Mostrar mensagens com a etiqueta tertúlias virtuais. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta tertúlias virtuais. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Tertúlia Virtual: tema de Julho de 2009

O "Tema Livre" é do piorio. A tentação de escrever sobre o 'nada' aflora mas esse é chão que já não dá uvas, como avisados colunistas veteranos lembram quando perguntados sobre essa gripe infantil da escrita, e com a gargalhada de quem já se constipou e pecou. Assim amarfanha-se o rascunho e regressa-se à folha em branco, a raiva a crescer por não vê-la livremente gatafunhada sobre filosóficos nadas, enquanto o cérebro teima no tema e excusa-se a mais que passarinhos, verões, namoricos, os deliciosos nadas que vão-nos escrevendo a vida sem preocupações de inovação, que na simplicidade está o segredo em vivê-la bem. E escrevê-la?

Inovo: vou começar pelo fim: morri num dia súbito e de doença calendarizada. Antes padeci o envelhecer jogando cartas em jardins e galando voluptuosas raparigas cinquentenárias, que quando me reformei jurei a colegas e família que de papeladas chegaram quatro décadas, e o viço esfumara-se mal os cachopos nasceram e percebi que emprego e família eram gaiolas douradas. Bons tempos foram os dos longos cabelos e um celofane de erva no bolso, a elegância juvenil que até às borbulhas é benevolente, esse passo largo por que a infãncia suspira enquanto se bate a bola sonhando-se estrela voadora que afunda num shuaps! de galvanizar o bairro inteiro, farda onírica que legitima os calções e as sandálias, essas humilhações com única correspondência na tirania déspota da matrícula à nossa revelia em salas de aulas onde uma campainha faz gritar de alegria ao recordar-nos a felicidade de ser livre e criança. De mais não me lembro, excepto de espreitar as pernas à mana e a todas as amigas que a visitavam e, mais longe, duma piscina na Serra que uma foto testemunha existência e minha visita, quando o boné era farda obrigatória e o triciclo o bem mais precioso. E os Natais, todos após a fase do limbo, da roca e das fraldas que imagino sempre mijadas e mais aquela coisa mal-cheirosa.

Se fosse esmiúçar muito por aí acima cataria, mas o espartano tema não me deixa nem liberta, e os melhores pormenores reservo-os para quando me proporem uma crónica sobre as minhas melhores férias e recordar que não me lembro de nada em especial, além de coisinhas poucas e que só darão para seis ou oito páginas entretidas no relato da forma mais suave de pagar empréstimos bancários, duma que me peça que fale da maior alegria da minha vida e também da maior tristeza, e misturar uma com outra para por osmose dizer que a minha vida foi e é assim assim, quem sabe se falarei de amores negados ou de beijos suaves à luz de candeeiros, e sem esforço alargarei o relato se o tema me pedir que conte e diga, em redacção com caligrafia bonita, que me lembre e escrevinhe da emoção sentida num qualquer momento histórico que se cruzou com a minha vida. Quem sabe, os pedidos específicos estimulam a memória, alindam-na no recordar, não são este aperto de me dizerem livre para escrever mas o nada assombrar-me e só me lembrar de badalhoquices de velhadas e de fraldas cagadas de meninos.

Uma última oportunidade. Blogas? «blogo, está claro! que estou aqui a fazer?» Então, rapaz, ora conta aí de tais assados e cozidos, que sentes quando tens quarenta leitores e do sorriso que fazes ao entrar no café do bairro e ninguém suspeitar o popular que és. Conta, como se estivéssemos a ver o "All that jazz", das fases que se sucedem desde a luz inicial que ofusca e maravilha, até à aceitação da perenidade do grão que és, e feliz por habitares praia tão vasta tens de estar, que o rush dos posts não desmerece do contínuo das ondas que te lavam e deixam-te o ego a brilhar. Consegues?

Fim de crónica, posição fetal inicial.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

"Alguém"



Tanto são dez anos que para carregar cinco coisas que os façam vividos eu levava alguém. Para que me servem cinco realidades materiais se o imprescindível é sentirmo-nos além do horizonte e para isso necessitamos de alguém a quem contá-lo e igualmente nos conte de si? horizontes que não deixem o nosso cegar-nos?

A faca do Rambo ou um canivete suíço, eis a dúvida (mas concerteza levava alguém). Talvez um chapéu para o sol e de certeza uma manta para as noites. Tabaco: um volume gigante, na habilidade de multiplicar a unidade e adiar o cumprimento da eterna promessa em abandoná-lo. Um litro de tudo que gosto, enroscadinho como nos aviões. Acarretava o catering completo numa malinha para não contar à unidade e ludibriar a espartana alfândega, as regras, esta maldita tentação que nos faz ilhas antes de nelas desembarcarmos. Cadernos, canetas, um bom dicionário. A faca do Rambo ou um canivete suíço, eis a dúvida e delas não saio pois, a contar, já fora de ilhas estamos rodeados de gadgets e sempre necessitamos de mais, mais, tantos mais que afinal são mais menos: faltam-nos horizontes contados, Alguém. Sim, levava alguém. Provavelmente o tal chapéu para o sol e de certeza a manta para as noites. Uma pessoa não é uma coisa, não é bagagem, mas é alguém e Alguém é sempre essencial. Homem ou mulher, que me rala. As boas companhias não têm género.

Dez anos é muito tempo e há mais de quarenta que deixei de me equipar para este proposto: quando li o Robinson Crusoé acumulei numa caixa de sapatos todo o essencial: canivete, abre-cápsulas, um rolo de fio de pesca e outro de arame fininho, o molhinho de cromos repetidos que iam ficando das colecções que se sucediam e abandonava, pois podia encontrar, lá, quem neles visse a luzidia tentação das ‘trocas’ – «tenho o Yaúca! e tu?» –, e a pistola de fulminantes por causa das feras. A minha mãe andou dias intrigada com a faca de cozinha que desapareceu: ela não sabia que nas ilhas desertas podem aparecer cobras e jacarés. Mas desta vez teria de me ficar pela faca do Rambo ou o canivete suíço: envelhecer é substituir as magias próprias pelas montras que nos dão. Uns tempitos depois li o Monte Cristo e as ilhas apareceram-me como ‘má onda’ e parei o acumular: precisava dum caixão para fugir e não via maneira de arranjar algum, e onde o escondesse que não caberia na caixa de sapatos.

E agora vem isto, e na caixa só está o cisma que sem dúvida levava alguém comigo. Para não ser ilha, dez vidas de degredo.


(imagem gamada aqui.)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

"Prazer"

Cai-me a tentação aos olhos em momento que para "prazeres" ameaça-se tão adequado como régua e esquadro ao contorno feminino se a olhar-se o resultado a imaginação estiver anestesiada. Mas até uma lágrima pode ser "prazer" se o gordinho não foi enxaguado até às rugas, se o deslizar duma palavra, um dedo, um olhar, fê-lo pingar e contá-lo ao Mundo, húmido de prazer, mariscando-o, luando sonhos.

Escalam-se os anos e de cada ficam memórias não organizadas cronologicamente mas sob critérios emocionais: gostei; não gostei. E recordo-me do prazer algures nos tempos em que os calções eram o equipamento para as melhores corridas do mundo acerca de tudo e outro tudo ainda, aquelas em que o último a chegar era maricas, e em como segurei em carícia de pormenores o meu primeiro Dinky Toys, como nas minhas mãos ele se agigantou bem além da escala maior à dos escanzelados Matchbox's com que até aí soletrava o prazer de brincar às corridas na borda do passeio: era tão lindo, elegante, eficiente, que seria invencível e o meu prazer de então ainda hoje me faz parar às montras onde estão todas as corridas do mundo a quem se lembra que "o último a chegar é maricas", quem se lembra e não esqueceu.

Raso ao lado o cliché do primeiro beijo pois é assunto em que me quero eterno hesitante, se o primeiro se o último, ou o que ainda há-de vir e qual deles como exemplo do fogo, se deles o prazer é o arrepio ou o crescer do gordinho até não caber no peito e dá-lo por inteiro a alguém assim sonhador, e beijoqueiro.

Senti-o igualmente em tantas coisas que enumerar a memória é aviltá-lo na incompatível compatibilidade: sabe melhor - prazer - um entrecosto minhoto temperado com as ervas todas e ainda amor, ou a fatia de bolo de chocolate que, mágica, faz da sobremesa lábios colados no prazer do doce de beijar o nosso chocolate íntimo, o festim da carne amada ou o roçar dos sonhos doces? não sei, não sei. E sei que é prazer onde nunca me decidirei até porque ele, deleite, saliva primeiro no olhar a receita, segue em frente à temperatura ideal e aloura tentador a quatro mãos que se tocam na construção dum prazer comum, e a ter de escolher entre o prazer do palato ou a volta ao quarteirão de mãos-dadas para desmoer e lamber as migalhas do prazer enlaçado em cabeças no ombro eu nunca me decidirei pois afinal são um todo indissociável. É assim que as réguas e esquadros das racionalidades transmutam em beijo, Prazer, o fast food diário e a pizza telefonada.

Caiu-me na mão e eu sedento, esfomeado que nem lobo em Inverno, enredado na dificuldade de escrever acerca da emoção que nos faz rir pois dela nos hojes os amanhãs terão dificuldade em encontrar ficha além desta folha, dalguma forma prazer pois conta de carrinhos e prendinhas, e do bolo comido em beijo que pode ser a nossa vida lambuzada, haja lábios que fiquem húmidos ao ler a receita dos pratos simples e seus prazeres. E então tudo se vence porque o último a chegar é maricas e chegou o Senhor Prazer, que não se se distraia ao cruzá-lo para o gordinho abrir-se num sorriso e cumprimentá-lo, «muito prazer em vê-lo! afinal conhecemo-nos de há tanto e não reparara!»

São "estas merdas" que dão as memórias, não a tralha dos desprazeres: deles as fichas não contam, rasgam-se, perdem-se na reciclagem de envelhecer. Prazer-prazer? era não ter escrito isto.


(na Noite de 7 de Abril de 2009)