sexta-feira, 7 de outubro de 2011

cor, cor, cor



talvez a arte de Cristian Zuzunaga seja extraordinária, ou talvez apenas a expressão dum bom artista. para mim tem um fascínio especial: a selva das cores. e?..., dizem com razão. afinal a arte do man é exactamente essa, o jogo das cores, os contrastes entre elas.
discromatopsia, o palavrão. sou um daltónico ligeiro, algumas (poucas) cores são-me invisíveis e muitas (muitas mesmo) 'misturo-as', troco-lhes os nomes. então os tons, isso... :-)))
por isso artigos como este são-me uma festa! maravilho-me a olhar as combinações cromáticas, tentando adivinhar que cores serão. é que a maioria vejo-as como diferentes entre si, apenas não sei os seus nomes. o que vejo não corresponde às ideias formatadas do que é, será cada uma (ok. a relva é verde, sei-o de pequenino e intuitivamente. e as listas das camisolas do Sporting são o quê? tão diferente? e o 'branco sujo' nos semáforos? lol entendem? entendem-me? :-)
tenho um mundo próprio no festival da cor. uso pincéis personalizados quando olho à volta, seja um quadro, a paisagem urbana, a roupa que usamos... é giro :-)



...alegria de que as meninas estão safas: uma menina daltónica é um fenómeno, mas já nos rapazes...
li que tem a ver com a 'perninha' que nós perdemos, na nada subtil diferença que vai da combinação XY para a XX... ;-)

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Anjos

todos, o narrador, qualquer um, é Steve.

e eu quero acreditar que o sueco que nunca li sabe transmitir emoções e pensamentos assim. em corridinho ou em haikus. mas que não seja mais outro que não chegue aos calcanhares, Steve, Steve, alguém numa janela em Anjos, esta Lisboa longa, longa, viu-te e viu acontecer noutros nomes, o que são nomes, o que são nomes laureados se cada um de nós laureia o que alcança ver nas janelas que abrimos, seja em maçã rilhada ou na folha esvoaçante que viaja, ala, acrónimo de Anjos até cada um de nós


quarta-feira, 28 de setembro de 2011

27 de Setembro, 28 de Setembro







"é tão difícil encontrar pessoas assim bonitas; é tão difícil encontrar pessoas assim pessoas"

terça-feira, 27 de setembro de 2011

previsão metereológica




os sóis do Toutatis irão estar especialmente luminosos nos próximos dias. como hoje não irradiou um foco especial sobre ninguém, na sexta-feira o projector terá uma voltagem total de 48.000.000 €.
mas, saia ou não saia, na terça-feira seguinte - de hoje a uma semana - dá-lhe a louca e põe o ponteiro nuns estratosféricos 100 milhões: trata-se dum dos sorteios de prémio especial. abençoadas insolações!

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

"O Amor e o Facebook"


os semanários não se lêm: vão-se lendo. então se se tratar do gordo Expresso a coisa arrasta-se por todo o fds. isto para dizer que só ontem de manhã peguei na revista Única, e além das receitas do Jamie Oliver - aquela 'pasta', huummm... - dei com a entrevista da psicóloga Cláudia Morais, que li letrinha a letrinha. como não com um título destes? "Não foi a infidelidade que cresceu com o Facebook, mas sim a oportunidade".

ok, tá lido. e matutado. e, finalmente, isto ainda para dizer que a srª publicou o livrinho de que vos trago a capa, e que talvez, talvez, seja uma leitura interessante. talvez.

a arte da corte em boa sela




eu gostava dum dia fazer uma cena assim.

provavelmente fá-la-ei com um livrito, um magnífico bibelôt comprado no chinês, ou com um quilo de mangas daquelas com cheirinho. mas gostava de oferecer um Ferrari ao meu amor. mas não um qualquer, igual a dúzias e dúzias que amantes esparvoados oferecem constantemente (suponho) a loiras cheias de triques e óptimos airbags. nada. um exclusivo. como este.

'este', é um modelo de exemplar único. uma prenda mais exclusiva que um grosso cachucho de meia centena de quilates para enfiar no dedo. talvez até melhor que convidá-la a partilhar um Happy Meal numas dunas às duas da manhã. este é o Ferrari de design exclusivo que Roberto Rosselini encomendou para oferecer ao seu amor, Ingrid Bergman. a loiríssima Ingrid e o galã italiano, ambos em toda a pompa das pompas.

vá, cliquem nas fotos para apreciá-lo melhor. babem-se - sejam vocês, amigos, 'loiras' ou 'galãs'. imaginem-se por momentos nestes papéis. com o Ferrari de bocarra/grelha aberta, a sorrir.

a sorrir :-)

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

as Covilhãs



terminei à minutos a jóia do retrato.

como dizê-lo? que me perturbou pelo retrato duma sociedade que já não é a nossa (mas foi), hierarquicamente masculinizada e onde a mulher 'rebelde' podia ser apodada de louca se se recusasse a cumprir subalternizações ancestrais? a ser ela própria, assim fugindo a cumprir um destino de gerações de submissão, mas expondo a sua fragilidade individual nessa luta, "a louca"? nasci em '55 e venho da Covilhã, e na terra onde cresci a "Covilhã local" era escurinha mas estava viva quer na cidade quer no mato. aos 56 digo que vi "muito mundo" e nem todo foi agradável e educativo.

assim fico-me em que a sedução por este, esta jóia, aconteceu por estar maravilhosamente bem escrito.

"Ema", de Maria Teresa Horta, Edições Rolim, 1984

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

a alma lusa




sentado na esplanada acabei de assistir:

cabelo já branco, vem sozinho, estaciona debaixo da placa de paragem proibida, sai, olha em volta e tranca o carro, e entra num gabinete médico mesmo em frente de onde parara. isto a 10 metros à minha frente. eu, olhando para o meu lado esqº vejo um espaço entre dois carros (bem) estacionados onde quase cabe um autocarro. uns minutos depois sai com uns papéis na mão e repete o ritual: olha em volta, destranca, entra e lá vai ele.

matrícula amarela, francesa. não que os bimbos cá residentes não façam igual ou mesmo pior. a minha dúvida incide sobre o que se passará naquele cerebrozinho quando cruza a fronteira nacional. é que se estas são das famosas raízes culturais de que os emigrantes tanta saudade sentem... não completo a frase. até pela parte de não se esquecer de trancar o carro, em simbiose perfeita com a sua consciência cívica.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

ai!


boa tarde.

(em computador 'emprestado', mais lento e maniento que eu serei daqui a dez anos. imaginem!)

esta manhã meti-me no bricolage. comprei dois interruptores todos janotas e fatelas no chinês, fui buscar uma das minhas fabulosas caixas de ferramenta e pus-me a mudar os da cozinha e do corredor que, coitados (e eu, ai!), já eram mote para anedotas de mau tom cá na casa. isto está a correr mal.

na cozinha, o dito tem os intestinos à mostra e não há modo de conseguir fixá-lo ao púdico buraco na parede. (também não trabalha, mas isso até já é secundário pois o fogão e o frigorífico parecem estar saudáveis... ai!). o do corredor está quase na mesma, mas melhor: tripinha à mostra, mas... trabalha! aleluia! (hum. tenho uma bandeira!)

as más notícias vêm mais para o fundo do corredor: do quarto onde tenho o pc vem uma chiadela impossível de aturar, e o que seria o potencial causador da dita, o computador, está mudo e quêdo, não acende nem trabalha, morreu (ai!). não consigo descobrir o que é que está por lá a queixar-se - a luz trabalha!, e fechei a porta à chave. isto está a correr muito mal!

não sei como será a minha vida como "pater familias" digno, responsável e admirado, quando a prole e a cuja derem com os olhos e os ouvidos nisto tudo (ai!). isto está a correr mesmo muito mal, e temo, temo, até pelo meu presente virtual. o futuro? outra incógnita tão temível quanto os buracos das contas públicas que ainda estão por encontrar.

consolo? 'isto' terminado - a fase-bricolage caseira e a lavagem e secagem das nódoas da República - e fica tudo um mimo: a casa, pronta a vender ao primeiro papalvo endinheirado que aparecer; o paízinho, composto, bonitinho, e tão útil e vivo como um manequim duma montra bem composta, que arregala os olhos a quem olha, olha, e sonha um dia ser rico, rico, elegante e bonito e capaz de usar aquilo que a cabrona da realidade lhe diz que está tão longe como o além do vidro que separa a calçada da nossa rua da fôfa alcatifa de nuvens onde mora o mundo dos sonhos, eu, artista do alicate e do papel de engomar.

ai!

terça-feira, 13 de setembro de 2011

"verrückt"


ao princípio achava piada ao nosso Marcel Marceau que está no lugar do ministro das Finanças, e acreditava que ainda apanharia barrigadas de riso com o Álvaro das Económicas. hoje não. tenho medo deles. mesmo a auréola simpática de ambos terem uma fotogénica cara de malucos esvaiu-se, quando percebi que além do parecerem também o eram. de cada vez que vão à TV vem bordoada. rimas de bordoadas, já dói, e, rir, puto. nem eles nem eu, embora o Álvaro faça uns esgares.

este mês, Setembro, vai ser do caraças. segundo a Agenda, é o de anunciar (mais) 80 medidas de rigor e poupança. e de aumentos. em Junho foram 13, em Julho 11 e em Agosto 3. para Outubro e Novembro serão 8, a meias, e para o final do ano vem outro comboio delas (84). isto a Agenda negociada, duríssima, e que mesmo assim só com a ajuda de Toutatis, Thor, Odin e os restantes colegas deuses teutónicos, cuja nomenclatura desconheço, nos salvará.

e agora leio isto... afinal 2012 não será o ano de "só" apertar mais uns furos ao cinto, mercê dos 'castigos' pré-anunciados e das penitências decretadas, e rezar por chegarmos ao seu fim famélicos mas vivos, mas outro para temer a cara dos dois estarolas na TV. salvo seja, e com o maior respeito e um desgosto que não é menor, agora é que acho que estamos mesmo eurofodidos.

domingo, 11 de setembro de 2011

marulhar




repenso os dias, mexo-lhes e ouço estalinhos como num pé torcido. o azul e o verde das marés lesionam no vai-e-vem, e é bem-vinda uma ligadura que aperte e me bóie, m'emerja do pé-coxinho de sentar na areia a olhar horizontes, ora tão próximos que m'afogam em ilusões, ora tão distantes que à borbulha das ondas junto os íntimos salpicos que se escrevem saudade.

memórias, esse caderno diário escrito com tinta secreta e que a pátine da vida descobre, às vezes terna e complacente, outras tão cruel. memórias, e se deste momento yin-yang amanhã não disser que atirei a minha garrafa à água por ser exagero - e a exposição pública não é um Vidrão, ao menos que dele me lembre e diga qu'o que escrevi fi-lo em cortiça, é uma rolha que soltei, pois tudo que de mim sinta e bóie faz flop! e está escrito o melhor que sei, e é tão mensagem como outro silêncio qualquer.

de todas, recupero a imagem do pé-coxinho. de todos, detesto-me primeiro a mim. homem, português, cinquenta e seis anos, duas mulheres e três filhos, e vários amores. assim m'escondi o mais que pude, NIF, NIB e Cartão de Cidadão, mas se repenso os dias ouço estalinhos como num pé torcido, e duvido (duvido mesmo!) que nesta areia onde me sento e tanto olho veja de novo os caranguejos, pequeninos, a fugirem para as covinhas desenhando-me rastos importantes, tanto que os acredito hoje, cá dentro, escrevendo as linhas antigas. mas é o que sobrou. de mim? estalinhos.


(a foto foi gamada aqui.
thanks!)

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Anéis



…e se me saísse um Toutatis, magrinho que fosse mas que iluminasse os sonhos, esses impossíveis…

Correr a Europa numa auto-caravana, encaixado num Circo. Não um mega circo. Um modesto, mas tinha de ter feras para ouvi-las durante a noite e amedrontar-me na ilusão. Gostava de fazer isso. Como não sei fazer nada que lhes fosse mais útil, além de pagar uma taxa de presença podia vender os bilhetes e depois as pipocas durante o espectáculo. Um ou dois anos disto, correr a França e a Espanha sem nunca pôr os pés em Paris, Lyon ou Barcelona: os circos não usam auto-estradas, que há tanto país qu’elas escondem e (é esse que) quero viver.

Depois vendia a auto-caravana, fazia um curso de viola e comprava uma. De seis cordas, nada de complicações. E conseguir enganar alguém a aceitar-me num pub. Tocava o “Smoke on the water”, ainda me lembro do refrão e ia correr bem: (dessa) lembro o fundamental. Mais uma dezena, das bonitas. Uma hora à noite, talvez às onze. Depois, a boina cheia para me encher as noites no sótão onde moraria (não longe). E durava o que durasse mas no reportório mantinha o “Smoke on the water” (ela vem do meu sempre).

Dar uso às mãos. Saber fazer, ‘criar’ com elas. Não estas confidências cheias de linhas tortas, não um pincel quase daltónico, não (mais) o aperto de mão à ilusão: criar. Usar os dedos para me alimentar do que me falta, anéis que me orgulharia olhar.

São fronteiras por atravessar. Nalgumas (todas?), noto um olhar nostálgico do vivido incipientemente (que palavra) e não terminado. (alguma vez terminará?) Nem esquecido. Sempre o caminho na borda da multidão, que a solidão absoluta é mais pesada qu’este toca-e-foge. Sempre (sempre foi assim) e não me rala se me dizem que adolesço.

…e, no fim, naquele agora em que o espelho confirmará a angústia do ralo da banheira (eu, já em prenúncio de calvo), guardava a boina, abria uma livraria de bairro e uma nova conta no Facebook onde contaria tudo isto tim-tim por tim-tim, exultando com os Likes ao passado, então sim, (eu) completo.

Gostava de fazer isto tudo. (quem quer) Ser milionário? :-)

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

a esteira ao pé das estantes

estendo as palavras e deito-me a seu lado, aconchegado. não nelas, que sou meu próprio leitor. aconchego-me ao seu calor como a um corpo que me faça dia e seu diário. dividimo-nos. o autor é um ficcionista endiabrado pela febre da criação, e o personagem em simultâneo o produto e ele próprio: outro leitor e sonhador, mas todos militantes da irracionalidade apócrifa da ficção: o livro é mais do autor qu'o desenhou, ou do leitor que o burila para encaixá-lo nos seus próprios sonhos? as lombadas têm nelas duas estórias e só quem as leu sabe de ambas. a matriz editada e a obra única, personalizada: o prazer do leitor-criador que esteira e estiva as palavras ao seu lado, aconchegando-as ao seu corpo e dando-lhes o único dos seus sonhos e do seu calor.

e gosto disto, do pegar numa ideia inicial e dar-lhe uma vida secreta. mesmo se me leio, então um eu estranho ao que foi autor. rechear o público com o privado, multiplicar as estantes em cada leitura, e quando das minhas mostro estendal deixar um canto amarrotado como se fora um código para iniciados: eu li-me (escrevi-me), sim, mas do que li construí um enredo alternativo, outra solução mágica para as agruras das personagens (eu?), e entre-folhas de carícias tão íntimas como as que todos tivemos e estão nos livros todos, há sempre um beijo que me sorri tanto que não o conto a ninguém. até ao próximo escrito? gosto de pensar numa vida suave onde todos os escritos têm contido um conto de amor, mesmo se no contado não s'o leia: há tantas vidas, tantas estantes, e como me sorri a ideia de que também há nelas tantas histórias de amor...

depois há o momento em que se faz um Reset para alinhar as lombadas e não se perder o fio à meada, acreditando na fidelidade da cópia de segurança. onde páram as memórias? que páginas e páginas as contarão? se se solta a mão para que escreva autónoma do fluxo de ideias, igualmente s'a solta para picotar todas as letras dos nossos alfabetos mais queridos, os tão livres de pontuação que nunca conseguimos dar-lhes mais que parágrafos, pausas, esses sorrisos do recordar. ela voa!... corre enlouquecida e enlouquece-nos ao lê-la, felizes por viver, escrever!

e deito-me na minha esteira, aconchegado nas palavras, nas memórias, em conseguir ler e ler-me sentindo-me autor e personagem, habitante nunca de mim clandestino nestas páginas da extensa estante que é viver sem silêncio, escrevendo-nos. e deito-me na minha esteira

(ela voa)

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

em homenagem a uma história de amor que teve um mau final. o pior dos finais

linko o último post do blogger Rolando Palma, ele por si contando do Amor. e tão bem contado...

meditabundo



passeio nos meus passos e paro nas minhas pégadas. fui eu que pisei aquilo e aquilo, assim? o atalho foi minha escolha, ou a lua guiou-me a lagos de claridade onde mal me descalcei arrepiei-me, eu, eu exposto, nu? passeio nos meus passos e nada concluo. nada. infelizmente sou assim, pé quarenta e três meditabundo, coxo, dois passos à frente e sento-me a olhar o passado

a foto foi gamada aqui. gracias :-)

terça-feira, 2 de agosto de 2011

"UM DIA" ou "AMO-TE", de Joaquim Alves



AMO-TE




Sim um dia terei de dizer

que seja madrugada longa infinita

como nunca houvera em vida



um dia terei

talvez horas alguns minutos

pequeníssimos segundos até

quem sabe

mas um dia terei



terei de dizer-te tudo

o que me vai no coração

na alma infinda

que quase já não controlo



um dia uma noite

uma qualquer hora



preferia que fosse madrugada

para poder ficar ficar ficar



à espera do dia

em que pudesse dizer

baixinho

mui calmamente ao lóbulo

do teu ouvido (mesmo gaguejando)

que que que que

te amo te amo te amo




Joaquim Alves

in "Os Dias do Amor" (Antologia, com org. de Inês Ramos), Ministério dos Livros, 2009


não tenho o livro mas vem-me bem recomendado, embora só por este poema do Joaquim Alves - formidável Poeta com livro a sair brevemente, atenção! - já valesse a aposta.

a nota da editora diz assim: "365 poemas de amor escritos por 365 poetas de todos os tempos e de todos os lugares. 365 vozes que se erguem em 365 poemas de amor em todas as formas, em várias nacionalidades, um para cada dia do ano. Desde Shakespeare, Hölderlin, Edgar Allan Poe, entre outros, a poetas portugueses contemporâneos como Ramos Rosa, Vasco Graça-Moura, Sérgio Godinho, Alice Vieira, entre muitos outros, unidos para celebrar o Amor."

encomenda-se aqui, o livro não é caro e a editora paga os portes.

recordando... :-)



hoje tá a "bater-me"... :-)



Há muito que deixei aquela praia
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu ainda quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vaza.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 20 de julho de 2011

"Ábaco da vida"




na intimidade da solidão imagino-te
nua, terna
minha.

em silêncio gemido
ejaculo a minha tristeza.

"matiné de carinho"




hoje queria ir ver um filme antigo,
tão antigo como nós.
do tempo em que o cinema era-nos especial
e escondíamos as lágrimas que se nos colavam como feitiço.

e ríamos tanto, tanto, antes e depois do filme
que o seu bilhete era a porta íntima do mundo.

hoje queria estar contigo,
e voltar a ver os nossos filmes um por um.
as lágrimas, o riso, a centelha de te tocar no braço
e acreditar que há momentos como o princípio do mundo.

"ode ao desejo"



acendo o cigarro das palavras difíceis
mas não me lembra nenhuma mais estranha que Mesopotâmia
(ou licor de angustura.)

a coreografia quando te visualizo não se vê,
mas vejo o vértice do desejo:
os caracóis do teu cabelo,
a minha saliva,
e tão perto como distante
a produção literária constante
do sofrido futuro dos impossíveis.

e não consigo pensar em nada mais distante
que Mesopotâmia

terça-feira, 12 de julho de 2011

cruzar a perna às memórias




Ontem tive o meu jantar "Os Amigos de Alex", já tradicional quando o João Correia, o "João Carapinha", por cá aparece nas férias do hotel londrino onde já há quatro anos verga a mola.


Já o contei mas aqui vai novamente: o Carapinha foi 'o Joãozinho da Casa das Beiras' na adolescência, eu ignorante de todo de onde ficava Almeirim e sequer que existia uma terra com este nome, e o João já esquecido de onde viera além da Beira e do colégio sul-africano de onde fugira, a nunca tê-lo referido. Depois disso lá no longe laurentino, nos primeiros meses de Lisboa, sempre speedados, '76, vivêmo-lo com coisas que se contam mas devagar, algumas a precisar de reconsulta ao Código Penal e à sua múltipla legislação Extravagante




(é o nome técnico da coisas, a miríade de leis anexas, paralelas, sobrepostas, esquecidas até, que se cola a qualquer novo diploma legal codificado até o tornar muitas vezes, ele, o Código, mero material de consulta de suporte pois o que interessa não está lá, curto de vistas que um código penal tem de ser por definição pois não pode criminalizar e avançar com punições para tipos de 'crimes' - sim, aspas nestes que estou a pensar - ainda até mal tipificados. Depois os tais diplomas 'extravagantes' é que os definem mais-ou-menos, mas esforçadamente, e os tipificam assim para, consultado o calhamaço ficar-se com uma noção de quanto vale em perda de liberdade fabricar receitas médicas - mas com esmero! - ou, outro exemplo, tomar quantidades ao dia de comprimidos para emagrecer que, houvesse-o à altura, pareceríamos - quem? - esforçadissímos candidatos a vencedores do tal concurso televisivo dos gordos. fim de devaneio chibatório e regresso ao ramal perdido, o dos cruzamento da vida com o Carapinha)




...e não é que, finda a licenciatura lisboeta àcerca do Novo Mundo, e uma mirada longa ao interior beirão, venho a 'acamar' a vida em Hellmeirim, e cá encontrar o João Carapinha, com raízes paternas em Almeirim e que à altura vivia com a avó? Depois nos 80's desapareceu para o Algarve anos e anos, pelo meio um bar no Bairro Alto e uma cena que durou bons anos como marchand d'art na modalidade de boas (muito boas) réplicas de quadros, quer dos que estão-em-todos-os-álbuns-generalistas até aos desconhecidos que espantam e seduzem e ficam, e assim se governou e muito bem, que além de ter 'feito' Portugal de ponta a ponta e sempre em alta rotação, deu para conhecer um bom bocado da Europa à conta do negócio e, até, quando foi a S.Paulo só nesse mundo gigante ficou um ano em hotel colado à av. Paulista, o que o deixava descansar pouco à noite e aproveitou e curtiu muito Brasil que não se encontra nas rotinas turísticas. Depois veio a invasão das lojas chinesas, e percebeu-se que as pessoas não se ralam muito se o quadro (a réplica) que compram para a sala tem os girassóis desproporcionados e com um brilho esquisito, desde que custe um quarto do preço do tal outro que, se não se olhar para as assinaturas só quem conhece um bom bocado de pintura reparará às primeiras qual o verdadeiro e qual a sua réplica. Bem, abreviando,




o João é o meu único amigo de várias fases da minha vida que hoje seja habitualmente presente. o jantar 'amigos de alex' sempre que cá vem, na noite anterior à partida.


(procurei imagens de Lipoperdur mas não encontrei nenhuma. e 'dos prelos' vem isto... :-) a investigar: na 2ª linha do Google Imagens aparece uma bandeira de Moçambique e a inscrição: 'Os poetas de Moçambique'. link a investigar. a cuscar quem é que andava a speedar e a escrever poesia; e já agora o que é que conta)

hoje fui ter com ele a casa, que ontem à noite estava um bocado despassarado e deixei lá a) os óculos escuros mais a sua caixa; b) uma t-shirt (!); c) um embrulho pequenino com uma prenda dele, e que já está escondido.

no caminho entrei numa papelaria com ambição envergonhada de livraria (os livros na parede mais distante da loja e sem iluminação capaz de pegar-se num e ler-se um bocadito) e mal arrumada ("expõem" ao alto a todo o comprimento das estantes, o que torna uma trabalheira conseguir ler as lombadas, acabando eu por concluir que os mais interessantes até são os que estão "escondidos", qu'o resto qualquer supermercado os tem) e fiz uma compra, o que já não fazia há uns tempos (isto está mesmo difícil, não é só nos jornais). "Apenas Miúdos", da Patti Smith. não escrevo 'de Patti Smith' embora nunca tenha andado com ela na escola, mas "andamos" há anos suficientes para tomar algumas familiariedades. o que ela conta aposto que sei-o noutro andamento: é biográfico, dela e das suas cenas, que igualmente as cenas que foram comuns a uma geração, vividas tão longe e tão perto, tão iguais. e ela a soar, sim, e agora a lê-lo e a encontrar identificações, mais memórias pessoais que surgem quando se lêm outras e faz-se o cruzamento com as nossas, "àquele tempo, àquela idade' - o que ela conta, eu sei-o.


também o senti há coisa dum ano atrás quando li a biografia de Eric Clapton. além de ter amenizado a sensação de burrice relativamente a tanta coisa iconográfica que, concluía quase página a página, só conhecia na rama, aprendi outras interessantíssimas, tal como o pasmo e o ânimo que dão a qualquer disparate do gordinho o relato em como o bom do Eric andou dez anos (!) em volta da mulher dum dos seus melhores amigos (George Harrison) para 'gamar-lha', conquistá-la e seduzi-la a largar o bom do George em prol dum desatino igual ou ainda pior. isto anima! dez anos passam num fósforo desde que o Carapinha vá aparecendo e periodicamente surja este impulso de virar a mesa, mas conservar nas mãos Patti Smith (ou Eric, ok).



antes de ontem encontrei by Facebook uma ligação viva ao passado. duas, aliás. é raro, muito raro. foi bom... e tive lagrimita, tanto que recordei!

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Livros

Convidado pelo jpt, e posteriormente pela IO, tenho há quase uma semana em mãos um 'inquérito' acerca dos livros que leio, os que mais me impressionaram, aqueles que não li mas acho que gostaria de ler, etc.
Uma pesquisa cá no fundo, indiscreta, apreciados pretextos para (fazerem-me) sair do casulo e contar como estão lá arrumadas as divisões, que bibelots literários herdei à vida e tanto os detesto como os amo, e quais gostava de ver transitar pela janela, numa e noutra direcção. Um tour profundo, isto de falar nos nossos livros... Pronto, é hoje :-)

Ideia prévia: O que lêmos é um único livro, e a mudança de capas são só capítulos que se sucedem. Igual à vida que desfolhamos, molhando o canto das páginas com a saliva do nosso rasto, esta pégada ecológica da nossa personalidade. Essa deles, esta nossa vida. E que lêmos, e que a escrevemos em mudez extasiada quando lêmos nos demais o plágio da nossa reles universalidade.

O questionário:

1 - Existe um livro que leste e releste várias vezes?
2 - E algum que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste lê-lo até ao fim?
3 - Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
4 - Qual gostarias de ter lido mas, por algum motivo, nunca leste?
5 - Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?
6 - Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
7 - Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
8 - Indica alguns dos teus livros preferidos.
9 - Que livro(s) estás a ler neste momento?


...e o inevitável apelo à melguice das correntes, seu combustível:

10 - Indica dez amigos para o Meme Literário

Então, respondendo às golfadas, é:

1- Não, creio que não. Um ou outro várias vezes se ameaçaram tornarem-se bíblias mas felizmente houve sempre algum novo que se interpôs. Há aquela ideia de, "quando tiver tempo", reler alguns. Até porque o que se vai lendo de impressões acerca deles não coincide com a nossa memória, e deveria apurar até que ponto os ídolos se mantêm ídolos conforme a idade nos passeia, ou se a malandra da velhice, ciumenta, nos torna ateus às glórias da juventude.
2 - Eu tenho um exemplo clássico quando penso nisto. Não é um romance, é uma daquelas secas que usei como cilícios cerebrais quando pensava-me beato e acreditava tornar-me monge do então grande templo m-l: A Sagrada Família, de Engels, um calhamaço que recordo com talvez umas quinhentas páginas e que se me revelaram inatingíveis pois, confesso, nunca passei das primeiras cinco ou dez. E palavra que voltei atrás e recomecei vezes e vezes, sem assimilar que não se consegue fazer um espectacular prato à chef sem primeiro saber fazer, exemplito, uns belos refogados. Andava quase sempre pedrado naquela época, como raio ia entender aquilo?
3 - É impossível responder a esta. Impossível! Todos os livros que achei muito bons tive sempre pena de ter-lhes chegado ao fim. Um para o resto da vida? Teria de ser muito muito grande e muito bom. Não conhecendo ainda esse pantagruel, qualquer um dos 50 ou 100 que poderia nomear servia. Mesmo se dos fininhos, como este. ou um bom dicionário, pré AO...
4 - Todos os bons que ainda não li, e de certeza que são muitos. Sempre que termino um de que gosto sinto isso mesmo: «menos um...» ... dos que devia ter lido antes e ainda não o fizera. Uma nota acerca dos 'clássicos' literários: sem tempo para eles. É que escreve-se tão bem, há tanta gente a escrever bem - agora, neste mesmo momento - que, palavra, não tenho tempo para ler mais. Se me calharem em mãos certamente que 'marcharão'. Mas procurá-los, deliberadamente? Não.
5 - Outra que não sei responder facilmente. A 'cena final', portanto o desfecho do romance? Pior ainda se num thriller (e há alguns muito bons) carregado de suspense?... Esta é outra onde estou assim... Talvez (talvez) este, mas a resposta não é totalmente sincera pois recordam-se-me fortes razões laterais a acontecerem enquanto o lia (e tudo ligado, incluindo o motus de lê-lo) e que condicionaram a emoção que senti ao terminá-lo.
6 - Sim, desde muito pequeno. Tenho uma irmã mais velha e o meu pai lia muito (policiais principalmente). Isso tornou acessíveis os livros 'sem bonecos'. Li o calhamaço d'O Conde de Monte Cristo teria dez ou muito pouco mais. É o primeiro 'grande' que me lembra ler. Fiz o périplo completo, acho: a série 'Os cinco', os Ivanhoe, David Crokett, Três Mosqueteiros, Vinte Anos Depois, etc etc, à minha irmã li o 'Mulherzinhas' (e gostei) e mais alguns, e o meu pai ia-me municiando com policiais da colecção Vampiro em que a sua censura prévia achava-os capazes «para a minha idade». Obviamente comecei a rapinar os escondidos no fundo do monte, que lia escondido na casa de banho, entusiasmadíssimo com os beijos e os amassos e o mais que se sugeria, e que eu recreava oniricamente enquanto ia descobrindo as maravilhas sensoriais do meu próprio corpo. Ah! Gostava muito dos James Bond e dos policiais do 'português' Dick Haskins.
7 - Há muitos que abandono, se dando ao autor uma honesta tentativa de me 'agarrar' ele não o consegue em, exemplo, vinte ou trinta ou quarenta páginas. Mas muitos ficam simplesmente adiados e mais tarde, muito mais tarde, até por vezes via uma referência lida, volto a pegar neles e a insistir na leitura. Ás vezes com óptimos resultados, outros com a confirmação de, para mim, aquele livro ser «uma boa merda».
8 - A resposta a esta é transitória: se mo perguntassem há dois meses atrás a resposta era diferente, e provavelmente se daqui a outros dois também não seria igual. Vou pôr a questão doutra forma: se eu alienar a minha biblioteca e tiver o capricho de reservar dois ou três, quais serão os indultados? Um, por razões que não se explicam a não ser por vaidade, é o meu. Depois um de poesia, daquela que se lê e relê e nunca está lida que chegue, tal a necessidade que sentimos dela. Sophia? Júdice? Provavelmente um de entre estes dois. O terceiro é A verdade em 1ª mão, de Joyce Cary, embora nunca relido há dezenas de anos se entranhou no meu espírito como um dos melhores romances que li. Li-o, recordo-me bem, na praia de Vila Nova de Milfontes. Ainda não existiam concertos nem quintas de alemães e holandeses tardo-freaks, a praia da Zambujeira tinha uma barraca que vendia frangos assados e pouco mais, mas já havia por lá praias onde se praticava nudismo (isto é só uma memória paralela: não foi nessas que o li mas na em frente à vila). Este é dos tais que mesmo sem dar com a sua lombada dou por mim a pensar 'n' vezes «tenho de lê-lo outra vez antes de morrer...» Gulley Jimson forever! ;-)
9 - Estou a ler 'A Conspiração contra a América', de Philip Roth, e a gostar, e dois de poesia: à cata dum poema de que me lembrava, e precisava dele, peguei no excelente Cartografia de Emoções, de Nuno Júdice, e já não o largo: afinal preciso dele todo, ao calhas, aberto, lido e saboreado como outro que 'tão bem me conhece que até faz poemas a pensar nos meus conflitos e nas minhas emoções'. E como mo confiaram no fim-de-semana passado, ando com a antologia poética de Eduardo White, 'Nudos', mas muito desiludido com o tratamento gráfico: estou em crer que não teve sequer uma revisão, tantas as gralhas. Além da fraca qualidade de papel (que prejudica muito as gravuras), etc, etc. Sobre o conteúdo: esperava outra coisa. Só lhe lera alguma poesia (gostara) e estava curioso. E pensava-o mais profícuo. Da prosa poética, não lhe conhecia quase nada. Tem momentos de 'excelência' mas outros que defraudam: sabe fazer melhor, vê-se pelo resto.
Aproveito a deixa e incluo um que terminei recentemente e me encantou. Eu sei que me maravilho facilmente, e as últimas impressões são sempre mais fortes. mas neste não me engano: um romance fabuloso, dos tais que findas as setecentas e tal páginas estamos indignados por não ter escrito outras tantas. Trata-se de Liberdade, de Jonathan Franzen. Um escritor e peras, garanto-vos!

10 - Não passo testemunho directo. Quem se agrade que faça. Se leia (se comente), e conte. Dos seus livros.

Ideias finais:

Nem tudo numa biblioteca é a verdade da ficção e pode engomar-se com crismas de "ilusão, imaginação, desejo, esperança" (sic muito restrito, Ernesto Sábato), ou, muito menos, cabe na estante de aforismos inacreditavelmente uga-uga que usa por rótulo «isto é assim e o resto é literatura». Não, não, nunca! Quando se edita deve pensar-se que haverá leitores ao escrito, esvai-se a auréola das fantasias secretas e o livro está ali, ali e não se pode ignorá-lo, mesmo que pela desilusão e a sua leitura seja abandonada. O autor não é escravo do leitor, a sê-lo sê-lo-á da sua personalidade literária. Mas ao mandar para o prelo o que sabe que é um mau título sabe igualmente que está a empurrar o seu leitor para a solidão às suas palavras. O que coloca em causa o que elas valem para si mesmo, autor. A relação entre ambos. Ou deveria colocar.


Qualquer memória escrita é um museu de jóias e nem esses - os maus livros - deito fora, mas nesta benevolência não mexo um acento ou uma letra na ordenação bibliotecária que os autores lhes deram: ficção, ensaio, poesia, ou autobiografia nua e sem temperos. Eles lá sabem das suas palavras e de como se escrevem ou escreveram, eu só os leio e penso. Perdoar a um autor um mau título no meio duma obra rica é tão fácil como é impossível esquecer-lhe o tal lido que nos impressionou, na versão má das impressões; não se esquece, nem que seja ostracizado para as mais distantes estantes e os olhos não se cruzem facilmente com a má lombada. Afinal é um livro, alguém cujo íntimo foi por nós lido, e o arrastar de unhas no nosso peito enquanto se viravam as páginas até à desistência dói por muitos e muitos... outros (livros) que se lhe sucedam e nos sigam, literariamente mais cordatos com a ideia encaquestada por recordações boas do que é uma boa relação com um autor e a sua leitura. Não se apaga mesmo que se lhe perdoe: é um livro, e permanece.

(...e tanta vez a melhor relação com os livros é uma relação de silêncio... até surgir um questionário que nos espicaçe)

sábado, 25 de junho de 2011

Palavras cruzadas, emoções baralhadas




texto integral da comunicação que fiz ontem no "IV Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora" , realizado no auditório da junta de freguesia de S.Domingos de Rana, em Carcavelos.

"Palavras cruzadas, emoções baralhadas"

Olá, boa tarde. Sou o Carlos Gil e vou falar-vos de amor. Amor a uma cidade.

É comum explicar o amor a África por aqueles que lá viveram, afirmando que quem foi por ela beijado nunca esquece esse carinho.

Eu não fui beijado, foi mais profundo. Fui seduzido, e desse amar violento a uma cidade guarda a memória carícias de que não me evado nem emigro, é tão envolvente como o é uma paixão.

E que se vive no remanso do silêncio, até um dia em que a caneta se torna insuportavelmente lenta para contar. Em que se pára, o olhar preso na tristeza de tão pouco teclado para tanto que há para exprimir e compreender…

A minha cidade… Pérola do Índico, minha princesa … … Namorei-a, amei-a à exaustão, e emocionalmente ainda me sinto exaurido pela separação.

-/-

Divorciamo-nos há trinta e tal anos atrás. Um amor adolescente, um namoro em que as mãos dadas e as carícias trocadas fizeram-me suspirar por mais, acasalamento e de papel passado uma tarde rabiscado numa avenida que desce a colina e beija-a no ventre, Baixa da cidade, onde o Homem ergueu orgulhosos trinta e tal andares, para dizer à linha da paisagem, em grito de posse para a amante fiel e tolerante que tudo lhe dá e permite, que a sua ambição é grande, alta, excessivamente alta.

Antes do divórcio que desalinhou o nosso entrelaçado de afagos, eu e ela, musa cidade, namoramos sem fim nem jeito nas esquinas que me eram familiarmente sensuais, esquecidas as convenções nas partilhas de amor que trocámos ao seu sol, nesse sopro quente que clamava por quinhões de emoções que não lhe regateámos.

Era um amor doce, beijos sem fim trocados na suavidade da brisa que subia da baía e amenizava fins de tarde tropicais, outras vezes impetuosos no travo de sal das portas do mar onde nos sentávamos, juntos, próximos, amantes, jurando cumplicidades e sorrindo ao viver.

Sim, estávamos apaixonados e o nosso namoro era tão lindo como o amor que líamos nos nossos olhos quando nos encarávamos e sorríamos, enlevados na nossa paixão.

E, cá de longe, do tempo das cãs e das memórias, deixo soar o meu enamoramento eterno e escrevo-lhe cartas de amor e de desejo sem fim.

Mas igualmente me interrogo:

Perdoar-me-á algum dia?

As esquinas recordar-me-ão?

Faremos amor novamente, pois o que tínhamos era tão belo e intenso que não podia ser senão uma posse amorosa, contínua?

-/-

Hoje, os tais trinta e tal anos depois, mais coisa menos arrufo, ainda não gosto de falar no divórcio. Prefiro afagar em mim o enlevo das carícias da memória, as mãos dadas, os suspiros e as juras que trocávamos.

Compreendes-me, querida?

-/-

Como dizem os antigos e que muito conhecem destas coisas dos amores perdidos, não há verdades únicas nas separações, e é difícil arrolar razões e encontrar culpas exclusivas quando os dedos se separam, e deixa de se sentir o conforto da sua carícia. Quando o romance termina e desocupam-se os dias de calores como aqueles em que o nosso namoro foi farto, quando sobrevém às noites quentes o frio da solidão.

Não, nem palavras de traição são alçáveis, excessivas na injustiça de tanta letra dura para contar das lágrimas, o tempo que passa, a separação. Aconteceu, os deuses entenderam que o nosso romance precisava de mais provas, outro fogo que não o que nos aquecia na ânsia dos jovens amantes, e ele soçobrou; o nosso casamento, pueril, reprovou-se a tal prova e chumbou o enlace que se jurara eterno.

Conheci outras cidades e outros leitos, mais amores, e valha a verdade em contar que, neles, também fui feliz. Noutros colos e noutras ruas também amei e o meu sorriso surgiu natural ao acariciar seios-colinas, nas águas doutras praias e na sombra doutras árvores, na crosta urbana doutras terras, também ternas na sua secular carícia, sapiente, amei e fui feliz.

Mas há estes momentos de melancolia em que olho o passado e recordo o primeiro amor, e cai-me uma lágrima de saudade.

-/-

Hoje, vida feita e semi-gasta, com tanto balanço encerrado e de contas ajustadas, há em mim uma janelinha que não se cerra: abro o peito e espreito, e vejo-te a ti minha primeira amada. Vejo-te, minha cidade.

Se me olho ao espelho e tento ler as rugas, decifrar as cãs, desisto de nelas contar as desilusões, e deixo o olhar perder-se no brilho dos olhos quando a memória em ternura te contempla, as avenidas, o caniço, as acácias tão rubras como quente era o nosso enlevo.
Fazes-me falta
neste Outono da vida, meu amor. Sinto a falta do teu bafo quente, o brilho do teu sorriso, da magia que era acordar de mãos em ti enlaçadas e acreditando na eternidade da nossa paixão.

Desculpa-me pelo que errei, pelas minhas culpas na nossa separação. Desculpa-me. Porque ainda te amo. Pelo tempo passam outras que me amam e me tratam bem, mas confesso-te em letra de lei que, em mim, ainda não aconteceu amor como o nosso primeiro. Desculpa-me meu amor, Princesa, minha cidade.

-/-

Termino com um poema porque ninguém é mais universal que um poeta. Nuno Júdice:

Mas eu sabia tudo isso. Um poema faz-se para
dizer o que não se soube evitar, para substituir
confissões e decepções, para transformar em algo
de belo o que poderia conduzir à depressão,
ao fim de um mundo. Na verdade, há
ou não espaço para esta inquietação, para
a censura, a suspeita de que algo poderia ser
de outro modo, como se cada um de nós pudesse
ter o seu próprio caminho? Falo contigo: e
tu ouves-me, não me ouvindo, como eu te ouço
sem saber se é o que eu quero ouvir que vem
das tuas frases, ou se dizes o contrário do que
sentes para que eu sinta a verdade do que nenhum
de nós sente - a indiferença, a brancura da
emoção, um desejo de ruptura... Como se o amor
acabasse no meio do que não começou; ou
a distância pudesse apagar o que não tem fim.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

coisas do Facebook: lagartixas, flores e joelhos perfeitos



o conto As flores, de Mário Rufino, fez-me viajar por mim. lagartixas, flores, joelhos perfeitos, numa amálgama de recordações.
vou transcrever o comentário onde aconteceu, que na 'partilha' feita no meu Facebbok não está visível: não foi na edição original do conto mas numa das (merecidas) partilhas subsequentes. ao caso, na feita por uma amiga facebookeana:

"pensamentos transversais. lembrou-me quando era miúdo, talvez nos meus 8 a 10, não sei bem, em que apanhava lagartixas e amarrava-as pelo rabo a uma caixa de fósforos sem a tampa, com uma pedrita lá dentro para impedi-las de treparem às paredes. e corriam, corriam até que soltavam o rabo que ficava a espernear. o rabo da lagartixa a espernear, e não procuro a palavra adequada a um rabo espernear. não é o importante. talvez seja importante ter sido mau como fui para as lagartixas, que na altura eu não oferecia flores. suspirava-as, suspirava-as quando via a Marília do prédio em frente andar na bicicleta e lhe espreitava o mais-além dos joelhos e suspirava. sem imaginar que talvez umas flores a levassem a emprestar-me a bicicleta e com ela darmos voltas e voltas aos quarteirões das imaginações, presos pela liana dos sonhos que naquela idade nascem quando se suspiram joelhos, mas é-se parvo suficiente para ter medo de gostar de flores e preferir-se amarrar lagartixas pelo rabo.
hoje gosto de flores - aliás sempre gostei mas não o dizia a ninguém. hoje dou flores e certa vez - não há muito tempo atrás - mandei flores silvestres pelo correio a uma deusa d'então, nesse então ainda também musa, apanhadas enquanto continuava a suspirar joelhos e imaginações e dela suspirava e imaginava. julgo que lhe saquei um sorriso lindo e isso é tão importante como um beijo, tanto como uma volta ao quarteirão dos sonhos. recordo-me que entretanto, no entretanto que vai desde as lagartixas às flores postais, cresci e vagueei entre flores, outras flores. do mal, dirão os detractores de Baudelaire, do bem dirão os cultores de Leary ou de Kerouac. foram as flores de mim e foi um
flowerpower onde não me perdi, mas fumei-o de ponta a ponta, fumei-o sim. inalei jardins inteiros, escalei árvores proibidas - e nelas nunca mais vi lagartixas! - e, hoje, a canga das cãs em cima, não enrubesço ao lembrá-lo. não. ainda tenho musas, ainda sonho joelhos perfeitos, e sorrio ao lembrar o tempo das lagartixas, sorrio ao lembrar-me de mim.
Marquez diz que vive para contá-la; o meu minúsculo eu suspira e oferece flores neste tempo em que oferecê-las é tão importante como contar dum sonho. é materializá-los nem que em inócua e ineficaz caixa postal que, aberta, revela bem murcho mas presente que alguém lembrou alguém, que do passeio do outro lado da rua um puto suspira quando entrevê o borboletar dos corações espreitando na brisa que tudo arregaça quando se pedala o crescer."


the end of the story.