sexta-feira, 31 de agosto de 2012

alternativa


ó sr. Toutatis! se não me quer dar um Morgan, seja um De Clercq! também me fica bem... ;-)

sons do Tempo






Eu



medos. enformam-me medos
e tanto que finjo quando os olho e lhes digo: ó sonhos! ó maravilhas!…

medo? medo até de fugir.
como num filme ou num romance se foge
num azul, numa nuvem, em duas linhas
acreditando que tudo cabe num peito
(os medos cabem na mão).

e minto. e sonho. e busco a coragem que me culpa
num peito-feito de mentiras.
sorrisos escritos. falas doces. horizontes de luxo.
em rodapé: nuvens ínvias.

e sem medo.
são os meus sonhos, braçadas no meu mar.
aleluias nos meus dias.
a mágica antes da noite.

eu nunca sonho. isto é:
eu nunca sonho quando adormeço.
dizem que não nos lembramos dos sonhos que temos quando adormecidos
mas que sonhamos sempre. sempre.
o sono e o sonho dão as mãos, dizem,
são bons amigos e nunca se esquecem um do outro.

eu? eu nunca sonho.
eu lembrar-me-ia se os tivesse.
tenho tantos acordado!
e, acaso os tivesse, adormecido, porque é que não me lembraria?
porquê gritaria? porquê me revoltaria?

(eu disse: os meus sonhos são o medo.
um disfarce, uma roupa que visto,
agasalho, pintura,
um duplo que não existe)

: durante a noite, vão de vida,
- que dizem onírica, riquíssima, mas dela não me lembro de nada,
eu tremo.
choro.
até grito.
o meu corpo tem convulsões. grita.
acho que também chora
mas quando a manhã me acorda
bem procuro nos lençóis (mas nunca encontro)
marcas dos sonhos ou das lágrimas, um qualquer sémen de dor:
os gritos nocturnos não ecoam quando o dia nasce.

sonhos? bah…

eu não sonho: grito.
não sorrio: tremo, tremelico.

e durmo. dormito no medo de acordar.

depois? volta tudo. tudo.
o medo abriga-se, mau diurno, e reinicio-me no fantasiar.

a sonhar.
vidas.
sorrisos.
nuvens sem medos e gritos
e tão, tão bonito, cuidado, credível
como não acreditar?
«amanhã! amanhã é que é!...»

e acaba-se o chorar.
o tremer.
o longo dormitar.

os dias assim são longos.
maiores que as noites (delas nada recordo).
gritos, choros, tremores,
sei-os em segunda mão. eu?
eu durmo.
eu durmo.
e da noite nada sei ou quero saber
(eu durmo, eu durmo,
e tenho um truque para quando acordar.)

e, se me apetece chorar
se desperto
se acordo
se
lavo a cara e minto,
e
e
e

eu disse: enformam-me medos.

medos.
por isso aldrabo sonhos, minto, faço versos
e esmero-me a fantasiar.

sábado, 25 de agosto de 2012

"O cano de uma pistola pelo cu"



"Se percebemos bem - e não é fácil, porque somos um bocado tontos -, a economia financeira é a economia real do senhor feudal sobre o servo, do amo sobre o escravo, da metrópole sobre a colónia, do capitalista manchesteriano sobre o trabalhador explorado. A economia financeira é o inimigo da classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de criança num bordel asiático.

Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer.

Se o preço baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que estejas - e não há nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.

Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta compra geralmente é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspetiva do terrorista financeiro, não é mais do que um jogo de tabuleiro no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.

A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o caráter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país - este, por acaso -, e diz "compro" ou "vendo" com a impunidade com que se joga Monopólio e se compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.

Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno dos milhares ou milhões de pessoas que antes de irem trabalhar deixaram na creche pública - onde estas ainda existem - os filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas sobreprotegidos, desde logo, por essa coisa a que chamamos Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres estão a ser desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres.

E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, são-no num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro.

Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem creche ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos simples mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.

A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com ruturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas ações terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.

A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A atividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.

Aqui se modifica o preço das nossas vidas todos os dias sem que ninguém resolva o problema, ou mais, enviando as autoridades para cima de quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as autoridades empenham-se a fundo para proteger esse filho da puta que te vendeu, recorrendo a um esquema legalmente permitido, um produto financeiro, ou seja, um objeto irreal no qual tu investiste, na melhor das hipóteses, toda a poupança real da tua vida. Vendeu fumaça, o grande porco, apoiado pelas leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.

Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e faturar a 30, 60 ou 90 dias.

Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passo a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do sequestrado.

Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos."

Juan José Millás


sacado aqui .

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

um bom Agosto


lidos:

Longe do abrigo, David Lodge
Retorno, Dulce Maria Cardoso
Felicidade, Will Ferguson
Estrada fora, Francisco Sande e Castro
As intermitências da morte, José Saramago
Três contos da Internet, Luís Bárbara
A confissão da leoa, Mia Couto
A ameaça, Ken Follett
A profecia de neandertal, John Darnton
O teu rosto será o último, João Ricardo Pedro
A instrumentalina, Lídia Jorge

adenda do dia seguinte: ...e Julho, porra. nem eu acredito que este mês já li 11 livros, embora haja ali uns pequenitos. (mas) inicio hoje "O prisioneiro do céu", Carlos Ruiz Zafón - a livraria de Sempere & Hijos é um filão! - que, 'agarre-me', não resiste a este fim-de-semana.

aforismos do Sir Charles B. Walters



«sem tristeza não há alegria»

Sir Charles Brenton Walters (1855-1912)

terça-feira, 21 de agosto de 2012

paráfrase (sem citação): a banalidade do talento

crescer, é admirar uma obra e ter um choque ao conhecer o autor. a petulância. obscena. horrorosa. banal. e cresce-se, constatando-o, e seguidamente aceitando-o como uma surpresa natural.

dá direito a um novo olhar quando olhamos a estante, as lombadas que amamos? a desconfiança instala-se? acho que não. um paradoxo aceitavelmente conveniente será dizer, repetir como um mantra, que obra e autor não são vasos comunicantes além da concreta criação literária.

já foi minha auto-flagelação. (petulantemente, atrás escrevi cilícios de mim, pessoais. mortificação? penitência? chega.) acho que já não o é. não sou o horror de mim mesmo, e desconfio da lisura de para quem o seja (haverá?). dito. e aproveito e digo, reafirmo-o, outro mantra, que prefiro a fase hedonista de leitor criativo, silenciosa e riquíssima em honestas e desonestas paráfrases, ao quixotismo romântico dum legado literário a filhos e a netos, criado e mantido pela mentira dum umbigismo desproporcionado, parvo e falsamente envergonhado.

não há 'grandes escritores' de A a Z, autor e criação confundidos e iconizados. felizmente. lemos (e lemo-nos) e sabemos-lo. há a banalidade do talento. obras sublimes a redimirem a fealdade humana. felizmente.

equidade


argumentação impecável.


quarta-feira, 15 de agosto de 2012

a harmonia em azul escuro, corte clássico

descobri ontem que uso de calças o 42. como calço o 43 e não sou pézudo, concluo, encantado, que menos ainda serei um barrigudo.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

"O retorno" - Dulce Maria Cardoso

só esta tarde o iniciei e só vou na página 75. precocidades que não me travam de dizer-vos que o recomendo, muito, muito. é da 'Tinta da China', edição deste ano.

ps: está 'em saldos', no Continente...

domingo, 12 de agosto de 2012

"Farewell"


Desde el fondo de ti, y arrodillado,
un niño triste como yo, nos mira.

Por esa vida que arderá en sus venas
tendrían que amarrarse nuestras vidas.

Por esas manos, hijas de tus manos,
tendrían que matar las manos mías.

Por sus ojos abiertos en la tierra
veré en los tuyos lágrimas un día.

Yo no lo quiero, Amada.

Para que nada nos amarre
que no nos una nada.

Ni la palabra que aromó tu boca,
ni lo que no dijeron tus palabras.

Ni la fiesta de amor que no tuvimos,
ni tus sollozos junto a la ventana.

Amo el amor de los marineros
que besan y se van.

Dejan una promesa.
No vuelven nunca más.

En cada puerto una mujer espera:
los marineros besan y se van.

(Una noche se acuestan con la muerte
en el lecho del mar.)

Amo el amor que se reparte
en besos, lecho y pan.

Amor que puede ser eterno
y puede ser fugaz.

Amor que quiere libertarse
para volver a amar.

Amor divinizado que se acerca
Amor divinizado que se va.

Ya no se encantarán mis ojos en tus ojos,
ya no se endulzará junto a ti mi dolor.

Pero hacia donde vaya llevaré tu mirada
y hacia donde camines llevarás mi dolor.

Fui tuyo, fuiste mía. ¿Qué más? Juntos hicimos
un recodo en la ruta donde el amor pasó.

Fui tuyo, fuiste mía. Tú serás del que te ame,
del que corte en tu huerto lo que he sembrado yo.

Yo me voy. Estoy triste: pero siempre estoy triste.
Vengo desde tus brazos. No sé hacia dónde voy.

...Desde tu corazón me dice adiós un niño.
Y yo le digo adiós.

Pablo Neruda



60.Desditas

Gabriela será colocada no consulado em Lisboa e Neruda parte para Madrid a 3 de Fevereiro de 1935. É ali recebido por um escritor chileno, homem de grande pureza, Luis Enrique Délamo, que tinha feito boas relações com Gabriela Mistral. Foi um alegre reencontro. Pablo estava feliz com os seus amigos, era infeliz no casamento e ainda mais desgraçada seria Maruca. As desavenças nem sempre implicam um corte total nas relações conjugais. Pouco antes deu-se um acontecimento que augurava boa sorte e por ele esperou durante anos. Desmentirá o seu tão recitado poema "Farewell": "Do fundo de ti, e ajoelhado,/ um menino triste como eu está a olhar-nos./ Por essa vida que arderá nas suas veias/ teriam que amarrar-se as nossas vidas.../ Eu não quero, Amada./ Para que nada nos prenda/ não queremos nada...".
Mas agora a situação é inversa. Certamente a sua mulher não é já a amada. No entanto, ele quer um filho e este nasce a 18 de Agosto de 1934. É uma menina. Anuncia a toda a gente satisfeito e eufórico o acontecimento. Imprime cartões que manda para os três continentes a dar a notícia e a comunicar que se chamará Malva Marina, porque juntará a flora preciosa ao signo oceânico de seu pai.
.
'Neruda', Volodia Teitelboim, Campo das Letras, 2004. págs. 190 e 191

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

malditos saldos!


por 5 €uros compram-se livros que só em catatonismo de leitor cá entram. valha o programa mensal de feira de 'troca de mônos', da Biblioteca Municipal Marquesa da Alorna

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

terça-feira, 7 de agosto de 2012

o Relvas em Marte!

quando as piadas sobre a corrida de 60 metros do Relvas pelas universidades pareciam estar esgotadas (felizmente! já cheiravam tão mal como o seu motus) eis que o Bartoon do Público de hoje ainda nos saca um sorriso. dos grandes!

(clicar, para aumentar a imagem)