segunda-feira, 29 de outubro de 2012

"Medo"

Quererei tudo
depois da morte.

Até lá,
quero apenas ressuscitar.
Em cada dia,
ressurgir dos mortíferos desfechos.

Lá vem o poeta, dizem.
E abrem alas, receosos.

Não me importa:
de vivo não quero memória.

Medo tenho
é de ser enterrado sem história.


Mia Couto, "idades cidades divindades" (Caminho, 2007)

domingo, 28 de outubro de 2012

as letras do inferno





nem sempre um poema diz aquilo que a gente sente.
por vezes hesita, e às vezes até mente.
mas mesmo quando mente, sente-se aquilo que nos hesita
e por isso… ele tropeça e soluça, mente.

é a poesia e não o hesitante agrafo - a mão do irresoluto -
que vos mente.

o peso específico


" - Ora, por exemplo, as pessoas sardentas não são consideradas uma minoria pelas que não são sardentas. Não são uma minoria no sentido que estamos a dar ao termo. E porque não o são? Porque uma minoria só é considerada como tal quando constitui qualquer espécie de ameaça real ou imaginária para a maioria. E nenhuma ameaça é totalmente imaginária. Alguém discorda disto? se discordam, façam a seguinte pergunta a vós próprios: o que faria esta minoria se de repente se tornasse maioria, de um dia para o outro? (...)

"(...) A seguir vêm os liberais... (...) E dizem: «As minorias são feitas de pessoas, como nós.» Claro, as minorias são feitas de pessoas; de pessoas, não de anjos. Claro que elas são como nós... Mas não exactamente como nós (...)"

" - Portanto, vamos encará-lo, as minorias são constituídas por pessoas que provavelmente agem, pensam e têm um aspecto diferente do nosso e têm defeitos que nós não temos. Podemos não gostar do modo como se apresentam e se comportam, podemos mesmo odiar as suas faltas. É preferível admitirmos que não gostamos delas e que as odiamos do que tentarmos estragar os nossos sentimentos com sentimentalismos pseudoliberais. Se formos francos em relação aos nossos sentimentos, temos uma válvula de segurança; e se tivermos uma válvula de segurança, é menos provável que comecemos a perseguir... (...)

"(...) Agora suponham que esta minoria é perseguida, não interessa por que motivos: políticos, económicos, psicológicos... Há sempre uma razão, por mais errada que ela seja, e esse é o meu ponto de vista. E é claro que a perseguição está em si mesma errada, sempre. (...) Mas o pior é que nos precipitamos para outra heresia liberal. Porque a maioria perseguidora é vil, (...) por isso a minoria perseguida tem de ser imaculada. (...) O que impede os maus de serem perseguidos por outros piores do que eles? Será que todas as vítimas cristãs na arena tinham de ser santas?

"(...) Uma minoria tem a sua forma própria de agressão. Desafia a maioria a atacá-la. Odeia a maioria (...). Odeia até as outras minorias, porque todas as minorias estão em competição; cada uma proclama que os seus sofrimentos são os piores e que os seus males são os mais negros. E quanto mais odeiam mais perseguidos são, mais odiosos se tornam! Acham que sermos amados nos torna odiosos? (...) Então por que motivo o facto de sermos odiados havia de tornar-nos simpáticos? Enquanto estamos a ser perseguidos, odiamos as pessoas que contribuem para isso, vivemos num universo de ódio. Nem reconheceríamos o amor se deparássemos com ele. Desconfiaríamos dele! Pensaríamos que havia alguma coisa por trás... Algum motivo... Alguma armadilha..."


solilóquio de George Falconer in "Um homem singular", de Christopher Isherwood (Quetzal, 2011)

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Folhas húmidas




ontem pensei em fazer um poema
comunicando-vos que o Outono chegou.
mas desisti. nada funcionou.

não me revi nas folhas amarelecidas
nem no vento lento que as fazia vivas.
mas hoje choveu de ira
e a água, tão excessiva, levou-as

então comunico-vos: este Verão terminou

mas não me revejo nesta calçada
nada, nem uma só palavra aproxima as folhas.
nada, nada de nada além da raiva e uma acácia triste,
é o que sobra.

um bom Outubro

A ultima concubina, Lesley Downer
Guerra Civil de Espanha, Antony Beevor
O sol dos Scorta, Laurent Gaudé
A cartilha dos amantes, compilado por Julieta Renée
O clã dos Peter Pans, Rosa Peña (suspenso, pois 'eu' estava a levar porrada a mais folha sim folha sim, e a maioria era injusta)
A Rússia sem memória, Maria Ferreti; Dina Khapaeva
O mar, John Banville
A estética do fascismo, George L. Mosse; Emily Braun; Ruth Ben-Ghiat
Desde o Canal de Moçambique (2011-2012), José Pimentel Teixeira (jpt) - em PDF
Não há dia fácil, Mark Owen - em PDF
A poesia das palavras, v. a. (abandonado por isso mesmo)
O Inverno do Mundo, Ken Follett

iniciei ontem 'Um homem singular', de Chistopher Isherwood, e 'Siddhartha', de Hermann Hesse

sábado, 20 de outubro de 2012


Não posso adiar o amor para outro século

não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.

António Ramos Rosa, in "Viagem através duma nebulosa" (1960), e "Antologia Poética" (D.Quixote, 2001)



mas, poeta, quem não adia? não guarda o calor da esperança numa chama imensa, avassaladora, total, na concha duma mão que ora se crispa e cerra, ora se abre tacteante, os dedos ansiosos por serem tocados e vivificarem o tal fogo mágico? quem, poeta? quem não adia o momento que acredita valer uma vida, no renovar contínuo de ilusões? da ilusão, a maior, e - concordarás, tu, poeta - a mais bela: o Amor. oh, poeta, poeta... mascaramos esses adiamentos de decisões ou mesmo de arrebatamentos. esses sim são as ilusões. as fantasias, os placebos ao duro dia-a-dia. são os adiamentos. o Amor virá. vivemos para esse momento e os séculos não têm nada a ver com isso. o tempo não conta, sabes... quando sonhas, quando te escreves em poema, há relógio sombra ou sol que te marque o tempo? um tempo que só é válido para acreditar na tal aurora que nos renascerá? que nos salvará. não mintas, poeta. todos adiamos. mesmo quando mentimos: sabes que mentimos, não sabes? quando, no desespero das mãos frias, dos dedos torpes por ausências que os iluminem, acreditamos em mentiras que não precisam de séculos para nos serem devolvidas, esbofeteando-nos. (e dói. dói tanto.) quando os medos nos mentem e nos tornam falsos clarividentes adictos a compromissos, acreditando que o tal grito sufocar-se-á e o peso nas costas desaparecerá se sacrificarmos a liberdade de se ser pertença ao engano da conciliação, dos conscienciosos e frios cálculos acerca dum amanhã que ainda não nasceu pois vive-se é hoje, os dedos estendem-se no vazio é hoje, é hoje, e não há bafos de seguranças que os aqueçam entre sol e lua, toquem-nos como eles anseiam e merecem ser tocados: a poesia do amor. o amor, poeta. o amor. e, de bom grado, adiamos o presente quando se acredita no futuro. sempre é sempre, sabias? sabes sim: és poeta e a eternidade é a caligrafia do teu tempo. adeus, poeta, não te incomodo mais. eu adio-me na poesia. por exemplo na tua. eu adiei-me e detesto a minha (detesto-me), só sei gostar de poesia alheia enquanto o tempo não chega, não vem, e moro no frio desta linha seca que me cruza a palma da mão, a tal que (te) espera.

o grito revolucionário é: viva o luxo!



texto interessante.

em suma, como há uma ligação psicológica entre o hiper-cromatismo espaventoso das caudas dos pavões e o abonecamento sedutor da metade mais bonita da Humanidade, ou, vá lá, o desejo tardo-adolescente pela exibição dum Porsche pelos pilas, os machos. ou ainda - para quem preferir extractos de análises mais convencionais que as metáforas que acima verti - como um boom na venda de artigos de luxo não nos deve chocar nestes tempos de crise mas, pelo contrário, olhá-lo como sinais de esperança no recuperar duma economia débil: compra-os quem quer imaginar-se mais competitivo, e esse mui pouco seráfico "estado de alma" conduz a uma osmose investidora.

vou ali partir o porquinho e já volto.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

plural



sou eu o único a achá-lo, ou no anúncio da Land-Rover que passa actualmente nas televisões há um irritante erro de português? diz-se - como lá - «tal pai, tal filhos», ou «tal pai, tais filhos»?

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Quando



Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.


Sophia

a descida aos infernos*



Europa, da opulência à miséria em menos dum fósforo. sim, não duvido que cá ou na Grécia, em todos estes subúrbios do antes, a maioria ainda está atordoada sem perceber como tudo isto aconteceu. nos aconteceu.

chocou-me mais esta notícia que ouvir este final de tarde o nosso ministro Gaspar. verdade... isto é miséria escrito e traduzido em qualquer língua. bem sei que há relação causa/efeito entre um garrote fiscal e social e este estado de coisas, e que uma das pontas da corda pode ter sido a exposição orçamental que o ministro nos fez. mas era 'paulada' para que nos fomos preparando ao longo destes últimos tempos, principalmente esta última semana. mas isto... 

inicialmente, antes de vir aqui e escrever isto, só li o título e o resumo visível; senti um misto de medo e repugnância em mergulhar mais no que isto implica. depois tive de ir catar o link para a notícia, e... pouco mais adianta (e precisa?): as notícias sobre o horror virão 'dentro de momentos'...


* a expressão, espontânea perante a brutalidade da notícia, não é minha. li-a onde li a notícia. mas serve, serve sim... :-(

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

a laranja das bad trips



quando éramos tão putos que tudo o que fazíamos brilhava a pontos de acreditarmos que nós próprios éramos fonte duma luz mágica e secreta, iniciadores de algo que desvendávamos em gestos irreverentes, os mitos eram aprendidos e alimentados com a naturalidade de quem crê na possibilidade de todos os impossíveis, num desfazer contínuo de rótulos, atitude que em si mesma se rotulava como outro mito e sem que isso nos ralasse: viver! viver uma vida nova, um homem novo, uma forma diferente de viver em ruptura mas recheada de conceitos quiçá ingénuos mas cândidos de lindos, como amizade, amor, paz, harmonia com a natureza e todas as suas formas de existir. os hippies. a contracultura. o Éden como possível. e assim crescemos marcados por essa matriz, esses carimbos que nos foram apostos na idade e no tempo próprios. hoje somos filhos de nós mesmos, produto enrugado deste processo geracional. somos lindos.

recordo muitas vezes esse meu tempo. esse nosso tempo. reconheço os mitos mas sorrio-lhes com indulgência em causa própria mas com o respeito devido a algo que a olhos alheios é visto como meros excessos adolescentes mas, vivendo-o, testemunha de mim próprio, sei serem mais que isso. terem sido mais que corridas de quarteirão, lábia filosófica, uma bebedeira geracional. foi mais. na nossa Wikipédia íntima sabemos que esta entrada conduz a uma descrição mais densa que um rodapé na vida, é a matriz do "sermos" hoje. o privilégio de termos vivido uma época especial - e num local tão especial como foram as nossas ruas, horizontes de que a memória nunca abdica - é algo de que nos orgulhamos mesmo que não se alarde quando o Outono nos mente tentando envelhecer-nos, que nem de velinhas precisa para brilhar: os putos de hoje, os nossos filhos, quando nos ouvem olham-nos como mitos vivos bem além do culto do amor àqueles que foram os seus sábios e cajados desde que por cá andam. 

vem-me à cabeça um dos mitos - e chamo-lhe assim porque nunca o testei: a laranja. a laranja, dizeis, amigos? a laranja, sim. o preventivo para se ocorresse uma bad trip. lembram-se, freaks? dizia-se que chupando uma laranja a trip pararia, era remédio santo. tive bad trips, sim, e talvez quando me municiava para uma trip com as pequenas coisinhas que achava que seriam úteis na viagem, desde o celofane do maço de tabaco cheio de cabeças já antes provadas e sabidas como 'boas', a objectos já por si interessantes mas que se imaginava ganharem potenciais fantásticos quando o nosso estado mental ganhasse as asas do ácido e trepasse por aí acima, tornando tudo que nos rodeava mágico («as coisas, Charlie, as coisas…» explicava-me com um sorriso o bom do Zeca Bife), e talvez, dizia, nalgum desses preparativos tenha juntado à lista uma laranja, não fosse acontecer e... não sei, mas que se dizia que sim, dizia-se.

nestes silêncios chupo a laranja da vida. toco a campainha da minha carruagem para me apear da nuvem onde, sei-o, novamente me perdi. e recordo com um sorriso em como na minha colecção de tesouros tinha uma lupa e um prisma em vidro, que sempre adicionava ao rol dos objectos que escondia na caixa da bateria da mota, quando ia para uma trip. porém não tinha uma bússola embora seja um objecto que sempre me fascinou e desejei, tanto que há poucos anos atrás, já nestes cinquentas tanto bonacheirões como rezingões, uma bússola foi a prenda mais querida que mulher e filha me deram num aniversário. e sorrio tanto, ao pensá-lo... um salto, agora: a bússola está na gaveta da mesa de cabeceira. a laranja, aqui à minha frente, sempre, constante. a bad trip vence-me mas luto, ó se luto. eu sei que viajei em nuvens, e quem disso provou não o esquece, não desiste. e chupo a laranja, embora não abdique da máxima:  há algo que não mudou e desejo que nunca se modifique: o refúgio dos sonhos.

com menos imagens: muito menos: vivo uma idade complicada. eu, que já sou complicadinho da silva (sempre assim fui). abdico de cavalgar as nuvens mas é impossível esquecê-las. escondo-me no silêncio dos sonhos. mentindo-me, acreditando em tudo. em tudo, neste tudo tão total e irreal onde tudo se realiza perfeito e, magno exemplo, ninguém sofre e a felicidade campeia. freak forever. mas, precavido, com a puta da laranja no bolso. merda.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

há 142 anos atrás



«Pegai no mais radical dos revolucionários, colocai-o no trono de todas as Rússias e dai-lhe o poder ditatorial: dentro de um ano, ter-se-á tornado pior que o próprio czar»

Mikhail Bakunine

Sir Charles B. Walters, e a metafísica vs racionalidade

«A ficção literária é semelhante à Fé: ou se acredita que o autor escreveu acerca de nós, ou não - e, destes, raramente perduram na memória. Eu tenho atrás de mim livros com páginas onde me senti profundamente religioso. A penitência pela assumpção dessa 'culpa' assumo-a na leitura dos jornais, onde nada me distrai da convicção de que sou um estrangeiro onde quer que me encontre.»

Sir Charles B. Walters. filósofo inglês prematuramente falecido (1855-1912)

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

lolada!


segundo dados dum inquérito que o Expresso tem divulgado aos bochechos na sua revista Única, 9% dos homens portugueses já tiveram sessões de sexo virtual.

ENA TANTO MENTIROSO!

suas mentirosas!

afinal!...

mas perdoo-vos, pronto: têm sido simpáticas por "uma boa causa" :-)

emigração: um luxo!

o Primeiro-Ministro acabou de dizer, em discurso que as TV's estão a transmitir em directo, numa conferência sobre emigração que se está a realizar no Porto, que ela torna-nos mais cosmopolitas. mais umas coisitas, mas esta ficou a bailar ali no meio e não vai para baixo por nada. já bebi um copo de água

este gajo que contrate alguém com três dedos de testa para lhe escrever os discursos, e rapidamente. mais um assessor menos um assessor vai dar ao mesmo, e este tem a sua necessidade justificadíssima pela recorrência destas bacoradas

domingo, 7 de outubro de 2012

a perenidade da (minha) mente perversa

 
«Naquele tempo, eu andava obsecado pelos deuses. Não me refiro a Deus, o Deus com letra maiúscula, mas aos deuses em geral. Ou com a ideia de divindade, ou seja, a possibilidade da existência de deuses. Era um apaixonado pela leitura e conhecia razoavelmente os mitos gregos, embora fosse difícil seguir a pista dos personagens que os habitam, porque se metamorfoseavam com frequência e as suas aventuras eram múltiplas e variadas. Tinha deles uma imagem necessariamente estilizada - figuras grandes, quase nuas, todos eles músculos, tendões e troncos semelhantes a barris - inspirados nos grandes mestres do Renascimento Italiano, Miguel Ângelo sobretudo, cujas pinturas devo ter visto reproduzidas num livro ou numa revista, eu que andava sempre à cata de corpos nus. Foram sem dúvida as proezas e os feitos eróticos destes seres celestiais que mais exarcebaram as minhas fantasias. A ideia de toda aquela carne tensa e arrepiadamente nua, sem outras roupagens para além das pregas marmóreas de uma túnica ou de uma faixa de gaze colocada de modo fortuito (...), satisfazia a minha imaginação inexperiente [mas] já exarcebada com devaneios e transgressões amorosas (...). Tinha uma noção escassa dos pormenores destas escaramuças que se desenrolavam sob a poalha dourada da Grécia. Imaginava o latejar e o estremecimento de coxas bronzeadas que, ao render-se, deixam a descoberto a carne pálida dos quadris e ouvia os gemidos de êxtase e de doce aflição. Todavia, a mecânica do acto estava para além do meu entendimento.

(...)
 
O amor entre gente crescida. Era estranho imaginá-los, tentar imaginá-los, debatendo-se nos seus leitos olímpicos na escuridão da noite, com as estrelas como únicos espectadores, a arfarem e a abraçarem-se, a trocarem carícias ofegantes, a gritarem de prazer como se estivessem a sofrer. Como justificavam esses feitos nocturnos perante os seus seres diurnos? Porque é que não se envergonhavam? (...) É verdade, eu era assim em rapaz. Ou melhor dizendo, ainda subsiste em mim uma parte desse rapaz que era então. Por outras palavras, um jovem [rude] com uma mente perversa. Como se houvesse outras. Nunca crescemos. Seja como for, eu nunca cresci.»


in "O Mar", John Banville, Edições ASA, 2006


como me entendes, caro! uma cambada, uma cambada! e como me descreves tão bem... ;-)

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Vinicius e Toquinho da viola: que dupla!



...só não deu para ver a botelha de whisky. aqui o video falhou! ;-)

o 5 de Outubro de 2012 em imagens e uma canção lírica

Acto 1:





Acto 2:



Acto 3:

(cantora lírica Ana Maria Pinto)



"Firmeza de Fernando Lopes-Graça"


Sem frases de desânimo,

Nem complicações de alma,

Que o teu corpo agora fale,

Presente e seguro do que vale.

Pedra em que a vida se alicerça,

Argamassa e nervo,

Pega-lhe como um senhor

E nunca como um servo.

Não seja o travor das lágrimas

Capaz de embargar-te a voz;

Que a boca a sorrir não mate

Nos lábios o brado de combate.

Olha que a vida nos acena

Para além da luta.

Canta os sonhos com que esperas,

Que o espelho da vida nos escuta.

 João José Cochofel


                                                               Acto em contínuo:




quinta-feira, 4 de outubro de 2012

«só perdem os que têm»




tirando os amores e umas coisitas de nada quanto a drogas, nunca fui um radical. acho. nos meus dezoitos e subsequentes naveguei em áreas de extrema-esquerda e até comunguei da ideologia maoísta. esta fase foi mais no meu período moçambicano, em que aderi de peito amante e algum pulmão à revolução, crente de que o tal mundo novo e o homem novo estavam ao nosso alcance: de todos, desta vez num todos que abrangia mais do que o meu bairro e os meus amigos, a minha piscina privada de sonhos revolucionários e conspirações imaginárias onde banhava a sempre insatisfeita rebeldia adolescente. depois desiludi-me e zarpei, embora tenha andado décadas com um caroço na garganta quando pensava se tinha agido correcto, ou se, em falas simples, fora cobarde ao refugiar-me numa segunda nacionalidade e pisgara-me às dificuldades que outros que ficaram enfrentaram. hoje penso que essa dúvida imatura já se respondeu e arrumou de vez. porém recordo-me de quase tudo o que vivi. e vi. do processo formativo do enamoramento, da paixão, e daquela sensação que se foi instalando, qual doençazinha que ia piorando dia a dia, em como algo ia tão mal no noivado que o que desejava, dia a dia mais profundamente, era o divórcio. e vim-me embora, vim conhecer a “minha terra” e por cá fiquei. até gosto.

uma das coisas que me vêm à cabeça, quando penso no tal processo cumulativo de amuos e arrufos entre mim e o espírito revolucionário de cariz tão radical como o que se viveu em Moçambique no pós independência, é a insensibilidade latente com que medidas legislativas excessivas eram olhadas pelo fervor revolucionário. restrições parvas. censura ideológica. espartilhos atrás de espartilhos, e eu a pensar nos meus dezoitos e a achar que não era assim que os queria viver. que os merecia viver. o regresso do medo após duas mãos cheias de meses de plena liberdade não me caía bem. e, olhando para o lado, vendo quem conhecia e ouvindo de todos acerca de abusos e de arbitrariedades, não gostava. mais que temer por mim naquele momento, temia pelo que seria a vida daí para a frente sob uma canga assim.  as medidas revolucionárias sucediam-se e em muitas delas não lhes via justiça social ou lógica atendível  sob qual fosse o prisma que s’as olhasse: desmandos legislativos insensatos, quando não, suspeitava, prenhes de ódio racial ou duma xenofobia nacionalista que cheirava a tudo menos ao que sonhara e acreditara se desejar construir-se no novo país. conseguir-se algo puro, novo, uma folha branca para se construir sem erros. dessa fase quase nada deu certo, já é dos livros de História. nos rodapés da memória ficaram as injustiças.

aliço isto a propósito das severas medidas de austeridade com que nos castigam quase mensalmente. em que se vê quem alguma coisa tem – nem que esse ter se refira a ser retribuído com um salário digno –, ser espoliado via taxas e sobretaxas abusivas sobre tudo que mexe e não mexe, em que ser proprietário dum bem relevante, seja um carro ou um imóvel, é vê-lo taxado e sugado como se fôssemos príncipes e não meros usufrutuários de bens de conforto mediano e de necessidade justificável. 

“só perdem os que têm”: esta frase, tantas vezes ouvida nos meios revolucionários à época e local, era falaciosa, demagoga e mal-intencionada. não poucas vezes dita além do fervor revolucionário com ironia maldosa e por pura inveja. soou muito aquando das nacionalizações generalizadas ao património urbano, em que dum momento para o outro aquilo que não poucas vezes levou uma vida a adquirir deixou de ser propriedade de quem labutou arduamente por isso. quando o sonho mais comum, mas tão difícil de almejar, a casinha, um futuro mais confortável para os filhos, se reduzia a cinzas via leis que por muito que viessem justificadas como justas e socialmente necessárias para um futuro melhor e igual para todos, só podiam ser olhadas como actos de pirataria por quem delas se tornou vítima. e eu acrescento: por quem as olhava tentando ser isento. e, se a discussão se estabelecia, lá vinham uns olhos brilhantes de rancor satisfeito exclamar: “só perdem os que têm!”. esta frase também contribuiu para o meu desamor com o que se vivia, pois sentia-a mais ou menos comungada mas, principalmente, “perigosa” de ser contraditada. outra vez? não.

e vem-me tudo isto hoje à memória enquanto leio e ouço, e penso em situações concretas. algumas próximas, outras que facilmente se adivinham, e de todas estas migalhas calcula-se o volume da montanha: quem tem qualquer coisa de seu, quem se achava há meia dúzia de anos atrás com saudáveis expectativas duma vida dignamente encaminhada, confortável porque conquistada, hoje, sente tudo isso ameaçado. sente-se agredido. vilipendidado, até: chamam, encapotadamente ou à descarada, de ‘rico’ quem nunca assim se sentiu e viveu. talvez o tenha sonhado, mas nunca usufruiu do que se supõe serem benesses de tal degrau social. porém o Estado assim o trata, assim o taxa. ganhas razoavelmente? então dá cá mais. tens uma casinha tua (embora o teu Banco sorria ao teu sentimento de posse)? então dá cá mais. o carro? nem que não tenhas dinheiro para lhe pôr gasolina  e já cresçam ervas ao pé dos pneus, dá cá na mesma. e sempre mais, mais, mais. pura rapina social a que só uma minoria escapa pois, felizmente, este é um país onde a classe média já é maioritária. amanhã não sabemos, além de que naturalmente a média será obtida mais abaixo.

“só perde quem tem”: a sangria social como ideologia. o radicalismo ideológico que preside a estes desmandos vem de quadrantes opostos àqueles que noutros tempos conheci e referi, e agora me serviram de mote. mas “eles” são os mesmos. o mesmo olhar. e a mesma insensatez. desta vez não tenho outra nacionalidade na algibeira para me socorrer: fico, não fujo. não tenho refúgio. 
quarenta anos depois estou assim. o mesmo incómodo. a mesma vontade de zarpar. mas, agora, irrealizável.