chamaram-me "Peter Pan" e não gostei! humpf...
porra, às vezes também cá calha literatura de cordel... :-(
sábado, 29 de setembro de 2012
a dor
"Dorme, meu amor"
Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais
este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega o pior já passou
há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão
desvia os passos do medo. Dorme, meu amor -
a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que
adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra
não hão-de derrubar-me eu já morri muitas vezes
e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos
agora e sossega a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos
nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,
meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e
nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já
olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,
de guarda aos pesadelos a noite é um poema
que conheço de cor e vou cantar-to até adormecer
Maria do Rosário Pedreira
imagem: "le soir et la douleur", de Gustave Moreau
o umbigismo do escritor
"Os êxitos têm apenas por companhia inseparável a confusão e um punhado
de ideias baratas sobre o mundo. Notamos de imediato aqueles que têm
êxito e gozam a consideração alheia, ficam gordos de uma
auto-complacência contente, e a força da vaidade infla-os como balões e
quase deixamos de os reconhecer. Deus proteja um bom homem da
consideração de terceiros. Se não se tornar mau, ficará pelo menos
confuso e perderá a força."
Robert Walser, in "Jakob von Gunten"
tão verdade...
têm um blogue? Facebook? não se sentem enojados com tanto nascisismo, e na triste maioria completamente sem um suporte que seja legível sem um esgar, antes do abandono? mas é vê-los, ouvi-los. que ridículos. que feios e sem se verem.
têm um blogue? Facebook? não se sentem enojados com tanto nascisismo, e na triste maioria completamente sem um suporte que seja legível sem um esgar, antes do abandono? mas é vê-los, ouvi-los. que ridículos. que feios e sem se verem.
e assim minto. minto-me
"A companhia da literatura é perigosa, tanto que eu, por vezes, a
pessoas que aprecio não vejo motivos nenhuns para lhes aplaudir que
leiam muito e penetrem tanto nos livros, e o que lhes desejo é o Bem, e
qualquer um que tenha lido por exemplo Kafka conhece perfeitamente
«quanta angústia excessiva para nada» (como dizia Pessoa) há na
literatura.
Como diz Magris: «Kafka sabia perfeitamente que a literatura o afastava do território da morte e permitia-lhe compreender a vida, mas deixando-o de fora. Assim como lhe permitia compreender a grandeza do padre judeu, modelo de homem, mas não lhe permitia precisamente sê-lo.»
Precisamente porque a literatura nos permite compreender a vida, deixa-nos fora dela. É duro, mas às vezes é o melhor que nos pode acontecer. A leitura, a escrita, buscam a vida, mas podem perdê-la precisamente porque estão inteiramente concentradas na vida e na sua própria busca.
Talvez seja a melancolia da tarde em que estou a escrever isto, mas a verdade é que estou a falar de um nó inextricável de bem e de mal, de luzes e sombras inerentes à leitura e à literatura. Tudo isto é duro, para quê nos enganarmos. Trata-se de uma dureza que, segundo Gombrowicz, a boa literatura possui como produto de um instinto de agudizar a vida espiritual. Há dias em que recomendaria ler aos meus piores inimigos.
Precisamente porque a literatura nos permite compreender a vida, fala-nos do que pode ser mas também do que podia ter sido. Às vezes não há nada mais distante da realidade do que a literatura, que nos recorda a todo o momento que a vida é assim e o mundo foi organizado assado, mas poderia ser de outra forma. Não há nada mais subversivo que ela, que se ocupa de devolver-nos à verdadeira vida ao expor o que a vida real e a História sufocam."
Como diz Magris: «Kafka sabia perfeitamente que a literatura o afastava do território da morte e permitia-lhe compreender a vida, mas deixando-o de fora. Assim como lhe permitia compreender a grandeza do padre judeu, modelo de homem, mas não lhe permitia precisamente sê-lo.»
Precisamente porque a literatura nos permite compreender a vida, deixa-nos fora dela. É duro, mas às vezes é o melhor que nos pode acontecer. A leitura, a escrita, buscam a vida, mas podem perdê-la precisamente porque estão inteiramente concentradas na vida e na sua própria busca.
Talvez seja a melancolia da tarde em que estou a escrever isto, mas a verdade é que estou a falar de um nó inextricável de bem e de mal, de luzes e sombras inerentes à leitura e à literatura. Tudo isto é duro, para quê nos enganarmos. Trata-se de uma dureza que, segundo Gombrowicz, a boa literatura possui como produto de um instinto de agudizar a vida espiritual. Há dias em que recomendaria ler aos meus piores inimigos.
Precisamente porque a literatura nos permite compreender a vida, fala-nos do que pode ser mas também do que podia ter sido. Às vezes não há nada mais distante da realidade do que a literatura, que nos recorda a todo o momento que a vida é assim e o mundo foi organizado assado, mas poderia ser de outra forma. Não há nada mais subversivo que ela, que se ocupa de devolver-nos à verdadeira vida ao expor o que a vida real e a História sufocam."
Enrique Vila-Matas, in 'O Mal de Montano'
recebido por mail. obrigado. mas a necessidade - e o prazer! - que assim tenho em esconder-me às sapatadas da vida, desta forma recriada, ajustando em precisão de relojoeiro-leitor a puta da realidade!...
sem a escrita morreria. mas sem a leitura morreria ainda mais depressa. quando escrevo, quando leio, tudo é real. o paradoxo: por isso dói tanto viver quando se recusa a ignorância, e se adopta como olhar a sinceridade da nudez própria. mas continuo a conseguir chorar.
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
as nossas "blessures"...
Cette blessure
Où meurt la mer comme un chagrin de chair
Où va la vie germer dans le désert
Qui fait de sang la blancheur des berceaux
Qui se referme au marbre du tombeau
Cette blessure d'où je viens
Cette blessure
Où va ma lèvre à l'aube de l'amour
Où bat ta fièvre un peu comme un tambour
D'où part ta vigne en y pressant des doigts
D'où vient le cri le même chaque fois
Cette blessure d'où tu viens
Cette blessure
Qui se referme à l'orée de l'ennui
Comme une cicatrice de la nuit
Et qui n'en finit pas de se rouvrir
Sous des larmes qu'affile le désir
Cette blessure
Comme un soleil sur la mélancolie
Comme un jardin qu'on n'ouvre que la nuit
Comme un parfum qui traîne à la marée
Comme un sourire sur ma destinée
Cette blessure d'où je viens
Cette blessure
Drapée de soie sous son triangle noir
Où vont des géomètres de hasard
Bâtir de rien des chagrins assistés
En y creusant parfois pour le péché
Cette blessure d'où tu viens
Cette blessure
Qu'on voudrait coudre au milieu du désir
Comme une couture sur le plaisir
Qu'on voudrait voir se fermer à jamais
Comme une porte ouverte sur la mort
Cette blessure dont je meurs
e porque já é Outono
Les sanglots longs
Des violons
De l'automne
Blessent mon coeur
D'une langueur monotone.
Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l'heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure;
Et je m'en vais
Au vent mauvais
Qui m'emporte
Deci, delà,
Pareil à la
Feuille morte.
Les sanglots longs
Des violons
De l'automne
Blessent mon coeur
D'une langueur monotone.
Paul Verlaine
Dazed and confused (sempre!)
Been dazed and confused for so long, it's not true
A-wanted a woman, never bargained for you
Lots of people talkin', few of them know
soul of a woman was created below, yay
You hurt and abuse, tellin' all of your lies
Run 'round sweet baby, lord, how they hypnotize
Sweet little baby, I don't know where you been
Gonna love you baby, here I come again
Every day I work so hard, bringin' home my hard-earned pay
Try to love you, baby, but you push me away
Don't know where you're goin', only know just where you've been
Sweet little baby, I want you again
That's not my babe
Ah, ah, ah, ah
Did you ever look-up my woman
Ah, ah-ah-ah, ah-ah-ah-ah, ah-ah-ah-ah
Ah-ah-ah-ah-ah-ah-ah-ah-ah-ah, ah
Ahh, ah, ah, ah, ah
Ah-ah-ah-ah-ah-ah-ah-ah-ah-ah-ah-ah-ah-ah-ah-ahhh, ahh
Oh, yeah, alright, alright
Ah, ah, ah, ah, ah-ah-ah, ah-ah-ah, ah
Ah-ah, ah-ah, ah-ah, ah-ah
Oh, I don't like when you're mystifyin' me
Oh, don't leave me so confused, now
Whoa, baby
Been dazed and confused for so long, it's not true
Wanted a woman, never bargained for you
Take it easy, baby, let them say what they will
Tongue wag so much when I send you to bed, oh, yeah, alright
Oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, ah, ah, ah
Ah-ah-ah, ah-ah-ah, ah-ah-ah, ah-ah-ah
Sea Train (outra vez?)
Comin' in easy on the sea train.
Walkin' out under the fog again,
And the sky don't explain
If I'm up or across or down, town around just like then.
The neon screen will never know when.
Be quiet or dream,
And just not crowd the scenes
Of my mind's sound.
I'm goin' under and comin' on out
To see you again.
My mind's been wanderin', but I'm about
To meet you again.
The rhythm of hearts plays in my veins
Like some long-gone lonesome sea train.
I'm only sure that the weather would break if I did.
They'll come easy, then go glad.
Your child at the window says the rain don't look sad,
And you ask me who's mad
As you show me your lost and found.
Down, you're bound again.
With your fan, my fire turns to wind
Your glass fills mine with sand,
You shout, "I'm not your land!"
And I hear the ground.
I'm a weeping shadows, feeling like a willow
Bearing Martha's flower; as the sun comes, I come.
Far across the street, clear across the stream,
The sun shall come.
If you're in a tree and the forest falls, who hears you?
[musical interlude]
And the hills meet the wind, making dew.
We see us again.
As the sun behind clouds, breaking through,
We're gonna meet them again.
The rhythm of hearts plays through my veins
Like some long-gone lonesome sea train.
Rain in the meadow beats the river to the ocean.
[scream
Lyrics: Jim Roberts
Music: Andy Kulberg
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
um bom Setembro
O prisioneiro do céu, Carlos Ruiz Záfon
Praça de Londres, Lídia Jorge
Praça de Londres, Lídia Jorge
Comboio de sal e açúcar, Licínio de Azevedo
Contos e lendas, Carneiro Gonçalves
A voz dos deuses, João Aguiar
A breve e assombrosa vida de Oscar Wao, Junot Díaz
Alentejo e Ninguém, Manuel Alegre
O príncipe da neblina, Carlos Ruiz Záfon
O homem que comia dinheiro, Rosina Umelo
Aquele Verão em Paris, Abha Dawesar
inicio hoje "A última concubina", de Lesley Downer. quase nada sei sobre ele. e sobre ela, autora, então é um redondo nada. o que sei? é um romance histórico passado no Japão, séc. XIX. e foi muito barato - saldos de Verão... quem sabe se?... só lendo-o...
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
valores
«É a amizade que torna toleráveis as verdades dolorosas acerca de nós próprios.»
Pascal Boutin para Prem Rustum, in
"Aquele Verão em Paris", de Abha Dawesar (ASA, 2009)
_que ainda tenho em mãos, mas já se me apresenta como um dos melhores romances que li este ano. Abha Dawesar, que surpresa boa! mestre em diálogos
a culpa
«nunca menosprezes a culpa. as emoções vivem num pântano denso, húmido de luzes e de perigos, onde facilmente a culpa nos dá a mão. e enredamo-nos, e perdemo-nos.»
Sir Charles B. Walters, filósofo inglês prematuramente falecido (1855-1912), conversando com um espelho
Sir Charles B. Walters, filósofo inglês prematuramente falecido (1855-1912), conversando com um espelho
terça-feira, 18 de setembro de 2012
"You never know until you try"
This is for all the lonely people
Thinking that life has passed them by
Don't give up until you drink from the silver cup
And ride that highway in the sky
This is for all the single people
Thinking that love has left them dry
Don't give up until you drink from the silver cup
You never know until you try
Well, I'm on my way
Yes, I'm back to stay
Well, I'm on my way back home (Hit it)
This is for all the lonely people
Thinking that life has passed them by
Don't give up until you drink from the silver cup
And never take you down or never give you up
You never know until you try
Thinking that life has passed them by
Don't give up until you drink from the silver cup
And ride that highway in the sky
This is for all the single people
Thinking that love has left them dry
Don't give up until you drink from the silver cup
You never know until you try
Well, I'm on my way
Yes, I'm back to stay
Well, I'm on my way back home (Hit it)
This is for all the lonely people
Thinking that life has passed them by
Don't give up until you drink from the silver cup
And never take you down or never give you up
You never know until you try
Santarém, 15 de Setembro de 2012
terça-feira, 11 de setembro de 2012
Os seios das raparigas tremem um resto
de frio nos decotes — e os seus vestidos
têm agora saias mais curtas. Os rapazes
encostam-se à pele dos muros e escrevem
vergonhas. Ai, quem me dera ter outra
vez a idade deles para não saber que a
morte nunca desiste de chamar pelo amor.
Maria do Rosário Pedreira
(copiado do blogue de Eduardo Pitta, Da Literatura, com pequena nota crítica à sua obra poética aqui.)
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
com luva. Eugénio Lisboa com luva, por si e por todos nós
clap, clap, clap!
Eugénio Lisboa, no gigantismo dos seus 82 anos, suavemente, traduz e até vai além do muito que se grita, em carta-aberta ao PM de Portugal.
clap, clap, clap! assim não me doem as mãos!
Eugénio Lisboa, no gigantismo dos seus 82 anos, suavemente, traduz e até vai além do muito que se grita, em carta-aberta ao PM de Portugal.
clap, clap, clap! assim não me doem as mãos!
domingo, 9 de setembro de 2012
sábado, 8 de setembro de 2012
"Ah, se eu bebesse..."
se eu bebesse
hoje
flutuaria
entre copos destramente desprovidos
alguns de trago, e outros devagarinho.
eu, se hoje eu bebesse
bebia-me era a mim.
e, ao urinar
(chique: pilau de fora; mictar)
o jacto que purgava livrava-me de mim.
-/-
não beber é o meu fundo de maneio.
mas um dia faço-me homenzinho e acordo insolvente.
sábado, 1 de setembro de 2012
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
Eu
medos. enformam-me medos
e tanto que finjo quando os olho e lhes digo: ó sonhos! ó maravilhas!…
medo? medo até de fugir.
como num filme ou num romance se foge
num azul, numa nuvem, em duas linhas
acreditando que tudo cabe num peito
(os medos cabem na mão).
e minto. e sonho. e busco a coragem que me culpa
num peito-feito de mentiras.
sorrisos escritos. falas doces. horizontes de luxo.
em rodapé: nuvens ínvias.
e sem medo.
são os meus sonhos, braçadas no meu mar.
aleluias nos meus dias.
a mágica antes da noite.
eu nunca sonho. isto é:
eu nunca sonho quando adormeço.
dizem que não nos lembramos dos sonhos que temos quando
adormecidos
mas que sonhamos sempre. sempre.
o sono e o sonho dão as mãos, dizem,
são bons amigos e nunca se esquecem um do outro.
são bons amigos e nunca se esquecem um do outro.
eu? eu nunca sonho.
eu lembrar-me-ia se os tivesse.
tenho tantos acordado!
e, acaso os tivesse, adormecido, porque é que não me lembraria?
porquê gritaria? porquê me revoltaria?
(eu disse: os meus sonhos são o medo.
um disfarce, uma roupa que visto,
agasalho, pintura,
um duplo que não existe)
: durante a noite, vão de vida,
- que dizem onírica, riquíssima, mas dela não me lembro de nada,
eu tremo.
choro.
até grito.
o meu corpo tem convulsões. grita.
acho que também chora
mas quando a manhã me acorda
bem procuro nos lençóis (mas nunca encontro)
marcas dos sonhos ou das lágrimas, um qualquer sémen de dor:
os gritos nocturnos não ecoam quando o dia nasce.
sonhos? bah…
sonhos? bah…
eu não sonho: grito.
não sorrio: tremo, tremelico.
e durmo. dormito no medo de acordar.
depois? volta tudo. tudo.
o medo abriga-se, mau diurno, e reinicio-me no fantasiar.
a sonhar.
vidas.
sorrisos.
nuvens sem medos e gritos
e tão, tão bonito, cuidado, credível
como não acreditar?
como não acreditar?
«amanhã! amanhã é que é!...»
e acaba-se o chorar.
o tremer.
o longo dormitar.
os dias assim são longos.
e acaba-se o chorar.
o tremer.
o longo dormitar.
os dias assim são longos.
maiores que as noites (delas nada recordo).
gritos, choros, tremores,
sei-os em segunda mão. eu?
eu durmo.
eu durmo.
e da noite nada sei ou quero saber
(eu durmo, eu durmo,
e tenho um truque para quando acordar.)
e, se me apetece chorar
se desperto
se acordo
se
lavo a cara e minto,
e
e
e
eu disse: enformam-me medos.
medos.
por isso aldrabo sonhos, minto, faço versos
e esmero-me a fantasiar.
sábado, 25 de agosto de 2012
"O cano de uma pistola pelo cu"
"Se percebemos bem - e não é fácil, porque somos um bocado tontos -, a
economia financeira é a economia real do senhor feudal sobre o servo, do
amo sobre o escravo, da metrópole sobre a colónia, do capitalista
manchesteriano sobre o trabalhador explorado. A economia financeira é o
inimigo da classe da economia real, com a qual brinca como um porco
ocidental com corpo de criança num bordel asiático.
Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer.
Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer.
Se o preço baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que estejas - e não há nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.
Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta compra geralmente é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspetiva do terrorista financeiro, não é mais do que um jogo de tabuleiro no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.
A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o caráter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país - este, por acaso -, e diz "compro" ou "vendo" com a impunidade com que se joga Monopólio e se compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.
Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno dos milhares ou milhões de pessoas que antes de irem trabalhar deixaram na creche pública - onde estas ainda existem - os filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas sobreprotegidos, desde logo, por essa coisa a que chamamos Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres estão a ser desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres.
E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, são-no num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro.
Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem creche ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos simples mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.
A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com ruturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas ações terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.
A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A atividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.
Aqui se modifica o preço das nossas vidas todos os dias sem que ninguém resolva o problema, ou mais, enviando as autoridades para cima de quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as autoridades empenham-se a fundo para proteger esse filho da puta que te vendeu, recorrendo a um esquema legalmente permitido, um produto financeiro, ou seja, um objeto irreal no qual tu investiste, na melhor das hipóteses, toda a poupança real da tua vida. Vendeu fumaça, o grande porco, apoiado pelas leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.
Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e faturar a 30, 60 ou 90 dias.
Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passo a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do sequestrado.
Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos."
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
um bom Agosto
lidos:
Longe do abrigo, David Lodge
Retorno, Dulce Maria Cardoso
Felicidade, Will Ferguson
Estrada fora, Francisco Sande e Castro
As intermitências da morte, José Saramago
Três contos da Internet, Luís Bárbara
A confissão da leoa, Mia Couto
A ameaça, Ken Follett
A profecia de neandertal, John Darnton
O teu rosto será o último, João Ricardo Pedro
A instrumentalina, Lídia Jorge
adenda do dia seguinte: ...e Julho, porra. nem eu acredito que este mês já li 11 livros, embora haja ali uns pequenitos. (mas) inicio hoje "O prisioneiro do céu", Carlos Ruiz Zafón - a livraria de Sempere & Hijos é um filão! - que, 'agarre-me', não resiste a este fim-de-semana.
terça-feira, 21 de agosto de 2012
paráfrase (sem citação): a banalidade do talento
crescer, é admirar uma obra e ter um choque ao conhecer o autor. a petulância. obscena. horrorosa. banal. e cresce-se, constatando-o, e seguidamente aceitando-o como uma surpresa natural.
dá direito a um novo olhar quando olhamos a estante, as lombadas que amamos? a desconfiança instala-se? acho que não. um paradoxo aceitavelmente conveniente será dizer, repetir como um mantra, que obra e autor não são vasos comunicantes além da concreta criação literária.
já foi minha auto-flagelação. (petulantemente, atrás escrevi cilícios de mim, pessoais. mortificação? penitência? chega.) acho que já não o é. não sou o horror de mim mesmo, e desconfio da lisura de para quem o seja (haverá?). dito. e aproveito e digo, reafirmo-o, outro mantra, que prefiro a fase hedonista de leitor criativo, silenciosa e riquíssima em honestas e desonestas paráfrases, ao quixotismo romântico dum legado literário a filhos e a netos, criado e mantido pela mentira dum umbigismo desproporcionado, parvo e falsamente envergonhado.
não há 'grandes escritores' de A a Z, autor e criação confundidos e iconizados. felizmente. lemos (e lemo-nos) e sabemos-lo. há a banalidade do talento. obras sublimes a redimirem a fealdade humana. felizmente.
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
a harmonia em azul escuro, corte clássico
descobri ontem que uso de calças o 42. como calço o 43 e não sou pézudo, concluo, encantado, que menos ainda serei um barrigudo.
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