quarta-feira, 16 de junho de 2010

Esta Cidade

O meu livro, inédito:


Carlos Gil























ESTA CIDADE


























À Princesa do Índico,
pelas mãos dadas de sempre


















"São memórias, são sorrisos e lavadeiras. São a caminho de quarenta anos mas é ontem. E é hoje que as revisito, outra vez"





2009


I

A curte


Lourenço Marques era o centro do mundo, latitude e longitude de mim. Além dela, cidade, em menino sonhava a selva e os seus mistérios em romances húmus de imaginações, e quando os calções deram lugar às calças à boca-de-sino e estas se motorizaram descobri que a temida selva africana lida, afinal eram planícies imensas de capim e alonguei a realidade por estradas e por picadas (1) que só não eram intermináveis porque desistia de as seguir e acoitava-me numa sombra, às vezes em praias onde não era um luxo ter menos de cem companheiros ao bronze pois só os caranguejos ouviam a conversa do mar, a motorizada atravessava vilas pachorrentas com o pé das árvores caiado de branco e onde as portas e as janelas tinham todas redes mosquiteiras, seguia carreiros ao calhas e dava com aldeias de palhotas em caniço onde a minha barulhenta chegada era um acontecimento que fazia gritar de excitação os miúdos, parava em cantinas (2) à beira do alcatrão onde dessedentava o arrojo. Havia o mundo além do meu mundo, cidade. Dela partia e a ela tornava, silhueta amiga, meu ninho, a minha cidade. Que me falava ciciando-me promessas de mais assim, eterno assim, romance de enredo empolgante que lia expectante das páginas do dia e da noite seguintes, numa insónia colonial mesclada pela névoa doce dos anos do crescer.

Cidade. As picadas citadinas eram avenidas imensas ou ruas recantos entre prédios gigantes que retalhavam o horizonte e faziam brilhante o rubro das acácias e o azul dos jacarandás, ou velhas moradias onde nas frestas das janelas se viam os escombros das redes mosquiteiras, brasões do passado lado a lado com guaritas de modernidade. Assim era Lourenço Marques cidade cimento, mausoléu imperial, mágico sepulcro da infância e adolescência que em culto de memória venero, como se beber da taça da fonte da juventude fosse tão inocente como ler um romance que fala do passado, certo que a estante o arquivará. Mas não é.

Filho de colonos modernos, da leva que, despida do rótulo, por formação ideológica vigente não prescindia do espírito do estatuto, aportei ao cais Gorjão (3) com os olhos abertos de espanto e uma curiosidade sem fim: andava na antiga primeira classe, na Covilhã, quando os meus pais decidiram migrar em perseguição do sonho africano, crendo que a assunção do mito do império nos daria uma vida mais distante da modéstia dum dia-a-dia sempre curto: a natural esperança noutro viver, e a escolha foi a emigração interna. Tinha sete anos, os especiais sete anos, tempo em que a escola era encanto e não rotina a abreviar, tempo para começar a acreditar nos sonhos que as letras contavam, o tempo de início de todas as descobertas e de construção de mundos imaginados. Era o cenário ideal: afinal os sonhos estavam presentes, sejam vestidos pelos fascínios urbanos ou lidos e adivinhados no feitiço da selva, lá depois da linha de horizonte onde os romances de aventuras se escrevem. Cresci como jovem enxerto colonial na frondosa árvore africana, e adorei cada salto de galho em galho.

Quando acreditava que conseguia escalar todos os seus ramos, e no mais alto faria o meu ninho, um dos grandes ciclos da História faleceu de caduco e, no seu ruir que gerou vagas impiedosas ao pormenor humano, eu migrei novamente. Regressei a este Norte que vi e bebi como gélido, reconstruindo-me nesta pele que então vesti, encasacada em tanto que me era estranho, hostilmente diferente da tropical sedução que abandonara. Como a idade era outra, e da troca não entendi vantagens que fossem além duma mítica segurança, a minha segunda migração teve dores que ainda hoje me murmuram saudades doutro que fui. Também por isso retomo os calções.

Porque a vida calha assim morávamos na Mafalala (4), numa das ilhas formadas quando uma das cidades poda o outro lado com tentáculos de cimento, terra-de-ninguém urbana, hiato entre uma e outra, zinco, caniço e tijolo namorando-se. Da pobreza? Li esse romance depois: estava ocupado em crescer e a banda desenhada onde o sol se punha tinha um esmalte irresistível, e vivia ocupado a tempo inteiro em turistar além do horizonte, sonhando antes que a biblioteca fosse necessariamente outra.

Falando em sonhos, no tempo em que as noites adormeciam ao embalo de “era uma vez…” e puxava para os olhos a manta protectora dos medos nocturnos, entrava pela varanda fronteira à sala, que à noite era o meu quarto, o bulício nocturno da avenida de Angola, longa recta de alcatrão de dia fervilhante de mil vidas e que se metamorfoseava quando os candeeiros se acendiam e as formigas humanas se travestiam no exótico da vida nocturna, em que homens solitários se refugiam em bandos de seus iguais na busca da anestesia alcoólica e do sexo barato que o som alto das jukes-boxes promete. Quase fronteiro ao meu está o prédio onde é rei da noite local o ‘Dancing-Bar Vasco da Gama’, catedral da luxúria e dos desejos lascivos com bolsos menos afortunados. Uma prostituição de classe intermédia, sem ser a naif que se visita nas barracas do caniço profundo nem a espampanante dos bares próximos ao porto na Rua Araújo (5), lá na zona baixa da cidade; algo a meio caminho entre a modesta capulana que se abre num só gesto, para alimentar a criança que também aninha, e as mini-mini saias de lantejoulas e meias de nylon, também o modesto lenço na cabeça em oposição à cabeleira postiça, rígida de laca e vãs ilusões. Cresci conhecendo-as, mirando ao longe a sua ostentação corporal, e não fui muito tempo indiferente à sua oferta. Nas noites em que adormecia ouvindo o seu linguajar que subia da rua onde os táxis se sucediam, as suas gargalhadas, às vezes os seus gritos e impropérios, na privacidade dos sonhos íntimos adivinhava em mim cresceres, maturações corporais, e nas carícias onanistas que me concedia eram elas as ninfas que oniricamente as guiavam. A fauna militar em folga era a clientela de eleição do bar, mais o pequeno assalariado da cidade de cimento, mais todos os malandros e proto-malandros do bairro e arredores. Por tudo isto, pelo caldeirão inevitavelmente explosivo que junta putedo e tropa, embriaguez de frustrações e vidas falhadas, a autoridade policial era visita regular do ‘Vasco da Gama’. Se os jeep’s da polícia civil só acorriam quando chamados a pôr cobro a desmandos, mais frequentes em fins-de-semana, os da polícia militar faziam lá a sua ronda, com os tropas de capacete branco bebendo nos olhares de receio os ‘desenfiados’ que procuravam. Noutras vezes acorriam chamados pela polícia civil por causa de brigas que envolviam militares, assim como a polícia aérea e a naval, embora estas fossem raras de ver nos subúrbios da cidade pois os seus soldados eram elite ao lado do vulgo ‘feijão-verde’ (6), e saciavam necessidades de evasão em locais mais perfumados que este ‘dancing-bar’ de 3ª classe, em pistas de dança onde as incansáveis juke-box’s eram substituídas por veros conjuntos musicais e a idade das moças ofertantes não pesava tanto nos atributos físicos que vendiam, como nas, que em regra, ganhavam os dias nas noites do ‘Vasco da Gama’.

Naturalmente estava proibido de lá entrar, ou sequer de me abeirar, quando os serões de Verão autorizavam gostosas horas em brincadeiras no passeio em frente ao meu prédio. Entre nós, putos do prédio que nos juntávamos em conversas secretas num qualquer muro, tentando adivinhar o crescer, o ‘Vasco da Gama’ e o seu acesso era visto como se de passaporte para a desejada vida adulta se tratasse. A nocturna, a “verdadeira”. Porque, à luz do dia, todos nós, em grupo ou a solo, já lá tínhamos penetrado olhos curiosos a pretexto duma chuinga (7) ou duma laranjada, tentando descobrir no bucólico vazio das mesas a magia da sua animação nocturna, no olhar a uma ou outra prostituta em espera de trabalho fora de horas tentávamos adivinhar segredos que a vida ainda não desmistificara. Passaram anos e noites húmidas antes de ousar nele penetrar na sua hora própria, palácio de desejos e tentações revelado em toda a sua cor e ruído, alegria. Timidamente, claro. Mais ousadamente à segunda, claro, como se de veterano desses folguedos se tratasse. Depois mudei de bairro e não tenho memória de lá ter regressado: ganhara outras asas e independências que iam mais longe que o furtivo atravessar duma rua. Mas passava à sua frente muitas vezes, mais de dia que de noite, e havia sempre um olhar cúmplice que trocava com a sua fachada, com os seus velhos dizeres a néon.

Quando a Frente de Libertação de Moçambique entrou na capital moçambicana, após o Acordo de Lusaka de 1974 (8), careceu dum local para sua sede e foi o edifício do velhinho ‘dancing-bar Vasco da Gama’ que foi escolhido. Foi simbólica a mensagem que pretendeu transmitir, e eu percebi-a. Mas, quando lá passava e os olhos brilhavam ao fitá-lo, não o faziam só à bandeira das utopias que esvoaçava, prometedora: era também ao néon definitivamente apagado e às memórias que ele me induzia, ao tempo do “era uma vez”, vezes tantas que marcaram o meu crescer e ensinaram-me que há mistério e beleza numa puta que sorri e gargalha, seja envolta em gasta capulana ou despida em lantejoulas.

Fim de parágrafos com bolinha. Por enquanto: vá-se lá saber o que a memória trará.

Na arriba entre a Mafalala e o Alto-Maé (4) assentei dias e noites, amigos, paixões, birras ou brincadeiras, vivi as primeiras fantasias eróticas sonhando com a prostituta da barraca quase ao lado do meu prédio e não com uma gentil menina duma flat (9) dum qualquer quarto ou sétimo andar. Assim vivi, aprendi e cresci durante uns sete, oito anos, até família e mobília mudarem-se para dentro da outra cidade, e demorei a sentir o Malhangalene (4) como cantos e passeios que pisava com segurança, “meu bairro minha cidade”. Sentia-me em visita permanente, como que em quintal vizinho onde se brinca antes de, quando o descanso reclama pela segurança-mãe, acamar os repousos lá ao lado, ‘em casa’, e amanhã há mais. Foi uma época de viragem. Aos quinze já se pensa que a masturbação pode ser substituída e já se viram umas fotos sobre o assunto, tem-se vergonha de ter usado calções até há tão pouco tempo e já se rouba um cigarro ao maço do pai com maior descaramento, odeia-se a escola e aspira-se à independência. A cidade fascínio passou a ser vivida por dentro, perderam-se os tempos em que o carro do pai adormecia à porta de qualquer evento com presença arrancada a birras, chantagens e até choros, mas sob condição do protector transporte paternal. De repente os transportes públicos eram de maior oferta e confortavelmente mais vazios, a ida aos jogos nocturnos de basquetebol ou de hóquei em patins às quartas e sábados à noite acelerou-se tão depressa como a bainha dos calções descia, e vestia as calças da cidade toda com o passo alegre de quem ascendeu a vizinho do futuro onde os fascínios se realizam já já, na emergência de sonhar Lourenço Marques como minha mega e privada diversão.

(Topografia da memória: Alto-Maé, Mafalala, Lagoas, Munhuana, Malhangalene, Baixa, Chamanculo, Xipamanine, Costa do Sol, Triunfo, Aeroporto, Mavalane, Chinhambanine, Jardim, Central, Polana, Kock, Sommerschield, Carreira de Tiro, Bairro Indígena, Choupal, Infulene, Benfica, Mahotas, Conoluene, Matola, Machava, Catembe, Fomento, Cronistas, Maxaquene, Ponta Vermelha, Pescadores, mais algum de que não me lembre, sub-bairros incluídos. Geografia urbana, pedaços desarrumados duma memória que quando se fecundou era selectiva no frequentá-los pois havia vários úteros, várias cidades. Que as haverá hoje mas tudo é uma unidade, literalmente: ressalvada a separação natural criada pela baía, Maputo - ex-Lourenço Marques, "a cidade", hoje vai da Baixa à Machava ininterrupta segundo me contam, cresceu mais depressa que a memória dela e de como a alimentei, tanto nome e de tão pouco tantos se me recordam... Este jardim precisa de ser regularmente regado, assim, "a seco", para recordar-me que sei hoje muito mais sobre Moçambique ou Lourenço Marques, o colonialismo e a resistência, etc e tal, que quando de lá saí há três décadas atrás. E não, não é só pela idade: daqueles bairros todos, eu, 'conhecer-conhecer', talvez pouco mais de metade...)

Em casa era como em todas as casas, uns dias assim e outros assim-assim. A minha disciplina e aproveitamento escolar rondavam fraca percentagem e rapidamente foi imposto um regime misto: aulas nocturnas e emprego assegurado em ágeis providências paternas, no louvável intento de dar um rumo de avenida à esburacada picada do meu futuro adivinhado. Nem meio ano depois estava a sinalizar a compra duma motorizada, passado talvez outro arrendava a meias um apartamento com o grande amigo de escola e agora também colega de trabalho, o Luís, igualmente exilado para os redentores rigores da vida de trabalhador-estudante pelas tais sagazes providências paternas, e que casavam na perfeição com a certeza de que qualquer actividade que fosse nocturna era sempre mais atraente que a sua versão ensolarada, mais adequada para outras coisas como por exemplo trabalhar e ganhar um ordenado, sacra independência económica e intuitiva mãe de todas as outras. Até o fim da masturbação se tornava mais visível no húmido e sedutor horizonte, graças à magia conjunta da motorizada e das calças novas, o bigode, a barba e a mosca crescendo dia-a-dia, e as muito importantes ‘lecas’ no bolso que davam acesso a prazeres como jantar fora, a ida a uma discoteca, uma camisa cintada… enfim, tudo perfeito! Ou quase.

A farsa das aulas nocturnas durou um ano num colégio particular, “Instituto José de Amorim” de sisudo crisma, e algures no quarteirão entre o Rádio Clube e a Av. 24 de Julho, perto do consulado britânico e da cervejaria ‘Cortiço’, e rapidamente o pater familias anuiu a que o “horário único” laboral que tinha, das sete à uma, sucedesse como actividade única, e eu ter um emprego já não era nada mau: um futuro como manga d’alpaca expunha-se como atractivo entre vários e bem sortidos cenários alternativos. Vida escolar assim abreviada e supunha-se terminada, rejubilava pessoalmente cada etapa vencida. Passava tardes no cinema e vagueando pelos cafés, muitos de cadeiras bem conhecidas enquanto cumpri outro ritual da época, que era neles estudarmos, principalmente em vésperas de pontos e assim pretexto não contestado familiarmente para uma saída nocturna em dia de semana.

Assim que tive a motorizada, nas deliciosas tardes livres ia à praia ou perdia-me em longos passeios pela cidade, descobrindo-lhe as curvas e as intimidades, o que inclui os desvarios dos idílicos e sempre insatisfeitos anos adolescentes, as atracções pelos proibidos da moda, rebeldia que em jeito de consolação e condescendência em casa própria digo-a igual a ontem, hoje e amanhã.

Então em absoluto, Lourenço Marques era o centro do meu mundo e o romance de viver era como se lido às escondidas, à procura das páginas proibidas, lânguidos beijos e múltiplas paixões escandalosamente contadas na sua sagração carnal, mas o pôr-do-sol benzia a inocência de todos os pecados se visto do jardim perfeito e com o forte aroma da suruma circulando de mão em mão, o horizonte brilhando em cores especiais nessa paleta única do ocaso do dia africano. Assim eu namorava a cidade.
Cresce-se, acasala-se, ambienta-se. Nas dúvidas inventam-se certezas na luta de sobreviver a nós mesmos, e como somos tanta vez autofagicamente vorazes… No amadurecer descobrem-se seivas que ajudam a sorver o quotidiano, remédio ainda em uso. Do bi-migrado construiu-se o integrado; mas quando os dias empalidecem e as noites correm lentas, os olhos encontram na memória cantos e cantares que não morreram. Da árvore que trepei, sonhando o cimo da sua copa, sobra em silêncio uma lágrima que não a esquece.

Quando estabeleci o compromisso de recordar e escrever este livro, recordar-me, estremeci. Enquanto mentalmente ia coleccionando imagens do álbum e pensando em como me ia desenrascar, os olhos encheram-se de cores, vi-me e li-me como nos calções e boné, a pasta escolar abandonada debaixo da árvore e de bruços em volta dos berlindes, dos carrinhos com um botão colado com chuinga que deslizavam invencíveis na borda do passeio. Das mangas roubadas e do tilintar das pedras que caíam nos telhados dos vizinhos, às vezes até no do dono da mangueira, e do correr pelos caminhos estreitos, labirintos de areia quente e paredes em caniço que davam a largos onde havia sempre uma cantina que vendia gelo-doce, à porta mamanas (10) a vender amendoim torrado, amendoim com açúcar, maçarocas assadas… Provavelmente vendiam mais, mas do feijão e das latinhas de azeite ‘Gallo’ (11) de um litro não me lembro, recordo é o sabor das mangas roubadas, dos jogos do paulito e dos pavilhões ao ar livre que eram os passeios depois de jantar, onde nos digladiávamos em fabulosos jogos de básket (12) nas melhores tabelas do mundo, a árvore e aqueles aros de barril pregados onde desse jeito, os jogos dois-a-dois em que se fintava e metia-se golo no redondo no cimento do passeio onde de dez em dez metros nascia uma árvore, e assim era a minha cidade. Sorrio aos serões quentes, passados em intermináveis conversas sentados nos muros, descobrindo a vida e os futuros mistérios pela técnica de quem inventa mais, eu penso-me e quando penso em África vejo o caniço e o cimento, a cidade. Ao pensar ‘África e eu’ primeiro penso-me em miúdo, nela.

Cresci na cidade mais bonita de África, Princesa do Índico, Pérola do Índico: bela. Tantos o diziam, e eu que a amei tanto que só hoje o percebo, conheci-lhe sabor ilimitado, o urbano alcatrão e cimento e o subúrbio da areia quente e dos quintais entre caniços. Amava percorrê-la na motorizada, o lento passear sob as ramadas que faziam copa às ruas, o longo ronco do motor e do meu peito em avenidas sem fim, camisa aberta ao vento e a todos os cheiros que ela, pródiga que era, me trouxesse.
Cresci em harmonia, e releve-se a parte académica por favor: houve tempo para corrigir. Nem contam as quedas em curvas onde o óleo dos machimbombos (13) as induzia, até o alcatrão era suave, tanto que se derretia quando o Sol explodia naquele seu apogeu que tem o fim mais belo do mundo, o pôr-do-sol no sul de África.

Era um momento sagrado do dia, uma intenção que só não se cumpria se uma emergência acontecesse ou a preguiça encontrasse outra desculpa: ao cair da tarde, no jardim fronteiro ao imponente liceu principal da cidade, na zona alta e lá em baixo a baía e o desconhecido no horizonte, mesmo aos pés e no fundo das barreiras o final da baixa fervilhante de bulício, a Feira, a FACIM (14) – esse local mágico que acontecia uma vez ao ano e onde se enchiam sacos de plástico de catálogos de sonhos com rodas, comiam-se óptimas bifanas à borla, e ao lado o verde da mata do Zambi (15) mantida para futuros jardins, um lago e barquinhos namorados de mão dada. Tudo aos pés do Sol e ele sorrindo vermelhusco, afogueado por mais um dia a mimorar a sua Princesa. Àquela hora e visto dali era mágico, haviam labaredas nas nuvens e a água tudo reflectia, o círculo de fogo gritando a paleta de emoções de dizer-se e ser-se África. Éramos sacerdotes dum ritual irrepetível: também com marca de época, mas a beleza do beijo final do Sol à baía e à cidade era uma carícia especial, e a tela só perderia em beleza para outras princesas, as miúdas da cidade.

O mundo ajusta os seus ciclos e o colonial fechou, o longo tabuleiro mundial ajustou peças e, na revoada formada, fugiu-se-me o pôr-do-sol. Sei lá se fui colono estatisticamente, eu que nasci ‘cá’ mas amei crescer ‘lá’…! “Colonialista” em maneiras de definição clássica não fui, e fui tão parvo como me apeteceu e tive quantas paixões como as que me lembrei, joguei à bola no caniço antes de saber andar de mota, cresci feliz à beira duma avenida famosa que Zeca Afonso cantou, numa ilha de cimento que me deixava mergulhar as sandálias na areia mole, roubar mangas e atirar sacos de água aos motoristas dos machimbombos, e certeiros rolinhos de papel, dardos meticulosamente preparados e soprados por tubos de plástico que se arranjavam nas obras, e, felizmente, foi numa cidade africana que os meus papagaios de papel subiram ao céu porque lá voaram mais alto certamente. Impossível esquecê-lo.

Hesito muitas vezes na distinção entre saudosismo e nostalgia: confesso que receio cair no mar morto do primeiro, e interrogo-me sobre a segunda. No meu caso e no de muitos de iguais memórias, quando “pensamos África” associámo-la com duas, três décadas atrás, e tanto que esse tempo é. Nós não somos os mesmos. Se fôssemos outra vez miúdos não tínhamos papagaios senão de plástico, e nas praias dos Verões. As pessoas têm telemóveis para se chatearem continuamente umas às outras. Também agora lá é assim, ao que ouço. Então porquê África diferente, porque este sorrir que se formou quando comecei a escrever? Sabem, disse-o há pouco, e seria poético demais dizer que a diferença está no pôr-do-sol: isso é pouco para contar do dormir numa praia, da interminável savana e do cheiro das queimadas, de como um romance de aventuras sabe melhor lido em África, naturalmente mágica e mãe de mistérios. Por isso acho que tenho direito à saudade de tê-lo visto naquele jardim e ter-me apaixonado pelas suas cores, ter sentido África no ar quente que me deu o oxigénio, e nas chuvadas de balde das primeiras desilusões nos grandes amores. E à nostalgia de mim, também; da felicidade de ter crescido assim. Olho África e esse meu passado em harmonia, deixo-a invadir-me pacificamente o quotidiano quando o olhar vagueia, moureja por ancoradouro que traga um sorriso ao crispado dos anos, há um suspiro de memória e um salivar pelo cheiro do milho nas brasas, pelo sabor duma manga verde com sal, há o olhar que se perde e nunca mais se encontra, há esta coisa boa de, aos cinquenta e tais, recordar o jogo do paulito e do n’tchuba (16), aquele das covinhas e das pedrinhas, o capim que bordejava os carreiros que haveriam de conduzir a algum lado, o cheiro da terra húmida após chuvada.

Não sei se lá voltarei, se calhar para aquilo que fazem os elefantes quando abandonam a manada. A vida trás raízes múltiplas, e quando penso num regresso à África onde vivi, à cidade onde cresci, odeio imaginar-me qual turista um tontinho de máquina fotográfica na mão fotografando as memórias, afinal tão vagas que não reconhece tanto como julgava e, não tarda, estaria a fotografar cinemas fechados e cafés que hoje são lojas de telemóveis, catedrais, a comprar postais ilustrados. Não.
Mas há cá um canto que bule, que volta não volta enrola o pensamento nas mãos e aquece-o, são os momentos em que a herança cultural africana que me deu um bafo em miúdo espreita, tentadora. Estou bem com o meu passado, olho-o com ternura, até. Tão igual ao de qualquer outro miúdo, seja em que chão for, mas com a diferença contada: a cor do pôr-do-sol e a avenida com a areia solta ao lado, o bar de putas em frente e os pirolitos e o gelo-doce (17), os prédios que faziam cócegas ao céu, o aventurar para fazer duzentos quilómetros em areia numa motorizada para ir a uma praia, o dormir ocasional num recanto qualquer ouvindo os sons da noite, poderosos no imaginário. O galho na árvore. Isto que foi mais-valia do meu início consciente, porque não buscá-lo de novo, nas novas realidades, tal como é novo o Outono quando a idade nele nos mergulha? Penso-o muita vez e este escrever reavivou a lembrança grata, e é com gratidão que agora escrevo, sem exagero algum comovido, obrigado África pelo que me deste e continuares no meu imaginário.

Por vezes costumo dizer, a título de desabafo apressado aos que me questionam sobre a minha dualidade de sentimentos – europeu por nascimento e posterior adopção, africano por vivência e paixão, que quem foi beijado por África nunca de tal beijo se esquece. Eu não fui beijado, foi mais profundo. Fui seduzido em corpo e emoção, e desse amar violento guarda a memória carícias de que não me evado nem emigro, é tão envolvente como o é uma paixão. E que se vive no remanso do silêncio, até um dia…
Em que a caneta se torna insuportavelmente lenta para contar. Em que se pára, o olhar preso na tristeza de tão pouco teclado para tanto que há para compreender. Eu amei aquela cidade à exaustão, e emocionalmente estou exaurido pela separação. Perdoar-me-á algum dia? As esquinas recordar-me-ão? faremos amor novamente, que era uma posse amorosa contínua o que tínhamos? Namorei-te, amei-te, Princesa do Índico… e, cá de longe, do tempo, lamento-o e escrevo-te uma carta de amor, tão parva como são todas as cartas de amor, como muito atiladamente disse o sr. Pessoa:

Divorciamo-nos há trinta e tal anos atrás. Um amor juvenil, um namoro em que as mãos dadas e as carícias trocadas fizeram-me suspirar por mais, acasalamento e de papel passado, uma tarde rabiscado naquela avenida que desce a colina e beija-te no ventre, baixa da cidade onde o Homem ergueu orgulhosos trinta e tal andares para dizer à linha da paisagem, em grito de posse para a terra amante fiel e tolerante que tudo lhe dá e permite, que a sua ambição é grande, alta, excessivamente alta. Antes do divórcio que desalinhou o nosso entrelaçado de afagos, mesmo antes do casamento precipitado pela nossa recente maioridade, eu e tu, musa-cidade, namoramos sem fim nem jeito nas tuas esquinas que me eram familiarmente sensuais, esquecidas as convenções nas partilhas de amor que trocamos no teu sol africano, esse bafo quente que clamava por quinhões de emoções que não lhe regateamos. Era um amor doce, eram beijos sem fim trocados na suavidade da brisa que subia da baía à colina e amenizava fins de tarde tropicais, doutras vezes impetuosos no travo de sal das ondas que nos lambiam na areia macia das praias, portas do mar onde nos sentávamos, juntos, próximos, amantes, jurando cumplicidades e sorrindo ao viver. Sim, estávamos apaixonados e o nosso namoro era tão lindo como é o amor que líamos nos nossos olhos quando nos encarávamos e sorríamos, enlevados na nossa paixão. Hoje, os tais trinta anos depois mais coisa menos arrufo, ainda não gosto de falar no divórcio, prefiro afagar em mim o enlevo das carícias da memória, as mãos dadas, os suspiros e as juras que trocávamos. Compreendes-me querida? Como dizem os antigos e que muito conhecem destas coisas dos amores perdidos, não há verdades únicas nas separações e é difícil arrolar razões e encontrar culpados únicos quando os dedos se separam e deixa de se sentir o conforto da sua carícia. Quando o romance termina e esvaziam-se os dias dos calores como aqueles de que o nosso namoro foi farto, quando sobrevém às noites o frio da solidão. Não, nem as palavras de traição são aliçadas, excessivas na injustiça de tanta letra dura para contar lágrimas derramadas, o tempo que passa, a separação. Aconteceu, os deuses entenderam que o nosso romance precisava de mais provas, outro fogo que não o que nos aquecia na ânsia dos jovens amantes, e ele soçobrou; o nosso casamento, pueril, reprovou-se a tal prova e chumbou o enlace que se jurara eterno. Conheci outras cidades e outros leitos, mais amores, e valha a verdade em contar-te que, neles, também fui feliz. Noutros colos e noutras ruas também amei e o meu sorriso surgiu natural ao acariciar seios-colinas, nas águas doutras praias e na sombra doutras árvores, na crosta urbana doutras terras e doutras cidades também ternas na sua secular carícia, sapiente. Mas há estes momentos de melancolia em que olho o passado e recordo o primeiro amor e cai-me uma lágrima de saudade. Hoje, vida feita e semi-gasta, com tanto balanço encerrado e de contas ajustadas há em mim uma janelinha que não se cerra: abro o peito e espreito, vejo-te a ti minha primeira amada. Vejo-te, minha cidade. Se me olho ao espelho e tento ler as rugas, decifrar as cãs, desisto de nelas contar as desilusões e deixo o olhar perder-se no brilho dos olhos quando a memória em ternura te contempla, as avenidas e o caniço, as acácias tão rubras como quente era o nosso enlevo. Fazes-me falta neste Outono da vida, querida. Sinto a falta do teu bafo quente, o brilho do teu sorriso, da magia que era acordar de mãos em ti enlaçadas e acreditando na eternidade da nossa paixão. Desculpa-me pelo que errei, pelas minhas culpas na nossa separação. Desculpa-me. Porque ainda te amo, pelo tempo passam outras que me amam e me tratam bem mas confesso-te em letra de lei que, em mim, ainda não aconteceu amor como o nosso primeiro. Desculpa-me meu amor, Princesa, minha cidade.

Penso-o tanta vez. Assim, mais ou menos assim, com menos lágrimas ou igual. Misturam-se-me os sentimentos. Nascem-me "dúvidas existencialistas". Nada de novo para quem me conhece e atura: sou adicto a alimentar problemas que não existem. Não existem? Será?

Bem... neste caso trata-se da questão burocrática de, sendo obviamente português cá e em qualquer parte do mundo onde me desloque com a papelada que trago no bolso, se serei moçambicano em Moçambique, já que desde 2004 a sua lei da nacionalidade contempla a "dupla", que eu acho merecer e desejo ter. Questão por essência jurídica, mas seja por mor do insuficiente conhecimento, seja-o por sentimentalmente me ser tão cara que não aceito seja olhada, apreciada, discutida e decidida exclusivamente sob o olhar dos homens do bibe preto, faço-a filosófica, bandeira de devaneios e mãe d’água dum ribeiro de pensamentos. Como infelizmente é vulgar em mim, ligando o turbo nunca mais paro e toca a rebolar pelas diversas linhas de pensamento, como se elas fossem as barreiras que vão do Liceu Salazar (18) até à mata em frente à FACIM e, mesmo chegando lá abaixo e dando com o rabo no chão, ainda me farto de esgravatar à procura de mais uma palavra que me mostre a luz e seja a tal final, que sempre me vejo aflito por desenterrar pois cavo sem norte nem íman cata tesouros em completo masoquismo existencialista. O tal ribeiro aumenta o caudal e faz-se rio, e às tantas não sei em que margem estou. Nada de desanimador, até porque estou longe de ter a mala feita, e se peço conselhos avisados ouço sempre dúvidas sobre a legitimidade do meu sonho, pretensão, dir-se-á, quer pela desilusão pessoal de quem fez a viagem dos mamutes e dela regressou desiludido, também pelo avançar do burocrático pormenor de não ter nascido lá – o ramito enxerto colonial, recordo. Estas linhas de argumentação deixam-me perplexo e até um niquito triste. Porque eu acho que a nacionalidade sente-se primeiro de tudo. Um analfabeto que não saiba ler as palavras inscritas no seu Bilhete de Identidade e que atestam a sua nacionalidade, não o é menos lá dentro que aquele que as lê de trás para a frente.
Acontece que eu também me sinto português, e com a suficiente aclimatação e orgulho de que não querer prescindir de sê-lo. Só a opção “dupla” satisfaria a dualidade sentimental. Há uma vida de razões: toda a minha formação cultural, familiar, académica, foi sob essa bandeira, costumes, qualidades e defeitos. E não desprezo os meus últimos trinta e tal anos cá residente, tal como, embora mal disso me lembre, os primeiros sete, também 'cá', que não deverão ter sido maus pois é a idade em que o conceito de mau ou bom tem suporte fácil por naturalmente infantil, assim a melhor idade de todas: sem preocupações que vão além das brincadeiras e de amigos para elas, uma ou outra esfoladela nos cotovelos ou nos joelhos, sentindo-se como nunca mais se repetirá a segurança e conforto de ser-se parte duma esfera chamada ‘família’, e ademais os desgostos de amor ainda não brotaram.

Acontece que me sinto igualmente moçambicano, embora de forma que por vezes se me afigura como confusa: quando sobre isso matuto temo estar a misturar sentimentos e na mesma panela caldeirar duas nostalgias que são distintas, pese a sua génese e existência terem sido comuns - talvez por isso: a do eu-jovem, que se foi irremediavelmente à excepção de quando me forço ao engano e, psicóloga folha em frente, escrevo escrevo e escrevo sobre o Eu menino e moço, revivendo, efabulando até pois à distância do tempo os pormenores têm a dimensão com que os acarinho e não a do momento em que foram vividos, e em anexo certamente imbuído dos mesmos tiques e lentes vêm os sentimentos nacionalistas, mesmo sendo emoções só misturáveis até certo ponto, como as são: posso exagerar no relato das derrapagens controladíssimas que fazia na minha motorizada sem ferrar com o rabo no chão, mas sei que não exagero quanto ao alvoroço emocional que senti e vivi com o início da revolução portuguesa, e me mostrou todo um mundo intelectual novo, sendo o ananás na fruteira a consciência do nacionalismo moçambicano como indesmentível opção de coração, e que tudo era possível pois tudo se ia construir de novo, sentindo o desejo de ser parte, peça, dessa construção dos sonhos, demais a fase de transição política vivida num red-line que foi delicioso como sensação de liberdade e casou na perfeição com a idade vivida, mais os quase seis meses após a independência oficial de Moçambique, altura da mala feita e zarpar: nesse período fui tão moçambicano como qualquer outro que desde a 8ª geração lá tivesse a famelga toda nascido e crescido: o meu amor e convicção eram iguais e sentia o peito rebentar de orgulho.

Depois - e estou farto de contá-lo e contá-lo, já chega e não me dou ao trabalho de meter mais mãos ao peito - somaram-se desilusões variadas, tantas que o bolo levou tanta camada que foi-se tornando intragável a cada mordida diária que lhe dava, até que desci armas e engoli o orgulho, juntei-me ao formigueiro de amigos e conhecidos e cá vim parar, Mavalane way (19). Nas oito ou nove horas de voo não tinha certezas de nada. Nos trinta anos e picos após a aterragem ainda assim estou. Estou dividido e, ao que sei, já há desde 2004 solução para patologias como a minha: papelada em ordem e adquire-se o consolo apaziguante da dupla nacionalidade.

Por tudo isto interrogo-me sobre o que é isso da "nacionalidade". Não me entendo. Nasci 'cá' como bebé chorão, cagão e mamão, mas foi ‘lá’ que me formei, qualidades e defeitos personalizados e o indelével carimbo africano. Com os acertos contínuos pois viver é um processo continuado de aprendizagem e por ‘cá’ ando, nesta 2ª volta, há tantos anos como dito. Mas a base da instrução que deu o gajo porreiro ou o sacana que hoje sou foi lá ministrada. Dos sete aos vinte, altura em que os poros absorvem tudo o que apanham e entranha-se no crescer. Depois muitos cansam-se e fecham-se de barriga cheia e umbigo brilhante, gordos, mafutas (20), convencidos que já aprenderam o que necessitam. O melhor exemplo é o 'bronco', o uga-uga que parou a sua evolução assim que deixou de levar nas orelhas em casa, reguadas nas aulas, ou começou a 'cortar-se' a uma valente bulha no pátio da escola - tivesse então essa que nome fosse, pois bulhas há muitas e tive algumas formativas mesmo que sem caneladas ou murros no ar circundante às trombas do 'adversário'. Com muito pouca humildade, e que a havê-la seria estúpida por negar o crescimento constante, evolutivo, digo de mim que mantive pelo menos fifty-fifty dos poros abertos, além de às carícias das belas também aos beijos e beliscões da vida. Coleccionei o que é de coleccionar e rejeitei o que entendi ter de sê-lo - mas com os critérios baseados no tal núcleo matriz, a aprendizagem dos "primeiros verdes anos". Daí a pergunta recorrente «afinal onde é que eu 'nasci'?», qual a nacionalidade matricialmente identitária, não me repugnando em nada o reconhecimento da influência das duas.

No fundo migrações de mim. Quando pensava que o ciclo estava completo, e as cãs induziam a um manso Outono, nasceu a terceira migração. Evadi-me ao quotidiano, despi-me de mantas e de anos e renasci noutro, sendo que dele não houvera prévia noção. Pela palavra reconstruí-me e nela encontrei novo abrigo, viajei dentro de mim e saltitei feliz na sua construção. Migrei para um mundo novo onde a árvore é tão bela e tão frondosa, que leio-me incapaz de dela colher todos os seus encantos. Sonhei-me ‘escritor’ e desunho-me na folha branca para alcançar o ramo de ‘autor’. Este é o meu terceiro país e de todos o passaporte que beijo com mais calor, pois nele coexistem os outros e todos os mais que eu queira, reais ou imaginários. É finalmente a árvore cuja sombra me dá descanso, são as folhas que me cobrem e afagam os frios da vida, os frutos que alimentam o já premente empalidecer. É este o meu mundo. Migrei para a palavra e nela leio a minha nacionalidade, nela recrio e releio todas as outras do passado. Migrando pela vida, construí a minha realidade.

Entre outros significados, o dicionário aponta à palavra migração o de: “viagem de dois sentidos, feita por certos animais em épocas periódicas e regulares”. Acho que cumpro a definição. Sem deixar para trás traições ou desamores completei o círculo e por acidente histórico regressei à minha terra de origem, de onde migrara no tempo dos calções e dos joelhos esfolados. Finalmente, em construção escrita tracei passos e estendi carícias, nos seios da escrita alimento o respirar do ocaso. Parecerá soberba, mas atrevo-me a dizer que pelas migrações realizei-me, e hoje e por elas reclamo lugar ao meu sorrir. Resiste a dúvida: vivemos nas ilusões que criamos ou, migrando nelas, recriamos o viver? ao encontro da nossa própria sombra, do nosso galho, a nossa árvore?

Parei de existir, olho o teclado. Pairo, um cordão preso a um pé para não me deixar levantar muito e permitir ser puxado quando me calhar voar: lembrei-me dos papagaios de papel, no gosto que dava fazê-los, arranjar o caniço perfeito, resistente e sem lascas, o papel, a fita para o rabo do lastro onde lá calhava dar largas à imaginação e não eram só laçarotes que depois voavam, ondulantes. O fio. Lembro-me sempre do fio. O meu pai em África foi padeiro, "industrial de panificação" em nomenclatura de cartão-de-visita, e eu pedinchava-lhe grossos rolos daquele fio em que as sacas de farinha vinham cosidas, bem resistente, e uns bons dois metros e tal em cada saca pois ele cosia dobrado. É que desde que o papagaio voasse - e depois é que vinham as afinações ao lastro para o estabilizar, etc, - o truque que fazia a diferença era o tamanho do fio. Quem não se recorda de meter a mão em pala para olhar um papagaio que se perdia no céu, pequenino e gigante, tão gigante que se perguntava «de quem é?» e depois vinha a correria do «'bora lá ver!» e, lá na ponta mestra do fio, numa mistura derretida entre o orgulho e o à rasca, havia um puto (e também uma ou outra vez eu) que segurava a linha e sentia-a como a tarefa mais importante que naquele momento se passava em todo o mundo, "ele" aos comandos tal como doutras vezes se teleportara para o cockpit dum jacto, nas sombras das noites mais quentes correra escondido ao longo dos muros do prédio, mochila a tiracolo cheia de pilhas velhas-que-eram-granadas e uma lanterna na mão, um molho de pedras no bolso e entre a camisa e o calção a pistola que fora dos cow-boys quando ele era miúdo, ora, de facto e nas sombras da noite um temerário guerreiro que zelava pela segurança do prédio, da família e dos amigos e dos vizinhos, perante ou o pesadelo dos 'turras' de que ouve falar, ou sobreviventes dos nazis das revistas e tenham estado escondidos, e ele vai-os "caçar", infalível, imortal, o herói, que durava até soar o odiado «ó Carlitos! ó Carlitos! anda para casa que já está muito escuro, anda-te deitar ó Carlitos!». Regresso à base-Terra.

Papagaios. Pairo. Quem me dera ser águia de teclados e agarrar o cabrão deste papel, fugidio como o papagaio quando apanhava ventos acima dos topos dos prédios, das árvores. Árvores: o terror deles, assim como os fios dos postes - mas esses eram mais ao pé da estrada: nos terreiros internos do bairro se os havia era só em linha única, e sobrava a escuridão. O fio enrolava-se no pau em dobra em ‘oito’, e quanto mais fio maior era o artefacto, e mesmo nessas minudências o tamanho do joystick impressiona ou da fama não se livra, e o peito inchava de satisfação e temia-se simultâneamente que algo corresse mal. O pior de tudo, que era o papagaio nem levantar voo; mas esse fracasso imputava-se sempre ao primeiro candidato a «depois deixas segurar um bocado?», que ficava com a missão de se esgadelhar a correr com o papagaio levantado no braço, coitado que à conta do desejo de segurar os comandos por «um bocado» servia de motor e desculpa para os erros de construção... O caniço principal, o vertical, teria entre o meio metro e os setenta centímetros, pois isso de construírem-se super-papagaios é treta: ficam tão pesados que nem dois 'tractores' simultâneos - e em dia de vento..! conseguem que ganhe velocidade e altura para, por si, se elevar. Depois o horizontal, que completa a cruz, terá metade e mais um bocado, e o rabo do lastro, que pesa e bem, tem de ser comprido q.b., ou seja é cálculo que se extrai pelo método da experimentação e comprovação científicas: quando estiver no ar, tira-se e põe-se, "afina-se". Mas nunca é menor que o dobro da altura do papagaio, para resultar como lastro suficiente que o estabilize lá no alto dos ventos. Além de que tem pinta vê-lo a ondular, cobra aérea que morde o papagaio e enche a paisagem no seu dançar hipnótico. O papel obedece como tudo aos factores peso e resistência, mas em inverso. O de embrulho, pardo - não confundir com o usado para o bacalhau, rude e sem mais jeito que para o salgado e bilhetes "fui à loja e não demoro, não desarrumem" – será de tipo 'de seda' e onde se farão desenhos cuja visibilidade é incompatível com a glória do seu suporte, que era voar até "ficar longe de vista", Peter Pan disfarçado antes da massificação Disney e quando ela era o regalo de Super Pateta contra o Mancha Negra, os queridos irmãos Metralhas (adorava o 1313 ..!), o cofre do Patinhas e mais a mítica moeda nº 1 - hoje há o Euro Milhões, é (-me! -me!) substituto da BD? - e nas patinhas gostava da vovó Donalda pois gosta-se sempre das avós, além da namorada do Peninha, uma pata freak que aparecia em poucas aventuras mas ronronava quando a via. Nunca gostei muito dos ratos, e se não entrasse o Bafodeonça às vezes, essas, nem as lia. O Peninha era dos fixes e o profº Pardal um engenhocas maravilha. Sabem que tudo que ele inventou era absolutamente claro e viável, crucialmente indispensável à vidinha e ao mundo, e foi brilhante ter-se lembrado disso, tão óbvia era a sua viabilidade técnica e necessidade social? Sabem, claro. E o Super-homem existe, tal como os papagaios: é preciso é desenhá-lo - construí-lo. Depois é voar, dar-lhe fio, por vezes puxá-lo e até dar uma corrida para forçá-lo à resistência do ar e ele trepar por aí acima, pela vida... e comandá-lo quando começa em loopings - mau sinal: rabo mal calibrado... - a ameaçar um mergulho directo a um telhado, uma copa, um galho mais uma vez quebrado e um chão sabe-se lá onde, metros e metros de fio enredados por tudo o que é crosta abaixo do céu que o papagaio dos sonhos recusara. Mas quando se eleva não há puto mais feliz em toda a rua, não há impossíveis e o céu fica à mão, paira-se junto com ele, o rabo e os laçarotes e toda a tralha ondulando, a vida conversando-nos interminavelmente como as ondas namoram a areia.

Fio, preciso de muito fio. Sempre. Aprendi-o nos terreiros da Mafalala, as sandálias deixando entrar a areia quente enquanto corria e o meu papagaio voava.

A minha passagem pelo Liceu António Enes (21) foi fugaz por razões que oscilam entre a traquinice exagerada e umas coisinhas que omito pois os meus filhos ainda podem vir cuscar o livro do pai. Quando escrevinho recordando o meu passado laurentino (22) a minha memória do LAE é já difusa pois ‘transitei’ para Escola Joaquim de Araújo (23) após subtil sugestão da reitoria do LAE aos meus pais... bem, mas essa é a tal parte que não a conto a não ser com sentença judicial e sob tortura, perdidos todos os recursos possíveis.

Mas, esgravatando, até que me lembro de alguns episódios no LAE onde passeei os books dois anos e onde a minha irmã era ‘dos crescidos’. Começo pelo pior: foi lá à porta, naquele terreno tipo baldio mesmo em frente da escadaria, do outro lado da estrada, que levei um enorme arraial de porrada, provavelmente o maior até hoje (felizmente), uma daquelas histórias entre putos que depois já não se sabe como nem quem começou, mas ficou no ar público aprazado combate fora do recinto da escola e no fim das aulas. O incidente entre eu e o meu algoz deverá ter-se passado logo à entrada ou no primeiro intervalo, dedução que obtenho do peito feito que então fiz e mostrei, ao desafiar para umas lambadas 'a sério' um matulão qualquer que me pisou os calos ou eu a ele... Na verdade e lembrando-me, conforme as aulas iam passando e a cada intervalo, aumentavam os olhares de pena que me eram dirigidos e nos corredores ou no pátio era apontado a dedo com olhar de dó e aquela curiosidade mórbida, então já latente em nós, putos e pitinhas, de saber quem era - e ver-lhe a cara..., a anunciada vítima do massacre já apregoado por todo o liceu... É que o outro era - e não estou a justificar o arraial que levei, não!, um bom palmo maior que eu, além de demasiado bem entroncado ao lado do lingrinhas caixa d'óculos, eu. Quando saí e desci as escadas fronteiras eu não imaginava que descia para o cadafalso: eu fazia-o de facto: é que fi-lo entre duas filas de salivantes espectadores e quando levantava os olhos do chão era para ver na outra extremidade, já no tal terreiro, o meu carrasco pronto para a exibição do século: já estava sem camisa e eu, mesmo míope, já imaginava mais que via músculos a mais para os poucos que eu admitia aguentar... Bem, como o resultado era já antecipadamente conhecido fui-me logo a ele e - espero que a memória esteja correcta, em defesa da minha honra! a primeira foi minha e acertei-lhe. Depois... ok, depois as coisas começaram a correr mal a uma velocidade excessiva, acho que deixei de ver as caras que me rodeavam quando dei a talvez quinta volta no chão, até que a minha irmã apareceu, avisada por alguma inimaginável alma caridosa de aluno – coisa rara, convenha-se, e conseguiu safar-me do maior arraial de pancada que levei em toda a vida. Permito-me aqui fazer uma pausa para repetir o já falado "felizmente".

E do LAE recordo, sei lá se no primeiro ou no segundo ano que lá andei, na estrada que passava entre o campo de básket e as barreiras, num descampado ao lado duns prédios, uma explosão de granada e, contou-se, morreu o ‘terrorista’ que a transportava. Vivia-se no tempo em que o 'terrorismo' era o diabo colonial e a explosão até poderá ter sido por um acidente, algo do género: muitos militares após desmobilizados traziam consigo material de guerra desviado aos direitos, como soe dizer-se. E até quando de férias na capital provavelmente alguns lembravam-se de meter umas 'castanhas' ao bolso, nem que fosse para se armarem aos cucos junto dos amigos do antes-tropa. Bem, sei lá se verdade ou boato, porque pegado ao Liceu existia um grande quartel militar, a história correu então assim e lembro-me de se apontar para umas manchas na parede exterior do tal prédio ao lado do qual a tragédia aconteceu, e para as árvores perto, apontarem-se as manchas e gritar-se «sangue!», alvitrando-se tudo o que fosse susceptível de parecença ou confusão e gritar-se ainda mais que aquilo eram pedaços de carne humana. E se calhar sim, até era sangue e carne do desgraçado que rebentou a ameixa nas próprias mãos. Sei lá. Mas nesse dia já não houve mais aulas e fomos todos mandados para casa. Uma história da história do Liceu António Enes...

Também se me recorda um “ganda maluco” - há-os sempre em qualquer escola que se preze! e que por via duma aposta, daquelas apostas estúpidas que se fazem quando a parvoíce é a forma excelente de viver «não és homem nem és nada se não fizeres isto ou aquilo», o grande doido saltou da varanda do segundo piso, e se o pé-direito dos andares do LAE era pequeno..., para um pátio interior arrelvado. Claro que partiu os dois tornozelos e houve peregrinação ao local onde, supostamente mas não contestado por ninguém! viam-se as marcas dos seus pés marcadas na relva. São assim os heróis, não é? E se nessa idade temos tendência de acreditar neles, em imaginá-los como bem reais e nossos conhecidos... Da lenda consta ainda que antes do salto que lhe deu acesso aos anais, ter ido informar-se com o professor de ginástica em como se devia 'cair bem' após um salto; e dizia-se em defesa do Herói que ele até fez tudo bem e deveria ter saído da aventura como o novo Vice-Rei da cidade, incólume, e isso só não aconteceu, o incólume, obviamente, porque cometeu o erro xis e o erro ípsilon, que logo juramos que nunca faríamos se um dia tivéssemos de nos submeter a tal prova de masculinidade, que nos abriria as portas da glória. E abanávamos a cabeça que sim, todos muito entendidos nessas coisas de saltar dum segundo andar. Já não me lembro do nome do herói mas recordo-me da história do salto, episódio também da história do LAE.

Lá conheci a Alice, o meu primeiro amor. Soe dizer-se e é romanticamente bonito que não há amores como os primeiros, embora o cavalgar a vida com preferência por cavalos brancos nos mostre que não é bem assim. Mas, facto, a Alice era a pitinha mais linda em toda a cidade. Brigava então e brigo hoje com quem o negar, juro. Gosto de recordá-la e deixar os olhos sorrirem ao lembrar os rubores que senti quando ela me olhava, indecisa entre o trocista e o amigável; do terno que era estar-se perdidamente apaixonado com dez anos, mas ser tão tímido que caso ela me dirigisse palavra morria de facto e de jure de imediato. É bom recordar, nem que seja o processo de sedimentação de burrice congénita, voilà.

Sei lá já como nem porquê me meti ou meteram nisso, mas foi no LAE que fiz o curso de "chefe de quina" da Mocidade Portuguesa (24), que me deu muito jeito quando fui emigrado para a Joaquim de Araújo e, mui prazenteiramente, livrei-me de marchar na minha turma aos sábados de manhã pois, insensatos, na estrutura de lá da MP, quando souberam que era “ch-d-q” deram-me uma turma inteira (a mim!!!) para 'comandar'... Caramba! Nunca na Araújo houve malta mais acertada e disciplinada a marchar como a minha turma era, e isto até virarmos a primeira esquina e, em posição de sentido e após rápidos olhares em volta para ver se havia mouro na costa, ouvir-se o mais célere «destroçar!» que as manhãs de sábado da Araújo alguma vez ouviram, por certo... Era um ala que se faz tarde e, lá por trás, pelo lado das oficinas, raspava-se tudo o mais depressa possível e havia toda uma manhã de sábado à nossa espera... Não podíamos era ficar lá dentro pois trinta putos desenfiados dava mais nas vistas que a falta duma turma inteira a marchar. Seguia sempre para a Baixa e passava horas com os sonhos colados à montra da Casa Vilaça (25), vendo os Matchboxes, os Corgi e os Dinky Toys. Ou ia ao John Orr’s (25), do outro lado da rua, e cheguei a conseguir que me dessem catálogos dessas miniaturas, com fotos das colecções inteiras, que lia e relia até materializar em sonhos todos os prazeres que a sua posse - virtual, sim, é verdade; mas que sonhava, isso...- me daria. Correcção obrigatória do tempo verbal: dava: sonhar intensamente é viver os sonhos, possuí-los, materializá-los em mãos cheias de felicidade.

Houve uma altura em comecei a temer que alguém estranhasse um puto fardado andar desenfiado na Baixa à hora em que deveria estar a marchar e a dar ordens de «à esqueeerda! obli....quaar! 'êrdo, 'êito, óp-eis, 'squerdo! 'eito! óp-eis, 'squerdo!", e tinha uma severa desconfiança que naquele mundo gigantesco da baixa de LM (26) dos adultos, as minhas divisas de chefe de quina não serviriam para me safarem se me inquirissem. Comecei a atravessar a rua para o outro lado mas não me escondia nos Correios ou no café Scala (27). Não evito um sorriso quando lembro que ao fim duns tempos eu já não atravessava a rua para me esconder: quando chegava à Baixa, desenfiado da MP aos sábados de manhã, entrava directo na Biblioteca e alarguei lá a minha capacidade de sonhar anos que, indubitavelmente, eram muito mais propícios e dignos de qualquer outra parvoeira que de... marchar.

Bem, mas esta já é história dos tempos da Joaquim de Araújo, embora as divisas tenham sido 'ganhas' no Liceu António Enes. Dele lembro-me de pouco mais e não me recordo dos profs, menos ainda dos seus nomes. Talvez haja por aqui uma memória do de ginástica, já com umas cãs brancas e com óculos. Bom tipo, gostava dele embora eu fosse um nabo em desporto. Com ele ganhei gosto pela ginástica e já não sei se quando fui para a Araújo ou mais tarde, inscrevi-me nas aulas de ginástica aplicada do Clube Ferroviário, onde andei dois anos. O prof. era o sr. Abranches, um ex-praticante que tinha um ‘caparro’ de respeito. Andavam lá o Agostinho, o Néneco, o Júlio, sei lá quem mais. E o Cândido de Azevedo era então 'star', Cândido que vim a encontrar pelo Ribatejo nestas décadas depois. Gostava da barra fixa e das paralelas e detestava o cavalo de arções e as argolas, já fazia o “flic-flac’ mas nunca dei um mortal, nem com o 'cinto' de apoio. O que é que mais me lembro do LAE? Da separação por géneros nas salas e nos corredores, e que só na zona do refeitório/bar é que havia misturas que se desejavam e se suspiravam: que prazer de expectativa havia naqueles empurrões malandros que se davam na bicha e ninguém fugia à deliciosa confusão de corpos comprimidos contra corpos, havia um brilho especial nos olhos e as gargalhadas eram fáceis quando se ia para a bicha das senhas no bar, na demanda do chocoleite e da arrufada.

Lembro-me bem dos campos desportivos: sempre preferi o basquetebol e por ele ia mais para o do fundo do pátio, mas, no outro mesmo em frente à porta de trás, talvez a meio do terreno dos pátios, no campo de futebol/andebol que lá havia, alcatroado se bem me lembro, fui elemento equipado duma putativa equipa de andebol que levou uma trepa tal no primeiro jogo que nunca mais fez nenhum. O prof. exigira que as turmas se organizassem em equipas de andebol de sete para um mini campeonato interno. A minha equipa, os que sobraram após todas as escolhas feitas, não fez um único treino e, suspeito, todos ou quase todos sabiam de leis de andebol o mesmo que eu: zero. Descobri em próprio jogo que além das mãos não se podem usar os pés (quem diria uma coisa dessas? que raio de ideia, e nem avisaram...), que não há contacto corporal como no rugby e, havendo-o, que o alcatrão é danado para os cotovelos e os joelhos. Ao intervalo já estariam uns vinte a zero, ou coisa parecida. Foi memorável e ainda hoje tenho comichão quando leio uma notícia sobre andebol: há coisas que ficam para sempre: tecnicamente os profissionais chamam-lhes "traumatismos".

Bem, se calhar outro dia recordo-me de mais. Mas acho que não. Como disse ao princípio deste bocadinho de conversa eu mal me lembro dos tempos do LAE. Ah! há ainda outra história: a da caderneta de cromos de aviões de guerra! Passada com o Jorge, meu compincha e que era da Matola (28), e ficou com o álbum no fim do ano escolar embora a colecção tivesse sido feita pelos dois. Esse malandro vim a encontrá-lo pela Internet uns quarenta anos depois: vive no Canadá. Pedi-lhe contas da 'nossa' caderneta. Nas palavras dele, em 1975, quando a família saiu de Moçambique, deixou-a lá, na Matola. Ainda bem, desejo que outro puto tenha sonhado, desfolhando-a. Mas sem “surras”.

Legitimamente cansado de tanta escola rebusco como encher o tempo, dessalinizando-me, desidratando-me daquele sentir. E corro para a praia da Polana (29), na zona em frente ao restaurante Dragão d’Ouro (30), que era das melhor afreguesadas quanto a atributos femininos, tão necessários sempre e naquela idade emergente dados como imprescindíveis. Havia autocarro directo do Alto-Maé até lá e julgo que era o 24. Ou esse ou outro, mas sábados ou domingos lá ia eu, por vezes com um ou dois amigos mas muita vez só. E conto-vos de quando o veludo me tocou.

Passávamos a maior parte do tempo a correr para os gelados e os rolos de barquilho (cá é "bolacha americana" e quase nunca se encontra, que saudades...), galávamo-nos em miradelas pró-namoriscadeiras e fazíamos longos passeios á beira água, e tanta vez até ao fim dos pontões onde a água crescia tanto que poucos - que não eu - atreviam-se a lá das rochas fazer-se a ela. Era pelo desfilar, uma passarelle que as pitinhas faziam regaladas com os olhares e os sorrisos. Mas éramos putos além da puberdade que nos ocupava vinte e duas horas por dia: nas sobrantes brincávamos como putos que éramos... e estávamos na praia, essa enorme banheira onde chapinhávamos alegria sendo que os patinhos de borracha éramos nós.... e elas.

Deitado na areia olhava invejoso quem tinha uma mão para agarrar, uma cintura para enlaçar. As princesas da cidade. Na areia amargurava a inveja de não ter namorada. Imaginava como seria tê-la, ser eleito e assim príncipe, e a minha necessidade de "amar" corria como areia fina quando vinha o vento lá dos lados onde seria a Inhaca (31), os paraísos, e na minha busca de ilhas de romance mergulhava ou fazia que mergulhava nas águas, pouco a pouco aproximando-me dos grupos já formados, ou que se formavam conforme as ondas caprichavam e, nas rodas, jogava-se à bola, ao chapinhar mútuo, e às guerras a cavalo. Eis o ponto, a memória do veludo.
A combinação clássica por todas as razões mais aquelas que nós, rapazes e raparigas, sabíamos e julgávamos mais ninguém sabê-lo, era o boy com a mocinha às cavalitas e por muito que as pernas tremessem e os ombros doessem com o peso, nunca houve ou há aponte que fale dum desistente ou sequer dum protesto sério, tal o êxtase do momento. Ora numa vez consegui glug-glug integrar-me num grupo, e depois de todo o resto - sim! brincar! e é tão bom! - chega a hora de ‘crescermos’ e esse crescer é tão urgente que após formados os pares previsíveis por as mãos dadas virem de longe, ficam as sobras e delas fui repescado por uma amazoninha que se encavalitou para uma guerra que só era guerra pelos gritos de alegria e pela firmeza com que as mãos do cavalo seguravam as pernas da cavaleira, primeiro e porque a confiança vai-se conquistando, só até aos joelhos e depois «ai a onda! segura-me! (rsss)» /«desculpa (rsss), não caias! (rsss)» o tacteio alcança o éden e nem ondas nem bola nem praia nem barquilhos nem nada ousa mexer no momento mágico que é sentir uma perna de pitinha acima do joelho, o veludo... Sim, tenho memórias felizes da minha adolescência nas praias da Princesa do Índico (32), e nelas também há uma Princesa.
Por vezes penso que toda a vida a procurei. Nas muitas miúdas por quem me apaixonei afinal procurava nelas a Princesa. A minha Princesa, "a namorada que sempre sonhei" (33) e «'bora lá, cavalitas!», brincarmos felizes, chapinhar as feridas para esquecê-las e dessalinizar-se as vidas, as nuvens cinzentas das vidinhas, tal qual as carícias adolescentes devem ser, e sê-las e existirem, para uma manhã de praia-vida ser uma manhã feliz, textura deliciosamente aveludada e boca cheia de risos porque a areia está quente, quase tão quente como os corações e a água índica que os banhava.

Breve Nota: continuamente encontro a Minha Princesa. Construo-a. Com carinho. Existe. É real. Perfeita, no seu castelo que folha a folha escalo. Tão perfeita como o sonho de escrevê-la igualmente é.

Acredito que ao ler o leitor recria a história por outro contada: ele, leitor, é-o ficcionista também. Quem não ler assim perdeu a capacidade de sonhar, escapou-se-lhe entre a vida o fascínio das leituras de miúdo, fossem elas as BD's do Fantasma, Mandrake, Garra de Aço ou Rick Kirby, Major Alvega ou Ene 3, ou os livros 'de letras'. Mais tarde, com esses, vem o melhor: construir um filme único, pessoal, enquanto as páginas d’ 'Os 3 mosqueteiros', 'O conde de Monte Cristo' ou 'Davy Crokett' correm sem se dar conta, e a gosto entranha-se o bichinho criativo e está parido mais um sonhador. Há livros que deveriam trazer um aviso na capa, tal como os maços de tabaco: "ler pode provocar sonhos", "ande a pé e compre uma biblioteca", "nos livros ou maus morrem sempre", e mais avisadas notas do género.
Serei exagerado como leitor compulsivo mas é-me verdade assumida que o meu lado ficcionista vem do sonhador que sou desde que de mim me lembro, assim como me recordo de sempre gravitar em volta de livros: mesmo as 'pistas' que improvisava na sala da casa, para nelas fazer "corridas de grande prémio" com carros desenhados por mim e depois recortados, que empurrava com o dedo, as “paredes” da pista eram feitas com livros ou revistas de banda desenhada. Acho que até nisso, a mania pelos carros, há uma ligação. As “semanadas”, quando as havia e nunca com periodicidade que justificasse o cognome agora dado por facilidade linguística, ou o dinheiro desviado ao lanche ou rapinado ao porta-moedas da mãe, quase sempre eram integralmente para o alfarrabista na avenida 24 de Julho e a caminho do liceu, revistas antigas de BD e de carros, por vezes um livro "só com letras": trocavam-se dois por um e desfazia-me de velharias para ir buscar 'novidades imperdíveis'... Em casa havia ainda os da minha irmã, e li o 'Mulherezinhas' e gostei: é, para além do nome, livro adequado para 'elas' e para 'eles' naquela idade, e o importante era haver sempre algo que ler. O meu pai trazia no bolso um apontamento dos números da colecção "Os Cinco" que me faltavam. Surripiava-lhe os policiais de bolso que conseguia e ia lê-los para a casa de banho, à procura "daquela coisa" entre litradas de sangue e duplos de whisky, assassinatos de gangster’s e com detectives de gabardine, coristas loiras e de fartos peitos e altas pernas, rouge, lábios vermelhos e meias de renda, um menu onírico completo que ainda passava por sórdidos bares na avenida número tal duma tal de Nova Iorque ou Chicago. Lá pelo meio, as tais páginas onde se falava e contava dos preliminares sexuais que, então, me pareciam admiráveis futuros que nunca mais chegavam.

Um romance é um livro de aventuras. Cada um com o seu ritmo e até, concedo, o seu estilo de contá-lo. Mas se não for "um livro de aventuras", ao ler-se o romance torna-se chato, pesado, por mais ligeiras que sejam as folhas se elas se tornarem indiferentes a quem lê; a sua presença torna-se pesada, maçadora para o leitor. Mas perdem peso quando "conseguem", e pulam cá para dentro, e das palavras contadas o leitor extrai a matéria-prima para fabricar o seu próprio enredo alternativo, cavalgar a toda a folha a estória contada, ele na sela e ali vai à desfilada pela porta aberta às pradarias que o escritor lhe deu. Tenho momentos em que olho um novo livro assim: antevendo, lambendo-me, à espreitadela ao resumo sucedendo-se a avaliação das suas 'possibilidades criativas’, eu leitor já a preparar-me para subir ao palco do exercício da ficção, guloso de tema para mais e mais sonhos: nasceu na BD de puto, cowboys, mágicos e soldados. E a parte das coristas, claro.

Estimava especialmente o Garra de Aço: imaginava-me a introduzir o dedo da garra metálica nas tomadas eléctricas para, pelo choque provocado, atingir a invisibilidade mágica, e sempre em dois sítios bem diferentes: numa agência bancária, onde gamaria uma nota de quinhentos paus todos os dias e seria feliz para sempre, e naquelas zonas misteriosas e interditas do planeta, onde por certo se passavam milagres e se revelavam admiráveis segredos: as casas de banho femininas, e ainda mais feliz seria para sempre. Este vai de exemplo do seu uso depravado, provável razão de eu hoje ser o que sou, piscador de olho sem-vergonha e sempre à cata de quinhentos paus caídos do céu.

Os livrinhos 'de guerra', principalmente os dois que mencionei, Ene 3 e Major Alvega, eram oportunidade para me imaginar herói, daqueles que ficam feridos em combate e tudo, mas não só sobrevivem como, já na penúltima folha, salvam o mundo dos maus, que são, toda a gente sabe, os nazis e os jap's. Tudo em minuciosos desenhos onde se viam os pormenores dos Spitfires e dos Stukas, os Hurricanes, os Messerchmidt ou os Fockenwulf (será assim? nem vou ver pois o importante era o desenho: as “letras” desenhava-as mentalmente eu...), mais todas as outras armas, os grandes couraçados, Bismarck e Yamato, os submarinos U e as bombas V, ou os canhões gigantes como o 'Bertha' alemão que era fixo num vagão de caminho-de-ferro, tal o tamanho: só poder estar estacionado no lado de cá da Mancha já tirava o dormir aos ingleses... até lá ir o Major Alvega resolver o assunto. E eu com ele, está claro.
Era à escolha, era servir-me... Dos de espadachim idem idem aspas aspas, com damas ainda mais misteriosas num frou-frou de rendas e generosos decotes, salões forrados em espelhos onde os cavalheiros também usavam laçarotes, ou tascas não menos sórdidas das tais da rua quarenta e quatro, da tal cidade grande: o mundo lido antes da televisão. Bufallo Bill ou Ivanhoe, o que era o último dos Moicanos ou qualquer outro. A todos esses livros de heróis e aventuras vestia-lhes a foto da capa e ia por eles adentro, fazia minhas as aventuras contadas e adaptava-as ao mundo que conhecia, ao chão da minha sala e à minha vivência; se o herói beijava a heroína eu suspirava escondido atrás do sofá, nas páginas lendo-me a beijar a miúda do prédio em frente, a tal que me fazia corar sempre que a via, e se eles matavam dez eu não ficava atrás e matava vinte. O meu avião voltava à pista feito em frangalhos, cheio de buracos e eu a segurar a manche só com uma mão, mas deixava atrás de mim no mínimo meia dúzia de suásticas espalhadas pelos campos sei lá onde nem interessava, símbolos, e que depois seriam pintadas no avião como marcas em coronha, tal como fez o "barão vermelho" na 1ª Guerra Mundial. Os ursos que eu matava à facada em nada desmereciam dos do Davy da boina, já agora acrescento, e para que não restem dúvidas eu ganhava-lhe à larga pois abatia elefantes só com um tiro e com eles à carga para cima de mim, só de leões teria dúzia e meia de cabeças empalhadas na sala da minha memória-sonho, lado a lado com os carrinhos desenhados e recortados, tudo minúcias em traços filhos das leituras: aquelas páginas eram ouro, uma mina, e hoje continuam a sê-lo se 'bem esgalhadas', se me prendem como seu leitor vampiro que sou: olho-os, livros, com a gula de quem sabe neles haver segredos em roteiro, depois ligo a máquina e rodo o filme, até logo resto do mundo.

Acho que não sou “um gajo esquisito". Um pouco a puxar para o solitário, admito, mas este abuso onírico em volta dos livros nem sequer será estranho pois a maioria dos leitores é-o igualmente: um sonhador enquanto lê. Daí decorrer que me percebem quando conto do "fascínio do leitor" e do dínamo que são os livros, e por decorrência do que daí advém: cada um que advogue pró ou contra o sonhar, é que ele nunca tem medida certa.

Quando ouvi a Hélder Macedo, num encontro de escritores onde me enfiei na plateia cinco dias, com os olhos zunindo de brilhantes, que a realidade é o eco da ficção, entendi-o perfeitamente, e pela primeira vez ouvi em discurso estruturado explicadas as razões do mundo dos ficcionistas não ser senão outra dimensão do mundo real, e ele sabe bem em qual passa o seu tempo, em que sofás mais preguiça o seu sonhar. "Os livros têm magia": é slogan antigo e que cheira e soa a lugar-comum. Tão comum o é como é verdadeiro: basta ter acertado ao abrir um, qualquer um, venha ele de Nobel ou do completo anónimo, de 'clássico da literatura universal' com suspeitas lombadas em encarnado e letras em dourado, acompanhando Sir Edmund Hillary a vencer o Everest, Crusoé perdido numa ilha, e logo iniciava nova colecção de canivetes e caixas de fósforos, alicates nacionalizados à caixa de ferramenta do pai, um rolo de fio que nem para um papagaio dava, mil e uma utilidades secretas que guardava numa caixa de camisas por baixo da cama para, se me calhasse um dia ser náufrago, estar prevenido com tanto que certamente seria de prodigiosa utilidade, ao que lia do que lhe tinha acontecido a 'ele', o protagonista antes de mim... Entendem-me? Ok, hoje juntava um computador portátil à pilha, e obrigatoriamente também as caixas dos remédios.

Mas repito e agradeço que não se esqueça: o meu preferido era o Garra de Aço: quinhentos paus no bolso e acesso à arca dos segredos tornavam irrelevante qualquer choque eléctrico à realidade entre mãos, haja um bom livro de aventuras entre elas.

Agora regresso à terrinha – literalmente. Com arranques dactilográficos em que desenterro ninharias do passado laurentino e faço delas epopeias, e venha o primeiro dizer-me que estou errado: cada pequeno facto vive o seu aniversário quando se o recria, escrevendo-o sob olhares comuns e a todos misturando exotismo ou gag’s reais, mas "trabalhado" com um primeiro objectivo: a sua leitura agradar, tal qual o Garra de Aço.

Música, maestro:

E toca Jethro Tull: Uma vez eu e o Tó fomos até à Namaacha (34), à boleia. Ao que íamos não interessa, até porque já prescreveu.

O essencial e que justifica esta "memória" é que levamos um daqueles gravadores portáteis que então existiam, da idade e peso da pedra, tipo caixote como os primeiros telemóveis que apareceram. E levavam seis pilhas e das grandes ainda por cima, ou seja: só a tiracolo e de tantos em tantos quilómetros a carga mudava obrigatoriamente de burro. Pois a verdade é que fartámo-nos de andar, andar, até aparecer uma santa alminha em material rolante que se apiedasse e parasse para uma boleia - as piedosas referências estão contextualizadas e são mais que merecidas, pois os quilómetros "a butes" foram mais que muitos...

Bem, e os Jethro Tull? Sei lá porquê, por alguma razão foi e o mais certo passa pelo habitual desleixo "o outro leva, não te rales", nenhum levou cassetes e fomos, estivemos e viemos, sempre a ouvir o 'Aqualung' dos J. Tull, que era a cassete que estava dentro do gravador. Ian Anderson. Podia ter sido pior o que nos tinha calhado, ou até nem lá estar nenhuma. Mas a verdade é que demorei meses a recuperar da overdose e voltar a ouvi-los...

É-me impossível garantir qual a música que soava quando, a pisadelas tantas na pista de dança da 'discoteca-boite Folclore', primeiro andar da praça de touros 'Monumental' de Lourenço Marques, um raio de lua conseguiu penetrar o cimento armado da minha timidez e recebi e dei o meu primeiro 'french kiss', mais a mais daquela por quem, então, eu morria em versinhos de amor. Porém, de certeza que foi som que se apagou como tudo o mais se esvaeceu, pois deixei de ver, ouvir e sentir além do murro de sensações que me atingiu, derrubou-me, e mal a orquestra parou e o resto dos pares parou de roçar-se e os nossos corpos se descolaram, corri para fora, ávido de ar, de tudo, sentindo-me formidável, chorando intimamente de alegria e anestesiado, pois nada mais existia que aquela nova sensação: ser beijado e beijar, as línguas saboreando-se e o viver eriçando-se. Quem não se lembra do seu?

Eu lembrei-me, e por portas travessas: visita nostálgica às caves do YouTube. E assim, ainda na dúvida mas quase com certezas, chego a Percy Sledge e ao celebérrimo "When a man loves a woman", fundo musical que arrastou os meus lábios hesitantes ao longo da linha do seu queixo, vindos duma primeira carícia no lóbulo da orelha, percorreram indecisos e com o coração aos pulos um trajecto que, então, ela, avé! abreviou e em rápido atalho fez os seus lábios acharem os meus... e o cantor e o mundo e tudo o mais terminou a sua existência, eu imolava-me de prazer no fogo que me tomou e raros fósforos novamente assim atearam.

… e falemos dos Amon Dull, que tenho uma boa para contar. Daquelas que a memória trás com este marulhar que sai do baú: uma tarde louca num quarto do Hotel Tivoli, LM obviamente, com uns 'estranjas' barbudos, bêbados, gajos porreiros que pagavam a despesa toda mas com tal aspecto que o empregado do bar, quando nos levava mais uma bandeja de cervejas poisava-a no chão, batia à porta e “dava de fróxes” antes de a abrirmos. Então estava longe de saber quem eram, até porque das falas deles nem eu nem o Malico, meu companheiro na aventura, nada percebíamos e julgávamo-los boers, afrikanders (35). Ainda era Lourenço Marques, LM, aquele período pós 25 de Abril que li a outro chamado de “freakismo-marxismo” e achei o baptismo extraordinário de realismo pois os sonhos e seu mau hífen estão assim bem expressos. Então ainda só freakismo pois do marxismo só se lhe conhecia a teoria. O seu lado nada musical só veio depois, e esses concertos não se encontram no YouTube, o “bringdown” é o segundo capítulo deste livro.

Largos meses depois, talvez até um ano ou mais, já cá, folheando lp's (36) numa discoteca da Baixa lisboeta, o título duma faixa - "Mozambique" - atrai-me, abro o álbum (ou viro-o, sei lá já...) e dou com as caras chapadas dos bebedolas janados, companheiros ocasionais e patrocinadores líquidos daquela tarde louca não tão antiga ainda, então... Pedi para ouvir umas faixas: achei o álbum intragável. Provavelmente ainda estavam bêbados e charrados quando o gravaram: não o comprei. Mas fumáramos da nossa erva e beberamos as cervejas deles juntos, ai isso sim, sim... cambada de malucos, que afinal eram alemães e músicos, e dos de rock pesado – daí o estágio lá e então, ficou claro.

Tempos únicos. E, hoje já a caminhar para velho jarreta a garatujar memórias, um sem-vergonha, um dia os meus filhos vão languçar (37) o que o velhote andou a escrever e dá-lhes uma solipampa... Talvez não: eles já me chamam de extravagante e sei que o dizem com carinho. Assim é meio caminho andado para não só entenderem o presente como darem um benévolo desconto ao passado. Eu fico grato. Mas não me sigam todas as pegadas.

As músicas são como as cerejas: vermelhinhas, apetitosas para remexer os íntimos e trazerem sabores ao palato que o viver não estival quase apagou. No baú remexi Genesis, Yes, Emerson, Lake & Palmer, Pink Floyd, King Crimson, as longas tardes de então ora no quarto dum ora no carro doutro, ora onde fosse, que a música, na altura, era aquela e estava sempre presente. Mas paro num vídeo que é açucarado com uma memória forte, das tais que o tempo, esse sacana, nunca maculou numa única nota. "July Morning", pelos Uriah Heep. Mas não é esta a versão que me fez extasiar, idos de '74, nas primeiras filas do cinema Dicca. Aí e então, ouvi o João Poitevin, vocalista dos Melting Pot cantá-la de forma que - e não é sacrilégio, não: recordo-me e recorda-se quem viu e ouviu! - menoriza esta versão, a original... Tenho de fazer a chamada "declaração de interesses", e dupla: era amigo de toda a banda, o canhoto Vasquinho, namorado da Mizé, que tocava bateria divinamente, o João, dos outros foge-me a memória, do viola solo nem sombras do nome mas o baixo ou era o Hélder ou o Steve, este um mulato rodesiano (ou vindo de lá no pós 25A) com cabelo "à Angela Davis" que, mais tarde e findos os Melting Pot, passou junto com o Vasco para o grupo que lhes sucedeu como 'top' do rock laurentino: os Storm, onde o vocalista era o Figs (38) e deram um concerto, para mim inolvidável por razões que já conto, no cinema S. Miguel ao Alto-Maé, edifício para mim de excelentes memórias e que em nota irónica, mas que agradeço não se ler como desrespeitosa, acho hoje subaproveitado como sede da Assembleia Nacional Popular.

As suas sessões-duplas de cinema, sábados à tarde, deram pelo preço de dois-em-um a cinematografia completa do duo Dean Martin e Frank Sinatra, os John Wayne, Rock Hudson e pistoleiros dessa geração, as pasteladas italianas do Alberto Sordi e outras coisas encantadoramente horríveis desse género, à excepção das comédias do Louis de Funés, que isso eram 'hits' de popularidade e portanto fitas para cinemas de gente fina e bilhete carote, como o Manuel Rodrigues. Enfim, umas ricas tardes de sábado para um puto duns treze, catorze anos que, com momentos de sorte lá calhava e até enchia o olho com mulheres semi-nuas do tamanho do ecrã, esse extraordinário precursor dos "wonderbra".

Bem, mas regresso à "declaração de interesses", em concreto à parte ainda omissa: além da amizade, na tarde do concerto e como 'aquecimento psicológico' toda a banda Melting Pot mais o grupo de seus primeiros fãs, passámos essas horas em deleites tabagistas e do mais fino extracto. Uma delícia, um must, só especiarias finas e doses à Lagardérè, éramos malta que não nos privávamos da excelência, quer fosse inspiradora de primorosa execução musical ou de preparação psicológica para assistir à dita.

Já quanto ao outro concerto, o dos Storm no S.Miguel, o aquecimento foi doutro género, químico e de nome técnico "Lipo-Perdur" (39). Um "genérico" para o optimismo e a hiper-actividade, infelizmente hoje sobrevivente só nas memórias pois a malta de então esvaziou meticulosamente as prateleiras das farmácias do dito, e o fabricante, horrorizado com a perspectiva de com tais índices de consumo passar a empresa super trimilionária, deu uma de modesta e bem-comportada, adepta de índices de vida do proletariado então em alta ideológica, e retiraram-no do mercado, enfim, abdicaram de enriquecerem... Diga-se que com grande desgosto duma enorme massa populacional que crescia a olhos vistos e esbugalhados, mais o linguajar incontinente que o "speed" dá. O mesmo veio mais tarde a acontecer com o "Preludin" (39) e com o "Profamina" (39), mas isso já são comprimidos a mais para esta história-memória, e tenho de fazer ramal senão já não sei em que via estava e isto ainda fica uma overdose pegada. Ah! Vamos lá: o entusiasmo da estreia terá contribuído com metade, mas os lipos (40) por certo deram a outra. A verdade é que, logo na primeira música, o Figs agarra no micro e aproxima-se da boca de cena para soltar os primeiros trinados e dá em abrir e fechar a boca, abre e fecha, a malta toda na expectativa e o grupo a aguentar nos instrumentos que ele se decidisse, mas foi uma carga de trabalho até o "speed" lhe permitir mais que abrir e fechar a boca que nem um peixe fora d'água: o rapaz até parecia que estava com falta de ar! Nós, os tais da pandilha que sabíamos o que os outros talvez suspeitassem, quase que nos escangalhamos a rir, e só não o fizemos pois, lá, estávamos a dois metros dele, nas primeiras filas, e era deixá-lo em paz para então soltar o vozeirão e "a banda avançar"...

Este foi um interlúdio químico-musical para agora dar a voltinha e regressar ao início: oiço na memória o João Poitevin a cantar o July Morning e arrepio-me. Como nunca foi possível ao ouvir o original. Há cópias superiores aos originais, invariavelmente quando foram assim degustadas, ouvidas e fumadas, sentidas de tal forma desde os seus bastidores até à altura – eu sei! – em que num acaso se abre um baú, um mail, e não há forma do passado parar de chorar, sorrindo-nos.

Algures a fls. tantas falo no “mangusso” em contexto de Don Juan, aproveitando o bichinho predador africano, feio mas feio mesmo, que assalta galinheiros para papar deliciosas franganitas. Mas não é assim, este mangusso.

Quem é, o que é um “mangusso”? É um bicho que vive com exuberância. Que fura redes de galinheiros pelo prazer de trepar paredes e aspirar a um beijo, que ri de alegria quando vê olhos femininos brilharem. Não é um predador. Será mais um mineiro que cata pepitas porque acredita que o ouro tem um brilho especial, rejuvenescedor: “mangusso” e “mangussagem” são o sorriso cúmplice do entardecer. Brincadeira que assumo e é partilhada exactamente nesse sentido, a gargalhada feliz, juvenilmente feliz - e isso não tem fim ou idade. Ser mangusso é ter orgulho de andar Vivo, letra assim.

O Google Earth disponibiliza imagens em boa resolução de Maputo e arredores, em escalas idênticas às que a memória liberta e com minúcias que a envergonham. Um truz-truz ao passado. A primeira volta pelas ruas da cidade conduz-me nos passos lógicos, às casas em que vivi, desde a primeira na Av. de Angola, depois ao Malhangalene, ainda a casa dos pais e a minha primeira sozinho, e até a uma flat na Pinheiro Chagas (mantenho a toponímia original por estar a recorrer à minha memória; seria um absurdo do “políticamente correcto” reviver mentalmente a 'Pinheiro Chagas' e chamar-lhe o seu nome actual, 'Eduardo Mondlane'), quase cinco quilómetros de avenida em seis faixas que cortavam a alta da cidade desde o Alto Maé à Polana, onde morei por pouco tempo com dois amigos. Depois os locais de recordações especiais, desde o jardim em frente ao Liceu Salazar, o tal onde via diariamente o pôr-do-sol, até às escolas e os cafés que mais frequentei, e também semeei marcas num ou outro ponto mais conhecido para melhor orientação. Fiz a peregrinação dos meus locais e a cada clique uma aventura que se recorda.

Um mapa de saudosismo sem sal nem jeito, o turista que repito não quero um dia ser... até que nasceu-me um sorriso malandro e comecei a procurar as casas das minhas paixões, as pitinhas que jurei amar eternamente e por quem sentia-me a morrer de amor... a Alice, a Marisa e a Marília, a Egídia do "Comércio" (41), a inesquecível Carla, a Odete das pernas grandes, até a Becas por quem a adoração foi mais suave dado não me lembrar de alguma vez lhe ter feito um poema... Foi tão bonito! Tive momentos em que apaguei uma lágrima de saudades de mim, do puto que fui todo coração e sentimentos, o chantilly dos sonhos fazendo-me esticar um dedo maroto e guloso e mais uma bandeirinha no ecrã, faminto dos amores doces, esse melhor chocolate do mundo que são os primeiros amores.

Não escrevo mais sobre isto. Estou zangado comigo próprio por ter enchido o ecrã de bandeirinhas e nelas não estar a gémea de mim, a mítica Princesa. Despistei-me algures no passado e passei por ela e não a vi. Foram as “ganzas”, com certeza. Infelizmente… “só pode…!”

Quando ligo o rádio nunca sei quem toca. Olho para o cinzeiro: daqueles em barro pintado, largos, pesados, e com o Y invertido mais-a-perninha, o velhinho símbolo do "Peace and Flowers". Quando. Quando não desaparecido entre maços de tabaco amarfanhados e piriscas, despercebido num símbolo comercial qualquer, mais um indiferente cinzeiro de oferta publicitária. Um pouco como o poster do Guevara na parede do quarto.

Woodstock. No cinema Scala havia gravadores na plateia, daqueles semi-caixotes igual ao que levamos na ida à Namaacha. Então melhores que os i-Pods são hoje, aposto. As músicas ouviam-se mesmo. Quando o movimento hippy, freak, existia, antes dos derivados, e este símbolo era inconfundível fosse em entalhe no tronco duma árvore - deixei alguns no 'mato', por exemplo a caminho do Bilene ou do Xai-Xai (42) - um desenho ou fosse onde fosse. E ele abundava... Um sorrir enorme e florido que já não há, eis, verdete de tudo envelhecer. Ele e as flores enquanto símbolos de ideais... não, não é patine, é tom de verdete o que os mirrou e aos ideais.

Woodstock, the movie: o solo de bateria quando Santana estava no palco. Do Jimmy, louco de todo. Todos. Do filme mostrar a fenomenal ressaca da segunda manhã, pois duas directas seguidas mais os preparativos viam-se, e do lado de cá e de gravador em punho e peace & flowers erguidos muito, muito cá dentro, tanto, tanto que exultávamos, as maravilhosas imagens que mostravam em como a FESTA estava a ser muito melhor que a víamos no cinema. Existiam coisas assim: víamo-las, cassete ligada. "E se eu, um dia...?"

Mais: Genesis e o seu maior álbum, 'Nursery Crime'; Jethro Tull à boleia para a Namaacha, Aqualang a soar ao longo de quilómetros e quilómetros, mochilas vazias às costas e dedos em "peace, man!", é para nunca mais esquecer; Floyd e 'Arnold Layne'; 'Evil Ways' em viola acústica; muito 'Yes', sei eu lá porquê quando hoje pego no álbum; Deep Purple; Black Sabath; Uriah Heep e esse monstro que é 'Demons and Wizzards', coisa mais speedada não há. Estou louco. Loucos foram os que combinaram fumar tonelada de 'jardas' em volta do Pentágono, assoprar, dar-lhe um pouco do que manifestamente lhe faltava, elevá-lo no ar até ele compreender e falar, e por exemplo dizer "mais Vietname não". Isso, isso que agora penso: hoje um bacano que fume um Marlboro ou outro mata-ratos qualquer no sítio errado quase que se arrisca a ir de cana. E há o que não terminou, há Iraque há Afeganistão, há sempre outro.

Ou talvez não, talvez não fossem loucos: li há tempos e sei lá onde, não sonhei isto, que há sobreviventes e contam, vivendo em caravanas e com longos cabelos, e onde os cinzeiros “Peace and Flowers” ainda estão limpos, visíveis e identificáveis, lindos na sua patine, que contam em como o mastodonte ainda se elevou, não muito mas subiu um bocadito. Viram. Eu só vejo que quando ligo o rádio nunca sei quem toca. Um dia destes vou-me embora.

É como as cerejas: volto ao pôr-do-sol no jardim em frente ao liceu. Não me sai da cabeça e salta pelas folhas fazendo-as uma revoada confusa, grata confusão pois é memória comum a toda uma certa geração laurentina: era sagrado convergir-se para lá ao final da tarde. O momento psicadélico do dia. Fumei ali 'quilos' de charros olhando-o, num culto que se misturava com conceitos “sagrados” (sempre aspas).

Inclusivamente 'tripei' (43) lá uma vez ou duas, olhando-o. E à baía. À minha cidade. Recordo-me de após os acordos de 7 de Setembro de ‘74 (8) e quando os primeiros guerrilheiros da Frelimo vieram para LM, do nosso receio inicial quando os da guarnição da zona, que é próxima do palácio do ex-governo geral e então residência do Alto Comissário português, período do governo de transição, estrearam-se a aparecer por lá, de Kalashi (44) ao ombro. Tretas. Ao fim duma semana já alguns se esqueciam dela encostada a uma árvore e andavam de grupo em grupo a provar as especialidades agrícolas locais. Eles e nós, afinal, falávamos a mesma língua. Ao fim de nem dois meses foram todos transferidos para a Ponta do Ouro (45), constou, a guarnição de segurança substituída por outros, mais straights (46) e menos dados a celebrações em honra ao Sol ou da Lua. Foi um período especial, e por isto de que deixei pontinha aberta, também.

Duma vez, estava a ‘tripar’ com o Malico, ainda naquele bocado da meia hora inicial em que o ácido está a subir, e ele resolve ir na motorizada à pastelaria Cristal comprar não sei o quê que achava que era mesmo indispensável à sua ‘trip’. Coisas das ‘trips’. Ok, eu fiquei sozinho, e o ácido a subir. Não estava mais ninguém connosco. Como é de boa norma, fuma-se um bom charro para ajudar o ácido a trepar. Ora estava eu nestes cândidos preparos quando me apercebo de que um 'frelo' (47) caminhava na minha direcção, a tal Kalashi bem visível, a acrescer era dos makondes (48) e lá estava aquela cara que não é muito amigável. Numa época em que nós, cidade urbana ainda no estupor do estertor colonial, e eles, os guerrilheiros, ainda nos olhávamos mutuamente com desconfiança. O ácido a subir. O charro na mão. O Malico que bazou. O ácido a subir. Estava alegremente a entrar em paranóia, já a preparar-me para a pior ‘trip’ da minha vida, quando, com grande suspiro meu, nos entendemos: o man vira o charro e fora realmente isso que o fizera vir ter comigo mas não para me azucrinar a tola e dar-me cabo da ‘trip’: queria dar umas passas. Coisas desse jardim. Mas há mais. Eu é que me calo, estrangulo a memória, para não dar em maluco se não voltar lá e sentar-me a olhar o passado antes de bater a bota!

Calo-me mas não completamente, que o livro vai a meio. Ora, já que sou candidato a réu em tantas folhas, levante-se o réu!

A tarde de sábado nada prometia em especial e no grupo que se formara no bar do Hotel Moçambicano o consenso foi-se formando. Sobre a mesa e ao lado das bicas que o mestre Abílio ia servindo, sempre muito elegante na sua magreza com o lacinho negro na camisa branca, casaco azul, já só restavam duas propostas como aproveitáveis para salvar a tarde, que a noite já era sempre outra conversa e poderia depender e muito da forma de passá-la, a tarde. Há festas que nascem diariamente e nos locais mais insuspeitos: havia que circular para gozar o dia e preparar a noite. Portanto era: umas voltas de carro por outros cafés à procura de novas doutros grupos, eventualmente visitar um ou outro à porta de quem passássemos e desse para entrar e ouvir uns lp’s, ou ir ao cinema pois havia sempre um filme ou outro que valeria a pena ver e, lá, pela fauna, sabiam-se muitas novidades sobre a flora. Nem me lembro em qual votei mas o certo é que a última ganhou e lotamos o meu carro rumo à baixa da cidade, descendo a antiga Av. Anchieta de forma a tomar-se a da República por detrás do Bazar, perto do restaurante Telavive e depois da cervejaria Nacional. A intenção era passar em frente ao Scala e ver os cartazes e o tamanho da fila, idem para o Avenida, Dicca e o Estúdio 222.

Como nas salas de cinema não se fuma, e lá dentro ou cá fora é também proibido fumar cigarros feitos à mão e de conteúdo exótico, o carro parecia um cinzeiro ambulante quando virou a esquina já contada. Éramos cinco, ia cheio. Não sei bem quem lá ia mas havia mais de um encartado, e eu não era nenhum deles. Talvez pela névoa interna ou pela imunidade que a idade imagina, quando entrei na avenida da Republica e vimos o auto-stop ao fundo, ainda distante, visível pelo aparato pois era feito de ambos os lados da avenida, os comentários não divergiram muito do já habitual resmungo à seca que eram os auto-stop’s policiais, agora acrescidas de revistas aos carros, até ao prudente conselho de apagar as beatas e fechar as janelas. Pensando bem, além de ter podido estacionar e mudar-se de condutor, poderia ter entrado pelo parque do bazar e depois fazer um desvio para a Av. D. Luís, ou até uma inversão de marcha sem nenhum problema para além dos normais de trânsito. Mas foi com postura inocente e ar cândido que o conduzi a Daihatsu 1000 Station para a boca do lobo, melhor contando a palma da mão erguida da camarada Hamina Daúde, moçoila com umas trancinhas na carapinha e voluptuosamente excessiva para a apertada farda azul, ainda a cheirar a nova. E bastante aborrecida no momento, chatice que vem originar a segunda parte desta história. O carro estacionado antes do meu, e também sob seu controlo, tinha um problema com o fecho da bagageira que não cedia a nenhuma investida, com ou sem chave. Não abria, e ela e o condutor já estavam meios esquerdos um com o outro. Um porque aquilo não abria de forma nenhuma, a outra porque o queria ver aberto.

Em tão sorridente cenário dei-lhe um montão de cartões para a mão na esperança da quantidade ocultar as carências. As coisas estavam portanto bem encaminhadas e já havia quem olhasse para o relógio e fizesse contas ao tempo que duram os documentários antes do filme. Entretanto, a camarada Hamina dedicava mais atenção à zanga com o meu colega da frente e já era ela em corpo e peso que investia sobre a impávida fechadura sem nenhum sucesso, e com os meus papéis na mão. Pensei estar aí a oportunidade e aproximei-me do carro da mala avariada para namorar-lhe a devolução da minha papelada, mais a autorização para recuperar o já anunciado atraso para a matiné, quando a situação descambou, como tem tendência a descambar o que anda torto.

Frustrada na sua missão fiscalizadora, mas reconhecidamente impotente para reclamar mais pois aquilo não abria de maneira alguma, já eu estava de mão estendida quando dos papéis se começam a levantar situações confusas, dúvidas, e sobrou para mim o ímpeto policial, legalista. Comecei a assobiar baixinho quando ela, a olhá-los um por um, deu em perguntar pela essencial ‘carta’, que não existia e nunca ninguém antes ma pedira. Lá, no meio do livrete do carro e dum cartão de sócio dum clube qualquer, para aí com ano e meio de quotas de atraso, estava bem dobradinha e já com honoráveis vincos de vetustez, uma declaração duma escola de condução que confirmava a minha inscrição e declarava-me autorizado a conduzir ligeiros ao lado dum encartado, para aprendizagem. Nem o Nixon nem o Brejnev tinham documentos mais dúbios que eu, e são malta que jurou até morrer ter sempre vivido na maior legalidade possível. A declaração tinha data que atestava a minha veterania nessa árdua aprendizagem e até tinha o recibo do pagamento da primeira prestação, indispensável que fora para que a dita fosse emitida.

Mas ela, camarada polícia Hamina Daúde como depois li nos bilhetinhos que amorosamente me dedicou e autografou, estava sem paciência para decidir sobre questões filosóficas que fossem além da viabilidade de pegar numa chave de rodas e escaqueirar a traseira do outro carro até que a bagageira desistisse e abrisse a boca, e como estava com vontade de reinvestir sobre a maldita aviou-me com uma multa e com uma espécie de notificação para ir à morada tal e tal, logo na segunda-feira seguinte, explicar melhor essa história meio esquisita do papel-que-não-era-carta-mas-valia-tanto-como-se-a-fosse. Até valia mais, provavelmente dizia eu a quem me ouvia, mas ela arfava e isso ensurdecia-a. Bem, o tal vago "terceiro" que tinha de ser encartado lá passou para o banco da frente e lá fui a resmungar para o cinema, eles com hilariantes piadas mascaradas de palavras de conforto, eu a ver a vidinha complicada.

Ora bem, no escritório falei com a Becas, que era a nova chefe de secretaria, e lá me apresentei à morada penteadinho e de camisa lavada, até fui no carro pois de mota podia cair e sujar-me. Hoje penso que seria dos chamados “tribunais de polícia”, que julgam causas menores como infracções de código da estrada. Era na zona perto do Rádio Clube, início do bairro da Maxaquene (4). Encaminhado ao que ia, havia uma espécie de bicha para dar o nome, etc, etecéteras que um funcionário ia martelando na burocrática máquina de escrever. Ainda éramos bastantes do lado de cá do balcão, e aqui vou abordar a questão racial que então era pormenor muito em discussão: fazia-se sentir no dia-a-dia para além do vulgar "eu sou branco e tu és negro, gordo ou baixo ou alto ou magro, ok, já vimos isso vamos ao resto". As velhas discussões acrescidas pelo momento revolucionário pós-independência que se vivia. Eu era o único branco na sala, ambos os lados do balcão considerados.

Lá chega a minha vez, e estava embrenhado a contar a minha vida em ascendências, datas e moradas ao zeloso escrivão, quando me apercebo que está alguém ao meu lado, atento ao que ouve e a tentar ler pouco discretamente a folha que já se dobrava sobre o rolo da máquina e descaía para o meu lado da secretária. É outro de raça branca, um rapaz mais ou menos da minha idade. Olhamo-nos e eu, que até então estivera para ali mudo a ler o jornal de parede e os editais pendurados até começar a debitar às perguntas do escrivão, perguntei-lhe, confesso que com olhar solidário: «É por não ter carta. E tu?». Não gostei do olhar dele, mas esse e o silêncio de resposta foram rapidamente esquecidos porque o questionário ainda não terminara, e também porque desapareceu como aparecera: quando olhei de novo, já se sumira.

E fomos para a sala do julgamento. Chamaram-nos todos ao mesmo tempo e lá nos sentamos à espera que a sessão começasse. Talvez uns catorze ou quinze, à volta disso. Pelo que já se percebeu todos os outros réus eram de raça negra, e esclareço que a maioria era tão jovem que as suas caras indiciavam ainda serem mais novos que eu, eu que então tinha vinte anos e já 'emancipado' para tirar a carta de condução mas que nunca sentara o inhófe (49) num carro de ensino. A sala tinha bancos corridos cá atrás, uma paliçada para lá do meio e, ao fundo e sobre um estrado em madeira como os das salas de aulas antigas, a douta secretária, vaga à espera do juiz, que surgiu aperaltado com a primeira toga que vi ao vivo na minha vida. Era ‘ele’, o outro rapaz branco, o curioso de poucas falas, provavelmente um dos estudantes de direito que foram promovidos ad-hoc a juízes de causas menores após a sangria geral de quadros no sistema público que o fim da administração colonial portuguesa trouxe a Moçambique. Estava a começar a ter a sensação de que esta história toda começara mal e estava com sérias vontades de assim continuar, render juros em memórias prolongadas, enfim, já me coçava. É feita a chamada individual e das perguntas e respostas extraio que o resto da malta trabalha toda em oficinas e contam que ganham uma miséria, eu sou o único empregado num escritório e ganho a fortuna de sete contos por mês – já o confessara ao tal da máquina de picotar e era com espanto que ouvia os ordenados dos outros e achava-me rico sem nunca antes de tal fortuna me ter apercebido. Mais o emprego de luxo ao lado das roupas com manchas de óleo. O pormenor sobrevoando que era o único réu português e branco, eles eram todos moçambicanos e negros. Como a tal cereja que não deve faltar em cima de bolo que se preze, o caríssimo juiz podia estar mal impressionado sobre a minha curiosidade sobre a sua personalidade criminosa. Estava tramado...

Foi com este ânimo que ajeitei a camisa para dentro das calças e passei a mão pelos caracóis, e avancei para o homem do bibe preto quando chegou a minha vez. Optimista e diplomata, ter-lhe-ei feito até um pequeno aceno de velhos conhecidos, e cá de baixo terei piscado o olho lá para cima tentando ocultar que já estava a suar fininho, justificadamente receoso da minha estreia judicial correr mal. Os olhos dele gelavam quando olhou para mim, de cima a baixo e voltaram a subir, e disse-me, e eu também gelei: «Isso são maneiras de apresentar-se num Tribunal?» Impossível. Era impossível. Primara como se fosse a um baile, até tivera o cuidado de limpar o pó do assento da carrinha para não me sujar no caminho, e não viera na motorizada por isso mesmo. Olhei-me todo, até conferi se a braguilha estava ou não fechada, e mirei os sapatos; tudo normal, mais do que bom e até podia casar-me. A minha cara de espanto era tão natural quando lhe voltei o olhar que, então, ele apontou-me a razão lobrigada para abrir a lide com capote de ouro, e declarou em voz de indignação autoritária: «O botão! aperte-o!» E apontava para a minha camisa que tinha não um mas sim dois botões desapertados. Aquele velho hábito de justificar com a entrada de ar fresco e deixar a peitaça à mostra das miúdas, o segundo botão desapertado... Se não fosse um tribunal até um terceiro tinha seguido igual caminho, digo, abertura.
Bem, lá o apertei e não sei quantos tormentos legais depois ouvi a pena. Uma quantidade enorme de dias de prisão, mentalmente já estava a fazer contas às férias que seria forçado a antecipar e gastar com a 'pildra', finalmente explicado que eram dias remíveis ao pagamento duma multa, um dinheirão por cada dia. No fim de tudo e da toga findar o seu tenebroso voo, juntamo-nos todos junto ao escrivão que fez as contas individualmente a cada um, mais as custas. Calhou-me quatro contos e quinhentos, o que me deixou teso e a ganir um mês inteiro. A malta das oficinas, colegas de crime mas não de profissão, ficou com uma média de um terço do que eu tive de pagar daí a uns dias. Raios partam as manchas de óleo na roupa, a descabida pretensa solidariedade racial, e a ditadura do proletariado que impunha complexos de pequeno-burguês a quem não trabalha a terra ou nos caminhos-de-ferro. E raios partam a camarada Hamina Daúde pois essa malandra das trancinhas é que teve a culpa daquilo tudo. Mentalmente vingo-me augurando-lhe que não tenha sido promovida e continue na esquadra da Baixa a fazer o giro e passar multas de trânsito: como castigo condenei-a a um destino de eterna pés-chatos.

Uma nota final pois lembrei-me dela na busca de hipótese de localização do tal “tribunal de polícia” na Maxaquene. Estou em crer que é no mesmo velho edifício de traça colonial onde funcionava uma repartição pública tipo conservatória de registo civil, e onde até 30 de Setembro de '75 se entregavam as declarações de opção de nacionalidade e se instruíam os processos de naturalização moçambicana. Foi lá, nos últimos dias, que entreguei a minha opção, e tenho guardado o recibo dos emolumentos. Nasci em Lisboa mas vivia em LM desde os sete anos. Foi essa a minha decisão do coração. Pergunta recorrente: que aconteceu em tão pouco tempo que, em Dezembro, já estava inscrito no consulado português e com passaporte requerido, feito a carta de demissão no emprego e os lp’s e os livros prometidos dar a um amigo? É o tal período onde o som das dúvidas tornou-se-me insuportável, e em final de Janeiro de '76 tomei um avião à descoberta de mais mundo. O 2º Capítulo, o “brindown”, tentará lavar esse prato.

Quando me despedi do serviço foi sem ter comprado o bilhete de avião ou pensado o que fazer à tralha, ou seja: sem uma data concreta para dar a cambalhota com aterragem na Europa. Que me lembre durou à vontade mês e meio. O meu pai morrera há pouco e eu utilizava o seu carro com o encanto de quem tem novo nas unhas, havia notas no bolso e uma vida para despedir pois já à espera está uma nova que era olhada como uma enorme aventura, uma revolução pessoal profunda. Foi nesse tempo sem horários e com temor ao calendário que aconteceu o que ainda hoje recordo como o ‘fim-de-semana alucinante’. Simbolicamente foi a minha festa de despedida de Moçambique. Poucos dias antes de rumar a Mavalane (50) sem regresso, tive um jantar em jeito de de despedida no Hotel Cardoso com colegas e amigos mas aquela foi outra festa, outro tipo de grupos em que me integrava: a despedida freak foi no Bilene, naquele fim-de-semana que foi alucinante e termina com capacete dourado.

Como sabe quem se recorda, a juventude laurentina aglutinava-se por grupos, sendo o local de encontro o nome por que eram conhecidos. A malta da Casa das Beiras, os gajos da Moçambicana ou do Hotel Universo, os da Teresinha e os do ATCM, da Princesa (51) ou os que ‘paravam’ aqui e ali, era assim que os grupos eram conhecidos. E era normal um ou outro personagem dum grupo fazer um longo estágio noutro, para além das normais incursões diplomáticas para ver que marca por lá se fumava. Considerem como uma imensa nuvem de fumo inter-activa voando baixinho pela cidade.

Foi dum desses grupos - e já não me lembro nem quem nem de onde, que apareceu lá no grupo um puto, assim porreiro como nós mas doutra zona e classe social. Recordo-me que, no nosso, todos tínhamos motorizadas ou, os poucos que as tinham, motos grandes em segunda ou terceira mão; a ele conheci-o com uma Honda CB 360 ainda a luzir, que pouco depois trocou por uma igual, 360 ‘G’, nova a sair de stand, só porque era o novo modelo daquele ano. Conhecia os sabores das massas no bolso melhor que qualquer um de nós e aposto como nunca vergara a mola. Tiro a extracção com rigor, e o argumento é tão só além da mota e da roupa de manequim a dos pais terem uma moradia no Bilene, uma casa de praia, que se hoje ainda não é vulgar imagine-se naquela altura. Ora bem: parecia um conto de fadas quando soubemos que os pais tinham vindo para Portugal e ele ficara com as chaves. E até havia um barco, descobriu-se mal lá se chegou.

A ideia nasceu e tratamos de fazer o avio, as permutas e novas compras, cada um tentando ser original ou apresentar uma raridade, um prato de fazer extasiar os convivas e deixar o ‘representante’ inchado de orgulho: cada levava as drogas todas que arranjasse, lá chegados juntava-se tudo numa mesa como que para um fim-de-semana gastronómico em que a mesa está sempre posta com iguarias mil. Tipo o filme “A grande farra”, mas sem bolçar. As surumas eram fortemente maioritárias mas a sua variedade de qualidades tornou as tardes e as noites coisa de gourmet. As speedadas eram a constante pois dos ‘Lipo Perdur’ e arraçados havia sempre umas caixitas desviadas em elaboradas artimanhas, uns drunfos (52) para quem gostasse, acho que houve ácido mas esse nem ali nem em lado nenhum aparecia em quantidades de ‘desbundas’. Com excepção de quando a Anita teve a melhor ideia do mundo, mas essa já é velha e pertence à história underground do fim da cidade colonial de Lourenço Marques.

Lembro-me de que fomos em dois carros, eu com a Daihatsu. Na altura tinha a BSA 250 que fora do Luís Kurika, velhinha e embirrenta mas com um look irresistível. A velha companheira Honda já tinha sido vendida, desta vez definitivamente. Antes, houve uma altura em que a vendi mas rapidamente a recuperei. Partilhava com o Luís um apartamento mesmo em frente ao escritório onde trabalhávamos, e na garagem cada um acumulava um carro, o do Luís era um Honda 600 vermelho, a minha Honda 50 SS a BSA, e o Luís a Suzuki 350 verde que fora do Dominique. Acontece que vendi a Honda a outro colega, que vinha nela para o trabalho e deixava-a estacionada em cima do passeio para aproveitar a sombra da acácia. A tortura era tão excessiva que baqueei e fiz-lhe uma oferta irrecusável.

Bem, se éramos dois carros não fomos para o Bilene menos duns sete ou oito. E, nisto, também se sabe como é. Não vivemos isolados e as notícias sabem-se. Se nas manhãs o dia nascia em suaves ressacas em que se ouvia música melancólica e tentava-se que as próprias moscas estivessem quietas, havia alturas em que a porta não parava. Também com uma mesa aviada daquela forma... Desse fim-de-semana alucinante recordo o estranho que era olhar à volta e saber que aqueles dois estão a ‘tripar’, eu no bringdown do speed, e aqueles ali no canto nem sei bem o quê mas estão também com um saudável ar de janados. Todos a fumar jardas de apurado gosto e exótico efeito. Uma orgia sensorial e psíquica. A única restrição que havia era a que para o barco ninguém podia ir a ‘tripar’.

O capacete dourado entra na história no regresso, e foi dele que me recordei quando se motivou este escrever de maldades. Era o meu, e na cidade raramente o utilizava a não ser que fosse noite a puxar para o fresco, ou em viagem. Coisa bonita, dourado e de aspecto racing, e foi carote. A mota era a menina dos meus olhos e em reparações e extras consumia-me fortemente o ordenado. Ora bem, ou o capacete andava na carrinha ou levei-o para o Bilene sei lá porquê. Na viagem para cá trouxe-o posto naquelas longas rectas que vão até à Macia (53), mas tirei-o antes de lá entrar. Gozaram comigo à brava, foram uns quilómetros interessantes. Ele merece largamente entrar aqui.

A 21 de Janeiro de 1976 tinha entregue a casa ao senhorio, o espólio de lp’s e livros distribuído e a mota e o carro entregues. Foi a primeira e única viagem de avião da minha vida. E também nunca mais tive outro fim-de-semana alucinante, nem terei: já não tenho o capacete dourado.

Esta contabilidade de passados dá nestas coisas: há pouco tive um pensamento aterrador.... um pesadelo... De repente pensei até que ponto eu contribuí para a crise do aquecimento global, ao ter-me esforçado como o fiz em fumar África inteira... Olha se os meus pais tivessem emigrado para o Brasil em vez de irem para as colónias... a Amazónia estava já geminada com o parque de Monsanto. Ainda me chamam a Haia e não é para me darem boas notícias.

Uma coisa que me irrita é inventar. É que há tanta verdade na ficção, tanto pedaço de nadas para rejuvenescer contando-lhe os pormenores saboreados cor a cor, para quê inventar se a ficção é o jogo da verdade do escritor e do leitor, ambos sorrindo no gozo contado duma inócua bica tomada sob um sol especial, um rabo de vento que alça um vestido e enlouquece as glândulas da imaginação, um cão vadio que monta mil ardis para derrubar um caixote de lixo e – quem sabe? irá consegui-lo, ou não? Toda a ficção é viva enquanto duram as páginas que a viram e lêem. Cresci acreditando nisto, e a seguir contarei do porquê desta asserção. A questão pôs-se-me pelas respostas mirabolantes que li aquando do último “25 de Abril”, em que na Internet, nos blogues, circulavam desafios para desfiar o que nos lembrávamos de ter feito… na véspera, a 24 de Abril de 1974.

Provavelmente terei ido trabalhar na manhã. Era um sortudo pois tinha o chamado “horário único” que, se me obrigava a madrugar e a almoçar mais tarde, não me privava de dois lautos pequenos-almoços: o primeiro quando o dia acordava e naqueles balcões madrugadores que o ronco da motorizada descobria na cidade que ajustava o dia, o outro tomado à secretária e a meio da manhã, óptima altura para uma sandes de ovo com mostarda em pão de forma e um sumo ‘Crush’, depois um charro fumado na varanda do escritório a meias com o Luís, a que quase sempre se seguia o olhar reprovador do velho leão que fazia vestes simultâneas de chefe de escritório e “pai” tolerante e reprovador, ele, o Afonso Quadros (54), que na sua vasta ninhada contava com exemplares tal qual nós. E por isso sabia, e por isso na sua censura havia bondade.

Ou não terei ido trabalhar, que acontecia. Já morava “sozinho”, que após a motorizada paga foi o passo largo dado na ficção de crescer aceleradamente. Morávamos, eu e o Luís, numa ‘flat’ do outro lado da rua do trabalho e o bom do Alfredo, o contínuo mais velho e mais cúmplice, a carapinha branca já a raiar de sabedoria e paciência, ambas reflectidas na sua gestão matrimonial de duas esposas: uma na cidade e consigo e cuidando dele e seus filhos, outra no campo e cuidando da machamba (55) e dos outros tantos filhos além dele quando, sempre que podia, contraía doenças que só se podiam curar no aconchego feiticeiro da aldeia natal, bem, o bom do Alfredo bem tocava à campainha da nossa ‘flat’ quando as luzes do escritório se começavam a acender «Carlos! Luís! tá na hora pá!» que, às vezes, algumas vezes, que isto de nos escrevermos dá prerrogativas e nelas está a caprichosa benevolência, algumas vezes o eco era o resmungo e o regresso aos lençóis ainda mal quentes que a noite fora extensa.

Cumpridas como calhou e se pôde as obrigações e os pequenos-almoços, o dia nasce e, conto-vos, os dias africanos têm além da fama o direito ao gozo. Um passeio avenidado entre áleas de acácias e jacarandás em que o ronrom da motorizada fazia os meus olhos tão brilhantes como seriam os do Giacomo Agostini se ele, coitado, soubesse dos cantos e curvas da minha cidade como eu que a percorria de lés a lés descobrindo-lhe sempre novos olhares, o deslizar lento pelas fachadas dos cinemas adivinhando qual das matinés tinha o cartaz mais sedutor, ou a sombra que lhe exigia entre o arvoredo nas zonas solitárias da longa praia da marginal, enquanto eu, seu cavaleiro e Agostini ficcionado, redescobria o agrado da areia quente e as águas tépidas, um charro e um céu imensos, às vezes um livro ou por minha conta e risco apenas sonhar.

Era a tarde, o prazer duma visita a um amigo, e mais um charro, dois, três, tantos que no enigmático Vinte e Quatro terão acontecido ou não. Porque calhava ser-se ferreiro com espeto de pau e, nessas tardes, nesse sol que derretia o alcatrão e em que os peitos inalavam “la joie de vivre” mais depressa que o francês o escreveu, por vezes dava-se conta tarde demais que nem eu, nem nós, nem nos grupos que mais avizinhávamos havia reservas suficientes para garantir uma noitada e outra e outra, que já se sabe que além dos charros pequeno-almoçados as tardes eram quentes e as noites intermináveis. Talvez, a 24, tivesse combinado um plano, urdido uma trama, planeado uma incursão aos campos distantes, e digo distantes que a cidade era longa e sempre me considerei seu residente, animal doméstico e só bravio quando, quase sempre com as estrelas olhando-me quais olhos vigilantes, tomava os caminhos secretos que abasteciam os sonhos duma geração, lá e então.

Talvez, é provável que na tarde de ‘24’ qualquer assim tenha acontecido, ou não. É, por vezes nada acontece e a esperança fica-se por uma esplanada, o tal rabo de vento ou os esforços do cão vadio e só isso o olhar regista e a mente agiganta na constante reciclagem do quotidiano, essas ficções de realidades. Talvez tenha suspirado por amor pois ainda hoje o faço, noutro hemisfério e duas revoluções depois: o meu céu é o mesmo e só o seu azul se avivou quando subi ao outro lado do mundo. Já as areias escasseiam e são menos calorosas, já a motorizada só ronca quando me sento e olho saudades.

No dia seguinte soube que estalou uma Revolução na “metrópole” e ainda não percebera quanto esta nova "ficção" iria alterar a minha visão do meu mundo, que tal fumo longínquo anunciava erupções várias no vulcão colonial em que ficcionalmente vivia, mal dele sabendo. Para quê inventar se a meus olhos foi tudo assim, candura e irreverência, cegueira e deslumbre? Uma cúpula de ficção e “joie de vivre” que estalou de gretada, um crescer ficcionado em prazeres mil, tão reais qu’a sua ficção relatada é tão inesgotável como as salinas que tingem as folhas que a contam?





II


O brindown







Cruza-se uma cidade como caminhando ao longo duma arcádia, cada coluna e cada montra, cada porta, pormenores diferentes mas integrantes da unidade. Detemo-nos aos olhares mais sedutores: hoje uma loja de brinquedos e amanhã o último grito da moda: caminha-se. Aprendemos cada entalhe no passeio e só por embriaguez se tropeça: é a nossa rua, o nosso prédio, a arcádia onde crescemos. Depois atravessa-se a rua e a cidade fica passado.

Um mar único, uma ilusão. Uma guerra, fim daquela. Assim aconteceu. Não quero falar do fim, quero o durante. Quero as montras, o néon, as corridas em volta do prédio, os cantos vizinhos de mim: toda a cidade. Areia e alcatrão, caniço, chapa ondulada e cimento: toda, pois as arcádias eram lindas pela variedade, derrame contínuo de maravilhas, sol, mar, cor, calor. Terra das primeiras vezes de quase tudo que me lembra. O primeiro café e a primeira cerveja foram desanimadoramente amargos mas hoje há luxúria quando a sua espuma alaga os lábios. Já a primeira vez que o pedalar se aguentou sozinho levou-me do medo ao sorriso de quem triunfa sobre o trágico futuro da inutilidade e ascende à divina sensação de que as asas existem, e ele será tão célere como aquela primeira e brilhante volta ao prédio, pedalando.

Este pedalar final será igualmente célere, que estes sejam os meus últimos falares onde se leia amargura, que, interrogo-me, de que me serve ser artista se, assim, a minha arte só tem expressão em dois expoentes: a paixão e a dor. Que quando cruzam linhas soa melancólica e nada apraz a reviver a primeira ou aplacar a segunda. Que vale este jeito de contar tudo que sinto, se não encontra eco e só silêncios. Vivo com a emoção como primeira pele e ela ora é pálida ora cobreada e nada consigo vestir que dissimule esta disfunção dermatológica. Estendo palavras intermináveis como extensões do meu corpo, mil braços dum polvo, vinte cérebros siameses, um único coração que não cabe nem encontra canto onde caber. Rio às vezes. Choro ainda mais. Nos intervalos adormeço e tenho raiva deles pelo tanto que fica por escrever. Esta ética criativa, este monstro que me come e gorgola letras como penugens que não nascem para serem aladas, esta mão é uma garra pois dá-me a carícia do torniquete e não o calor do afago: os dedos crispam-se demasiado. Curvo-me com respeito admirado àqueles que vão da ideia à primeira linha e desta a pontos finais como se só as personagens sentissem, rissem e chorassem, e a mão morde o papel com tinta que não é negra de sangue. Descarnada e despelada das suas emoções e violência e só ossadas assomam no contar alheio, timidez ou arte, cobardia, coragem ou distanciamento, tudo que nesta garra não me livro, ou obtenho. O contador da história única e desse jeito seu prisioneiro. Amar ou sofrer, sem meio-termo que funcione. Dissecar-me qual rã a olhos curiosos e até neles os meus. Sofrendo ou amando, em júbilo ou em dor. Que se cruzam algures na milésima edição do mesmo texto porque a dor insuportável não é essa, é o silêncio do hiato, é olhar a mão inútil e nada dela ler.
Escrevo este livro como se fosse de auto ajuda, e de uso pessoal. Haja mais alguém que assim o leia, e ficarei feliz com o medonho sinal ortográfico, o ponto final. Nunca resolvi o conflito íntimo de ter abandonado, desistido. Sim, razões não faltaram, mas… Talvez a final.

O que correu mal, princesa, Princesa das Duas Cidades?

Lá, naquele tempo em que não se viam capulanas nas varandas das avenidas, garrindo as acácias e os jacarandás usurpadores das cores turísticas, lá naquele tempo em que a naturalização da cidade estava tão longe como distava o terreiro de onde saíam naus com decretos e leis, chiar de madeiras velhas gretadas pela História que a água dos oceanos traçou.

Lá, onde os machimbombos sempre cheios quando não era dia de praia faziam sempre rumo aos subúrbios. Lá, naquele tempo em que havia duas cidades e o cimento duma ganhava fungos quando o caniço e o zinco o confrontavam, Norte e Poente, tanto, que o Sul era dos arranha-céus e a Este o mar chamava

quando amar era perigoso se, no orgasmo, os pêlos dos amantes não brilhassem ambos em pálido rosa imperial, ou tinha tabela miscigenada em moeda com a prata da esfera armilar, repúblicos vinte escudos. Naquele tempo, lá.
Nem tinham sido inventados os chapas (56), pois as capulanas só vinham ao cimento vender amendoim torrado e maçaroca assada, peixe e papaias no mercado. Lá, princesa das duas cidades...

O tempo caducou-se. Vieram as capulanas às varandas e penduraram-se às janelas, garrida nova flora da cidade que esmagou os jacarandás e as acácias, velho álbum de postais em que a abertura da lente não fora feita em formato technicolor: faltava-lhe a cor das capulanas quando a objectiva se virava aos céus para focar as torres, ou se espraiava colina abaixo no longo rectilíneo das árvores aveninadas. Em baixo, sorria o mar, esse fotogénico amante que a todas beija e ergue maliciosas ondas para lamber, guloso, as cores quentes da sua capulana.

(lá, naquele tempo)

Eu vim de lá. Vivi lá e lá li livros sobre fórmulas alquimistas do viver, que não podia entender sem perceber primeiro que a areia dourada que nas suas folhas se entranhava, que as manchas das mangas que me sujavam a camisa, essas, eram as primeiras letras a ler, a cartilha da cidade. Das duas cidades... lá, naquele tempo...

– e bastava saber olhar como sabia ler. Se o tivesse feito, então perceberia que as frondosas copas das árvores eram flores dum jardim com amos e empregados, que a areia da praia era grão que só alvas pás moinhavam, pés de longe pois da cidade que raramente os via calçados.

Lá, naquele tempo, eu fartei-me de ler livros e chumbei, não passei o exame: eu não sabia ler o livro d'A Princesa das Duas Cidades. Naquele tempo eu, estando lá, não estava: não via a luz das capulanas ondeando nos prédios, brilho que se lia mais além do vermelho das acácias e do azul dos jacarandás, cores que cegavam.

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Que me desculpem mas não sei que escrever para contar porquê correu mal. Sei, mas não o digo. É amargo, é maçudo, não estou em boa onda. E disse-o antes, tanta vez. Faço Copy/Paste a mim mesmo, ao melhor baú que é o da nossa correspondência. Porque fico demais amargurado só por pensar em pensá-lo de novo. Falo muito no bom, que sou optimista militante, mas no entrelinhado está clarinho o mau, não é tinta invisível:

“Li-te atentamente. E, sem surpresa, vi que me percebeste. Um beijo adicional por isso, igualmente um sorriso rasgado por saber que tu, também, soubeste que aquela foi uma "época diferente" e não se lhe esquece o travo. Tempo de mudança de conceitos, mentalidades, em que os ecos das revoluções culturais que aconteciam no hemisfério Norte demoravam um pouco a lá chegar, escolhos da distância e não só. Embora, por aí, lá nas colónias até se vivesse mais folgadamente que cá, a "metrópole" exageradamente conservadora e fechada ao além suas fronteiras, as físicas e as psicológicas. É minha convicção.

Não me restrinjo ao celebérrimo Maio de 68 que, então, tanto mudou nas formas de pensar e cujos efeitos mexeram com a sociedade global por décadas, pese o "movimento" em si ter sido "politicamente assassinado" pouco mais dum mês após ter-se iniciado. Não esqueço que, uns 30 dias depois do seu início, Malraux, escolasticamente um guru intelectual da gauche francesa e europeia, foi um dos cabeças da manif dum milhão que encheu os Campos Elísios... contra as greves dos estudantes universitários e dos pólos industriais que, então, lhe aderiram (usine Renault de Billancourt, etc). E, sessenta dias depois, Charles de Gaulle, que no início das manif's fizera uma retirada estratégica para fora do País - 'asilou-se' na então RFA, se bem me lembro - teve a maior maioria de sempre em eleições presidenciais francesas: 80%. Portanto em termos políticos imediatos Maio de 68 foi uma falácia, quase um nado morto após a euforia folclórica. Mas as ondas de choque que iniciou propagaram-se por todo o mundo Ocidental e deixaram rastos de mudanças, maior espaço à liberdade de pensar, e, principalmente aos jovens, uma irreversível conquista do direito a comportamentos com matriz libertária, rotura com o status herdado da geração anterior e que, se já em picos ocasionais era posto em causa, a partir de Maio'68 essa 'revolta' ganhou asas e sedimentou-se. Nós, esta geração, duma forma ou doutra sentimos as suas benesses e somos dalguma forma portadores da luz da sua herança.

Simultaneamente, no outro lado do grande charco, os movimentos de luta pelos direitos cívicos da minoria de ascendência afro atingiam o seu auge (Luther King, Malcolm X), as manif's anti-guerra do Viet’ deixaram a dimensão residual e tornaram-se um fenómeno social nacional que varreu os USA de Leste a Oeste, em todo o lado a tão falada revolução sexual era logicamente cabeça-de-cartaz nas conversas e nos afagos, o movimento hippie atingia o seu auge orgástico com o celebérrimo concerto de Woodstock em '69, e de tudo isso, fosse com atraso ou não, lá chegaram ecos e decorrentes influências. Do Woodstock, felizmente, também chegou o filme-documentário que, contas d'agora, terei visto umas três vezes no mesmo período, número só batido pelo western spaghetti "Trinitá, o cowboy insolente" que vi sem vergonha alguma umas cinco vezes consecutivas no cinema Dicca, LM. Afinal ser puto é ser puto e há fascínios inerentes ao estatuto que são de aproveitar antes de ficarem fora de prazo.

Da mesma informalmente forçada forma em que chegavam os ecos de documentário alternativos ao chatérrimo "Assim Vai o Mundo", que os cinemas passavam antes do filme, acontecia chegarem livros/fotocópias de/ que eram proibidos pois o direito a pensar estava espartilhado; puxo do meu exemplo pessoal, claro que adornado com o irresistível smell do proibido: em 74 lia textos da Internacional Situacionista mesmo que não percebesse nada do que lia, Marx já me cheirava interiormente a demodée mas não o confessava nem ao meu melhor amigo (pré-revolução; que no vivê-la o charme é outro), nutria um fascínio intelectual de 'puto' por Bakhunine's e trupe, e o meu guru privado era obviamente Wilhem Reich. Leituras via empréstimos de amigos que chegavam da 'metrópole' onde estudavam e, alguns, duma outra Europa que tinha também outra maneira de pensar e agir - melhor: de deixar pensar e tolerante no deixar agir. A literatura 'subversiva' circulava se, efectivamente, quiséssemos saber mais além dos matizes dourados ou cinzentos (depende de quem olhava) que enchiam a cúpula do nosso dia-a-dia.

Os jovens reivindicavam o direito a sê-lo duma forma mais consentânea com a nova Era que, se lá só emergia, já assentara praça e forma por todo o mundo Ocidental. E nós vivemo-lo, mesmo que sem consciência política global que soubesse responder aos tantos "porquês" que se levantavam, pois ou era vedada ou passada à lupa, assumimo-la, individualmente e até inconscientemente dos porquês por que o fazíamos, pela irreverência de comportamentos e poses sociais, 'lutamos' por um novo e mais confortável espaço junto do tradicionalismo das famílias e da sociedade. Esta também reagia e moldava-se aos novos tempos. Por falar em tempos e aproveitando a deixa, disso é exemplo a lufada de ar fresco à sociedade – toda - que foi o surgimento da revista "Tempo" (57), em princípios de 70. Tirando casos e nomes isolados, poucos, nunca ninguém, um órgão de informação de grande circulação e todo o seu colectivo se atrevera como eles a fazer capas e reportagens sobre assuntos que eram tabus, quase vacas sagradas. Aí na tua terra, a Beira, houve bons exemplos da coragem de remar contra a maré, dando a cara e assinando por baixo. Assim de repente recordo Carneiro Gonçalves e Gouvêa Lemos, ambos já falecidos, aquele num estúpido acidente de viação na Manhiça (58) quando estava a horas de embarcar para a "metrópole" e assumir nada menos que a chefia da redacção do explosivo neófito da imprensa portuguesa, o hoje ainda referencial semanário "Expresso", a convite directo do seu fundador, Francisco Balsemão, ao que li não sei onde na altura mais conhecido nos Estoris como o "Chiquinho do Porsche" – rigorosamente nada contra quem tenha um Porsche: para mim um 911 Carrera 4, por favor. Azul forte, estofos creme.

Dos excessos? Claro, onde não os há quando de repente "tudo" que era assumido como placidamente eterno é posto em causa? e por "fedelhos", ainda por cima? Mas lá não destoamos do resto do Mundo nosso geracional e também CONSEGUIMOS. À nossa escala: pequenas vitórias que se iam conquistando e acumulando no bornal dos Direitos: fizemo-lo. Ámen. A nós e aos tempos, que a estes quem os viveu nunca os esquecerá.”

Há um culpado indesmentível, um enorme culpado do ódio racial que inquinou a revolução moçambicana. O preto. É assim mesmo, foi ele:
Naquela camada da população portuguesa que contesta (legitimamente!) a alcunha pejorativa de ‘retornado’, mas que lhe veste pele e consciência pelo repisar e re-repisar de rancores velhos de décadas, mastigando ódios a que dá nomes que invariavelmente não fogem aos de ‘comunas’, ‘o 25 de Abril’, ‘vendilhões’ e ‘traidores’, ‘Vasco Gonçalves’ e os militares, e aqueles de especial estimação que são ‘Mário Soares’, ‘Almeida Santos’ e a ‘Frelimo’ – estes dois no caso dos portugueses que viveram em Moçambique, há um que fica esquecido e que é o grande culpado de a descolonização portuguesa ter corrido tão mal para todos. É o preto, esse grande esquecido quando os dedos tremem de raiva ao apontar culpados. O “preto”.
O maior culpado pela tragédia social de 1974 e 75, que arrastou quase um milhão de portugueses a viajarem milhares de quilómetros em fuga a uma realidade que se lhes tornou hostil e em muitos tristes casos ameaçadora à sua integridade física, não foi nenhum dos enumerados nem dos outros que também povoam o imaginário da sua câmara de horrores e de vinganças por cumprir. Nessa galeria falta ‘o preto’, o negro que era assim apelidado e tratado, que foi menorizado durante séculos como se dum sub-humano se tratasse, que nas últimas décadas do colonialismo, em pleno século XX e quase até à sua recta final ainda era tratado como ‘o preto’ por qualquer besta boçal que, vinda das Beiras ou de nenhures, onde era explorado não com argumento de cor da pele mas sim de extracto social, via nas Áfricas coloniais a sua oportunidade de vingar-se da exploração a que fora sujeito, aplicando em dobro o mesmo tratamento a todos os negros que com ele se cruzavam – e eram muitos pois ele emigra para a terra dos ‘pretos’. Em dobro porque utiliza a receita de que se queixava, a exploração, acrescida da dose de racismo que a legitima, que lhe dá segurança e – acredita! justifica-a socialmente: o ‘preto’ é um homem inferior a ele, ‘branco’, e não se coíbe de lho lembrar sempre que pode, começando exactamente na forma como o trata: ‘o preto’. Qualquer negro é um ‘preto’, um ser parecido com ele, ‘branco’, mas geneticamente diminuído intelectualmente e primitivo nos seus costumes.
‘O preto’ é o grande culpado da descolonização de ânimos eriçados, dos excessos racistas que levaram à migração em massa, ao ‘retorno’ dum milhão de portugueses das ex-colónias para o finado Portugal Continental. Ei-lo, o primeiro culpado. Fosse o fascismo rude e abjecto – como era, fosse o colonialismo explorador de pessoas e recursos – como foi, mas não houvesse o tratamento de ‘o preto’ no dia-a-dia que compõe a vidinha das pessoas, e a reacção ‘dos pretos’ não seria tão extremada e mesclada de ódio racial, como foi no período de transição para as independências, radical que se mostrou no erguer de tantos dedos injustos a apontar culpas com critérios defuntos de mais além que a cor da pele.

Foi ele, ‘o preto’, essa humilhação contínua e diária que se ministrava nas ruas e nos empregos, nas conversas que todos os ouvidos sentiam, até nos olhares que se trocavam, arrogantemente superiores quando no espelho deles estava um ‘preto’. Descobri-o, o grande e silenciado culpado. Foi ‘o preto’.

“Porra!”, desabafei; siga o relato:

“As manhãs longas da Rádio Comercial”. Se o nome do programa não era ou é assim, era ou é parecido. Veio-me à tola pela referência às manhãs. Rádio, só ouço no carro. Rádio só ouço quando não tenho um título e veio este como podia ser amêijoas ou este bzzz que se vai perdendo na névoa da manhã - vera: de madrugada estava nevoeiro e agora subsiste aquele céu pardo sem azul, nem abre nem deixa abrir. As nuvens, farripas brancas, são dunas do céu mas ausentes de sol pois o céu não está azul e nele elas são um cortinado branco. O "bzz" era uma irritante avioneta que já fugiu. Levou o megafone publicitário que passou aqui perto e, embora já sejam nove e meia da manhã e fora residuais sornas não acordou ninguém, soou-me tão chato como nos domingos de manhã os doidos dos Grupos Dinamizadores (59) acordavam o bairro de madrugada para irmos dar uma de escravo-proletário e revolucionariamente varrer os passeios no dia de folga dos 'almeidas'. Tontos. Tontos, todos, que nem a sorna histórica se curtia sem ou o megafone ou a consciência nos arreliar. O marxismo-freakismo tinha destas contradições: pureza ideológica nas leituras e vivas incendiados, praxis bem curtida nas longas manhãs da rádio comercial, cerrando ouvidos a bzzs parolos e a mão tacteando a mesa-de-cabeceira à procura da beata do último charro da madrugada.

«To yendi pa Mozi, Ni M’tima umô! To yendi pa Mozi, Ni M’tima umô! Olimbá – olimbá moîo! To yendi pa Mozi, Ni M’tima umô!»

Sou simpático ao escolher este refrão. Não quero morder os lábios ao lembrar outros. Prefiro sorrir e cantarolar o bom.

Não, a frase de entrada deste pedaço de amargura está errada mas não vou modificá-la. Sabem porquê, não sabem? Cá não tiveram grupos dinamizadores pois conheci os “gdup’s” (60) do Otelo e não tocavam às campainhas, menos ainda berravam megafones nos domingos de manhã, estivesse o céu como estivesse. Mas as vassouras ideológicas eram iguais, cá mais diversificadas hertzeneanamente e não duvido ‘cagajésima’ em como uma rádio comercial qualquer estava sempre sintonizada em azucrinar os miolos aos sornas dos domingos de manhã. Ao marxismo-freakismo que mesmo no nevoeiro das ressacas guiava a mão à tal beata e flash!: quando enfiávamos o "cafetan" (61) pela cabeça, apertávamos as jeans e calçávamos as sandálias já o colar ou a pulseira de missangas fora posto, resistente marco colorido cravado no cinzento revolucionário. E, assim, se ia construindo o tal marxismo-freakismo passo a passo até à derrota final. De ambos: já agora gozo o meu momento mordaz, pobre hífen.

E vim-me embora. Cansado do que via. Triste do que pensava. Não foram os meus erros de praxis que sujaram as nuvens. Hoje sei-o mas então apenas sabia que tudo corria mal e tinha de sair de lá, minha cidade, Princesa. E tanto tempo depois e o que restou dá-se por nome tristeza e nada mais há quando paro o dia que me rodeia e penso em muito tempo atrás, tanto que era jovem e acreditava que sê-lo-ia para sempre, tal como o sonho embala e alinda as ilusões fazendo-as eternas. Minto por omissão deliberada: há mais que tristeza, há fiozinhos mal amarrados que, hoje como ontem e como sempre desde então, provocam-me mal-estar quando me enleiam os pensamentos, aquele incómodo íntimo que as decepções, as desilusões não resolvidas trazem e se carregam no silêncio que mais pesa, a mágoa, a tal mágoa que nasce porque as ilusões terminam e o céu se acinzenta, e se envelhece num repente que não avisa de chegada, suavizando-a, e percebe-se o engano de ter acreditado que se seria jovem para sempre. É como uma dor, uma moinha constante que dá sinal de si quando leio, penso ou sinto o céu e as nuvens que idolatrei, e uma chuva de tristeza molha-me trinta e tal anos de memórias, data e marco que separou as águas entre continentes, na viagem matou um jovem e cristalizou a esperança, fê-la peça de museu a visitar em momentos nostálgicos, apenas, somente recordações.

Sinto-me órfão dum futuro que me foi prometido e dia-a-dia levou machadadas tão dolorosas que me fizeram desiludido fugitivo do que cobicei ser, da eterna juventude que acreditei merecer viver. Que acreditei, oh se acreditei… Essa dor não passa, passam é os anos que não a envelhecem, persiste a tristeza por ter sido jovem e ter assim acreditado o futuro, afinal vão e não infindo como o contavam e eu sonhava, sonhava e confiei até vir a dor, esta sem nome que lhe chame além de tristeza, ou mágoa, afinal apenas o tempo em que o céu se virou tanto que até os continentes mudaram, molharam-se-me as esperanças e nasceu um feio verdete na ilusão da eterna juventude que definitivamente a matou, surgiram os nós das memórias mal amarradas e disso tudo hoje, trinta e tal anos depois, lamento e conto.

Acreditei. Como podia não tê-lo feito? Nunca nada nem ninguém me fizera assim sonhar, fora assim tocado e, qual ansioso noivo, suspirava e gemia no nosso namoro a céu aberto, esse mais puro e lindo do que alguma vez o vira, matizes que enfeitiçavam. Amantizamo-nos com o enlevo das juras de amantes, mas na hora do altar um de nós ou mesmo os dois não comparecemos, a memória já não o recorda com triste precisão. A paixão definhou e a tristeza não é bem-vinda a essa cerimónia. Falta mútua, fim de namoro sem culpas ou culpados individuais, fora o céu que se acinzentara e perdera o fulgor que era, fora, o seu maior fascínio.

Tanto tempo depois e o que restou dá-se por nome tristeza, e nada mais há quando paro o dia que me rodeia e penso que aqui envelheço quando houve tempos e tempos, ilusões de céus eternamente jovens. Dói, trinta e tal anos depois.

Ao princípio foram os verbos conjugados em minúcias, vestes, falas, os detalhes da dialéctica em festa na oratória pujante que preenche de luz o silêncio das noites sem lógica. O delírio da construção dos pormenores levados pela imaginação até aos olhares, os gestos, à jarra sobre uma mesa, ao movimento das ondas e tudo o mais que um pintor leva ao quadro enquanto as cores o chamarem. Tudo. A fantasia apoderando-se fracção a fracção da noite, todas as noites. Prendinhas do céu. E cresceu e iluminou-a queimando-a, ardendo-me o corpo, carne e nervo. Veio a erecção. Quase igual àquela na ponta do areal das ilusões onde, finda a cerimónia ritual, fizera do amor verbo pleno e verdadeiro.

As chamas quando se levantam são inconstantes e traidoras. Foi longe, muito a oriente, que lhe vi o primeiro fumo. No delta dos prazeres, de sua gentileza arquipélago das Quirimbas (62). Um rolo de fumo trepando além da noite e dos fusos e incendiando o presente. Fogo. A carne dói e o nervo grita quando as chamas saltam da noite e reclamam-nos seu sacrifício, seu combustível. Lá, no arquipélago e na cerimónia não era assim mas foi assim que chegaram os fumos inquietos que nublaram o escrito, o quadro do pintor e a noite. Os pormenores tornaram-se a realidade. E não se viam os caranguejos fugindo pelas areias a caminho do mar, ou a jarra que ofereceu as flores que vestira e despira. Só as chamas o abraçavam.

O fogo na noite é negro e foi na escuridão que rasei a sombra, mas não beijei. E parti. As putas não beijam.

Como vim? eu conto. Conto tudo.

Alguns, então adolescentes como eu, recordam a sua viagem de vinda de Moçambique para Portugal como um relato de aventura, violas e cantares pois quando os jovens se juntam a festa nasce ou de razões próprias ou qual paracetamol necessário, e até li e ouvi que os comissários de bordo eram generosos na distribuição de garrafitas de vinho, contagiados pelo ambiente. A festa como talhe evasivo à realidade: a viagem para o desconhecido.

A minha viagem não foi tão alegre. No ambiente nada ouvi de festivo além duma salva de palmas e exclamações de alívio quando nos altifalantes se ouviu que já sobrevoávamos o Algarve. Houve hipótese de haver uma viola mas saiu gorada quando paramos na Beira para "dar boleia" ao Gonzaga que tinha recebido um 24-20 (63), segundo então percebi, e muitos anos depois ele me confirmou: o seu violão foi-lhe apreendido por um soldado da Frelimo à entrada do avião, sem de nada valerem os seus protestos de que não se tratava dum instrumento lúdico mas sim de trabalho. O Gonzava é músico, dos bons, hoje profissional e na época nos primeiros acordes do concerto de sua vida. Enfim. O 'Gonzas' – diminutivo carinhoso que recebe com aquele sorriso enorme de gente boa - veio a refilar até sobrevoarmos Marrocos, mais milha menos milha, e não me recordo de quase mais nenhum pormenor, sequer da ementa ou se era bar aberto. Eu vinha calado e sisudo, não conhecia ninguém e ninguém me conhecia. A tudo isso já me habituei.

Paramos em Luanda para mudar do 707 para um Jumbo. Era noite e estava um calor asfixiante, aquele ar parado e seco que arde na garganta e empapa a roupa. O nosso avião ficou na placa bem longe da aerogare onde devíamos aguardar pelo transbordo da bagagem e depois embarcarmos para a viagem directa até Lisboa, agora com novos companheiros de viagem, angolanos, ou 'tugas-angolanos melhor dizendo. Já não era a "ponte aérea" mas ainda o refugo da mesma. Na sala de espera estava um calor sufocante, nem uma janela aberta e o ar condicionado estaria avariado, e éramos largamente mais que os lugares sentados disponíveis. Para cúmulo estavam lá, já há horas, à espera de embarcar no 707 que nos trouxera, passageiros vindos de Lisboa e com destino a Moçambique. Reconheci uma cara, mas o cansaço e o desânimo, o estado de alma, não estava para palavras quanto mais cumprimentos. Era recíproco, lia-se-lhe nos olhos cansados, no fato amarrotado, no suor que lhe empapava a camisa: um dos meus últimos ex-chefes no Sindicato da Estiva, um conferente (64) da “Permar” (65) que fora o último presidente do nos tempos corporativos, de "comissões administrativas superiormente escolhidas" - que eleições nunca lá conheci em quatro anos de trabalho, no antes, no interlúdio e no depois.... Recordo-me perfeitamente do nome dele e de duas particularidades: José Augusto Pimentel dos Santos, e tinha um defeito num braço ao nível da articulação do cotovelo que o fazia, nessa zona, estar sempre afastado do tronco: ou seja tinha o braço "torto"; e na caneta usava em exclusivo tinta verde. Eu, que trabalhava no escritório, chamara-me logo a atenção esse pormenor pois nunca vira ninguém escrever sem ser a azul, vá lá a preto. Uma excentricidade que se me fixou e recordo até hoje.

O pior fora a 'viagem' entre o avião, parado a uns bons cem metros da sala da aerogare, e esta. Foi feita a pé, cada um carregando a sua bagagem de mão, de cabine, o percurso balizado aqui e ali por militares que depois percebi pelo linguajar e pela tez 'morena' serem soldados cubanos. Éramos olhados provocatoriamente, ouviam-se de vez em quando, naquele humilhante caminhar que nunca mais parecia ter fim, insultos provocatórios, o tradicional 'colonialistas' e outros que não vale a pena citar. Nem o ânimo, que era mais desânimo que outra coisa, ou o calor, ou o armamento que exibiam, nada em nada levou alguém a retrucar. Seguimos de olhar baixo e estivemos encerrados, apinhados numa sala onde a temperatura não era inferior a uns 40º, umas duas asfixiantes horas até que o transbordo da carga fosse feita e tivéssemos ordens de embarcar para a viagem final, um 'non stop' até Lisboa, com música de fundo dos resmungos do Gonzaga. Que me lembre mal dormi, terei passado pelas brasas mas a excitação, os nervos, a ansiedade, o conflito interior com a 'fuga' de Moçambique e que estava bem longe de estar aplacado, não me permitiam fechar olhos, serenar.

Chegamos à Portela manhã cedo, estavam 7º e pensei que morria de frio. Na aerogare estavam uns balcões de atendimento da Cruz Vermelha, ou do IARN (66), ou seja de quê ou de quem fosse, onde me deram uma nota de 500$00 e perguntaram-me se precisava de alojamento ou alimentação. Eu, no bolso, trazia a morada da "prima Amélia", em Campo de Ourique, de que não me lembrava nem ela de mim. Disse que não, que ia para casa da "prima Amélia". E fui. Tomei um táxi e dei-lhe a morada, Rua Adelaide e Sousa e já não me recordo do número, sei que o machimbombo 9 tinha uma paragem em frente. Comigo foi assim.

Vinte e oito anos depois encontrei o Gonzaga no “piano-bar Sinatra” que ele então tinha no Estoril. Reconheci-o, claro que ele a mim não, pois eu nunca fora à Beira excepto para lhe dar a tal boleia. Perguntei-lhe em que data viera para Portugal e batia certo. Falei-lhe na viola apreendida já nas escadas para o avião, e batia certo. Só este frio persistente, este gelo de memórias trinta e tal anos depois não bate certo. Acredito que nunca baterá mas gostava de fazer o enterro desta parte de mim. É por isso que digo em metáfora que "morri" nessa viagem, a primeira e única vez que me meti num avião - tão má foi a experiência e de tão baixo nível são as suas memórias (desculpas). 20 para 21 de Janeiro de 76, ou 21 para 22 - já me baralho... É mero pormenor que cai na irrelevância no meio desta comporta aberta, desta viagem se calhar acertada se calhar o maior erro da minha vida. Concordo com quem diga que este cadáver cheira mal.

Ramal.

Há tempos perguntaram-me porque não publico, se escrevo que me desunho quando “converso” por e-mail. Respondi que prefiro ler o brilho dos outros e o meu gosto aí é padronizado. Retrucou que era egoísta em não deixar 'os outros' lerem o que escrevo, que estava a privá-los de lerem as minhas luzes (era voz amiga, claro). Falei-lhe na lamparina que não é nem candeeiro nem sol. Falei-lhe em como se sei que ela cá permanece, acesa, resguardo-a sob sobretudos e cachecóis, muralhas que só cedem perante cada vez menos olhares. Um, dois, na maioria um único olhar além do meu: chego a escrever textos-mail sem até ao meio do lençol saber a quem o mandarei, qual a vítima escolhida. Até já aconteceu acabá-lo e na caixinha do endereço electrónico abrir uma letra à sorte, e na lista proposta ‘picar’ um nome ao calhas: mande para o lixo se não gostar. Não estou "a privar ninguém" de ler brilhos, o texto-belo. Tenho uma lamparina que alimento e protejo. Mas há sóis à solta, há brilhos maravilhosos por aí. Eu leio-os (e leio-me), por isso sei. Não percam tempo com minudências, luzinhas que mal se vêm mesmo se revelam a impudez da nudez da pilinha do escritor.

É, sou simultaneamente doce e amargo. Uma canseira, uma confusão. Mas gosto de escrever: é prazer.

Caiu-me esta tentação aos olhos em momento que para prazeres ameaça-se tão adequado como régua e esquadro ao contorno feminino se a olhar-se o resultado a imaginação estiver anestesiada. Mas até uma lágrima pode ser "prazer" se o gordinho não foi enxaguado até às rugas, se o deslizar duma palavra, um dedo, um olhar, fê-lo pingar e contá-lo ao Mundo, húmido de prazer, mariscando-o, luando sonhos.

Escalam-se os anos e de cada ficam memórias não organizadas cronologicamente mas sob critérios emocionais: gostei; não gostei. E recordo-me do prazer algures nos tempos em que os calções eram o equipamento para as melhores corridas do mundo acerca de tudo e outro tudo ainda, aquelas em que o último a chegar era maricas, e em como segurei em carícia de pormenores o meu primeiro Dinky Toys, como nas minhas mãos ele se agigantou bem além da escala maior à dos escanzelados Matchbox's com que até aí soletrava o prazer de brincar às corridas na borda do passeio: era tão lindo, elegante, eficiente, que seria invencível e o meu prazer de então ainda hoje me faz parar às montras onde estão todas as corridas do mundo a quem se lembra que «o último a chegar é maricas», quem se lembra e não esqueceu. Raso ao lado o cliché do primeiro beijo pois é assunto em que me quero eterno hesitante, se o primeiro se o último, ou o que ainda há-de vir e qual deles como exemplo do fogo, se deles o prazer é o arrepio ou o crescer do gordinho até não caber no peito e dá-lo por inteiro a alguém assim sonhador e beijoqueiro.

Senti-o igualmente em tantas coisas que enumerar a memória é aviltá-lo na incompatível compatibilidade: sabe melhor - prazer - um entrecosto minhoto temperado com as ervas todas e ainda amor, ou a fatia de bolo de chocolate que, mágica, faz da sobremesa lábios colados no prazer do doce de beijar o nosso chocolate íntimo, o festim da carne amada ou o roçar dos sonhos doces? não sei, não sei. E sei que é prazer onde nunca me decidirei até porque ele, deleite, saliva primeiro no olhar a receita, segue em frente à temperatura ideal e aloura tentador a quatro mãos que se tocam na construção dum prazer comum, e a ter de escolher entre o prazer do palato ou a volta ao quarteirão de mãos dadas para desmoer e lamber as migalhas do prazer enlaçado em cabeças no ombro, eu nunca me decidirei pois afinal são um todo indissociável. É assim que as réguas e esquadros das racionalidades transmutam em beijo, Prazer, o fast food diário e a pizza telefonada.

Caiu-me na mão e eu sedento, esfomeado que nem lobo em Inverno, enredado na dificuldade de escrever acerca da emoção que nos faz rir pois dela nos hojes os amanhãs terão dificuldade em encontrar ficha além desta folha, dalguma forma prazer pois conta de carrinhos e prendinhas, e do bolo comido em beijo que pode ser a nossa vida lambuzada, haja lábios que fiquem húmidos ao ler a receita dos pratos simples e seus prazeres. E então tudo se vence porque o último a chegar é maricas e chegou o Senhor Prazer, que não se se distraia ao cruzá-lo para o gordinho abrir-se num sorriso e cumprimentá-lo, «muito prazer em vê-lo! afinal conhecemo-nos de há tanto e não reparara!»

São "estas merdas" que dão as memórias, não a tralha dos desprazeres: deles as fichas não contam, rasgam-se, perdem-se na reciclagem de envelhecer. Prazer-prazer? era não ter escrito isto, que fiz porque falei no prazer da escrita, que fiz para falar na minha cidade minha Princesa, que me põe a molhar folhas, páginas já tantas disto que comecei e sem mais soluços acabarei.

"The good old days never return". Ainda bem pois estou melhor municiado para serem mais do good do que foram, e eu adolesço conforme vou contar. Tenho um brinco e vou usar um rabo-de-cavalo. Os anos escorregam-me na pele como se deslizassem em óleo e caem num ralo que olho aos pés e não vejo mas sabendo que está lá, e lá mergulham todos os sinais da maturidade que deviam ser característicos da minha idade biológica e não os encontro. Nenhum. O ralo. Foram-se e não sei se perdi se ganhei. Adolesço continuamente, noto-o em coisas de nada mas juntas endireitam-me os ossos e olham com vontade de bis o brinco que tive e já não uso, e se tenho uma recaída de pensar e envelheço chego a ter medo pois se é ilusão não é natural. Mas não é: o buraco na orelha permanece, apalpo e sinto-o. O natural seria envelhecer mas embora veja que os cabelos têm mais fios prata que no ano passado neste apetecem-me coisas que nunca soube fazer. E outras que soube mas já não faço, mesmo do antes de guardar o brinco.

De muito antes, valha a verdade. Acredito que não é ilusão e retrocedo no tempo com a mesma irreversibilidade com que até há pouco lhe acelerava, retrocedo quando penso no brinco e até ando com vontade em aproveitar os cabelos que já não corto há uns vinte centímetros de meses e penso que um rabo-de-cavalo dava-me jeito. Outra: nunca soube dançar mas agora apetece-me sabê-lo. Bailar, as mãos numa cintura e os rostos tão colados como ela, a música e a mãe dela deixarem. Ciúmo-me de não sabê-lo e quero ir a treinos para aprendê-lo. Também de não saber tocar viola ou bandolim, abrir o baile e raspar-me mais a cintura ainda as cordas dedilham olhos brilhantes. De brinco e rabo-de-cavalo, a prata apanhada atrás em cofre sem fecho mágico e só secreto para mim. Nunca soube namorar mas refilo com o lado bonito do mundo por me ignorarem como 'date' plausível, eu que quero voltar ao liceu e aprender a engatá-las para passear de mãos dadas e roubar beijos apaixonados, fazer juras eternas e acreditar que são assim mesmo. Até já fui procurar em caixas velhas que me envergonham de antigas, resíduos de brinquedos do meu filho varão, hoje um matulão de vinte e sete anos e com certeza mais maturo que eu, eu que tenho um brinco na calha de regresso e olho de esguelha os elásticos de cabelo da filhota mais nova, dezassete, pronto a gamar-lhe um. Carrinhos, procuro carrinhos nas caixas velhas para brincar.

Não fosse o Inverno à porta e as varizes nas pernas e não tardaria a andar de calções. Posso sempre usar meias altas, mas isso dava-me um ar tirolês que me envelheceria pois nunca fui à Áustria, apenas vi o “Música no Coração” the movie, e o à La Féria. Quando era miúdo genuíno e não aprendia a dançar para namorar, ia ao consulado da Áustria em LM e trazia resmas de catálogos onde via a neve e as casas nos vales, e gostava. Deve ser daí que me lembrei das meias. Outra ainda: tivesse mesada para isso ou um primeiro emprego como no antes haviam e eu tive um, e voltava a comprar uma mota e estava pronto a reesfolar joelhos e cotovelos para verificar espalhafatosamente e pintalgado de mercurocromo que já não sei fazer um cavalinho. Mas havia de lhe apanhar o jeito de novo. Adolesço, por isso reaprendia. E dançava, e namorava. Os carrinhos seriam reprise, queria era aprender o que não aprendi e por isso voltavam para a caixa pois há coisas onde não se deve mexer, matéria dada tal como os berlindes em bolso meio cheio de rebuçados. Adolesço, não infantilizo. O baile, o beijo, a viola e a mota. Nada mais.

Envelhecer custa. Mas não me chamem patético: tenho um furo na orelha esquerda que diz e conta que isto teve um princípio tardio mas depois tive medo e esqueci o brinco numa gaveta. O rabo-de-cavalo fará de vez levantar a roda da frente até à esquina do fim da rua. Depois as miúdas na esplanada serão o semáforo: ou derrapo com a viola a tiracolo e estaciono e bailo, ou carregam no botão e paro de adolescer, e envelheço apalhaçado numa mota cheia de cromados que pimba-combinam com o brinco e o tal cofre prateado. Tentar não custará assim tanto e, cavalinhos, já os treino diariamente, arranhão a arranhão.

Diz-se que não há rosas sem espinhos, e, piquem e pesem eles o que se lembrar e der coceira, ela continuará a ser a princesa das flores, pétalas capazes de transformar amante desajeitado em galante sensual. Depois há a fragrância, aquele aroma que enlouquece os sentidos e encaminha-os para o leito das praias onde amar sempre foi e é especial, aquela índica magia que nos agita o íntimo quando lembramos os afagos que nos tornaram hoje tão exigentes quando se trata de amar.

Daqui a um mês exacto (67), como sempre, naquele que é o dia em que nos registos consta a tua maioridade – 24 de Julho, dia da Minha Cidade, dar-te-ei um beijo silencioso e nele o meu eterno Obrigado pelo que de ti colhi e, egoísta, guardei dentro de mim sem o participar nas alfândegas que os homens construíram, essas barreiras que um jovem rebelde não resiste em ultrapassar trazendo os seus tesouros em contrabando, cioso e ciumento, temeroso de não ter fundos que cheguem para as pesadas taxas que, se tal paixão revelada, certamente a onerariam insensivelmente. Rebeldia hormonal igual à dos amores em que caminhando enlaçado pela ternura e seus valores gémeos, os olhos cegam-se por instantes e não resistem a mirar um rabo alçado que siga num qualquer além, tentador passeio do outro lado de avenidas que não se devem passar quando se passeia assim apaixonadamente acompanhado. Acontece, aconteceu. Não foi "uma facadinha", daquela que dos amuos faz nascer ternas reconciliações. Foi divórcio de papel passado e tudo, passagem aérea que dizia ser 'ida e volta' e por cá fui ficando, fiquei.

Hoje, além da memória que peca por este excesso nostálgico, sobra a estatística registral que diz, embora sejam fragrâncias que se traduzem em aromas residuais quando se vai até ao ponto do sim ou sopas. Há jardins e certidões onde no canteiro da cota lateral para averbamentos, aparecem os de dois casamentos entre os mesmos nubentes, repetentes no persistir em amar e colher pétalas da mesma flor. Com o intervalar divórcio a ser lido como o fait divers que a serenidade do tempo minimiza, releva, trás um leve sorriso ao, enlaçados no mesmo passeio, olharem a avenida do passado.

Há casos assim, acreditem-me, pois já tive na mão certidões que falam dessas histórias de rosas com espinhos e averbamento de sempre belas, mas nenhuma ainda com o meu nome. Do além ninguém jura ou sabe: as praias e o seu feitiço à libido continuam lá como que esperando outro beijo, tantos anos depois.

(um dia tive uma viola. algures a memória diz-mo. mas se me releio vejo que esse tempo voou sem que tivesse aprendido mais que aquele trecho do "smoke on the water" que todos sabiam tocar. mas é bom recordar que um dia tive uma, como todas pejada de mais sonhos que de tons dedilhados sem ofensa ao instrumento musical. afinal.... será este o 'elo perdido' desta sinfonia tão maltratada?)

Na verdade gostava de voltar a Maputo. A uma cidade que psicologicamente quero reconhecer, que quis minha aos dezoito e onde hoje não conheço ninguém. De mim vazia, sem cantos que chame meus, e onde as esquinas que encontrarei são mais momentos para nelas assentarem os silêncios das memórias, de quando eram tão diferentes que quase já delas se não reconhecem as inscrições nas pedras, e menos ainda para um presente sem histórias para me contar, mudo no falar-me dos carinhos das manhãs e as suas ruas contarem-me dos cresceres de ontem e de antes de ontem, depois e antes de mim. Um vazio de décadas sem registos, espaço de memória que não se recheia só porque se lhe sentiu o oco, um buraco inteiro para encher, escrevendo-o. Como, se escrever o passado não é mentir, como, se gabar os deliciosos rissóis ou as lindas pernas da miúda não sejam factores subjectivos e volúveis, tão pouco perenes como é a fé na eterna dose certa de tempero ou no brilho do bronzeado durante a enormidade dum longo ano: trinta e muitos são muitos álbuns de fotografias arquivados. Voltar também o eu-agora, naturalmente aos cinquentas melhor leitor que então, impulsivo e umbigista. Voltar, pensar-me. Voltar a Maputo ou ao ponto onde fiz clique, uma opção?

Não a imagino, nova cidade: digo a todos que o seu presente não me espantará e não entrarei no perigoso jogo do passado; porque o receio, o medo, é pelo silêncio. Temo-a por não querer sentir nela o mesmo que em Punta Umbría, e pensar que os espanhóis escureceram de repente. De cirandar à procura de pontos turísticos, os globais e os pessoais, esconder-me atrás duma figura, um cliché, uma multidão que faz a sua Meca pós-colonial. Ousar referir um dia, em conversa, que «fomos a Sevilha e a Maputo, tenho umas fotos porreiras». Temo-o, dar comigo assim, velho vencido pelo fim da inocência da juventude.

Mesmo assim gostava de lá voltar para, olhando a baía, ter uma conversa comigo mesmo; utilizando o verbo curriculado como defesa e ânimo, dose pessoal de auto-coragem para me sentar na marginal ou num jardim das barreiras, e reconhecer calmamente até que ponto tenho mentido sobre o porquê de lá querer voltar. Fechar os olhos e fechar também um livro que tem tantos anos com páginas em branco. Depois sigo os elefantes: está feito, rasgo a foto.

Perco a cagufa (68) à terra vermelha. Cagufa de serem apenas escrita e rosas no regaço, Senhor, ficção mal compartimentada e até, em catástrofe, decapitação matricial do eu-narrador que ninguém vingará em santa edição póstuma: eis o umbigo exposto. E nada mais tenho, confesso: é do medo ao seu cheiro o esvair, raspado, este cuspo na ferida, este sarar de tinta escrito que fala dum dia voltar a sentir o bafo quente do cheiro a terra vermelha chuvada, o caminho de casa. Até lá esgaravato papelitos e apontamentos dobrados no fundo da gaveta do passado, ficciono que há tanto por escrever...

Percebem? contas por encerrar.

Há uns anos atrás conheci um intelectual com longas décadas de intervenção cívica e política vividas e escritas, e que não deixam dúvidas sobre o seu posicionamento ideológico e quais as piscinas onde nada quando desvia as braçadas do seu pensamento dos mares académicos em que veleja em letras grandes, que é candeia de referência. Tratando-se de conversa à mesa (as melhores, sei lá se do informalismo do jarro se pelo agradável do treca-treca no vozear de pratos à frente) de memórias de Moçambique e da sua revolução, os sonhos e os dramas, comentou-lhe, gozão, o amigo com quem estava, que era quem o conhecia pois ele é que chamou para o nosso canto a meu grato benefício pois não o conhecia senão em nome e muito vagamente: a exemplo, nunca tinha lido nada dele mas, por isso, pelo que gostei do relacionamento quer na informalidade do trato, quer depois aquando da sua alocução na Conferência em que estava integrado, não resisti a ler-lhe a poesia, as memórias, e a crítica literária. Bem, falava-se da democracia popular, da onda revolucionária e de como ela foi dada ao exagero acerca do aprazível que seria o mar das ‘ditaduras do proletariado’ ou das ‘democracias populares’, e como disso foi montra o Moçambique de 74/75, e diz-lhe o meu amigo, atiçando uma conversa em que se abordara as razões que levaram tantos como ele a “abandonarem” a revolução e o país, no seu caso com portas muito grandes declaradamente abertas, mão estendida ao seu ingresso: «houve uma altura em que eras dos poucos brancos que assumia que queria continuar branco!». Claro que se falava na população engajada nos ventos revolucionários e não da que lhe tinha profundo eczema.

Sem a mesma clareza de explicação intelectual e ideológica que dele se tratava e, por via do seu exemplo, se justificava, vivi e vivo há três décadas com a conta mal-arrumada do meu ‘abandono’ da revolução moçambicana, e senti aquele exacto sentimento de protesto crescer dentro de mim até se tornar incontornável, mais a mais sabendo-lhe a cura e tendo acesso a ela, apimentada pela aventura de ir conhecer um mundo mais "evoluído", ao que todos contavam e o cinema injectara anos e anos – todos até ao momento: a Europa, afinal minha matriz cultural, raiz familiar e até berço – os suportes que então abracei para justificar a decisão. Ao desconforto ideológico cada vez mais forte aliou-se a realidade de saber de claras provocações e perseguições racistas sob capas revolucionárias, uma mão de casos a que assisti, neles um ou outro onde fui personagem. Daí à bicha e ao passaporte “do passado” foi um instante. De ter declarado de todas as formas que me eram possíveis que Moçambique era o meu novo país e eu era e queria ser cidadão moçambicano, passei a uma inscrição no consulado e cartão identificativo como “estrangeiro”, tratei de me despedir no trabalho e de dar fins aos tarecos, nasceu uma agenda de bolso com números de telefone e moradas ‘em Lisboa’, fiz um plano mínimo e tratei de burocracias como o famoso “papel azul” (69): ainda o tenho, não há muito tempo atrás e a mexer em pastas com papéis amarelados dei com ele, a colecção de carimbos que diz que eu nada devia ao fisco e aos serviços públicos da cidade, e ela assim a dizer-me que, contas feitas, não tinha o menor problema em ver-me pelas costas, leitura desagradável mas que não evito quando dele me lembro: se eu queria “fugir”, a cidade, o país e a revolução também não mostravam ficar com saudades minhas, tantos carimbos a darem-me oficiais despedidas.

Um desencanto que foi crescendo, um desconforto diário, uma certeza sempre: «eu não gosto do que se está a passar aqui, eu não quero viver assim». Tinha vinte anos, alguém a rondar os trinta era “um velho” e nos meus círculos de relacionamentos íntimos não havia ninguém com quarenta ou mais. Comprava o “Luta Popular” (69) e outros quando lá apareciam e não podia deixar de me abismar com a liberdade que havia na revolução do meu ‘outro país’: as manchetes, os relatos das manifestações e a liberdade intelectual que adivinhava pelo que lia, e não podia deixar de comparar com o que se passava no meu dia-a-dia, na revolução ao meu lado. A pobreza intelectual dos artigos e colunas do jornal e da revista de lá, então acho que até os únicos, o “Notícias” e a “Tempo”, quando em confronto com o que lia nas publicações que conseguia idas ‘de Portugal’. Até da “Afrique Asie”, que me recorde então a minha única leitura internacional. Em Moçambique-LM editava-se só propaganda, única e de má qualidade como norma. Mesmo os ‘textos revolucionários’ em livro que imperavam nas livrarias eram da cartilha aprovada, e não havia lugar a devaneios intelectuais alternativos, a exemplo os textos anarquistas ou de dissidências marxistas-leninistas desapareceram após a boa euforia livreira do pós 25 de Abril: livros que já não se compravam e cobiçavam-se a quem os tinha, e restava ler “A Sagrada Família” do Engels e toda a sua famelga - comecei este ‘n’ vezes e nunca consegui ir além das primeiras páginas e por isso o cito à cabeça, inflamados discursos de Enver Hoxha e Kim Il-sung, inesquecíveis exemplos da parvoíce com que enchia o cérebro, e é se queria ir além da dieta nacional.

O racismo de sinal contrário que era utilizado em abuso justificado com os abusos do outro tempo era asfixiante, um garrote que lentamente estrangulava os sonhos, perguntando-me eu o que tinha a ver com isso além da coincidência pigmentária. Só que ouvia e via e também recebi a minha dose, e não gostava do que ouvia, via e sentia. «Não gosto disto assim, vou-me embora». Dito e feito. À minha maneira e portanto às meias pancadas e por isso esta conta que sempre tive como mal encerrada. No fundo no fundo, eu, passada a vertigem da tal onda, esticado na areia da praia após os irresistíveis mergulhos na sedutora Revolução, pensava para comigo que não via mal nenhum em ser ‘branco’ e já não queria ser ‘preto’. E se em relação às paixões revolucionárias não sentia perda de fulgor, já era baço o brilho onde as práticas existiam, tornando irreal o discurso oficial. Perdia a galope acusadores emaranhados intelectuais pela cor da pele que tinha, e assumia que gostava dela, gostava de mim assim como era e não via erro nenhum nisso, nem na cor nem em mim. E não gostava que não gostassem de mim por pensar assim.

Foi mais ou menos assim que “fugi” e estão aqui quase todas as parcelas desta conta que tenho por fechar. Se digo quase todas é porque há sempre em cada um de nós um qualquer pormenor vivido que se nos agigantou a passou a estatuto de parcela, e das fortes, dalguns calhará falar valendo o que vale o testemunho sempre emocional de quem foi parte, doutros nem isso merecerão tão menores que são os então grandes problemas quando olhados ao telescópio que o tempo lhes arranja. Enfim e em resumo, num instante devolvi a casa ao senhorio, dei ao Luís Garcia de Brito, o meu melhor amigo, os livros e os lp’s (desconfio que se desfez dos primeiros ainda eu estava em voo, mas acredito se me disserem que os meus lp’s ajudaram a muitos fins de noite em ‘boa onda’), comprei bilhete e fiz duas malas, numa delas uma lata de pó talco “Jonhson’s” com, lá dentro, uma pequena banana de suruma de Nampula embrulhada em capa dupla de plástico, que nem isso a salvou de vir a ser autêntica pestilência fumada tal o cheiro que deitava. Entreguei a BSA ao pai do Luis Kurika – era o acordo de quando lha ‘comprei’ por, salvo erro, dois contos e quinhentos: se eu mudasse de ideias e viesse para Portugal, deixava-a ao pai pois podia ser ele a mudar de ideias e a regressar a LM; o carro que tinha ‘herdado’ quando o meu pai faleceu foi entregue à minha mãe para o vender, e nada mais tinha ou trouxe além de quinze contos que transferi ao abrigo dum acordo qualquer de câmbios de divisas, bichas intermináveis numa esquina qualquer da praça 7 de Março, mais quinhentos escudos que troquei no câmbio do aeroporto, pois era esse o máximo autorizado como dinheiro de bolso. Trouxe um lp com discursos do presidente Samora, que me aprestei a oferecer a uma velha paixão e que ela recebeu com cara amarela.

Eis as parcelas, arrumadas num instante. Menos a ‘tal’, a que não olhava de caras e que deixou a conta por fechar: havia racismo “contra o branco” que ia muito além de margens dissimuladas, e nem tinha culpas pessoais pela saga colonialista nem vergonha em ser ‘branco’, dando-me mal com a constante ameaça e episódica realidade de, por tais, ser pessoalmente acusado. Hoje, finalmente hoje, livro nas últimas linhas, aceito que tomei a opção certa.

Estou a ficar fã de pontos finais.







Terminado a 25 de Junho de 2009, 34º aniversário da Independência de Moçambique. Coincidências

NOTAS

1 – (picadas) estradas rurais, geralmente de difícil trânsito e só acessíveis a veículos 4x4 na época das chuvas
2 – (cantinas) lojas no “mato” que vendem um pouco de tudo; no período colonial algumas eram o único acesso a bens de consumo em áreas de centenas de kms2
3 – (cais Gorjão) cais do porto de Lourenço Marques/Maputo, de grande tráfego
4 – bairro da cidade
5 – (Rua Araújo) Rua Major Joaquim de Araújo, popularmente conhecida como “a rua do nosso major”; sita na zona antiga da cidade e junto à área portuária, então popular pelos dancing’s e bares com prostitutas; actual Rua de Bagamoyo
6 – (feijão-verde) magalas; mais aplicável aos soldados não graduados recém chegados
7 – (chuinga) pastilha elástica
8 – (Acordo de Lusaka de 1974) celebrado na cidade que lhe deu nome, entre o Governo Português e a Frelimo – Frente de Libertação de Moçambique, aquele reconhecendo o direito à independência de Moçambique e a Frelimo como único interlocutor válido do povo moçambicano; criou um governo de transição conjunto até à independência, com data fixada para 25 de Junho de 1975
9 – (flat) como usualmente se chamava aos apartamentos; em Lourenço Marques existia uma forte influência sul-africana pela proximidade geográfica
10 – (mamana) senhora africana com usos de traje típicos, a exemplo a capulana – pano em cores garridas que usa como vestido - e o lenço na cabeça; normalmente comerciantes de rua ou de bazar – a “praça”, cá; as designações em dialecto são em shangane, o mais usado na cidade e periferias
11 – (azeite Gallo) as latas de azeite desta marca eram muito populares; recicladas pelos miúdos, os ‘mufanas’, para improvisar a caixa de violas
12 – (básket) basquetebol; dos desportos mais populares em Moçambique
13 – (machimbombos) autocarros; eram raros os que tinham porta
14 – (FACIM) Feira Agro Comercial e Industrial de Moçambique; com instalações fixas na ‘mata do Zambi’, zona arborizada no extremo Norte da baixa da cidade
15 – (Zambi) identificado na Nota anterior
16 – (n’tchuba) jogo popular africano, em que na versão mais rudimentar se escavam quatro filas de covinhas na areia e joga-se com pedrinhas; de raciocínio complexo
17 – doces populares; (pirolito) um rolo de açúcar aquecido no ponto e enrolado em papel vegetal em feitio de cone, com um pau servindo de pega: um “chupa chupa” que se encontrava em vendas ambulantes; (gelo-doce) basicamente cubos de gelo feitos com capilé ou groselha, era vendido nas cantinas
18 – (Liceu Salazar) hoje Liceu Josina Machel; o maior da cidade, sito no bairro da Polana; no período colonial a sua “ala feminina” tinha a designação autónoma de Liceu Dª Ana da Costa Portugal
19 – (Mavalane way) referência ao aeroporto da cidade, sito e conhecido como “de Mavalane”
20 – (mafutas) gordos
21 – (Liceu António Enes) hoje Escola Secundária Francisco Manyanga, era o segundo liceu da cidade; sito no bairro de Alto Maé
22 – (laurentino) os habitantes brancos de Lourenço Marques eram conhecidos como “laurentinos”, usando-se também o termo “coca-colas”
23 – (Escola Joaquim de Araújo) Escola Preparatória Joaquim de Araújo, hoje Escola Secundária Estrela Vermelha; sita no bairro da Munhuana
24 – (chefe de quina da Mocidade Portuguesa) primeira gradução na MP, organização estudantil do Estado Novo, de inscrição obrigatória aos alunos findo o então ensino primário
25 – (Casa Vilaça; John Orr’s) casas comercias da Baixa, muito conhecidas
26 – (LM) abreviatura de Lourenço Marques, muito usada; igualmente marca de cigarros das mais conhecidas
27 – (café Scala) este e o seu fronteiro, o Continental, eram dos cafés mais frequentados na Baixa, sitos na esquina mais movimentada e com grandes esplanadas; o Scala pegava com o cinema de mesmo nome; actualmente estão ambos encerrados
28 – (Matola) então já vila e hoje cidade; na periferia de LM, na prática um bairro periférico
29 – (praia da Polana) à altura a mais popular da cidade; hoje muito degradada – ao que contam
30 – (Dragão d’Ouro) restaurante e café, com jantares com baile aos fins-de-semana; hoje demolido e no mesmo local edificado o Hotel Holliday Inn de Maputo
31 – (Inhaca) ilha ao largo de Lourenço Marques, muito conhecida como destino turístico
32 – (Princesa do Índico) variante à designação poética da cidade de Lourenço Marques “Pérola do Índico”, esta também utilizada quer para a ilha de Bazaruto quer para a de Moçambique
33 – ("a namorada que sempre sonhei") trocadilho com o nome da canção de Nilton César muito em voga em finais de 60’s , princípios de 70’s: “A namorada que sonhei”
34 – (Namaacha) vila a cerca de 80 kms de LM, fazendo fronteira com a Suazilândia
35 – (boers, afrikanders) sul-africanos brancos de remota origem holandesa; a sua língua, mistura de holandês, inglês e bantu, confunde-se com a alemã a quem não conhece ambas
36 – (lp’s) long play’s; discos em vinil de grande formato, os “33 rotações”
37 – (languçar) espreitar
38 – (Figs) Carlos Manuel Vasco de Figueiredo; dos vocalistas mais populares entre a juventude laurentina; um grande e porreiro maluco que continua a cantar na nossa memória
39 – medicamento para a obesidade; usado em abuso como “speed”
40 – (lipos) abreviatura entre os “freaks” do medicamento Lipo Perdur
41 – (“Comércio”) designação popular da então Escola Comercial dr. Azevedo e Silva, hoje Escola Comercial de Maputo
42 – (Bilene, Xai-Xai) vilas algo distantes de Lourenço Marques mas muito procuradas pelas suas praias
43 – (‘tripei’) de ‘trip’, viagem; a acção psicadélica do LSD, muito prolongada
44 – (Kalash) abreviatura da metralhadora de origem soviética Kalashnikov Ak-47, usada pelos guerrilheiros
45 – (Ponta do Ouro) localidade semelhante às da Nota 42, excepto na dimensão habitacional que é menor; a maior parte do percurso desde LM-Catembe é feita por picada – ver Nota 1
46 – (straights) por oposição a freaks, os “certinhos”
47 – (frelo) abreviatura popular de soldado da Frelimo
48 – (makondes) etnia do norte de Moçambique, geralmente considerado um povo de índole guerreira; usam tatuagens na face
49 – (inhófe) rabo
50 – (Mavalane) ver Nota 19
51 – (…da Moçambicana ou do Hotel Universo, os da Teresinha e os do ATCM, da Princesa) nomes de cafés e outros que eram local de encontro dos ‘grupos’; ATCM: Automóvel e Touring Clube de Moçambique
52 – (drunfos) medicamentos de efeito oposto aos speeds, no uso em abuso; o mais popular era o Mandrax
53 – (Macia) vila sensivelmente a meio caminho entre LM e Bilene
54 – (Afonso Quadros) de nome completo Afonso Telles de Castro e Quadros; ex-administrador colonial, era o chefe de secretaria do Sindicato dos Profissionais de Estiva
55 – (machamba) pequena exploração agrícola africana; horta
56 – (chapas) transportes urbanos populares em Maputo, nascidos da deficiência dos transportes públicos; vão desde a carrinha de nove lugares à pick-up onde os passageiros vão na caixa de carga
57 – (Tempo) a revista Tempo, título que julgo ainda existente, foi um ‘boom’ jornalístico quando apareceu; boa qualidade gráfica e reportagens “sem medo” e sem alinhamento com o regime
58 – (Manhiça) outra vila do então distrito de Lourenço Marques
58 – (Grupos Dinamizadores) organizações de bairro ou de empresas do partido Frelimo, que cumpriam funções de índole psico-ideológicas e de “vigilância revolucionária”
59 – (gdup’s) Grupos Dinamizadores de Unidade Popular, criados na esfera política onde pontificava Otelo Saraiva de Carvalho
60 – (cafetan) túnica oriental, também usada em África
61 – (arquipélago das Quirimbas) situado a Norte de Pemba, ex-Porto Amélia, no Norte de Moçambique, e actualmente de grande surto turístico de classe alta; imagem utilizada simbolizando a vida paradisíaca
62 - (24-20) “24 horas, 20 kgs de bagagem”; designação das expulsões sumárias praticadas pelo governo moçambicano após a Independência, aplicada aos nóveis estrangeiros que eram considerados anti-sociais ou sabotadores da Revolução
63 – (conferente) categoria profissional na estiva, das mais altas
64 – (Permar) empresa de estiva com actividade no porto de Lourenço Marques
65 – (IARN) Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais
66 – porque escrito a 24 de Junho…
67 - (cagufa) medo
68 – (papel azul) documento de exibição obrigatória pelos estrangeiros para sair de Moçambique após a Independência; recebe o nome da sua cor, e levava certificações em como não se era devedor ao Estado ou a serviços públicos
69 – (Luta Popular) jornal oficial do MRPP – Movimento Reorganizativo do Proletariado Português, hoje PCTP/MRPP
















Índice










Capítulo I: A curte 3


Capítulo II: O brindown 61






Notas 89

5 comentários:

Anathelion disse...

Muito bem CG.

Carlos Gil disse...

beijinho, Ana :-)

Claudia disse...

adorei o k li fez me reviver o k nao me lembrava ja e tb vejo k tem o mesmo sentimento k eu em relaçao ao voltar.. espetacular muito obrigada...bjs

Carlos Gil disse...

Claudia, "estamos juntos"
:-)

Anónimo disse...

Porreiro Carlos! MAs quero mais :-)
Fernando Bandeira