terça-feira, 8 de março de 2011

cá do gordinho :-)

millennium interruptus




li de forma voraz os 3 volumes, injurei sobre a campa de Stieg Larsson por não (me) ter deixado os 10 prometidos, mas o mais marcante foi a personagem Lisbeth Salander. senti-a. identifiquei-me. justifiquei-a e justificou-me. foi um ir à missa com confissão e penitência mas sem deixar de gramar o diabo.
ainda não vi o filme. sem pressas: tenho "a imagem" construída.

luxúria, coisa boa




SEDA PURA

Oscila a mão na cintura
equilibrando a carícia
na dobra da seda pura
onde o segredo é difícil

A boca prova o prazer
onde o corpo se arrepia
e os dedos já se esgueiram
na roupa que se desvia


"Inquietude", Maria Teresa Horta, Quási Edições, 2006


eu canto as gentes vivas e as ausentes
as coisas por fazer ou já desfeitas
as empenas das casas levantadas
as empenas das casas esqueléticas

o vento a flor a pedra a dor a chuva
o perfil a palavra a mão a fome
o verme o pássaro o insecto a nuvem
e o mar e o grito e o pão que o tempo absorve

mas sobre tudo eu canto ai sobre tudo
este morrer de amar cada segundo
horizontes por que me desfiguro
à mortal palidez de um céu inútil

"Gritoacanto 1970-1974", Glória de Sant'Anna, Cooperativa Árvore, 2010

Solo da Paixão



O solo da paixão não dura mais
que um dia antes de afundar, não mais
que esta noite ou esta noite e um dia
e o clarão da noite antes de amargar.
Um dia solar eu vou lhe entregar:
Que ela seqüestre o mundo por um dia
(um dia só será que já vicia?)
Depois devolva tudo: terra céu e mar.

"Guardar", António Cícero, Quási Edições, 2002


A esquina estava lá
e a árvore prevista
mas não eu.
Falto-me?
Faltei-me
mas nem sempre é necessário não faltar.
Basta o simulacro de árvore na esquina
basta a esquina sem estrada onde passei
basta ouvir-me o silêncio em cada passo.

"Viagem de Inverno", Hélder Macedo, Presença, 1994




Nas tuas mãos começava
O mundo
E nada
Nem o dia
Podia ser mais perfeito

Tu eras o bicho cinzento
Do entrelaçado dos limos
O da multidão
O que deslizava na água
Como a sombra.

Agora alguns anos depois
Um anjo caído
Encontra ninho
No colo em sangue do meu peito.

"Manual para amantes desesperados", Ana Paula Tavares, Caminho, 2007

as palavras em fogo



Está quieta. Não passeies em mim as mãos dessa maneira. Nem a boca. Nem a boca na robustez com que a deixas cair tão lenta, tão sonora, tão cheia de vento. Devastas-me. Sinto-o pelas veias, pelas têmporas. Pela carne e pelo peso.
Vou apagar o cigarro, já não queima. Agora, só a tua língua que tem o amor com outra aderência. Sobe-me essa surda serpente, lava-me os movimentos. Eu não paro de sentir coisas dentro do meu ventre. Palavras que sopras? Um pássaro, o mais certo, que para ali o terás espantado. Fugiu-te da boca. Se conseguires, demora as mãos um pouco mais perto. O seu coração bate. Lateja de tanto deslumbramento.
Não, não é o meu.
Meu é só o mar, a água ali dormente ou o que então assim reaprendo. Mas ferve. Não te apercebes? Vá, devagar abre-lhe o coração.


"Os Materiais do Amor seguido de O Desafio à Tristeza", Eduardo White, Ndjira, 1996

três poemas da Gilda, cestinhos de flores





A aurora matutina
Empalideceu
A metáfora dos segredos
Esculpidos
Nas folhas mortas do destino

.

Chorei uma maresia de lágrimas
Vesti de luto
Meus padecimentos
Deles me evolei
Ciente de que só se faz o amor, amando

.

As diferentes linguagens do erotismo
Dão plasticidade aos afectos
Num percurso interior que vai muito além
Da nudez dos corpos

"Sem nada, sem mãos, sem tempo", Gilda Maria Antunes de Vasconcelos, Pé de Página Editores, 2003

um Regresso e um mimo 'beat generation'



REGRESSO

Regressar ao poema.
Ao reino das palavras.
Se é que atingir eu sei
essa fronteira extrema.

Por dias, meses, anos,
minha alma andou perdida
por outras eiras, lavras
onde somou desenganos.

Regresso extenuado
sem pudor e sem brio.
Palavras, por quem sois
aquecei-me do frio.

"Novelo de chamas", Jorge Viegas, edições ALAC (África - Literatura . Arte . Cultura Lda.), 1989

se ao procurar este livro foi com este poema em concreto na ideia - mas por razões tão diversas das do Jorge, eu sei - estava longe de imaginar o sorriso que este 'regresso' me trouxe. é que dou com este amor de dedicatória, as tais que só se permitem aos amigos, sempre sempre a mimarem-nos com excessos e tão bons que são e sabem quando, como agora, redescobertos: "Ao Carlos Gil, um dos mais representativos escritores da 'beat generation' moçambicana, e um amigo. homenagem do autor, 19/5/2007". bolas, Jorge! arrasaste-me ehehe

segunda-feira, 7 de março de 2011

tudo é tudo, e entretanto... dança-se

sem dúvida que é para dançar!

as memórias de jasmim


comecei hoje a leitura d'"O Profeta", de Khalil Gibran. livro que tenho há supostas décadas mas que, julgo, nunca mais abrira além do folheanço inicial. tal como tantos, estantou-se e nunca mais me lembrei dele. hoje, por razão bem diversa - hei-de contá-la, merece - dei com ele e trouxe-o para cima, para acompanhar a leitura do "Dublinesca" (Vila-Matas, já citado) que me entusiasma. só que, meu velho hábito, nunca leio só um de cada vez. e como terminara a 'novela futurista' de JP Borges Coelho...

bem, acordemos nisto: a revolução de Jasmim não foi indiferente. cruzo linhas. elas cruzam-se e cruzam-nos. (premonitoriamente? ele há coisas...) lera "O Palestiniano", António Salas, talvez uma semana antes da primeira eclosão popular, a do Líbano. ora Khalil Gibrain, poeta, era libanês. resistir-lhe? foi tempo demais! ou cada livro tem o seu próprio tempo, e com a naturalidade das coisas simples (gosto deste cliché) chegou a hora dele.

não vou transcrever nenhum dos poemas, até que são para ler além da poesia - o momento urge-o, e ainda não aconteceu assim. porém, como julgo que este poeta será para muitos um desconhecido transcrevo a info constante à laia de prefácio do livrinho, que já agora é da Editorial A. O., Largo das Teresinhas, 5 - Braga (ele há coisas...) e a edição data de 1978, época em que me situo a viver ou em Oledo (simpática aldeia perto de Idanha-a-Nova) ou em Monsanto, a tal aldeia histórica que ganhou um prémio d'a "mais portuguesa de Portugal" (?), e donde tenho tantas memórias, confusas, do vivido e do que não fui eu que vivi. e ciúmo-me de tudo, isto também é pacífico.

ora então vamos lá:

(sobre o autor)

"Khalil Gibrain nasceu em 1883 em Becharre no Líbano, duma antiga família cristã. O avô materno era sacerdote do rito maronita.
Em 1894 emigra para Boston, em companhia da mãe, mas em 1887 regressa sozinho ao Líbano para prosseguir os estudos na Escola da Sabedoria de Beirut. Em 1901 visita a Grécia, a Itália, a Espanha, depois instala-se em Paris, para estudar pintura. Nessa época escreve OS ESPÍRITOS REBELDES, livro que viria a ser queimado numa praça pública de Beirut, por ordem das autoridades turcas e condenado como herético pelo bispo maronita.
Em 1903 Gibran é chamado à América para assistir à mãe moribunda. Permanece em Boston, onde se dedica especialmente à pintura. Em 1908 regressa a Paris e trabalha na Academia Julian e na Escola de Belas Artes, convivendo com Rodin, Debussy, Maeterlinck, Edmond Rostand e outros homens ilustres.
Em 1910 instala-se definitivamente em Nova Iorque e consagra o seu tempo à pintura e à poesia. Nessa cidade virá a morrer em 1931. O seu corpo, levado para o Líbano, repousa na cripta do Mosteiro de Mar Sarkis, em Becharre."


(sobre o livro)

"Khalil Gibran foi a um tempo pioneiro do ressurgimento da literatura árabe no final do séc. XIX e notável artista da língua inglesa. A maior parte das obras, escritas em árabe, foram re-criadas em inglês pelo próprio autor. Se estas versões inglesas foram bem acolhidas nos meios literários, a notoriedade no mundo ocidental veio-lhe a seguir à publicação de O PROFETA em 1924.
De facto O PROFETA é a sua obra prima. Aos quinze anos o autor redigiu o primeiro esboço em árabe que mais tarde foi remodelado e ampliado duas vezes. Esta terceira versão, utilizada como base do texto inglês, sofreu ainda quatro revisões de fundo, antes de vir a público. O autor queria estar seguro de que cada palavra escrita transmitia fielmente o melhor de si mesmo.
Esta versão portuguesa foi tentada tomando uma que outra liberdade na disposição rítmica dos poemas e acrescentando os títulos."


ambas as notas não estão assinadas. presumo-as de autoria do tradutor, Manuel Simões

mamas & livros


o calendário mais bonito do mundo.

mesmo qu'aquele do barbeiro do Xipamanine, que tinha uma loiraça com um par de mamas que nunca esqueci (provavelmente o 1º par-de-mamas que me interessou "a sério" na vida ;-)

(o link foi prenda dum amigo :-)

a puta da vida





na busca de drogas baratas - a vida tá cara, porra! - comprei um maço de cigarros 'Silverado', que brilharam-me os olhinhos quando vi, em destaque, que o seu preço é de € 2,20.

diz o rótulo que tem sabor a cereja (podia ser pior), sabe e cheira mal, e pôs-me a casa a cheirar a bar do velho Cais do Sodré. cigarro de puta rasca, eis.

mais... vantagens? é tão horrível que fuma-se menos!

mesmo assim...

na minha rua estiveram a podar as árvores. é uma necessidade, até pela sua sobrevivência.
mesmo assim... está triste, a minha rua. sobreviverá e voltarão as copas que nos embelezam olhos e muito mais. outras. mas...

isto é da idade. habituamo-nos, afeiçoamo-nos, e sentimo-nos roubados quando nos tiram o que nunca foi nosso mas julgávamo-lo privado. questões de senso, questões inexplicáveis em juízos certinhos. é da idade, e a minha rua está mais envelhecida.

(sem imagem)

onde estão as bandeiras das nossas janelas?


a nossa 'final dos 60 metros'. colectiva. de todos. Obikwelu já fez a sua parte... e ganhou!

na imagem, edifício dum banco português engalanado de bandeiras nacionais aquando do Euro 2004. de futebol.
estamos em 2011, e o €uro é outro.

gostava de ver os edifícios dos bancos, os públicos, mesmo as casas particulares mais devotas ao Nacional, engalanadas. solidariamente engalanadas. uma força colectiva, um grito além das "redes sociais". uma praça Tahir nacional. ouviriam, veriam, nas Bruxelas distantes? a srª Merkel prestaria atenção? os homens de negro assustavam-se e arrumavam as suas negras pastas? e a Moddy's? a Standard-sei-lá-quê? isto terá 'notação'? se sim, negativa não é! se não, "caímos de pé"

o desporto em Portugal


sem cinismos, esta é para mim a notícia desportiva importante deste fim-de-semana. Portugal é grande às vezes, não ponhamos "na borda do prato". somos o que queremos ver, lente, espelho.

bom dia, Hyde Park global :-))) estou a montar o meu escadote no meu speakers corner atascado ;-)

... e em jeito de acrescento, mais longo:

o atletismo sofre do mal congénito do nosso desporto: tudo que não seja pontapé-na-bola (a três cores) é olhado como "paisagem" sem volume relevante. e como somos pouco dados a apreciar arquitectura paisagista, ecoturismo, jardinagem e outras coisas belas da natureza domada, arranhamo-nos nas silvas que teimamos em manter à porta das nossas casas.
Obikwelu é um atleta de alta competição num desporto que nem é de multidões nem de massas. mais, onde cada disciplina tem um treino específico. até recentemente treinava em Espanha onde, talvez pela proporcionalidade da dimensão, encontrou melhores meios para manter o seu nível. julgo que por causa do escândalo de doping que machucou (e bem) a sua treinadora - o marido acho que chegou a estar detido - mudou quer de treinador quer de local, e está cá. falando ainda de cor, penso que em boa coincidência isto aconteceu porque, finalmente, há cá condições de treino em Inverno e a tal celebérrima pista coberta que compramos para o Europeu (? ou Mundial?) que organizamos há k'anos no pav. Atlântico, e depois do evento ficara desmontada e arrumada, incapaz de servir a alguém, finalmente, repito-me, finalmente encontrou pouso e utilidade e já pode e está a ser usada. se sim, ainda bem.
nota final: não fiz o post a querer morder a tribo do futebol. o atletismo sempre foi o meu desporto preferido (cheiro de gasolina à parte), seguido do basquetebol. não sou indiferente ao fenómeno do futebol mas olho-o muito como um circo, e espelho de nós, até. talvez daqui o meu desagrado, que acho que se nota, com o excessivo peso qu'ele, futebol, tem. lhe damos. e merece? às vezes. mas não tantas como se faz e diz. menos, muito menos, por até o negativo, enorme, ser tão valorizado. parece paranóia. se não é, é obsessão

Facebook e escadotes


o "pensamento profundo" da manhã: o Facebook é um Hyde park gigantesco, sobrepovoado de speaker's corner individuais e que se amigam num vozeirão global.
e entendemo-nos? tal como a ilha que sonha encontrar mais ilhas para formarem um arquipélago, vamo-nos 'partilhando'.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Sophie Zelmani, sonhadora


não conhecia. gostei. uma voz tão enleante (mortífera?) como a das sereias dos sonhos. a ouvir com precaução, "gordinho" bem resguardado senão ainda sai paixão ;-)

às vezes penso que sim, às vezes penso que não

muito sul, muito longe


pensar literatura é pensar nos seus autores até antes dos livros que nos deram. isto cruza-se com a presença assídua nos comentários no Facebook dum amigo que sei ser residente na África do Sul.
e, de repente, só me recordo de ter lido três* autores de lá: Nadine Gordimer, J.M. Coetzee e Christopher Hope (deste, um único). nada sei dos novos autores, e por certo os há!


* não incluí Tom Sharpe deliberadamente. creio ser até natural da GB, embora tenha grande parte da vida na Af. do Sul, tema/cenário aliás de muitos dos seus livros - não esquecer nunca a pândega figura do Kommandant, eheh

(imagem aleatória, by net)

robertos literários

Roberto Bolaño

Robert Walser


por causa do comentário que fiz à escrita de Vila-Matas, "escreve num galope que tem a leveza das carícias", reflecti sobre outros onde aquelas duas características me impressionaram, isoladamente: galope: Roberto Bolãno; carícia: Robert Walser.

os Robertos complementam-se, e renascem Enrique? :-)

Enrique Vila-Matas

bartleby's, shandy's...



"Dublinesca", de Enrique Vila-Matas. estou ansioso.
eu sei que tenho famas de me maravilhar com facilidade. mas este homem escreve num galope que tem a leveza das carícias.

ps: fui afortunado em conhecê-lo há uns anos atrás. um momento especial, que ele era um monstro da literatura e eu sou o cg, isto que sabem.
sei lá como engraçou comigo e no bar dum hotel pleno de escritores famosos deu-me a sua atenção, 'leu-me a alma' e falou-me do que é importante nisto de ser um apaixonado pelas palavras.

a casa dos espelhos


comecei o novo João Paulo Borges Coelho, "Cidade dos Espelhos" (da Caminho, 2011). ele bem avisa na capa: 'novela futurista'.
conforme das (ainda poucas) páginas vai escorrendo uma violência inexplicável mas que tem que ter uma explicação, vou-me lembrando dum de Adolfo Bioy Casares, "Diário da Guerra aos Porcos" (Cavalo de Ferro, 2006), onde a minha perturbação com o mistério da violência foi quase inocente até talvez o seu meio, ao momento da descoberta do fio de lógica ilógica que o transformou num incómodo reflexivo acerca do futuro.
e aqui? ainda não sei, mas já estou prisioneiro dos meus medos.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Jeanne Duval


só esmiuçando a vida privada duma figura pública se encontram as "Jeanne Duval" da História. esta, a própria, foi a companheira de Charles Baudelaire durante anos, partilhou bebedeiras e ressacas e, escrevem as maliciosamente documentadas línguas dos historiadores, além de prostituta deu-lhe matéria física q.b. para o inspirar a escrever "As Flores do Mal", ou "Paraísos Artificiais", com a chamada razão de ciência.

cem anos após a sua morte, mais coisa menos coisa, o grande poeta maldito foi finalmente admitido na Academia Francesa e deixou de estar proscrito nos livros escolares. sobre a boa da Jeanne é difícil encontrar um pé de página que a refira.

eu, sei lá porquê, nos últimos tempos cravou-se-me no pensamento e o nome baila-me com insistência. ainda tenho de organizar isto para tentar perceber este fascínio específico (o lado obscuro das grandes obras? sei lá...), relativo a uma referência de que tomei conhecimento há umas duas décadas! o que me estará a querer dizer o subconsciente?


(imagem aleatória, sacada algures na net)

"pour l'ensemble"


Henry James e George Du Maurier foram amigos íntimos - se é que HJ alguma vez se permitiu que uma amizade atingisse a intimidade terá sido com ele. conterrâneos, artistas - James romancista, dramaturgo e crítico literário, expoente da época vitoriana na literatura; Du Maurier pintor mediano mas ilustrador de méritos reconhecidos -, amigos tão unidos como o conservadorismo de HJ permitia, não vendo em Du Maurier um rival nas letras, conheceram em vida destinos diferentes às suas obras, que deixam de correr em paralelos distintos e sem choques competitivos a partir do momento que Du Maurier, quase cego e desenhando com dificuldades casa vez maiores, resolve, quase que como entretém, escrever (ditando-o à mulher) um romance: Tribly, considerado o primeiro "best seller" da literatura.

toda a obra de Henry James, romances, novelas ou peças de teatro, no seu total não terão atingido dez por cento das vendas daquela peça única (houve um 2º, mas tão fraquinho que não se leva em conta) de Du Maurier, cálculos por baixo vendendo 250.000 exemplares entre a Grã-Bretanha e os Estados Unidos. teve várias adaptações ao teatro, que West End e Broadway, não existindo uma Hollywood além dum buraco às portas do deserto de Nevada, eram então o Totoloto dos escritores, e fizeram de Du Maurier um homem rico. James, caso não tivesse fortuna pessoal nunca conseguiria com os proventos da literatura suportar a displicente vida de "english gentleman" que gozou em Londres após ter-se lá radicado e, até, obtido a nacionalidade britânica (era norte-americano por nascimento.)

se pegarmos num manual competente de história da literatura Henry James tem lá lugar próprio e indiscutível. George Du Maurier não está lá, duvido mesmo que apareça no espaço de rodapé. isto a propósito de tudo. e sim, também li "O Código da Vinci" e diverti-me. mas quando peguei no livro seguinte esqueci-o, e desse lembro-me embora do best seller só recorde que era giro mas faltava-lhe uma jovem e gaiata modelo a posar nua, pour l'ensemble, como em Tribly.

a escrita de todas as desilusões: A praia




A praia

a maré subiu com ímpeto e recolheu-se ao Grande Lago da História desapiedada do seu rasto, levando consigo tudo que a areia não prendia tão solidamente como só é sólida a fé ou a impossibilidade. as raízes mais ténues soltaram-se, envolvidas no ciciar predador que as chamou às origens. a praia ficou deserta das tralhas do longo dia de veraneio tropical, e outro mar, o continental, foi inundado de náufragos, bóias uns dos outros.

depois as águas acalmaram. um novo ciclo emergiu e a praia retomou o seu aspecto de costas e ventre da vida, murmúrio suave de ondas e das oscilações da sociedade.

na natureza nada se perde e tudo se transforma, mas por vezes sentamo-nos a olhar o mar e perguntamo-nos do porquê da sua violência, esse músculo exibicionista, se, quando serena, as conchas na praia continuam as mesmas e as pegadas dos caranguejos são iguais às de antes da maré. e perante tanta naturalidade e beleza ninguém leva a sério as cores dum bocado de pano pendurado num pau: a fé esvai-se na areia da vida e as impossibilidades continuam iguais.

os náufragos? esses, nem para afogá-los a maré os levou a sério. esses, tinham uma insuficiência de raízes historicamente endémica que só à custa de vistos turísticos e lábios mordidos se resolveu, lágrimas daquela praia que o mar lava, lava, lava, diluindo-as sem espuma ou ruído no Grande Lago da História.

Antonin Artaud em dia de sol. fujo ou fico?


Não podemos viver eternamente rodeados de mortos e de morte.

E se ainda restam preconceitos há que destruí-los.

"O dever"

Digo bem

"O DEVER"

do escritor, do poeta, não é encerrar-se cobardemente num texto, num livro,

numa revista, donde não mais se libertará, mas pelo contrário sair para fora

para sacudir

para atacar

o espírito público

senão

para que serve?

para que nasceu?



A.A.




in "Carta Aberta... aos Poderes - Manifesto surrealista em defesa da libertação do espírito", Antonin Artaud, Padrões Culturais Editora, 2009

Darwin explicado em beijinhos


lido à bocado (neste excerto, com refª a finais do séc. XIX):

"(...) ao convencer uma rapariga de que se trata dum prazer inocente, os nossos dom-joões só pensam em levá-la a sucumbir e conseguem. Pelo absurdo, provam efectivamente que o beijo nada tem de frívolo e que se trata, sobretudo, para retomar a expressão cínica de um humorista, de «uma maneira de perguntar no primeiro se o rés-do-chão está livre». De facto, para as meninas de boas famílias, o primeiro beijo a sério só podia ser concedido depois do noivado, como símbolo eloquente da dádiva mais total."

História do Beijo, org. de Gérald Cahen, Círculo de Leitores, 1998; 1 - Rituais, Sagrados, Oficiais; "do Sagrado ao Íntimo" - "Amor ou sexualidade?", por Jean Claude Bologne

é giro ler a história das emoções, das coisas, nossa. determo-nos em sorrisos que não conseguimos classificar tão facilmente como parecerá.

candura? e porque não? pronto, tá bem: investigação histórica... amalandrada ;-)

a crise dos trocos pró tabaco


ontem à noite chateei-me com o café para onde ultimamente tenho ido ler ao serão. muito porque é dos poucos onde se pode fumar, que no resto é o típico com a combinação écrã de tv gigante + futebol + telenovelas, e tudo que esta opção trás atrás. o problema foi a velha história das máquinas de venda de maços de tabaco - e os trocos para fazê-las cumprir a tarefa que o estabelecimento arranjou ao decidir atender-nos através delas.

enquanto me tiram o café abatanado peço troco para uma nota de 10 euros. resumo do diálogo: «ah! não há... a máquina está cheia, sabe, e ela não é nossa... não há trocos...» -; «como? então e agora?»; «pois é, não temos...»; «mas a máquina está aqui, dentro da vossa casa!»; «mas não é nossa! não, desculpe mas não temos trocos para tabaco!»

deu-me uma coisinha ruim. mesmo. passo-me com esta ligeireza de encolher d'ombros "cagando-se" para o cliente.

«deixe-me ver se entendo... quero pagar uma despesa de quatro euros sem ser com uma nota de 50 ou 100 euros: é uma de 10. e diz-me que não tem troco para isso, o que acho uma gestão péssima da casa. argumenta que "a máquina não é minha". mas o tabaco que se compra neste café é através dela. eu sou só um cliente que quer comprar e pagar. a forma como o senhor gere a venda dos produtos que estão para venda dentro do seu estabelecimento é-me indiferente: eu sou o cliente. o senhor optou por atender-nos através duma máquina para um produto, e para outros fá-lo pessoalmente, aqui ao balcão. caso eu quisesses pagar bebidas ou comidas do mesmo valor e com a mesma nota, existia o problema que levanta? suponho que não!»

não responde. olha-me duma forma que suspeito não ter percebido nada. e repete, confirmando a incapacidade de ouvir e perceber além do que assimilou como seu e única versão possível: «mas a máquina não é nossa!»

deixo ao balcão moedas certas para pagar o café e vou-me embora sem o beber - entretanto a chávena ainda não enchera. «então desculpe o que vou fazer mas não vou beber o café. fica aqui o dinheiro. não vou beber o café onde depois não posso fumar um cigarro como sempre fiz, não os tendo, havendo-os cá e o senhor a não mos querer vender»

nada. ficou calado. daqui a uns dias volto lá. sem intenção de repetir voluntariamente nada, mas estarei de olho aos pedidos de trocos ao balcão para ver se já perceberam ou não como é que se tratam clientes, sejam eles de chupa-chupas de sabores ou de lagostas suadas. então tomo a decisão final: fico, volto, ou saio e kaput.

eu acho que se devem sempre dar duas ou três oportunidades perante o erro. e algum tempo para ele ser entendido. mais que isso é que é parvoíce.