quinta-feira, 3 de maio de 2012

"Entardece, meu amor"

Entardece, meu amor

a pele macia começa a enrugar
mas não deixes de a tactear
não deixes de a abraçar
não deixes que o teu corpo
renuncie ao perfume do meu

Entardece, meu amor
mas continuo a ver o mar profundo
no teu olhar

e o sol poente, meu amor
não deixa nunca de encantar

Entardece, meu amor
mas é ao entardecer
que mais carecemos de amar.

(...)
inacabado

Fátima Guimarães

2-05-2012
 
(foto de artabus.com)

quarta-feira, 2 de maio de 2012

um azar nunca vem só!

ainda por cima disto, naquela confusão o coitado perdeu o DVD* que o guiara que nem bússola atómica ao supermercado... :-(


* "O último tango em... LOL"

Ilha de Moçambique - na alma dos poetas


(de Paulo Pires-Teixeira)

a FNAC já o tem.

o doce feriado do Pingo Doce

a histeria. e com certeza algum desarranjo mental momentâneo provocado pelo pânico da crise: quantos e quantos gastaram 50, 60, 70 - na mira do desconto - quando se fora deste síndroma de multidão, de "rebanho", para gastarem 20 ou 30 já contariam bem contado? ah! e os cartões de crédito. os que sobreviveram. daqui a 30 dias vai ser uma chiadeira danada.

brigar pelo último frasco de champô? 10 kgs de sardinhas? uma loira agarrada a um expositor de chocolates «é meu, é meu, é meu!»? deus m'a livre...

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entretanto há quem ache virtudes muito óbvias no acto caridoso. eu duvido. é que duvido mesmo! e numa troca de comentários no Facebook respondi assim:
a Jerónimo Martins capitalizou-se nesta operação sem ter de ir à Bolsa ou à banca. transferiu as suas existências em armazém para as despensas dos seus clientes - que para isso pagaram mais do que normalmente pagam: hoje gastaram em produtos que em vias normais de consumo só gastariam daqui a meses, pois só então os consumiriam. repito, Vítor: a Jerónimo Martins hoje "limpou" os bolsos aos seus clientes mais aflitos - os tais que bem identificaste. fez uma rotação mágica de stocks - mágica porque gigantesca e a custo 0 para ela, empresa: o que ganhou no excesso de vendas é superior ao valor do tal desconto que suportou. mais o que não pagou nem pagará pelo encaixe de dinheiro vivo.

quanto aos clientes. li várias reportagens com trechos de entrevistas feitas no momento. quem ia a pensar gastar 100 (200 em compras reais) e quando pagou pagou 300 (600 em compras reais). armazém em casa. um caso falou em já ter gasto 700 (1.400 de mercadorias) e ainda iria voltar à tarde, dizia. armazém. aqui em Almeirim ouvi conversas em café. e, aqui, conheço as pessoas. não lhe conheço a carteira mas conheço-lhes genericamente as vidas. nunca foram largas e com certeza agora estão mais apertadas. e falavam no stock reforçado que fizeram. o tal armazém. obviamente a troca de transferência de reservas ou poupança para o mealheiro Pingo Doce. fora os que utilizaram o crédito: cartões. e quem tem ou teve cartões sabe o quanto custam os juros caso não se faça a amortização integral em 30 ou 45 dias - conforme o tipo de cartão e o contrato celebrado: balúrdios, taxas pornográficas. quantos e quantos encheram os carros com adicionais que em sanidade normal nunca comprariam, ou na mira de atingir os miríacos 100€ de despesa - e múltiplos sucessivos..., ou apenas no embraseamento do desconto mágico de 50%... mas mesmo aceitando que o desconto é mesmo esse (só episodicamente o é; mesmo a destruição de bens no interior das lojas foi contabilisticamente favorável à empresa e esbate o valor 'dado' no desconto) acabam por pagar "50%" dum valor X que noutras circunstâncias nunca o fariam. o consumismo descontrolado é perigoso, e foi isso que sucedeu hoje. promovido. incentivado.

isto não é bonito. nem penso ser necessário alongar-me por este (1º de Maio) ser tradicionalmente um dos poucos dias em que os hipers encerram de facto (encerravam...), dando folga não virtual aos seus empregados para poderem ter um dia de família. que é necessário. e não é com a mãe a folgar à quarta e o marido ao sábado, ou a folgarem em dias em que os putos estão em aulas, que efectivamente há "um feriado" que o seja, e que seja um dia familiar pleno. já nem vou por aí, vê...

eu chamo ao que se passou capitalismo pérfido. e repara: não sou ideologicamente comunista ou quejando, não tenho nenhuma aversão especial pelo capitalismo. mas o que se passou hoje foi feio. ah! e feio igualmente pelas manifestações da massa humana ensandecida pela cupidez, a inveja, a maldade num ou noutro caso até. mas esses maus instintos foram polarizados e estimulados pela acção que lhes foi proposta como rebuçado único e a aproveitar. há que pensar as coisas em todas as suas consequências antes de promovê-las. infelizmente até acho que sim: foi pensado. de a a z como atrás te digo, certamente saltando algumas letras em que nem quero sequer pensar

...e mal pagos

não sou fã de más notícias, bruxo ou psicopata em versão "quanto pior melhor", mas também não sou burro nem mentiroso e também acho que é mesmo assim. diagnóstico: fucked.

a malta vai-se habituando. os impostos sobem, os salários descem, mas a malta vai apertando mais a vida e com a esperança «não tarda e já está quase». não está. 2013 vai trazer-nos mais apertos, e muitos são novos, ainda não lhes provamos o fel. quando daqui a menos dum ano os avisos de liquidação do IMI nos estalarem nas mãos será uma bomba. se a recessão não abrandar a receita fiscal continuará a ficar bem aquém do previsto no OE, e já sabemos qual a receita usada e provavelmente a usar de novo: impostos extraordinários que comam os subsídios, ou em parte como no último Natal ou mesmo por todo. fora o resto. os despejos. as penhoras. os combustíveis a continuarem a trepar, e tudo ou quase tudo é transportado portante sofrerá. a saúde: a caminho de 3 milhões de isenções? sim, este ano. para o próximo inventam algo para diminuir os isentos, e uma visita ao hospital vai doer bem na carteira. o desemprego que não dará folga e ainda engordará até. a criminalidade ainda mais quotidiana, pois há relação causa/efeito óbvia. e a tanto, tanto, não nos conseguiremos habituar. 2013 vai ser terrível mesmo por comparação a este ano de apertos: será nova dose do mesmo mas acrescida, e não serão acréscimos só duns pozinhos. lamento dizê-lo mas é o que acho: estamos fucked :-(

ando com pesadelos. quem me manda a mim armar-me em Zandinga.

Fernando Lopes

 
digo o normal, e esse mínimo é mesmo "uma perda para a nossa cultura"". acrescento a minha única referência pessoal: conversámos uma vez no bar dum hotel da Póvoa, aquando dum dos "Correntes de Escritas". ele tudo, eu um nada que se infiltrou e abancou. e mesmo com este 'mesmo assim' naturalmente presente deu-me e deu trela e à vontade foi uma meia-hora de conversa. mais sobre literatura (e sobre os autores) que sobre cinema, ao que me lembra. o que me lembra mesmo? a simpatia e a simplicidade. por isso doeu mais um bocadinho que o dito normal o saber que se foi. cá? ficou. por isso o lembro. ele sabia ser um senhor

segunda-feira, 30 de abril de 2012

e porque não? raios!... isto anda de tal maneira que até apetece recuperar os velhos posters da porta do quarto!


disse o João Proença (o da UGT) numa entrevista que saiu este fds qualquer coisa como isto: «somos um povo muito pacífico, mas ninguém se esqueça que já matamos um rei...»

e, afinal?...

eu também me emocionei ao ouvir. e entendi (novamente?) as palavras da mãe, há coisa dum ano atrás, quando afirmou que estes seus dois filhos eram muito mais parecidos que se poderia pensar.

duro :-(

terrível. ontem apertou-se-me o peito quando a senti logo às primeiras linhas :-( as crónicas do Miguel eram sempre lidas em angústia, com uma mistura de sentimentos contraditórios antes de iniciá-las, e o medo era um dos mais presentes. infelizmente ontem confirmou-se. percebia-se, sentia-se tão bem que ele divagava, passeava por ementas e por quotidianos tentando esconder - disfarçar tão mal! a sua dor, o medo, e o enorme amor que os une sempre, sempre nas linhas, nunca no entrelinhado. neste era o medo. 
nós, leitores, era igualmente a medo que o procurávamos na penúltima página. e o suspiro, quando se lia afinal "só" mais uma crónica "à MEC", um recanto que descobriu para se comer em paz com a vida, um passeio que recomenda, algo dos quotidianos que lhe chamou a atenção e no-lo contava à sua maneira tão própria. mas a dor e o medo sempre presentes. e, ontem... :-(

‎"I don't know, but I been told
a big-legged woman ain't got no soul

sábado, 28 de abril de 2012

grumpy story

eu não quero armar-me aos cágados (mas se se entender que o estou, então igualmente me estou borrifando) mas a pobreza intelectual, mascarada de tendenciosas amnésias e maldosas deturpações, dá um pulo do caraças e emerge a tocar sininhos e trombones aquando da passagem das datas evocativas dos nossos factos históricos mais relevantes. e este "Abril" nem é que tenha sido especialmente ruim. talvez a paciência do observador é que esteja em momento mau para aturar a brigada dos mesmos-de-sempre, e as velhas, velhas destilações e aerofagia de sempre

para o ano, e ver se me lembro e hiberno antes. se ainda cá andar


(foto sacada avulsa na net. sei lá quem é o senhor! porém pus no Google Imagens uma certa designação e apareceu esta, cara chapada. ficou, pois)

girassóis

 
Je quitte une dictature
tropicale en folie
encore vaguement puceau
quand j'arrive à Montreal
en plein été 76.

Je regarde le ciel
en pensant qu'il y a
quelques minutes
j'étais là-haut
parmi les étoiles.
La première fois.

Dany Laferrière*, "Chronicle de la dérive douce"

este poema é como uma bala perdida. voa entre as estrelas, quase-quase inócuo, mas fere... então escolhi-lhe como imagem mais uns girassóis de Van Gogh.
*Dany é um jornalista haitiano que emigrou em 1976 para o Canadá, na sequência do clima de terror generalizado que persistia na ilha. e persiste, sob tantas outras formas também

sexta-feira, 27 de abril de 2012

quinta-feira, 26 de abril de 2012

EuroToutatis


Um jornalista, numa entrevista de rua, pergunta a um indivíduo:

- O que o sr. faria se lhe saísse o Euromilhões?
- Metade, gastava em putas e champanhe.
- E a outra metade?
- Era para gastar mal gasto!

quarta-feira, 25 de abril de 2012

"gajas boas"



notícia terrível.

agora entendo o meu auto-diagnóstico de ter Parkinson no "gordinho" :-(

memória



a colecção, que julgo completa, da emissão da RTP no 25 de Abril de 1974.

foi tremendo assistir-lhe assim, de fio a pavio. a maioria já a conhecia, mas como imagens isoladas. mas, assim, o impacto emocional é outro. forte. e quando chegaram as primeiras de rua, de onde a revolução se fazia, pensava: é ali que se devia estar. não em casa olhando a tv, não em casa acolhendo os repetidos avisos (conselhos? bah...) para que não se saísse à rua. a revolução vivia-se na rua. no Carmo, no Rossio, no Camões, em qualquer lugar mas nunca num bafiento e temeroso. chega. chegava de medos. e ao ouvir as notícias sobre a tardia rendição da DGS, da sua resistência à História, dos cinco mortos e alguns feridos recordei-me naturalmente do meu amigo Rui Morais, que foi lá ferido por balas criminosas que dispararam sobre a multidão. ele mostrou-me as duas marcas das balas nas costas, uns meses mais tarde, lá em LM.

(onde andarás, Rui? alguém me disse que para a Suíça, mas não tenho a certeza. não sei. sei que gostava de te rever, a ti e à Marília caso ainda estejas com ela. e ao Jorge, o teu irmão. recordarmos a "república" em que vivemos todos em 76, perto da Praça das Flores, ali a S.Bento. gostava de te rever, amigo, gostava sim. fomos especiais porque vivemos momentos especiais. tu cá e eu lá, antes lá quando me introduziste a coisas que eu não sabia e contigo aprendi, livros que nunca esqueci. depois cá, contra-a-corrente, a nossa anarquia dissidente. a nossa práxis orgulhosamente de lumpen, também essa revolução. tenho saudades, Rui)

uma hora e tal de História. somos fruto do que aconteceu naquela noite e naquele dia e o saldo tem muito mais de positivo do que de deita fora. 25A, Sempre! na minha geração este sentimento nunca mudará, tenha-nos a vida dados pontapés em cima de pontapés, há um poema que nos diz

"Esta é a madrugada que eu esperava 
O dia inicial inteiro e limpo 
Onde emergimos da noite e do silêncio 
E livres habitamos a substância do tempo" 

(Sophia)

e a poesia das palavras não mente: ela pode silenciar-se mas ela sente

Parkinson no coração

Devia morrer-se de outra maneira


Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos...)
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...


José Gomes Ferreira


...e quando o li e ouvi, lá*, saiu-me assim esta confissão:
"belo. mas eu não quero morrer nem em fumo. não posso! tenho uma doença que não me permite esse luxo "de morrer". tenho Parkinson no coração. ele treme, treme, e sinto-me como um tubo de ensaio para médicos (ou poetas, c'est la memme chose) ensaiarem ensaios tontos ou poemas eruditos sobre as moléstias das coronárias. não, não posso fazer-me em fumo. como! faria sinais. mesmo assim, adelgarçar-me-ia em ron-rons e infestaria as árvores, as flores, a atmosfera: Parkinson no gordinho é lixado. treme tanto que até eu tremo mal o sinto a agitar-se, a acordar. e se ele acorda!... há momentos em que o tum-tum parecem gritos, ouvem? eu ouço. se calhar só eu é que ouço, se calhar o fumo só o veriam aqueles meu colegas de enfermaria que mais invejo. sabem quem são? eu conto-vos. conto sim. invejo os do Alzheimer. os "do alemão". que não recordam amores, que não palpitam que nem uma batata frita, como diz a cantilena dos putos quando se gozam uns aos outros por causa das paixões. os fumos, é verdade. estava a esquecer-me. vêm? eu perco-me tanto... é do Parkinsom, certamente. efeitos colaterais. as tremuras não: essas são dos directos. venham mais médicos e tragam poetas: expliquem-me por favor. digam-me - mas digam-me devagarinho para eu perceber! se vou ou não morrer desta doença. é que sofro, sabem? apaixono-me e sofro. (do coração; um poema ou um cardiologista por favor). se não chegarem a consenso, deixem... cheguem-me um fósforo, snifem as cinzas e não espirrem com o fumo. sou eu e não vos quero mal. nunca! é que, repito, eu não posso morrer, a minha doença é mortal mas não posso morrer, tanto que me treme o gordinho, tanto que me aperta o peito, tanto que me doem as memórias e os hojes, tanto que suspiro amanhãs que ou nunca mais chegam ou quando vêem põem-me tão nu que chamam-se desilusões. é a doença, o Parkinson, o treme-treme. estou lixado. sabem o que queria? talvez o SNS subsidie. um pacemaker milagroso, uma bengala que me salve. um apoio vitalício, um penso rápido durável, um amor que não tremesse, meu ansiolítico querido. e eu assim apoiado, ah! curava-me. banhava-me na cura e sarava, eu maila a minha bengala. ilusões.
são fumos, são ilusões, são nevroses, desespero, sintomas graves da doença: amigas (amigos) eu tou mal, tremo, tremo, tenho Parkinson no meu coração!"
responderam-me que precisava era duma Junta Médica e não dum cardiologista. é esta a medicina que temos, que fazer? tremer, pois!


* no Facebook

terça-feira, 24 de abril de 2012

25A

"A um ausente"

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste



Carlos Drummond de Andrade

o nosso húmus do sucesso: o amanhã

da economia real, a das empresas e não a que figura para fazer figura no OE, há lições de gestão de vida a tirar, mais extensas que o campo contabilístico que as viu nascer.

por exemplo, o "direito ao erro". cá (países latinos) quem falha está arrumado, ganha um estigma e só por milagre de excepção consegue reerguer a cabeça: abrir falência é uma marca de infâmia, e um revés é vivido como uma tara. a diferença: os financeiros americanos que investem em 'star-ups' preferem associar-se a um dirigente que já lançou uma empresa e falhou a fazê-lo com um principiante, e Bill Gates admitiu francamente que preferia rodear-se de colaboradores que «fracassaram pelo menos uma vez na vida, porque eles não cometerão duas vezes o mesmo erro». Steve Jobs (o tal da tal Apple), dizia de si: «eu cometo erros, muitos erros. mas crio um ambiente onde os que eu contrato podem cometer erros e com essa auto-aprendizagem desenvolverem-se». o direito ao erro, considerado pelos anglo-saxónicos como "húmus do sucesso", adapta-se mal à nossa cultura mediterrânica.

introdução terminada. terminada? absolutamente não. só estará completa e levará posfácio de profecia realizada quando finda esta má saga onde mergulhamos, sejam, dois, três, cinco ou os anos que forem, abrirmos os jornais e olharmos o who's who das nossas empresas, sairmos à rua e olharmos os donos das lojas dos nossos bairros, elas e elas hoje a caminho de taipais mais ou menos mal-disfarçados, ou mesmo já assumidos em maus editais de penhoras e outras maldades, e reconhecermos caras. reconhecermos o "vizinho da loja" ou o "tycoon" deste ou daquele negócio. e hoje caídos em desgraça. embaraçosamente pré-falidos ou já envergonhadamente falidos. reconhecê-los um a um. reerguerem-se. vê-lo é também reerguermo-nos nós. o direito ao erro deles é igualmente o nosso, mas nós somos anónimos. mas um a um, nós, gozamos do mesmo direito deles. reconhecê-lo é um dos passos. nossos. ter fé em nós é ter fé nos outros que igualmente falharam, sem que esse percalço seja mais que isso e signifique que estamos arrumados. hélas!

segunda-feira, 23 de abril de 2012



mamitas :-)

lentamente, explicação de quem sabe a somar a explicação de quem sabe, vão-se rebatendo os ignóbeis comentários acerca duma minha pretensa obsessão, nalguns ainda mais insensíveis chamada de taradice.

sinto-me confortado... :-)
"A máquina do Mundo"

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspecção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, nocturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
“O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afectando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste… vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

Carlos Drummond de Andrade
Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Miguel Torga
Quando as minhas, as tuas pernas
não andarem e ao horário marcado
os comboios partirem finalmente a desoras
da estação de S. Pedro – e de todas as estações
até ao fim da linha – eu poderei finalmente
dizer de óculos escuros espreitando
sobre o vermelho do teu jornal meu deus
como eu te queria, como em sonhos
te sonhava rindo, depois do tão pouco
prazer que as minhas mãos fora dos livros
te haviam de saber dar. Esse meu livro
que nunca abro, esse meu livro que finjo ler
e afinal não, nunca, só tu e a paisagem marítima.

Hélder Moura Pinheiro

a ilha (ainda a ilha)

preciso de ir ao médico. nem que para um genérico

«sou eu! sou eu!»

um forte candidato ao prémio "o gajo mais estúpido do mundo" é o taliban paquistanês que vendo a sua cara pespegada num cartaz, e sem saber ler e vendo uns números bonitos (isso entendeu) por baixo da sua fronha achou que lhe queriam dar o money, e arrancando o cartaz correu para o primeiro tropa norte-americano que viu, gritando feliz da vida: «sou eu! este sou eu! dá!». forte candidato? fortíssimo!

take a break :-)


 
vejo nos súbitos cabelos brancos de Mourinho
a exactidão, terrível, deste recreio extenso de viver:
há um intervalo que amansa, há a glória e a angústia e há o prazer.
mas quando soa o molesto apito cada um de nós sabe
exacto, dolorido, que no fundo, no fundo, cada minuto arfado é afinal perder.

e vejo nos obstinados cabelos brancos de Mourinho
a calvície do céu que nos espia, quando reparamos e descobrimos
aturdidos, que as nuvens fugiram e já nada resta para prever.

eu sirvo-me dum retrato alheio para estrumar a linha (como que em quebranto)
e dizer que no céu tudo é fátuo e nada mais resta que viver, viver…

coisas do Sir Charles Brenton Walters

«ler a realidade é um exercício obstinado de fuga à nossa própria, tentar torná-la distante, e nós imunes, como às letras que apenas nos tocam porque outros as escreveram. o jornalismo de nós próprios é uma profissão terrível»
 
Sir Charles B. Walters, filósofo inglês precocemente falecido (1855-1912)