sexta-feira, 25 de março de 2011

sexta, 25, end of the road


...e pronto, termina hoje. sem espalhafato, na certeza de que «fui feliz aqui» e sê-lo-ei noutro tasco que surgirá, calhe assolarado o dia.

obrigado pela companhia. houve momentos (muitos, gigantes) em qu'ela foi importante. mesmo nos hiatos de silêncios as releituras e recordações estiveram cá, nunca foi um abandono. nem agora o é. é um arquivo necessário, uma mudança de caderno porque uma chávena de café entornou-se e borrou-lhe as folhas. mesmo quando secar a mancha não desaparecerá. por isso... cara alegre e... «ala, que se atrasa a mala!»

:-(

em fim de road: a puta da crise


após rápida leitura da imprensa, no final do dia D+1: os nossos promitentes novos chefes apresentaram a 1ª cura: subir impostos; lá fora, adiou-se a decisão sobre o reforço do fundo de apoio ao Euro para Junho - mas aposta-se que até Maio nós 'quebramos', a srª Merkel pôs a alguém as orelhas vermelhas e não há quem cale o sr. Trichet, e em Espanha houve milagre: todos - governo, oposição, sindicatos, patrões - juram que não são portugueses e não querem nada connosco e com os nossos remédios. e aquela malta do rating sacou outra vez das tesouras.

acho que já estou a entender. fizemos a merda mal feita e estamos entregues à bicharada. não é novidade mas custa sempre um bocado. desta vez, até palpito que custará um bocado mais que isso.

ouço rir. será que vem da Islândia?

quinta-feira, 24 de março de 2011

em fim de road: um alfinete na memória


não esqueçamos o jasmim. há dois meses atrás era-nos a flor mais importante.

em fim de road: memorabilia aniversariante



...porque o Gonzaga Coutinho, o 'nosso Gonzas', fez ontem anos, recupero esta velharia e junto-lhe o seu "Sucedeu Assim", de António Carlos Jobim, aqui em bela parceria com Ivan Lins.

em fim de road: apontamento de geopolítica


além do velho conflito com a NATO, tipo "quem tem a pilinha maior" - e como ela é importante quando se trata de domínio global..., a nova-velha Rússia tem presente o mesmo fantasma de sempre: a auto-estrada geológica que se estende das Ardenas até aos montes Urais, ora sem o pára-choques das ex-repúblicas soviéticas da Bielorússia, Ucrânia et al (Polónia, as falecidas vizinhas RDA e Checolosváquia, Hungria), por onde sofreu duas violentas invasões (Napoleão e Hitler), além do novo fantasmão islâmico do Caúcaso aloirado com a emergente força turca a mirar futuros. e o seu importante Mar Negro ameaçado...
mais uns pós amarelos a irritarem os olhos do grande urso e está encontrada a justificação do mega investimento militar projectado. a declaração pública acerca do reforço no nuclear é muito de fait-divers: obviamente qu'ele estaria sempre presente (este é o séc. XXI, não o esqueçamos). porém o resto da parafernália militar vai ser revisto, polido e musculado de fio a pavio.

ou George Friedman os leu bem, ou lá leram-no. e concordaram.


mapa geológico da Europa



mapa do Cáucaso

arquivem-se os autos



por inutilidade superveniente da lide, as laudas deste blogue serão em breve levadas à conta e depois arquivadas.
oportunamente e noutra e-comarca será instaurado novo processo, ups!..., digo, blogue.

"Preocupamo-nos sempre com as coisas erradas, não é?"


(...)
"Hesitam ambos. Será que ela não ficaria contente por ir já dormir? Um está sempre a beijar, o outro está sempre a ser beijado. Obrigado, Proust. Ele sabe que ela ficaria igualmente contente por prescindir do sexo. Porque se mostra mais fria em relação a ele? Está bem, ele tem uns quilos a mais à volta da cintura, e sim, o rabo dele já não aponta para norte. E se ela está a deixar de o amar? Isso seria trágico ou libertador? Como seria se ela o deixasse?

Seria impensável. Com quem falaria ele, como faria as compras ou veria televisão?

Esta noite, Peter vai ser o que beija. Daí a algum tempo, ela vai ficar feliz. Não vai?

Beija-a. Ela devolve-lhe o beijo de bom grado. Afinal, parece entusiasmada.

Agora já não consegue descrever a sensação de a beijar, o sabor da boca dela, demasiado próximo do sabor dentro da sua própria boca. Toca-lhe no cabelo, pega numa madeixa e puxa-a docemente. Durante os primeiros anos, era um pouco mais rude, até compreender que Rebecca já não gostava disso, que provavelmente nunca tinha gostado. Há ainda estes gestos que restam, repetições suaves de outros antigos, quando estavam juntos havia pouco, quando passavam o tempo a fazer amor, embora já nessa altura Peter soubesse que o desejo que sentia por ela fazia parte dum quadro mais vasto; que ele tinha tido sexo mais intenso (embora menos prodigioso) exactamente com três outras mulheres: uma que estava apaixonada pelo companheiro de quarto dele, outra que estava apaixonada pelos fauvistas e uma terceira que era simplesmente ridícula. O sexo com Rebecca foi extraordinário desde o início por ser sexo com Rebecca; com o seu espírito ávido, a sua ternura sensata e os indícios, à medida que se foram conhecendo um ao outro, daquilo a que ele só podia chamar o seu ser mais profundo.

Ela passa-lhe a mão pela coluna, com suavidade, pousa-a no rabo. Ele larga-lhe o cabelo, rodeia-lhe os ombros com a concavidade do braço, gesto que sabe de que ela gosta - dessa sensação de que a abraçam com força (uma das fantasias dele sobre as fantasias dela: ele segura-a no ar, a cama desapareceu). Com a mão livre, e com a ajuda dela, puxa a T-shirt para cima. Os seios de Rebecca são redondos e pequenos (quando inverteu aquela taça de champanhe sobre um deles para demonstrar que cabia, teria sido na casa de Verão em Truro ou na pensão de Marin?). Talvez os mamilos se tivessem tornado um pouco mais espessos e escuros - agora são precisamente do tamanho da ponta do dedo mindinho dele, e da cor de borrachas de lápis. Em tempos teriam sido um pouco mais pequenos, um pouco mais rosados? É provável que sim. Na realidade, Peter é um dos poucos homens que não ficam obsecados com mulheres mais novas, no que ela recusa acreditar.

Preocupamo-nos sempre com as coisas erradas, não é?

Aperta nos lábios o mamilo esquerdo, brinca com ele com a língua. Ela solta um murmúrio. Tornou-se uma coisa invulgar a boca dele nos seios de Rebecca e a resposta dela a isso, esse murmúrio exalado, o minúsculo estremecimento que ele sente a percorrer o corpo dela, como se ela não pudesse acreditar que aquilo, aquilo, estivesse a acontecer de novo. Agora o sexo dele endureceu. Nem sempre consegue dizer, nem isso lhe importa, quando está excitado por si mesmo, ou por ela também estar. Rebecca aperta-lhe as costas, já não consegue chegar-lhe ao rabo, ele adora o facto de ela gostar do rabo dele. Descreve círculos no mamilo dela com a ponta da língua, bate ligeiramente no outro com o dedo. Esta noite vai ser principalmente o orgasmo dela. As coisas passam-se assim muitas vezes, é assim há anos - assumem a sua forma, em qualquer noite (quando foi a última vez que fizeram amor que não fosse à noite, na cama?), em geral são decididas antecipadamente, por quem beija quem. Então este é para ela. É o que aquilo tem de excitante.

Ela tem uma prega de carne na barriga, as ancas tornaram-se mais pesadas. Mas, Peter, tu também não és propriamente uma estrela porno."
(...)

"Ao cair da noite", Michael Cunningham, Gradiva, 2010

dia D+1



‎3 horas, 3 prolongamentos, cento e tal cestos convertidos num total de 276 pontos. ganharam os Lakers.
é irrelevante. desportivamente foi épico, dos tais para um dia contar aos netos.

bom dia

...Portugal está a jogar.
que vamos contar 'amanhã'? eu digo: aguentar sacando prolongamentos que (se nos) respirem, e depois a cavalgada do cesto final.
não há outra maneira. Lakers ou Suns? não (me/nos) interessa, e menos ainda aos que ouvirão quem viu e, assim, também jogou.

quarta-feira, 23 de março de 2011

superior à morte



disseram-me, num comentário no Facebook, que hoje há uma nova estrela no céu com um olhar azul-violeta. acrescentei: ...e ganda desbunda à espera! o Richard já estava sentado nos degraus à espera dela ;-) com uma botelha de mais ainda tudo por encetar.

é... as vidas são espartilhos nalgumas relações, inexplicavelmente densas para (se) suportarem (n)o hálito animal.

releituras


...evidentes.

um original impresso em 1670 de que tenho a edição 'moderna' de 1943 ("Arte de Galanteria por D.Francisco de Portugal", Domingos Barreira - Editor), na minha primeira releitura que, quanto a isto, já se leu e julgou ler tudo quando se chega a estas idades e ditosos estados.

afinal não. nunca. folheio-o e pasmo. evidente! tal e qual! mesmo naqueles tempos decanos a Arte do Galanteio, esse sublime rejuvenescimento contínuo e, talvez, às vezes, quiçá quiçá quiçá, deu voltas e aprimoradas maroscas mas assenta nas mesmas pedras: «me Tarzan, you Jane». punhos de renda e bilhetinhos, versos e capa estendida, sim, claro que sim, mas uns olhos castanhos pedem o seu beijo com a veemência do íman e o galã não pode defraudá-los. morre logo ali, perece-lhe o estatuto e caminhará solitário em jardins abandonados pelas damas se a hesitação se prolongar a ponto da fera fêmea apagar o brilho das estrelas, fazendo-se lua distante, onírica, poética mas platónica.

a saliva deve saltar das rimas e mergulhar na sua igual. poesia? linda, bonita, encorajadora. frustrante, quando se chega ao último estremecimento e é um livro numa estante, um jardim onde as flores são bonitas mas com o passeio da solidão perdem a sua graça inspiradora. poesia, retrato de nós? talvez. tantas vezes talvez. mas melhor, bem melhor, é a faísca duns olhos castanhos que salivam por lerem em braille. o resto é literatura, e quanto a eles estou bem servido, obrigado.

abandonei a poesia, 'cansei', e releio materialismo dialéctico.

quinta-feira, 17 de março de 2011

as tardes de Março



muito do triste é muito belo. a alma não morre porque no exterior a radioactividade dos dias nos mata.
(dançável em privado)

generalidades, mas que nos interrogam


onde a encontrei tem esta legenda ('acertei-lhe' o português):

"Nalguns momentos o medo deixa-nos vivos, noutros ele impede-nos de viver..."

broken confidence - Sebastien Cloutier


porquê? mau título para tanto virtuosismo.

o número de ouro, áureos olhares




quando olhamos e sentimos d'algo emanar um feeling especial, um estremecimento inexplicável, será ele? a presença do número de ouro?



excelente. seria porque lhe chamam o número perfeito que M. S-C o escolheu para título?

'7'

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.


Mário de Sá-Carneiro

quarta-feira, 16 de março de 2011

a transição




não tenho a certeza de qual, mas foi com um destes três livros que dei o salto da banda desenhada para os "grandes, sem bonecos". suponho que foi o Conde de Monte Cristo mas acho que a preferência vem de, destes, ter sido o mais grosso e da satisfação que me deu ter conseguido ler um calhamaço daquele tamanho. quanto às capas, mal me lembro delas e das três imagens que escolhi só a do "Conde" me dá ideia de ser parecida, se não a mesma edição. depois houve o Ivanhoe, o Davy Crocket, o Vinte Anos Depois, o Moby Dick, os livros biográficos em versão juvenial, de que recordo o do dr. Albert Schweitzer e a saga de sir Edmond Hillary à conquista do Everest, tanto que ambos me fascinaram, mais os inevitáveis sobre a Segunda Guerra Mundial, espionagem, e os ets que são fabulosos a qualquer miúdo sedento de mais e mais. a leitura é um vício bom - embora... no fim digo.

o meu pai era um feroz leitor de livros policiais, aqueles de bolso da colecção Vampiro. em casa havia sempre dezenas, e quando se apercebeu de que eu me iniciara neles seleccionava os que eu podia ler. claro que procurava era logo ler os outros, aqueles que, tendo-os ele já lido, eram discretamente dissimulados nas pilhas no seu quarto. e, escondido na casa-de-banho, saltava páginas pouco preocupado com enredos mas à procura do beijo escandaloso, de descrições ardentes, extasiado com novos rubores que descobria em mim. também fascinado com descrições pormenorizadíssimas de crimes lavados em sangue e tripas fora, como nunca me apareciam nos 'meus', os autorizados. foi outro início, Agatha Christie veio depois.

isto no tempo dos alfarrabistas, em que se trocavam usados num intercâmbio que bem gerido permitia existir sempre literatura nova para ler. ao habitual 'leva dois, trás um', que despachava monos e trazia promessas de pepitas, juntavam-se os que ia comprando, ele, mais os que depois comecei eu a comprar, principalmente com os formidáveis saldos feitos à porta do cinema Império, na av. de Angola (LM, Moçambique), que mal soava a campainha e as cortinas eram corridas os putos, aqueles a quem ainda faltavam algumas zucas* e muitas quinhentas* para comprar o bilhete mágico para a matiné de caubóiadas, saldavam a existência ao preço da, diríamos hoje da uva mijona, mas à época e local seria mais correcto dizer que ao preço da tsintshiva.

então, eu, que me calculo nos meus dez, doze anos, lia como todos os miúdos os da série 'Os Cinco' ('Os Sete' vieram depois, e nunca agradaram tanto), e o meu pai trazia consigo a lista dos "em falta", pormenor que nunca esqueço. precisamos destas memórias, os pequenos gestos de amor, essas formas discretas que se têm para transmitir sem palavras afagos. tive-os! e um deles era a listinha no seu bolso, que de vez em quando me presenteava com uma nova aventura dos 'Cinco', húmus adequadíssimo às imaginações naquela idade.

a minha irmã, a Milly, também estava contagiada por este vírus da leitura. mais ainda, que já então escrevia: é poeta precoce, e das verdadeiras. sendo menina tinha as suas leituras próprias, mas foram livros que também não me escaparam. li com (muito) agrado o 'Mulherzinhas' e mais alguns do género, incluindo a sequela deste de que agora não recordo o nome. lia-se de tudo. as Selecções do Reader's Digest, principalmente os artigos que falavam de carros e a secção de livros condensados, dicas que nunca esqueci e muitos dos comprados já na adolescência obedeceram não a um impulso mas à memória do resumo que lá lera.

acho que nunca mais parei. sôfrego. excessivo? talvez. talvez mesmo! não sei quantos leio ao mês mas são muitos e de diverso género. sou um leitor ecléctico, e tanto pego num thriller da moda como num ensaio sobre literatura, e acreditem-me se vos disser que na minha "livralhada" tenho manuais de jardinagem e de construção de abrigos nucleares domésticos. e folheio-os a todos, pelo menos a isso nenhum escapa dando-me a noção, vaga mas existente, do que tenho e onde o tenho. tanta vez me sento à secretária só a olhar-lhes as lombadas, em estado de hipnose aparente em que nada se agita excepto a história que cada uma me vai contando.



e hoje lembrei-me de falar nisto.


-/-



uns chamam-lhe revisitar jardins. outros (eu), digo que são só memórias. interrogando-me continuamente se não teria sido preferível ter passado mais tempo a jogar futebol no passeio e a namoriscar as miúdas, sentado no muro do prédio. há argumentos pró e contra, mas não me livro da sensação de que tenho um 'peso livresco' excessivo, por prematuro, e se dei o primeiro beijo aos 18's (olá Carla! onde andarás?) o excesso dos que lera e suspirara escondido na casa de banho é que o atrasou. e isso, isto tudo, ainda permanece. ficaram golos por marcar, ficaram sim. este goal average negativo hoje pesa-me, e há momentos em que sinto tanto peso como parte do desagradável que é sentir-me um tótó romântico, uma volta ao mundo depois convencido que o melhor de tudo é a poesia.


*em calão laurentino, zuca era uma moeda de 2$50, e a quinhenta uma de 50 centavos

terça-feira, 15 de março de 2011

eu amo os meus livros



SONETOS

1.

Quem de meus versos a lição procura,
os farpões nunca viu de amor insano,
Nem sabe quanto custa um vil engano
Traçado pela mão da formosura.

Se o peito não tiver de rocha dura,
Fuja de ouvir contar tamanho dano,
Que a desabrida voz do desengano
O mais firme semblante desfigura.

Olhe que há-de chorar, vendo patente,
Em tão funesta e lagrimosa cena,
O cadafalso infame e sanguinoso.

Verá levado á morte um inocente:
E condenado a vergonhosa pena
O mais fiel amor, mais generoso.

2.

Cantar Marília ouvi, tão docemente,
Que o coração, prostrados os sentidos,
Imaginou que até pelos ouvidos
Seus olhos o assaltavam de repente.

Entrara a doce voz tão brandamente
Quais entram na alma os olhos seus, movidos
Com formoso desdém, quando rendidos
Pisa desejos mil tiranamente.

O poder milagroso da harmonia,
Que no peito em triunfo campeava,
Na mão por palma os olhos seus trazia.

Eu, que no carro fatal atado andava,
Se era vê-la ou ouvi-la, não sabia:
Sei que os novos grilhões não estranhava.

3.

Espargindo dourados resplendores,
De teus anos, angélica Maria,
Nasce o ditoso, o suspirado dia,
Dia das Graças, dia dos Amores.

Juncada a terra de orvalhadas flores,
Em sinal de prazer e de alegria,
Das frautas alternando a melodia,
Travam coreias ninfas e pastores.

Pelas côncavas fragas retinindo,
O brando som de versos sonorosos
Teu nome estão os montes repetindo.

E os sátiros camponeses, cobiçosos
De ver os olhos teus, teu gesto lindo,
Se penduram dos álamos frondosos.

4.

Ao som dos duros ferros que arrastava,
A lira de ouro Corydin tangia;
De Márcia o doce nome repetia,
Mas no meio do canto soluçava.

No rosto macerado, que enfiava,
O lagrimoso pranto reluzia;
E nos olhos, que aos altos céus erguia,
O pensamento intrépido voava.

Não se assombra de ventos insofridos,
Nem com ousado lenho arar intenta
O pólo do futuro nebuloso.

Menos chora terrenos bens perdidos;
De pouco um peito grande se contenta:
Antes quer ser honrado que ditoso.

5.

Tu és, Dircea, filha do Tirreno,
Eu, um dos filhos sou do pobre Alceste;
Mas nem por fado teu tal pai tiveste,
Nem eu por culpa minha sou pequeno.

Bem sei que te pretende o rico Alceno;
Mas, se peles e lãs mais finas veste,
Também no amor o venço, qual cipreste
Excede no robusto ao brando feno.

Deixa vaidades da justiça alheias:
Não desprezes afectos e ternura
Por teres mais cabritos e colmeias.

Faze, Dircea, reflexão madura:
Vê que a virtude própria em mim premeias,
E nele só premeias a ventura.

6.

Não cobre vastos campos o meu gado;
O maioral não sou da nossa aldeia;
Do meu trabalho como, mas, Dircea,
Ainda que sou pobre, vivo honrado.

No jogo da carreira e do cajado
Até o destro Algano me receia.
Qual loura espiga de grãozinho cheia,
Me alegra ver teu rosto delicado.

Se queres minha ser, fala a verdade,
Não vestiras as peles mais vistosas,
As finas lãs tecidas na cidade.

Trajaras das que eu trajo as mais mimosas:
Fá-las-á de mais preço a sã vontade
Com que quisera dar-te as mais custosas.

7.

Amor, nos olhos da formosa Clara,
Armado não de setas, de ternura,
Cruéis vinganças implacável jura,
Guerra fatal aos corações declara.

Dos brandos tiros que dali dispara
Ninguém pode, ninguém fugir procura,
Que do mesmo poder da formosura
Nenhum peito de bronze se depara.

Seus lindos olhos, com desdém movidos,
Pisam desejos mil, rendem mil peitos,
Lançam por terra corações feridos.

Se esquivos causam tão cruéis efeitos,
Inda causam mais ânsias, mais gemidos,
Quando se deixam ver a amor sujeitos.

8.

Não minto, não, se disse que os Amores
Estavam no ar suspensos, esperando
Que tua voz divina modulando
Aplacasse dos ventos os furores:

Ergue, Mafalda, os olhos vencedores,
Vê-los-ás para aqui andar voando,
E, os retorcidos arcos afrouxando,
Largar das tenras mãos os passadores.

Não vês o fulvo Tejo c'o tridente
Os cavalos azuis estar detendo,
As levantadas ondas reprimindo?

Se isto sente, Mafalda, quem não sente,
Que não sentirei eu, ouvindo e vendo
Tua angélica voz, teu rosto lindo?

9.

Estavam as três Graças penteando
O cabelo subtil de Amor um dia;
Qual c'o marfim assírio lhos abria,
Outras andam mil gemas preparando.

Amor, como rapaz, de quando em quando,
Co'a dourada cabeça lhe fugia;
Porém, vê que Eufrosina se sorria,
Porque Aglaia lhe está as cãs tirando.

O Menino, pasmado, vê no espelho,
Por entre os anéis de ouro reluzente,
Branquejar a saraiva da velhice:

Suspira e diz: Oh! Saiba a cega gente
Que Amor, nascendo moço, se faz velho,
Que ter um velho amor, não é tontice.

"Cantata de Dido e outros poemas", Pedro António Correia Garção, Livraria Clássica Editora.

o meu exemplar é uma 2ª edição, de 1965. consta das primeiras folhas, carimbado, que foi uma oferta da Secretaria de Estado da Cultura. lembro-me desse momento. mesmo olhando no tempo e sob os olhos de agora, esse e o resto do caixotinho que me deram foi uma oferta justa. ajudara a implantar um Centro Cultural e a amabilidade tida foi correcta. até que, trinta anos depois, tenho-o, uso-o, leio-o e transcrevo-o e está em excelente estado: como novo. eu amo os meus livros.

porquê?



se bem nos recordarmos a Islândia foi o primeiro país europeu "a dar o berro" aquando da crise financeira mundial iniciada em 2007 pelo famoso rebentamento da bolha imobiliária norte-americana. com uma economia assente em bancaria e aplicações financeiras de alto risco, tudo ruiu mais depressa que, então, voltarem a pôr os barcos na água e dedicarem-se àquilo onde sempre foram bons: a pesca (não é gozo). foi uma escandaleira, contagiou entre outros a Grã-Bretanha que ficou a arder com vultuosos depósitos, etc. se bem continuo a lembrar-me, foram empréstimos de emergência feitos pela Rússia que permitiram à ilha não ir ao fundo.

passaram quatro anos. saltamos de crise em crise, e esquecemos. ajudam-nos a esquecer. não o mau, que esse está sempre presente, seja para salivar os protos-leitores, seja por qualquer desígnio que me escapa e sobre qual não desejo reflectir muito, mas a verdade é que há uma notícia boa vinda de lá e que nos interessa, nós um dos mais "à rasca": está em curso e com sucesso uma revolução islandesa e tem sido 'apagada' dos jornais e dos telejornais, esses pastéis mediáticos feitos para nos adormecer, indignando-nos só na 'justa medida', controladinha.

têm-na ocultado, silenciado perante nós, os "à rasca". surpreende? não. nem pelo atroz jornalismo que considera que só as más notícias é que fazem boas manchetes. é mais profundo, suspeito, é um roçar as bordas das teorias da conspiração de que não gosto, mas para as quais me sinto muito suavemente empurrado. e - palavra! - prefiro um empurrão sério, fdp q.b, que estes maneirismos manipuladores.

porquê? este silêncio serve quem?

porque o sucesso está a ser conseguido fora das receitas formatadas que se impingem por toda a Europa doente. foge à bula oficial e ao rol de medicamentos tão recomendadíssimo que não há quem o queira de bom grado, o Índice Terapêutico Europeu: FEEF e FMI, ou na nossa actual versão suave "desenrasquem-se então lá, mas fazendo como nós mandamos". sem açúcar, só com o sucedâneo da ameaça das alternativas serem piores. serão?

tivemos a manif de dia 12 que é um facto político não possível de meter ao canto, arrumá-lo nos fait divers fortuitos, e uma semana depois continua tudo como dantes. se se mobilizaram 200.000 (mesmo que com o auxílio de sindicatos, mas eles existem é também para isso) em volta dum protesto apartidário, num passa-palavra virtual que só depois galgou para os jornais e tv's, a sociedade civil não está totalmente KO, ainda respira além de gemer - e protesta.

porém, como evitar a 'revolução na rua', que no nosso estado de endividamento financeiro-compromissos internacionais, seria tão perigoso como contratar-me para cozinheiro dum lar de idosos?

constantemente se zurze no estado da nossa democracia, elegendo por norma o bombo de serviço, i.e. o partido e a cara de quem está no Governo. deitando fora do prato os providencialismos, os 'salvadores da pátria', também suspeito que não há lugar à criação dum novo partido político que seja aglutinador dos descontentamentos. creio mesmo que as divisões ideológicas não permitem governos de 'salvação nacional', tipo centrões ou abas reunidas. não funcionaria, que os ódios de estimação ideológica são tantos e tão ensimesmados que mais depressa se tornavam espiões-boicotadores uns dos outros que efectivamente legislariam e governariam num interesse comum, com sentido de Estado. penso que é dentro dos partidos existentes que há que transformar. dar voz à rua e aos silêncios dos descontentes. alterar o habitual numerus clausus que nos impinge quadrianualmente como caras-candidatas a chefe de todos quem um concílio sempre dos mesmos previamente escolheu. concílio inquinado por interesses viciados, clientelas salivantes, rotundos status e que tudo fazem para não o perderem. então escolhem o seu 'chefe' que nos irá ser apresentado como a única de já parcas opções. assim não vale, é democracia a fingir.

se se sente o apelo da política, mais a mais se por descontentamento, não é errado militar. pelo contrário. a Islândia encontrou a sua via - e parece que funciona. a fórmula, para cá, na verdade descreio dela. há tipicidades próprias e temos muito mais holofotes apontados que eles no período mais crítico, mesmo não estando ainda em falência técnica assumida, como eles tiveram de assumir, engolir e dizê-lo: o futuro da moeda única europeia, das políticas fiscais únicas, etc, passará um bom bocado pela forma como nós iremos reagir, embora concerteza já existam os planos B e até o C. a revitalização dos partidos políticos só se consegue pela injecção maciça de novas opiniões, novas vontades, novos votos que elegerão alternativas ao mais-do-mesmo que nos cansou. esvaziar de inevitabilidades más a pescadinha de rabo na boca, interromper o círculo, criar alternativas sem fazer ruir o edifício.

vale o que vale. é a minha ideia, hoje. ninguém ma pediu e ninguém lhe ligará nada em especial. mas tenho um blogue onde pespego tanto coisa, incluindo disparates e outras coisas assim bonitas, e não vejo porque é que não hei-de aqui colocá-la. ah! não me vou inscrever em nada. nada de nada. sou excessivamente individualista para isso. eu.

ps: post sob inspiração na leitura da crónica de Pedro Lomba, no Público de hoje (sem link, que a visualização é só para assinantes-pagantes)


(na imagem: a versão - de 1590 - de Abraham Ortelius do mapa da Islândia, atribuído ao bispo dinamarquês de Gudbrandur, Þorláksson. encontrado aqui. vénia)

Atlântida ibérica


tem a ver com maremotos (tsunamis, mas existe a palavra própria em português) mas não tem a ver com 'a crise'. uma alternativa de leitura para desempoeirar!

segunda-feira, 14 de março de 2011

'Te odio', by Los Seis Días


'Te odio', dos barceloneses "Los seis días".

(tem de se ver no YouTube, mas vale bem o clique suplementar)

quem mo mandou disse-me: «não tenho tomates para publicar isto».
eu tenho, tenho-os. cinquagenários, velhos e rezingões. irritadiços até à menor palha, tanta vez.
vendo bem, ouvindo, acho que não é caso para tanto. susceptibilidades!


a letra:

Te odio
por la nota que dejaste al despertar
huyendo

Te odio
por los dias que has estado sin estar
dentro de mi

Te odio
por dejarme a medias antes de llegar
al extasis

Te odio
por tu boca que carece de verdad
y sigue asi

TE ODIO
COMO NADIE EN ESTE MUNDO TE ODIARÁ
TE ODIO
COMO NO SE PUEDE ODIAR A NADIE MAS

Te odio
porque siempre sigues, siempre sigues, siempre sigues, siempre sigues ahí...

Te odio
tanto que podria hacerte resucitar
del miedo

Olvidaste mi alma al cuaderno en el que solias preguntar quantos dias quedan para vernos tengo el corazon apunto de estallar


TE ODIO
COMO NADIE EN ESTE MUNDO TE ODIARA
TE ODIO
COMO NO SE PUEDE ODIAR A NADIE MAS

Te odio, te odio, te odio, te odio, te odio

(intervalo)



porque ainda é a poesia que de nós diz quase tudo.

livros perdidos neste trânsito


... e dou com o bom do Gabeira, no FB! até ele! (já o tinha anexado como 'amigo' mas só hoje o visitei)
Fernando Gabeira de que li um único livro, nos anos 70/80's ("O que é isso, companheiro?"; jóia que me desapareceu), e a quem perdi o rasto depois. ultimamente, em contacto com malta dos brasis tenho perguntado por ele. lá me vão dando notícias. assim-assim, valha a verdade. mas "lêmo-nos" no FB. coisa boa, isto, que tanto permite.

me House, you?...


leio que o dr. House está de regresso. 7ª temporada. hoje, às 21:30, na Fox. eu, seu under ego assumido, não vou perder :-)

PEC-sonhos


para no irmos aclimatando ao PEC 5, 'eles' lá vão soltando as dicas.
obviamente afectará mais os Opel Corsa que os Lamborghini Aventador: a uns usámo-los, e para isso comprámo-los. aos outros... vemos as fotos nas revistas e pela net, e lá calha uma vez ao ano ver um a passar. toda a diferença!

turistando maldades




leio o post-pub no Facebook e o pensamento imediato é: «vá lá que não é em Mourão!» vá lá, porquê?
porque nada do que gosto - e gosto do conceito 'turismo rural', evoca-me muito do que desejo - tem escapado à conspurcação contínua: poesia, literatura francesa, as músicas que me foram queridas.
deliberada? certamente que não. mas que é insensível, é. por aqui se vê o peso específico do proclamado como importante, a sua real importância.
zero tem quatro letras, tal como outras 'palavras bonitas'.

golfe? disse mesmo... golfe?



(para além do sensacionalismo demagógico do título - o turismo é importante para a economia)

... este gajo sabe, calcula, vá lá, que o país está em vias de fechar por desistência de ânimo? que os transportadores reclamam uma correcta diminuição do imposto sobre o gasóleo? isto, neste momento, é... é tudo menos CORRECTO!
o golfe não é um bem essencial. mais a mais sabendo-se que no previsível PEC 5 - já em marcha, nos 'laboratórios fiscais' - muitos bens ESSENCIAS perderão a taxa de IVA abonatória passando à 'normal', a dolorosa (de 6 para 23%!).
se por um lado o país não pode parar - e há que legislar o que for considerado necessário para revitalizar sectores - não se compreende como, neste momento, isto está em cima da mesa. há prioridades, e o sub-sector 'golfe' perde naturalmente relevância quando em confronto com tanto que nos aflige. falta de tacto político, em versão 'simpática'!



(na imagem, "Prisioneiro do Estado", de Zhao Ziyang (Casa das Letras, 2010), que foi primeiro-ministro da República Popular da China, ostracizado após Tiananmen sob mil e um pretextos, incluindo-se a sua paixão pelo jogo de golfe)

(a tentar entender França'12)


"(...)rapprochement entre Copé et Sarkozy n’était pas une bonne stratégie pour 2012 étant donné les positions extrémistes concernant le débat sur l’islam que Copé veut lancer au sein de l’UMP pour l’instrumentaliser"; "le débat sur les religions n’est pas l’affaire des partis politiques et d’autant plus lorsqu’il vise et conduit à discriminer ou stigmatiser une population selon les mêmes méthodes que Marine Le Pen"; "Derrière le débat sur l’islam et la laïcité se cache la peur de l’arrivée de nouveaux migrants du fait des confrontations politiques dans le monde arabe, cette révolution démocratique qui a d’autre part suscité l’admiration et le soutien de l’ensemble du monde démocrate occidental. Certains agitateurs de cette peur, comme la députée UMP Brunel, orientent et font converger les opinions islamophobes et xénophobes"; "La majorité des musulmans français sont des laïcs engagés politiquement dans les différents partis de droite comme de gauche";

...e não é 'dos meus'! que dizer, mais? :-(

googlando-me, sem querer: "onde está Wally?"

revelando-me, sem querer.

sábado passei a tarde a arrumar livros, coisa sem fim e ainda bem que é assim. é neles que estou 'em casa', sem chatices, que mesmo as memórias que me trazem consigo triturá-las de forma a... aceitá-las. triturar, porque não o consigo por menos. aceitar, porque todos e cada foram partilhados e a traição literária é a única aceitável. (escrevi "montes" enquanto arrumava. mas 'já não é importante!...', como o sinto e me dói!)
calhou que comecei a adoecer lá, nessa tarde, mas só à noite me caiu em cima 'tudo', com a merda duma sopa de alho francês que fiz, provavelmente segui mal as instruções do pacote, e comi dois pratos a ferver com ela mal cozida. acordei só à bocado! isto cá dentro é frágil e qualquer coisa me arruma. fim de aiar.
naquela tarde encontrei o amalaya!, de Silvia Zayes (edições tema, 2006), e pensei logo em fazer um post no Facebook dedicado à amiga Lola Canosa, galega militante e uma das gargalhadas que me acompanham no autismo informático que é aquela paranóia do FB. é também por ela que vale a pena andar por lá!
precisava duma imagem da capa do livro - cá em casa, só o teclado e o monitor funcionam, nem impressora, quanto mais o scaner - e pus-me a googlar, santo dos santos que me desenrasca de quase tudo que preciso. só que, desta vez, encontrei-me! dei por mim, cara chapada e ao que me lembro de olho disfarçadamente guloso, a assistir à performance da boa da Silvia na apresentação no Clube Literário do Porto, no já tão longe 2007, do tal livrinho (estou em 5 fotos, vejam lá...), no Filo-Café "Ritos e Rituais", organização da Incomunidade, uma das boas iniciativas do Alberto Augusto Miranda & Cªa, que me fazem lamentar este estar tão longe de tanto que gosto neste 'desterro' na lezíria, tão perto de Lisboa que acaba por ser longe, tão perto de tanto mais que, como agora, leio e não acredito como houve um tempo em que me mexia e de facto tinha um outro mundo, vivido. (e continuando, à procura da capa que não encontro, encontro::

"Um filo-café é um triciclo. Movimenta-se pelos próprios. Não tem petróleo. A sua combustão é activada pelo desejo. Não se paga, não se paga. Apaga-se. E vem outro. Cabeças sem trono. Um filo-café lembra-se. Desaparece sem dor."

fico-me por aqui. matutando sobre o que vale a pena e o que foi excessivo. o que valem 'os livros' («"só pelas palavrinhas bonitas?» - perguntaram-me e não o esqueço) e se é só assim, tão redutor que ofende (ofendeu). se calhar ser-se puta é melhor que ser-se filho-da-puta, também o penso. quero apagar três anos da minha vida e não consigo. foram importantes, mesmo que neste fim acabe como estou: googlando-me e, sem encontrar o que desejava, acabando a reflectir sobre o inferno das coisas, minha estante desarrumada.

sábado, 12 de março de 2011

at last away?,.. new heaven, I dream... should I stay?



levou-me. não sei bem a quê, ou onde, mas levou-me. e tou lá, a gostar de estar lá...


(o original, Etta James, aqui)

cios perigosos



a filha-do-outro já cá anda a meter o bedelho.

versão B) os bedelhos de cá já andam a querer acasalar com ela.

afinal eu Gosto do Acordo Ortográfico



...quando leio notícias do meu país.

a sensação de que há 'erro', de que está tudo errado, é um filme e irei acordar e não é nada assim. que sabemos escrever bem o nosso português Portugal. que é um pesadelo, um erro. um erro, que com o afinco de fazer bem e escrevê-lo melhor para amanhã ser bem lido, ortograficamente nos corrigirá.