sexta-feira, 31 de outubro de 2008

o Outro




Os Grupos MSN são um macrocosmos na Internet. Infelizmente estão condenados e a red line está já agendada para Fevereiro que vem. Entretanto a Microsoft tira com uma mão mas dá com outra (ainda se há-de perceber melhor, pra já deixa tar) e ofereceu a possibilidade dos Grupos existentes migrarem para o Multiply, arquivos incluídos. Ora os Grupos, seja na velha versão ou na nova são um ninho de debate infindável, seja sobre a vida sexual dos pinguins ou o velho, recorrente e actualmente bem justo e pertinente, "cascar" nos maus políticos e nas más políticas suas filhas disto e por isso.

Este serão e à volta dum comentário com um amigo - a que aqui omito o nome, é irrelevante - que compara a situação de crise política actual com a vivida no pós derrube da monarquia, aproveitando para desancar forte na forma como a Democracia vem sendo praticada e alvitrando que eticamente não se ganhou nada comparativamente com o "antes 25A" não perdi a deixa e fiz "lençol". Centrei-o no nosso olhar desconfiado às diferenças que nos singularizam, no fundo "o medo do Outro" - aproveitando e deixando pequenas impressões duma conferência a que assisti esta semana.

Aqui fica com pequenos ajustes em relação ao original, feito de jorro, para quem tiver paciência de ler.

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"P....., amigo: mal e porcamente mas conheço a nossa História. Daí que tenha lido do porquê do Povo (mais o resto, mas fico-me por este lato e esqueço o restrito 'esclarecido') ter endeusado quem apareceu como capaz de pôr ordem na arena do circo. Daí que nem tu nem eu nem ninguém vem tentar provar nada. Há momentos históricos com características específicas e, à época, quase toda a Europa assentava em "homens providenciais" - de Leste a Oeste: era fórmula. Sobre Stalin: foi um cão se comparado com os nossos tribunos de pacotilha: não vejo réstias de similitude em nada. Mesmo após a WWII "continuou" internamente o trabalho de Hitler, Himmler e SS-capangas. Não chacinou exclusivamente inimigos políticos, ou pretensos, ou potenciais inimigos políticos que fossem ou ele sonhasse serem ameaças à sua égide imperial: chacinou etnicamente e se não tinha Birkenau-Auschswitz tinha a Sibéria e as valas comuns que sinalizavam a longa estrada até lá. Nem sequer teve pejo em começar pelos seus que tinham sido feitos prisioneiros de guerra pelos alemães. E para não perder a embalagem dos derrotados, à sua conta há milhares de judeus assassinados apenas por serem-no. Sobre isso nem vale a pena comparar: a História é farta em depoimentos e estudos.

Agora vamos à chicha: em 34 anos duas dezenas de governos. Se não fosse a merda em que estamos atolados eu retrucava: «porreiro, pá! a democracia afinal funciona». É que nem somos recordistas: a Itália, que sem ou com Camorra e sem ou com dois OE paralelos, o dos Governos-de-seis-meses mais o das Famílias (sim, representam um valor não quantificado mas não há possibilidade de ignorar que a economia italiana assenta também nesse pilar e ele está estucado para durar - vidé books "Gomorra" ou "McMáfia", recentes), a Itália, dizia, mesmo que volta não volta haja ex-presidentes ou ex-PM's que vão de férias ab eternum para a Tunísia e até passe por fases espúrias como a da "república dos juízes", a Itália É uma democracia. Berlusconni é perseguido pela justiça mas já foi eleito três vezes em escolha popular. Mas não é eterno. Aldo Moro foi assassinado mas o centralão sobreviveu (terá sido por isso?). E as BV's foi um ar que se lhes deu. Cá, no nosso tasco, as FP25 eram brincadeira de crianças ao lado daquelas. A Democracia tem custos. Incluindo a de vez em quando elegermos palhaços - reler parágrafo pf.

Deixemos os spaghettis e vamos às nossas broas de milho. Recentemente houve eleições numa região autónoma. Como sempre todos à sua estridente maneira urraram por grandes ou pequenas vitórias. Nem um entre todos pode porém dizer sem corar que vai assentar cu em razão de escolha popular. Não sei se no dia havia Sol e foi tudo para as praias (tou farto d'ouvir essa cá pelo "Côtinente") mas sei que não aldrabaram os números e a Democracia funcionou: a Maioria ganhou e os misters e madames eleitos não são detentores dum mandato eticamente legítimo: ganhou "a praia", ou o enjoo. Depois há as birras d'egos - não gosto de lhes chamar birras por tachos pois quando se trata de pôr a mesa tenho o mau pressentimento que a festa de inauguração da ponte Vasco da Gama era de norte a sul do País (uso maiúscula, gosto). Feijoadas à borla, seja em banco de pau ou no Gambrinus e faz-se bicha de prato estendido e «chega pra lá q'eu cheguei primeiro». Nada de novo na costa ocidental por esse lado, portanto.

200 capitães deitaram abaixo um regime militarizado, semi-militarizado, policiado à paisana ou fardado. Coisa assim tão díspar alguma razão haverá para ter acontecido com a facilidade que foi. O coitado do Newton ainda descobriu a pólvora quando a maçã lhe caiu de madura na moleirinha. Cá caiu de podre e Newtons de bancada que somos por vocação, genes, ou prazer tertuleano, como ela quando veio vinha a deitar aguadilha malcheirosa ainda não nos conseguimos livrar do mau cheiro, sendo que haja quem nem a roupa tenha (já) mandado à lavandaria embora a História já tenha desistido de no-lo implorar por causa do retrato de geração que se está a construir: ainda se acredita que a maçã não caiu por razões naturais e devia continuar, perene, nos galhos que formam a copa onde todos nos abrigamos - e que se lixassem as moscas varejeiras que nos rondavam e conspurcavam com tal íman pestilento sobre os nossos cocorutos. O pomar era tão bom tão bom, que foi um ar que se lhe deu, e o rancho que tratou da desinfestação foram duas centenas. À época, aqui pelo Ribatejo, na minha Hell-meirim, quinta de grande dimensão para as vindimas 'importava' barrôas em maior número para fazer o serviço: é que a fruta na sua época de colheita está madura mas firme. Fora de prazo, cai por si em meia chuvada ou um sopro de vento mais assobiado bastam para.... «temos Newtons cá no sítio». Singularidades lusas.


Deixei um espaço em branco para separar pensamentos pois do Passado, maçãs podres e vindimas a 200 bem feitas estou conversado, se me permites o arrojo de paragrafá-los a eito. Há sempre um Futuro. Mesmo os de amanhã terão o seu momento em que terão de pensar nele. O sistema político nacional, democrático, não está caduco. E não aguarda por Dons Sebastiões para se regenerar. Eu que não sou crente além de em deusas, musas e bacantes, digo: Felizmente! As maçãs podres no cesto é que dão mau cheiro, não é o cesto em si. Quando os senhores parlamentares perceberem que só se representam a si mais os das suas tribos porque o resto da malta "está na praia", quando a mesa da feijoada for posta e os bancos de pau estiverem mais vazios que cheios, aí, uma solução terá de aparecer. A regeneração do sistema, a vindima feira a horas, o não olhar para as maçãs verdes de varejeiras e acreditar que são mágicas e eternas e, se caindo, seremos Newtons e não uns porcalhotos que é o que seremos.

Aceito na boa as críticas à situação de crise de ética política que padecemos. Mais abrangente até, da nossa sociedade no seu global. Vivemos já há umas duas décadas bem medidas olhando exclusivamente para os nossos umbigos e olhando com desconfiança o do vizinho, ignorando-o até se ele mostrar sinais de carecer dum gesto nosso, seja para coçá-lo se estiver em conflito de comichões quer - e importante, esta - duma carícia amiga. O individualismo campeia. De braço dado com o medo do Outro.

Vou contar-te uma coisa, já agora. Esta semana tive de ir à lísbia tratar da vidinha. Como me desenrasquei melhor que esperava, vivo em Hell-meirim onde já nem nas vindimas não se passa nada e a gasolina ainda não desceu o suficiente para trolarós, aproveitei as vistas e fiz-me de urso procurando um colírio daqueles que cá não há. Não, não fui ao "Passarelle": "gajas boas" há em todos os pomares. Isto vem por causa da referência ao Outro, e à rejeição social que campeia relativamente a quem, seja por excentricidade, etnia ou hábitos culturais, seja "diferente". Fui à Gulbenkian assistir à sessão de encerramento (dois dias, calhou-me o segundo) da conferência de seu nome "Podemos viver sem o Outro? as possibilidades e os limites da interculturalidade".

Coisa assim pró complicado, auscultadores e tudo e as duas primeiras filas recheadas de muy nobres e distintas cabeças mediáticas, um smell dos tais que estive sempre desconfiado a olhar para cima não fosse cair-me na cabeleira maçã das tais com bicho. Felizmente as duas conferencistas que nesse final de tarde predicavam falavam atinadamente - diz o urso, eu, que da tradução lá ia rabiscando uma coisa ou outra pois aquilo era fruta demais para ser digerida no momento. E vem a propósito de quê? do Outro, de diálogo multicultural - que extrapolado para o nosso rectangulozito pode ser espartilhado em diálogo entre nós-os-próprios, cada um o Outro.

Recordo uma frase, e até a rabisquei. Duma académica franco-argelina. Mais ou menos assim: «na guerra do Iraque foram gastos até agora dez mil milhões de dólares. e ela iniciou-se teoricamente com o 11/9. dez por cento desse valor investidos no diálogo com o Outro, no cultivarmos a relação com o Outro e na procura de pontes de diálogo, e 11/9 provavelmente não tinha acontecido». Retórica demagógica? Talvez. Mas ficou cá a bailar. Mais a mais quando este Verão Quente em Negação do Outro ainda não arrefeceu. Foi um festim. Na nossa modéstia de brandos costumes e por escassez de meios fizemos dos jornais, telejornais e parafernálias quejandas os nossos Birkenaus e Sibérias privadas a tudo que fosse o Outro. Mas não batas já. Deixa-me terminar. Eu ouvia e a brochura sobre os joelhos com o título da conferência a gritar-me: achava que havia uma pergunta por fazer - e que nem vi feita e não a fiz que, repito, eu era o urso da sala e ainda por cima sempre desconfiado a olhar o tecto: «e o Outro pode viver sem nós?»

No final a síntese da conferência foi feita pelo nosso ex-presidente Jorge Sampaio, como Alto Representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações . Depois dos rodriguinhos e das muitas e mui cultas citações entrou na chicha. Como não lhe cravou o dente nem mostrava intenção disso, eu que até sou um gajo paciente assim também não: vim cá fora fumar um cigarro ao pé dos motoristas que aguardavam Vexas, olhei as árvores e sorri, esperei que uma amiga que lá vira saísse e fomos aviar uma botelha de tinto e o conveniente lastro na tasca mais próxima - com zona de Fumadores. O Outro. Pois.

P......, abusei de ti. Confesso-o. Serviste-me de pretexto para desenrolar um lençol. Que tal desenrolarmo-lo todos? Assim a tal Interculturalidade com o Outro dava um passo em frente. Pequenito, que nós somos todos pequenitos. Tanto que o somos que, lá nas Ilhas, os Senhores julgam-se eleitos & representantes dos que à sua ementa preferem a praia. Eu fiz a minha parte: companhia amiga, rolo de carne à francesa e uma botelha de tinto. Não sei nem me interessa onde o Sr. Sampaio jantou e o que comeu, até se houve maçã à sobremesa. A sua síntese (até onde a ouvi) ia falha do Outro. Afinal o cerne, o mote, a chicha para sintetizar e não para tornear.

Grande abraço. "


(imagens daqui e daqui. gracias, incluindo as institucionais)

Terra dos Sonhos - APELO


"Caros amigos e amigas da Terra dos Sonhos,


A Terra dos Sonhos, como tem feito já por algumas vezes, com resultados muito positivos, vem por este meio fazer um apelo a toda a Comunidade - PRECISAMOS DE ENCONTRAR UM ESPAÇO PARA A NOSSA NOVA SEDE.

A Terra dos Sonhos, para aqueles que não sabem, é uma Associação de Solidariedade Social, sem fins lucrativos, cuja principal missão é a realização dos sonhos mais inalcançáveis de crianças e jovens com doenças crónicas e/ou em fase terminal. Até agora e desde Junho de 2007, já realizámos os sonhos de 21 crianças e queremos continuar a realizar muitos outros sonhos.

Com efeito, a Terra dos Sonhos está neste momento a utilizar um espaço, que lhe foi amavelmente cedido, no centro da cidade de Lisboa. Acontece que, já a partir do próximo mês de Janeiro de 2009, este espaço vai deixar de estar disponível.

Neste momento temos cerca de 35 sonhos por realizar e o ritmo de candidaturas tem vindo a aumentar. Não podemos deixar de realizar estes sonhos, aconteça o que acontecer e, para tal, precisamos de um novo Centro de Operações. E, porque acreditamos que TUDO É POSSÍVEL, acreditamos também que até Janeiro de 2009 encontraremos este espaço que já se encontra aí, algures à nossa espera.

As necessidades, em termos de espaço são:

- Uma sala onde possam trabalhar 3 pessoas e onde se possa colocar a mobília e equipamentos que temos. Pensamos que a partir de 20 m2, já será suficiente;
- Uma zona para reuniões;
- De preferência no centro de Lisboa, com bons acessos;
- Cedência de espaço ou, em alternativa, pagamento de uma renda simbólica, dado tratar-se de uma instituição sem fins lucrativos, com recursos limitados;
- Alguma estabilidade de permanência - mínimo 1 ano - que possa assegurar uma continuidade do trabalho que temos vindo a desenvolver.

A experiência que temos tido ao longo deste ano e meio de existência, é que todos querem ajudar. Aqui está mais uma oportunidade de o fazerem.

Contamos com a ajuda de todos para dar um novo local a esta TERRA DOS SONHOS!.

NOTA IMPORTANTE PARA PESSOAS OU ENTIDADES QUE EVENTUALMENTE DISPONHAM DE ESPAÇOS:


A cedência de espaço é considerada, em termos fiscais, um custo, como qualquer outro donativo - neste caso, um donativo em espécie. Ou seja, a renda que eventualmente cobrariam e que deixem de cobrar é deduzida fiscalmente, nos termos do Estatuto dos Benefícios Fiscais, com suporte nos recibos de donativos em espécie emitidos pela Associação.

Ficamos à espera das vossas notícias - e lembrem-se sempre:

UM SORRISO VALE TUDO!


Frederico Fezas Vital
Presidente "


....................contactos........................


Rua Tomás Ribeiro, 10, Rch. Dto 1050-229 Lisboa
Tel: 210 106 690
Tlm: (+351) 91 833 57 42


Hirondina Cavaco
Décima Colina, Lda
Rua António Maria Cardoso, 15 -6º B 1200-026 Lisboa
Tel: +351 21 321 90 00
Fax: +351 21 322 59 11
Cell: +351 93 416 98 80
Skype: hirondina.cavaco


(recebido por e-mail)

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

"o essencial é ter o vento"



uns dias atrás apeteceu-me dar ao blogue um aniversário estraordinário. "porque aniversários são todos os dias" - serve esta como outra qualquer: apeteceu-me.

Uma coisa boa dos aniversários são os carinhos que se recebem dos amigos. Sejam em palavras, palmada nas costas ou uma prendinha. Recebi esta e sei que não foi escolhida por acaso. Lê-me quem me lê e sabe ler-me. Não sou opaco ou translúcido: sou só eu, cadilho do que me formou e hoje é luz do côto da minha velinha.

E eu sou um piegas danado: emociono-me com estas pequenas merdas. Como sempre que sabem tocar-me. A gaita é que fico atrapalhado e não sei que dizer. Vale que à míngua do meu ditado leio depois, lá, coisas assim. Belas. Que lê-las apetece calarmo-nos e deixar o nosso micro espaço para quem agiganta o dizer dizendo que... o essencial é ter o vento.

(bela imagem daqui. thanks pelo empréstimo)

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

As guerras esquecidas


... ou só lembradas lá prá quinta ou décima páginas (nem sei se é o caso desta notícia e neste jornal em concreto: estou a visualizar online; mas pelo triste hábito...)

5.000.000 de mortos, número calculado. Diamantes de Sangue, chamam-lhe (guerra).


A ler ao tema: O Canto da Missão de John Le Carré. Ajuda a perceber, pelo light. Ou ver ou rever o filme Hotel Rwanda também. Mas o melhor ainda é mesmo ler Ébano - febre africana de Ryszard Kapuscinski. A páginas tantas está lá tudo explicadinho.


Para nós leitores ocasionais de jornais no torcer de sobrancelhas entre birras presidenciais-parlamentares, a crise dos nababos que sobra para os remediados e o sossego comatoso das páginas desportivas.

Há mais Mundo qu'o Iraque e o Afeganistão.

(imagem colhida aqui. obrigado)

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

alternativas







Imagens das alternativas colhidas aqui e aqui. Venha o diabo e escolha pois tenho é de reconhecer que a mim já tanto se me dá como se me deu: só faço é borradas :(

Cantar é Preciso!



Na legenda da imagem lê-se "Santo Ildefonso", que além de freguesia é rua no Porto.
Então para dos "mouros" ninguém faltar aqui vai o link para a Associação José Afonso, onde se conta do livro "Canto de Intervenção 1960-1974", data e livraria de Lisboa onde será apresentado a 14 de Novembro e com recital musical incluído - "quinze dias" passam num instante.

Apresentação pelo jornalista Nuno Pacheco. Voz e som pelo cantor Francisco Naia, acompanhado à guitarra clássica por José Carita e Ricardo Fonseca em que serão interpretados temas de José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Luís Cília, Sérgio Godinho, José Mário Branco, Manuel Freire, Francisco Fanhais e José Jorge Letria.

Menu farto portanto. Daqueles para acompanhar em coro. Só lá não estou se choverem picaretas que me furem os bolsos.

domingo, 26 de outubro de 2008

sábado, 25 de outubro de 2008

um banner, uma causa




Nem que fosse só por este relato mantinha-o. Mas não é. Seja no Brasil, em Portugal ou na Gronelândia este banner ali em cima ou o ali ao lado, ou quaisquer seus gémeos, devem ser exibidos. É que ler faz pensar. O banner que encima o post vem do blogue Sociedade Exclusiva infelizmente parado desde Maio. No último post diz que regressará. Venha. Venha que faz falta. Ah! o que coloquei ali ao lado, fixo e bem alto da coluna de traquitanas para estar bem visível, veio de África, daqui, embora trate especificamente dum problema nacional, interno de Portugal.

A solidariedade por uma cidadania justa para todos não é regional ou fruto de "venêta" do momento. O mote de arranque, sim, poderá sê-lo. Tal como o impulso de comprar um livro de que tanto se fala mas ainda não se leu e não se sabe se o tema, enredo, estilo, nos fará brilhar os olhos. Mas esta causa é superior a tanto individualismo. Nada, mas nada mesmo há de errado em mantê-lo na cabeceira para releitura ou apenas a lombada nos recordar que há quem a sua qualidade de vida mereça ser melhorada. Tem de sê-la, corrijo. Como o tal livro comprado por impulso e que passa a ganhar lugar sempre acessível nas nossas estantes.

Afinal tudo tem a exposição que merece e só há dois critérios: mérito e justiça.

Senão é plástico de campanha eleitoral que no dia seguinte às vitórias e às derrotas é lixo nas ruas e paredes. Nada de confusões: estes cartazes, panfletos, banners, são válidos independentemente de campanhas, por tristeza de alguns para toda a sua vida. A sua vida, lado a lado com a nossa.

Não vale olhar para o lado. O banner não deixa: torna-se íntimo.

canção de aniversário: "on the road again"

Ontem, naquelas conversas nas caixas de comentários de posts que chegam a fazê-las chats (ah saudade...) e a propósito do aniversário da mãe da bloguista, ao dar-lhe os parabéns e à Senhora sua Mãe referi em pormenor de brincadeira que a minha não os celebra por questões religiosas. É "Testemunha de Jeová" e afirma convictamente que «todos os dias fazemos anos».

Vem isto a propósito que nunca me lembro dos aniversários de praticamente ninguém. Por isso menos ainda da dos meus blogues (sim, fui ver: o "on the road again" teve o seu primeiro post num Março). Porém vou aproveitar a deixa dela e "faz de conta" que é hoje o aniversário cá do tasco. E não me lembrei de melhor velinha simbólica que o video da música homónima - mas a inspiração do nome veio em homenagem ao livro - pelos Canned Heat.

Não é uma versão onde se visualize a banda a tocá-la. Dessas encontrei várias mas preferi a abaixo pois as imagens reflectem o ideal que o blogue almejou, uma ou outra vez terá tocado embora em regra o desafine. Vamos então ao original - som - e às imagens que cumprem desta vez o ditado que diz que uma boa fala por mil palavras. E eu ando gago delas.

Ladies and Gentlemans... the Canned Heat plays "on the road again"!

A crise (XIV) - é. é mesmo o raio da economia. mais uns pózinhos, claro


Diz-se que ele e Vasco Pulido Valente lutam bravamente pelo trono de "pessimista-mor" cá do reino. O nosso reino na bancarota (e não só de 'lecas').
Pois a mim parece-me que quer um quer outro dão tiros na água como todos mas têm uma mira do caraças para os porta-aviões, couraçados, tgv's & outras estruturas desmoralizantes do tamanho de aeroportos que ou nos dão vontade de nos inscrevermos numa claque de futebol e taparmos os olhos com cachecóis tão garridos que nada mais deixam ver - também não é por aí que o reino se safará à Multiópticas mas há muita boa gente fiel ao 'Sim! é golo, é golooooooo!' - ou apanharmos o comboio até Vilar Formoso e pendurarmo-nos na janela de lenço branco no "adeus! adeus! finalmente adeus!".
Por mim podem dividir o trono e muito agradecido, pois farto de gente muito inteligente casada com o muito estúpida estou eu.

Via Apdeites V2 cheguei a esta colecção de intervenções dele na televisão. O contraste entre o seu à vontade no chamar os bois pelos nomes e alcunhas sem os rodriguinhos de quem não se quer pôr mal com ninguém pois não sabe se no amanhã não precisará de, ainda mais sobressai quando se vê o embaraço dos entrevistadores.
E, já agora, dos eus-visionadores: 'tuga sou com uma carteira recheada de cartões incluindo o de eleitor número tal, regularmente utilizado como quem vai à bola e... "é só futebol, domingo que vem há mais".

(Gracias à origem. Não deixei referência à linkagem pois pedem inscrição sei lá aonde, e já tenho 99 a mais daquelas que preciso - fala-se de OE o que vem mesmo a calhar: reduções até ao indispensável e cortes no supérfluo, etc & tal. )

(boneco gamado aqui. mui agradecido, para além do Desacordo Ortográfico :)

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

subconsciente da mão




Quando me sinto deprimido faço como mandam os médicos: vou-me aos comprimidos, e muitas vezes petisco do frasquinho que está mais à mão.
Um dos que mais uso (o subconsciente da mão) é este. Hoje calhou-me assim. Soube e fez-me bem. (remexam o frasco: há lá pargas de)

(imagem daqui. tal e qual a queria. thanks)

"As Uvas e o Vento"


Ergamos a taça
pela musa,
pelos que não esquecemos
e pelos que reconstroem,
pelos que caíram
e continuam a viver
em toda a parte,
porque vasto é o mundo
e sempre em toda a parte
caiu o sangue,
o mesmo:
o nosso sangue.

Pablo Neruda

"As Uvas e o Vento", Campo das Letras, 2007

(imagem gamada aqui.)

"maldita cocaína"




ler é aprender.


(imagem daqui. vénia)

Outono



Há links inúteis. Refiro-me aos da beleza duma paisagem, dum gesto, um momento: gravam-se na retina e não precisam de "Listas de Favoritos". Esta imagem veio daqui, deste site. Podia ter vindo de milhares doutros ou apenas dum.
Fica o registo da nobreza da Natureza. E do gesto de quem assim a vestiu, pura: vénia aos deuses (ou ao Big Bang).

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

A Crise (XIII) - E nenhum Prémio Nobel resolve isto?




Aqui dão-se umas luzes do porquê não.

(a medalha foi gamada aqui. espero que não se importem: foi com boas intenções)

A Crise (XII) - "Com a usura"




... e que tal ler [lê-la by] Ezra Pound?

(obrigado Klatuu, druída dos melhores jarros que se bebem n' O Bar do Ossian)

(imagem daqui. gracias)

blogo-leituras, prémios, coisa & tal




Como sempre, bem pensado e bem escrito.

(imagem 'pedida emprestada' ao Piolho na Careca. gracias)

Coffe-break à mão no rato




Por e-mail chegou-me a notícia - e as imagens. Outro "Encontro de Blogues". Mais um. Informação com fartura, horários de coffee-break incluídos, aqui (origem da primeira imagem, o logo do Encontro), e aqui (sede da segunda imagem).

Isto de "encontros de blogueiros" é como as saias: há as mini, médias e maxi: as últimas são coisa fina demais para o meu pé de dança e a esses bailaricos não vou; as do meio são aceitáveis caso o recheio em volta da mesa seja 'malta conhecida' - e não vou a todos -, e quanto às minis ou é date de teenagers o que me exclui ou tête-a-tête a que só junto a minha brilhantina se conhecer muitoooo bem a(s) outra(s).

Fica a informação. Eu fico-me com as palavras sábias de José Régio: Não sei por onde vou, Não sei para onde vou - Sei que não vou por aí!

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

A Crise (XI)




Quem fala assim... tá a ver a coisa bem, ah pois é!

(cartaz do filme gamado aqui. thanks. é uma boa comédia)

Os espinhos da micaia




Nos comentários a este post (quando aqui, que cá em casa é tipo Biblioteca pública e lê-se em silêncio) fala-se nas micaias que o Poeta poemou. Recordei-me que picam. Até me lembrei dum livro chamado "Os espinhos da micaia" e que falava nisso. Há-as pois. Eu é que já me esquecera do raio do livro.

(imagem gamada aqui. thanks 'joe')

domingo, 19 de outubro de 2008

Naturalidade & Pátria





Naturalidade

Europeu, me dizem.
Eivam-me de literatura e doutrina
européias
e europeu me chamam.

Não sei se o que escrevo tem a raiz de algum
pensamento europeu.
É provável ... Não. É certo,
mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
desta luz e deste quebranto.
Trago no sangue uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar Índico.
Rosas não me dizem nada,
caso-me mais à agrura das micaias
e ao silêncio longo e roxo das tardes
com gritos de aves estranhas.

Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com longos rios langues e sinuosos,
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando.


Pátria

Um caminho de areia solta conduzindo a parte
nenhuma. As árvores chamavam-se casuarina,
eucalipto, chanfuta. Plácidos os rios também
tinham nomes por que era costume designá-los.
Tal como as aves que sobrevoavam rente o matagal
e a floresta rumo ao azul ou ao verde mais denso
e misterioso, habitado por deuses e duendes
de uma mitologia que não vem nos tomos e tratados
que a tais coisas é costume consagrar-se. Depois,
com valados, elevações e planuras, e mais rios
entrecortando a savana, e árvores e caminhos,
aldeias, vilas e cidades com homens dentro,
a paisagem estendia-se a perder de vista
até ao capricho de uma linha imaginária. A isso
chamávamos pátria. Por vezes, de algum recesso
obscuro, erguia-se um canto bárbaro e dolente,
o cristal súbito de uma gargalhada, um soluço
indizível, a lasciva surdina de corpos enlaçados.
Ou tambores de paz simulando guerra. Esta
não se terá feito anunciar por tal forma
remota e convencional. Mas o sangue adubou
a terra, estremeceu o coração das árvores
e, meus irmãos, meus inimigos morriam. Uma
só e várias línguas eram faladas e a isso,
por estranho que pareça, também chamávamos pátria.

Rui Knopfli

(imagem e biografia do Poeta daqui. e aqui, outra breve biogradia e uma reflexão com que me identifico. me amargura. vénia a ambos, também por isso)


(post originalmente editado no Bar do Ossian)

estiloso


Todos os países "fabricantes" têm os seus carros-ícone. O Beetle, o Mustang, o Fiat 500, etc etc. Quanto à França há opiniões divididas, mas valha que caia para que lado cair a clientela a alavanca das mudanças é igual nas duas opções de carro-bandeira franciú: quer o Renault 4 quer o Citroen 2 Cavalos têm a mesma geringonça de "puxa-empurra" no tablier para com muitos arranhanços lá irem indo como foram e andaram durante décadas. Indo, porque ainda andam. Se na altura eram o carro dos jovens e dos menos jovens tesos hoje uma R4 ou um 2CV conservadinhos à maneira fazem mais sucesso num desfile à beira-praia que um "banal" Audi, Passat, bêéme ou coisas assim assim a pagar em sessenta meses e cada um deles a gani-lo.

Porém há outro 'mercado'. O dos que procuram a originalidade e pagam-na com cheques daqueles que nem aquando do reembolso do IRS se vêm. Pior que comprar um quadro para encher a parade da sala da moradia na 'linha', pois este quadro além de pedigree e assinatura, rola e é portanto parede ambulante de salão de casa rica. E, quando se trata de 'coisas de artistas' todos temos uma costela-Berardo e havendo carteira arraçada da dele, não fosse as rodas num carro estarem sempre no lado de baixo por razões de operacionalidade, e o 'quadro' era pendurado na parede de cabeça para baixo ou de lado, conforme desse mais jeito para acomodá-lo ao lado das fotos dos filhotes e ai de quem reparasse e dissese algo. Artista é artista, e venha o primeiro que diga mal da pila do Cutileiro.

Tanta volta para dizer que o Citroen 2CV acima retratato (clicar na foto, por favor) é uma produção Andy Saunders e tem como inspiração tão óbvio o cubismo picasseano que lhe adopta o nome: sobre um chassis de 1938 do "dois cavalos" construiu-se o "Citroen 2CV6 "Picasso Citroen" by Andy Saunders" que, calcula-se, valerá nas casas de leilões especializadas o número redondo ou aproximado de um milhão de libras de Sua Majestade, aquelas notitas que ainda são mais escassas e caras que os €uros. Ou seja, se o money nos bancos não está seguro e nas paredes já não cabem mais bugigangas, mete-se o money na garagem para não vir o bicho-papão do subprime e comê-lo.

Uma espécie de "press release" conta assim:


(from AndySaundersCustoms.co.uk) Inspired by Picasso, madcap mechanic Andy Saunders from Poole has created a modernist masterpiece from his old Citroen 2CVPOOLE car nut Andy Saunders has spent six months turning a 2CV car into a bizarre work of art - after being inspired by Picasso. The tiny French motor is now an artistic masterpiece after the multi-coloured makeover and abstract alterations. It is still fully roadworthy and capable of hitting 65mph and has been renamed Picasso's Citroen. Andy decided to create an asymmetrical and abstract vehicle after seeing paintings by the Spanish cubist Pablo Picasso. It was officially launched at the Goodwood Festival of Speed 2007. The madcap mechanic tried to cross the divide between car design and art - and now believes the mobile sculpture could be worth over a million pounds. The mechanical masterpiece was inspired by Picasso's Three Musicians and his portrait of Dora Maar. Andy has done his best to alter all symmetry and says the more you study thecar, the more quirky things you can see. The 44-year-old added: "I decided to try and blur the line between car design and art by using Picasso as inspiration."



(foto do pópó e demais info daqui. )

sábado, 18 de outubro de 2008

fim de linhagem



Só uso escrevê-lo quando como agora sinto-me bombeiro-incendiário. Encontrei o protótipo "zero dois" numa garagem que não estava sinalizada e olhando as suas linhas voluptuosas a floresta de utilitários estacionados ardeu uma noite inteira. As horas são fósforos que um a um se tiram de caixas proibidas e conforme nasciam mais os dedos se fizeram lixa e deu-me uma vontade louca de àquela luz ler um livro com contos de fantasmas. Acabei por não o encontrar mas o pesadelo já fora licenciado. Lá vai: sorry. Nem um Morgan se salvou. O fumo cega.
O Autor e proprietário da área ardida agora diga se o ensaio satãnico mereçe Mestrado ou a sinecura académica fica por aqui, Ground Zero particular e mais um diploma sem outra utilidade que a memória futura ou limpar o rabo.
Hoje há cinzas de papiros e de bilhetes-postais por tudo que é canto e cadáveres de arquitectos-paisagistas apodrecem sobre plantas e maquetes de jardins. Do parque habitacional, dos castelos não há pedra sobre pedra que se aproveitem. Do principado? nem rasto, retratos ou esperança dalguma descendência sobrevivente.
Nem conheço escriba que melhor o conte que assim: meio assassinato, meio suicídio. Fim duma dinastia que se extingue mas completa, I, II e III, sem hiatos bastardos alojados em casas de servidores em reinos distantes.
Mas o incendiário sou mesmo eu e não o arquivista do Reino: ele apenas assaca ser desmemoriado e desarrumado o que em nada é desabonatório da bonita caligrafia, mas...
Sorry.

(imagem daqui. e, aqui, vejo o borralho a metros)

sábado: dia de futebol

uma perda irreparável para o desporto Rei.

busca-busca quem tiver saudades.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

o Homem é SÓ um animal mais inteligente que os outros animais...


"(...) o que não nos deixa esquecer como é difícil prever quem é que, em circunstâncias excepcionais, poderá vir a transformar-se num monstro." (pág. 261)


Laurence Rees, "Auschwitz - os nazis e a «solução final»", Booket - Publ. Dom Quixote, 2008


(imagem da capa daqui. gracias)

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

"Winds of change"


Ninguém se apercebe de nada.
Brilha um sol violento como a loucura
e estalam gargalhadas na brancura
violeta do passeio.
É África garrida dos postais,
o fato de linho, o calor obsidiante
e a cerveja bem gelada.
Passam. Passam
e tornam a passar.
Estridem mais gargalhadas,
abrindo uma sobre as outras
como círculos concêntricos.
Os moleques algaraviam, folclóricos,
pelas sombras das esquinas
e no escuro dos portais
adolescentes namoram de mãos dadas.
De facto como é mansa e boa
a Polana
nas suas ruas, túneis de frescura
atapetados de veludo vermelho.
Tudo joga tão certo, tudo está
tão bem
como num filme tecnicolorido.
Passam. Passam
e tornam a passar.
Ninguém se apercebe de nada.

Rui Knopfli

(gamado ao Macua, e a foto veio junta pois ainda havia lugar na pickup.. :)

Milos Forman no Salão Ritz


O local? algures entre a Praça da Alegria e o Parque Mayer. Recordo-me da larga escadaria frontal com os degraus forrados nem tapete vermelho gasto por gerações de avós a netos de pé leve e corações ardentes, muitas madeiras em talha dourada e os inevitáveis espelhos com as manchas de patina reflectindo o último passar de mão pelos cabelos antes da cortina se abrir e penetrar no semi escuro que aconchega nas mesas espumante barato e whisky rasca. Ao fundo e como cenário, o palco onde a orquestra hesita nota a nota entre morrerem no seu posto e de instrumento em riste ou, se já mortos como os alvos casacos encimados por lacinhos dez centímetros abaixo de rostos dum século indiciam, apenas repetem os acordes em lentos movimentos para contrariarem o rictus mortis que aparentam e assim enganarem algum médico-legista que tenha lá caído para dar um pé de dança.

Soam slows continuamente. As Damas, que em fugazes momentos duma luz indiscreta dum isqueiro fazem suspeitar serem irmãs, filhas mais velhas e uma ou outra até mães da esforçada orquestra que simula em arremedos de acordes que ainda vive e não morreu, elas, as Belas, antecedem em maquilhagem e profundidade de olhar escolas de cinema neo-realistas que Cannes ainda não sonhava premiar, e enquanto sinto o osso da perna da que o destino me sentara ao lado cravar-se na minha, a mão gélida torneando-me o pescoço e a voz que se quereria ciciante murmurar-me ao ouvido em pigarros de catarro de Três-Vintes: "filho, mandas vir outro 'Magos' e depois dançamos?", eu sinto-me não filho mas neto daquele olhar 'femme fatale' de décadas de avanço, que me leva, um, a duma golada beber a minha zurrapa e pedir outra, dois, a pedir ao solícito outra bebida para "a menina" e anuir-lhe que sim, a cabeça para cima e para baixo para se libertar do toque da pele fria que lhe cobre os ossos - sentia-os da falange à falangeta. Se ela e a sua insistente perna me permitissem evadir-me sentir-me-ia outro Milos Forman a filmar o baile dos bombeiros da associação do bairro.

Mas não. É um salão de baile feito casa de alterne, se o alemão ainda não me engana é o velho Salão Ritz e falo do início da década de oitenta do finado. Contar como lá caí era ignorar a música que soava, lenta, repetitiva, esforçada, e seria um desrespeito à estória. Por isso nada de miudezas. Com as goelas e o estômago a arder pela mistela de Sacavém deixei-me conduzir pela mão para a pista onde as luzes baças deixavam ver outros figurantes do sketch surrealista. Bailavam, a ideia era essa e a orquestra sobrevivia para isso e cria em mim que os outros, como eu, sentíamos o dever instintivo de bailar, bailar sempre, porque se a pista se esvaziasse um a um os casacos brancos com lacinhos pretos caíam como folhas fora de prazo tantos os Outonos que já deviam à tumba: sobreviviam porque tocavam, e tocavam para que se bailasse. Ela, a Bela? algo cruzado e esforçado entre a avó anoxérica dum futuro 'Família Adams' e uma vamp fora d'época - havia fascínio no momento que sentia-o como único: desde que subira a escadaria iluminada pelo vetusto lustre e pelo vermelho e ouro da decoração que os gastos espelhos me diziam, mesmo antes da cortina se abrir e penetrar em cena, sabia que vivia um momento que já não existia, não era nem da minha época nem da cidade que lá fora existia, findo o último degrau da escadaria: uma máquina do tempo teleportara-me para um pedaço de celulóide de cinemateca e bebia-o e inalava-o sequioso, bem ciente do privilégio histórico de ser-me propiciado vivê-lo. Se entre mesas divisasse caras conhecidas por fotos de álbum de família, o meu tio Olívio que nos finais de cinquenta's emigrara para o Brasil ou até o meu pai que, rezam os anais da família, fora galã marivialva na sua época lisboeta, não me surpreenderia por aí além. Pensava-o para mim enquanto a mão lhe torneava a cintura de vespa reformada e aspirava o cheiro da laca e de decilitros de perfume que me envolviam na névoa onde bailava um, dois slows.

Noblesse oblige, ousei teclar solidariamente aos colegas de palco um tímido piano nas costas desnudadas, e hérnia dical a hérnia discal acompanhava o ritmo que o palco de mortos-vivos debitava: não havia ritmo para subir uma oitava nem desci qualquer nota de levantar a plateia muito embora o primeiro balcão se esforçasse e se colasse ao meu peito. A Dama, a pista, o décor belle-époque, as luzes e a orquestra em nada ajudavam a um lá bemol maior que soltasse vidas, baladas e ritmos à partenaire ou à assistência. Bailasse, eis o guião da noite no Salão Lisboa, e o escritor não tivera um momento esfiziante quando mo escrevera - pensava.

A orquestra, coitada, faz uma pausa que eu entendi como a sua deixa para oxigenarem a existência. Foi o meu erro pois não a aproveitei e recolhi à mesa, outro 'Magos' e meio copo de tintura de iodo afogado em gelo e fim de tournée...! O Maestro ressuscita e arrasta no seu milagre colegas, instrumentos, imagine-se que até o som: soa um Tango! Esclareçamo-nos desde já: rock é rock e basta abanar o capacete e fazer olhinhos à garina; slow é slow e não fosse a Dama uma madame que me merecia provecto respeito e sabia como me desenrascar. Um e outro são como andar de bicicleta. Mas um tango... isso já é brevet ou carta de patrão da costa! Um Tango, senhores! Não, não estava no guião. Nunca estivera! Mais e para completar: das profundezas avoengas do olhar da Dama emergiu um brilho que em princípio não cataloguei como perigoso mas que o súbito estremeção do até então plácido esqueleto disse-me que para brincadeira já chegava e agora é que se começava a tratar de coisas sérias. Tão sérias foram que nas suas mãos rodopiei como nunca julguei possível, levei baile, bailarico e, acredito, momentos houve em que até dancei o tango guiado pista afora por uma cicerone mista de alucinada rejuvenescida e indefectível à arte. Nos seus braços e em volta do seu corpo fiz de mim o que não sabia estar ao meu alcance, o seu olhar profundo e magnético cravado no seu infante, ordenando e descodificando o que as suas mãos mimavam às minhas em gestos, puxões e impulsos decididos. No palco os mortos ressuscitavam tal como eu. E as cordas trinavam, os metais assopravam, o piano desenfiavasse e desenrascavasse de teias d'aranha. Foi o momento alto da rodagem e o meu excelsus como bailarino e actor.

Quando o realizador disse "corta!" e tive autorização para voltar à mesa, obviamente bebi um duplo. Depois osculei a minha Dama na mão que não segurava a taça e sem mais palavras que as que os meus olhos diziam, e desci a escadaria do tapete vermelho sem olhar para os espelhos: neles, só podia mesmo era estar reflectido Gene Kelly saltitando nos degraus como se chovesse. E chovera... por isso eu cantava!


ADENDA: corrigi o título: Salão Ritz e não Salão Lisboa. a memória tem 'buracos negros' mas felizmente há amigos que com memórias semelhantes no-lo recordam :)

(originalmente publicado aqui - gracias pela oportunidade dum pé-de-dança Hipatia! e ora com ajustes mínimos. foi mesmo uma dança e pêras, como soe dizer-se..! :) a foto tem os créditos referenciados no blogue e post de estreia, aqui. duplas gracias :)

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

A máquina do mundo




E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som dos meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado já se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto dos mistérios, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter suado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mística das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percurssão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável
em colóquio se estava dirigindo:
"o que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, por tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo."

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que tantos
monumentos erguidos à verdade;

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mas mínima - esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios de sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade que,
já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmo abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes dispiciendo

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.


Carlos Drummond de Andrade
(provavelmente o seu poema meu preferido)




(Post dedicado a quem, também, tão boa Poesia nos tem dado.)

(imagem daqui. gracias)

Poesia e Cor: Inez Andrade Paes




até eu já estou farto da "Crise". imagino vocês...
por isso, para desenjoar, nada como Poesia. e, falando nela, invocando-a, vou buscar um poema de Inez Andrade Paes, luso-moçambicana como eu mas com acesso às tais linhas invisíveis à Arte das palavras e da cor que eu já desisti de encontrar. invejo-a? não. admiro-a.

CRIAS

criaste montanhas com a solidão
do teu abraço

envolveste as sombras
do teu passado

em fuga perfeita na ira da ventania

bordaste as escarpas
com tesouros brancos

tão frágeis

são

tuas crias


(pintura e poema da citada, descaradamente gamados no seu canto de Encantos.)

A crise (X)


sanita cravada a diamantes...!