Imagino-os olhando-os, nas caixas descarregadas pela carrinha da distribuidora, com um misto de tristeza pela míngua proporcional do cheque a haver, mas com sentimento de pai, de pastor, de amigo querido. Amor é isto.

Já nas grandes casas editoriais vejo tudo mecanizado, números e números, rácios, gráficos, a putakospariu que, talvez talvez, não seja muito difícil no jogo das perguntas encontrar cara sim cara não quem não pegue num livro fora do seu horário laboral (esta é contextualmente a palavra feia da crónica, não é a outra, perfeitinha.) Eles serão muito metodicamente arrumados, talvez pelo ISBN e não pelo apelido do autor, como vejo em trabalheiras o seu romântico oposto, dublinesco, quixotesco, um verdadeiro Riba pois lê o que vende e trata com carinho a capa ferida, o canto da badana dobrado, a lombada lascada, a sua ave de letras rejeitada. É que cada novo lançamento, cada novo autor que edita, é uma esperança dupla: o sucesso da sua casa, e o extasiamento do mundo literário. Raramente acontecerá assim (por isso Dublin?) mas lá no fundo todos o acreditam quando – finalmente! – pegam num original que esperava vez e ânimo, e acontece uma noite ser tão grande como é uma paixão, a luz da esperança acesa até à última folha do seu novo Autor. Nas tais ‘grandes’ não será assim, suponho que se entra com nome reconhecido, via recomendação conhecida e reconhecida, e talvez até se faça um estudo económico ao negócio proposto. Um de impacto ambiental não será importante, fãs que serão dum darwinismo aplicável à literatura: a sobrevivência dos mais aptos, e o resto são danos colaterais do progresso.

Existe outra flora editorial, e hoje crescem como fungos em bosque molhado, até nas redes sociais: as editoras faça-você-mesmo-e-eu-não-conto-a-ninguém. Não que sejam importantes para o assunto que me delonga, pois com eles não há sobras: o Autor que fique com elas, aliás que fique com todos pois pagou à cabeça a edição chancelada do seu sonho literário, o seu “primeiro livro”, e que findo o périplo do saquinho de plástico com meia dúzia aqui meia dúzia ali (à consignação), hibernarão na despensa caseira e dela emergem em milagre festeiro por natais e aniversários por muitos e muitos anos, até toda a família, amigos, vizinhos, ter um exemplar – só autografado ou de dedicatória supimpa, «para você escrevo mais tarde, tem de ser especial!» -, até reconhecer com a patine da luz dos tempos, e o pó acamado, «afinal também eu tenho sobras». É rara a que tem contrato com uma distribuidora, o que ‘mata’ logo o livro pois sujeita-o ao raio de alcance e ao desenrascanço do autor e único proprietário, e se calhou numa em que não haverá noites de encantamento com prosas mágicas só a bonita chancela e o aperto de mão no lançamento divergem da encomenda do serviço directa à tipografia, a “edição de autor”, dado que o importante foi tratado no escritório e em volta duma secretária: o livro é para ser lido é pelos leitores-compradores. Business é business e mai nada!..., toma lá o teu livrinho e baba-te mas desenrasca-te, e parabéns. Terrível. Até porque na mercearia do bairro não será fácil expô-lo(s), e lá se vai mais um sonho. Um processo que pode ser castrante para a aventura dum 2º, e tanta vez o tal assassinado à nascença é de facto um bom livro.


Então o que é que acontece às tais sobras milionárias? As de armazém rico? Alguns regressam às livrarias com chamariz de preço imbatível. Pague 1 e leve 2, pague 2 e leve 3, só € 4,90, só € 9,90, e por aí afora. É a sua última oportunidade. O armazenamento tem custos e, argumento imbatível de insensível, «somos uma empresa que quer continuar viável economicamente, não somos propriamente a Biblioteca Nacional ou a Torre do Tombo», etc., pelo que, como se soube há coisa dum ano atrás e não houve quem não sentisse um arrepio, vão em pilhas para a guilhotina, onde as palavras únicas desenhadas com a magia das palavras, os pensamentos loucos ou os loucamente profundos, os poemas (a poesia!), tudo, tudo, é trinchado até que das tais noites insones reste massa de papel, parte da nossa herança intelectual assim reciclada, que com tratamentos devidamente estudados levará a novos sonhadores de garbos de escritores folhas alvíssimas, onde não imaginarão os sepulcros qu’elas albergam, sonhos gémeos que “o mercado” rejeitou. É duro. É mesmo duro. Quando a hiper LeYa o fez e se soube, a indignação foi geral. Barulheira! Até a um colunista de nome e acrónimo famosos li chamar-lhes de filho-de-puta para baixo, para cima e para os lados!

A bronca foi tal que o Estado – há uma Secretaria de Estado da Cultura: assomou – fez perguntas públicas, também ele corado. «Porque não os oferecem? escolas, bibliotecas…», até se lembraram do gesto bonito dos nossos irmãos dos PALOP’s, e ouviu-se, melancólico, o refrão Ai Timor, Timor!... Debalde. Porquê? As ofertas naquele estádio da linha de produção liquidam imposto. I.V.A., Imposto de Valor Acrescentado (não entendo, mas depois do choque desta revelação os tais que entendem disseram que sim, é assim.) O Estado engoliu em seco e ruborizou-se fortemente, pensou no refrão «eu tenho dois amores», e criou uma comissão de trabalho para estudar o assunto e dar-lhe solução antes de nova execução capital, mas aqui eu já me perdi e, para mim, quando entrei na livraria onde entro há quase quatro décadas, e dei com as mesas pejadas de rimas iguais e os cartazes a chamarem-nos, eu vi patíbulos, eu vi tudo. E lembrava-me da minha carteira depenada. Os dedos estavam cheios de formigueiro e os olhos receosos dos títulos e dos nomes que iria encontrar. Vi-os, alguns. Temi por todos que não conheço, «sabe-se lá…», e com muito poucos usei a defesa (i)moral «a ter que ser, olha…». Não. É duro, é muito duro.

Salvei um. Após a primeira selecção visual de rejeições, às mãos tinha três e chorava por mais dois. Na carteira tinha duas notas, e fumo e tomo cafés. A senhora da livraria entendeu-me e quando lhe perguntei «até quando?...» o seu olhar tinha um tom triste (ela Riba, também?) mas tentou ser animadora, «até ao fim do mês, sr. Carlos, temos tempo…» Trouxe um e fiz a promessa de voltar. Tentar voltar (conseguirei). Resgatar mais um, dois, três, até porque quero-os, preciso deles. Toquei-os, sabem?

Entendam.

O livro para a Carla? Já não existia em lado nenhum. Ali, nos alis que nos são acessíveis no imediato. Daqui a um ano, talvez, ele regresse na rodinha pré-final. Talvez seja resgatado, ‘salvo’ mesmo que não seja para nenhum trabalho académico. Ele merece ser salvo. Eles, todos os que for possível.

Jornalismo maiúsculo

a profissão de repórter de guerra é das mais nobres - há o risco. mas tem reverso.

acompanhar a evolução da crise líbia através de PAULO MOURA (jornal Público) é um momento de privilégio. além da informação, há momentos em que é... literatura. sim, uma redacção que ultrapassa a pena jornalística e sublinha mais alto: literatura.

desconheço que prémios existem para jornalismo. mas dêem-lhe um, e dos grandes!

humpf!


é pá, tanto também não! o James Bond não! :-(
chiça, já não há "referências"... :-( não tarda e chamam Lulu ao Zezé Camarinha num anúncio qualquer! humpf...

?




acham que concorra com as panquecas ou com a sopa de cebola?

receita de panquecas





(receita para 8 panquecas)

200 gr de farinha, 1 colher sopa de fermento, 3 de açúcar e 3 de óleo. 1 ovo, branco e amarelo tudo junto. vai-se amassando numa tijela. mais ou menos quando o empastelado tá muita doido vai-se regando e mexendo com 200 ml de leite. irá ficar primeiro como um vomitado (é sim!) mas depois adensa-se e continua a mexer-se (sempre pró mesmo lado, sei lá porquê). quando fizer buracos tá pronto (sei lá porquê).
unta-se a frigideira com óleo (só untar). amanda-se para lá com uma medida da massa, tipo colher grande da panela da sopa. vai-se cuscando os lados da coisa. quando já dá para levantar, vira-se (nos filmes atira-se ao ar, mas não tentem: dá merda e as panquecas são para nós comermos). esta cena faz-se com aquela coisa grande tipo dos ovos estrelados mas que não é redonda e os buracos são ao comprido em vez de furinhos. virada está, espeta-se com a coisa em cima para fazer pressão e amolgar a panqueca bem contra a frigideira. ao fim dum bocadinho tira-se, e repete-se até acabar a massa. já está
rechear com mel, chocolate daquele em frasco de barrar o pão, ou doces variados. morango ou laranjas amargas é fixe.
para a canecada de café: pôr a água a ferver mais ou menos quando se começa a preparar a 1ª panqueca. dá tempo. no sugar, forever

terça-feira, 8 de março de 2011

a Claudina, de Hellmeirim


a "Ti Claudina" é um dos cromos históricos de Almeirim.
embora longe vá o tempo em que o seu café era ponto de encontro (abre lá p'las 4 e picos da matina) de malta de saída de discotecas, caçadores e pescadores ainda ramelosos e à procura do primeiro café que os animasse às sagas em partida, camionistas ensonados, bêbados, junkies e até putas que perderam mais uma boleia na noite-vida, mesmo assim, se a fauna minguou por imperativos de tráfegos e declínio de modas, ela, a resistente, lá continua a servir e a servir-se, que sandes como as dela ainda não há e muito cuidado com os trocos, pois pode não saber ler uma letra do tamanho dum comboio mas no dia em que o infeliz €uro entrou em circulação fez a receita da vida, não acertou um único troco e em nenhum a casa ficou a perder.
ora ouçam-na a poemar... ;-)

mulher-musa ;-)

foi "dia da mulher". um entre todos, que o são, mas enfim...

a minha homenagem: recupero a minha ode a vocês, musas, mulheres-musas. sem vocês não tinha escrito a ponta dum corno, acreditem-me! ;-)




"ode às musas"


todo o sarau falaste de poesia

mas o que me recorda é a erecção,

a estrofe dos lábios secos,

muito provavelmente tesão



do dedilhar do poema mordido,

os sussurros, essa coisa fodida

de toda a noite murmurar poemas e poesia

e o único que recordo ser assim,

ouvindo os teus lábios em poética erecção.

os Floyd foram às tintas


crescemos com eles e ficaram 'incontornáveis'. ainda bem.
mas depois dá-se com um clip onde a música e as letras casam com imagens do mais belo, e... fica-se novamente agarrado, presos a memórias e a fabulações!...
ainda bem. ainda bem mesmo!

escultura cinética




esculturas cinéticas de Theo Jansen. fabuloso!... eu gostava de ser assim criativo!


(recebido por mail. thanks, Laura!)

"Mulher", contada por uma


encontrei e Gostei tanto que ponho aqui :-)
manual de conselhos, poética de medos, grito por compreensão? de tudo encontrei.
a não esquecer



"Mulher"


Chama-lhe lábios,

Contorno de boca,

Cobiça-a!



Percorre-lhe todos os espaços

Esbanjando paixão

Massajando-lhe a pele!

Faz do curso dos teus olhos

A ante câmara do desejo,

Deixando-a expectante.

Acaricia-lhe a vontade,

Que a vais ter sequiosa,

Faminta de te respirar!



Quando a deslumbrares

Vais saber como ela se despe de pudores

Cobrindo-se de arrebatamento.

Quando por fim a possuíres,

Então, sim,

Semicerra os olhos

E…

Deixa – te levar pela surpresa!

Vais conhecer dela um novo sabor

Ao escalar, graciosa, a falésia do teu peito.

Vais sentir-lhe o bafejo esbelto da voz

Quando segredar ao ouvido das tuas mãos:



"Eu quero-te!

Esconde-te em qualquer lugar de mim,

Que eu tenho a certeza que te encontro!

Transforma-te no levante do anseio,

Que eu entregar-me-ei a ti

Num doce mergulhar,

Despertando um oceano de sensações

Na praia pintada a tinta de sonho…"



Não a deixes acabar,

Delicia-a!

E enquanto ela em ti se abandona

Cobre-a com as palavras que lhe roubaste.

Chama-lhe lábios,

Chama-lhe boca,

Chama-lhe mulher,

E vê nascer-lhe dos seios, manhãs

Pejadas dos beijos orvalhados,

Habitados nelas por ti, tão loucamente!



Cristina Miranda

Bernard-Henri Levy escreve sobre a revolta na Líbia



gostei de: Je compte bien 30 postes de police brûlés, façades noires de suie, odeur de cendre froide, décombres. Mais le plus surprenant c’est qu’à gauche, à droite, aucun autre bâtiment n’a été ni touché ni pillé. Une révolution sans vandalisme. Une révolution sans esprit de revanche, e claro que "Miracle d’un peuple qui n’a, tout à coup, plus peur" me perturbou.

porque descreio sem que a zona de exclusão aérea seja criada. há uma semana que isso se discute, e nos últimos dias o regime usa é a força aérea. inatingível (ou quase) mas que alcança facilmente qualquer 'cidade libertada', mesmo que nos confins do deserto. um "prazo fatal" que foi dado a Khadaffi para «resolve ou sai(s)»?

na imagem um dos dois caças líbios que aquando o início da revolta se 'exilaram' em Malta, recusando-se a bombardear civis. embora até outro já tenha sido abatido (pelo menos um), longe vai o tempo, portanto...