quinta-feira, 8 de março de 2012
Edith Piaf - L'hymne à l'Amour
L'hymne à l'Amour
Le ciel bleu sur nous peut s'effondrer
Et la terre peut bien s'écrouler
Peu m'importe si tu m'aimes
Je me fous du monde entier
Tant qu'l'amour inond'ra mes matins
Tant que mon corps frémira sous tes mains
Peu m'importent les problèmes
Mon amour puisque tu m'aimes
J'irais jusqu'au bout du monde
Je me ferais teindre en blonde
Si tu me le demandais
J'irais décrocher la lune
J'irais voler la fortune
Si tu me le demandais
Je renierais ma patrie
Je renierais mes amis
Si tu me le demandais
On peut bien rire de moi
Je ferais n'importe quoi
Si tu me le demandais
Si un jour la vie t'arrache à moi
Si tu meurs que tu sois loin de moi
Peu m'importe si tu m'aimes
Car moi je mourrai aussi
Nous aurons pour nous l'éternité
Dans le bleu de toute l'immensité
Dans le ciel plus de problèmes
Mon amour crois-tu qu'on s'aime
Dieu réunit ceux qui s'aiment
....
a canção de amor mais intensa que já senti
divagações em pré-leituras: Jonathan Franzen, Alessandro Baricco e moi, mangusso desolado
terminado o hilariante e geriaticamente mágico "O centenário que fugiu pela janela e desapareceu", de que vos falei ontem e fez-me desejar ser ainda mais velho (!) qu'o algo que já me sinto, esfrego as mãos de rebuliço íntimo pois inicio hoje o "Correcções" (traduzido ainda antes do AO, felizmente), da Dom Quixote e do já longínquo ano de 2001, e que «neste solarengo mês de Março» de 2012 a Biblioteca Municipal Marquesa de Cadaval amavelmente me confiou à leitura.é de Jonathan Franzen, o mesmo norte-americano que no ano passado me pôs quase em órbita de êxtase (pronto, pronto: eu sou assim!) com o "Liberdade". tremo de ansiedade, tais as memórias que tenho do outro, impaciente em voltar a encontrar-me 'a páginas tantas', tal como sempre sucede quando um romance me adoça as mãos e lava-me peito e cara: Baricco (Alessandro) foi talvez 'a porrada' mais forte com o seu "Seda" - é também da D.Quixote mas não me recordo do ano -mas isso também se deveu a um momento especial que vivia e em que a porrada era das fortes (acontece).
momentos especiais que os há sempre, e a porra é que parece que os livros certos me vêm cair às mãos no momento X para lê-los. o "Liberdade", o tal antecessor a este na minha cronologia de leituras do senhor, mas inverso na sua redacção de autor, foi de tal maneira que não só o insultei por tê-lo terminado tão rapidamente como pus-me a recomendá-lo a torto e a direito. bem... não foi bem assim: às pessoas certas, àquelas que não só me encontrariam escondido nas páginas como, com jeitinho, igualmente lá se veriam. e o futuro. ai o futuro, sempre ele a atazanar o presente, este presente de leituras recheado de autores de dotes premonitórios e cuscos-vampiros do caraças das vidas íntimas dos seus leitores.
hum. não sei se gosto disto. mas que o vou ler, vou! depois talvez conte como é que a coisa correu... ;-)
Kony 2012

quando vi que o video tem 29 minutos, pensei: «seca!». a verdade é que não consegui pará-lo e vi-o de ponta a ponta. sem lágrimas mas emocionado. a desejar partilhá-lo, contribuir para mais uns nózinhos na longa corda que há-de prender este filho da puta.
li no jornal que no 1º dia teve dez milhões de visualizações. porreiro. pena é que não tenham sido vinte. cem, um bilião. este cão tem de ser parado, julgado, e responder até ao resto da sua miserável vida por um dos piores crimes de que me posso lembrar: roubar o futuro a crianças, mutilando-as além dos horrores que pratica nos seus corpos.
contribuam, por favor. espalhem este video, que a cara do cão seja pespegada em todos os cantos, todos os murais!
li no jornal que no 1º dia teve dez milhões de visualizações. porreiro. pena é que não tenham sido vinte. cem, um bilião. este cão tem de ser parado, julgado, e responder até ao resto da sua miserável vida por um dos piores crimes de que me posso lembrar: roubar o futuro a crianças, mutilando-as além dos horrores que pratica nos seus corpos.
contribuam, por favor. espalhem este video, que a cara do cão seja pespegada em todos os cantos, todos os murais!
"as putas não beijam": Sapos, putas & Xicuembo
este texto foi escrito por mim a 21 de Abril de 2009 e publicado no mesmo dia nos finados Grupos MSN. no dia seguinte apareceu no Multiply, que então também utilizava. nunca mais me lembrei dele excepto há coisa de um ou dois meses atrás, e não tendo ideia certa de onde o encontraria usei o santo Google que me conduziu exactamente ao Multiply. parece que nunca o editei em nenhum dos meus blogues.hoje ele calhou em conversa. cereja atrás de cereja, ainda a cesta estava mal começada e vem-me à memória uma coisa chata de que me apercebi há pouquíssimo tempo: o senhor Sapo apagou-me o meu 1º blogue, o "Xicuembo", aquele que maioritariamente gerou o livro homónimo. sacanas. sacanas, porque sou um dos que é raro guardar cópia do que escreve, acreditando que as plataformas que os alojam (no meu caso tinha o referido Xicuembo no Sapo, mas ainda tenho mais 9 ou 10 blogues no Blogger), os "servidores", não vêm ou têm grande maçada em servir de estante de arquivo. arquivo de originais, no meu caso quase tudo sem uma cópia. vá lá que muito do falecido blogue está preservado, sob forma de livro. mas muito, muito, não estava.
as putas não beijam enquanto trabalham. fazem-no quando é "de graça", quando amam o seu príncipe esquecendo os sapos, os sapos dos seus dias. eu hoje sou uma puta retirada. reformada. não beijo nem príncipes nem sapos. não confio em espécies mutantes e volúveis, e estou velho demais para recuperar tanta contabilidade profissional em atraso: o que a net deu que a net leve, que se lixe! humpf. sem beijo!
quarta-feira, 7 de março de 2012
o meu 'best seller' dos 100 anos foi adiado!

estou a ler, encantado, as extraordinárias aventuras de Allan Karlsson, um velhote (de 100 anos!) cuja vida só poderia ter existido num romance. e que romance! Jonas Jonasson escreveu-o em 2009, a Porto Editora lançou-o cá em 2011, e neste Março solarengo descobri-o na Biblioteca Municipal Marquesa de Cadaval, aqui em Hell-meirim.
em dia e meio já devorei 252 páginas. com pausas: já aqui* vim espreitar umas quatro vezes. e, se m'encanto e deliro com a extraordinária aventura da vida do senhor Karlsson, que no dia da festa do seu centésimo aniversário decidiu dar de fróxes do Lar onde pastava, entre outras razões que não o ralavam mas sabia existirem, para poder beber uns bons copos sem ser às escondidas da enfermeira esclavagista-geriátrica, a coisa toldou-se-me e está a dar para o torto a meio da pág. 253. lá, escarrapachada, a frase assassina deste livro maravilhoso: «Quando se está numa idade madura, sabe-se melhor o que nos convém». mau...
maduro sou eu, que daqui a um mês faço 57. mas estou (estava...) cheio de esperanças de em vez dum 'qualquer' Jonas Jonasson escrever um "O centenário que fugiu pela janela e desapareceu", moi, o je e lá para os meus 100's, ter finalmente encontrado o fio e a arte para desbobinar mais de quatro páginas seguidas e escrever o meu próprio best seller, algo como "o centenário que fugiu do Facebook e 43 anos depois ainda não regressou". algo assim. aproveitava e tratava de pôr as paixões em dia, contando que entretanto tivesse pervertido as estatísticas da mortalidade por género quanto a enfartes do miocárdio, e já todas tivessem lerpado. coitadinhas. mas nisto de literatura, enfim... subsistiriam naquelas páginas imortalmente belas, bem cheirosas, seduções duma vida alterizadas em formol de estante.
sim, teria umas coisinhas a contar nesses capítulos. e tenho rascunhos, preciosos de lindos, guardados no meu bolso que esconde o gordinho. mas vem o bom do Jonasson e estraga-me o barato: nesta idade, madura, diz ele, eu já deveria saber o que me convém. o que me convém? homessa! que coisa... a merda é que não sei, não tenho puto de ideia de como sabê-lo, e tenho uma forte desconfiança em como nunca irei descobri-lo. pior: nesta 'idade madura' já deu para ver que tenho uma tendência do carilho para acumular dúvidas em cima de dúvidas, em vez de esclarecê-las.
o resultado... editorial? aos 55 'arquivei' um 2º livro de memórias ("Esta cidade"), aos 56 um de poesia ("Tratado de paixões da alma"), e aos 57 vejo já comprometido o comemorativo do meu centésimo aniversário, por 'não saber o que me convém'... ora a porra! :-(
* Facebook e blogues
em dia e meio já devorei 252 páginas. com pausas: já aqui* vim espreitar umas quatro vezes. e, se m'encanto e deliro com a extraordinária aventura da vida do senhor Karlsson, que no dia da festa do seu centésimo aniversário decidiu dar de fróxes do Lar onde pastava, entre outras razões que não o ralavam mas sabia existirem, para poder beber uns bons copos sem ser às escondidas da enfermeira esclavagista-geriátrica, a coisa toldou-se-me e está a dar para o torto a meio da pág. 253. lá, escarrapachada, a frase assassina deste livro maravilhoso: «Quando se está numa idade madura, sabe-se melhor o que nos convém». mau...
maduro sou eu, que daqui a um mês faço 57. mas estou (estava...) cheio de esperanças de em vez dum 'qualquer' Jonas Jonasson escrever um "O centenário que fugiu pela janela e desapareceu", moi, o je e lá para os meus 100's, ter finalmente encontrado o fio e a arte para desbobinar mais de quatro páginas seguidas e escrever o meu próprio best seller, algo como "o centenário que fugiu do Facebook e 43 anos depois ainda não regressou". algo assim. aproveitava e tratava de pôr as paixões em dia, contando que entretanto tivesse pervertido as estatísticas da mortalidade por género quanto a enfartes do miocárdio, e já todas tivessem lerpado. coitadinhas. mas nisto de literatura, enfim... subsistiriam naquelas páginas imortalmente belas, bem cheirosas, seduções duma vida alterizadas em formol de estante.
sim, teria umas coisinhas a contar nesses capítulos. e tenho rascunhos, preciosos de lindos, guardados no meu bolso que esconde o gordinho. mas vem o bom do Jonasson e estraga-me o barato: nesta idade, madura, diz ele, eu já deveria saber o que me convém. o que me convém? homessa! que coisa... a merda é que não sei, não tenho puto de ideia de como sabê-lo, e tenho uma forte desconfiança em como nunca irei descobri-lo. pior: nesta 'idade madura' já deu para ver que tenho uma tendência do carilho para acumular dúvidas em cima de dúvidas, em vez de esclarecê-las.
o resultado... editorial? aos 55 'arquivei' um 2º livro de memórias ("Esta cidade"), aos 56 um de poesia ("Tratado de paixões da alma"), e aos 57 vejo já comprometido o comemorativo do meu centésimo aniversário, por 'não saber o que me convém'... ora a porra! :-(
* Facebook e blogues
sábado, 3 de março de 2012
alfaiate casual

quero contar-vos um segredo íntimo
peço-vos! não o contem a mais ninguém.
alguém que lhe pegue sem cuidados e quebra-se
e virá o frio e o seu riso profundo.
não me visto de escuro e ostento lutos (eu não escrevo ao chorar):
a minha tristeza veste-se bem e usa um cachecol sorridente
agasalha-se, dá-me a sombra do nada e eu empresto-lhe o silêncio:
talvez alguma coisa se note a quem bem olhar.
nele, a vácua cacofonia do meu oposto - este,
est'outro alguém - mas não contem que um sem o outro desiste,
não apontem o erro, mintam e mintam-me
e de tudo isto riam-se
e nunca, nunca, nunca o contem a mais alguém.
tenho frio
sexta-feira, 2 de março de 2012
"bye bye hapiness"

«Detesto dizê-lo, mas não faria as coisas de forma muito diferente daquilo que está a ser feito em Portugal».
di-lo Paul Krugman, após uns repastos e 3-três-3 doutoramentos indígenas. não precisa nem duns nem dos outros: é um Nobel de Economia e uma voz ouvida e respeitada. mas disse-o, claramente para 'nós' ouvi-lo, já que tanto foi citado nos últimos meses.
dito isto, e perante tanto esforço e despesa pela parte governamental deste filme, quero dizer o seguinte: daqui a um ano e corra isto mal, e Pedro Passos Coelho o melhor que tem a fazer para cuidar da rica vidinha é viajar incógnito para umas ilhas quanto mais longe melhor, abrir um bar em zona onde não haja emigrantes lusos e, calmamente, meditativamente, adquirir uma merecida cirrose a pensar em qual a sua quota-parte no que correu mal: média, grande, ou gigante. em quem o trafulhou e em porque é que nos trafulhou. não leve o Gaspar nem nenhum dos da comandita. o Gaspar volta para o anonimato da mímica financeira do BdP, e os outros que se raspem. Miguel Relvas à cabeça pois de repente todos nos lembramos de Miguel de Vasconcelos e temos umas ideiazinhas.
a máquina da propaganda é poderosa e o povo é sereno, mas ninguém pense que andamos a dormir. é só Xanax, mas não tarda acordamos e pode ser um sarrabulho dos antigos.

BAIRRO LIVRE
Meti o bivaque na gaiola
e saí com um pássaro na cabeça
Então não se faz a continência
perguntou o comandante
Não
não se faz a continência
respondeu o pássaro
Ah bom
desculpe julgava que se fazia a continência
disse o comandante
Ora essa toda a gente se pode enganar
disse o pássaro.
Jacques Prévert
(tradução de Eugénio de Andrade)
quinta-feira, 1 de março de 2012
safem-se!... ;-)

a necessidade aguça o engenho. todos o sabemos: quem não teve já de inventar soluções, perante problemas? e resolvem-se, ó se se resolvem...
espero muito sinceramente que daqui a um ano os tarragoneses andem todos a rir-se, com os bons ares de sucesso desta sua iniciativa empresarial. arrojada, é ela!
;-)
na imagem, um lindo porta-moedas feito com fibras da cannabis sativa L - ó! como é lindo escrever este nome, como se me enrola no íntimo um sorriso bonito... :-)
AO: há luz! pouca, mas há...

boa tarde.
parece que finalmente vai chover embora só um bocadinho, parece que o frio amainou e isso é óptimo, e parece que os casmurros começam a perceber que a estupidez tem limites - e consequências.
talvez (talvez) 2012 não seja um ano tão mau como se temia, e, incrivelmente, com isso, alguns olhavam para o lado, assobiando, postura de quem sonha atravessar a vida nas tintas para tudo além do seu mundinho, fofinho, pequenininho.
não basta a p. da austeridade a moer-nos e ainda tínhamos de levar em cima com a asneira do século, e com chancela de legal!
"drive in": um resmungo actual

sim, a modelo é gira ("boa comó milho", falando bem e depressa), até o hamburguer parece apetitoso e o carro é um estalo que nem sei. mas o que me ficou e de repente doeu foi a necessidade da notícia explicar aos leitores o que é um "drive in".
não, não conheci muitos. na verdade só um, o da Matola em Moçambique, e que não durou muito tempo. e só lá fui uma ou duas vezes. nem nunca namorei num "drive in", lamento confessá-lo. fumei umas jardas enquanto assistia ao filme, isso sim. e terei bebido uma cervejola ou duas, para fazer e recordar o filme completo de "ter ido a um drive in". mas mesmo assim com tão pouco e que se me assemelhou a tanto...
tal como nunca fui a Londres, Viena ou Florença e imagino-as maravilhosas. nunca conduzi mais que chassos mas babo-me ao pensar em Ferraris, não beijei todas as mulheres que amei mas não me arrependo dum segundo das ilusões ou duma lágrima apaixonada.
não temos de conhecer profundamente ou possuir tudo que nos enformou ou seduziu. mas temos de conhecê-los. é um ADN cultural mais que só geracional: civilizacional. não saber o que é um "drive in" equivale-me em ignorância a olhar para uma máquina de escrever e perguntar onde é que se põe o monitor. desconhecer que os correios aceitam correspondência onde o envelope não tem chancela comercial, e o endereço está escrito à mão. ou quem foi a BB. ou quem foi Wahrol.
que os "drive in's" existiram e foram muito mais que uma sala de cinema ao ar livre, onde se entrava com a carripana. ou pelo menos só isso. chateia-me o assumir-se que a ignorância cultural e histórica é a normalidade. dá-lo como facto, "e paciência, é assim...". a velha mania de se fazer a média sempre um furo abaixo de nós, espelho desfocadinho. e o paternalismo benevolente e presunçoso, pois.
tudo merda
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
contra o AO: a luz do bom-senso reforça-se

um apoiante individual do AO e membro do Governo que o recebeu em mãos e não o deitou para o lado.
diz que ainda há tempo para fazer as correcções que são necessárias - admitindo implicitamente que o AO como está está mal parido, defeituoso, com perfeitas parvoíces.
fala em "discussão de última hora", algo tardia. mas, a ele, nem quando tinha a liberdade de não pertencer a nenhum Governo, também a ele não se lhe ouviu a voz contra (mas agora fala assim). tardia para quase todos, JFV. poucos, na altura e até agora em que se começa a ver na prática o lindo resultado, alcançaram o alcance do radicalismo das modificações à nossa língua, à forma de escrevê-la - e futuramente de pronunciá-la.
e - muito bem! - insurge-se conta todos aqueles que sempre tiveram uma relação conflituosa com a escrita (e mesmo a dicção) do português, e agora surgiram a reclamar por fogueirinhas por VGM ter-se recusado a aceitar a adopção do 'aborto linguístico' na instituição cultural cuja boa gestão o Governo lhe confiou. a malta da bandeirinha e da campainha pavloviana, ou os amantes das manchetes do jornalismo de sarjeta, quase a sua máxima leitura e seu formador dilecto de opinião social.
afinal a esperança renova-se. ele, JFV, diz que ainda temos três anos. que, finalmente, sejam tempos profícuos no bem pensar. trata-se do futuro, não dá para brincar mais.
sábado, 25 de fevereiro de 2012
andorinhas &...

mais um sábado morno. assolarado, manso, com quase tudo para ser um sábado ideal.
até as moscas estão de regresso, como lembra MEC na sua estupenda crónica, invariavelmente o melhor momento destes papéis. comovente, como sempre a assoprar-me a lágrima. como aquele homem sente!
como na edição online do Público está na secção "ricos", puxo-a para aqui:
-/-
"Antes das andorinhas"
Na quinta-feira vimos duas, primeiras papoilas. Eram pobres coisas, mais a caminho da morte que do fulgor, mas eram pioneiras da Primavera. Parámos o carro e fartámo-nos de fotografá-las. Nas fotografias ficam menos feias. Apareceram também umas moscas. Estavam desorientadas e nem sequer sabiam chatear. Eram mosquinhas suspensas no ar, como se numa peça infantil, pouco convincentes mas inofensivas. E vi um aranhiço recém-nascido na palma da minha mão. Esperam-se as andorinhas a qualquer momento. Onde é que elas voam?
23 de Fevereiro há-de ficar como o dia mais bonito desde Novembro passado. Foi uma tarde para guardar na memória, como promessa do que aí vem, quando levarmos com as chuvadas que andámos há meses a adiar.
O meu sogro Joaquim morreu no dia 23 de Fevereiro de 2008. No dia em que foi enterrado choveu em Lisboa como eu nunca tinha visto: uma chuva grossa que batia na terra, como se a odiasse.
Passou a ser um dia infeliz. Mas o tempo deixou de concordar com ele. Agora consegue-se pensar que este seria um dia que ele bem que gostaria de passar.
Ele nasceu em Fevereiro, em 1920, tal como o meu pai. O meu tio, o meu irmão e a minha sogra também nasceram em Fevereiro. Desde que morreram o meu tio, o meu pai e o meu sogro, até este dia de sol, em 2012, em que a Maria João esteve quase feliz o dia inteiro, pensava que Fevereiro era um mês triste. Esqueci-me de todos e de tudo que Fevereiro trouxe. Agora lembrei-me.
Miguel Esteves Cardoso
os nossos sofás de intranquilidade

a saúde dos idosos é um constante Ai Jesus. à minha frente, no sofá da sala, a minha mãe acaba de reclamar por mais uma manta por estar cheia de arrepios: acordou adoentada e até já desmaiou. de olhos fechados vai enchendo os nossos medos residentes de ais. são os nossos idosos, e os medos acordam sempre que eles adoecem.
Mandela também está a reclamar por um aconchego, por uma manta. Madiba é de todos nós, eu acho que é nosso familiar colectivo. não sei se a minha geração conheceu outro homem tão grande. eu acho que não. não teve ais mediáticos quando tinha todas a legitimidade em tê-los e soltá-los de forma a que ninguém os ignorasse. sossegou-nos medos colectivos com uma formidável lição sobre o perdão e a reconciliação. é nosso, Nelson Mandela, Madiba, é familiar de todos nós, é um velhinho que com gosto e até amor gostaríamos de ver nos nossos sofás. e chegávamos-lhe uma manta, tudo que nos pedisse.
tudo que nos pedisse: os ais são nossos, os medos são nossos. dos nossos.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
sem boina e sem capota

a Primavera está à dizer que não tarda e bate-nos à porta. embora ainda esteja um frio danado, o Sol cada vez arrebita mais. apetece andar de cabeça solta, despoeirada de mesquinhices invernais. ou boinas.
mas a outros a vida corre mal e nem o solito os anima. chegam a pensar em más soluções. kaput, etc. suicidam-s. e lê-se no jornal e às vezes sabe-se pelos cafés: aquele cansou-se e o enterro é amanhã.
e há os outros, os que conciliam o trágico com classe. classe milionária. nada de 605 Forte, nada de cordas penduradas na garagem, barrigada de fármacos, etc: com classe, e cabecita sempre ao Sol até ao Big Bang final: esses tiram a capota.
tiram-na, e espetam o bólide a até 431 km/h. sim, não tem gralha. é morte certa. vejam o sucedâneo moderno e rico da velhinha caçadeira de cano preso no queixo e gatilho disparado com o dedão do pé. sem capota.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
o bom chocolate (Manuela Margarido, poetisa santomense)

lido no papel foi uma delícia. daquelas de fazer juz ao nome. aqui? não menos. aberta a notícia cliquem individualmente nas diversas entradas. uma a uma, sabor e sabor renovados. diferentes. e os olhos, ó os olhos, como eles comem...
entretive-me em memórias logo na primeira entrada, aquela que fala e conta do chocolate de São Tomé e Príncipe. do puro. caixinha com amostras do verdadeiro chocolate santomense, nas suas diversas fases de formação. com guia de degustação, um manual que contava tudo em resumo, deixando os pormenores para o paladar que deveria seguir o 'guia', qual o primeiro pedaço a provar, qual o que se seguiria, etc.
e lembrei-me de quando a minha amiga Isabel "assunto" (lol) me ofereceu uma linda
bem, resta contar que foi num sábado especialmente quente, estacionamos para os lados de Santos (Lisboa, claro) na busca duma tasquita que fosse tão agradável que nos acolhesse e dessedentasse modicamente, e quando voltamos ao carro o calor tinha feito das suas pois a caixita ficara em cima do tablier. mesmo assim, a anatomia perdida, os pedaços de mel negro ainda souberam 'que'.
resta dizer ainda isto: à noite, estávamos a estacionar ao pé da Gulbenkian para irmos jantar ao "Polícia" (cordeiro no forno à moda de Lafões acompanhado dum tinto de estalo, lembro-me), ela recebe um mau telefonema: falecera quem lhe oferecera a ela a caixinha mágica, a poetisa santomense Manuela Margarido a quem entrevistara uma semana atrás, provavelmente a última entrevista que a diva das letras santomenses dera. e que lhe dera a caixinha. Manuela Margarido. foi uma voz nunca conformista, e a sua poesia denunciou o colonialismo e o regime de quase escravidão que vigorava nas roças de cacau e de café, nos anos 50's do ido.
as conversas que o chocolate trás...
entretive-me em memórias logo na primeira entrada, aquela que fala e conta do chocolate de São Tomé e Príncipe. do puro. caixinha com amostras do verdadeiro chocolate santomense, nas suas diversas fases de formação. com guia de degustação, um manual que contava tudo em resumo, deixando os pormenores para o paladar que deveria seguir o 'guia', qual o primeiro pedaço a provar, qual o que se seguiria, etc.
e lembrei-me de quando a minha amiga Isabel "assunto" (lol) me ofereceu uma linda
bem, resta contar que foi num sábado especialmente quente, estacionamos para os lados de Santos (Lisboa, claro) na busca duma tasquita que fosse tão agradável que nos acolhesse e dessedentasse modicamente, e quando voltamos ao carro o calor tinha feito das suas pois a caixita ficara em cima do tablier. mesmo assim, a anatomia perdida, os pedaços de mel negro ainda souberam 'que'.
resta dizer ainda isto: à noite, estávamos a estacionar ao pé da Gulbenkian para irmos jantar ao "Polícia" (cordeiro no forno à moda de Lafões acompanhado dum tinto de estalo, lembro-me), ela recebe um mau telefonema: falecera quem lhe oferecera a ela a caixinha mágica, a poetisa santomense Manuela Margarido a quem entrevistara uma semana atrás, provavelmente a última entrevista que a diva das letras santomenses dera. e que lhe dera a caixinha. Manuela Margarido. foi uma voz nunca conformista, e a sua poesia denunciou o colonialismo e o regime de quase escravidão que vigorava nas roças de cacau e de café, nos anos 50's do ido.as conversas que o chocolate trás...
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
este nosso thriller...

acreditam que corri os títulos (e um pouco mais...) dos principais jornais online, e a única notícia que me seduziu a trazê-la para aqui - pela história paralela... - foi a abaixo, do Banderas ir personificar Picasso?
a ficção anda a ser escrita sob formas excessivamente deprimentes. assim, a continuar assim, os "Man Booker Prize's" deste ano, todos, vão directos para o colo das autobiografias dos vagabundos da Economia :-(
pretensões, Pablo Picasso, Monsieur Pinot, Luís Fernando Veríssimo

...e a propósito desta notícia veio-me à memória uma história deliciosa sobre a proverbial forretice de Pablo Picasso, contada pelo delicioso escritor e cronista brasileiro Luís Fernando Veríssimo (saudade das suas crónicas no Expresso...), e que catei no seu "Comédias da Vida Pública", edição de L&PM (Brasil), de 1996, que comprei - segundo registo que na altura anotei - em 8 de Maio de 1997, por importação directa a meu pedido na livraria onde habitualmente me abastecia, recordo-o bem.
este acrescento serve para esclarecer que sempre gostei de ler autores brasileiros no seu português original, que isso nunca me fez cócegas além das naturais, e encantadas pelo encontro da riqueza da diversidade. mas adiante.
na crónica, de título "Pretensão", a fls. 228 do dito, LFV conta da fobia de Picasso em largar o pilim, usando como moeda os seus desenhos. por exemplo, quando amigos o visitavam e juntos faziam uma farra na tasca lá do sítio, já se sabia que Pablo nunca deixava ninguém pagar a conta, e, em rasgo já conhecido e do qual o taberneiro nada tinha contra pois depois vendia-os por valores muito superiores à "dolorosa", sacava da caneta e na própria toalha da mesa fazia uns rabiscos "à Picasso", e lá estava a conta paga. aliás, nos restaurantes perguntavam-lhe sempre se ele ia pagar ou assinar...
mas não é essa a história que me fez sorrir ao recordá-la, e que se ajusta ao título da crónica, embora noutra interpretação a moralidade que dela se extrai torne a justeza da sua aplicabilidade.... inversa. então conto: o bom do Pablo, quando mandava a empregada à loja fazer o avio do rancho, junto com a lista juntava sempre um desenho, mais ou menos aperfeiçoado conforme o tamanho da dita. e a coisa corria assim, aparentemente sem queixas de nenhuma das partes.
aparentemente, pois, duma vez, a empregada quando voltou com o cesto recheado entregou-lhe um papel dobrado, daqueles tipo de embrulhar bacalhau, e nele um desenho horroroso, nem uma criança falsamente precoce faria um desmimo daqueles. e vinha assinado: "Pinot" - o man da mercearia. «que raio é isto?» deve ter sido a exclamação de D.Pablo, a hesitar entre o horrorizado e o zangado, à empregada. e ela respondeu-lhe: «foi o monsieur Pinot que mandou, para entregar ao senhor. diz que é o troco».
bem, rezará a lenda e disso LFV fez eco público, com lombada e assinado, que D. Pablo Picasso nunca mais mandou a lista do avio sem as notas bancárias correspondentes. e eu pergunto-me, hoje em que por via desta notícia parti na busca da crónica e a reli com o prazer de quem encontra um velho amigo que já não vê há muito tempo, se LFV ao intitulá-la "Pretensão" a quem se referiria...
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
as locomotivas Garratt, o gene SRY, e as meninas e os meninos


«vocês são todos a mesma coisa! todos iguaizinhos!»
ouço-o desde pequeno. e antes de mim o meu pai e os meus avós, os de chapelinho chinês no ó, e certamente o meu filho varão o ouve e ouvirá. não há homem que se livre deste mimo de género quando as brilhantinas se chocam, entre eles e as suas sócias. seja por causa das meias no chão do quarto, da louça por lavar ou, principalmente aí, aí, quando a divergência de opiniões mete saias. nem que seja por uma miradela pelo rabo do olho aos lindos rabiosques que elas, "saias", deixam imaginar.
acontece que é verdade - quanto à parte das saias. não só nós homens somos todos iguais, como somos diferentes das meninas. que elas nos olham o rabito, na busca dum imaginário de nádegas tão poderosamente musculadas como será o motor duma locomotiva Garratt, a impulsionar êmbolos infatigáveis que arrastam lindas carruagens em viagens de êxtase, isso já é conhecido e assumido: o romantismo tem mais viagens de comboio em paisagens de sonho, cheias de maravilhosos túneis entre matas de lindo recorte, que se assume fora do conforto sigiloso desse sucedâneo barato do divã psiquiátrico que são os blogues femininos. anónimos, claro. acrescento que felizmente assim é (miradelas), pois somos briosos não só quanto ao palminho de cara e mais umas coisitas, mas também quanto ao que temos de chicha quando passamos e nos olham, dissimuladamente gulosas, nas passarelles desta vidinha que tanto nos upa-upa, anima.
somos iguais entre nós, "mangussos", e diferentes de vocês - o lado mais bonito da humanidade - no accionar do famoso click que faz trepar paredes, muros, e até janelas nos bons tempos galantes: connosco é mais rápido, tipo automático. convosco não. suponho que é por isso que o pavão faz aquele espalhafato todo quando quer galar uma garina pavoa. trabalheira, mas bonita trabalheira.
este fim-de-semana encontrei a explicação científica para a nossa igualdade... mangussal. na pág. 32 da Revista do Expresso, um dos itens do artigo de singelo título "24 horas à luz da Ciência", a entrada respeitante às 21:00 horas, di-lo, explica-o assim: (passo a transcrever, a edição online é omissa)
«ELES SÃO TODOS IGUAIS. É uma frase que você repete muitas vezes quando discute com o seu namorado ou com o seu marido, depois de um dia de trabalho. E quando desabafa depois com as amigas. Mas terá algum fundamento? A genética pode dar uma ajuda para perceber o que se passa, segundo Carlos Fiolhais e David Marçal no seu livro 'Darwin aos Tiros e Outras Histórias de Ciência'. Cada novo ser humano herda 23 cromossomas da mãe e 23 do pai. Destes 23 pares, há 22 com cromossomas iguais, que têm o mesmo conjunto de genes. O par que resta tem os cromossomas sexuais. Nestes, você herdou um cromossoma X da mãe, tal como qualquer homem. Mas herdou um cromossoma X do pai, enquanto um homem herdou um cromossoma Y. Aqui o que mais se destaca é o gene SRY, responsável pela masculinização do corpo e pelo envio de testosterona em larga escala para o cérebro. Os genes podem apresentar pequenas variações de homem para homem, mas o SRY é perfeitamente igual em todos eles. Existe, assim, "uma espécie de guerra de sexos molecular entre o cromossoma X e o cromossoma Y".»
e pronto, está explicado. somos "diferentes de vocês" mais fundo que o atlas anatómico conta. não são só os pés maiores que 'explicam' o mangusso. há mais, há o interruptor SRY que liga o turbo (às vezes num ápice tal, que as "forças G" provocadas nos deixam cegos e surdos...), e põe em marcha a Garratt nos trilhos dos sonhos, seguindo o seu único instrumento então apercebível: a bússola do seu íman genético, agulha então altivamente erguida, gloriosamente robusta, magnificamente masculina.
é o nosso SRY, meninas. felizmente! ;-)
domingo, 19 de fevereiro de 2012
Wislawa Szymborska disse que não sabia se gostava de poesia

"Alguns gostam de poesia"
Alguns -
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.
Gostam -
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.
De poesia -
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.
Wislawa Szymborska, "Alguns gostam de poesia - Antologia", Czeslaw Milosz e Wislawa Szymbroska (Cavalo de Ferro, 2004)
Wislawa Szymborska disse que o livro das ocorrências está sempre aberto ao meio

"Amor à primeira vista"
Ambos estão convencidos
que os uniu uma paixão súbita.
É bela esta certeza,
mas a incerteza é mais bela ainda.
Julgam que por não se terem encontrado antes,
nada entre eles nunca ainda se passara.
E que diriam as ruas, as escadas, os corredores
onde se podem há muito ter cruzado?
Gostaria de lhes perguntar
se não se lembram —
talvez nas portas giratórias,
um dia, face a face?
algum “desculpe” num grande aperto de gente?
uma voz de que “é engano” ao telefone?
— mas sei o que respondem.
Não, não se lembram.
Muito os admiraria
saber que desde há muito
se divertia com eles o acaso.
Ainda não completamente preparado
para se transformar em destino para eles,
aproximou-os e afastou-os,
barrou-lhes o caminho
e, abafando as gargalhadas,
lá seguiu saltando ao lado deles.
Houve marcas, sinais,
que importa se ilegíveis.
Haverá talvez três anos
ou terça-feira passada,
certa folhinha esvoaçante
de um braço a outro braço.
Algo que se perdeu e encontrou?
Quem sabe se já uma bola
nos silvados da infância?
Punhos de poeta e campainhas
onde a seu tempo o toque
de uma mão tocou o outro toque.
As malas lado a lado no depósito.
Talvez acaso até um mesmo sonho
que logo o acordar desvaneceu.
Porque cada início
é só continuação,
e o livro das ocorrências
está sempre aberto ao meio.
Wislawa Szymborska, "Paisagem com Grão de Areia" (Relógio d’Água, 1996)
Ambos estão convencidos
que os uniu uma paixão súbita.
É bela esta certeza,
mas a incerteza é mais bela ainda.
Julgam que por não se terem encontrado antes,
nada entre eles nunca ainda se passara.
E que diriam as ruas, as escadas, os corredores
onde se podem há muito ter cruzado?
Gostaria de lhes perguntar
se não se lembram —
talvez nas portas giratórias,
um dia, face a face?
algum “desculpe” num grande aperto de gente?
uma voz de que “é engano” ao telefone?
— mas sei o que respondem.
Não, não se lembram.
Muito os admiraria
saber que desde há muito
se divertia com eles o acaso.
Ainda não completamente preparado
para se transformar em destino para eles,
aproximou-os e afastou-os,
barrou-lhes o caminho
e, abafando as gargalhadas,
lá seguiu saltando ao lado deles.
Houve marcas, sinais,
que importa se ilegíveis.
Haverá talvez três anos
ou terça-feira passada,
certa folhinha esvoaçante
de um braço a outro braço.
Algo que se perdeu e encontrou?
Quem sabe se já uma bola
nos silvados da infância?
Punhos de poeta e campainhas
onde a seu tempo o toque
de uma mão tocou o outro toque.
As malas lado a lado no depósito.
Talvez acaso até um mesmo sonho
que logo o acordar desvaneceu.
Porque cada início
é só continuação,
e o livro das ocorrências
está sempre aberto ao meio.
Wislawa Szymborska, "Paisagem com Grão de Areia" (Relógio d’Água, 1996)
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
bordoada no politicamente correcto
não gosto das leituras políticas e sociais de José Manuel Fernandes, mas não me esquivo às palmas daqui transcrever esta sua nota, publicada no 'Público' de hoje:
...
"Thatcher, Merkel e o preconceito antifeminino de certa esquerda portuguesa"
Imaginemos que descrevíamos assim Mário Soares: político formado no Portugal provinciano e autoritário de Salazar, filho de um antigo presbítero. Seria verdadeiro mas também seria, no mínimo, preconceituoso. Contudo, é de uma forma semelhante que, por regra, Mário Soares se refere a Angela Merkel: "formada no Leste comunista alemão e filha dum pastor protestante", escreveu ainda esta semana no 'Diário de Notícias'. E o que é estranho, é ninguém se chocar. Será por Merkel ser alemã? Por ser mulher? Por a frase vir de Mário Soares?
Talvez por ter acabado de ver o filme 'A dama de ferro', a frase incomodou-me. Thatcher também era tratada como sendo "a filha do merceeiro" - há uma extraordinária cena em que um grupo de atarantadas luminárias do Partido Conservador mostra o seu incómodo por não conhecer o preço dum pacote de manteiga... -, apesar de ser, também, a filha de um antigo presidente de câmara (a quem, de resto, ouvimos um dos melhores discursos políticos do filme).
O preconceito antifeminino assume várias formas, e é especialmente gritante quando mulheres que chegam ao poder (Thatcher, Merkel, à nossa dimensão Manuela Ferreira Leite) o fazem sem concessões ao feminismo militante. Mário Soares, até porque já o sabíamos desde que, em 1999, perdeu uma eleição no Parlamento Europeu para Nicole Fontaine e a apodou de "dona de casa", não será até o melhor exemplo. Tão ou mais significativa era a forma como, no Largo do Rato, se tratava Ferreira Leite - "a bruxa" -, algo inconfessável em público mas revelado nas escutas do 'Face Oculta'. Também então muitos reagiram com condescendência. Sobretudo à esquerda. Sobretudo entre os campeões do politicamente correcto.
Ao pé dos preconceitos antifemininos reinantes em boa parte da elite portuguesa, os preconceitos dos barões do Partido Conservador britânico no tempo de Margaret Thatcher são coisa de aprendizes. Basta puxar pela língua ao ícone dos ícones, Mário Soares...
...
aliás, bato-lhe palmas com o entusiasmo que se dedica às galhetas que amarfanhem as nossas raivas de estimação. neste niquito de prosa venenosa, magoando bem além do político Mário Soares (até o prezo...), recolhido como exemplo - pôs-se a jeito... -, essa cretinice que se insinua, conspurcando, algumas mentes que bem podiam ser o que não são nem nunca serão, com ela: o vírus cobardolas do politicamente correcto, pecha prima direita da escrita com aparo, tinta e palas exclusivamente recrutadas na militância.
(imagem sacada via Google Imagens)
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Wislawa Szymborska (1923-2012)

"Gato num apartamento vazio"
Morrer não é coisa que se faça a um gato.
Que há-de um gato fazer
num apartamento vazio?
Subir às paredes?
Roçar-se nos móveis?
Aparentemente não mudou nada
e no entanto está tudo mudado.
Continua tudo no seu lugar
e no entanto está tudo fora do sítio.
E à noite a lâmpada já não está acesa.
Ouvem-se passos nas escadas,
mas não são os mesmos.
A mão que põe o peixe no prato
também já não é a que o punha.
Há aqui qualquer coisa que já não começa
à hora do costume,
qualquer coisa que não se passa
como deveria passar-se.
Havia aqui alguém que há muito estava e estava
e que de repente desapareceu
e agora insistentemente não está.
Procurou-se em todos os armários,
revistaram-se as estantes,
espreitou-se para debaixo do tapete.
Violou-se até a proibição
de desarrumar os papéis.
Que mais se pode fazer?
Dormir e esperar.
Quando regressar, ele vai ver,
ele vai ver quando chegar.
Vai ficar a saber
que isto não é coisa que se faça a um gato.
Caminhar-se-á em direcção a ele
como que contrariado,
devagarinho,
com patas amuadas.
E nada de saltos ou mios. Pelo menos ao princípio.
Wislawa Szymborska, in "O fim e o princípio"
(tradução de Manuel António Pina)
"Pelindaba"

no Expresso de ontem uma crónica de Mário Crespo onde, além das ilacções à nossa história contemporânea, visita pormenores pouco badalados da tormentosa história da África austral, pré-fim do apartheid.
como na e-edição o texto só está disponível para assinantes, vou dar-me à trabalheira.
"A conversa acabou"
Em 1984 fiz a reportagem da assinatura do Acordo de Nkomati. Um entendimento entre Samora Machel e Pieter Botha durante o regime do apartheid tinha sido considerado impossível. Em plena Presidência de Ronald Reagan, o secretário de Estado Adjunto para Assuntos Africanos, Chester Crocker, um académico de Georgetown, muito contracorrente, defendia o diálogo. Nos anos 80 a África austral era um pesadelo. Pretoria geria uma guerra aberta em todas as fronteiras e estava isolada do mundo por uma intransigente política de boicotes diplomáticos, económicos e culturais. O resultado prático de décadas de ostracismo foi o desenvolvimento local de uma indústria de armamento que culminou na construção, confirmada, de vários engenhos nucleares num complexo a uns 100 quilómetros de Pretoria. O local onde esta pesquisa foi conduzida chama-se Pelindaba. É uma palavra zulu. Quer dizer: a conversa acabou. E tinha acabado. Em 1977 o regime de Pretoria deflagrou dois engenhos nucleares em Vastrap no deserto de Kalahari. As explosões foram detectadas por satélites americanos e russos. Era um dado adquirido que Pretoria, mais ano menos ano, levaria o seu poder de destruição nuclear a Luanda e a Maputo. Foi à porta desse perigosíssimo pária nuclear que o enviado dum Presidente republicano foi bater propondo conversações de paz. Chamou ao processo Política de Envolvimento Constructivo (Constructive Engagement). Durante dois anos consecutivos falou com todos. Cubanos, russos, angolanos, moçambicanos e sul-africanos. Todos foram cedendo terreno e conquistando o respeito mútuo que se tinha perdido nas batalhas no Cuando-Cubango, na Gorongoza e nos corredores da ONU. O Acordo de Nkomati foi o primeiro sinal concreto de que o Envolvimento Constructivo de Crocker era a única via para quem queria a paz. No relato que fiz da assinatura do acordo na fronteira entre Moçambique e a África do Sul, registei uma conversa acidental entre Pieter Botha e Samora Machel. Falaram da terra daquela zona, que era vermelha, seguramente muito boa, disseram, para milho e para gado. Já não eram nem o bóer que tinha sido apanhado pela história num labirinto de segregações raciais inventadas pelo medo, nem o temível guerrilheiro cheio de cicratizes no espírito e no corpo deixadas pela escravatura colonial. Eram dois homens de uma terra que em paz dá milho e alimenta o gado que sempre foi o grande símbolo de riqueza em África. Depois desta conversa Nelson Mandela foi libertado, o apartheid acabou e a África do Sul desnuclearizou-se antes das eleições democráticas. Interrogo-me se não estamos a cometer mais um terrível erro histórico buscando, com assinalável despudor, os parceiros para negócios episódicos, exclusivamente, numa elite apanhada num labirinto da história de onde só vai conseguir sair quando se emancipar do vexame deste neocolonialismo financeiro. Para isso é preciso falar com eles. Todos. E não só com as aristocracias militares que as guerras coloniais impuseram a uma terra de gente admirável a todos os títulos.
"a guerra do fogo", e à volta disso: filmes e romances históricos

ainda hoje, talvez quase três décadas depois, "mijo-me a rir" ao recordar algumas cenas deste filme, onde a comédia era acessório bem-disposto e bem-vindo a uma visita pela pré-história do Homem.
tal como com os romances históricos, escritos com a seriedade duma boa pesquisa e misturando sem desvirtuar a trama ficcionada com aquela de suporte já firmado documentalmente, ver um filme "histórico" pode ser uma forma nada maçuda de aprendermos sempre um pouco mais. ou, pelo menos, acendermos novas luzinhas sobre uma matéria qualquer. não houve quem dissesse que cultura é o que sobra depois de esquecermos o resto?
lentium picoto

Tal há-de ser quem quer, com o dom de Marte,
Imitar os ilustres e igualá-los:
Voar com o pensamento a toda parte,
Adivinhar perigos e evitá-los,
Com militar engenho e subtil arte
Entender os inimigos e enganá-los,
Crer tudo, enfim, que nunca louvarei
O Capitão que diga: "Não cuidei."
Luís Vaz de Camões, in "Os Lusíadas", Canto VIII
Socorro-me de Camões para dizer-vos, cansado, vencido, que fui ao chinês e comprei - €7,90, balúrdio! um teclado novo, plástico achinesado. Minha esperança de m'acalmar de dores, tristezas, e enfim escrever o fim suspirado, desejado, querido, deste "pc das galinhas". Onde, s'escrevo, é num inarrável picoto de
uma
a
uma,
no engodo do triste consolo de pensar que é assim,
grão
a
grão,
que elas se enchem e eu o meu papo, meu lentium abecedário.
casmurro, mas acredito num futuro de A4's!
ying e yang

as principais manchetes de dois dos principais jornais diários, hoje:
(entre parênteses a sua circulação diária reportada ao último trimestre de 2010, os dados mais recentes divulgados no site da APCT - Associação Portuguesa para o Controle de Tiragem e Circulação)
- Correio da Manhã: 207 polícias declaram falência (125.000)
- Público: 292 médicos voltaram a trabalhar no SNS desde há ano e meio (35.000)
nós. assim.
e porque assim, também uma achega a porque somos assim, sentimo-nos assim, estamos assim, e olhamo-nos entre nós assim, negativamente.
a primazia ao mau, ou ao bom. ying e yang. positivo versus negativo. nós, assim.
---/---
ps: escolhi aqueles dois por ambos darem relevo "a números" de clara influência na leitura da sociedade, na mostra que nos dão dela. cusquei os restantes e deu isto:
- Jornal de Notícias: Tráfico às claras no Porto (87.000)
- Diário de Notíciais: Saúde na Madeira já está na falência (28.000)
o i não entra nesta história dominical pois não sai ao domingo. talvez vão à missa. tem uma circulação de 7.000.
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