quarta-feira, 2 de março de 2011

Tarantino! :-)





isto é notícia!
um "novo Tarantino"? gosto dos filmes deste gajo!

brinquedos pornográficos




não é só no Magreb (ou Médio Oriente, etcs) que é necessária uma varridela!

"Yours is No Disgrace"

acompanhou-me na adolescência. tanto!...

hoje, quero novamente adolescer. seja! "Yours is No Disgrace"!!!!





Yesterday a morning came, a smile upon your face.
Caesar's palace, morning glory, silly human race,
On a sailing ship to nowhere, leaving any place,
If the summer change to winter, yours is no disgrace.

Battleships confide in me and tell me where you are,
Shining, flying, purple wolfhound, show me where you are,
Lost in summer, morning, winter, travel very far,
Lost in musing circumstances, that's just where you are.

Yesterday a morning came, a smile upon your face.
Caesar's palace, morning glory, silly human race,
On a sailing ship to nowhere, leaving any place,
If the summer change to winter, yours is no,
Yours is no disgrace.
Yours is no disgrace.
Yours is no disgrace.

Death defying, mutilated armies scatter the earth,
Crawling out of dirty holes, their morals, their morals disappear.

Yesterday a morning came, a smile upon your face.
Caesar's palace, morning glory, silly human, silly human race,
On a sailing ship to nowhere, leaving any place,
If the summer change to winter, yours is no,
Yours is no disgrace.
Yours is no disgrace.
Yours is no disgrace.


(Yes and David Foster)

de "Diálogos con mi conciencia", de José Ramón Marcos Sánchez.

a voz poderosa, hipnótica, de Jose Rámon Marcos Sanchez

The Boxer



THE BOXER

I am just a poor boy, though my story's seldom told
I have squandered my resistance for a pocketful of mumbles, such are promises
All lies and jest, still a man hears what he wants to hear
...And disregards the rest (hmm)
When I left my home and my family, I was no more than a boy
In the company of strangers.....
In the quiet of the railway station, runnin' scared
Laying low, seeking out the poorer quarters, where the ragged people go
Looking for the places only they would know
Seeking only workman's wages, I come looking for a job, but I get no offers.....
Just a come-on from the whores on Seventh Avenue
I do declare, there were times when I was so lonesome
I took some comfort there (li la la, la, la la)
Now the years are rolling by me, they are rockin' even me
I am older than I once was, and younger than I'll be, that's not unusual
No it isn't strange, after changes upon changes, we are more or less the same
After changes we are more or less the same ...
And I'm laying out my winter clothes, wishing I was gone, goin' home
Where the New York city winters aren't bleedin' me, leadin' me to go home
In the clearing stands a boxer, and a fighter by his trade
And he carries the reminder of every glove that laid him down or cut him
'Til he cried out in his anger and his shame
I am leaving, I am leaving, but the fighter still remains
Yes, he still remains ...

...e já em '62 s'o dizia!



Babe, i'm gonna leave you
Tell you when i'm gonna leave you
leave you when ol'summer time,
summer comes a-rolling
leave you when ol'summer comes along
Babe, the highway is a-callin'
the old highway's a-callin'
callin'me to travel on, travel on out the Westward
callin'me to travel on alone
Babe,I'd like to stay here
you know I'd really like to stay here
my feet start goin'down,goin'down the highway
my feet start goin'down, goin'down alone
Babe,I got to ramble
You know I got to ramble
My feet start goin'down and I got to follow
my feet start goin'down, and I got to go

poesia vadia em Vale de Cambra

divulgação. promete.
não vou porque não me calha: Vale de Cambra soa-me tão perto como Madagáscar.

(clicar para aumentar a imagem)

não atino é com a refª ao GPS! então e a "criatividade"? a ALEGRIA de nos perdermos e darmos com inesperados que, seguindo 'instruções' e de cara-alegre, nunca saberíamos existirem? tenho muitas!
mais a mais poesia... poesia é criatividade! agarrar na amálgama de sentimentos e fazê-los serem sentidos. palavras que chispem, não enclausuradas em coordenadas alheias. a única rima que é importante.

nao liguem :-) ultimamente venho aumentando à tripa-forra a minha lista de antipatias de estimação, e o raio do GPS - mais os seus queridos afectos! - deu pulos de canguru

Facebook ao espelho



"Gosto. Sem gostar do entrelinhado não exerço resistência que se veja a este gosto não gostado.
Para começar, hoje estarei o dia todo fora. Fora. Mesmo fora.
Vocês tenham um bom dia. As saturações são individuais, cada que governe as suas. Eu não tenho alma nem ética para criticar ninguém. Ninguém mesmo. Entretanto burilarei as memórias. Alguma coisa se safará. Tem de ser, tanto que foi. Mau, bom, nunca indiferente. Isso nunca. Vivido em pontas. Tudo. Como nunca. Como nunca. After all, os maus sentimentos também levarão o cimento que não tapa mas ameniza. Ameniza, porque se carece. Sempre. Os Gosto são assim: relativizam. Doem-se mas perdoam. Perdoam-se?
E como sempre as músicas é que falam. Isto, não é nada. Silogismos, transparências. Umas vezes sim outras não.
Já disse que não escrevo mais poesia. Roubaram-ma. Assalto consentido. Não é crime, é ofensa. Porque tudo era poesia e agora nada o é. Complicadinho, hein? lol claro que sim! A Poesia das palavras é tão importante!... E nada. Há o nada.
Para início hoje pisgo-me. Sem net, sem um computador à vista. Nem gps tenho! Ou quero-o! Deus me livre! É que livre, isso gosto eu de me sonhar. Livre, e as algemas são escolhidas por mim e nenhuma tem encaixes de madrepérola. Têm enfeites da tinta de mim, têm a rigidez do que de mim disse e escrevi, têm mil dias e tanto que são mil dias como repórter exclusivo de mim. Não me demito, ehehe: fui expulso! Expulso da minha única escrita, meu unitema a que alguém chamou 'obsessão'. Parvos! Sabem lá o que o que não foi escrito, se nem o que o foi foi lido com os sentidos. Sentidos, de sentir, verbo macaco. Macaco pirilimpimpão.
'Fui', mas volto. oyé! ;-) "

em jeito de memorabilia pessoal




nasci a 9 de Abril. dia da batalha de La Lys. ano a ano, desde que cheguei a Portugal, via na TV a 'cerimónia', ano a ano cada vez menos os veteranos, até que deixou de ser noticiada. presumi que tinham morrido todos.

agora aconteceu na América. alguém lá, parceiro duma das suas 'noveabrilianas' datas, sentirá igual?

(imagem daqui.)

é só no esoterismo que nada é o que parece?




"As definições são unicamente aproximações. Qualquer que seja o sujeito, o seu predicado é sempre a totalidade do universo. Nesta impermanente realidade, aquilo que imaginamos como a verdade absoluta torna-se-nos impensável. As nossas flechas nunca conseguem acertar no centro do alvo porque é infinito. Os conceitos que a razão emprega são verdade para mim, aqui, neste preciso momento. Para outro, além, mais tarde, podem ser falsos."

"A Dança da Realidade", Alejandro Jodorowsky, A Esfera dos Livros, 2006 - pág. 87

bem... também há o chocolate!




"Tal como o gajo diz, em Itália, durante trinta anos sob os Bórgias, tiveram guerra, terror, assassinatos e derramamento de sangue, mas deram-nos o Miguel Ângelo, o Leonardo da Vinci e a Renascença. Na Suíça, tiveram amor fraterno; tiveram quinhentos anos de democracia e paz, e o que é que eles nos deixaram? O relógio de cuco..."

Fala de Harry Lime em 'O Terceiro Homem', filme de Carol Reed em que Orson Wells interpretou o papel de Lime e reescreveu muitos diálogos - incluindo este solilóquio onde justifica os seus métodos com recurso a um paralelo histórico.

Extraído do prefácio de John Baxter a "Mr. Arkadin" (Babel, 2010), se não consensual na redacção atribuída a Orson Wells, por certo de sua total inspiração e talvez até ditado.

brinquedos grandes



Huayra significa "vento", em língua maia. é o novo bólide da Pagani, essa fábrica de brinquedos para crianças grandes e enlouquecidas pela paixão em voar baixinho e lindo.

o motor é o V12 da Maybach artilhado na AMG e, li-o algures, com um cheirinho secreto do preparador Ricardo. tudo o mais é estrondosamente belo. a exemplo, os botões da consola são tão lindos e magnéticos como os dum saxofone: são iguais!

senior




estava a namorar (com a minha namorada), e ela sai-se com esta: «isto de termos os dois óculos é chato».
respondeu o bicho ruim que há em mim: «tivessemos ambos algália e é que era uma merda!...»

Falstaff






Falstaff leva plateias e leitores às lágrimas de risota. o que não afasta ser uma personagem asquerosa da literatura.

destrinça possível: rimo-nos do medo, rir é meio remédio, sininho de sempre alerta.

não há bulas sábias para a outra metade, mas fechar o livro ou pôr o rabo de fora não será remédio completo.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

com licença, isto é bonito II

ver entrada anterior, p.f.)
da mesma obra e maluco, grande grande

XL
'O espelho'

Um homem medonho entra e olha-se ao espelho.
Porque é que se olha ao espelho, se só pode ver-se nele com desgosto?»
O homem medonho responde-me: «Senhor, segundo os imortais princípios de 89, todos os homens são iguais em direitos; logo, eu tenho o direito de me mirar; com prazer ou desprazer, isso só tem que ver com a minha consciência.»
Em nome do bom senso, eu tinha sem dúvida razão; mas, do ponto de vista da lei, ele não estava errado.


pág. 107)


com licença, isto é bonito


de "O SPLEEN DE PARIS (Pequenos Poemas em Prosa)", de Charles Baudelaire, ganda doido

'Um hemisfério numa cabeleira'

Deixa-me respirar longamente, longamente, o cheiro dos teus cabelos, mergulhar neles o meu rosto inteiro, como um homem sedento na água de uma fonte, e agitá-los com a minha mão como um lenço cheiroso, para sacudir lembranças no ar.
Se pudesses saber tudo o que eu vejo, tudo o que eu sinto, tudo o que eu oiço nos teus cabelos! A minha alma viaja no perfume como a ama dos outros homens na música.
Os teus cabelos contêm todo um sonho, cheio de velas e de mastros; contêm grandes mares, cujas monções me transportam para climas agradáveis, onde o espaço é mais azul e mais profundo, onde a atmosfera é perfumada pelos frutos, pelas folhas e pela pele humana.


No oceano da tua cabeleira, entrevejo um porto fervilhante de cantos melancólicos, de homens vigorosos de todas as nações e de navios de todos os feitios recortando as suas arquitecturas finas e complicadas num céu imenso onde se tufa o calor eterno.

Nas carícias da tua cabeleira, respiro o cheiro do tabaco misturado com o ópio e o açúcar; na noite da tua cabeleira, vejo resplandecer o infinito do azul tropical; nas margens penugentas da tua cabeleira embriago-me com os cheiros combinados do alcatrão, do almíscar e do óleo de coco.

Deixa-me morder longamente as tuas tranças negras e pesadas. Quando eu mordisco os teus cabelos elásticos e rebeldes, parece que como lembranças.



Com licença, isto é doentio. A lei proíbe estas cenas em vários graus, e o mais baixo que conheço é de 0,5 não-sei-quê de alcoolémia mas há outras onde qualquer posse até pode dar cana. Apanhe-se uma porrada na cabeça que leve a escrever assim, para o lermos assim, e ficaremos como o bom do Charles quando se cruzou com a sua Jeanne Duval, e teve momentos em que se esqueceu dos credores à sua perna, vida atazanada que teve e ainda no-lo escreveu. Até se ronca se for preciso. Rosna, ronrona. Como um homem sedento na água duma fonte. Porra. Doentio de bom.


Como uma receita louca, que se marinou na vida até nos encher da embriaguês da sua frescura, sabe-se lá se alguma vez sentida. Como se gerada nos imaginários que se foram desenvolvendo pedacinho aqui, pedacinho ali, e crescem-nos cá dentro, naquele aonde vago forrado com as páginas que escondemos quando se pousa um romance mas ele fica connosco, identidades novas em pedaços que se vão colando e formando novas unidades, já autónomas mas de raízes firmes: se se alojaram, razão houve. Estas mesclas transformam-se silenciosamente em vultos que adquirem presença, sentimo-los como se sentem uns olhos fixos na nossa nuca, e isso não se explica. Súbito, explodem-nos já realidades: construímo-los!


E nada se explica excepto assim, 'como lembranças' de rosto inteiro. Se não se explica o mundo, só se o conta, como, a nós? Na sala d'armas de cá andarmos há momentos em que quando se repara está a atirar-se ao florete por causas novas, cujas avózinhas já estavam esquecidas no pré-lar da velhice em que se transformam as nossas vidas, naquelass idades em que se olha com perturbante curiosidade o ralo da banheira, fazem-se almoços de turma pois nada dos hojes tem feeling, tem-se uma conta no Facebook porque a solidão tanto dói como é palradora. As ilhas formaram um arquilégo, sua natural ambição. A causa, a causa da justa, e acredito, sonho!, que tanto como há estocadas que ferem-nos cicatrizes para sempre, a mancha púrpura gerada na explosão tem desenhos estranhos mas com traços elegantes, um ferir-morrer que se expande naquele vazio de monções de que fala o poeta, súbito nada odiado, ficção que se tornou tanta realidade como uma pedra ou as mãos, os sentidos identificando como nosso esse direito à sua propriedade e defesa, e atrás daquela mancha púrpura está sangue, tanto nosso sangue, tanto que lá havia e queremos que continue a estar, é causa, é o inexplicável viver.


E fica.


Elaboram-se evasões. O spleen de Paris! A Paris das ficções, o mundo que tivemos em primeiro plano de sonhos quando não se escrevia "...do séc. XX" quando se dizia dos anos 60's e dos 70's. Hoje o nosso spleen. Maldita mania, o puto do caraças que não dorme, e pensa-se em Pérez-Reverte, ser-se dom Jaime Astartola como quando em puto se desejou ser o herói vencedor de todas as justas e dos sorrisos da donzela. Calhou-me o Baudelaire. Não premeditara. Os olhos pareciam ociosos mas estavam atentos a tudo, uma lombada apta a ser mudada para outro local onde encaixasse melhor, palavras cruzadas intermináveis, e por aí as memórias perderam-se, tanto Baudelaire, tanta Jeanne, até Ken Follett teve o atrevimento de se meter nisto com uma 'Leoparda' que se passeia por Paris, (e evoca-me La Charbo, que Não conheci, tanto que conheço e afinal nada conheço de Paris!) e essas são as páginas que me estão neste momento nas mãos. Os grãos, as ilhas, as monções, o arquipélago, a presença, o spleen, o inexplicável de nós, mas a necessidade de escrever a história, e esgrime-se, esgrime-se, matam-se os silêncios, foda-se não é fácil encaixar as ilhas, mais só mar não, e todos estes livros falam no mesmo, de todos voam páginas inteiras de estuporado plágio dos nossos sentidos, cópias tão perfeitas das nossas memórias que desconfiamos serem as lombadas que nos espreitam e não nós a elas.


Não é por aí. Carradas doutros mais identitários! Autobiográficos de momentos gémeos de nossos e que sempre nos espantam. Baricco, Alessandro: outro. Sem spleen. «Barry, para os amigos», ouvi. Poetas? de A a Z! Foi uma razia... É uma razia: leia-se Alice Viera-poeta e o meu espanto que não conhecia. (perdi muito do meu mundo que não era silêncio. não encontro o meu arquipélago, há ilhas como pedaços - mas são ilhas - por todo o lado, mais que boiarem placidamente são como rolhas em mar, não se afogam mas de nada servem, de nada são assim apoio e nada vedam ou alcançam: bóiam, flutuam e estão só presentes, lombadas sem préstimo além de recordarem as leituras de fracassos que as bibliotecas lidas têm sempre marcas, ilhas fracassadas sem um íman-arquipélago mas partes de 'lembranças' tais, que nunca, nunca, serão essa coisinha dum grão de memória).

A zona da Rue de la Charbonnière, La Charbo, já não deve existir como excitante de percorrer como se de montras de luxúria fosse feita, montras que são mais que montras porque em cada mulher há só uma mulher e mais nada, não compliquemos, entenda-se que a vida caminha como as cidades mudam, fenómeno que nos tenta primeiro a pensarmos primeiro como ela então era mais que se julgou, e depois a pararmos para olhá-la em contraste, accionando o tal fenómeno que cá marinava para tornar-se-nos tão realidade como então era a grande noite da semana aquela em que se ia dar uma volta a La Charbo, bar em bar, gargalhar, gargalhar. Os ventos da memória fazem de grãos ilhas, e o íman da idade dos balanços faz delas arquipélagos para onde sonhamos emigrar, filmes, filmes que vivemos como se os tivéssemos vivido, quando em verdade nasceram nas tais páginas do livro que se pousou, e se escaparam para cá dentro, acamaram e cresceram, história própria, rosto, 'lembranças' próprias: existe e tem o bom cheiro do tabaco, do ópio e do açúcar, a saúde dos poetas é o excesso dos sentidos, as causas, as cãs vivas de ardor.


(tou a escrever isto mas tenho bem mais de metade do cérebro noutro lado. é lixado para concentrar. lá e aqui)


O pensamento é terrível. Elabora, fixa e descreve, conjuga, tenta contínuamente pôr as nuvens num horizonte que esteja certo com aquele que tocamos. Arruma e desconstrói, fixa novos reflexos à realidade ajustando-os àquela pré-figurada na revoada emergente das tais páginas de ficção coleccionadas. É um 'spleen' figurativo, felizmente sujeito às boas intenções de Saint'Exupèry e livre do ópio e do açúcar de Baudelaire, na mão que devolve o livro à estante as manchas são de boa nicotina, boa, boa, que isso de dormir muito e oxigenado a 100% para morrer saudável é, desculpem-me, um viver bocejante com um final estúpido.

Livro novamente arquivado. Vivam os Poetas pecadores de improvisos! Viva a liberdade de não nos angustiarmos se nos perdermos, que num súbito recanto escondido encontraremos sempre algo apaixonante e que as ciências tecnológicas não assinalam nem detectam, sob a sua espartana programação de todos os metros e horas dos nossos percursos. Cerrar os olhos e estender a mão, tactear e extrair o livro pelo toque da lombada: sensações! os sentidos, o catarro da vida, a patine de viver. Isso tudo, e que a amálgama seja sempre assim num discurso incoerente, recheado de maus-ditos e referências sem contexto qu'as salve do olhar cristal da arte de laboratório.


som: "What Have They Done To My Song, Ma"por Melanie

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

o filme “As pontes de Madison County” (porque não me sai da memória)



Que ganhou Merryl após o fim-de-semana? Uma memória. Que silenciou enquanto foi viva. Fê-la sonhar algumas vezes, recordando a magia, a real e a que o tempo constrói, adornando à medida dos desejos e da necessidade de preservar o belo e esquecer o triste. Mas mais, certamente muito mais, fê-la chorar em silêncios asfixiantes que só ao seu diário contou. E Clint? Clint partiu, e seja por isto ou por aquilo nunca mais a magia se repetiu. Madison County é a realidade e um qualquer Egipto o sonho. Um sonho em fusos horários diferentes. Milhares de quilómetros reais que na fita mal se entrevêem, mas iguais aos que a vida cria e sentimos na pele da alma, e que o tempo excessivamente longo dos desencontros da vida não conserta.

Cinema é cinema e este é um filme maravilhoso. Quási espelho. Quase, porque findo o tempo do bilhete levantamo-nos, a porta da vida abre-se e as fantasias onde imolamos em prece surda o íntimo ficam para trás. Cá fora continua o bom e o mau. Lá dentro, nos soluços travados e nos conflitos íntimos digeridos em 120 minutos de filme, é a fantasia. Mesmo quando parece real, é episódica: o tempo termina convencionalmente: está no programa e sabemo-lo. Está o que queremos encontrar quando cruzáramos a porta, e mais que isso é engano e sabemo-lo assim. Quando guardamos o bilhete da sessão na carteira do peito, sabendo que ele não é só isso. Sonhar, quando se está “na merda”, tem a legitimidade mais límpida do mundo. Mas com humildade igualmente acho que permitir à alma cinéfila agrilhoar pedaços de nós, jardins gémeos, momentos de realidade onde nos sentíamos tão bem e privando-nos deles em pena perpétua, é insensatez excessiva por 120 minutos de ilusão. Tudo seca, há rugas sem cosmética possível. Restará? Um diário. Uma memória de tristezas, mesmo que o Autor se distancie e omita, vestindo as suas melhores roupas nas páginas e páginas de contar pouco mais que as partes de romance deliciosamente romântico (sim, esta parte é que é “literatura”.)



Sou um indefectível do romantismo. Comovo-me às lágrimas com uma história assim. Renovo o bilhete sazonalmente e, este filme, já o vi vezes sem fim (nem preciso de carregar no Play.) Sento-me sempre no meu cantinho, sem pipocas e de peito aberto, sentindo-lhe cena a cena até o estalar agitado das ilusões. Enterneço-me. Como condená-los? Não, condenar-me-ia a mim e às minhas ilusões, ao meus-vossos sonhos. Como criticá-los – no contexto assim dado, celofane tão bonito, embrulho à medida das desilusões ou encantos ou fantasias que pululam em cada um de nós numa ou noutra ocasião da vida? Em lirismo recenseador até cheguei a afirmar que Madison County era a aldeia mais populosa do mundo, que nela estão os bairros que habitamos em má comandita com a felicidade… Só os infelizes que se julgam totalmente felizes não a habitaram já em 120 minutos de catarse íntima, de ilusão.

Mas não é assim. Já o viram? Já, todos o vimos. Depois de chorá-lo restam letras de tristeza. O diário de Merryl são linhas tristes, mesmo que a música soe naquela casa (o seu lar) durante o momento da ilusão, cruzando-se com a realidade como dantes já não se lembrava dela soar assim. Tanto, que escreveu um diário – este filme. Neste contexto, naquelas pontes, tudo parece bater certo, incluindo a poderosa indecisão final na cena do semáforo, a mão tremendo no puxador da porta da pickup. Aperta-se-nos o peito e todos fazemos um plebiscito íntimo. Penoso. Até a mudança da marca de tabaco é romântica. Naquele contexto é tudo tristemente perfeito, belo até, e belo até na renúncia final.



Há mais. Há o fim dos 120 minutos e muito nunca mais será igual ao seu antes. Há valores. Há valores porque além das cortinas não é um filme. Poderão ocorrer perdas (algumas são certas.) Que vale isso? Um segredo por toda a vida, revelado quando “o corpo que amou” já esfriou? Que fica pelo caminho, que olhar devolverão as pontes onde antes se refugiavam os dias? Quem as caiará se falta, se falta e para sempre faltará a relação íntima que existia, a cumplicidade com a paisagem que a entendia – e a lente do fotógrafo errante, outro quixotesco sonhador de silêncios desconhecidos, levou? “Roubou”? O desmaiar da vida não se oculta nas páginas lindas que Merryl legou.

E esta continua a ser uma leitura apaixonada que faço ao filme. Sempre com olhos de espectador choroso, mas também de argumentista competente e que conhece quais as teclas para comover e impressionar. Ninguém é isento. Um filme? Lamento: é uma fórmula. É conhecimentos de psicologia e arte de romance, olho agudo às debilidades da vida e muita sensibilidade quanto às capacidades comuns de enternecimento. E arte, claro que sim. Soberbamente realizado e interpretado. Magnífico. Mas o argumentista termina ‘o serviço’ e vai à sua vida, e no dia seguinte inicia a redacção dum thriller. Os actores e demais recolhem os encómios e as estatuetas. Nós, espectadores, temos deveres acrescidos. Há mais além das lágrimas e das palmas. Há mais, e desvalorizá-lo é renegar a essência do filme, a mão crispada no puxador da porta, e que compreendemos que não se abre assim.

Fora das cortinas da sala há momentos em que há que optar, onde o acordo conciliatório não é admissível. É da essência primitiva humana e a violação é irreversível. Não há ‘razão’ que explique, que justifique, que releve. O consolo não existe. É simplesmente assim. Que resta, depois? Que resta? A dor aumentada, mascarada em lágrimas de filme, de ilusão. Duas vidas que se tocaram em 120 minutos sabendo que não lhes existia perenidade, e continuaram solitárias. Com as memórias, e com as perdas. Isto não está no diário de Merryl, está na vida além cortinas.

Disse. Em menos de 120 minutos de filme, divididos em sessões de entardecer de dias pálidos ou em manhãs de tristezas renascentes. Disse e não volto atrás na crítica, embora adore esconder-me nesta fantasia, neste também meu filme.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

poesia de "José Alberto Sitoe"


como quem me visita sabe, de vez em quando dá-me para me armar em poeta. enfim.

são formas de traduzir estados d'alma.

há uns anos atrás criei um heterónimo/pseudónimo que retratasse a minha má-consciência - então não resolvida - de ter "abandonado" a revolução moçambicana. se a razão me impeliu para Mavalane, o coração doeu anos e anos: havia um pedaço da minha infância e mocidade que ficara lá, lá, no caniço e zinco da Mafalala onde tanto brinquei e cresci, lá na cidade de cimento onde fui tão feliz.

"José Alberto Sitoe" é ess'outra minha alma. o 'meu mano' que abandonei (fugi?). vejo-o nitidamente quando o penso e escrevo. sentado à porta da cantina, a garrafa de vinho barato na mão e o olhar malandro na conversa com as putas, suas amigas. os dentes amarelos de mulala e os olhos amarelos da vida. e rabisca. rabisca sentires, afectos e desafectos. gosto dele.

uma última nota. poucos sabem que 'o Sitoe' sou eu. muito poucos. há pouco tempo, na busca pela net dos meus poemas perdidos - tenho o péssimo hábito de não guardar tudo que faço - descobri, com um sorriso de prazer que não imaginam, que o meu lado 'Sitoe' era mais citado em blogues de poesia moçambicana que o que vocês conhecem, a faceta 'Gil'. Gostei!

aqui ficam alguns dos que até agora catei:


"Subúrbios by night"

Lá no beco da ti’Juliana
logo logo tem a cantina do Dias mulungo
e há uma árvore que sabe das coisas
ela viu tudo, tudo.

A luz do jeep cinzento
as fardas pretas e os bastões
viu as botas ouviu os gritos
ela viu tudo, tudo

lá no beco da ti’Juliana
onde o caniço está partido
eles bateram, bateram, bateram
no fim das luzes ficou um corpo caído
mais o caniço, tudo partido

nem o Dias nem ninguém
abriu uma janela, uma porta, um grito
a ti’Juliana dormia sem sono
a árvore viu tudo tudo.

Foi lá no beco escondido,
as fardas pretas arrombaram o caniço;
as botas pisaram, os bastões bateram
e a árvore viu tudo tudo

De manhã passos de criança
sob a árvore que sabe das coisas
misturaram areia ao sangue caído
lá, onde o caniço está partido

os pés correram as mãos brincaram
lá onde o caniço está partido
onde está a árvore que sabe das coisas
ela que viu tudo, tudo

Um dia crescerão e
eles sabem tudo, eles sabem tudo



"Machamba"


A enxada ergue-se e cai
ritmadamente

Uma para o imposto…
outra para o mulungo…
e mais esta, também…
Uma para mim…
tantas para não sei quem…

As AK's ergueram-se e soaram
ritmadamente



"tombazana, mamana, cocuana"


(à memória de Josina Muthemba Machel, falecida em 7 de Abril de 1971)


sete de abril é teu dia
dia da mulher moçambicana

seja esbelta tombazana
ou mamana de airosa capulana,
hajam cãs de cocuana
sete de abril é o teu dia,
dia da mulher moçambicana

todas és Josina, é teu dia
dia da pioneira na emancipação
da Mulher na mata renascida
que foi obreira na libertação

mulher africana, por graça moçambicana
aquela que é dupla grávida, antes e depois de parir:
no antes traz na barriga o Futuro,
carrega-o às costas quando ele aprende a sorrir

sete de abril é teu dia
dia de lembrar ao mundo
que haja vento, sol ou chuva
batas ou não o pilão
no campo, na mata ou na cidade
há um sorriso que baila e cresce
porque sete de abril é teu dia
dia da mulher que fez a revolução



"Cooperação"


Em vinte e cinco de Junho
mil novecentos e setenta e cinco
zero horas e coisa pouca
eu rasguei a minha certidão
enterrei a falsa filiação.
Passou a estar escrito
nas letras que te ensinei a ler
que a longa aula terminara
vencera a insubordinação
triunfara a minha razão,
e eu já tinha uma nação.

Em vinte e cinco de Junho
de mil novecentos e setenta e cinco
eu e tu mudamos o olhar
não te chamei mais meu senhor,
era dono da minha terra
já tinha uma nação.

Desculpa-me se, na euforia
onde rasguei a certidão
e bani o colonialismo
e esqueci a submissão
lamentavelmente, não me lembrei
de estender-te a minha mão...

É que
em vinte e cinco de Junho
quando ganhei a minha nação
esqueci-me que setenta e cinco
(ano de revolução)
era tempo de falarmos
em cooperação.

Eu dizer-te que já não eras
eterno senhor e patrão
(precisavas dum convite
eu rasgara a certidão.

Em vinte e cinco de Junho
mil novecentos e setenta e cinco
a festa era só minha
minha e dos meus irmãos)

Hoje
longe a festa
- mas sem regresso à lição
queres abrir a porta que não viste e
como irmão, apertar a mesma mão
que soube rasgar a certidão?



"Palavras em negro"


Antes de tu chegares com as caravelas
as missangas a cruz
eu tinha o meu ritmo sereno de crescer
lento como o Sol induzia
e eu falava

Contigo aprendi a comerciar
a vender os meus irmãos
que as caravelas levaram
deixando um rasto de progresso
um vazio e a cruz
e eu calei-me

Nas savanas em que eu caçava
descobri que um pala-pala era pouco
para quem tanta fome tinha
e matava vinte por prazer
e eu calei-me

Foi também contigo que aprendi
que as minhas mulheres eram tuas
sempre que o querias
tive filhos mulatos
e eu calei-me

Quando aprendi a tua língua
(pois tu não aprendias a minha)
descobri que ao dizer não
as bombardas falavam muito alto
e eu calei-me

Nas tuas guerras fui teu soldado
cobrei-te os meus impostos e fui teu cipaio
- até brinquei com os teus filhos
mas na tua mesa nunca houve mais um lugar
e eu calei-me

Prendeste os meu chefes
deste-me administradores
o prazo e o chibalo
o rand e o algodão
e eu calei-me

E quando quis falar
voltar a ser independente
disseste-me não em balas que senti
herdeiras das cidades que te construí

devolvi-tas
e, finalmente
tu calaste-te e eu falei.

Tanto que eu contigo aprendi...


(imagem encontrada algures na net...)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

insónia vs sono exagerado


acabo de receber um mail acerca da (possível) ligação de distúrbios físicos com razões de foro psíquico. nada de novo por aqui: já são conhecidas muitas.

mas reparo nesta - de que felizmente não padeço: pelo contrário, mal durmo:


"Uma necessidade exagerada de dormir suscita as seguintes questões:

1 - Ando fugindo da actividade, da responsabilidade, da consciencilização?

2 - Vivo num mundo quimérico e tenho medo de acordar para a realidade da vida?

3 - Escondo-me do fracasso, acreditando que dormindo ele não existe? E repito a evasão continuamente, sem enfrentar as causas - acordando?"



depois o inverso - o meu caso:


"A insónia deve servir de motivo para fazerem-se as seguintes perguntas:

1 - Até que ponto dependo do intelecto e da observação?

2 - Acaso posso me desapegar das grandes paixões?

3 - Como desenvolvo a minha capacidade de entrega, e satisfaço a minha sensação de carência numa confiança básica?

4 - Quão grande é o meu medo da morte? Já me reconciliei o suficiente com ela?"



tenho de matutar nisto tudo....


(imagem gamada algures na net)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

a eficiência do Estado

muitas vezes pensei que o MNE tem o cargo mais simpático da equipa: os grandes problemas, que normalmente são 'internos', não são com ele. há broncas, como em todos os ministérios, mas amenizadas à vista da opinião pública pela função.

na crise do Egipto esteve bem. o repatriamento de nacionais correu sem falhas conhecidas.

fazendo (quase) esquecer a recente 'broa' da Tunísia, onde com a revolução instalada e nos telejornais de todo o mundo incluindo a da sua casa, o senhor embaixador manteve-se serenamente e irresponsavelmente por Lisboa, justificando-se que já marcara as suas férias antes da crise estalar.

e sem um berro (do MNE, o seu "patrão"! de quem haveria de ser?) que o pusesse a mexer e em passo de corrida para o seu lugar, onde era preciso. ou, se não era preciso em tempo de crise, também não fazia falta nenhuma (a embaixada, logo também ele) em tempo de atender turistas para cobrar-lhes taxas e etcs burocráticos.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

um papel pesado

é um voto sem chama, farda, "voto de dever".
o voto insatisfeito de quem se sente prisioneiro da coerência - hélas! nada mais no jornal!
não porque se ama mas porque não há a quem amar.
e não é momento - nunca é momento! de se olhar para o lado: é connosco, e eu estou cá.

não estarei alegre quando votar Manuel Alegre.
racionalizar paixões é enterrá-las e isso não emociona, não alegra ninguém. apenas...

não esqueço.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

presidenciáveis?

Manuel Alegre. o único realismo que permite a oportunidade de "não ser como querem". falhando esta, não sei se já só aos nossos filhos voltará uma igual.

bem, claro que os corações pulsantes por Cavaco Silva ou Francisco Lopes não concordam. mas isso já não é novidade nenhuma.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

a Reforma do sistema

pouco a pouco vai-se entendendo o porquê de estarmos como estamos.

fala-se nas reformas. que o sistema irá ruir por falta de contribuições e aumento do nº de reformados.
sim, é verdade. há várias razões:

- o travão, seguido de retrocesso que já se iniciou, da demografia no hemisfério Norte: menos cidadãos é primeiro que tudo equivalente a menos contribuintes. e irá agravar-se até atingir o seu pico lá para 2050: aí, não iremos correr com os imigrantes mas aliciá-los nos países de origem
- a maior longevidade, alcançada pela melhoria das condições gerais de vida especialmente nos cuidados de saúde: a reforma aos 65 anos começou a ser implantada em 1970 (USA, alguma Europa), e nessa altura o tempo de vida médio dum homem era de 61 anos. hoje caminha para os 78, e com hábitos de consumo que àquela data não existiam
- maior escolariedade: os jovens entram cada vez mais tarde no mercado de trabalho, i.e. deixam de ser "Despesa" para as Famílias e o Estado e passam a "Receita", gerarem riqueza produtiva e colectável

obviamente que o sistema ameaça entrar em rotura, e entrará se não sofrer uma reforma efectiva e não mera cosmética.
mas isso é para já impensável na Europa: nacionalismos em excesso que coarctam a já pouca coragem em reformar olhando o problema nos olhos
vamos então à cosmética. uma boa cosmética opera milagres numa face deprimida

das lições deste video retiramos quatro:

- a mediática do plafond máximo do valor da reforma/pensão ser de 1700 €,
...e as que não fazem 'caixa' mas não são menos importantes:
- não há acumulação de pensões
- é feita a média de rendimentos do casal para a fixação da reforma individual
- esta regra é aplicável mesmo após divórcio

segundo a reportagem, o sistema de segurança social suíço não é deficitiário. pelo contrário. assim o "excesso" é aplicado em melhorar as pensões menos abonadas. mas
- caso a caso: não há um repartir do bolo em festa permanente: caso a caso vê-se quem, e como, precisa de ver a sua reforma aumentada. excepcionalmente.

funciona. de facto aquele é um dos tais países europeus onde tudo parece que funciona.
os cidadãos são tão previdentes como o Estado que os governa - e aqui aplicar-se-á melhor o verbo imperfeito "zelar", que lá se conjuga bem
aqueles cujo nível de vida no tempo produtivo gerou hábitos que não se compadecem com uns "parcos" 1700€ mensais, fazem PPR's e assim melhoram a sua reforma.
o Estado aplica altas taxas contributivas mas retribui aos cidadãos com a disponibilização de serviços amplos e eficientes. não os explora porque retribui. nem deixa serem explorados. exemplos? já dois
- se eu possuir dois carros obviamente que só ando com um de cada vez. portanto a placa de matrícula é minha e não do carro: mudo-a dum para o outro conforme utilizo um ou o outro. e se for de férias, ou doutra forma qualquer tiver prevista uma prolongada imobilização do veículo, entrego a chapas de matrícula na esquadra de polícia do meu bairro, é-me passado em recibo, e depois levanto-as quando voltar a precisar do carro. então é-me entregue um documento da data do levantamento. envio ambos para a companhia de seguros e o tempo comprovado de imobilização é descontado no valor do seguro automóvel: a Cª de Seguros não abusa de mim porque tenho dois carros (ou mais) e o seguro automóvel é obrigatório
- nas auto-estradas circula-se com o pagamento dum selo, mensal, anual, de turista, etc. o custo do anual é inferior ao que um português paga mensalmente em portagens se morar em Santarém e trabalhar nas Caldas da Rainha.
nem vale a pena falar de mais: funciona

há tempos circulou pelos mails um video (?)/fotos (?) das instalações do Parlamento sueco. das condições de trabalho para os senhores deputados suecos. lembram-se?
e há muito pouco tempo circulou entre nós uma petição para reduzir o nº dos nossos deputados para o mínimo constitucionalmente possível (180), já para a próxima legislatura. lembram-se?
creio que de ambos os casos houve e há uma parcela da sociedade portuguesa informada que não se lembra. já não se lembra. esqueceu. não interessa. não lhes interessa
pois é

e como hoje é só terça-feira e ainda não estou suficientemente mal-disposto fico por aqui.
pois é: também sou português e calo-me, mesmo que só fale em cosmética

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

nós, os PIIGS


os men do money gordo e das máquinas de calcular desconfiadas acreditam tanto no nosso nóvel e magnífico OE que põem-nos a taxa de juro nos píncaros da lua. ou seja, venderam-nos (cá) gato por lebre, e 'tá na cara' que para normalizá-la terá ser de braço-dado com o famigerado FMI: com o seu aval a taxa reduz para metade - é o que se lê, dito por quem diz que sabe disto.

quanto ao mais está tudo igual: o horizonte continua a ser uma linha branca à espera de sermos nós a preenchê-la. como sempre foi, e caímos nisto. talvez se perceba, talvez se faça. começando por recuperarmos a auto-estima: o tempo das caravelas já lá vai, mas há-de haver neste país mais alguma coisa que se fabrique com sucesso e se exporte com lucro além de jogadores de futebol.

sábado, 23 de outubro de 2010

ode ao desejo

acendo o cigarro das palavras difíceis

mas não me lembra nenhuma mais estranha que Mesopotâmia

(ou licor de angustura.)



a coreografia quando te visualizo não se vê,

mas vejo o vértice do desejo:

os caracóis do teu cabelo,

a minha saliva,

e tão perto como distante

a produção literária constante

do sofrido futuro dos impossíveis.



e não consigo pensar em nada mais distante

que Mesopotâmia

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

L'absinthe



alcoolizar-me com emoções e grafá-las nos meus pensamentos, faz-me putativo membro dum qualquer clube de poetas românticos, ou igual membro da populosa classe dos parvos letrados? hesito na camisa-de-forças mas não na gravata que se me ajeita: ilustre e ilustrada, colorida, um tudo nada espampanante. onde nunca os pingos de sentimentos que caiam e se leiam sejam tão anónimos como aquele tudo e tanto que me arde constantemente e assim em silêncios me alimenta, vida destilada com 90º de embriaguez pseudo-poética e um clássico resto em bafo de racionalidade. puta que pariu a métrica das realidades, venha outro copo à mesa que sou e serei sempre daquele álcool escrito um sedento!

(na imagem "L'absinthe", de Picasso. gamada na Net e já não sei onde)

Estado Social

‎Em 2020, quase metade da população activa em Portugal terá baixas qualificações (49,8%). Na Europa, em contrapartida, esse valor vai situar-se nos 19,5%.

isto explica alguma coisa? explica sim. explica a pouca-vergonha que tem sido a Educação neste país. Estado + famílias, culpas a repartir.
porém a realidade é a realidade. não se mandam as pessoas para o lixo, não se matam, não se escondem por baixo do tapete: existimos. desqualificados mas existimos. somos gente, temos famílias, nós somos o País. também somos o País.
um Estado que não olhe assim - mais a mais com culpas no cartório, mas nem era necessário o sentimento de culpa - é um Estado que falha a sua primeira missão: cuidar dos seus cidadãos. a este nível eu defendo o Estado Social.
atenue-se esta crise e a seguir desmonte-se o guarda-chuva social no que tem de pano a mais. hoje tem-o a menos, há varetas à vista e muita gente molhada. somos gente, não somos só números desqualificados.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

uma semana depois!

Setembro é também um mês de tristezas. Algumas que o tempo se não as amaina mascara-as na imprecisão cronológica (doerá menos?). A 14 fez 35 anos que morreu o meu Pai.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

"ser, não o sendo"

texto da intervenção que hoje fiz no III Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora.

"Há dias, numa daquelas noites em que o pavor por esta comunicação me atormentava, tornando o correr de páginas na Internet uma ilusão que aliviava a realidade de ter uma página branca iluminada e vazia à minha frente, sem nada para contar-vos, tive uma visão memorável, e, sim, ela capaz de reduzir numa imagem essa ausência de palavras significantes, e que era o meu tormento.

Vagueava por um dos sítios dedicados a glorificar as maravilhas naturais de Portugal e, de clique em clique, fui lendo e fui-me perdendo, blogues, páginas e páginas que eram improváveis quando liguei o computador e se sucediam em turbilhão, naquela fuga à minha inépcia em contar o que será ser-se um escritor ausente da sua raiz e tinteiro, e como medram os seus ramos, de forma a darem uma copa mínima a essa proscrita condição.

Essas páginas, de refúgio também elas, levaram-me a uma imagem que sobressaiu e colou-se-me à página branca como a explicação perfeita, de maravilhosamente desajustada que era, improvável mas subsistente a conceitos de botânica que, diziam-me, naquela imagem o que estava errado e não lhe pertencia era o que a fazia assim, bela.

Falei-vos em botânica porque a peça desajustada era uma árvore. Não nos espantam as palmeiras de ascendência tropical que vemos em cuidados relvados de jardins. É um exotismo comum, e afinal estamos na borda do Mediterrâneo. Nem as outras, periodicamente vistas ou contadas, de raquíticos arbustos de suruma descobertos nas clandestinas traseiras da sociedade, em heranças coloniais tão resistentes como a memória ou a nostalgia. Nada disso nos surpreende na paisagem ou nas notícias, mas como foi diferente aquela imagem súbita no meu inaudito caso…

Eu vi, na minha visão sedenta de fábulas para resolver o meu problema de escrita estrangulada, juro-vos que vi uma acácia-rubra, própria da moldura africana, na margem dum rio português. A legenda que li e construí disse-me que era o Mondego, um rio totalmente português. Mas a árvore lá na paisagem era africana. Aquela variedade de acácias é rubramente africana. Em excesso imaginativo até aproprio a da imagem a uma genuína semente moçambicana, embora a bela acácia daquela variedade, delonix regia, disse-me uma rápida busca que posteriormente fiz, tenha origem na flora da ilha de Madagáscar.

E assim dei mais um ponto de lógica na construção da minha ficção da diáspora das raízes moçambicanas, cá, o seu outro vaso onde se sentem em casa.

Como foi possível que nas margens pedregosas e friorentas do Portugal profundo germinasse uma semente filha duma terra vermelha, um vento mais quente, um mar mais azul? Eu não sei mas ela estava lá. Está lá. E nós, filhos de África, estamos cá.

Por vezes ouço falar com desdém e até acrimónia das mensagens e escritos de saudade por vivências que, não se nega ou esquece, aconteceram em período colonial e sob o manto protector da cúpula, a bolha que rebentou porque a História o quis e os homens fizeram. Depreciam as memórias nostálgicas quando com esta matriz. Em leveza de arrogância chamam-nos, preconceituosamente, e errados, de saudosistas da História.

E tanta vez esses dedos apontados, capazes de erguer machados contra uma árvore que embeleza o quadro, porque não lhe pertence historicamente, são militantes ferrenhos de causas da natureza, ainda bem, mas revelam-se incapazes de compreender que uma memória bela não se apaga nos corações com a mesma facilidade com que se muda de casa e se plantam palmeiras no novo quintal. A saudade é outra e é legítima: temos direito à nostalgia de nós, e a contá-lo.

A acácia rubra nas margens do Mondego é minha irmã. Não sendo originária de Portugal, vive a sua diáspora em serenidade frondosa e namoriscando um rio que não é seu, como eu sendo originário da Covilhã e de Lisboa vivo a minha felicidade ficcional pisando a terra vermelha de Moçambique, servindo-me dela para o meu prazer e orgulho de preservar memórias.

Não o sendo sou-o, e talvez sem esta diáspora a que a História me empurrou fosse um outro, incapaz de reparar por falta de contraste como, qualquer que seja a paisagem, a acácia-rubra é uma árvore bela."

sábado, 11 de setembro de 2010

convite





é já nos próximos dias 16, 17 e 18, quinta, sexta e sábado. na Casa de Goa, a Alcântara. o programa completo vê-se aqui (eu farei uma pequena comunicação a 17, pelas 17,30 h)