quarta-feira, 11 de julho de 2012

namorar com a Florbela? seca!...

ando a ler um livro de contos de Florbela Espanca, "o dominó preto" (Bertrand Editora, 1998). não vou deter-me a comentar mais do que sei, e que de facto me atraiu. melhor dito: que me atrai, dado que ainda nem cheguei ao meio do livro. o nome é «crisântemos». uma flor fúnebre, como até eu sei

(e acabo de vir do Google Imagens, para ver ao certo "o que é um crisântemo": são muito coloridos, e no meu preconceito (pré+conceito) julgava-os flores mais.... "fúnebres", tristonhas. nada é como julgamos...)

esta observação emparenteseada acaba por me destruir o cerne do comentário pensado, e que era mauzinho: pensara eu, enquanto constatava a 'obsessão' da autora em rechear uma casa aburguesada - e que pela narrativa se pressupõe como 'feliz', 'alegre' - com crisântemos em todos os cantos, que naquela cabecinha pensadora havia coisas que não batiam lá muito bem. esticando-me, pensei: namorar a boa da Florbela deveria ser uma seca, e vá lá que se safassem uns poeminhas personalizados e os frou-frous de l'habitude desse estado de coisas. por causa dos crisântemos, de pespegá-los como ornamentais em todas (todas!) as divisões da casa descrita no tal conto. achei-o... fúnebre, como ideia, como ornamento, como 'mania'.

e vai daí pus-me a extrapolar. a somar palpites com base em preconceitos pessoais sobre a ornamentália fúnebre da autora. sem cuidar de ver para crer, de esmiuçar melhor para saber. e, afinal, o crisântemo é uma flor garrida, farta de cores, certamente que há outras menos bonitas ou pelo menos menos vistosas. uma lição, portanto. mas mesmo assim, mesmo a assobiar para o lado, apanhado que fui na minha própria armadilha de mal-dizer, digo-vos que, estivesse eu a beijá-la ou apenas a mirar-lhe os joelhos e o decote, e cá no íntimo estaria sempre de pé-atrás, receoso do toque dos lábios se tornar subitamente gélido, da cor rosada da chicha embranquecer a pontos de alvuras nada saudáveis. porra, porque não te ficaste pelas rosas ou assim, ó raio de poetisa maluca? humpf...

terça-feira, 10 de julho de 2012

«Mas é assim ser poeta: ser mendigo e ser rei»

do prefácio:

"(...) Diria, para concluir, que é no «pequeno mundo» (de que já Goethe falava no seu Fausto) que a obra de Florbela melhor se realiza. É na intimidade de si mesma, ou na intimidade dos simples, que a sua alma se põe a descoberto, e não no mundo burguês que igualmente pretendeu descrever.
De O Dominó Preto se pode dizer o que se diz no Dicionário de Literatura (direcção de Jacinto do Prado Coelho): é mais válido «pelo estilo e pela chama do que pela construção». Revela o gesto de uma vida requintada e de um erótico socializado (em vez de contestado), mais do que o da análise profunda dos sentimentos e das paixões de que parece ocupar-se.
Mas é assim ser poeta: ser mendigo e ser rei. Arriscar, viver da contingência."

Yvette K. Centeno

domingo, 8 de julho de 2012

petróleo na Grécia? oh...

chamaram-me a atenção para este artigo. petróleo grego: já ouviram falar? eu confesso que não.
ouvi e li que eram ora uns trafulhas, ora uns desgraçados, uns índios ou uns tolos. agora que eram ricos pelo petróleo que-há-de-vir, isso não sabia. e a dimensão dos poços, pelo exemplo mostrado*!...

*nos comentários, o articulista refere que só 10% da existência nos poços é extraível usando as técnicas actuais. mesmo assim!

o bosão de Higgs

é com ele que a matéria ganha massa, e a massa volume. abençoado!

quinta-feira, 5 de julho de 2012

confirma-se: "Não ao AO"

já li um livro traduzido segundo as regras deste Acordo Ortográfico. é desagradável. está-se sempre com a sensação de existirem 'erros', mesmo com a preparação prévia que a farta polémica à volta dele tem dado, e as (desagradáveis) leituras dos jornais que já o praticam. chega a ser penoso. se, "espetadores", extrai-se pelo contexto do narrado que não são pessoas que espetam coisas mas sim assistentes de algo, não se entende qual a valia da supressão do cê antes do tê, que de mudo não tem nada pois abre a vogal anterior e fá-la gritar, em ver de murchar e espetar-me uma farpa no raciocínio. é um exemplo entre vários, e cito-o porque, este, foi a primeira vez que deparei com ele. é feio. é mal escrito. é um monstrinho académico, mal-enjorcado e sem jeito nenhum. se da discussão teórica já concluíra que não gosto nada desta maluquice, da prática confirmada em modo de maus-tratos a um dos objectos que mais estimo - o livro; a leitura, a escrita - re-confirmo o desagrado: "Não ao AO", decididamente!

quarta-feira, 4 de julho de 2012

"dêérres"

otário não é o Relvas. esse é parvo. otário é quem acredita que sem um diploma universitário não se granjeia respeito e reconhecimento por capacidades e actos próprios. quem, pensando assim, 'exige' que os Relvas existam como são: relvas baixinhas mas muito doutorzinhas.

tenho um curso superior que quando me foi ministrado era-o exclusivamente pela respectiva ordem profissional. depois vieram as bolonhices e ele, que era de dois anos teóricos, sendo o último também prático, foi esticado para três para caber no panelão dos dêérres abolonhados. já me disseram que beneficiei com isso, e se hoje usar o 'dr' não é só legal como justo. por acaso informei-me e é legal: academicamente sou de jure um 'licenciado'. mas já o acho injusto. abusivo. até porque não gosto de licenciaturas by Bolonha - e veja-se o que se passa com os mestrados: qual a licenciatura que per si se mantém credível, se não levar o upgrade dum mestrado? (e mesmo assim...). depois, recordo-me que à altura do tal curso frequentei durante um ano uma faculdade clássica, em simultâneo. num curso muito semelhante. a vida obrigou-me a fazer opções e fiquei-me pelo tal 1º ano, quanto a 'estudos clássicos'. obtidos da forma clássica. porém também já me disseram - e eu confirmei-o - que se juntar a tal 'licenciatura às-três-pancadas' com as cadeiras que efectivamente fiz na faculdade, e a experiência profissional, bastará inscrever-me, pedir equivalências, e no máximo exigir-me-ão dois exames para aceder à licenciatura, esta a tal 'clássica' que na altura ambicionei e de que depois abdiquei. feito o relato pessoal, vamos às caretas e aos insultos:

'valhamedeus' se com tanta aldabrice académica acumulada alguma dia usaria ou aceitasse que me chamassem 'dr.'. é que valha-me Deus mesmo! para mim, para a minha consciência, tenho um curso profissional e uma frequência universitária. traduzido em rigor académico, tenho o 12º ano e 'mais umas coisas'. o 12º ano, e tenho orgulho nele e da forma como o fiz e consegui, em horário pós-laboral. não o tenho menos 'no resto', que me saiu do pêlo, dos miolos e da carteira, mas se me perguntam por habilitações académicas respondo «12º ano» e nem mais uma palavra. acho que é o correcto. quando exercia nunca aceitei que me tratassem por 'dr.', excepto (alguns; poucos) na brincadeira. é como o olhava e olho: na brincadeira. dr., mas de brincadeira. 

e termino, a propósito: o Relvas é um brincalhão. o diploma de otário é merecido não por ele mas por todos os que salivam, reverentemente, quando ouvem um nome que começa por 'dr.'. é por eles que os relvas e os sócrates aldabrilhas existem. queixemo-nos primeiro de nós antes de atirar pedras a quem usa o que aplaudimos que use

segunda-feira, 2 de julho de 2012

bulimia

Mister Ed, junto com Lassie e Bonanza são as minhas memórias mais antigas de TV. na Covilhã, antes de emigrarmos para Moçambique e na casa duma vizinha que já possuía um aparelho, o que não era vulgar à época - inícios dos anos 60's.

depois estive 13 ou 14 anos sem tv - em Moçambique não existia - até "retornar" a Portugal aquando da grande cheia subsequente à descolonização. ainda era a preto e branco: 1976. recordo A Visita da Cornélia. Gabriela, cravo e canela. os debates políticos. o Telejornal, essa versão diária das notícias 'vistas', de que só conhecia o "Assim vai o mundo", passado nos cinemas antes do 1º intervalo. e pondo-me a pensar não encontro mais nada que recorde como interessante da TV nessa época...

hoje a TV é uma overdose: ali, na sala ao lado, "estão" cento e tal canais. e se a quantidade permite garimpar até encontrar, a verdade é que cansa, aborrece, faz-nos perder tempos e tempos em consumos que, penso, daqui a vinte anos provavelmente ver-me-ei aflito para nomeá-los. talvez o House. ou a curiosidade e o agrado com o conceito de quando a CNN apareceu. estou aqui a dar voltas à cabeça e não consigo citar mais nenhuns programas, sejam de que tipo forem, que me possam sobreviver a décadas na memória como valiosos, tipo «esse, felizmente».

é uma boa bulimia. pena é que para nos alimentarmos do essencial se tenha de comer industrialmente, forçando-nos a alijar quase tudo o que entra, por impróprio para conservação. e que fica? Mister Ed, a magia do cavalo que falava. Gabriela, o doce do primeiro snife com a droga diária. House, os fantasmas e as fantasias via retratos alheios. o resto? o tempo bolsa-o: pode comer-se por hábito próprio ou por hábitos tribais, mas não são proteínas: 'fast food'. algumas, quase lixo. lúdico, informativo. 'en passant' por nós: tocam mas não ficam.

abençoada bulimia, a do tempo. que mantém as estantes do museu da TV parcas e arejadas, para que se distinga bem o que valeu a pena conservar



domingo, 1 de julho de 2012

"North Atlantic"

uma 'curta' de Bernardo Nascimento com muita qualidade. muita, mesmo. recomendo


ps: pode-se votar...

sábado, 30 de junho de 2012

cinema erótico: "Eva"

uma 'curta' de Gaspar Noé, cineasta franco-argentino


 

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O MEU PAÍS

estranho,
não lembrar o tempo que fazia, na tua
precipitada viagem,
em caminhos diversos dos meus.

como se apagam memórias inúteis,
onde se tatuou fundo a dor,
de não saber mais de ti?

ainda hoje, a cada passo,
em cada homem,
neste mar que me varre
os olhos,
navega a esperança de seres
de novo, o meu
país.

rosa maria ribeiro

este mundo não existe

ao Eusébio tiraram-lhe a televisão para não lhe dar uma coisinha ruim. tirem-me os jornais, que eu já não aguento com as notícias sobre a idiotice elevada a facto relevante, o individualismo além do racional, a bebedeira colectiva não por sede nem por angústia mas por patológica necessidade de porcaria!

quarta-feira, 20 de junho de 2012

"A Hora da Partida"

A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.

Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 16 de junho de 2012

um adeus nunca é um adeus


"Adeus"

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis. 


Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar. 


Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros. 


Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas. 


Adeus.

Eugénio de Andrade


sábado, 2 de junho de 2012

My way

"André Rieu, a renowned Dutch violinist, conductor and composer, and his orchestra did a tribute to Frank Sinatra with My Way on his Stradivarius violin at Radio City Music Hall – New York"

Maputo, senhora das acácias

"He loved beauty that looked kind of destroyed"

"He loved beauty that looked kind of destroyed"

Gostava dessa espécie de beleza
que podemos surpreender a cada passo,
desvelada pelo acaso numa esquina
de arrabalde; a beleza de uma casa devoluta
que foi toda a infância de alguém,
com visitas ao domingo e tardes no quintal
depois da escola; a beleza crepuscular
de alguns rostos num retrato de família
a preto e branco, ou a de certos hotéis
que conheceram há muito os seus dias de fulgor
e foram perdendo estrelas; a beleza condenada
que nos toma de repente, como um verso
ou o desejo, como um copo que se parte
e dispersa no soalho a frágil luz de um instante.
Gostava de tudo isso que o deixava muito a sós
consigo mesmo, essa espécie de beleza
arruinada
onde a vida encontra o espelho mais fiel.

Rui Pires Cabral, "Oráculos de cabeceira", Averno, 2009

sexta-feira, 1 de junho de 2012

o Sir Charles B. Walters e as mulheres


«entender a humanidade seria matematicamente mais simples se lhe retirássemos 50% dos potenciais dínamos. mas como os geradores da dificuldade interpretativa correspondem à sua metade mais bela, porfiemos nesses trabalhos de Sísifo»

Sir Charles Brenton Walters, filósofo e sociólogo britânico prematuramente falecido (1855-1912), e animador encalorado de debates em prol do celibato sexualmente activo

People's Republic of China Car

na VW continuam a fumar umas coisas que nos põem a rir. depois da jarrinha das flores e das pegadeiras para os pés (LOL) do primeiro Carro do Povo, agora vem uma nova versão made in China que não rola, corre, desbunda raters ou voa, simplesmente levita por meio de electroímanes. a ver vamos. 

entretanto estrelamo-nos a rir com as imagens, embora ainda me coce na dúvida em porque é que o cão não ladrou a este bicharoco. imagens virtuais, cá na minha

quinta-feira, 31 de maio de 2012

melhor que sexo

como acabo de ler que António Cabrita é um dos escritores pré-seleccionados para o Prémio PT Literatura 2012, saco para aqui esta excelência, que me veio logo à tola quando lhe li o nome na notícia.

aviso: é deliciosamente 'longuinho' para os padrões quer de blogues quer de Facebook, onde o voyeur raramente se senta, tão curtas são as paisagens nestas selvas de janelas com janelas. ainda bem. porque nele não há tédio, há alegria: tratar tão bem o amor à literatura é mais que um afago, é cópula da boa mesmo.

abanquem. espreitem. como o vizinho faz, porque é que quando ele/a entra no elevador pensamos logo em alto sexo, e a seguir afundamo-nos na depressão do espelho, ao ver-lhe a cara serena e luminosa de quem é estrondosamente feliz

domingo, 27 de maio de 2012

ainda da porcaria secreta

"Com a palavra «informação» referimo-nos a todos os conhecimentos que temos sobre o inimigo e o seu pais; por isso, no fundo, ao fundamento de todas as nossas ideias e acções. Consideremos a natureza desse fundamento, a pouca confiança que merece, as alterações que sofre, e breve sentimos como é perigoso o edifício da guerra, como pode facilmente desmoronar-se aos bocados e enterrar-nos sob as suas ruínas."

Carl Von Clausewitz, "Da Guerra"

 a Ongoing com esta tornou-se um cadáver de facto. só falta atestá-lo oficialmente.

quanto "às secretas": mete medo pensar que este tipo de gente teve (tem?) tanto poder. poder não fiscalizado. como li algures, isto noutro país, com outra escola de conceito de liberdade, já tinha pessoas com algemas postas. cá, esperam-se relatórios urgentes em 15 dias, a PGR reflecte (e reflecte), o Parlamento faz barulho mas nada dali sai, o Governo assobia para o lado, e o PR continua nas antípodas.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

galeria de arte

 o GP de Mónaco está à porta, e recupero à memória um dos maiores duelos a que se assistiu nas ruas mais famosas do mundo vrum-vrum: o protagonizado entre Ayrton Senna e Nigel Mansell há exactamente 20 anos atrás, em 1992.

recordo os precedentes destas últimas voltas históricas: Nigel dominara a corrida até ir subitamente às boxes com um furo (um furo? nunca se confirmou) e mudar os quatro pneus, deixando Ayrton no comando. faz uma recuperação fantástica - o Williams FW14B era de longe o carro mais rápido do pelotão, e Mansell chega a Mónaco já com 5 vitórias no bornal e o comando isoladíssimo do Mundial - e assiste-se a um dos duelos que tornaram este GP imortal. Senna, com um carro claramente inferior, consegue manter a liderança até final, tapando-o em todos os locais onde uma manobra louca de Mansell poderia dar frutos. e vão assim até final...

com o fantástico equilíbrio entre os teams deste ano, talvez tenhamos oportunidade de este fds juntar à galeria de arte novas imagens

terça-feira, 22 de maio de 2012

"paredes": autofagia produtiva


estou aqui sentado entre parapeitos, numa janela a fácil complexidade do Mahjong, onde saltar de nível não requer argúcia ou golpes de sorte especiais, mas somente atenção e paciência de chinês. joga-se, sabendo que se ganha sempre no fim. 

os telhados geometricamente simples, as cores em equilíbrio contrastante, é mais que uma parede nova quando se nos pendura no silêncio contemplativo um Maluda, e pensamos que além da urgência de voltar a olhar o quotidiano muito depende do olhar: se Goya olhasse o Tejo ele nunca mais nos seria igual (esta metáfora é muito ampla, aviso).

noutra janela está pousado o jornal, dobrado, à espera do medo. fustigo-o com o colectivo. e procuro a "charge" nos casarios distantes que ligue o interruptor quando saltar para o parapeito seguinte. posso chamar-lhe informação, aprovisionamento, cultura ou lúdico, mas por aquele rectângulo horizontal (os jornais não são assim!) não entra nenhuma parede nova e choca-nos a urgência em pintar as nossas: o sarro dos dias, o poeta dixit, é tão espesso como um quadro de Goya.

então retorno a Maluda, revisito casarios sob o seu olhar luminoso e que desmonto com a destreza do treino desse jogo. par a par, semelhança a semelhança, botão a botão, os dedos vão deslizando pelas ideias, as rugosidades dos parapeitos onde nos apoiamos, esta familiaridade vácua do nosso corpo cerebral. mais cor. mais existência. abundância de janelas, um desvario de identidades. neste jogo a corrida e o medo vão lado a lado, pedras que se destapam e revelam novas, mais, a paridade mantêm-se escondida com o rabo de fora mas são tão intermináveis como esta Cronologia que construímos, tic-tac de solidões não medicadas, murais pincelados a granel por um explosivo Gulley Jimson fugitivo das páginas de Joyce Cary, e tão raramente telas que enlouqueçam uma criteriosa sala de leilões, como tu e eu nos julgamos. Game Over tanta vez, esgota-se o olhar e o casario é só o casario e as paredes lá continuam à espera de Prometeu que um dia as pinte.

se se clicar na imagem vê-se em melhor pormenor: saltei uma janela, um parapeito. o Diário nunca está completo, há regiões tão autónomas que, nelas, os botões apertam-se em vez de se desapertarem aos pares. eu chamo-lhe o Passado. passado é tudo que se modificou. pode estar presente, sentar-se como habitualmente nos parapeitos quando fazemos nascer o dia, mas resvalou para o lado das ausências presentes e senta-se mais no que vemos com a curiosidade duma visita museológica pela anatomia geral da nossa própria existência, que na atenção que nos merece uma reparação doméstica, um dilema por resolver, uma janela que soube compreender que o vento e a chuva são tanto tormentos como a é a aflição que nos explode no íntimo perante a tremenda beleza, agressivamente triste, ameaçadora de qualquer horizonte primaverilmente são, do mestre espanhol. há um vácuo latente, e os vácuos em parapeitos aumentam perigosamente as distâncias entre zonas de conforto e a cronologia necrófaga que é reler e reler e reler passados. então Maluda.


recordo-me duma entrevista de Luís Fernando Veríssimo, ao Carlos Magno da TSF, onde desvalorizava este escrever acerca do nada. dizia que era chão que já não dava uvas. na altura, em trânsito motorizado, quase parei o carro envergonhado: eu, réu, me confesso! mas, abrindo as portadas (as pedras de Mahjong sobrepostas com o rabo de fora; os tais botões do que nos tapa o peito) e olhando minuciosamente um horizonte que nunca se esgota enquanto houver resmas de folhas A4 brilhantes (Vila-Matas; foi ele que se saiu com esta), pergunto-me se o brasileiro com quem mais gostava de passar uma tarde na cavaqueira não foi ligeiro na sua apreciação depreciativa. se, sentando-nos nos parapeitos não se ilude a vertigem da monotonia, não se esconjura o sarro dos dias no fundo dos copos que vislumbrou e apoquentou o poeta, se não nos refazemos em janelas sobrepostas sobre o vilipêndio da vacuidade do nada. 

não vou pintar paredes mas vou arranjar a porta do armário da cozinha. gostei muito deste bocadinho, levo um sorriso que no início não existia: sou um sacana e pêras, e puta que pariu o cérebro deprimente do Goya: abro as janelas e salto parapeitos com o medo residente de que algum horizonte se acabe e sobrem manchas e manchas nas paredes, mas

haja dedos e folhas brilhantes e nunca (nunca!) terminará este gosto egocêntrico de repintar o espelho de feira, ora gordo ora magro, ora o casario de sempre mas com um pássaro ou um avião voando, meus papagaios de todos os diários.

domingo, 20 de maio de 2012

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Porsche 909 Bergspyder

...voltando aos carros: o Porsche 909 'Bergspyder' (clicando nas fotos do site linkado, elas aumentam).

um peso-pluma que voava serra acima - foi construído para participar em rampas - e espalharia pós tóxicos em todas as curvas se os discos dos travões não tivessem sido cromados previamente: eram feitos em berílio, para diminuir o peso. assim como para diminuí-lo, o depósito de combustível só comportava 17 litros: o suficiente para a subida a esgalhar e para o balanço para a descida, finda a prova. a obsessão de Ferdinand Piech (neto de Ferdinand Porsche, pai deste projecto e doutros, como o enorme e arrasador 917) com o peso era tal que... leiam esta pérola:

"Illustrative of his obsessive approach was the method by which Piech made sure that the mechanics had not used a single steel screw or nut; he went over the entire car with a magnet."

e assim se ficou nuns incríveis 385 kgs. 

ah! ainda houve outro 'Bergspyder', o 910-8. mas este, o 909, tem uma história mais gira embora seja tão feio como uma orca que passou pela máquina de espremer bacalhaus.

o superavit de bácoros

que o ministro Relvas tem pinta de abusador de poder, está-lhe na cara. um Rasputine saloio, uma sombra que cai sempre que ele aparece. tem-se visto em bastas posições tomadas, sejam à vista ou entre cortinas mas com o pezinho de fora. e não é de agora: conheço quem foi colega dele de escola e que o resumiu em palavras simples: «não presta!»

agora arranjou uma caldeirada interna no Público. eu dou de barato a oportunidade ou não da notícia que não saiu. não a li, não sei. o que leio, nas duas versões internas em semi-confronto (Direcção e Conselho da Redacção), é que o sr. ministro ameaçou com represálias movidas pela sua superior influência, e tentou chantagear uma jornalista com factos de vida privada (vida privada).

a notícia tinha a ver com a sua audição na Assembleia da República acerca do seu concubinato informativo e mais além com o espião-mor da Ongoing, Jorge Silva Carvalho. aqui paro. para recordar que o nosso anafado "our man in" é acusado, entre mais maldades, de devassa de vidas íntimas, e dar esses dados a decisores negociais privados para, assim, colherem posições favoráveis em negócios. pela intimidação psicológica implícita ao revelar o seu conhecimento ao opositor. sujo. porco. suíno. de bácoro na engorda, como o seu visual aparenta. e tendo o ministro Relvas desmentido à Comissão de Inquérito que o concubinato tivesse passado (consigo) a estádios tão escabrosos, não evito fazer a soma mais simples de todas e perguntar-me como é que sabe da pretensa roupa suja que afirma saber.

há uma semana e picos escrevi aqui que isto dos espiões com part-times abusadores ainda ia acabar mal. que cheirava tão mal que só podia terminar com todos na latrina, mais coisa menos coisa. hoje solicito que no balde de despejos se junte um ministro. o Relvas está bem é com os bácoros.

Crohn é uma doença de ricos!

parece que o arribar, hoje, não é falso como o foi ontem, em que levantei-me cheio de ilusões de melhoras mas não demorei a perceber que o engano era grande e a realidade continuava a chamar-se Crohn, e sequelas. tanto que finalmente hoje vou sair à rua. parece não ser nada de especial mas para quem ainda só caminha vergado (para amainar as dores estomacais), é obra. tenho consulta no Centro de Saúde, esta tarde.

será um acto pró-forma e administrativo, quanto a mim, que me muno de receitas específicas para este bichinho nas consultas de especialidade, no Hospital Distrital. o Médico de Família, por mais atencioso que seja (é) não mete palpites num assunto que sabe ser acompanhado por colegas especialistas, e registará no meu dossier outra ocorrência. a visita ocorrerá principalmente para obter um atestado de baixa por assistência a familiar para a Paula, que tirou estes dias para cuidar de mim com prejuízo das suas férias futuras.

cuidar de mim. na fase mais crítica, a noite de 3ª para 4ª feira, dez vezes quis ela telefonar para o 112 e dez vezes a impedi. e esta noite isso ainda aconteceu. as razões porque o fiz foram de natureza medrosa (tenho pavor à introdução da sonda naso-gástrica) e de natureza economicista: ironicamente, na 2ª feira fora informado de que a minha doença, que é crónica e me ataca diversas vezes ao ano, fora excluída da lista daquelas em que os doente beneficiam da isenção de taxas nas consultas e tratamentos, assim como no transporte de ambulância quando não prestado pelo INEM. em resumo de números, qualquer visita à urgência hospitalar não fica por menos de 50 euros: consulta, análises, radiografias e tratamentos incluídos. caso passe a internamento (costuma ser) aí a conta pára de somar. mas até lá não há perdão contabilístico.

sou parvo? e medricas? assumo ambos. mas tenho esta maldita há mais de década e meia e conheço-a, sei ler-lhe os sinais. naturalmente sei quando as dores se tornam insuportáveis sem apoio, e arrisco no jogo de cálculo quanto à evolução da crise, protelando a intervenção médica. já umas vinte crises e subsequentes internamentos deram-me experiência suficiente para "ver" quando há risco duma ruptura interna poder eclodir. e as dores, essas aguentam-se até àquele ponto em que 'a solo' não se aguentam mais. mas sou duro, desculpem-me a vaidade. só a sonda me aterroriza (tenho os canais nasais estreitos, diz o médico) mas mesmo assim 'éne' vezes fui eu que pedi que chamassem a ambulância, mesmo sabendo o que me espera mal chegue à urgência: entubado.

depois a vida é o que é, e hoje ela é tanto o que é que só em pensar nisso predispõe os sãos à depressão, e a sua lembrança agudiza qualquer doença. se eu puder poupar 50 euros a troco só de dores, e sem elevado risco para a minha vida, então torno-me um somítico irracional e não hesito, cerro dentes e largo os ais suficientes para psicologicamente aplacá-las. a minha doença foi catalogada como doença de ricos (meu exagero descritivo, sei) e nem vocês, nem os médicos, nem hipoteticamente o senhor contabilista que é ministro da Saúde caso ele me pensasse além de contribuinte, calculam o tamanho do meu sorriso quando me sonho nesse estado de graça social. isto está duro, e no meu raciocínio escanzelado só se gastam 50 euros quando não existe alternativa a fazê-lo.

Europa, Portugal, 2012. em que me descubro na doença incluído em elites que me davam um jeitaço integrá-las era na saúde!

terça-feira, 15 de maio de 2012

domingo, 13 de maio de 2012

Matchbox poético

no tempo em que fazia os meus mais lindos poemas rimava com facilidade tudo que terminasse em 'ão': era o meu coração a gritar por ser ouvido que se tratava, e até lágrimas eram bonitas e ficavam tão bem escarrapachadas na minha apaixonada poesia...

hoje, se faço um poema ainda o lavo e engelho nas paixões, e delas sai sempre um registo. um recado, um código, mais um suspiro de esperança: é quando o peito amolece que melhor se rima. por vezes julgo que o dissimulei e só eu e a musa o entenderemos... mas logo risco tudo, irritado: de que vale sofrer por amor se ninguém se compadece? acaso o amor se deve esconder, e não será pelo contrário caso para gritá-lo, a felicidade por senti-lo? um poeta vive da dor.

mas como envelheci e envaideci, perdi não só os amores cândidos (os mais belos!) como tenho cuidados na rima que estragam o poema - e naturalmente a mensagem que seria o abre-corações mágico que me ascenderia a ternuras renovadas e quiçá rejuvenescedoras: abandonei a liberdade da rima livre à minha paixão e, por exemplo, tenho especiais cuidados para nunca rimá-la com algo tão omnipotentemente belo como um camião.

"meu coração mais querido,
meu amor tão perfeito:
dou-te o meu camião,
dele faremos o nosso leito.

e nele te murmurarei poemas, loas mágicas ao amor.
mas jura-me solenemente que brincarás sem estragar,
paixões que tenho e vivo, e nele transporto"

(qualquer coisa assim derretia qualquer uma! acho... ;-)


são palavras que no meu íntimo rimam, e cá no fundo continuo a acreditar que se rasgasse a folha ao caderno e com ela embrulhasse em prendinha um dos meus mais queridos brinquedos, e assim me ofertasse de gordinho e mãos abertas, teria sucesso! eu tornar-me-ia irrecusável: quando se cansasse de brincar com o carrinho ela releria o poema, e vice-versa, e já estávamos em matéria de ♥ gordinho♥! e tanto (tanto! oh tão belo o meu camião!) vergaria qualquer coração ainda renitente, estupidamente indeciso!... quem não adoraria brincar assim? quem?

mas aos meus olhos d'hoje são conceitos em palavra que colidem tão frontalmente, que receio tal atropelamento lacerar a poesia de tal forma que ela se torne impublicável. camião, coração. sem INEM que lhe valha! ou cardiologista ou camionista, a vida moderna não está para açambarcamentos de paixões!

a métrica adulta rejeita verdades em que acredito mas escondo quando não falo em poesia: que um coração doente cabe bem em qualquer rima, em como são tão gigantes mãos que ainda sentem sentimentos de saudade que se recusam a amadurecer, e, nelas, cabe e caberá até à última folha de todas as folhas a rima fonética mais singularmente perfeita da paixão: tudo - tudo! - rima livremente com o amor. porque não o meu lindo camião? e que to dou? :-)

huummm... adoro esta minha miopia. não só me esconde as cãs brancas como me surpreende tanto, tanto... ainda agora meti a mão no bolso, e que encontrei? uns calções, um poema a embrulhar-me em brinquedo, e tão tonto ando que já quase me esquecia... ♥

teste de QI?

até esta leitura eu julgava-me um gajo bastante inteligente e fiz tudo por melhorar os meus conhecimentos: diversifiquei leituras o mais que consegui, e até aprendi a fazer omeletas. e tentei o sudoku mas sem sucesso, mas sou acima de razoável a resolver problemas de palavras cruzadas. 

julgava que ia bem encaminhado! agora vejo - pelo exemplo que me dá o relato de vida deste cromo - que descurei parte importante, e sinto-me incapaz psicologicamente de 'ascender' a outro estádio evolutivo que implica o uso dum extra. é que:

1º não contabilizei os orgasmos que tive até hoje
2º não me imagino com uma lâmpada enfiada no cu!

estou condenado à obscuridade...

o Aurora, do padre Juliano

esta coisa chama-se Aurora, e era para ser um carro. era. se o é, então é o carro mais feio alguma vez construído

é de 1957 e foi desenhado e construído por um padre. que arda nos infernos!