sábado, 18 de outubro de 2008

fim de linhagem



Só uso escrevê-lo quando como agora sinto-me bombeiro-incendiário. Encontrei o protótipo "zero dois" numa garagem que não estava sinalizada e olhando as suas linhas voluptuosas a floresta de utilitários estacionados ardeu uma noite inteira. As horas são fósforos que um a um se tiram de caixas proibidas e conforme nasciam mais os dedos se fizeram lixa e deu-me uma vontade louca de àquela luz ler um livro com contos de fantasmas. Acabei por não o encontrar mas o pesadelo já fora licenciado. Lá vai: sorry. Nem um Morgan se salvou. O fumo cega.
O Autor e proprietário da área ardida agora diga se o ensaio satãnico mereçe Mestrado ou a sinecura académica fica por aqui, Ground Zero particular e mais um diploma sem outra utilidade que a memória futura ou limpar o rabo.
Hoje há cinzas de papiros e de bilhetes-postais por tudo que é canto e cadáveres de arquitectos-paisagistas apodrecem sobre plantas e maquetes de jardins. Do parque habitacional, dos castelos não há pedra sobre pedra que se aproveitem. Do principado? nem rasto, retratos ou esperança dalguma descendência sobrevivente.
Nem conheço escriba que melhor o conte que assim: meio assassinato, meio suicídio. Fim duma dinastia que se extingue mas completa, I, II e III, sem hiatos bastardos alojados em casas de servidores em reinos distantes.
Mas o incendiário sou mesmo eu e não o arquivista do Reino: ele apenas assaca ser desmemoriado e desarrumado o que em nada é desabonatório da bonita caligrafia, mas...
Sorry.

(imagem daqui. e, aqui, vejo o borralho a metros)

sábado: dia de futebol

uma perda irreparável para o desporto Rei.

busca-busca quem tiver saudades.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

o Homem é SÓ um animal mais inteligente que os outros animais...


"(...) o que não nos deixa esquecer como é difícil prever quem é que, em circunstâncias excepcionais, poderá vir a transformar-se num monstro." (pág. 261)


Laurence Rees, "Auschwitz - os nazis e a «solução final»", Booket - Publ. Dom Quixote, 2008


(imagem da capa daqui. gracias)

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

"Winds of change"


Ninguém se apercebe de nada.
Brilha um sol violento como a loucura
e estalam gargalhadas na brancura
violeta do passeio.
É África garrida dos postais,
o fato de linho, o calor obsidiante
e a cerveja bem gelada.
Passam. Passam
e tornam a passar.
Estridem mais gargalhadas,
abrindo uma sobre as outras
como círculos concêntricos.
Os moleques algaraviam, folclóricos,
pelas sombras das esquinas
e no escuro dos portais
adolescentes namoram de mãos dadas.
De facto como é mansa e boa
a Polana
nas suas ruas, túneis de frescura
atapetados de veludo vermelho.
Tudo joga tão certo, tudo está
tão bem
como num filme tecnicolorido.
Passam. Passam
e tornam a passar.
Ninguém se apercebe de nada.

Rui Knopfli

(gamado ao Macua, e a foto veio junta pois ainda havia lugar na pickup.. :)

Milos Forman no Salão Ritz


O local? algures entre a Praça da Alegria e o Parque Mayer. Recordo-me da larga escadaria frontal com os degraus forrados nem tapete vermelho gasto por gerações de avós a netos de pé leve e corações ardentes, muitas madeiras em talha dourada e os inevitáveis espelhos com as manchas de patina reflectindo o último passar de mão pelos cabelos antes da cortina se abrir e penetrar no semi escuro que aconchega nas mesas espumante barato e whisky rasca. Ao fundo e como cenário, o palco onde a orquestra hesita nota a nota entre morrerem no seu posto e de instrumento em riste ou, se já mortos como os alvos casacos encimados por lacinhos dez centímetros abaixo de rostos dum século indiciam, apenas repetem os acordes em lentos movimentos para contrariarem o rictus mortis que aparentam e assim enganarem algum médico-legista que tenha lá caído para dar um pé de dança.

Soam slows continuamente. As Damas, que em fugazes momentos duma luz indiscreta dum isqueiro fazem suspeitar serem irmãs, filhas mais velhas e uma ou outra até mães da esforçada orquestra que simula em arremedos de acordes que ainda vive e não morreu, elas, as Belas, antecedem em maquilhagem e profundidade de olhar escolas de cinema neo-realistas que Cannes ainda não sonhava premiar, e enquanto sinto o osso da perna da que o destino me sentara ao lado cravar-se na minha, a mão gélida torneando-me o pescoço e a voz que se quereria ciciante murmurar-me ao ouvido em pigarros de catarro de Três-Vintes: "filho, mandas vir outro 'Magos' e depois dançamos?", eu sinto-me não filho mas neto daquele olhar 'femme fatale' de décadas de avanço, que me leva, um, a duma golada beber a minha zurrapa e pedir outra, dois, a pedir ao solícito outra bebida para "a menina" e anuir-lhe que sim, a cabeça para cima e para baixo para se libertar do toque da pele fria que lhe cobre os ossos - sentia-os da falange à falangeta. Se ela e a sua insistente perna me permitissem evadir-me sentir-me-ia outro Milos Forman a filmar o baile dos bombeiros da associação do bairro.

Mas não. É um salão de baile feito casa de alterne, se o alemão ainda não me engana é o velho Salão Ritz e falo do início da década de oitenta do finado. Contar como lá caí era ignorar a música que soava, lenta, repetitiva, esforçada, e seria um desrespeito à estória. Por isso nada de miudezas. Com as goelas e o estômago a arder pela mistela de Sacavém deixei-me conduzir pela mão para a pista onde as luzes baças deixavam ver outros figurantes do sketch surrealista. Bailavam, a ideia era essa e a orquestra sobrevivia para isso e cria em mim que os outros, como eu, sentíamos o dever instintivo de bailar, bailar sempre, porque se a pista se esvaziasse um a um os casacos brancos com lacinhos pretos caíam como folhas fora de prazo tantos os Outonos que já deviam à tumba: sobreviviam porque tocavam, e tocavam para que se bailasse. Ela, a Bela? algo cruzado e esforçado entre a avó anoxérica dum futuro 'Família Adams' e uma vamp fora d'época - havia fascínio no momento que sentia-o como único: desde que subira a escadaria iluminada pelo vetusto lustre e pelo vermelho e ouro da decoração que os gastos espelhos me diziam, mesmo antes da cortina se abrir e penetrar em cena, sabia que vivia um momento que já não existia, não era nem da minha época nem da cidade que lá fora existia, findo o último degrau da escadaria: uma máquina do tempo teleportara-me para um pedaço de celulóide de cinemateca e bebia-o e inalava-o sequioso, bem ciente do privilégio histórico de ser-me propiciado vivê-lo. Se entre mesas divisasse caras conhecidas por fotos de álbum de família, o meu tio Olívio que nos finais de cinquenta's emigrara para o Brasil ou até o meu pai que, rezam os anais da família, fora galã marivialva na sua época lisboeta, não me surpreenderia por aí além. Pensava-o para mim enquanto a mão lhe torneava a cintura de vespa reformada e aspirava o cheiro da laca e de decilitros de perfume que me envolviam na névoa onde bailava um, dois slows.

Noblesse oblige, ousei teclar solidariamente aos colegas de palco um tímido piano nas costas desnudadas, e hérnia dical a hérnia discal acompanhava o ritmo que o palco de mortos-vivos debitava: não havia ritmo para subir uma oitava nem desci qualquer nota de levantar a plateia muito embora o primeiro balcão se esforçasse e se colasse ao meu peito. A Dama, a pista, o décor belle-époque, as luzes e a orquestra em nada ajudavam a um lá bemol maior que soltasse vidas, baladas e ritmos à partenaire ou à assistência. Bailasse, eis o guião da noite no Salão Lisboa, e o escritor não tivera um momento esfiziante quando mo escrevera - pensava.

A orquestra, coitada, faz uma pausa que eu entendi como a sua deixa para oxigenarem a existência. Foi o meu erro pois não a aproveitei e recolhi à mesa, outro 'Magos' e meio copo de tintura de iodo afogado em gelo e fim de tournée...! O Maestro ressuscita e arrasta no seu milagre colegas, instrumentos, imagine-se que até o som: soa um Tango! Esclareçamo-nos desde já: rock é rock e basta abanar o capacete e fazer olhinhos à garina; slow é slow e não fosse a Dama uma madame que me merecia provecto respeito e sabia como me desenrascar. Um e outro são como andar de bicicleta. Mas um tango... isso já é brevet ou carta de patrão da costa! Um Tango, senhores! Não, não estava no guião. Nunca estivera! Mais e para completar: das profundezas avoengas do olhar da Dama emergiu um brilho que em princípio não cataloguei como perigoso mas que o súbito estremeção do até então plácido esqueleto disse-me que para brincadeira já chegava e agora é que se começava a tratar de coisas sérias. Tão sérias foram que nas suas mãos rodopiei como nunca julguei possível, levei baile, bailarico e, acredito, momentos houve em que até dancei o tango guiado pista afora por uma cicerone mista de alucinada rejuvenescida e indefectível à arte. Nos seus braços e em volta do seu corpo fiz de mim o que não sabia estar ao meu alcance, o seu olhar profundo e magnético cravado no seu infante, ordenando e descodificando o que as suas mãos mimavam às minhas em gestos, puxões e impulsos decididos. No palco os mortos ressuscitavam tal como eu. E as cordas trinavam, os metais assopravam, o piano desenfiavasse e desenrascavasse de teias d'aranha. Foi o momento alto da rodagem e o meu excelsus como bailarino e actor.

Quando o realizador disse "corta!" e tive autorização para voltar à mesa, obviamente bebi um duplo. Depois osculei a minha Dama na mão que não segurava a taça e sem mais palavras que as que os meus olhos diziam, e desci a escadaria do tapete vermelho sem olhar para os espelhos: neles, só podia mesmo era estar reflectido Gene Kelly saltitando nos degraus como se chovesse. E chovera... por isso eu cantava!


ADENDA: corrigi o título: Salão Ritz e não Salão Lisboa. a memória tem 'buracos negros' mas felizmente há amigos que com memórias semelhantes no-lo recordam :)

(originalmente publicado aqui - gracias pela oportunidade dum pé-de-dança Hipatia! e ora com ajustes mínimos. foi mesmo uma dança e pêras, como soe dizer-se..! :) a foto tem os créditos referenciados no blogue e post de estreia, aqui. duplas gracias :)

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

A máquina do mundo




E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som dos meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado já se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto dos mistérios, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter suado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mística das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percurssão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável
em colóquio se estava dirigindo:
"o que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, por tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo."

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que tantos
monumentos erguidos à verdade;

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mas mínima - esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios de sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade que,
já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmo abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes dispiciendo

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.


Carlos Drummond de Andrade
(provavelmente o seu poema meu preferido)




(Post dedicado a quem, também, tão boa Poesia nos tem dado.)

(imagem daqui. gracias)

Poesia e Cor: Inez Andrade Paes




até eu já estou farto da "Crise". imagino vocês...
por isso, para desenjoar, nada como Poesia. e, falando nela, invocando-a, vou buscar um poema de Inez Andrade Paes, luso-moçambicana como eu mas com acesso às tais linhas invisíveis à Arte das palavras e da cor que eu já desisti de encontrar. invejo-a? não. admiro-a.

CRIAS

criaste montanhas com a solidão
do teu abraço

envolveste as sombras
do teu passado

em fuga perfeita na ira da ventania

bordaste as escarpas
com tesouros brancos

tão frágeis

são

tuas crias


(pintura e poema da citada, descaradamente gamados no seu canto de Encantos.)

A crise (X)


sanita cravada a diamantes...!

A Crise (IX)...


L'Argent Dette de Paul Grignon (Money as Debt FR) from Bankster on Vimeo.

...explicada à moda do sr. Sarkozy

(recebido por e-mail. thanks "miss Assunto")

terça-feira, 14 de outubro de 2008

A Crise (VIII)

... e eu sei que a feira de Hell-meirim não se pode comparar com a feira de Sevilha.

ora é isso mesmo!

:(

A Crise explicada pelos Grandes aos Pequeninos (VII)




a) Governo português 'injecta' 20 mil milhões de €uros no sistema bancário para...

b) Governo australiano 'injecta' 5 mil milhões de €uros no sistema bancário para...

Dados geo-económicos:

Portugal: (dados também daqui)
população: 10.617.575
área: 92.391 km²
PIB total: USD $223,3 bilhões = 162,5 bilhões €
PIB per capita: USD $21.019 = 15.294 €
esperança de vida: 78,1 anos
alfabetização: 93,8%

Austrália: (dados também daqui)
população: 21.310.000
área: 7.686.850 km²
PIB total: USD $908,8 bilhões = 661 bilhões €
PIB per capita: USD $37.300 = 27.141 €
esperança de vida: 81,53 anos
alfabetização: 99%

"é a economia, estúpidos!" - será só isso, pergunto?

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Formas de combater a Crise - VI

Muito obrigado.

Formas de combater a Crise - V



Valor de compras supérfluas feitas em shoping centers: escreva o leitor o seu. eu tenho medo do meu.



(aconselho a leitura deste desabafo. não é gaga e fala alto. ainda bem!)

(imagem dum shooping center que não nenhum dos 'nossos', daqui. )

Formas de combater a Crise - IV



Valor: quem sabe quanto custa um total de 250 deputados? responda quem sabe. já agora porque não são mais 100 ou menos 100.



(imagem do plenário da Assembleia da República cheio, ou quase, gamada aqui. )

Formas de combater a Crise - III


Valor: escreva-o o leitor. se não lhe doer.

(Imagem dum novo aeroporto que não o 'nosso', daqui. )

Formas de combater a Crise - II

Valor: ponha-o o leitor. se tiver alguma ideia - e convém tê-la, convém tê-la....

(Imagem dum TGV que não um dos futuros 'nossos', daqui. Vénia.)

Formas de combater a Crise - I


Valor: escreva-o o leitor. algures no OE há-de lá vir qualquer coisinha, um cheirinho dos zeros que durante 'x' anos virão nos próximos



(Imagem dum que não dos futuros 'nossos' gamada aqui. )

o limbo



Um dos Papas, já não sei se este se o que era seu chefe e patrono, extingiu o limbo, aquela zona dúbia onde não se era nem se deixara de ser: morria-se e não se ia nem para o céu ou para o inferno ou se reencarnava nem que fosse em lagartixa ou couve galega: ficava-se eternamente a pairar, apátrida algures nas nuvens. O limbo. Terra de ninguém além das almas-penadas que lá esperam Visto ou para cima ou para baixo. Como qualquer sala de espera onde se tira uma senha em maquinetas iguais às das casas de frangos assados, cá de baixo olho as nuvens e imagino-o com bancos de plástico incómodos, revistas velhas já sem capas e folhetos que ninguém lê. Uma seca. Não se é nem se deixa de ser. Nem faz nem sai de cima.

Imagine-se um divorciado que ainda vive em casa da ex-mulher, também sua ex-casa, porque o Inverno está à porta e as pontes não se mostram como tecto convidativo. Vive no limbo. Nem já o é nem já o deixou de ser. Ainda mais agora com o Cartão do Cidadão que já não tem 'estado civil' e portanto não pode confortar-se lendo o saudoso e simpático "div." que antes era luz verde para independências diversas. Nem ele salta nem ninguém salta para cima dele. É um híbrido condenado à abstinência sentimental com pena cumprida mas sem o gozo da liberdade. Quem o olha acredita que tem os níveis emocionais e físicos convenientemente usados e atestados por vistoria permanente, e bem pode ele protestar que vazam diariamente e não tarda está ferrugento mas, tss tss, ninguém que tenha oficina acreditada e não clandestina o acredita. Está nas nuvens de senha na mão e não tem a menor ideia de em que número vai e quando saberá se vai para cima ou para baixo, se a senha na mão lhe dirá se desce se sobe: o limbo. O limbo dos 'div.' ainda sem nova casa e que não querem gelar no inverno e congelar os depósitos pretensamente atestados.

Limbo, um problema 'div.' bisneto da crise do sub-prime. Espera-se que o Governo olhe para ele. O Papa já fez a sua parte mas ao que consta e se vê não esvaziou a sala de espera: olho as nuvens e vejo na mão d'alguém, exemplo, a senha nº 15.243, ano de 2008. Sem cunhas e missas à sua alma, nem o céu nem o inferno. O limbo.



(imagem das nuvens, sala de espera do 'limbo', daqui. vénia, claro)

sábado, 11 de outubro de 2008

Adolescer

"The good old days never return". Ainda bem pois estou melhor municiado para serem mais do good do que foram, e eu adolesço conforme vou contar. Tenho um brinco e vou usar um rabo-de-cavalo. Os anos escorregam-me na pele como se deslizassem em óleo e caem num ralo que olho aos pés e não vejo mas sabendo que está lá, e lá mergulham todos os sinais da maturidade que deviam ser característicos da minha idade biológica e não os encontro. Nenhum. O ralo. Foram-se e não sei se perdi se ganhei. Adolesço continuamente, noto-o em coisas de nada mas juntas endireitam-me os ossos e olham com vontade de bis o brinco que tive e já não uso, e se tenho uma recaída de pensar e envelheço chego a ter medo pois se é ilusão não é natural. Mas não é: o buraco na orelha permanece, apalpo e sinto-o. O natural seria envelhecer mas embora veja que os cabelos têm mais fios prata que no ano passado neste apetecem-me coisas que nunca soube fazer. E outras que soube mas já não faço, mesmo do antes de guardar o brinco. De muito antes, valha a verdade. Por isso acredito que não é ilusão nenhuma e retrocedo no tempo com a mesma irreversibilidade com que até há pouco lhe avançava, retrocedo quando penso no brinco e até ando com vontade em aproveitar os cabelos que já não corto há uns vinte centímetros de meses e penso que um rabo-de-cavalo dava-me jeito. Outra: nunca soube dançar mas agora apetece-me sabê-lo. Bailar, as mãos numa cintura e os rostos tão colados como ela, a música e a mãe dela deixarem. Ciúmo-me de não sabê-lo e quero ir a treinos para aprendê-lo. Também de não saber tocar viola ou bandolim, abrir o baile e raspar-me mais a cintura ainda as cordas dedilham olhos brilhantes. De brinco e rabo-de-cavalo, a prata apanhada atrás em cofre sem fecho mágico e só secreto para mim. Nunca soube namorar mas refilo com o lado bonito do mundo por me ignorarem como 'date' plausível, eu que quero voltar ao liceu e aprender a engatá-las para passear de mãos-dadas e roubar beijos apaixonados, fazer juras eternas e acreditar que são assim mesmo. Até já fui procurar em caixas velhas que me envergonham de antigas resíduos de brinquedos do meu filho varão, hoje um matulão de vinte e seis anos e com certeza mais maturo que eu, eu que tenho um brinco na calha de regresso e olho de esguelha os elásticos de cabelo da filhota mais nova, dezasseis, pronto a gamar-lhe um. Carrinhos, procuro carrinhos nas caixas velhas para brincar. Não fosse o Inverno à porta e as varizes nas pernas e não tardaria a andar de calções. Posso sempre usar meias altas, mas isso dava-me um ar tirolês que me envelheceria pois nunca fui à Áustria, apenas vi o “Música no Coração” the movie e o à La Féria. Quando era miúdo genuíno e não aprendia a dançar para namorar ia ao consulado da Áustria e trazia resmas de catálogos onde via a neve e as casas nos vales, e gostava. Deve ser daí que me lembrei das meias. Outra ainda: tivesse mesada para isso ou um primeiro emprego como no antes haviam e eu tive um e voltava a comprar uma mota e estava pronto a reesfolar joelhos e cotovelos para verificar espalhafatosamente e pintalgado de mercurocromo que já não sei fazer um cavalinho. Mas havia de apanhar-lhe o jeito de novo. Adolesço, por isso reaprendia. E dançava, e namorava. Os carrinhos seriam reprise, queria era aprender o que não aprendi e por isso voltavam para a caixa pois há coisas onde não se deve mexer, matéria dada tal como os berlindes em bolso meio cheio de rebuçados. Adolesço, não infantilizo. O baile, o beijo, a viola e a mota. Nada mais.


Envelhecer custa. Mas não me chamem patético: tenho um furo na orelha esquerda que diz e conta que isto teve um princípio tardio mas depois tive medo e esqueci o brinco numa gaveta. O rabo-de-cavalo vai fazer de vez levantar a roda da frente até à esquina do fim da rua. Depois as miúdas na esplanada serão o semáforo: ou derrapo com a viola a tiracolo e estaciono e bailo, ou carregam no botão e páro de adolescer e envelheço apalhaçado numa mota cheia de cromados que pimba-combinam com o brinco e o tal cofre. Tentar não custará assim tanto e cavalinhos já os treino diariamente, arranhão a arranhão.



(foto do 'cavalinho' gamada no site de um 'puto' mais ou menos como eu quero voltar a ser. e ele que me perdoe o rapinanço. se se der ao trabalho de ler dos porquês por certo entenderá e não se zangará. talvez até me empreste a motorizada para uma voltinha ;)

USA'08



A Conceição continua com boas descobertas que dão melhores leituras. E eu só posso recomendá-la e recomendá-las.


(imagem daqui (vénia). é giro o snowmobile. cuidado é com quem vem em cima dele...)

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

filo-café: Fecundação e Alívio




O projecto Incomunidade não pára. Felizmente há quem mexa, remexa e volte a agitar. Desta vez o filo-café é no Orfeão do Porto, às 21:30 do próximo dia 22 de Novembro. As inscrições estão abertas. Tudo melhor explicado aqui.
Já fui a um e tenho sincera pena de não ter tido oportunidade de ter ido a mais. Mas daqui até fins de Novembro ainda muita chuva e sol virão. Logo se vê.


(imagem colhida no próprio blogue e alusiva ao evento linkado)

Parlamento, 10 de Outubro de 2008




Parece que se falou muito. E votou-se pior. Faltou poesia. Que ela existe e não é nem hetero nem bi nem tri: é só poesia. Leia-se Gabriela Mistral.
Faltou lê-la lá, que cá fora ela é ouvida, lida, entendida. Por cidadãos, eleitores, contribuintes, afinal apenas Gente igual ao resto do gentio. Shame on you, pink politicians!


Dame la mano y danzaremos;
dame la mano y me amarás.
Como una sola flor seremos,
como una flor, y nada más...

El mismo verso cantaremos,
al mismo paso bailarás.
Como una espiga ondularemos,
como una espiga, y nada más.

Te llamas Rosa y yo Esperanza;
pero tu nombre olvidarás,
porque seremos una danza
en la colina y nada más...




(... e porque me estou absolutamente nas tintas de "quem anda a comer quem": quero é que todos sejam Felizes.
não gasto dessa marca mas sou fumador: e irrita-me esta fobia anti-tabagística que atingiu o País. extrapole-se, pf.)


(imagem gamada ao compadre Isidoro de Machede, infelizmente há algum tempo em pousio. é que é dos tais que fazem falta!)

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Xicuembo, o livro


Da editora disseram-me que ainda há exemplares em stock, sobras das vendas nas livrarias.
Se estiverem com vontade de "espreitar o Gil" mais as suas memórias de Moçambique as encomendas são aqui (secção 'Vários', quase no final da página) e fica ao mesmo preço que na livraria: 14 €uros, pois os portes de correio são por conta dela, editora; ou seja: paga-se o mesmo (por cobrança postal) e recebe-se o book em casa... ( sinopse do dito, aqui. )

"é a economia, estúpidas!"

aforismos do momento


A História só é reescrita por quem ou teme a verdade ou está cego pela luz ou pelas sombras dum momento. O Tempo gosta de confirmá-lo, seja na História dos Povos ou na das Pessoas individuais. E as linhas ficam claras, legíveis de verídicas.
Das datas e das cerimónias: das poucas que não se agendam sobressaem os funerais: acontecem. Mas em sobreposição de datas há que comparecer nos dois lados. A morte não apaga o vivido: é ele a tal História.
Os posts? tanto acontecem no momento como se programam. Uns e outros são História, pázadas da verdade do nosso blogue da nossa vida. Isso torna-os intocáveis como se fossem campas, sem a profanação de páginas arrancadas.
O Agora não muda uma vírgula ao Antes pois nem o morto ressuscita nem os méritos da obra em vida o acompanham na tumba. Sem borrachas ou photochop é essa história a nossa Memória: sagrada, improfanável.



(imagem a que não googleresisti, abusivamente cobiçada aqui. deculpa lá, ó pá, mas ela é linda e tou-te a linkar... :)

flor com lágrimas de Vida



As flores são sempre belas. Mesmo quando chove.



(flor: belíssima foto de Jorge Soares . vénia)

Homenagem às Escritoras

Jocelyn Hobbie, The Writer, 2005

A todas as minhas Amigas que conhecem o toque do fogo, a Mão Que Escreve.



(imagem daqui. vénia)

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Delirium tremens do dia-a-dia


" (...) A minha delicadeza prejudica-me de facto muito. Deu cabo da minha juventude. E da minha infância, e da minha adolescência. Ou melhor, não, não foi delicadeza, eu limitei-me a expandir infinitamente a esfera da intimidade. O que me fez perder, e muito...
Vou-vos contar. Recordo-me que, aqui há dez anos atrás, fui viver para Orekhovo-Zuevo. No quarto já moravam quatro, eu tornei-me o quinto. Vivíamos como cinco almas num corpo, não havia zangas entre nós. Se alguém queria beber Portwein, levantava-se e dizia: «Rapaziada, quero beber Portwein.» E todos respondiam: «Está bem, bebe Portwein. Nós bebemos Portwein contigo.» Se alguém se inclinava para a cerveja, todos se inclinavam para a cerveja.
Era maravilhoso. Mas, subitamente, comecei a notar que os quatro me afastavam. Murmuravam entre si e olhavam-me, seguiam-me se eu ia a alguma parte. Isto era estranho, preocupante... E eu lia a mesma preocupação, medo até, nos rostos deles. Que se passa?, torturava-me eu. Porque fazem isso?
E chegou a noite em que compreendi. Recordo-me que nesse dia nem sequer me levantar da cama: tinha bebido cerveja e estava triste. Nada de especial: estava ali deitado, tinha bebido cerveja e estava triste.
Vi que, pouco a pouco, os quatro me cercaram: dois sentaram-se em cadeiras à cabeceira e dois aos pés da cama, e olharam-me nos olhos com censura, com a crueldade dos que são incapazes de desvendar os mistérios que eu encerro em mim. Por certo acontecera alguma coisa.
- Ouve, - disseram-me eles. - Deixa-te disso.
- Isso o quê? - eu admirei-me e soergui-me um pouco.
- Deixa de achar que és superior aos outros. Que nós somos gente miúda e tu és Caim e Manfrd!
- Mas que história é essa?
- A seguinte: bebeste cerveja hoje?

TCHUKHLINKA - KUSKOVO

- Bebi.
- Muita?
- Muita.
- Então levanta-te e vai.
- Vou aonde?
- Como se não soubesses! Pelos vistos é assim: nós somos uns cabrões, uns canalhas insignificantes, e tu és Caim e Manfred!
- Desculpem-me, - disse eu. - Nunca sugeri nada semelhante...
- Sugeriste sim. Sugeriste-o desde o dia em que vieste viver para aqui. Não com palavras mas com actos. Nem sequer com actos, mas com a ausência deles. Sugeriste-o negativamente.
- Mas que actos? Que ausência? - escancarei completamente os olhos de espanto.
- Sabes bem que actos. Não vais à retrete, essa é que é essa. Percebemos logo que estava qualquer coisa mal. Desde que te instalaste aqui nunca ninguém te viu ir à retrete. Bem, podemos desculpar as grandes necessidades! Mas tu nunca foste satisfazer sequer uma pequena... tão pouco uma pequena!
Tudo isto dito sem um sorriso, num tom mortalmente ofendido.
- Não, rapazes, não me entenderam...
- Entendemos-te perfeitamente.
- Espera, não, não entenderam. É que eu não posso levantar-me da cama como vocês e simplesmente anunciar: Bem, rapazes, vou cagar! ou Bem, rapazes, vou mijar! Não posso fazer isso...
- E por que é que não podes? Se nós podemos tu também podes! Ou serás melhor que nós? Nós somos uns animais porcos mas tu és um lírio!
- Não... como hei-de explicar...
- Não vale a pena explicar, está tudo claro.
- Ouçam... compreendam... neste mundo há coisas...
- Sabemos tão bem como tu que coisas há e que coisas não há...
Não os consegui convencer. Tinham-me trespassado a alma com os seus olhares carrancudos. Comecei a ceder.
- Bem, claro que eu também posso... poderia...
- É isso mesmo: tu podes, tal como nós. Mas nós como tu é que não podemos. Tu és Manfred, tu és Caim, mas nós somos um escarro aos teus pés...
- Não, não! - aqui baralhei-me totalmente - Neste mundo há coisas... há esferas tais... é impossível dizer simplesmente levanta-te e vai. Porque há a auto-limitação ou lá o que é, há um reino de vergonha desde o tempo de Ivan Turguenev... e há o juramento nas colinas Vorobievo. E depois de tudo isto levantar-se e dizer: Bem, rapazes... É ofensivo... Quero dizer, supondo que alguém tem um coração sensível...
Os quatro olharam-me demolidoramente. Encolhi os ombros e calei-me, desesperado.
- Deixa Ivan Turguenev em paz, deixa-te de tretas. Nós também o lemos. É melhor que nos digas se hoje bebeste cerveja?
- Sim.
- Quantas canecas?
- Duas grandes e uma pequena.
- Então levanta-te e vai. Para que todos vejamos que vais. Para nos acalmar. Não nos humilhes e não nos martirizes. Levanta-te e vai.
Eu levantei-me e fui. Não para me aliviar mas para os acalmar a eles. Quando regressei um deles disse-me: « Com tamanhos sentimentos de vergonha vais ser eternamente solitário e infeliz.»
Sim. Tinha toda a razão. Eu conheço muitas das intenções de Deus mas continuo a não saber por que me deu Ele tanto pudor. E o mais ridículo é que este meu pudor tem sido interpretado tão ao contrário que me tem privado da mais elementar educação.
Por exemplo em Pavlovo-Possad. Levam-me a encontro das senhoras e apresentam-me assim:
- Este é o famoso Venedikt Erofeev. Famoso por várias razões mas, acima de tudo, por nunca ter dado um peido em toda a sua vida!
- Como?! Nenhuma vez?! - admiram-se as senhoras, e olham-me fixamente. - Nenhuma vez?
Eu, é claro, começo a ficar embaraçado. Não posso deixar de ficar embaraçado em frente de senhoras. E digo: «Bem, nenhuma vez... às vezes...»
- Como?! - ainda mais se admiram as senhoras. Erofeev... É incrível! Às Vezes!
Eu perco-me definitivamente e digo qualquer coisa do género: «Mas... que há de incrível, eu também... se... peidar-se é tão numenal... Não há nada de fenomenal em peidar-se...»
- Imaginem só! - as senhoras deliram com isto.
Mas depois espalham por toda a linha de Petuchki que «ele faz tudo ruidosamente e diz que não está mal! Que está bem!»
Portanto estão a ver. E tem sido assim toda a minha vida. Toda a minha vida fui perseguido por este pesadelo, pesadelo que consiste em ser compreendido não apenas deturpadamente - não! deturpadamente até nem seria muito mau! - mas precisamente ao contrário do que eu tencionava, isto é, de forma completamente porca, antinómica. (...)"

"De Moscovo a Petuchki", Venedikt Erofeev, Edições Cotovia, 1995, extracto de págs. 33 a 36.

(foto do Autor encontrada aqui. thanks)

poema Cu-Cu


Apaixono-me com a frequência dum relógio que bate horas. Dos antigos, que fazem cu-cu. Um rosto adivinhado numa frase relida mil vezes. Um rosto que, lido, tem outro relógio onde leio cadências que me enchem os ouvidos e neles escavam até se alojarem e soarem o seu cu-cu em eco interno, sinal de nova hora. Horas de mais de sessenta minutos, horas de litros de segundos. Pautas musicais onde só lhes distingo a clave do tum-tum, a tal que no meu soa cu-cu quando bate a tal hora, um rosto adivinhado, um texto lido e relido até ao esqueleto, tum-tum, os relógios acertam-me a hora e o meu diz cu-cu.
Como é que lhe dei corda, que quando foi fabricado ainda os suíços não usavam pilhas para dizer cu-cu, altivo alpino tic-tac de corda à mão que soava com a regularidade das paixões de hora em hora à idade quando a paixão lhe batia, então abria a janela e fazia cu-cu? hoje soa solto, cu-cu descomandado sem previsibilidade nem horário. Apenas cu-cu, instalou-se à janela e é um constante cu-cu.
Uma frase relida e um coração olhado. TMG ou GMT, já não sei em que fuso estou, em que hora estou pois o cu-cu soa, troa-me, baralha-me os ritmos e perco as rotinas, adianto-me uma hora e no mesmo segundo duvido se não estou errado e não estarei é uma hora atrasado. Sei que ele continua a bater, a bater, e a corda que lhe dei foi em rodar de pulso, linhas minhas ou linhas doutrem, a face do lado de lá é sempre igual à do lado de cá, ambas soam d'hora a hora e têm relógios tão descomandados que são verdadeiros apaixonados em fazer do cu-cu o desassossego de quem lhes dá corda, lê ou escreve a pauta que insiste na clave do cu-cu; cu-cu, sempre cu-cu.

Tenho de me modernizar e substituir o relógio a corda. Por um mais prático onde não rode o pulso e me aleije em entorses e não me obrigue nem a ler nem a escrever para saber que horas são: põe-se a pilha e pronto: cu-cu. Simplesmente cu-cu, sem requintes ou afinações: cu-cu porque é hora de cu-cu e não porque lhe apeteceu vir à janela enquanto eu sem dar pelas horas lia e relia e... cu-cu.
O personagem Venia Venitchka de V. Erofeev consegue correr Moscovo de lés a lés e de taberna em taberna sem nunca ver as muralhas do Kremlin. Almejo conseguir ler às horas sem cuidar das horas e sem rodar o pulso a cada uma, um impulso electrónico invisível e sem dores no peito ou no pulso ouvir o cu-cu recordar-me no fuso certo que são horas da paixão. À janela, pois à janela seja. Lá fora não há cucos que eu veja ou ouça, mas há Vida que espreito e invejo. Ardente, orquestra de sons onde os cu-cus não são monótonos. Sei, porque a leio.
A merda é que os meus ouvidos não conseguem parar de ler. Ler cu-cu em cada linha, em cada coração um relojoeiro meu irmão.
- abençoados relógios iletrados, silenciosos e sem janelas abertas incomodamente de hora a hora.
- abençoadas letras que nada dizem e nelas não se lê cu-cu e assim não me apaixono porque não as ouço.
e que seja também abençoado o meu novo relógio suíço com pilhas japonesas que não fará cu-cu, hei-de descobri-lo quando perceber que a felicidade passa pela infelicidade de não ouvir cu-cu ao ler cu-cu, das linhas serem só linhas e estas minhas não falarem de relógios mas do preço do barril de petróleo, quando apertar o pescoço ao cabrão do cuco que não se cala e persegue-me vida fora a gritar-me, a gritar-me e eu a ouvi-lo que está na Hora e as horas estão certas, os ponteiros alinhados, cu-cu, cu-cu, neste vício de rodar o pulso para dar-lhe corda por medo de perder a hora que há-de vir e


cu-cu.

(Imagens daqui e daqui. vénias, em british.)

PS: também aqui e aqui.

domingo, 5 de outubro de 2008

1 €


directamente das badanas:

"E agora o quê? Ser insinuantemente meigo? Ou fascinantemente grosseiro? Com os diabos, eu nunca percebi bem quando ou como aproximar-me duma mulher bêbada. Até aqui - deverei dizer-vos? - eu sabia pouco sobre elas, bêbadas ou sóbrias. Perseguia-as em pensamento, mas mal me aproximava com o coração, o pensamento paralisava assustado. Eu era contraditório. Por um lado gostava que elas tivessem cintura, já que nós não temos cintura nenhuma. Isto despertava em mim... Como dizer? Volúpia? Sim, despertava em mim volúpia. Mas, por outro lado, elas apunhalaram Marat com uma faca, embora Marat fosse incorruptível e não devesse ter sido esfaqueado. Só por si isto já matava toda a volúpia. Por outro lado, como Karl Marx, eu gostava da fraqueza delas, isto é, elas são obrigadas a mijar de cócoras, e isso agradava-me, enchia-me... bem, de quê? De Volúpia? Sim, de volúpia. Mas, por outro lado, foram elas que dispararam a espingarda contra Ilitch! Isto matava novamente a volúpia: podem pôr-se de cócoras, mas para quê disparar contra Ilitch? Seria ridículo falar de volúpia depois disto... Mas desviei-me do tema."

... e eu acho que ele é prometedor, tendo desvios assim.

"De Moscovo a Petuchki", Venedikt Erofeev, Edições Cotovia, 1995. a 1 € numa Feira do Livro perto de si.


(imagem da capa catada aqui. grato.)