terça-feira, 27 de novembro de 2012
O lugar do Amor
Amo-te
com pressa
de não acabar o amor.
in "Casa térrea"
--/--
Entrar contigo
dentro das searas
e depois
trigo
sairmos da terra.
-/-
Imóveis, seguros
no calor um do outro.
E não importa
a crueldade perdurável,
que chova, vente, esteja frio
na primavera que não veremos.
-/-
- Se eu te desse a folhagem
da acácia sempre-verde
que farias tu por mim?
- Seria búzio, obstinação do mar.
E com fúria na boca me beijaste.
in "A boca junta"
António Osório, "O lugar do Amor", 1985 (2ª edição)
domingo, 25 de novembro de 2012
non, je ne regrette rien
Não, Eu Não Me Arrependo de Nada
Não! Nada de nada...
Não! Eu não lamento nada...
Nem o bem que me fizeram
Nem o mal - isso tudo tanto faz!
Não, nada de nada...
Não! Eu não lamento nada...
Está pago, varrido, esquecido
Não me importa o passado!
Com minhas lembranças
Acendi o fogo
Minhas mágoas, meus prazeres
Não preciso mais deles!
Varridos os amores
E todos os seus temores
Varridos para sempre
Recomeço do zero.
Não! Nada de nada...
Não! Não lamento nada...!
Nem o bem que me fizeram
Nem o mal, isso tudo tanto faz!
Não! Nada de nada...
Não! Não lamento nada...
Pois, minha vida, pois, minhas alegrias
Hoje, começam com você!
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
os "movimentos inorgânicos"
...e dou por mim a pensar isto: não excluo uma
relação directa entre a 'surpreendente' votação em Manuel Alegre nas
Presidenciais de 2006 - e o descalabro da conseguida em 2011, e a
'surpreendente' adesão maciça à manif' de 15 de Setembro último.
acessoriamente, até associo ao pensamento alguns 'surpreendentes'
resultados eleitorais do Bloco de Esquerda.
...e dou por mim a pensar se 'a relação inorgânica' é a esperança (o futuro?) da esquerda portuguesa...
...e dou por mim a pensar se 'a relação inorgânica' é a esperança (o futuro?) da esquerda portuguesa...
o gato e o rato
(leituras do jornal Público de hoje)
estupenda, a entrevista de São José Almeida e Leonete Botelho* a Jerónimo de Sousa** no Público de hoje (em versão curta, aqui na edição online).
o jogo entre a qualidade das perguntas e das evasivas mostra o velho (eterno?) jogo do gato e o rato entre o jornalista e o político, com argúcia como raramente vi/li (estou no meu dia de hipérboles, passem esta). nesta entrevista o entrelinhado é evidente, e lê-se com tanta nitidez que há alturas onde o não-dito se sobrepõe às letras grafadas. sobre cá dentro, e lá fora: a "Europa".
* jornalistas, e ocasionalmente politólogas
** secretário-geral do PCP, 'alma mater' da CGTP, e 2º ou 3º 'alter ego' do seu secretário-geral, Arménio Carlos
estupenda, a entrevista de São José Almeida e Leonete Botelho* a Jerónimo de Sousa** no Público de hoje (em versão curta, aqui na edição online).
o jogo entre a qualidade das perguntas e das evasivas mostra o velho (eterno?) jogo do gato e o rato entre o jornalista e o político, com argúcia como raramente vi/li (estou no meu dia de hipérboles, passem esta). nesta entrevista o entrelinhado é evidente, e lê-se com tanta nitidez que há alturas onde o não-dito se sobrepõe às letras grafadas. sobre cá dentro, e lá fora: a "Europa".
* jornalistas, e ocasionalmente politólogas
** secretário-geral do PCP, 'alma mater' da CGTP, e 2º ou 3º 'alter ego' do seu secretário-geral, Arménio Carlos
sobre a privacidade na Internet
(leituras do jornal Público de hoje)
entrevista a Jeff Jarvis, "um dos grandes gurus americanos da Internet", muito interessante. sobre 'nós'. e não é grande, lê-se rapidamente.
destaco (uma em várias):
"Quais são os grandes desafios de alguém que tem uma relação natural
com o mundo online hoje e publica muito, quando estiver a procurar
emprego no futuro, por exemplo?
- Fez alguma coisa embaraçosa
quando era nova? Todos o fizemos. O problema não é termos feito coisas
embaraçosas, é tornarmo-nos intolerantes em relação a isso mais tarde.
Chamo a isto a “teoria da humilhação mútua assegurada” – eu tenho os
meus momentos de humilhação, tu também, não fales dos meus que eu também
não falo dos teus. O que espero é que isto crie uma sociedade mais
tolerante, em que respeitamos os medos e erros das pessoas."
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
imortais
«é Natal, é Natal, vem aí o Pai Natal...»
as memórias. visitando-as e revisitando-as uma e uma e outra vez esmagam o vácuo do tempo, desenrugam-se polidas pelo beneplácito da distância e tornam-se imortais. os momentos, os locais. os companheiros de juventude. e nós próprios: torna-nos imortais.
e a construção-reconstrução... porque não? eu tive uma viola, tive sim. mal aprendi - como em tanto, em tanto... - mas tive-a sim. não minto. alouro. adorno, mas a essência está lá. penteio-me despenteando-me.
quando me calo e olho sou o que quero ser. será? deixa acreditar! deixa adolescer. porque não?
eu, a fazer figas! ;-)
quando me calo e olho sou o que quero ser. será? deixa acreditar! deixa adolescer. porque não?
eu, a fazer figas! ;-)
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
um bom Novembro
idades cidades divindades, Mia Couto
Um homem singular, Christopher Isherwood
As paisagens perdidas, Nuno Bermudes
Budapeste, Chico Buarque
Derrocada, Ricardo Menéndez Salmón
Os fantasmas do Rovuma, Ricardo Marques
O ente querido, Evelyn Waugh
Todas as Palavras - poesia reunida, Manuel António Pina
Um homem singular, Christopher Isherwood
As paisagens perdidas, Nuno Bermudes
Budapeste, Chico Buarque
Derrocada, Ricardo Menéndez Salmón
Os fantasmas do Rovuma, Ricardo Marques
O ente querido, Evelyn Waugh
Todas as Palavras - poesia reunida, Manuel António Pina
terça-feira, 13 de novembro de 2012
o não ao AO. ainda. sempre!
já passei pela experiência da leitura de dois
livros segundo "as novas regras": triste. além dos jornais, aqueles que
correram "a aderir": dá vontade de amarfanhá-los.
aqui? pela net? blogues ou facebook? sou prático: por regra, quando detecto
'a maleita' abandono de imediato o dito. a excepção que compõe a minha regra é
exclusivamente dedicada àqueles que, cumulativamente, a) sei que o
apreço pela boa escrita nunca foi considerada prioridade; b) cujo
pensamento prezo saber. eu disse: cumulativamente...
ps: sou algo
benevolente com os que, por profissão, foram obrigados a aderir. o bom
exemplo são os professores de língua portuguesa. no activo.
domingo, 11 de novembro de 2012
orgasmo. marítimo e poético
no dia internacional do orgasmo
fui ver o mar
fez-se a mim fiz-me a ele
as ondas desta vez tombaram de pé e
espumaram de gozo
Bénèdicte Houart
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
enfim o sucesso: a vagina-maçã
aqui no tasco tenho um
mini-registo de visitas. não as 'conta', mas regista as 20 mais
recentes. é uma forma de cuscar o mundo além desta folha negra, saber
quem veio... e em muitos casos ao que veio: quando surgem provindo duma
busca por determinada palavra ou expressão, dum motor de busca,
indica-a.
ora o meu best seller quanto a isso é... vaginas.
sim, vaginas. raro é o dia em que não tenha 'clientes' à procura de
vaginas. cosidas, assadas, compridas, estreitas, peladas ou ao natural, todos os dias recebo no meu canto incautos que o julgam um bordel. ou um museu, sei lá.
a culpa é deste post, onde além da dita palavra aparecer várias vezes mencionada, alourei-o com uma imagem que o Santo Google me deu quando procurei algo que... algo que se adequasse. ao caso, uma maçã onde o miolo parece de facto uma coisa linda.
ando no blogue à procura de outra coisa. mas, ao dar com esta velharia - é de 26 de Dezembro do ano passado - lembrei-me do chamariz contínuo que se tem mostrado. não sei se quem vem fica, se lê alguma coisa ou só se baba à vista da imagem, no desejo de trincar a dita, rilhá-la bem rilhadinha. seja como for espero não desiludir ninguém: cá, afinal, não são só 'palavrinhas' que se desejam sedutoras, também há 'bonecada' para entreter vistas tão sedentas que se socorrem de motores de busca para ver... 'pardalitas'. ou se calhar é por causa da maçã...
A Laranja Mecânica e o Hotel Polana
uma reflexão crítica sobre o hiper-famoso
filme "A laranja mecânica", de Stanley Kubrik, e sobre o desvio que o
realizador praticou no seu final, relativamente ao original plasmado na
obra (literária) de Anthony Burgess. interessante.
já agora um 'Quiz', para quem viu o filme e é moçambicano ou luso-moçambicano: na cena em que o personagem principal, o vilão Alex, é submetido a um tratamento inovador e experimental em que é injectado com uma droga e forçado a visionar imagens que lhe eram aprazíveis (enquanto ouve a 9ª sinfonia de Beethoven, o seu must musical), de forma a criar-lhe uma aversão psicológica e física ao que as imagens mostram ou simbolizam, que edifício emblemático de Lourenço Marques - e ainda hoje o é, de Maputo - aparece?
ps: o filme, em LM, passou no Scala
já agora um 'Quiz', para quem viu o filme e é moçambicano ou luso-moçambicano: na cena em que o personagem principal, o vilão Alex, é submetido a um tratamento inovador e experimental em que é injectado com uma droga e forçado a visionar imagens que lhe eram aprazíveis (enquanto ouve a 9ª sinfonia de Beethoven, o seu must musical), de forma a criar-lhe uma aversão psicológica e física ao que as imagens mostram ou simbolizam, que edifício emblemático de Lourenço Marques - e ainda hoje o é, de Maputo - aparece?
ps: o filme, em LM, passou no Scala
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
a minha verdadeira invenção do amor
(...ou procurar na memória. aquele que tivéramos e se perdeu. aquele que não tivemos mas desejávamos ter. aquele que suspeitávamos existir mas não sabíamos que existia até dar-mos com ele, ali, a chamar-nos. aquele que...)
alfarrabistas:
vou-vos contar da alegria. a alegria de ter 'encontrado' um que perdera e outro que não tivera. A Invenção do Amor, Daniel Filipe. A Noite Dividida, Sebastião Alba. este é o prazer. o prazer em tocar-lhes, até cheirá-los, sei lá se em busca de pistas acerca do dono primitivo, quem foi, porque o abandonou, se em busca duma qualquer alquimia emocional que, dizem, o cheiro dos livros nos trás. o toque de campainha. será o correio? e quando é, e quando trás o embrulhinho. meu. meu. sou bibliófilo. além do prazer de lê-los? o prazer de tê-los.
perco-me a ler. a sonhar. perco-me em tantas coisas, e esta é daquelas em que nem que o meu mundo acabe me irei arrepender.
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
América a votos
uns tempos depois da Queda do Muro, não sei se nas primeiras presidenciais americanas que se lhe seguiram ou nas seguintes, quando os USA se acharam como única super-potência mundial e o que decidissem acerca do Mundo tinha efectiva e imediata influência em qualquer parte do Mundo, em nós, cheguei a pensar que seria justo todos podermos lá votar. afinal éramos todos cidadãos informais do Império sobrevivente, não é? era? _até o escrevi num dos meus blogues anteriores, provavelmente no primeiro Xicuembo que o sr. Sapo me fez o desfavor de apagar.
mas já não somos. nem com a Crise: lá têm a própria, parece que melhor resolvida que a nossa mas mesmo assim, ao que se lê, com medidas estatais para combatê-las, e aos seus efeitos que todos sentem nos bolsos próprios, que estão longe de conseguir o consenso e satisfazer os votantes indígenas: os norte-americanos desconfiam da eficácia das políticas desta Administração quanto a 'economics', e daí a surpreendente indecisão do eleitorado em pôr em massa a cruzinha ao lado do nome do mais mediático de ambos, e ainda mais o em cargo: Obama. é que Romney é um competente mago das finanças, todo o seu percurso profissional e político o diz.
ora não voto mas interrogo-me. as eleições nos USA são por demais importantes para todos nós para lhes passarmos ao lado - e os media também não deixam, é uma feira global. assim interrogo-me na qualidade de 'estrangeiro', e penso que fosse-me dada a oportunidade e votaria Obama facilmente. porque acho que para o resto do mundo, para nós, a sua política estrangeira, global, promete mais equilíbrio qu'aquela que uma Administração republicana liderada por Mitt Romney nos traria. nem que pelo abstencionismo que ela (esta) praticaria, virada prioritariamente para o arrumar de contas no seu cofre doméstico, que estão muito desarrumadas como todos sabemos e lá concordam. mas na politica global provavelmente ir-se-ia assistir a fogachos extremados, tipo «agora não tenho tempo, mas tomem lá esta para não se esquecerem de mim e de como sou grande!». barracas musculadas. e, sabe-mo-lo, as barracas são uma chatice para quem leva com elas e levam montes de tempo a limpar. principalmente as deste tipo.
mas e se lá vivesse? se fosse genuíno indígena americano e lá votasse? aí teria de pensar, e bem. provavelmente hoje, vésperas da eleição, estaria completamente baralhado, indeciso, mais ainda que estou se na premissa do parágrafo anterior. mas, de certeza, estava muito mais informado. oh oh! a esta hora já tinha lido uns mil artigos de analistas políticos, assistido a um sem número de programas políticos na televisão (e não, como agora, somente a dois dos três debates mais importantes, aqueles que envolveram os candidatos per si), e quando amanhã pusesse o papelinho/clicado no botão/etc - os métodos de voto, lá, são altamente confusos se comparados com a simplicidade a que, cá, estamos habituados - o meu voto era um voto consciente, nem que achado pelos complicados raciocínios a que amiúde me entrego quando me acho convocado a um decisão assim profunda. eu sou complicado nestas coisas. a porra é que gosto de sê-lo, e se me arrependo a posteriori (acontece) isso acontece (aconteceu) pela superveniência de factos que na altura do bzzz-bzzz-bzzz me estavam omissos: gosto de votar em consciência, e já não tenho idade para seguir sempre em frente, balindo.
mas e se lá vivesse? se fosse genuíno indígena americano e lá votasse? aí teria de pensar, e bem. provavelmente hoje, vésperas da eleição, estaria completamente baralhado, indeciso, mais ainda que estou se na premissa do parágrafo anterior. mas, de certeza, estava muito mais informado. oh oh! a esta hora já tinha lido uns mil artigos de analistas políticos, assistido a um sem número de programas políticos na televisão (e não, como agora, somente a dois dos três debates mais importantes, aqueles que envolveram os candidatos per si), e quando amanhã pusesse o papelinho/clicado no botão/etc - os métodos de voto, lá, são altamente confusos se comparados com a simplicidade a que, cá, estamos habituados - o meu voto era um voto consciente, nem que achado pelos complicados raciocínios a que amiúde me entrego quando me acho convocado a um decisão assim profunda. eu sou complicado nestas coisas. a porra é que gosto de sê-lo, e se me arrependo a posteriori (acontece) isso acontece (aconteceu) pela superveniência de factos que na altura do bzzz-bzzz-bzzz me estavam omissos: gosto de votar em consciência, e já não tenho idade para seguir sempre em frente, balindo.
Obama é hoje outro político. a realidade fê-lo. o seu segundo mandato só pode ser melhor que o primeiro: aprende-se praticando, aprende-se até errando. e Romney não é certamente um bronco insensato como alguma imprensa faz por passá-lo. não pode ser. além de que a América não é a Europa, e lá os status políticos têm azimutes próprios: qualquer deles, candidatos, cá, inscrevia-se na boa no CDS/PP.
ainda bem que voto... cá. mesmo assim dá esta... trabalheira.
ainda bem que voto... cá. mesmo assim dá esta... trabalheira.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
"Medo"
Quererei tudo
depois da morte.
Até lá,
quero apenas ressuscitar.
Em cada dia,
ressurgir dos mortíferos desfechos.
Lá vem o poeta, dizem.
E abrem alas, receosos.
Não me importa:
de vivo não quero memória.
Medo tenho
é de ser enterrado sem história.
Mia Couto, "idades cidades divindades" (Caminho, 2007)
depois da morte.
Até lá,
quero apenas ressuscitar.
Em cada dia,
ressurgir dos mortíferos desfechos.
Lá vem o poeta, dizem.
E abrem alas, receosos.
Não me importa:
de vivo não quero memória.
Medo tenho
é de ser enterrado sem história.
Mia Couto, "idades cidades divindades" (Caminho, 2007)
domingo, 28 de outubro de 2012
as letras do inferno
nem sempre um poema diz aquilo que a gente sente.
por vezes hesita, e às vezes até mente.
mas mesmo quando mente, sente-se aquilo que nos hesita
e por isso… ele tropeça e soluça, mente.
é a poesia e não o hesitante agrafo - a mão do irresoluto -
que vos mente.
que vos mente.
o peso específico
" - Ora, por exemplo, as pessoas sardentas não são consideradas uma minoria pelas que não são sardentas. Não são uma minoria no sentido que estamos a dar ao termo. E porque não o são? Porque uma minoria só é considerada como tal quando constitui qualquer espécie de ameaça real ou imaginária para a maioria. E nenhuma ameaça é totalmente imaginária. Alguém discorda disto? se discordam, façam a seguinte pergunta a vós próprios: o que faria esta minoria se de repente se tornasse maioria, de um dia para o outro? (...)
"(...) A seguir vêm os liberais... (...) E dizem: «As minorias são feitas de pessoas, como nós.» Claro, as minorias são feitas de pessoas; de pessoas, não de anjos. Claro que elas são como nós... Mas não exactamente como nós (...)"
" - Portanto, vamos encará-lo, as minorias são constituídas por pessoas que provavelmente agem, pensam e têm um aspecto diferente do nosso e têm defeitos que nós não temos. Podemos não gostar do modo como se apresentam e se comportam, podemos mesmo odiar as suas faltas. É preferível admitirmos que não gostamos delas e que as odiamos do que tentarmos estragar os nossos sentimentos com sentimentalismos pseudoliberais. Se formos francos em relação aos nossos sentimentos, temos uma válvula de segurança; e se tivermos uma válvula de segurança, é menos provável que comecemos a perseguir... (...)
"(...) Agora suponham que esta minoria é perseguida, não interessa por que motivos: políticos, económicos, psicológicos... Há sempre uma razão, por mais errada que ela seja, e esse é o meu ponto de vista. E é claro que a perseguição está em si mesma errada, sempre. (...) Mas o pior é que nos precipitamos para outra heresia liberal. Porque a maioria perseguidora é vil, (...) por isso a minoria perseguida tem de ser imaculada. (...) O que impede os maus de serem perseguidos por outros piores do que eles? Será que todas as vítimas cristãs na arena tinham de ser santas?
"(...) Agora suponham que esta minoria é perseguida, não interessa por que motivos: políticos, económicos, psicológicos... Há sempre uma razão, por mais errada que ela seja, e esse é o meu ponto de vista. E é claro que a perseguição está em si mesma errada, sempre. (...) Mas o pior é que nos precipitamos para outra heresia liberal. Porque a maioria perseguidora é vil, (...) por isso a minoria perseguida tem de ser imaculada. (...) O que impede os maus de serem perseguidos por outros piores do que eles? Será que todas as vítimas cristãs na arena tinham de ser santas?
"(...) Uma minoria tem a sua forma própria de agressão. Desafia a maioria a atacá-la. Odeia a maioria (...). Odeia até as outras minorias, porque todas as minorias estão em competição; cada uma proclama que os seus sofrimentos são os piores e que os seus males são os mais negros. E quanto mais odeiam mais perseguidos são, mais odiosos se tornam! Acham que sermos amados nos torna odiosos? (...) Então por que motivo o facto de sermos odiados havia de tornar-nos simpáticos? Enquanto estamos a ser perseguidos, odiamos as pessoas que contribuem para isso, vivemos num universo de ódio. Nem reconheceríamos o amor se deparássemos com ele. Desconfiaríamos dele! Pensaríamos que havia alguma coisa por trás... Algum motivo... Alguma armadilha..."
solilóquio de George Falconer in "Um homem singular", de Christopher Isherwood (Quetzal, 2011)
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Folhas húmidas
ontem pensei em fazer um poema
comunicando-vos que o Outono chegou.
mas desisti. nada funcionou.
não me revi nas folhas amarelecidas
nem no vento lento que as fazia vivas.
mas hoje choveu de ira
e a água, tão excessiva, levou-as
então comunico-vos: este Verão terminou
mas não me revejo nesta calçada
nada, nem uma só palavra aproxima as folhas.
nada, nada de nada além da raiva e uma acácia triste,
é o que sobra.
é o que sobra.
um bom Outubro
A ultima concubina, Lesley Downer
Guerra Civil de Espanha, Antony Beevor
O sol dos Scorta, Laurent Gaudé
A cartilha dos amantes, compilado por Julieta Renée
O clã dos Peter Pans, Rosa Peña (suspenso, pois 'eu' estava a levar porrada a mais folha sim folha sim, e a maioria era injusta)
A Rússia sem memória, Maria Ferreti; Dina Khapaeva
O mar, John Banville
O mar, John Banville
A estética do fascismo, George L. Mosse; Emily Braun; Ruth Ben-Ghiat
Desde o Canal de Moçambique (2011-2012), José Pimentel Teixeira (jpt) - em PDF
Não há dia fácil, Mark Owen - em PDF
A poesia das palavras, v. a. (abandonado por isso mesmo)
O Inverno do Mundo, Ken Follett
iniciei ontem 'Um homem singular', de Chistopher Isherwood, e 'Siddhartha', de Hermann Hesse
iniciei ontem 'Um homem singular', de Chistopher Isherwood, e 'Siddhartha', de Hermann Hesse
sábado, 20 de outubro de 2012
Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração.
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração.
António Ramos Rosa, in "Viagem através duma nebulosa" (1960), e "Antologia Poética" (D.Quixote, 2001)
mas, poeta, quem não adia? não guarda o calor da esperança numa chama imensa, avassaladora, total, na concha duma mão que ora se crispa e cerra, ora se abre tacteante, os dedos ansiosos por serem tocados e vivificarem o tal fogo mágico? quem, poeta? quem não adia o momento que acredita valer uma vida, no renovar contínuo de ilusões? da ilusão, a maior, e - concordarás, tu, poeta - a mais bela: o Amor. oh, poeta, poeta... mascaramos esses adiamentos de decisões ou mesmo de arrebatamentos. esses sim são as ilusões. as fantasias, os placebos ao duro dia-a-dia. são os adiamentos. o Amor virá. vivemos para esse momento e os séculos não têm nada a ver com isso. o tempo não conta, sabes... quando sonhas, quando te escreves em poema, há relógio sombra ou sol que te marque o tempo? um tempo que só é válido para acreditar na tal aurora que nos renascerá? que nos salvará. não mintas, poeta. todos adiamos. mesmo quando mentimos: sabes que mentimos, não sabes? quando, no desespero das mãos frias, dos dedos torpes por ausências que os iluminem, acreditamos em mentiras que não precisam de séculos para nos serem devolvidas, esbofeteando-nos. (e dói. dói tanto.) quando os medos nos mentem e nos tornam falsos clarividentes adictos a compromissos, acreditando que o tal grito sufocar-se-á e o peso nas costas desaparecerá se sacrificarmos a liberdade de se ser pertença ao engano da conciliação, dos conscienciosos e frios cálculos acerca dum amanhã que ainda não nasceu pois vive-se é hoje, os dedos estendem-se no vazio é hoje, é hoje, e não há bafos de seguranças que os aqueçam entre sol e lua, toquem-nos como eles anseiam e merecem ser tocados: a poesia do amor. o amor, poeta. o amor. e, de bom grado, adiamos o presente quando se acredita no futuro. sempre é sempre, sabias? sabes sim: és poeta e a eternidade é a caligrafia do teu tempo. adeus, poeta, não te incomodo mais. eu adio-me na poesia. por exemplo na tua. eu adiei-me e detesto a minha (detesto-me), só sei gostar de poesia alheia enquanto o tempo não chega, não vem, e moro no frio desta linha seca que me cruza a palma da mão, a tal que (te) espera.
o grito revolucionário é: viva o luxo!
texto interessante.
em suma, como há uma ligação psicológica entre o hiper-cromatismo espaventoso das caudas dos pavões e o abonecamento sedutor da metade mais bonita da Humanidade, ou, vá lá, o desejo tardo-adolescente pela exibição dum Porsche pelos pilas, os machos. ou ainda - para quem preferir extractos de análises mais convencionais que as metáforas que acima verti - como um boom na venda de artigos de luxo não nos deve chocar nestes tempos de crise mas, pelo contrário, olhá-lo como sinais de esperança no recuperar duma economia débil: compra-os quem quer imaginar-se mais competitivo, e esse mui pouco seráfico "estado de alma" conduz a uma osmose investidora.
vou ali partir o porquinho e já volto.
em suma, como há uma ligação psicológica entre o hiper-cromatismo espaventoso das caudas dos pavões e o abonecamento sedutor da metade mais bonita da Humanidade, ou, vá lá, o desejo tardo-adolescente pela exibição dum Porsche pelos pilas, os machos. ou ainda - para quem preferir extractos de análises mais convencionais que as metáforas que acima verti - como um boom na venda de artigos de luxo não nos deve chocar nestes tempos de crise mas, pelo contrário, olhá-lo como sinais de esperança no recuperar duma economia débil: compra-os quem quer imaginar-se mais competitivo, e esse mui pouco seráfico "estado de alma" conduz a uma osmose investidora.
vou ali partir o porquinho e já volto.
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
plural
sou eu o único a achá-lo, ou no anúncio da Land-Rover que passa actualmente nas televisões há um irritante erro de português? diz-se - como lá - «tal pai, tal filhos», ou «tal pai, tais filhos»?
terça-feira, 16 de outubro de 2012
Quando
Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.
Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.
Será o mesmo brilho a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.
Sophia
a descida aos infernos*
Europa, da opulência à miséria em menos dum
fósforo. sim, não duvido que cá ou na Grécia, em todos estes subúrbios
do antes, a maioria ainda está atordoada sem perceber como tudo isto
aconteceu. nos aconteceu.
chocou-me
mais esta notícia que ouvir
este final de tarde o nosso ministro Gaspar. verdade... isto é miséria
escrito e traduzido em qualquer
língua. bem sei que há relação causa/efeito entre um garrote fiscal e
social e este estado de coisas, e que uma das pontas da corda pode ter
sido a exposição orçamental que o ministro nos fez. mas era 'paulada'
para que nos fomos preparando ao longo destes últimos tempos,
principalmente esta última semana. mas isto...
inicialmente, antes de vir aqui e escrever isto, só li o título e o resumo visível; senti um misto
de medo e repugnância em mergulhar mais no que isto implica. depois tive de ir catar o link para a notícia, e... pouco mais adianta (e precisa?): as notícias sobre o horror virão 'dentro de momentos'...
* a expressão, espontânea perante a brutalidade da notícia, não é minha. li-a onde li a notícia. mas serve, serve sim... :-(
* a expressão, espontânea perante a brutalidade da notícia, não é minha. li-a onde li a notícia. mas serve, serve sim... :-(
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
a laranja das bad trips
quando éramos tão putos que tudo o que fazíamos brilhava a
pontos de acreditarmos que nós próprios éramos fonte duma luz mágica e secreta,
iniciadores de algo que desvendávamos em gestos irreverentes, os mitos eram
aprendidos e alimentados com a naturalidade de quem crê na possibilidade de
todos os impossíveis, num desfazer contínuo de rótulos, atitude que em si mesma
se rotulava como outro mito e sem que isso nos ralasse: viver! viver uma vida
nova, um homem novo, uma forma diferente de viver em ruptura mas recheada de
conceitos quiçá ingénuos mas cândidos de lindos, como amizade, amor, paz,
harmonia com a natureza e todas as suas formas de existir. os hippies. a
contracultura. o Éden como possível. e assim crescemos marcados por essa
matriz, esses carimbos que nos foram apostos na idade e no tempo próprios. hoje
somos filhos de nós mesmos, produto enrugado deste processo geracional. somos
lindos.
recordo muitas vezes esse meu tempo. esse nosso tempo. reconheço os mitos mas sorrio-lhes com indulgência em causa própria mas com o respeito devido a algo que a olhos alheios é visto como meros excessos adolescentes mas, vivendo-o, testemunha de mim próprio, sei serem mais que isso. terem sido mais que corridas de quarteirão, lábia filosófica, uma bebedeira geracional. foi mais. na nossa Wikipédia íntima sabemos que esta entrada conduz a uma descrição mais densa que um rodapé na vida, é a matriz do "sermos" hoje. o privilégio de termos vivido uma época especial - e num local tão especial como foram as nossas ruas, horizontes de que a memória nunca abdica - é algo de que nos orgulhamos mesmo que não se alarde quando o Outono nos mente tentando envelhecer-nos, que nem de velinhas precisa para brilhar: os putos de hoje, os nossos filhos, quando nos ouvem olham-nos como mitos vivos bem além do culto do amor àqueles que foram os seus sábios e cajados desde que por cá andam.
recordo muitas vezes esse meu tempo. esse nosso tempo. reconheço os mitos mas sorrio-lhes com indulgência em causa própria mas com o respeito devido a algo que a olhos alheios é visto como meros excessos adolescentes mas, vivendo-o, testemunha de mim próprio, sei serem mais que isso. terem sido mais que corridas de quarteirão, lábia filosófica, uma bebedeira geracional. foi mais. na nossa Wikipédia íntima sabemos que esta entrada conduz a uma descrição mais densa que um rodapé na vida, é a matriz do "sermos" hoje. o privilégio de termos vivido uma época especial - e num local tão especial como foram as nossas ruas, horizontes de que a memória nunca abdica - é algo de que nos orgulhamos mesmo que não se alarde quando o Outono nos mente tentando envelhecer-nos, que nem de velinhas precisa para brilhar: os putos de hoje, os nossos filhos, quando nos ouvem olham-nos como mitos vivos bem além do culto do amor àqueles que foram os seus sábios e cajados desde que por cá andam.
vem-me à cabeça um dos mitos - e chamo-lhe assim porque
nunca o testei: a laranja. a laranja, dizeis, amigos? a laranja, sim. o
preventivo para se ocorresse uma bad trip. lembram-se, freaks? dizia-se que
chupando uma laranja a trip pararia, era remédio santo. tive bad trips, sim, e
talvez quando me municiava para uma trip com as pequenas coisinhas que achava
que seriam úteis na viagem, desde o celofane do maço de tabaco cheio de cabeças
já antes provadas e sabidas como 'boas', a objectos já por si interessantes mas
que se imaginava ganharem potenciais fantásticos quando o nosso estado mental
ganhasse as asas do ácido e trepasse por aí acima, tornando tudo que nos
rodeava mágico («as coisas, Charlie, as coisas…» explicava-me com um sorriso o
bom do Zeca Bife), e talvez, dizia, nalgum desses preparativos tenha juntado à
lista uma laranja, não fosse acontecer e... não sei, mas que se dizia que sim,
dizia-se.
nestes silêncios chupo a laranja da vida. toco a campainha da minha carruagem para me apear da nuvem onde, sei-o, novamente me perdi. e recordo com um sorriso em como na minha colecção de tesouros tinha uma lupa e um prisma em vidro, que sempre adicionava ao rol dos objectos que escondia na caixa da bateria da mota, quando ia para uma trip. porém não tinha uma bússola embora seja um objecto que sempre me fascinou e desejei, tanto que há poucos anos atrás, já nestes cinquentas tanto bonacheirões como rezingões, uma bússola foi a prenda mais querida que mulher e filha me deram num aniversário. e sorrio tanto, ao pensá-lo... um salto, agora: a bússola está na gaveta da mesa de cabeceira. a laranja, aqui à minha frente, sempre, constante. a bad trip vence-me mas luto, ó se luto. eu sei que viajei em nuvens, e quem disso provou não o esquece, não desiste. e chupo a laranja, embora não abdique da máxima: há algo que não mudou e desejo que nunca se modifique: o refúgio dos sonhos.
com menos imagens: muito menos: vivo uma idade complicada. eu, que já sou complicadinho da silva (sempre assim fui). abdico de cavalgar as nuvens mas é impossível esquecê-las. escondo-me no silêncio dos sonhos. mentindo-me, acreditando em tudo. em tudo, neste tudo tão total e irreal onde tudo se realiza perfeito e, magno exemplo, ninguém sofre e a felicidade campeia. freak forever. mas, precavido, com a puta da laranja no bolso. merda.
nestes silêncios chupo a laranja da vida. toco a campainha da minha carruagem para me apear da nuvem onde, sei-o, novamente me perdi. e recordo com um sorriso em como na minha colecção de tesouros tinha uma lupa e um prisma em vidro, que sempre adicionava ao rol dos objectos que escondia na caixa da bateria da mota, quando ia para uma trip. porém não tinha uma bússola embora seja um objecto que sempre me fascinou e desejei, tanto que há poucos anos atrás, já nestes cinquentas tanto bonacheirões como rezingões, uma bússola foi a prenda mais querida que mulher e filha me deram num aniversário. e sorrio tanto, ao pensá-lo... um salto, agora: a bússola está na gaveta da mesa de cabeceira. a laranja, aqui à minha frente, sempre, constante. a bad trip vence-me mas luto, ó se luto. eu sei que viajei em nuvens, e quem disso provou não o esquece, não desiste. e chupo a laranja, embora não abdique da máxima: há algo que não mudou e desejo que nunca se modifique: o refúgio dos sonhos.
com menos imagens: muito menos: vivo uma idade complicada. eu, que já sou complicadinho da silva (sempre assim fui). abdico de cavalgar as nuvens mas é impossível esquecê-las. escondo-me no silêncio dos sonhos. mentindo-me, acreditando em tudo. em tudo, neste tudo tão total e irreal onde tudo se realiza perfeito e, magno exemplo, ninguém sofre e a felicidade campeia. freak forever. mas, precavido, com a puta da laranja no bolso. merda.
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
há 142 anos atrás
«Pegai no mais radical dos revolucionários, colocai-o no trono de todas as Rússias e dai-lhe o poder ditatorial: dentro de um ano, ter-se-á tornado pior que o próprio czar»
Mikhail Bakunine
Mikhail Bakunine
Subscrever:
Mensagens (Atom)




























