quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Zé-ninguém


eu tenho uma vida secreta

na qual converso com ninguém.



umas vezes só, noutras insulado

rodeia-me um mundo vivo:

fantasmas, manias, creio que até fobias

e não há um que não seja irmanado



os que se sentam e me ouvem

são os de sempre, crescidos:

os heróis, as princesas, e o bicho-papão.



- oh, que colóquios travamos!

- oh, o estrépito da solidão!



eu tenho uma vida secreta

na qual converso comigo, eu,

o incrível zé-ninguém.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

o medo


Khadafi foi capturado.

saltei para esta tão previsível notícia feito leão cego sedento de luz. cravei-lhe os olhos do princípio ao fim. porquê?

era previsível mais dia menos dia. as evoluções da Revolução de Jasmim já não são noticiosamente atractivas: entrou numa formatada velocidade de cruzeiro que a lava e institucionaliza há muito tempo. Khadafi já não existia, geopoliticamente falando. nem sou líbio.

sou português. português cansado de notícias más, saturado duma realidade prometida que é indesejável. injusta, injusta sim. receoso da depressão. a individual-colectiva, e que sinto roçar-se nas omnipresentes 'notícias más' que enchem as caixas altas dos jornais e os quotidianos. os d'hoje, já tão duros, mas com estremecimento imaginados num amanhã a serem olhados como aceitáveis, até. farto. com sede de notícias 'normais'.

viva o Khadafi. que se foda o Khadafi. precisava disto.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

girassóis, 2011


Afinal Van Gogh não se suicidou, foi vítima duma bala perdida

Tal como nós.
Daltónicos a um mundo de formatos e regras e logaritmos de domínio e contradomínio financeiro pintámos uma tela maravilhosa, cheia das nossas cores, únicas, brilhante de encantar. Pusémo-la em todas as casas, usámo-la em todas as lapelas, bailamos e éramos felizes. Ou a modos que isso: ninguém nos comprava a nossa arte embora as nossas praias, as nossas cidades, aldeias, as nossas galerias se enchessem de turistas encantados e invejosos com as maravilhosas cores do lusitano 'laissez faire'. Mas porfiámos, seguimos: se não nos compravam nada, vendiam-nos tudo.
Depois disseram-nos que nesta nossa Auvers de girassóis eternos nos suicidávamos. A olhar para eles. A pintá-los.
E afinal é falso, nós não nos suicidamos mas fomos vítimas de votos perdidos. Não cá, ressalvo: votos perdidos lá fora, paredes fora desta tela do nosso mundo. Traíram a arte, mataram o artista.
Hão-de morrer no cinzento, no ocre, nas cores más da vossa paleta, merceeiros do dinheiro, cães marchands de países!

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

qual é o melhor dia da semana para fazer amor?



ok, ok. eu desvendo o mistério :-)

QUALQUER GAJO QUE NA SEXTA-FEIRA LIGUE ESTA MERDA ANTES DAS DEZ DA MANHÃ É MARICAS! HUMPF

século XXI, quem diria? mas é


estes números são sempre tão assustadores que somos levados a crer-lhes algum exagero, provavelmente para nossa própria acalmia e, até, sossego de consciência social mal apaziguada.
mas cruze-se com outras notícias dispersas, tantas. de casos concretos, uns só conhecidos pelas notícias mas outros quase vistos em vizinhanças, porque suspeitados: o cheiro senão da miséria mas do «viver mal» sente-se... em ruas próximas, em portas próximas.
e o número gigantesco transforma-se num fedor global. a crescer. credível, assutadoramente credível. e o desejo de vê-lo reflectivo nos Orçamentos, esses Relatórios e Contas dos Estados, essa magna entidade que gere e trata, a quem confiamos. devia ser assim: gere e trata. mas não o vejo nem sequer suspeito quando leio os índices dos Orçamentos. não, não me enganem. não nos enganem. é que o cheiro sente-se, sente-se, já não só se suspeita!

fanei a imagem aqui.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Morgan Roadster



já não sei se pus aqui imagens do Morgan três, quatro, ou sei lá quantas vezes. e de vez em quando falo nele: é um caso de amor.

mas o belo repete-se sempre. eis uma fé, e precisamos disso

...e esta melancolia por tempos em que não se temia abrir um jornal, um rádio, uma televisão...


"É preciso estar sempre embriagado. Apenas isso, mais nada. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que vos esmaga os ombros e vos dobra para o chão, é preciso que vos embriagueis sem tréguas. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha. Mas embriagai-vos.

E se alguma vez, nos salões de um palácio, sobre a erva de uma vala ou na solidão morna do vosso quarto, acordardes de u...ma embriaguez evanescente ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio, vos responderão:

"São horas de vos embriagardes! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha."

Charles Baudelaire, in "O spleen de Paris"
na imagem, "Boulevard Montmartre - Noite", de Camille Pissaro

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

ai Autor, Autor...*


arrepia assistir à abutrice que esvoaça no Facebook em volta dos porta-moedas daqueles que, achando que não escrevem mal de todo, têm o sonho de se verem editados.

por causa dum comentário tipo arroto a posta de bacalhau, tive curiosidade em ir ver quem era a bicha da garganta funda. como sempre entrei pelo Notas, quando o há, que é a escrever e a ler que a gente se entende.

afinal nada lavra de si além de palavrinhas melodiosas para lavrar a fazenda alheia: uma "Editora", aleluia! em resumo, a proposta da tipa, e sob chancela chic-pirosa, anda à volta disto:

- imprime e mete capas em 100 ex. (até um máximo de 120 págs.) por 600-seiscentas-600 mocas
- desses 100, entrega ao Exmº Autor 50 e promete tentar vender a demasia (não refere trabalhar com uma distribuidora...), com a tradicional percentagem de 10% para o dito
- elabora uma coisa misteriosa e que presumi ser um «best of» do escrito, loura as palavrinhas com filme(s) e, assim bonitinho, "dá-a" ao Autor.

caraças! mesmo sendo o "logro" que é a Edição de Autor para a maioria das ambições de quem se quer ver editado, é-o pelo próprio ao próprio e contra isso nada a dizer, de placebos ao umbigismo cada um toma ou guarda na despensa os exemplares que entender. e não é explorado, se não tiver o azar de escolher a tipografia errada.

agora isto... mas há mesmo quem caia nesta treta? nesta PURA BANHA-DA-COBRA?



* título semi roubado a David Lodge

(a imagem da simpatiquíssima Jessica Rabbit, fanei-a aqui. thanks)

quarta-feira, 12 de outubro de 2011



2012, o Ano nacional da Mixomatose

figuras sinistras


a Banca tem levado bordoada de três-em-pipa (ah! grande Céline!) , e alguma até injustificada.

pouca desta, infelizmente. para compensar e nos vingar há muita da outra. é só escolher, para chapar com a folha impressa nas trombas cada dia mais antipáticas dos nossos 'gestores bancários' (de quê, meu Deus? gestores de desgraças? coveiros!) que nos atazanam os dias e enchem as insónias, e até nos ocupam a porcaria do telefone.

até já. vou imprimir esta crónica e já venho ;-)

ps1: como as ligações às edições online dos jornais são muito perecíveis, faço Copy integral da (excelente) crónica de Tiago Mesquita,, no semanário Expresso, "Se o Ronaldo aos 10 anos precisasse de arranjar os dentes o BES financiava?"
ps2: googlei uma imagem sob a chave 'figura sinistra', para ilustrar o texto e o espírito da coisa, e escolhi esta. veio daqui. thanks.

"Se o Ronaldo aos 10 anos precisasse de arranjar os dentes o BES financiava?", por Tiago Mesquita


"Que as instituições bancárias gozam com os portugueses a cada anúncio que passa na televisão não tenho dúvidas. Que se aproveitam descaradamente da ignorância de alguns clientes com publicidade deplorável idem. Agora o que se está a passar neste momento, especialmente numa época em que muitos, pela situação de instabilidade económica e debilidade financeira que vivemos, aos cortes constantes e psicoses orçamentais que temos sofrido, aumentos virais de impostos que se têm sucedido a uma rapidez alucinante e cíclica, se vêem obrigados a ter um relação de vergonha para com a instituição onde têm quase sempre a conta a descoberto, a quem entregam a casa e pedem desesperadamente ajuda para pagar a escola dos filhos, prestações do carro, de tudo. Já quase ninguém entra num banco de cabeça erguida. São poucos.

Estas mesmas pessoas que se arrastam pelos balcões dos bancos a tentar desesperadamente encontrar uma solução milagrosa para os seus problemas têm o Ronaldo a piscar-lhes o olho em cada esquina e o Mourinho a coçar a micose no mapa da Europa. Saem com o rabinho entre as pernas e sem solução para os seus problemas que estrangulam os sonhos, as promessas no passado e o futuro ameaçado da família. A ruina mais do que certa.

No entanto, estes mesmos clientes chegam a casa, ligam a televisão e lá está ele. O tipo que acerta sempre, o que não é indeciso em frente à baliza e só diz baboseiras. E o outro que é o melhor do mundo e mais não sei quê, o que raio é que isso interessa para quem tem três prestações em atraso e está falido e desempregado? O primeiro é um puto a quem o BES não emprestaria um cêntimo que fosse à família caso tivesse continuado a ser mais um triste aos pontapés na bola num dos bairros pobres da Madeira. Agora que ganha milhões foi promovido a conselheiro financeiro da classe média. Se José Mourinho ainda fosse tradutor nem um cêntimo para comprar um pónei (de plástico) ao mais novo lhe emprestavam mas agora bate no peito a dizer que é português com orgulho. Apela as pessoas para usarem uma fitinha. Simplesmente patético. Olha filho dá-me o teu cachet que eu bato no peito quinze dias seguidos, podes chamar-me Tarzan do "Milénio. E encho o corpo de fitinhas, tipo múmia.

Que exemplos são estes? Porque têm dinheiro? Sucesso? Temos de ser todos Mourinhos e Cristianos para que o banco nos considere e ajude. E o senhor João que tem 3 empregos e vendeu todos os móveis que possui para continuar a pagar religiosamente a prestação da arrecadação onde vive, não será este o verdadeiro herói desta treta toda? Ah este não vende? Somos uns provincianos de primeira, até nisto. Não têm vergonha, senhores banqueiros? De destruírem vidas e famílias para dar dinheiro a quem não precisa a troco de uma fabricada?

Mourinhos e quejandos não dão nada, absolutamente nada, aos clientes de um banco e só quem é burro pode acreditar numa coisa destas. Os Banco é que precisam do sucesso por osmose e não o contrário. Quantos milhões são gastos em publicidade? E quantos milhões possuem os bancos neste momento de crédito mal parado e dívidas incobráveis? Quantas casas foram entregues aos Bancos só este ano? Apareceu lá algum São Cristiano ou Mourinho para salvar esta gente, meter-lhe uma fitinha na mão e dizer "olha filho agora vai ali pedir para a baixa que eu já te atendo"? Hipócritas de m...."

terça-feira, 11 de outubro de 2011

2012




Subsídios de Natal e Férias em risco



«Hoje reparei no sorriso das vacas, que estavam satisfeitíssimas, olhando para o pasto. Fiquei surpreendidíssimo por ver que as vacas avançavam, umas atrás das outras…»

Presidente da República Portuguesa, Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

visita às Trompas de Eustáquio da memória



querem crer que quando me veio à ideia referir as trompas lembrei-me primeiro das... de falópio? LOL foi por um triz que! vá lá que me tocou um sininho e fui confirmar... ;-)

neblinas, os anos


aguardo a iluminação dos dias. até lá pasto a insónia em velhos poetas e outras razias nocturnas, enquanto hesito se visto as calças verdes ou as de ganga para ir à procura do primeiro café de muitos. se calhar vou em cuecas, coisa muito pouco poética pois pernas de velho são prosa, escrevem-se em madrugadas de arrepios e por longo e bom extenso

(a foto é de 'ceciliano', e foi obtida aqui.)

Rui de Noronha


"Pós da História"

Caíu serenamente o bravo Quêto
Os lábios a sorrir, direito o busto
Manhude que o seguiu mostrou ser preto
Morrendo como Quêto a rir sem custo.

Fez-se silêncio lúgubre, completo,
No Kraal do vátua célebre e vetusto.
E o Gungunhanha, em pé, sereno o aspecto,
Fitava os dois, o olhar heróico, augusto.

Então Impincazamo, a mãe do vátua,
Triunfando da altivez humana e fátua,
Aos pés do vencedor caiu chorando.

Oh, dor de mãe, sublime, que se humilha!
Que o crime se não esquece à luz que brilha
Ó mães, nas vossas lágrimas gritando?


Rui de Noronha

cor, cor, cor



talvez a arte de Cristian Zuzunaga seja extraordinária, ou talvez apenas a expressão dum bom artista. para mim tem um fascínio especial: a selva das cores. e?..., dizem com razão. afinal a arte do man é exactamente essa, o jogo das cores, os contrastes entre elas.
discromatopsia, o palavrão. sou um daltónico ligeiro, algumas (poucas) cores são-me invisíveis e muitas (muitas mesmo) 'misturo-as', troco-lhes os nomes. então os tons, isso... :-)))
por isso artigos como este são-me uma festa! maravilho-me a olhar as combinações cromáticas, tentando adivinhar que cores serão. é que a maioria vejo-as como diferentes entre si, apenas não sei os seus nomes. o que vejo não corresponde às ideias formatadas do que é, será cada uma (ok. a relva é verde, sei-o de pequenino e intuitivamente. e as listas das camisolas do Sporting são o quê? tão diferente? e o 'branco sujo' nos semáforos? lol entendem? entendem-me? :-)
tenho um mundo próprio no festival da cor. uso pincéis personalizados quando olho à volta, seja um quadro, a paisagem urbana, a roupa que usamos... é giro :-)



...alegria de que as meninas estão safas: uma menina daltónica é um fenómeno, mas já nos rapazes...
li que tem a ver com a 'perninha' que nós perdemos, na nada subtil diferença que vai da combinação XY para a XX... ;-)

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Anjos

todos, o narrador, qualquer um, é Steve.

e eu quero acreditar que o sueco que nunca li sabe transmitir emoções e pensamentos assim. em corridinho ou em haikus. mas que não seja mais outro que não chegue aos calcanhares, Steve, Steve, alguém numa janela em Anjos, esta Lisboa longa, longa, viu-te e viu acontecer noutros nomes, o que são nomes, o que são nomes laureados se cada um de nós laureia o que alcança ver nas janelas que abrimos, seja em maçã rilhada ou na folha esvoaçante que viaja, ala, acrónimo de Anjos até cada um de nós


quarta-feira, 28 de setembro de 2011

27 de Setembro, 28 de Setembro







"é tão difícil encontrar pessoas assim bonitas; é tão difícil encontrar pessoas assim pessoas"

terça-feira, 27 de setembro de 2011

previsão metereológica




os sóis do Toutatis irão estar especialmente luminosos nos próximos dias. como hoje não irradiou um foco especial sobre ninguém, na sexta-feira o projector terá uma voltagem total de 48.000.000 €.
mas, saia ou não saia, na terça-feira seguinte - de hoje a uma semana - dá-lhe a louca e põe o ponteiro nuns estratosféricos 100 milhões: trata-se dum dos sorteios de prémio especial. abençoadas insolações!

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

"O Amor e o Facebook"


os semanários não se lêm: vão-se lendo. então se se tratar do gordo Expresso a coisa arrasta-se por todo o fds. isto para dizer que só ontem de manhã peguei na revista Única, e além das receitas do Jamie Oliver - aquela 'pasta', huummm... - dei com a entrevista da psicóloga Cláudia Morais, que li letrinha a letrinha. como não com um título destes? "Não foi a infidelidade que cresceu com o Facebook, mas sim a oportunidade".

ok, tá lido. e matutado. e, finalmente, isto ainda para dizer que a srª publicou o livrinho de que vos trago a capa, e que talvez, talvez, seja uma leitura interessante. talvez.

a arte da corte em boa sela




eu gostava dum dia fazer uma cena assim.

provavelmente fá-la-ei com um livrito, um magnífico bibelôt comprado no chinês, ou com um quilo de mangas daquelas com cheirinho. mas gostava de oferecer um Ferrari ao meu amor. mas não um qualquer, igual a dúzias e dúzias que amantes esparvoados oferecem constantemente (suponho) a loiras cheias de triques e óptimos airbags. nada. um exclusivo. como este.

'este', é um modelo de exemplar único. uma prenda mais exclusiva que um grosso cachucho de meia centena de quilates para enfiar no dedo. talvez até melhor que convidá-la a partilhar um Happy Meal numas dunas às duas da manhã. este é o Ferrari de design exclusivo que Roberto Rosselini encomendou para oferecer ao seu amor, Ingrid Bergman. a loiríssima Ingrid e o galã italiano, ambos em toda a pompa das pompas.

vá, cliquem nas fotos para apreciá-lo melhor. babem-se - sejam vocês, amigos, 'loiras' ou 'galãs'. imaginem-se por momentos nestes papéis. com o Ferrari de bocarra/grelha aberta, a sorrir.

a sorrir :-)

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

as Covilhãs



terminei à minutos a jóia do retrato.

como dizê-lo? que me perturbou pelo retrato duma sociedade que já não é a nossa (mas foi), hierarquicamente masculinizada e onde a mulher 'rebelde' podia ser apodada de louca se se recusasse a cumprir subalternizações ancestrais? a ser ela própria, assim fugindo a cumprir um destino de gerações de submissão, mas expondo a sua fragilidade individual nessa luta, "a louca"? nasci em '55 e venho da Covilhã, e na terra onde cresci a "Covilhã local" era escurinha mas estava viva quer na cidade quer no mato. aos 56 digo que vi "muito mundo" e nem todo foi agradável e educativo.

assim fico-me em que a sedução por este, esta jóia, aconteceu por estar maravilhosamente bem escrito.

"Ema", de Maria Teresa Horta, Edições Rolim, 1984

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

a alma lusa




sentado na esplanada acabei de assistir:

cabelo já branco, vem sozinho, estaciona debaixo da placa de paragem proibida, sai, olha em volta e tranca o carro, e entra num gabinete médico mesmo em frente de onde parara. isto a 10 metros à minha frente. eu, olhando para o meu lado esqº vejo um espaço entre dois carros (bem) estacionados onde quase cabe um autocarro. uns minutos depois sai com uns papéis na mão e repete o ritual: olha em volta, destranca, entra e lá vai ele.

matrícula amarela, francesa. não que os bimbos cá residentes não façam igual ou mesmo pior. a minha dúvida incide sobre o que se passará naquele cerebrozinho quando cruza a fronteira nacional. é que se estas são das famosas raízes culturais de que os emigrantes tanta saudade sentem... não completo a frase. até pela parte de não se esquecer de trancar o carro, em simbiose perfeita com a sua consciência cívica.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

ai!


boa tarde.

(em computador 'emprestado', mais lento e maniento que eu serei daqui a dez anos. imaginem!)

esta manhã meti-me no bricolage. comprei dois interruptores todos janotas e fatelas no chinês, fui buscar uma das minhas fabulosas caixas de ferramenta e pus-me a mudar os da cozinha e do corredor que, coitados (e eu, ai!), já eram mote para anedotas de mau tom cá na casa. isto está a correr mal.

na cozinha, o dito tem os intestinos à mostra e não há modo de conseguir fixá-lo ao púdico buraco na parede. (também não trabalha, mas isso até já é secundário pois o fogão e o frigorífico parecem estar saudáveis... ai!). o do corredor está quase na mesma, mas melhor: tripinha à mostra, mas... trabalha! aleluia! (hum. tenho uma bandeira!)

as más notícias vêm mais para o fundo do corredor: do quarto onde tenho o pc vem uma chiadela impossível de aturar, e o que seria o potencial causador da dita, o computador, está mudo e quêdo, não acende nem trabalha, morreu (ai!). não consigo descobrir o que é que está por lá a queixar-se - a luz trabalha!, e fechei a porta à chave. isto está a correr muito mal!

não sei como será a minha vida como "pater familias" digno, responsável e admirado, quando a prole e a cuja derem com os olhos e os ouvidos nisto tudo (ai!). isto está a correr mesmo muito mal, e temo, temo, até pelo meu presente virtual. o futuro? outra incógnita tão temível quanto os buracos das contas públicas que ainda estão por encontrar.

consolo? 'isto' terminado - a fase-bricolage caseira e a lavagem e secagem das nódoas da República - e fica tudo um mimo: a casa, pronta a vender ao primeiro papalvo endinheirado que aparecer; o paízinho, composto, bonitinho, e tão útil e vivo como um manequim duma montra bem composta, que arregala os olhos a quem olha, olha, e sonha um dia ser rico, rico, elegante e bonito e capaz de usar aquilo que a cabrona da realidade lhe diz que está tão longe como o além do vidro que separa a calçada da nossa rua da fôfa alcatifa de nuvens onde mora o mundo dos sonhos, eu, artista do alicate e do papel de engomar.

ai!

terça-feira, 13 de setembro de 2011

"verrückt"


ao princípio achava piada ao nosso Marcel Marceau que está no lugar do ministro das Finanças, e acreditava que ainda apanharia barrigadas de riso com o Álvaro das Económicas. hoje não. tenho medo deles. mesmo a auréola simpática de ambos terem uma fotogénica cara de malucos esvaiu-se, quando percebi que além do parecerem também o eram. de cada vez que vão à TV vem bordoada. rimas de bordoadas, já dói, e, rir, puto. nem eles nem eu, embora o Álvaro faça uns esgares.

este mês, Setembro, vai ser do caraças. segundo a Agenda, é o de anunciar (mais) 80 medidas de rigor e poupança. e de aumentos. em Junho foram 13, em Julho 11 e em Agosto 3. para Outubro e Novembro serão 8, a meias, e para o final do ano vem outro comboio delas (84). isto a Agenda negociada, duríssima, e que mesmo assim só com a ajuda de Toutatis, Thor, Odin e os restantes colegas deuses teutónicos, cuja nomenclatura desconheço, nos salvará.

e agora leio isto... afinal 2012 não será o ano de "só" apertar mais uns furos ao cinto, mercê dos 'castigos' pré-anunciados e das penitências decretadas, e rezar por chegarmos ao seu fim famélicos mas vivos, mas outro para temer a cara dos dois estarolas na TV. salvo seja, e com o maior respeito e um desgosto que não é menor, agora é que acho que estamos mesmo eurofodidos.

domingo, 11 de setembro de 2011

marulhar




repenso os dias, mexo-lhes e ouço estalinhos como num pé torcido. o azul e o verde das marés lesionam no vai-e-vem, e é bem-vinda uma ligadura que aperte e me bóie, m'emerja do pé-coxinho de sentar na areia a olhar horizontes, ora tão próximos que m'afogam em ilusões, ora tão distantes que à borbulha das ondas junto os íntimos salpicos que se escrevem saudade.

memórias, esse caderno diário escrito com tinta secreta e que a pátine da vida descobre, às vezes terna e complacente, outras tão cruel. memórias, e se deste momento yin-yang amanhã não disser que atirei a minha garrafa à água por ser exagero - e a exposição pública não é um Vidrão, ao menos que dele me lembre e diga qu'o que escrevi fi-lo em cortiça, é uma rolha que soltei, pois tudo que de mim sinta e bóie faz flop! e está escrito o melhor que sei, e é tão mensagem como outro silêncio qualquer.

de todas, recupero a imagem do pé-coxinho. de todos, detesto-me primeiro a mim. homem, português, cinquenta e seis anos, duas mulheres e três filhos, e vários amores. assim m'escondi o mais que pude, NIF, NIB e Cartão de Cidadão, mas se repenso os dias ouço estalinhos como num pé torcido, e duvido (duvido mesmo!) que nesta areia onde me sento e tanto olho veja de novo os caranguejos, pequeninos, a fugirem para as covinhas desenhando-me rastos importantes, tanto que os acredito hoje, cá dentro, escrevendo as linhas antigas. mas é o que sobrou. de mim? estalinhos.


(a foto foi gamada aqui.
thanks!)

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Anéis



…e se me saísse um Toutatis, magrinho que fosse mas que iluminasse os sonhos, esses impossíveis…

Correr a Europa numa auto-caravana, encaixado num Circo. Não um mega circo. Um modesto, mas tinha de ter feras para ouvi-las durante a noite e amedrontar-me na ilusão. Gostava de fazer isso. Como não sei fazer nada que lhes fosse mais útil, além de pagar uma taxa de presença podia vender os bilhetes e depois as pipocas durante o espectáculo. Um ou dois anos disto, correr a França e a Espanha sem nunca pôr os pés em Paris, Lyon ou Barcelona: os circos não usam auto-estradas, que há tanto país qu’elas escondem e (é esse que) quero viver.

Depois vendia a auto-caravana, fazia um curso de viola e comprava uma. De seis cordas, nada de complicações. E conseguir enganar alguém a aceitar-me num pub. Tocava o “Smoke on the water”, ainda me lembro do refrão e ia correr bem: (dessa) lembro o fundamental. Mais uma dezena, das bonitas. Uma hora à noite, talvez às onze. Depois, a boina cheia para me encher as noites no sótão onde moraria (não longe). E durava o que durasse mas no reportório mantinha o “Smoke on the water” (ela vem do meu sempre).

Dar uso às mãos. Saber fazer, ‘criar’ com elas. Não estas confidências cheias de linhas tortas, não um pincel quase daltónico, não (mais) o aperto de mão à ilusão: criar. Usar os dedos para me alimentar do que me falta, anéis que me orgulharia olhar.

São fronteiras por atravessar. Nalgumas (todas?), noto um olhar nostálgico do vivido incipientemente (que palavra) e não terminado. (alguma vez terminará?) Nem esquecido. Sempre o caminho na borda da multidão, que a solidão absoluta é mais pesada qu’este toca-e-foge. Sempre (sempre foi assim) e não me rala se me dizem que adolesço.

…e, no fim, naquele agora em que o espelho confirmará a angústia do ralo da banheira (eu, já em prenúncio de calvo), guardava a boina, abria uma livraria de bairro e uma nova conta no Facebook onde contaria tudo isto tim-tim por tim-tim, exultando com os Likes ao passado, então sim, (eu) completo.

Gostava de fazer isto tudo. (quem quer) Ser milionário? :-)

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

a esteira ao pé das estantes

estendo as palavras e deito-me a seu lado, aconchegado. não nelas, que sou meu próprio leitor. aconchego-me ao seu calor como a um corpo que me faça dia e seu diário. dividimo-nos. o autor é um ficcionista endiabrado pela febre da criação, e o personagem em simultâneo o produto e ele próprio: outro leitor e sonhador, mas todos militantes da irracionalidade apócrifa da ficção: o livro é mais do autor qu'o desenhou, ou do leitor que o burila para encaixá-lo nos seus próprios sonhos? as lombadas têm nelas duas estórias e só quem as leu sabe de ambas. a matriz editada e a obra única, personalizada: o prazer do leitor-criador que esteira e estiva as palavras ao seu lado, aconchegando-as ao seu corpo e dando-lhes o único dos seus sonhos e do seu calor.

e gosto disto, do pegar numa ideia inicial e dar-lhe uma vida secreta. mesmo se me leio, então um eu estranho ao que foi autor. rechear o público com o privado, multiplicar as estantes em cada leitura, e quando das minhas mostro estendal deixar um canto amarrotado como se fora um código para iniciados: eu li-me (escrevi-me), sim, mas do que li construí um enredo alternativo, outra solução mágica para as agruras das personagens (eu?), e entre-folhas de carícias tão íntimas como as que todos tivemos e estão nos livros todos, há sempre um beijo que me sorri tanto que não o conto a ninguém. até ao próximo escrito? gosto de pensar numa vida suave onde todos os escritos têm contido um conto de amor, mesmo se no contado não s'o leia: há tantas vidas, tantas estantes, e como me sorri a ideia de que também há nelas tantas histórias de amor...

depois há o momento em que se faz um Reset para alinhar as lombadas e não se perder o fio à meada, acreditando na fidelidade da cópia de segurança. onde páram as memórias? que páginas e páginas as contarão? se se solta a mão para que escreva autónoma do fluxo de ideias, igualmente s'a solta para picotar todas as letras dos nossos alfabetos mais queridos, os tão livres de pontuação que nunca conseguimos dar-lhes mais que parágrafos, pausas, esses sorrisos do recordar. ela voa!... corre enlouquecida e enlouquece-nos ao lê-la, felizes por viver, escrever!

e deito-me na minha esteira, aconchegado nas palavras, nas memórias, em conseguir ler e ler-me sentindo-me autor e personagem, habitante nunca de mim clandestino nestas páginas da extensa estante que é viver sem silêncio, escrevendo-nos. e deito-me na minha esteira

(ela voa)

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

em homenagem a uma história de amor que teve um mau final. o pior dos finais

linko o último post do blogger Rolando Palma, ele por si contando do Amor. e tão bem contado...

meditabundo



passeio nos meus passos e paro nas minhas pégadas. fui eu que pisei aquilo e aquilo, assim? o atalho foi minha escolha, ou a lua guiou-me a lagos de claridade onde mal me descalcei arrepiei-me, eu, eu exposto, nu? passeio nos meus passos e nada concluo. nada. infelizmente sou assim, pé quarenta e três meditabundo, coxo, dois passos à frente e sento-me a olhar o passado

a foto foi gamada aqui. gracias :-)