
"Sem imperfeições seríamos vultos" - Charles Brenton Walters, 1855-1909
(foto daqui.)
Zeca Afonso faria hoje 80 anos. Mas não está cá. Está o seu legado, está quem o cante, e em dia de aniversário estão memórias cruzadas.
No video Cristina Branco canta "Avenida de Angola" de José Afonso. Nesta frase cruzo muito da minha vida. Homenagem, é o post.
Primeiro ao Zeca, cantor Imortal que quando pegava no microfone e na viola fazia muito mais que cantar: gritava. Eu recordo-me de sentir o grito. Homenagem e saudade, porque me lembro. Tristeza também, por tanta vez sentir que ensurdeci.
Avenida de Angola... Eu vivi lá, cresci olhando as pombinhas e sonhando com alfinetes de dama, para não contar mais e dizer como aquela avenida era longa, tão longa para ligar duas cidades numa e para coser uma infância à adolescência sem ficarem casas por apertar. Não quero falar mais nisso, afinal tantas Avenidas de Angola há em tanto lado, mas esta que Zeca Afonso e Cristina Branco cantam é a minha avenida de angola. Meu passado, homenagem, que dele não me envergonho.
Meu presente: Almeirim. Às vezes é Hell-meirim mas Cristina Branco é almeirinense e a homenagem é ao Hoje: é Almeirim. Realidade, homenagem. Serenidade e alívio. Não meto nenhuma tristeza nesta conta: é dia de aniversário também aqui em Almeirim.






...e tem música que cai que nem ginjas, como soe dizer-se - e aqui se ouvirá:
Thanks Amigo!
Já há muito que o 'Público' deixou de trazer as cruzadas sem as quadrículas pretas. As que me dava prazer tentar completar, e quando o conseguia sem rasuras a minha vaidade era semelhante a ganhar um jogo de xadrez contra outro de astúcia semelhante. Por retaliação passo a folha das pintalgadas com olhar de desdém e nem leio uma única linha enigma.
As prendas com que os amigos nos surpreendem são um encanto. Dito com propriedade, que é esse o sentimento quando as recebemos - ao caso, a descobri..., mais a mais quando sem origem em data tradicional a mimos e baseando-se, alega a Ana, em critério que me deixa vaidoso e envergonhado; a primeira porque há orgulho em saber que há quem nos visite assiduamente por se sentir bem aqui, a segunda emoção pela noção de que tão mal tenho tratado as visitas, que a mesa não tem sido mudada com a assiduidade desejável. Mas enfim, ainda ando "esquerdo" com o tasco mas talvez melhores dias assomam, estou em crer. 




Porque um avião se atrasou num aeroporto londrino acabei a jantar num modestinho café – restaurante – alugam-se quartos fronteiro à estação de comboios de Santarém. As declarações prévias: vim sem esperar pelo telefonema confirmativo de que o meu amigo tinha chegado à Portela, e no café aceitam fumadores. Não me perco na costeleta frita, que está deliciosa e sempre estaria tal a fome que tenho – mas está de facto – mas sim na sala comensal vazia a esta hora e quem sabe se nas outras, nos cortinados verde-claro igual ao das paredes e me vêm lutar com a caneta e com a faca (pausa), a ventoinha de pás azuis imóveis, o silêncio pois recusei que o televisor fosse ligado. Transportei-me ao passado, e nele se som havia nas salas de comer das pensões era o de rádios.

Há quem saiba porque sorrio de cara rasgada a estas duas músicas. E ouvidas quase quarenta anos depois mantenho a opinião que lá deixei: ouvi a primeira em versão que me apaga a imortalidade desta, a original, e a segunda vale pelo nome e a data de malucos que a compuseram. Já contei, um dia destes conto outra vez.