segunda-feira, 27 de abril de 2009

"Vinte e Quatro", além


(resposta ao desafio da Hipatia, menina malandra que me arranjou este ‘31’, á força situado a ‘24’)

Uma coisa que me irrita é inventar. É que há tanta verdade na ficção, tanto pedaço de nadas para rejuvenescer contando-lhe os pormenores saboreados cor a cor, para quê inventar se a ficção é o jogo da verdade do escritor e do leitor, ambos sorrindo no gozo contado duma inócua bica tomada sob um sol especial, um rabo de vento que alça um vestido e enlouquece as glândulas da imaginação, um cão vadio que monta mil ardis para derrubar um caixote de lixo e – quem sabe? irá consegui-lo, ou não? Toda a ficção é viva enquanto duram as páginas que a viram e lêem. Cresci acreditando nisto, e a seguir contarei do porquê desta asserção.

Provavelmente terei ido trabalhar na manhã. Era um sortudo pois tinha o chamado “horário único” que, se me obrigava a madrugar e a almoçar mais tarde, não me privava de dois lautos pequenos-almoços: o primeiro quando o dia acordava e naqueles balcões madrugadores que o ronco da motorizada descobria na cidade que ajustava o dia, o outro tomado à secretária e a meio da manhã, óptima altura para uma sandes de ovo com mostarda em pão de forma e um sumo ‘Crush’, a que se seguia um charro fumado na varanda do escritório a meias com o Luís, e a que quase sempre se seguia o olhar reprovador do velho leão que fazia vestes simultâneas de chefe de escritório e “pai” tolerante e reprovador, ele, o Afonso Quadros, que na sua vasta ninhada contava com exemplares tal qual nós. E por isso sabia, e por isso na sua censura havia bondade.

Ou não terei ido trabalhar, que acontecia. Já morava “sozinho”, que após a motorizada paga foi o passo largo dado na ficção de crescer aceleradamente. Morávamos, eu e o Luís, numa ‘flat’ do outro lado da rua do trabalho e o bom do Alberto, o contínuo mais velho e mais cúmplice, a carapinha branca já a raiar de sabedoria e paciência, ambas reflectidas na sua gestão matrimonial de duas esposas: uma na cidade e consigo e cuidando dele e seus filhos, outra no campo e cuidando da machamba e dos outros tantos filhos além dele quando, sempre que podia, contraía doenças que só se podiam curar no aconchego feiticeiro da aldeia natal, bem, o bom do Alberto bem tocava à campainha da nossa ‘flat’ quando as luzes do escritório se começavam a acender «Carlos! Luís! tá na hora pá!» que, às vezes, algumas vezes, que isto de nos escrevermos dá prerrogativas e nelas está a caprichosa benevolência, algumas vezes o eco era o resmungo e o regresso aos lençóis ainda mal quentes que a noite fora extensa.

Cumpridas como calhou e se pôde as obrigações e os pequenos-almoços, o dia nasce e, conto-vos, os dias africanos têm além da fama o direito ao gozo. Um passeio avenidado entre áleas de acácias e jacarandás em que o ronron da motorizada fazia os meus olhos tão brilhantes como seriam os do Giacomo Agostini se ele, coitado, soubesse dos cantos e curvas da minha cidade como eu que a percorria de lés a lés descobrindo-lhe sempre novos olhares, o deslizar lento pelas fachadas dos cinemas adivinhando qual das matinés tinha o cartaz mais sedutor, ou a sombra que lhe exigia entre o arvoredo nas zonas solitárias da longa praia da marginal, enquanto eu, seu cavaleiro e Agostini ficcionado, redescobria o agrado da areia quente e as águas tépidas, um charro e um céu imensos, às vezes um livro ou por minha conta e risco apenas sonhar.

Era a tarde, o prazer duma visita a um amigo, e mais um charro, dois, três, tantos que no enigmático Vinte e Quatro terão acontecido ou não. Porque calhava ser-se ferreiro com espeto de pau e, nessas tardes, nesse sol que derretia o alcatrão e em que os peitos inalavam “la joie de vivre” mais depressa que o francês o escreveu, por vezes dava-se conta tarde demais que nem eu, nem nós, nem nos ‘grupos’ que mais avizinhávamos havia reservas suficientes para garantir uma noitada e outra e outra, que já se sabe que além dos charros pequeno-almoçados as tardes eram quentes e as noites intermináveis. Talvez, a 24, tivesse combinado um plano, urdido uma trama, planeado uma incursão aos campos distantes, e digo distantes que a cidade era longa e sempre me considerei seu residente, animal doméstico e só bravio quando, quase sempre com as estrelas olhando-me quais olhos vigilantes, tomava os caminhos secretos que abasteciam os sonhos duma geração, lá e então.

Talvez, é provável que na tarde de ‘24’ qualquer assim tenha acontecido, ou não. É, por vezes nada acontece e a esperança fica-se por uma esplanada, o tal rabo de vento ou os esforços do cão vadio e só isso o olhar regista e a mente agiganta na constante reciclagem do quotidiano, essas ficções de realidades. Talvez tenha suspirado por amor pois ainda hoje o faço, noutro hemisfério e duas revoluções depois: o meu céu é o mesmo e só o seu azul se avivou quando subi ao outro lado do mundo. Já as areias escasseiam e são menos calorosas, já a motorizada só ronca quando me sento e olho saudades.

---/---

No dia seguinte soube que estalou uma Revolução na “metrópole” e ainda não percebera quanto esta nova "ficção" iria alterar a minha visão do meu mundo, que tal fumo longínquo anunciava erupções várias no vulcão colonial em que ficcionalmente vivia, mal dele sabendo. Para quê inventar se a meus olhos foi tudo assim, candura e irreverência, cegueira e deslumbre? Uma cúpula de ficção e “joie de vivre” que estalou de gretada, um crescer ficcionado em prazeres mil, tão reais qu’a sua ficção relatada é tão inesgotável como as salinas que tingem as folhas que a contam?


(imagem da praia da Costa do Sol gamada aqui. thanks)

para ti, Miguel

... que não te sei escrever o que desejava dizer-te.

Parabéns, miúdo!

c

domingo, 26 de abril de 2009

A orla do mundo



As palavras eram o hálito que preenchia o sabor das folhas escritas. O riso, o tilintar do dia que garantia a respiração. Algures vazou-se o mundo e o hálito da tinta secou: desaguei no mar dos nadas onde não flutuam ilhas e não te vejo, luz.
Eu volto sempre, prometo. Mas deixa-me mergulhar, ir à orla do mundo, este estio, este negro que não é absoluto porque o sal o dilui. Esgravatar as ruínas até o aparo rachar, até à orla do mundo e ao som da memória. A que moldará a caligrafia que faz as noites vestirem-se de luzes e alumiam o escrito, que não o há mais belo que o dos silêncios exaustivamente contados enquanto o olhar se subjuga ao sorriso.
Do tempo em que o abismo era um longe que não existia; o tinteiro um rio sem fim e nele viviam deuses que, ora na orla do mundo, escondem as palavras que eram o hálito e o riso, a harmonia que o sorrir oferece ao escrito.
A garupa negra dum demónio roubou-me o tilintar do mundo, e quero mergulhar na tarja sombria para estrangulá-lo e refazer o tempo. Volto, prometo. Pelo riso, pela luz, pelo alar e pelo escrito.


(imagem algures da net, já não sei donde)

sábado, 25 de abril de 2009

"Imortais" - Mafalda Veiga

O ano das novidades, felizmente

Tempos de qualificação para o GP do Bahrein, a disputar amanhã.
Esta grelha, há três meses atrás, nem uma cigana ousaria prevê-la.

Pos-Driver-Team-Time-Gap

1 Trulli-Toyota-1:33.431-129.576 mph
2 Glock-Toyota-1:33.712-0.281
3 Vettel-Red Bull-1:34.015-0.584
4 Button-Brawn-1:34.044-0.613
5 Hamilton-McLaren-1:34.196-0.765
6 Barrichello-Brawn-1:34.239-0.808
7 Alonso-Renault-1:34.578-1.147
8 Massa-Ferrari-1:34.818-1.387
9 Rosberg-Williams-1:35.134-1.703
10 Raikkonen-Ferrari-1:35.380-1.949
11 Kovalainen-McLaren-1:33.242
12 Nakajima-Williams-1:33.348
13 Kubica-BMW-1:33.487
14 Heidfeld-BMW-1:33.562
15 Piquet-Renault-1:33.941
16 Sutil-Force India-1:33.722
17 Buemi-Toro Rosso-1:33.753
18 Fisichella-Force India-1:33.910
19 Webber-Red Bull-1:34.038
20 Bourdais-Toro Rosso-1:34.159

palavras cruzadas





...enquanto esperamos.


Minha observação: A omissão de diagonais simplifica aparentemente. Havia tantas que ignorá-las tornou a sopa um caldo de messe com rigoroso controlo nos acessos e saque dos bolsos à clientela. Uma vez ao ano rancho reforçado, com pudim e foguetório à sobremesa. Resolveram-no num instante.

(passatempo daqui.)

sexta-feira, 24 de abril de 2009

A luva



De que me serve ser artista se a minha arte só tem expressão em dois expoentes: a paixão e a dor. Que quando cruzam linhas soa melancólica e nada apraz a reviver a primeira ou aplacar a segunda. Que vale este jeito de contar tudo que sinto, se não encontra eco e só silêncios. Vivo com a emoção como primeira pele e ela ora é pálida ora cobreada e nada consigo vestir que dissimule esta disfunção dermatológica. Estendo palavras intermináveis como extensões do meu corpo, mil braços dum polvo, vinte cérebros siamases, um único coração que não cabe nem encontra canto onde caber. Rio às vezes. Choro ainda mais. Nos intervalos adormeço e tenho raiva deles pelo tanto que fica por escrever. Esta ética criativa, este monstro que me come e gorgola letras como penugens que não nascem para serem aladas, esta mão é uma garra pois dá-me a carícia do torniquete e não o calor do afago: os dedos crispam-se demasiado.
Curvo-me com respeito admirado àqueles que vão da ideia à primeira linha e desta a pontos finais como se só as personagens sentissem, rissem e chorassem, e a mão morde o papel com tinta que não é negra de sangue. Descarnada e despelada das suas emoções e violência e só ossadas assomam no contar alheio, timidez ou arte, cobardia, coragem ou distanciamento, tudo que nesta garra não me livro, ou obtenho. O contador da história única e desse jeito sou seu prisioneiro. Amar ou sofrer, sem meio-termo que funcione. Dissecar-me qual rã a olhos curiosos e até neles os meus. Sofrendo ou amando, em júbilo ou em dor. Que se cruzam algures na milésima edição do mesmo texto porque a dor insuportável não é essa, é o silêncio do hiato, é olhar a mão inútil e nada dela ler.



(imagem gamada aqui.)

quarta-feira, 22 de abril de 2009

As putas não beijam

Ao princípio foram os verbos conjugados em minúcias, vestes, falas, os detalhes da dialéctica em festa na oratória pujante que preenche de luz o silêncio das noites sem lógica. O delírio da construção dos pormenores levados pela imaginação até aos olhares, os gestos, à jarra sobre uma mesa, ao movimento das ondas e tudo o mais que um pintor leva ao quadro enquanto as cores o chamarem. Tudo. A fantasia apoderando-se fracção a fracção da noite, todas as noites. Prendinhas do céu. E cresceu e iluminou-a queimando-a, ardendo-lhe o corpo, carne e nervo. Veio a erecção. Quase igual àquela na ponta do areal das ilusões onde, finda a cerimónia ritual, fizera do amor verbo pleno e verdadeiro.

As chamas quando se levantam são inconstantes e traidoras. Foi longe, muito a oriente, que lhe viu o primeiro fumo. No delta dos prazeres, de sua gentileza arquipélago das Quirimbas. Um rolo de fumo trepando além da noite e dos fusos e incendiando o presente. Fogo. A carne dói e o nervo grita quando as chamas saltam da noite e reclamam-nos seu sacrifício, seu combustível. Lá, no arquipélago e na cerimónia não era assim mas foi assim que chegaram os fumos inquietos que nublaram o escrito, o quadro do pintor e a noite. Os pormenores tornaram-se a realidade. E não se viam os caranguejos fugindo pelas areias a caminho do mar, ou a jarra que ofereceu as flores que vestira e despira. Só as chamas o abraçavam.

O fogo na noite é negro e foi na escuridão que rasou a sombra, mas não beijou.



imagem: "O Grito", Munch; algures da net

segunda-feira, 20 de abril de 2009

domingo, 19 de abril de 2009

quirimba-se-me o aluar

(imagens pescadas aleatoriamente no Google Imagens, links múltiplos)








..e regresso no tempo, no rememoriar em que fui feliz quase assim:



fui-o de forma diferente. tive um aro de bicicleta e o arame para guiá-lo e também um pneu com um jarro de água dentro e seus paus-guiadores. a tralha que todos tivemos e então nos regalou.
todavia nas Quirimbas não, e estou a ficar um descarado nisto de exigir tutti quanti quando se trata de Aluar.

...é trair Kiribati"...? acho que não. ele é tão múltiplo que existe até no "copy-paste", mais umas letrinhas a acompanhar para contar.
um regalo, isto de sonhar :)

sábado, 18 de abril de 2009

aprendido



When you're down and troubled
And you need a helping hand
And nothing, whoa nothing is going right.
Close your eyes and think of me
And soon I will be there
To brighten up even your darkest nights.

Chorus
You just call out my name,
And you know wherever I am
I'll come running, oh yeah baby
To see you again.

Winter, spring, summer, or fall,
All you got to do is call
And I'll be there, yeah, yeah, yeah.
You've got a friend.

If the sky above you
Should turn dark and full of clouds
And that old north wind should begin to blow
Keep your head together and call my name out loud
And soon I will be knocking upon your door.

Chorus
You just call out my name
And you know where ever I am
I'll come running to see you again.
Winter, spring, summer or fall
All you got to do is call
And I'll be there, yeah, yeah, yeah.

Hey, ain't it good to know that you've got a friend?
People can be so cold.
They'll hurt you and desert you.
Well they'll take your soul if you let them.
Oh yeah, but don't you let them.

Chorus
You just call out my name
And you know wherever I am
I'll come running to see you again.

Oh babe, don't you know that,
Winter, spring, summer, or fall,
Hey now, all you've got to do is call.
Lord, I'll be there, yes I will.
You've got a friend.
You've got a friend.
Ain't it good to know you've got a friend.
Ain't it good to know you've got a friend.

.........

NOTA: "eles" não querem que o original toque & retoque. "eles" não têm razão. se têm a faca há quem tenha o queijo, e vai daí muda-se a ementa youtubesca, que o espírito e sabor estão na mesma lá. eternamente, vontades..., queiram "eles" ou não. cg, aka Smack.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Espelhos

Gosto do sorriso (ternura?) da moça da caixa do supermercado quando mostro o pacote de pensos higiénicos, inconfundivelmente juvenis a meus olhos e que julgo gémeos dos dela e de todos que olhem, que fui comprar para a minha filha, nada mais nas mãos e é pedido expresso pois nem amêndoas nem batatas nem cem gramas de fiambre me levaram às compras. E gosto de pensar que o sorriso dela é de ternura por na compra solitária adivinhar uma cumplicidade que a geração e o género não nos surripiam.
Gosto de pensar bem de todas as pessoas, naquele desejo encoberto que seja recíproco e as ditas paz e harmonia sejam mais que palavras escritas. Porque gosto das pessoas tal como gosto de mim e quando as olho vejo espelhos que não quero iguais aos da Feira Popular, porque gostava que nas nossas realidades os gordos sejam gordos e os magros magros sem batota nos espelhos, que se lessem os olhos como um romance onde a fé no escritor dura até à última folha.
Gosto de mim o criança ternurenta, o adolescente despassarado e o adulto amargurado. Até desse, vejam lá as coisas de que eu gosto. Gosto de flores, já agora, e entristece-me saber que há quem não goste delas além do Google Imagens ou do jardim que não frequentam para mais que o xixi e o cocó do Lulu. Gosto do meu lulu que se chama Tufas e é a cara-de-parva mais linda do mundo. Gosto de ser totó e fazê-las por achar que ainda conseguir dar borradas é não ser um pedigree sisudo mas um inapto funcional fora dos jardins dos meus sonhos. Flique-flaque ao tempo verbal e gostava de ter um Porsche e uma garagem e, para corrigir a redacção, nela guardo no presente indicativo revistas cheias de fotos dessas luas futuras. Já agora gosto de luas mas dizê-lo não é novidade, pois não? até a moça da caixa do supermercado o sabe (a ternura? sim) e eu estou contente por isso.
Porque gosto de mim assim, fugitivo de tudo quando a vejo e vejo-a em tudo que olho pois - contei-vos? sou daltónico e gosto das cores todas e tenho uma alegria infantil em baralhá-las baralhando-me, rapaz de pêlo na venta que não veste o rosa mas tudo que vê, diga-se em conclusão facilitadora aos felizardos que notam os tons todos em todas as cores, é assim. Simplesmente é assim e nesta contradição biológica adolescente está a acne indispensável para quando me olho ao espelho gostar de mim. Nem magro nem gordo, alto baixo pencudo careca orelhudo, rapaz de pêlo na venta que não veste o rosa mas tudo que vê é assim.
Diz o outro, o entre todos a que mais fujo, que se pudesse gostava de não ser tanto eu assim. Mudava umas coisinhas, somava sucessos adultos e apagava excessos acriançados. Quando quisesse ver luas comprava um bilhete para a barraca dos espelhos na Feira Popular. Abria uma conta-poupança e daqui a dez anos tinha um Porsche. Blá blá blá, os caminhos dos sucessos e uma gravata nova, e outro careca barrigudo sisudo cantaria. Não sei é se a minha filha me pediria que lhe fosse comprar os pensos higiénicos e a moça do supermercado me sorriria, e na minha garagem continuaria a haver lugar para tantas luas como as que vejo em cada cor que encontro quando vou ao jardim.
É, gosto mesmo de mim assim, e o grave a havê-lo na arquitectura da garagem onde cabem jardins são as fundações disformes, desproporcionadas para mais, imunes ao caruncho que o grisalho telhado deixa florescer nas paredes, nas revistas, no espelho, aos olhos de quem olha além do luar que me retém, acreditando nisso como demão mágica a paredes e telhados, tapa buracos de ser disfuncional além das cores. Ilusão de espelho, gostar de mim assim?

quarta-feira, 15 de abril de 2009

"jogar futebol em Moçambique"



maravilhoso! e não me interessam 'discursos' sobre isto e aquilo: maravilhei-me em recordações!

(mandou-mo a Conceição. thanks, thanks!)

"Prazer"

Cai-me a tentação aos olhos em momento que para "prazeres" ameaça-se tão adequado como régua e esquadro ao contorno feminino se a olhar-se o resultado a imaginação estiver anestesiada. Mas até uma lágrima pode ser "prazer" se o gordinho não foi enxaguado até às rugas, se o deslizar duma palavra, um dedo, um olhar, fê-lo pingar e contá-lo ao Mundo, húmido de prazer, mariscando-o, luando sonhos.

Escalam-se os anos e de cada ficam memórias não organizadas cronologicamente mas sob critérios emocionais: gostei; não gostei. E recordo-me do prazer algures nos tempos em que os calções eram o equipamento para as melhores corridas do mundo acerca de tudo e outro tudo ainda, aquelas em que o último a chegar era maricas, e em como segurei em carícia de pormenores o meu primeiro Dinky Toys, como nas minhas mãos ele se agigantou bem além da escala maior à dos escanzelados Matchbox's com que até aí soletrava o prazer de brincar às corridas na borda do passeio: era tão lindo, elegante, eficiente, que seria invencível e o meu prazer de então ainda hoje me faz parar às montras onde estão todas as corridas do mundo a quem se lembra que "o último a chegar é maricas", quem se lembra e não esqueceu.

Raso ao lado o cliché do primeiro beijo pois é assunto em que me quero eterno hesitante, se o primeiro se o último, ou o que ainda há-de vir e qual deles como exemplo do fogo, se deles o prazer é o arrepio ou o crescer do gordinho até não caber no peito e dá-lo por inteiro a alguém assim sonhador, e beijoqueiro.

Senti-o igualmente em tantas coisas que enumerar a memória é aviltá-lo na incompatível compatibilidade: sabe melhor - prazer - um entrecosto minhoto temperado com as ervas todas e ainda amor, ou a fatia de bolo de chocolate que, mágica, faz da sobremesa lábios colados no prazer do doce de beijar o nosso chocolate íntimo, o festim da carne amada ou o roçar dos sonhos doces? não sei, não sei. E sei que é prazer onde nunca me decidirei até porque ele, deleite, saliva primeiro no olhar a receita, segue em frente à temperatura ideal e aloura tentador a quatro mãos que se tocam na construção dum prazer comum, e a ter de escolher entre o prazer do palato ou a volta ao quarteirão de mãos-dadas para desmoer e lamber as migalhas do prazer enlaçado em cabeças no ombro eu nunca me decidirei pois afinal são um todo indissociável. É assim que as réguas e esquadros das racionalidades transmutam em beijo, Prazer, o fast food diário e a pizza telefonada.

Caiu-me na mão e eu sedento, esfomeado que nem lobo em Inverno, enredado na dificuldade de escrever acerca da emoção que nos faz rir pois dela nos hojes os amanhãs terão dificuldade em encontrar ficha além desta folha, dalguma forma prazer pois conta de carrinhos e prendinhas, e do bolo comido em beijo que pode ser a nossa vida lambuzada, haja lábios que fiquem húmidos ao ler a receita dos pratos simples e seus prazeres. E então tudo se vence porque o último a chegar é maricas e chegou o Senhor Prazer, que não se se distraia ao cruzá-lo para o gordinho abrir-se num sorriso e cumprimentá-lo, «muito prazer em vê-lo! afinal conhecemo-nos de há tanto e não reparara!»

São "estas merdas" que dão as memórias, não a tralha dos desprazeres: deles as fichas não contam, rasgam-se, perdem-se na reciclagem de envelhecer. Prazer-prazer? era não ter escrito isto.


(na Noite de 7 de Abril de 2009)

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Moçambique, sempre no rabo do olho...

Principalmente nas Presidenciais. É que já é tempo das oligarquias darem o triste pio e a democracia ter cores mais sãs e limpas.

domingo, 12 de abril de 2009

Smack na cozinha

(dose para 2)

Marinam-se os condimentos pelo tempo necessário a tornarem-se irresistíveis, tal como um bom vinho 'respira' para libertar o melhor que contenha. Fa-lo-á. Lamina-se o exterior como se se preparasse um carpaccio: despe-se-lho até o rosa-pele brilhar. Vai-se temperando a gosto, ervas aromáticas, piri-piri polvilhado, e um fio de língua húmida. Salteie entre mãos e reserve entre braços. Quando a temperatura o pedir introduza-o no forno como se fossem jóias a guardar em casa-forte: os olhares são tão importantes como os cuidados e carinhos e os murmúrios de amor e confiança: aloura melhor e torna-se estaladiça quando os lábios a beijarem. Acerte o funcho em caso de necessidade: é prato de preparação lenta embora o calor por vezes engane e sugira que se deve apressar o cozinhá-lo. Acompanha com sussurros de carinho. Olhares de gula igualmente caem bem.
Degusta-se a média luz e com música ambiente.

(avental gentilmente fornecido aqui.)

sábado, 11 de abril de 2009

Luas da minha rua




Ao fundo da minha rua vejo uma Lua
maior que ela. E nem de noite nem
de dia me esqueço como é linda,
a Lua na minha rua é tão bela...

Se erguer a mão toco-lhe,
trava-me a gravidade e o medo.
As luas são as luzes de meus sonhos,
refúgio e cela, sonho e grilheta,
ilusão de evasão.

Se acaso descolar sei para onde voar:
ao fundo da minha rua habita
a razão de eu partir e é tão bonita...

A história das Coisas

São 21:19 de duração*. Uma migalha ao lado dos 'pps' com ursinhos, florinhas, pornografia e anedotas parvas, os de "correntes" de felicidade & prosperidade mais sete anos de azar se não os Fw's a correr a não sei quantos, e que abrimos continuamente.

* recebido por mail do "rebelde45"

Bimby's


Lido no Expresso (pág. 32, logo por baixo do míssil "faz de conta" norte-coreano e ao lado dos F-22 que irão fazer ninho aos Açores):

"Quénia O vencedor do concurso aberto a ideias verdes com o fim de reduzir as emissões de carbono é natural do Quénia e inventou uma solução alternativa ao fogo de lenha que poderá beneficiar milhões de habitantes de países em desenvolvimento. A "Caixa de Quioto" poderá ser um ovo de Colombo para cozinhar com energia solar, assim evitando-se a desflorestação. A partir de duas caixas de cartão pintadas de preto para potenciarem a retenção de energia solar, poder-se-á ferver água e cozinhar alimentos. O concurso foi organizado pelo Forum for the Future e destina-se a premiar boas ideias verdes e exequíveis."


Ok. Portugal, Hell-meirim «Quando for grande quero ter uma 'Bimby' que dizem fazer metade do trabalho e, assim, poupar-me-á metade da aprendizagem»

Ok, vou começar de novo...
Kiribati «Tenho uma 'Kyoto Box' e faço paneladas de ameijoas que são um regalo»


Não há "paraísos" sem inteligência, simplicidade e humildade, capacidade de olhar e entender sem distorcer (finalmente, arre!).
Extrapole-se e sirva-se a gosto.
Como entrada o prazer da autosuficiência e à sobremesa um areal limpo e um mar e céu de derreterem o olhar.
Acompanha com líquidos de gosto pessoal, que fundamentalismo é tão sacanice como deixar a vida e o mundo dependentes da preguicite de pensar.

(imagem da 'Bimby' daqui e da 'Kyoto Box'daqui.)

sexta-feira, 3 de abril de 2009

3:50

acordo


para zelar a solidão,
deserto com palmeira,
essa sombra

esse último Sou.