quarta-feira, 2 de março de 2011

Jeanne Duval


só esmiuçando a vida privada duma figura pública se encontram as "Jeanne Duval" da História. esta, a própria, foi a companheira de Charles Baudelaire durante anos, partilhou bebedeiras e ressacas e, escrevem as maliciosamente documentadas línguas dos historiadores, além de prostituta deu-lhe matéria física q.b. para o inspirar a escrever "As Flores do Mal", ou "Paraísos Artificiais", com a chamada razão de ciência.

cem anos após a sua morte, mais coisa menos coisa, o grande poeta maldito foi finalmente admitido na Academia Francesa e deixou de estar proscrito nos livros escolares. sobre a boa da Jeanne é difícil encontrar um pé de página que a refira.

eu, sei lá porquê, nos últimos tempos cravou-se-me no pensamento e o nome baila-me com insistência. ainda tenho de organizar isto para tentar perceber este fascínio específico (o lado obscuro das grandes obras? sei lá...), relativo a uma referência de que tomei conhecimento há umas duas décadas! o que me estará a querer dizer o subconsciente?


(imagem aleatória, sacada algures na net)

"pour l'ensemble"


Henry James e George Du Maurier foram amigos íntimos - se é que HJ alguma vez se permitiu que uma amizade atingisse a intimidade terá sido com ele. conterrâneos, artistas - James romancista, dramaturgo e crítico literário, expoente da época vitoriana na literatura; Du Maurier pintor mediano mas ilustrador de méritos reconhecidos -, amigos tão unidos como o conservadorismo de HJ permitia, não vendo em Du Maurier um rival nas letras, conheceram em vida destinos diferentes às suas obras, que deixam de correr em paralelos distintos e sem choques competitivos a partir do momento que Du Maurier, quase cego e desenhando com dificuldades casa vez maiores, resolve, quase que como entretém, escrever (ditando-o à mulher) um romance: Tribly, considerado o primeiro "best seller" da literatura.

toda a obra de Henry James, romances, novelas ou peças de teatro, no seu total não terão atingido dez por cento das vendas daquela peça única (houve um 2º, mas tão fraquinho que não se leva em conta) de Du Maurier, cálculos por baixo vendendo 250.000 exemplares entre a Grã-Bretanha e os Estados Unidos. teve várias adaptações ao teatro, que West End e Broadway, não existindo uma Hollywood além dum buraco às portas do deserto de Nevada, eram então o Totoloto dos escritores, e fizeram de Du Maurier um homem rico. James, caso não tivesse fortuna pessoal nunca conseguiria com os proventos da literatura suportar a displicente vida de "english gentleman" que gozou em Londres após ter-se lá radicado e, até, obtido a nacionalidade britânica (era norte-americano por nascimento.)

se pegarmos num manual competente de história da literatura Henry James tem lá lugar próprio e indiscutível. George Du Maurier não está lá, duvido mesmo que apareça no espaço de rodapé. isto a propósito de tudo. e sim, também li "O Código da Vinci" e diverti-me. mas quando peguei no livro seguinte esqueci-o, e desse lembro-me embora do best seller só recorde que era giro mas faltava-lhe uma jovem e gaiata modelo a posar nua, pour l'ensemble, como em Tribly.

a escrita de todas as desilusões: A praia




A praia

a maré subiu com ímpeto e recolheu-se ao Grande Lago da História desapiedada do seu rasto, levando consigo tudo que a areia não prendia tão solidamente como só é sólida a fé ou a impossibilidade. as raízes mais ténues soltaram-se, envolvidas no ciciar predador que as chamou às origens. a praia ficou deserta das tralhas do longo dia de veraneio tropical, e outro mar, o continental, foi inundado de náufragos, bóias uns dos outros.

depois as águas acalmaram. um novo ciclo emergiu e a praia retomou o seu aspecto de costas e ventre da vida, murmúrio suave de ondas e das oscilações da sociedade.

na natureza nada se perde e tudo se transforma, mas por vezes sentamo-nos a olhar o mar e perguntamo-nos do porquê da sua violência, esse músculo exibicionista, se, quando serena, as conchas na praia continuam as mesmas e as pegadas dos caranguejos são iguais às de antes da maré. e perante tanta naturalidade e beleza ninguém leva a sério as cores dum bocado de pano pendurado num pau: a fé esvai-se na areia da vida e as impossibilidades continuam iguais.

os náufragos? esses, nem para afogá-los a maré os levou a sério. esses, tinham uma insuficiência de raízes historicamente endémica que só à custa de vistos turísticos e lábios mordidos se resolveu, lágrimas daquela praia que o mar lava, lava, lava, diluindo-as sem espuma ou ruído no Grande Lago da História.

Antonin Artaud em dia de sol. fujo ou fico?


Não podemos viver eternamente rodeados de mortos e de morte.

E se ainda restam preconceitos há que destruí-los.

"O dever"

Digo bem

"O DEVER"

do escritor, do poeta, não é encerrar-se cobardemente num texto, num livro,

numa revista, donde não mais se libertará, mas pelo contrário sair para fora

para sacudir

para atacar

o espírito público

senão

para que serve?

para que nasceu?



A.A.




in "Carta Aberta... aos Poderes - Manifesto surrealista em defesa da libertação do espírito", Antonin Artaud, Padrões Culturais Editora, 2009

Darwin explicado em beijinhos


lido à bocado (neste excerto, com refª a finais do séc. XIX):

"(...) ao convencer uma rapariga de que se trata dum prazer inocente, os nossos dom-joões só pensam em levá-la a sucumbir e conseguem. Pelo absurdo, provam efectivamente que o beijo nada tem de frívolo e que se trata, sobretudo, para retomar a expressão cínica de um humorista, de «uma maneira de perguntar no primeiro se o rés-do-chão está livre». De facto, para as meninas de boas famílias, o primeiro beijo a sério só podia ser concedido depois do noivado, como símbolo eloquente da dádiva mais total."

História do Beijo, org. de Gérald Cahen, Círculo de Leitores, 1998; 1 - Rituais, Sagrados, Oficiais; "do Sagrado ao Íntimo" - "Amor ou sexualidade?", por Jean Claude Bologne

é giro ler a história das emoções, das coisas, nossa. determo-nos em sorrisos que não conseguimos classificar tão facilmente como parecerá.

candura? e porque não? pronto, tá bem: investigação histórica... amalandrada ;-)

a crise dos trocos pró tabaco


ontem à noite chateei-me com o café para onde ultimamente tenho ido ler ao serão. muito porque é dos poucos onde se pode fumar, que no resto é o típico com a combinação écrã de tv gigante + futebol + telenovelas, e tudo que esta opção trás atrás. o problema foi a velha história das máquinas de venda de maços de tabaco - e os trocos para fazê-las cumprir a tarefa que o estabelecimento arranjou ao decidir atender-nos através delas.

enquanto me tiram o café abatanado peço troco para uma nota de 10 euros. resumo do diálogo: «ah! não há... a máquina está cheia, sabe, e ela não é nossa... não há trocos...» -; «como? então e agora?»; «pois é, não temos...»; «mas a máquina está aqui, dentro da vossa casa!»; «mas não é nossa! não, desculpe mas não temos trocos para tabaco!»

deu-me uma coisinha ruim. mesmo. passo-me com esta ligeireza de encolher d'ombros "cagando-se" para o cliente.

«deixe-me ver se entendo... quero pagar uma despesa de quatro euros sem ser com uma nota de 50 ou 100 euros: é uma de 10. e diz-me que não tem troco para isso, o que acho uma gestão péssima da casa. argumenta que "a máquina não é minha". mas o tabaco que se compra neste café é através dela. eu sou só um cliente que quer comprar e pagar. a forma como o senhor gere a venda dos produtos que estão para venda dentro do seu estabelecimento é-me indiferente: eu sou o cliente. o senhor optou por atender-nos através duma máquina para um produto, e para outros fá-lo pessoalmente, aqui ao balcão. caso eu quisesses pagar bebidas ou comidas do mesmo valor e com a mesma nota, existia o problema que levanta? suponho que não!»

não responde. olha-me duma forma que suspeito não ter percebido nada. e repete, confirmando a incapacidade de ouvir e perceber além do que assimilou como seu e única versão possível: «mas a máquina não é nossa!»

deixo ao balcão moedas certas para pagar o café e vou-me embora sem o beber - entretanto a chávena ainda não enchera. «então desculpe o que vou fazer mas não vou beber o café. fica aqui o dinheiro. não vou beber o café onde depois não posso fumar um cigarro como sempre fiz, não os tendo, havendo-os cá e o senhor a não mos querer vender»

nada. ficou calado. daqui a uns dias volto lá. sem intenção de repetir voluntariamente nada, mas estarei de olho aos pedidos de trocos ao balcão para ver se já perceberam ou não como é que se tratam clientes, sejam eles de chupa-chupas de sabores ou de lagostas suadas. então tomo a decisão final: fico, volto, ou saio e kaput.

eu acho que se devem sempre dar duas ou três oportunidades perante o erro. e algum tempo para ele ser entendido. mais que isso é que é parvoíce.

as ruínas da loucura

vê-se aqui.

à escala, há-as em todo o lado. quando olho à minha volta - fazendo por afastar a névoa - também encontro os meus palácios abandonados, multinomes que se dão às coisas perdidas. quero ser Khadaffi, quero uma tenda no meu deserto. e morrer na minha pátria: que exílio? nada! aqui há ruínas e elas têm a minha história.

o deserto quer invadir as cidades. e deixamos?




triste de ler, pior de sentir!

Tarantino! :-)





isto é notícia!
um "novo Tarantino"? gosto dos filmes deste gajo!

brinquedos pornográficos




não é só no Magreb (ou Médio Oriente, etcs) que é necessária uma varridela!

"Yours is No Disgrace"

acompanhou-me na adolescência. tanto!...

hoje, quero novamente adolescer. seja! "Yours is No Disgrace"!!!!





Yesterday a morning came, a smile upon your face.
Caesar's palace, morning glory, silly human race,
On a sailing ship to nowhere, leaving any place,
If the summer change to winter, yours is no disgrace.

Battleships confide in me and tell me where you are,
Shining, flying, purple wolfhound, show me where you are,
Lost in summer, morning, winter, travel very far,
Lost in musing circumstances, that's just where you are.

Yesterday a morning came, a smile upon your face.
Caesar's palace, morning glory, silly human race,
On a sailing ship to nowhere, leaving any place,
If the summer change to winter, yours is no,
Yours is no disgrace.
Yours is no disgrace.
Yours is no disgrace.

Death defying, mutilated armies scatter the earth,
Crawling out of dirty holes, their morals, their morals disappear.

Yesterday a morning came, a smile upon your face.
Caesar's palace, morning glory, silly human, silly human race,
On a sailing ship to nowhere, leaving any place,
If the summer change to winter, yours is no,
Yours is no disgrace.
Yours is no disgrace.
Yours is no disgrace.


(Yes and David Foster)

de "Diálogos con mi conciencia", de José Ramón Marcos Sánchez.

a voz poderosa, hipnótica, de Jose Rámon Marcos Sanchez

The Boxer



THE BOXER

I am just a poor boy, though my story's seldom told
I have squandered my resistance for a pocketful of mumbles, such are promises
All lies and jest, still a man hears what he wants to hear
...And disregards the rest (hmm)
When I left my home and my family, I was no more than a boy
In the company of strangers.....
In the quiet of the railway station, runnin' scared
Laying low, seeking out the poorer quarters, where the ragged people go
Looking for the places only they would know
Seeking only workman's wages, I come looking for a job, but I get no offers.....
Just a come-on from the whores on Seventh Avenue
I do declare, there were times when I was so lonesome
I took some comfort there (li la la, la, la la)
Now the years are rolling by me, they are rockin' even me
I am older than I once was, and younger than I'll be, that's not unusual
No it isn't strange, after changes upon changes, we are more or less the same
After changes we are more or less the same ...
And I'm laying out my winter clothes, wishing I was gone, goin' home
Where the New York city winters aren't bleedin' me, leadin' me to go home
In the clearing stands a boxer, and a fighter by his trade
And he carries the reminder of every glove that laid him down or cut him
'Til he cried out in his anger and his shame
I am leaving, I am leaving, but the fighter still remains
Yes, he still remains ...

...e já em '62 s'o dizia!



Babe, i'm gonna leave you
Tell you when i'm gonna leave you
leave you when ol'summer time,
summer comes a-rolling
leave you when ol'summer comes along
Babe, the highway is a-callin'
the old highway's a-callin'
callin'me to travel on, travel on out the Westward
callin'me to travel on alone
Babe,I'd like to stay here
you know I'd really like to stay here
my feet start goin'down,goin'down the highway
my feet start goin'down, goin'down alone
Babe,I got to ramble
You know I got to ramble
My feet start goin'down and I got to follow
my feet start goin'down, and I got to go

poesia vadia em Vale de Cambra

divulgação. promete.
não vou porque não me calha: Vale de Cambra soa-me tão perto como Madagáscar.

(clicar para aumentar a imagem)

não atino é com a refª ao GPS! então e a "criatividade"? a ALEGRIA de nos perdermos e darmos com inesperados que, seguindo 'instruções' e de cara-alegre, nunca saberíamos existirem? tenho muitas!
mais a mais poesia... poesia é criatividade! agarrar na amálgama de sentimentos e fazê-los serem sentidos. palavras que chispem, não enclausuradas em coordenadas alheias. a única rima que é importante.

nao liguem :-) ultimamente venho aumentando à tripa-forra a minha lista de antipatias de estimação, e o raio do GPS - mais os seus queridos afectos! - deu pulos de canguru

Facebook ao espelho



"Gosto. Sem gostar do entrelinhado não exerço resistência que se veja a este gosto não gostado.
Para começar, hoje estarei o dia todo fora. Fora. Mesmo fora.
Vocês tenham um bom dia. As saturações são individuais, cada que governe as suas. Eu não tenho alma nem ética para criticar ninguém. Ninguém mesmo. Entretanto burilarei as memórias. Alguma coisa se safará. Tem de ser, tanto que foi. Mau, bom, nunca indiferente. Isso nunca. Vivido em pontas. Tudo. Como nunca. Como nunca. After all, os maus sentimentos também levarão o cimento que não tapa mas ameniza. Ameniza, porque se carece. Sempre. Os Gosto são assim: relativizam. Doem-se mas perdoam. Perdoam-se?
E como sempre as músicas é que falam. Isto, não é nada. Silogismos, transparências. Umas vezes sim outras não.
Já disse que não escrevo mais poesia. Roubaram-ma. Assalto consentido. Não é crime, é ofensa. Porque tudo era poesia e agora nada o é. Complicadinho, hein? lol claro que sim! A Poesia das palavras é tão importante!... E nada. Há o nada.
Para início hoje pisgo-me. Sem net, sem um computador à vista. Nem gps tenho! Ou quero-o! Deus me livre! É que livre, isso gosto eu de me sonhar. Livre, e as algemas são escolhidas por mim e nenhuma tem encaixes de madrepérola. Têm enfeites da tinta de mim, têm a rigidez do que de mim disse e escrevi, têm mil dias e tanto que são mil dias como repórter exclusivo de mim. Não me demito, ehehe: fui expulso! Expulso da minha única escrita, meu unitema a que alguém chamou 'obsessão'. Parvos! Sabem lá o que o que não foi escrito, se nem o que o foi foi lido com os sentidos. Sentidos, de sentir, verbo macaco. Macaco pirilimpimpão.
'Fui', mas volto. oyé! ;-) "

em jeito de memorabilia pessoal




nasci a 9 de Abril. dia da batalha de La Lys. ano a ano, desde que cheguei a Portugal, via na TV a 'cerimónia', ano a ano cada vez menos os veteranos, até que deixou de ser noticiada. presumi que tinham morrido todos.

agora aconteceu na América. alguém lá, parceiro duma das suas 'noveabrilianas' datas, sentirá igual?

(imagem daqui.)

é só no esoterismo que nada é o que parece?




"As definições são unicamente aproximações. Qualquer que seja o sujeito, o seu predicado é sempre a totalidade do universo. Nesta impermanente realidade, aquilo que imaginamos como a verdade absoluta torna-se-nos impensável. As nossas flechas nunca conseguem acertar no centro do alvo porque é infinito. Os conceitos que a razão emprega são verdade para mim, aqui, neste preciso momento. Para outro, além, mais tarde, podem ser falsos."

"A Dança da Realidade", Alejandro Jodorowsky, A Esfera dos Livros, 2006 - pág. 87

bem... também há o chocolate!




"Tal como o gajo diz, em Itália, durante trinta anos sob os Bórgias, tiveram guerra, terror, assassinatos e derramamento de sangue, mas deram-nos o Miguel Ângelo, o Leonardo da Vinci e a Renascença. Na Suíça, tiveram amor fraterno; tiveram quinhentos anos de democracia e paz, e o que é que eles nos deixaram? O relógio de cuco..."

Fala de Harry Lime em 'O Terceiro Homem', filme de Carol Reed em que Orson Wells interpretou o papel de Lime e reescreveu muitos diálogos - incluindo este solilóquio onde justifica os seus métodos com recurso a um paralelo histórico.

Extraído do prefácio de John Baxter a "Mr. Arkadin" (Babel, 2010), se não consensual na redacção atribuída a Orson Wells, por certo de sua total inspiração e talvez até ditado.

brinquedos grandes



Huayra significa "vento", em língua maia. é o novo bólide da Pagani, essa fábrica de brinquedos para crianças grandes e enlouquecidas pela paixão em voar baixinho e lindo.

o motor é o V12 da Maybach artilhado na AMG e, li-o algures, com um cheirinho secreto do preparador Ricardo. tudo o mais é estrondosamente belo. a exemplo, os botões da consola são tão lindos e magnéticos como os dum saxofone: são iguais!

senior




estava a namorar (com a minha namorada), e ela sai-se com esta: «isto de termos os dois óculos é chato».
respondeu o bicho ruim que há em mim: «tivessemos ambos algália e é que era uma merda!...»

Falstaff






Falstaff leva plateias e leitores às lágrimas de risota. o que não afasta ser uma personagem asquerosa da literatura.

destrinça possível: rimo-nos do medo, rir é meio remédio, sininho de sempre alerta.

não há bulas sábias para a outra metade, mas fechar o livro ou pôr o rabo de fora não será remédio completo.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

com licença, isto é bonito II

ver entrada anterior, p.f.)
da mesma obra e maluco, grande grande

XL
'O espelho'

Um homem medonho entra e olha-se ao espelho.
Porque é que se olha ao espelho, se só pode ver-se nele com desgosto?»
O homem medonho responde-me: «Senhor, segundo os imortais princípios de 89, todos os homens são iguais em direitos; logo, eu tenho o direito de me mirar; com prazer ou desprazer, isso só tem que ver com a minha consciência.»
Em nome do bom senso, eu tinha sem dúvida razão; mas, do ponto de vista da lei, ele não estava errado.


pág. 107)


com licença, isto é bonito


de "O SPLEEN DE PARIS (Pequenos Poemas em Prosa)", de Charles Baudelaire, ganda doido

'Um hemisfério numa cabeleira'

Deixa-me respirar longamente, longamente, o cheiro dos teus cabelos, mergulhar neles o meu rosto inteiro, como um homem sedento na água de uma fonte, e agitá-los com a minha mão como um lenço cheiroso, para sacudir lembranças no ar.
Se pudesses saber tudo o que eu vejo, tudo o que eu sinto, tudo o que eu oiço nos teus cabelos! A minha alma viaja no perfume como a ama dos outros homens na música.
Os teus cabelos contêm todo um sonho, cheio de velas e de mastros; contêm grandes mares, cujas monções me transportam para climas agradáveis, onde o espaço é mais azul e mais profundo, onde a atmosfera é perfumada pelos frutos, pelas folhas e pela pele humana.


No oceano da tua cabeleira, entrevejo um porto fervilhante de cantos melancólicos, de homens vigorosos de todas as nações e de navios de todos os feitios recortando as suas arquitecturas finas e complicadas num céu imenso onde se tufa o calor eterno.

Nas carícias da tua cabeleira, respiro o cheiro do tabaco misturado com o ópio e o açúcar; na noite da tua cabeleira, vejo resplandecer o infinito do azul tropical; nas margens penugentas da tua cabeleira embriago-me com os cheiros combinados do alcatrão, do almíscar e do óleo de coco.

Deixa-me morder longamente as tuas tranças negras e pesadas. Quando eu mordisco os teus cabelos elásticos e rebeldes, parece que como lembranças.



Com licença, isto é doentio. A lei proíbe estas cenas em vários graus, e o mais baixo que conheço é de 0,5 não-sei-quê de alcoolémia mas há outras onde qualquer posse até pode dar cana. Apanhe-se uma porrada na cabeça que leve a escrever assim, para o lermos assim, e ficaremos como o bom do Charles quando se cruzou com a sua Jeanne Duval, e teve momentos em que se esqueceu dos credores à sua perna, vida atazanada que teve e ainda no-lo escreveu. Até se ronca se for preciso. Rosna, ronrona. Como um homem sedento na água duma fonte. Porra. Doentio de bom.


Como uma receita louca, que se marinou na vida até nos encher da embriaguês da sua frescura, sabe-se lá se alguma vez sentida. Como se gerada nos imaginários que se foram desenvolvendo pedacinho aqui, pedacinho ali, e crescem-nos cá dentro, naquele aonde vago forrado com as páginas que escondemos quando se pousa um romance mas ele fica connosco, identidades novas em pedaços que se vão colando e formando novas unidades, já autónomas mas de raízes firmes: se se alojaram, razão houve. Estas mesclas transformam-se silenciosamente em vultos que adquirem presença, sentimo-los como se sentem uns olhos fixos na nossa nuca, e isso não se explica. Súbito, explodem-nos já realidades: construímo-los!


E nada se explica excepto assim, 'como lembranças' de rosto inteiro. Se não se explica o mundo, só se o conta, como, a nós? Na sala d'armas de cá andarmos há momentos em que quando se repara está a atirar-se ao florete por causas novas, cujas avózinhas já estavam esquecidas no pré-lar da velhice em que se transformam as nossas vidas, naquelass idades em que se olha com perturbante curiosidade o ralo da banheira, fazem-se almoços de turma pois nada dos hojes tem feeling, tem-se uma conta no Facebook porque a solidão tanto dói como é palradora. As ilhas formaram um arquilégo, sua natural ambição. A causa, a causa da justa, e acredito, sonho!, que tanto como há estocadas que ferem-nos cicatrizes para sempre, a mancha púrpura gerada na explosão tem desenhos estranhos mas com traços elegantes, um ferir-morrer que se expande naquele vazio de monções de que fala o poeta, súbito nada odiado, ficção que se tornou tanta realidade como uma pedra ou as mãos, os sentidos identificando como nosso esse direito à sua propriedade e defesa, e atrás daquela mancha púrpura está sangue, tanto nosso sangue, tanto que lá havia e queremos que continue a estar, é causa, é o inexplicável viver.


E fica.


Elaboram-se evasões. O spleen de Paris! A Paris das ficções, o mundo que tivemos em primeiro plano de sonhos quando não se escrevia "...do séc. XX" quando se dizia dos anos 60's e dos 70's. Hoje o nosso spleen. Maldita mania, o puto do caraças que não dorme, e pensa-se em Pérez-Reverte, ser-se dom Jaime Astartola como quando em puto se desejou ser o herói vencedor de todas as justas e dos sorrisos da donzela. Calhou-me o Baudelaire. Não premeditara. Os olhos pareciam ociosos mas estavam atentos a tudo, uma lombada apta a ser mudada para outro local onde encaixasse melhor, palavras cruzadas intermináveis, e por aí as memórias perderam-se, tanto Baudelaire, tanta Jeanne, até Ken Follett teve o atrevimento de se meter nisto com uma 'Leoparda' que se passeia por Paris, (e evoca-me La Charbo, que Não conheci, tanto que conheço e afinal nada conheço de Paris!) e essas são as páginas que me estão neste momento nas mãos. Os grãos, as ilhas, as monções, o arquipélago, a presença, o spleen, o inexplicável de nós, mas a necessidade de escrever a história, e esgrime-se, esgrime-se, matam-se os silêncios, foda-se não é fácil encaixar as ilhas, mais só mar não, e todos estes livros falam no mesmo, de todos voam páginas inteiras de estuporado plágio dos nossos sentidos, cópias tão perfeitas das nossas memórias que desconfiamos serem as lombadas que nos espreitam e não nós a elas.


Não é por aí. Carradas doutros mais identitários! Autobiográficos de momentos gémeos de nossos e que sempre nos espantam. Baricco, Alessandro: outro. Sem spleen. «Barry, para os amigos», ouvi. Poetas? de A a Z! Foi uma razia... É uma razia: leia-se Alice Viera-poeta e o meu espanto que não conhecia. (perdi muito do meu mundo que não era silêncio. não encontro o meu arquipélago, há ilhas como pedaços - mas são ilhas - por todo o lado, mais que boiarem placidamente são como rolhas em mar, não se afogam mas de nada servem, de nada são assim apoio e nada vedam ou alcançam: bóiam, flutuam e estão só presentes, lombadas sem préstimo além de recordarem as leituras de fracassos que as bibliotecas lidas têm sempre marcas, ilhas fracassadas sem um íman-arquipélago mas partes de 'lembranças' tais, que nunca, nunca, serão essa coisinha dum grão de memória).

A zona da Rue de la Charbonnière, La Charbo, já não deve existir como excitante de percorrer como se de montras de luxúria fosse feita, montras que são mais que montras porque em cada mulher há só uma mulher e mais nada, não compliquemos, entenda-se que a vida caminha como as cidades mudam, fenómeno que nos tenta primeiro a pensarmos primeiro como ela então era mais que se julgou, e depois a pararmos para olhá-la em contraste, accionando o tal fenómeno que cá marinava para tornar-se-nos tão realidade como então era a grande noite da semana aquela em que se ia dar uma volta a La Charbo, bar em bar, gargalhar, gargalhar. Os ventos da memória fazem de grãos ilhas, e o íman da idade dos balanços faz delas arquipélagos para onde sonhamos emigrar, filmes, filmes que vivemos como se os tivéssemos vivido, quando em verdade nasceram nas tais páginas do livro que se pousou, e se escaparam para cá dentro, acamaram e cresceram, história própria, rosto, 'lembranças' próprias: existe e tem o bom cheiro do tabaco, do ópio e do açúcar, a saúde dos poetas é o excesso dos sentidos, as causas, as cãs vivas de ardor.


(tou a escrever isto mas tenho bem mais de metade do cérebro noutro lado. é lixado para concentrar. lá e aqui)


O pensamento é terrível. Elabora, fixa e descreve, conjuga, tenta contínuamente pôr as nuvens num horizonte que esteja certo com aquele que tocamos. Arruma e desconstrói, fixa novos reflexos à realidade ajustando-os àquela pré-figurada na revoada emergente das tais páginas de ficção coleccionadas. É um 'spleen' figurativo, felizmente sujeito às boas intenções de Saint'Exupèry e livre do ópio e do açúcar de Baudelaire, na mão que devolve o livro à estante as manchas são de boa nicotina, boa, boa, que isso de dormir muito e oxigenado a 100% para morrer saudável é, desculpem-me, um viver bocejante com um final estúpido.

Livro novamente arquivado. Vivam os Poetas pecadores de improvisos! Viva a liberdade de não nos angustiarmos se nos perdermos, que num súbito recanto escondido encontraremos sempre algo apaixonante e que as ciências tecnológicas não assinalam nem detectam, sob a sua espartana programação de todos os metros e horas dos nossos percursos. Cerrar os olhos e estender a mão, tactear e extrair o livro pelo toque da lombada: sensações! os sentidos, o catarro da vida, a patine de viver. Isso tudo, e que a amálgama seja sempre assim num discurso incoerente, recheado de maus-ditos e referências sem contexto qu'as salve do olhar cristal da arte de laboratório.


som: "What Have They Done To My Song, Ma"por Melanie

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

o filme “As pontes de Madison County” (porque não me sai da memória)



Que ganhou Merryl após o fim-de-semana? Uma memória. Que silenciou enquanto foi viva. Fê-la sonhar algumas vezes, recordando a magia, a real e a que o tempo constrói, adornando à medida dos desejos e da necessidade de preservar o belo e esquecer o triste. Mas mais, certamente muito mais, fê-la chorar em silêncios asfixiantes que só ao seu diário contou. E Clint? Clint partiu, e seja por isto ou por aquilo nunca mais a magia se repetiu. Madison County é a realidade e um qualquer Egipto o sonho. Um sonho em fusos horários diferentes. Milhares de quilómetros reais que na fita mal se entrevêem, mas iguais aos que a vida cria e sentimos na pele da alma, e que o tempo excessivamente longo dos desencontros da vida não conserta.

Cinema é cinema e este é um filme maravilhoso. Quási espelho. Quase, porque findo o tempo do bilhete levantamo-nos, a porta da vida abre-se e as fantasias onde imolamos em prece surda o íntimo ficam para trás. Cá fora continua o bom e o mau. Lá dentro, nos soluços travados e nos conflitos íntimos digeridos em 120 minutos de filme, é a fantasia. Mesmo quando parece real, é episódica: o tempo termina convencionalmente: está no programa e sabemo-lo. Está o que queremos encontrar quando cruzáramos a porta, e mais que isso é engano e sabemo-lo assim. Quando guardamos o bilhete da sessão na carteira do peito, sabendo que ele não é só isso. Sonhar, quando se está “na merda”, tem a legitimidade mais límpida do mundo. Mas com humildade igualmente acho que permitir à alma cinéfila agrilhoar pedaços de nós, jardins gémeos, momentos de realidade onde nos sentíamos tão bem e privando-nos deles em pena perpétua, é insensatez excessiva por 120 minutos de ilusão. Tudo seca, há rugas sem cosmética possível. Restará? Um diário. Uma memória de tristezas, mesmo que o Autor se distancie e omita, vestindo as suas melhores roupas nas páginas e páginas de contar pouco mais que as partes de romance deliciosamente romântico (sim, esta parte é que é “literatura”.)



Sou um indefectível do romantismo. Comovo-me às lágrimas com uma história assim. Renovo o bilhete sazonalmente e, este filme, já o vi vezes sem fim (nem preciso de carregar no Play.) Sento-me sempre no meu cantinho, sem pipocas e de peito aberto, sentindo-lhe cena a cena até o estalar agitado das ilusões. Enterneço-me. Como condená-los? Não, condenar-me-ia a mim e às minhas ilusões, ao meus-vossos sonhos. Como criticá-los – no contexto assim dado, celofane tão bonito, embrulho à medida das desilusões ou encantos ou fantasias que pululam em cada um de nós numa ou noutra ocasião da vida? Em lirismo recenseador até cheguei a afirmar que Madison County era a aldeia mais populosa do mundo, que nela estão os bairros que habitamos em má comandita com a felicidade… Só os infelizes que se julgam totalmente felizes não a habitaram já em 120 minutos de catarse íntima, de ilusão.

Mas não é assim. Já o viram? Já, todos o vimos. Depois de chorá-lo restam letras de tristeza. O diário de Merryl são linhas tristes, mesmo que a música soe naquela casa (o seu lar) durante o momento da ilusão, cruzando-se com a realidade como dantes já não se lembrava dela soar assim. Tanto, que escreveu um diário – este filme. Neste contexto, naquelas pontes, tudo parece bater certo, incluindo a poderosa indecisão final na cena do semáforo, a mão tremendo no puxador da porta da pickup. Aperta-se-nos o peito e todos fazemos um plebiscito íntimo. Penoso. Até a mudança da marca de tabaco é romântica. Naquele contexto é tudo tristemente perfeito, belo até, e belo até na renúncia final.



Há mais. Há o fim dos 120 minutos e muito nunca mais será igual ao seu antes. Há valores. Há valores porque além das cortinas não é um filme. Poderão ocorrer perdas (algumas são certas.) Que vale isso? Um segredo por toda a vida, revelado quando “o corpo que amou” já esfriou? Que fica pelo caminho, que olhar devolverão as pontes onde antes se refugiavam os dias? Quem as caiará se falta, se falta e para sempre faltará a relação íntima que existia, a cumplicidade com a paisagem que a entendia – e a lente do fotógrafo errante, outro quixotesco sonhador de silêncios desconhecidos, levou? “Roubou”? O desmaiar da vida não se oculta nas páginas lindas que Merryl legou.

E esta continua a ser uma leitura apaixonada que faço ao filme. Sempre com olhos de espectador choroso, mas também de argumentista competente e que conhece quais as teclas para comover e impressionar. Ninguém é isento. Um filme? Lamento: é uma fórmula. É conhecimentos de psicologia e arte de romance, olho agudo às debilidades da vida e muita sensibilidade quanto às capacidades comuns de enternecimento. E arte, claro que sim. Soberbamente realizado e interpretado. Magnífico. Mas o argumentista termina ‘o serviço’ e vai à sua vida, e no dia seguinte inicia a redacção dum thriller. Os actores e demais recolhem os encómios e as estatuetas. Nós, espectadores, temos deveres acrescidos. Há mais além das lágrimas e das palmas. Há mais, e desvalorizá-lo é renegar a essência do filme, a mão crispada no puxador da porta, e que compreendemos que não se abre assim.

Fora das cortinas da sala há momentos em que há que optar, onde o acordo conciliatório não é admissível. É da essência primitiva humana e a violação é irreversível. Não há ‘razão’ que explique, que justifique, que releve. O consolo não existe. É simplesmente assim. Que resta, depois? Que resta? A dor aumentada, mascarada em lágrimas de filme, de ilusão. Duas vidas que se tocaram em 120 minutos sabendo que não lhes existia perenidade, e continuaram solitárias. Com as memórias, e com as perdas. Isto não está no diário de Merryl, está na vida além cortinas.

Disse. Em menos de 120 minutos de filme, divididos em sessões de entardecer de dias pálidos ou em manhãs de tristezas renascentes. Disse e não volto atrás na crítica, embora adore esconder-me nesta fantasia, neste também meu filme.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

poesia de "José Alberto Sitoe"


como quem me visita sabe, de vez em quando dá-me para me armar em poeta. enfim.

são formas de traduzir estados d'alma.

há uns anos atrás criei um heterónimo/pseudónimo que retratasse a minha má-consciência - então não resolvida - de ter "abandonado" a revolução moçambicana. se a razão me impeliu para Mavalane, o coração doeu anos e anos: havia um pedaço da minha infância e mocidade que ficara lá, lá, no caniço e zinco da Mafalala onde tanto brinquei e cresci, lá na cidade de cimento onde fui tão feliz.

"José Alberto Sitoe" é ess'outra minha alma. o 'meu mano' que abandonei (fugi?). vejo-o nitidamente quando o penso e escrevo. sentado à porta da cantina, a garrafa de vinho barato na mão e o olhar malandro na conversa com as putas, suas amigas. os dentes amarelos de mulala e os olhos amarelos da vida. e rabisca. rabisca sentires, afectos e desafectos. gosto dele.

uma última nota. poucos sabem que 'o Sitoe' sou eu. muito poucos. há pouco tempo, na busca pela net dos meus poemas perdidos - tenho o péssimo hábito de não guardar tudo que faço - descobri, com um sorriso de prazer que não imaginam, que o meu lado 'Sitoe' era mais citado em blogues de poesia moçambicana que o que vocês conhecem, a faceta 'Gil'. Gostei!

aqui ficam alguns dos que até agora catei:


"Subúrbios by night"

Lá no beco da ti’Juliana
logo logo tem a cantina do Dias mulungo
e há uma árvore que sabe das coisas
ela viu tudo, tudo.

A luz do jeep cinzento
as fardas pretas e os bastões
viu as botas ouviu os gritos
ela viu tudo, tudo

lá no beco da ti’Juliana
onde o caniço está partido
eles bateram, bateram, bateram
no fim das luzes ficou um corpo caído
mais o caniço, tudo partido

nem o Dias nem ninguém
abriu uma janela, uma porta, um grito
a ti’Juliana dormia sem sono
a árvore viu tudo tudo.

Foi lá no beco escondido,
as fardas pretas arrombaram o caniço;
as botas pisaram, os bastões bateram
e a árvore viu tudo tudo

De manhã passos de criança
sob a árvore que sabe das coisas
misturaram areia ao sangue caído
lá, onde o caniço está partido

os pés correram as mãos brincaram
lá onde o caniço está partido
onde está a árvore que sabe das coisas
ela que viu tudo, tudo

Um dia crescerão e
eles sabem tudo, eles sabem tudo



"Machamba"


A enxada ergue-se e cai
ritmadamente

Uma para o imposto…
outra para o mulungo…
e mais esta, também…
Uma para mim…
tantas para não sei quem…

As AK's ergueram-se e soaram
ritmadamente



"tombazana, mamana, cocuana"


(à memória de Josina Muthemba Machel, falecida em 7 de Abril de 1971)


sete de abril é teu dia
dia da mulher moçambicana

seja esbelta tombazana
ou mamana de airosa capulana,
hajam cãs de cocuana
sete de abril é o teu dia,
dia da mulher moçambicana

todas és Josina, é teu dia
dia da pioneira na emancipação
da Mulher na mata renascida
que foi obreira na libertação

mulher africana, por graça moçambicana
aquela que é dupla grávida, antes e depois de parir:
no antes traz na barriga o Futuro,
carrega-o às costas quando ele aprende a sorrir

sete de abril é teu dia
dia de lembrar ao mundo
que haja vento, sol ou chuva
batas ou não o pilão
no campo, na mata ou na cidade
há um sorriso que baila e cresce
porque sete de abril é teu dia
dia da mulher que fez a revolução



"Cooperação"


Em vinte e cinco de Junho
mil novecentos e setenta e cinco
zero horas e coisa pouca
eu rasguei a minha certidão
enterrei a falsa filiação.
Passou a estar escrito
nas letras que te ensinei a ler
que a longa aula terminara
vencera a insubordinação
triunfara a minha razão,
e eu já tinha uma nação.

Em vinte e cinco de Junho
de mil novecentos e setenta e cinco
eu e tu mudamos o olhar
não te chamei mais meu senhor,
era dono da minha terra
já tinha uma nação.

Desculpa-me se, na euforia
onde rasguei a certidão
e bani o colonialismo
e esqueci a submissão
lamentavelmente, não me lembrei
de estender-te a minha mão...

É que
em vinte e cinco de Junho
quando ganhei a minha nação
esqueci-me que setenta e cinco
(ano de revolução)
era tempo de falarmos
em cooperação.

Eu dizer-te que já não eras
eterno senhor e patrão
(precisavas dum convite
eu rasgara a certidão.

Em vinte e cinco de Junho
mil novecentos e setenta e cinco
a festa era só minha
minha e dos meus irmãos)

Hoje
longe a festa
- mas sem regresso à lição
queres abrir a porta que não viste e
como irmão, apertar a mesma mão
que soube rasgar a certidão?



"Palavras em negro"


Antes de tu chegares com as caravelas
as missangas a cruz
eu tinha o meu ritmo sereno de crescer
lento como o Sol induzia
e eu falava

Contigo aprendi a comerciar
a vender os meus irmãos
que as caravelas levaram
deixando um rasto de progresso
um vazio e a cruz
e eu calei-me

Nas savanas em que eu caçava
descobri que um pala-pala era pouco
para quem tanta fome tinha
e matava vinte por prazer
e eu calei-me

Foi também contigo que aprendi
que as minhas mulheres eram tuas
sempre que o querias
tive filhos mulatos
e eu calei-me

Quando aprendi a tua língua
(pois tu não aprendias a minha)
descobri que ao dizer não
as bombardas falavam muito alto
e eu calei-me

Nas tuas guerras fui teu soldado
cobrei-te os meus impostos e fui teu cipaio
- até brinquei com os teus filhos
mas na tua mesa nunca houve mais um lugar
e eu calei-me

Prendeste os meu chefes
deste-me administradores
o prazo e o chibalo
o rand e o algodão
e eu calei-me

E quando quis falar
voltar a ser independente
disseste-me não em balas que senti
herdeiras das cidades que te construí

devolvi-tas
e, finalmente
tu calaste-te e eu falei.

Tanto que eu contigo aprendi...


(imagem encontrada algures na net...)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

insónia vs sono exagerado


acabo de receber um mail acerca da (possível) ligação de distúrbios físicos com razões de foro psíquico. nada de novo por aqui: já são conhecidas muitas.

mas reparo nesta - de que felizmente não padeço: pelo contrário, mal durmo:


"Uma necessidade exagerada de dormir suscita as seguintes questões:

1 - Ando fugindo da actividade, da responsabilidade, da consciencilização?

2 - Vivo num mundo quimérico e tenho medo de acordar para a realidade da vida?

3 - Escondo-me do fracasso, acreditando que dormindo ele não existe? E repito a evasão continuamente, sem enfrentar as causas - acordando?"



depois o inverso - o meu caso:


"A insónia deve servir de motivo para fazerem-se as seguintes perguntas:

1 - Até que ponto dependo do intelecto e da observação?

2 - Acaso posso me desapegar das grandes paixões?

3 - Como desenvolvo a minha capacidade de entrega, e satisfaço a minha sensação de carência numa confiança básica?

4 - Quão grande é o meu medo da morte? Já me reconciliei o suficiente com ela?"



tenho de matutar nisto tudo....


(imagem gamada algures na net)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

a eficiência do Estado

muitas vezes pensei que o MNE tem o cargo mais simpático da equipa: os grandes problemas, que normalmente são 'internos', não são com ele. há broncas, como em todos os ministérios, mas amenizadas à vista da opinião pública pela função.

na crise do Egipto esteve bem. o repatriamento de nacionais correu sem falhas conhecidas.

fazendo (quase) esquecer a recente 'broa' da Tunísia, onde com a revolução instalada e nos telejornais de todo o mundo incluindo a da sua casa, o senhor embaixador manteve-se serenamente e irresponsavelmente por Lisboa, justificando-se que já marcara as suas férias antes da crise estalar.

e sem um berro (do MNE, o seu "patrão"! de quem haveria de ser?) que o pusesse a mexer e em passo de corrida para o seu lugar, onde era preciso. ou, se não era preciso em tempo de crise, também não fazia falta nenhuma (a embaixada, logo também ele) em tempo de atender turistas para cobrar-lhes taxas e etcs burocráticos.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

um papel pesado

é um voto sem chama, farda, "voto de dever".
o voto insatisfeito de quem se sente prisioneiro da coerência - hélas! nada mais no jornal!
não porque se ama mas porque não há a quem amar.
e não é momento - nunca é momento! de se olhar para o lado: é connosco, e eu estou cá.

não estarei alegre quando votar Manuel Alegre.
racionalizar paixões é enterrá-las e isso não emociona, não alegra ninguém. apenas...

não esqueço.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

presidenciáveis?

Manuel Alegre. o único realismo que permite a oportunidade de "não ser como querem". falhando esta, não sei se já só aos nossos filhos voltará uma igual.

bem, claro que os corações pulsantes por Cavaco Silva ou Francisco Lopes não concordam. mas isso já não é novidade nenhuma.