terça-feira, 17 de julho de 2012

novos, cá em casa

o prazer de lê-los. mas também o prazer de tê-los.



alguns vindos de leilões. outros não. mas há quanto tempo "não entrava nada"...

...e um especial "obrigado" à Biblioteca Municipal de Almeirim, cujo programa de 'troca de monos' nos últimos dias do mês muito me tem municiado...

as "voltas" da História?



...e recordando Chambao, em "Papeles mojados". tanto que este vídeo musical mexeu comigo a 1ª vez que o vi, enviado por mail:








segunda-feira, 16 de julho de 2012

o medo



Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.

E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.

Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.

Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.

Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.

Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.

Assim nos criam burgueses,
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?

Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas
do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.

Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.

E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.

O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.

Tenhamos o maior pavor,
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.

Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,

eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.

sábado, 14 de julho de 2012

o nosso 'rating' ancestral, e este é bem triplo A

talvez a mãe fosse rameira de bordel
talvez o pai um decadente aristocrata
talvez lhe dessem à nascença amor e fel
talvez crescesse aos tropeções na vida ingrata

talvez o tenham educado sem maneiras
entre desordens, navalhadas e paixões
talvez ouvisse vendavais e bebedeiras
e as violências que rasgavam corações

talvez ardesse variamente em várias chamas
talvez a história fosse ainda mais bizarra
no desemparo teve sempre duas amas
que se chamavam a viola e a guitarra

pois junto delas talvez já o reconheçam
talvez recusem dar-lhe o nome de enjeitado
e mesmo aqueles que o não cantam não esqueçam
nasceu assim, cresceu assim, chama-se fado


Vasco Graça Moura
, "Nasceu assim cresceu assim"


Nasceu assim, cresceu assim por microsaver

à atenção dos ambiciosos



"tratamento tradicional para quem quer ser rico ou chefe"

descoberto by Facebook

quinta-feira, 12 de julho de 2012

neo não-sei-quê. nem eles sabem!

às vezes as redes sociais (o Facebook...) parecem povoadas por zombies... fundamentalistas e populistas é mato!

velhotes como nós :-)

"50 anos de estrada.... It's only Rock'n Roll but I like it, I like it, yes I do!"

quarta-feira, 11 de julho de 2012

namorar com a Florbela? seca!...

ando a ler um livro de contos de Florbela Espanca, "o dominó preto" (Bertrand Editora, 1998). não vou deter-me a comentar mais do que sei, e que de facto me atraiu. melhor dito: que me atrai, dado que ainda nem cheguei ao meio do livro. o nome é «crisântemos». uma flor fúnebre, como até eu sei

(e acabo de vir do Google Imagens, para ver ao certo "o que é um crisântemo": são muito coloridos, e no meu preconceito (pré+conceito) julgava-os flores mais.... "fúnebres", tristonhas. nada é como julgamos...)

esta observação emparenteseada acaba por me destruir o cerne do comentário pensado, e que era mauzinho: pensara eu, enquanto constatava a 'obsessão' da autora em rechear uma casa aburguesada - e que pela narrativa se pressupõe como 'feliz', 'alegre' - com crisântemos em todos os cantos, que naquela cabecinha pensadora havia coisas que não batiam lá muito bem. esticando-me, pensei: namorar a boa da Florbela deveria ser uma seca, e vá lá que se safassem uns poeminhas personalizados e os frou-frous de l'habitude desse estado de coisas. por causa dos crisântemos, de pespegá-los como ornamentais em todas (todas!) as divisões da casa descrita no tal conto. achei-o... fúnebre, como ideia, como ornamento, como 'mania'.

e vai daí pus-me a extrapolar. a somar palpites com base em preconceitos pessoais sobre a ornamentália fúnebre da autora. sem cuidar de ver para crer, de esmiuçar melhor para saber. e, afinal, o crisântemo é uma flor garrida, farta de cores, certamente que há outras menos bonitas ou pelo menos menos vistosas. uma lição, portanto. mas mesmo assim, mesmo a assobiar para o lado, apanhado que fui na minha própria armadilha de mal-dizer, digo-vos que, estivesse eu a beijá-la ou apenas a mirar-lhe os joelhos e o decote, e cá no íntimo estaria sempre de pé-atrás, receoso do toque dos lábios se tornar subitamente gélido, da cor rosada da chicha embranquecer a pontos de alvuras nada saudáveis. porra, porque não te ficaste pelas rosas ou assim, ó raio de poetisa maluca? humpf...

terça-feira, 10 de julho de 2012

«Mas é assim ser poeta: ser mendigo e ser rei»

do prefácio:

"(...) Diria, para concluir, que é no «pequeno mundo» (de que já Goethe falava no seu Fausto) que a obra de Florbela melhor se realiza. É na intimidade de si mesma, ou na intimidade dos simples, que a sua alma se põe a descoberto, e não no mundo burguês que igualmente pretendeu descrever.
De O Dominó Preto se pode dizer o que se diz no Dicionário de Literatura (direcção de Jacinto do Prado Coelho): é mais válido «pelo estilo e pela chama do que pela construção». Revela o gesto de uma vida requintada e de um erótico socializado (em vez de contestado), mais do que o da análise profunda dos sentimentos e das paixões de que parece ocupar-se.
Mas é assim ser poeta: ser mendigo e ser rei. Arriscar, viver da contingência."

Yvette K. Centeno

domingo, 8 de julho de 2012

petróleo na Grécia? oh...

chamaram-me a atenção para este artigo. petróleo grego: já ouviram falar? eu confesso que não.
ouvi e li que eram ora uns trafulhas, ora uns desgraçados, uns índios ou uns tolos. agora que eram ricos pelo petróleo que-há-de-vir, isso não sabia. e a dimensão dos poços, pelo exemplo mostrado*!...

*nos comentários, o articulista refere que só 10% da existência nos poços é extraível usando as técnicas actuais. mesmo assim!

o bosão de Higgs

é com ele que a matéria ganha massa, e a massa volume. abençoado!

quinta-feira, 5 de julho de 2012

confirma-se: "Não ao AO"

já li um livro traduzido segundo as regras deste Acordo Ortográfico. é desagradável. está-se sempre com a sensação de existirem 'erros', mesmo com a preparação prévia que a farta polémica à volta dele tem dado, e as (desagradáveis) leituras dos jornais que já o praticam. chega a ser penoso. se, "espetadores", extrai-se pelo contexto do narrado que não são pessoas que espetam coisas mas sim assistentes de algo, não se entende qual a valia da supressão do cê antes do tê, que de mudo não tem nada pois abre a vogal anterior e fá-la gritar, em ver de murchar e espetar-me uma farpa no raciocínio. é um exemplo entre vários, e cito-o porque, este, foi a primeira vez que deparei com ele. é feio. é mal escrito. é um monstrinho académico, mal-enjorcado e sem jeito nenhum. se da discussão teórica já concluíra que não gosto nada desta maluquice, da prática confirmada em modo de maus-tratos a um dos objectos que mais estimo - o livro; a leitura, a escrita - re-confirmo o desagrado: "Não ao AO", decididamente!

quarta-feira, 4 de julho de 2012

"dêérres"

otário não é o Relvas. esse é parvo. otário é quem acredita que sem um diploma universitário não se granjeia respeito e reconhecimento por capacidades e actos próprios. quem, pensando assim, 'exige' que os Relvas existam como são: relvas baixinhas mas muito doutorzinhas.

tenho um curso superior que quando me foi ministrado era-o exclusivamente pela respectiva ordem profissional. depois vieram as bolonhices e ele, que era de dois anos teóricos, sendo o último também prático, foi esticado para três para caber no panelão dos dêérres abolonhados. já me disseram que beneficiei com isso, e se hoje usar o 'dr' não é só legal como justo. por acaso informei-me e é legal: academicamente sou de jure um 'licenciado'. mas já o acho injusto. abusivo. até porque não gosto de licenciaturas by Bolonha - e veja-se o que se passa com os mestrados: qual a licenciatura que per si se mantém credível, se não levar o upgrade dum mestrado? (e mesmo assim...). depois, recordo-me que à altura do tal curso frequentei durante um ano uma faculdade clássica, em simultâneo. num curso muito semelhante. a vida obrigou-me a fazer opções e fiquei-me pelo tal 1º ano, quanto a 'estudos clássicos'. obtidos da forma clássica. porém também já me disseram - e eu confirmei-o - que se juntar a tal 'licenciatura às-três-pancadas' com as cadeiras que efectivamente fiz na faculdade, e a experiência profissional, bastará inscrever-me, pedir equivalências, e no máximo exigir-me-ão dois exames para aceder à licenciatura, esta a tal 'clássica' que na altura ambicionei e de que depois abdiquei. feito o relato pessoal, vamos às caretas e aos insultos:

'valhamedeus' se com tanta aldabrice académica acumulada alguma dia usaria ou aceitasse que me chamassem 'dr.'. é que valha-me Deus mesmo! para mim, para a minha consciência, tenho um curso profissional e uma frequência universitária. traduzido em rigor académico, tenho o 12º ano e 'mais umas coisas'. o 12º ano, e tenho orgulho nele e da forma como o fiz e consegui, em horário pós-laboral. não o tenho menos 'no resto', que me saiu do pêlo, dos miolos e da carteira, mas se me perguntam por habilitações académicas respondo «12º ano» e nem mais uma palavra. acho que é o correcto. quando exercia nunca aceitei que me tratassem por 'dr.', excepto (alguns; poucos) na brincadeira. é como o olhava e olho: na brincadeira. dr., mas de brincadeira. 

e termino, a propósito: o Relvas é um brincalhão. o diploma de otário é merecido não por ele mas por todos os que salivam, reverentemente, quando ouvem um nome que começa por 'dr.'. é por eles que os relvas e os sócrates aldabrilhas existem. queixemo-nos primeiro de nós antes de atirar pedras a quem usa o que aplaudimos que use

segunda-feira, 2 de julho de 2012

bulimia

Mister Ed, junto com Lassie e Bonanza são as minhas memórias mais antigas de TV. na Covilhã, antes de emigrarmos para Moçambique e na casa duma vizinha que já possuía um aparelho, o que não era vulgar à época - inícios dos anos 60's.

depois estive 13 ou 14 anos sem tv - em Moçambique não existia - até "retornar" a Portugal aquando da grande cheia subsequente à descolonização. ainda era a preto e branco: 1976. recordo A Visita da Cornélia. Gabriela, cravo e canela. os debates políticos. o Telejornal, essa versão diária das notícias 'vistas', de que só conhecia o "Assim vai o mundo", passado nos cinemas antes do 1º intervalo. e pondo-me a pensar não encontro mais nada que recorde como interessante da TV nessa época...

hoje a TV é uma overdose: ali, na sala ao lado, "estão" cento e tal canais. e se a quantidade permite garimpar até encontrar, a verdade é que cansa, aborrece, faz-nos perder tempos e tempos em consumos que, penso, daqui a vinte anos provavelmente ver-me-ei aflito para nomeá-los. talvez o House. ou a curiosidade e o agrado com o conceito de quando a CNN apareceu. estou aqui a dar voltas à cabeça e não consigo citar mais nenhuns programas, sejam de que tipo forem, que me possam sobreviver a décadas na memória como valiosos, tipo «esse, felizmente».

é uma boa bulimia. pena é que para nos alimentarmos do essencial se tenha de comer industrialmente, forçando-nos a alijar quase tudo o que entra, por impróprio para conservação. e que fica? Mister Ed, a magia do cavalo que falava. Gabriela, o doce do primeiro snife com a droga diária. House, os fantasmas e as fantasias via retratos alheios. o resto? o tempo bolsa-o: pode comer-se por hábito próprio ou por hábitos tribais, mas não são proteínas: 'fast food'. algumas, quase lixo. lúdico, informativo. 'en passant' por nós: tocam mas não ficam.

abençoada bulimia, a do tempo. que mantém as estantes do museu da TV parcas e arejadas, para que se distinga bem o que valeu a pena conservar



domingo, 1 de julho de 2012

"North Atlantic"

uma 'curta' de Bernardo Nascimento com muita qualidade. muita, mesmo. recomendo


ps: pode-se votar...

sábado, 30 de junho de 2012

cinema erótico: "Eva"

uma 'curta' de Gaspar Noé, cineasta franco-argentino


 

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O MEU PAÍS

estranho,
não lembrar o tempo que fazia, na tua
precipitada viagem,
em caminhos diversos dos meus.

como se apagam memórias inúteis,
onde se tatuou fundo a dor,
de não saber mais de ti?

ainda hoje, a cada passo,
em cada homem,
neste mar que me varre
os olhos,
navega a esperança de seres
de novo, o meu
país.

rosa maria ribeiro

este mundo não existe

ao Eusébio tiraram-lhe a televisão para não lhe dar uma coisinha ruim. tirem-me os jornais, que eu já não aguento com as notícias sobre a idiotice elevada a facto relevante, o individualismo além do racional, a bebedeira colectiva não por sede nem por angústia mas por patológica necessidade de porcaria!

quarta-feira, 20 de junho de 2012

"A Hora da Partida"

A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.

Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 16 de junho de 2012

um adeus nunca é um adeus


"Adeus"

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis. 


Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar. 


Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros. 


Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas. 


Adeus.

Eugénio de Andrade


sábado, 2 de junho de 2012

My way

"André Rieu, a renowned Dutch violinist, conductor and composer, and his orchestra did a tribute to Frank Sinatra with My Way on his Stradivarius violin at Radio City Music Hall – New York"

Maputo, senhora das acácias

"He loved beauty that looked kind of destroyed"

"He loved beauty that looked kind of destroyed"

Gostava dessa espécie de beleza
que podemos surpreender a cada passo,
desvelada pelo acaso numa esquina
de arrabalde; a beleza de uma casa devoluta
que foi toda a infância de alguém,
com visitas ao domingo e tardes no quintal
depois da escola; a beleza crepuscular
de alguns rostos num retrato de família
a preto e branco, ou a de certos hotéis
que conheceram há muito os seus dias de fulgor
e foram perdendo estrelas; a beleza condenada
que nos toma de repente, como um verso
ou o desejo, como um copo que se parte
e dispersa no soalho a frágil luz de um instante.
Gostava de tudo isso que o deixava muito a sós
consigo mesmo, essa espécie de beleza
arruinada
onde a vida encontra o espelho mais fiel.

Rui Pires Cabral, "Oráculos de cabeceira", Averno, 2009

sexta-feira, 1 de junho de 2012

o Sir Charles B. Walters e as mulheres


«entender a humanidade seria matematicamente mais simples se lhe retirássemos 50% dos potenciais dínamos. mas como os geradores da dificuldade interpretativa correspondem à sua metade mais bela, porfiemos nesses trabalhos de Sísifo»

Sir Charles Brenton Walters, filósofo e sociólogo britânico prematuramente falecido (1855-1912), e animador encalorado de debates em prol do celibato sexualmente activo

People's Republic of China Car

na VW continuam a fumar umas coisas que nos põem a rir. depois da jarrinha das flores e das pegadeiras para os pés (LOL) do primeiro Carro do Povo, agora vem uma nova versão made in China que não rola, corre, desbunda raters ou voa, simplesmente levita por meio de electroímanes. a ver vamos. 

entretanto estrelamo-nos a rir com as imagens, embora ainda me coce na dúvida em porque é que o cão não ladrou a este bicharoco. imagens virtuais, cá na minha