sexta-feira, 24 de outubro de 2008
"As Uvas e o Vento"

Ergamos a taça
pela musa,
pelos que não esquecemos
e pelos que reconstroem,
pelos que caíram
e continuam a viver
em toda a parte,
porque vasto é o mundo
e sempre em toda a parte
caiu o sangue,
o mesmo:
o nosso sangue.
Pablo Neruda
"As Uvas e o Vento", Campo das Letras, 2007
(imagem gamada aqui.)
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Carlos Gil
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sexta-feira, outubro 24, 2008
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Outono

Há links inúteis. Refiro-me aos da beleza duma paisagem, dum gesto, um momento: gravam-se na retina e não precisam de "Listas de Favoritos". Esta imagem veio daqui, deste site. Podia ter vindo de milhares doutros ou apenas dum.
Fica o registo da nobreza da Natureza. E do gesto de quem assim a vestiu, pura: vénia aos deuses (ou ao Big Bang).
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Carlos Gil
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sexta-feira, outubro 24, 2008
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quarta-feira, 22 de outubro de 2008
A Crise (XIII) - E nenhum Prémio Nobel resolve isto?

Aqui dão-se umas luzes do porquê não.
(a medalha foi gamada aqui. espero que não se importem: foi com boas intenções)
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Carlos Gil
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quarta-feira, outubro 22, 2008
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A Crise (XII) - "Com a usura"

... e que tal ler [lê-la by] Ezra Pound?
(obrigado Klatuu, druída dos melhores jarros que se bebem n' O Bar do Ossian)
(imagem daqui. gracias)
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Carlos Gil
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quarta-feira, outubro 22, 2008
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Coffe-break à mão no rato
Por e-mail chegou-me a notícia - e as imagens. Outro "Encontro de Blogues". Mais um. Informação com fartura, horários de coffee-break incluídos, aqui (origem da primeira imagem, o logo do Encontro), e aqui (sede da segunda imagem).
Isto de "encontros de blogueiros" é como as saias: há as mini, médias e maxi: as últimas são coisa fina demais para o meu pé de dança e a esses bailaricos não vou; as do meio são aceitáveis caso o recheio em volta da mesa seja 'malta conhecida' - e não vou a todos -, e quanto às minis ou é date de teenagers o que me exclui ou tête-a-tête a que só junto a minha brilhantina se conhecer muitoooo bem a(s) outra(s).
Isto de "encontros de blogueiros" é como as saias: há as mini, médias e maxi: as últimas são coisa fina demais para o meu pé de dança e a esses bailaricos não vou; as do meio são aceitáveis caso o recheio em volta da mesa seja 'malta conhecida' - e não vou a todos -, e quanto às minis ou é date de teenagers o que me exclui ou tête-a-tête a que só junto a minha brilhantina se conhecer muitoooo bem a(s) outra(s).
Fica a informação. Eu fico-me com as palavras sábias de José Régio: Não sei por onde vou, Não sei para onde vou - Sei que não vou por aí!
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Carlos Gil
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quarta-feira, outubro 22, 2008
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segunda-feira, 20 de outubro de 2008
A Crise (XI)

Quem fala assim... tá a ver a coisa bem, ah pois é!
(cartaz do filme gamado aqui. thanks. é uma boa comédia)
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Carlos Gil
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segunda-feira, outubro 20, 2008
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Os espinhos da micaia

Nos comentários a este post (quando aqui, que cá em casa é tipo Biblioteca pública e lê-se em silêncio) fala-se nas micaias que o Poeta poemou. Recordei-me que picam. Até me lembrei dum livro chamado "Os espinhos da micaia" e que falava nisso. Há-as pois. Eu é que já me esquecera do raio do livro.
(imagem gamada aqui. thanks 'joe')
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Carlos Gil
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segunda-feira, outubro 20, 2008
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Micaias
domingo, 19 de outubro de 2008
Naturalidade & Pátria

Naturalidade
Europeu, me dizem.
Eivam-me de literatura e doutrina
européias
e europeu me chamam.
Não sei se o que escrevo tem a raiz de algum
pensamento europeu.
É provável ... Não. É certo,
mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
desta luz e deste quebranto.
Trago no sangue uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar Índico.
Rosas não me dizem nada,
caso-me mais à agrura das micaias
e ao silêncio longo e roxo das tardes
com gritos de aves estranhas.
Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com longos rios langues e sinuosos,
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando.
Pátria
Um caminho de areia solta conduzindo a parte
nenhuma. As árvores chamavam-se casuarina,
eucalipto, chanfuta. Plácidos os rios também
tinham nomes por que era costume designá-los.
Tal como as aves que sobrevoavam rente o matagal
e a floresta rumo ao azul ou ao verde mais denso
e misterioso, habitado por deuses e duendes
de uma mitologia que não vem nos tomos e tratados
que a tais coisas é costume consagrar-se. Depois,
com valados, elevações e planuras, e mais rios
entrecortando a savana, e árvores e caminhos,
aldeias, vilas e cidades com homens dentro,
a paisagem estendia-se a perder de vista
até ao capricho de uma linha imaginária. A isso
chamávamos pátria. Por vezes, de algum recesso
obscuro, erguia-se um canto bárbaro e dolente,
o cristal súbito de uma gargalhada, um soluço
indizível, a lasciva surdina de corpos enlaçados.
Ou tambores de paz simulando guerra. Esta
não se terá feito anunciar por tal forma
remota e convencional. Mas o sangue adubou
a terra, estremeceu o coração das árvores
e, meus irmãos, meus inimigos morriam. Uma
só e várias línguas eram faladas e a isso,
por estranho que pareça, também chamávamos pátria.
Rui Knopfli
(imagem e biografia do Poeta daqui. e aqui, outra breve biogradia e uma reflexão com que me identifico. me amargura. vénia a ambos, também por isso)
(imagem e biografia do Poeta daqui. e aqui, outra breve biogradia e uma reflexão com que me identifico. me amargura. vénia a ambos, também por isso)
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Carlos Gil
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domingo, outubro 19, 2008
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estiloso

Todos os países "fabricantes" têm os seus carros-ícone. O Beetle, o Mustang, o Fiat 500, etc etc. Quanto à França há opiniões divididas, mas valha que caia para que lado cair a clientela a alavanca das mudanças é igual nas duas opções de carro-bandeira franciú: quer o Renault 4 quer o Citroen 2 Cavalos têm a mesma geringonça de "puxa-empurra" no tablier para com muitos arranhanços lá irem indo como foram e andaram durante décadas. Indo, porque ainda andam. Se na altura eram o carro dos jovens e dos menos jovens tesos hoje uma R4 ou um 2CV conservadinhos à maneira fazem mais sucesso num desfile à beira-praia que um "banal" Audi, Passat, bêéme ou coisas assim assim a pagar em sessenta meses e cada um deles a gani-lo.
Porém há outro 'mercado'. O dos que procuram a originalidade e pagam-na com cheques daqueles que nem aquando do reembolso do IRS se vêm. Pior que comprar um quadro para encher a parade da sala da moradia na 'linha', pois este quadro além de pedigree e assinatura, rola e é portanto parede ambulante de salão de casa rica. E, quando se trata de 'coisas de artistas' todos temos uma costela-Berardo e havendo carteira arraçada da dele, não fosse as rodas num carro estarem sempre no lado de baixo por razões de operacionalidade, e o 'quadro' era pendurado na parede de cabeça para baixo ou de lado, conforme desse mais jeito para acomodá-lo ao lado das fotos dos filhotes e ai de quem reparasse e dissese algo. Artista é artista, e venha o primeiro que diga mal da pila do Cutileiro.
Tanta volta para dizer que o Citroen 2CV acima retratato (clicar na foto, por favor) é uma produção Andy Saunders e tem como inspiração tão óbvio o cubismo picasseano que lhe adopta o nome: sobre um chassis de 1938 do "dois cavalos" construiu-se o "Citroen 2CV6 "Picasso Citroen" by Andy Saunders" que, calcula-se, valerá nas casas de leilões especializadas o número redondo ou aproximado de um milhão de libras de Sua Majestade, aquelas notitas que ainda são mais escassas e caras que os €uros. Ou seja, se o money nos bancos não está seguro e nas paredes já não cabem mais bugigangas, mete-se o money na garagem para não vir o bicho-papão do subprime e comê-lo.
Uma espécie de "press release" conta assim:
(from AndySaundersCustoms.co.uk) Inspired by Picasso, madcap mechanic Andy Saunders from Poole has created a modernist masterpiece from his old Citroen 2CVPOOLE car nut Andy Saunders has spent six months turning a 2CV car into a bizarre work of art - after being inspired by Picasso. The tiny French motor is now an artistic masterpiece after the multi-coloured makeover and abstract alterations. It is still fully roadworthy and capable of hitting 65mph and has been renamed Picasso's Citroen. Andy decided to create an asymmetrical and abstract vehicle after seeing paintings by the Spanish cubist Pablo Picasso. It was officially launched at the Goodwood Festival of Speed 2007. The madcap mechanic tried to cross the divide between car design and art - and now believes the mobile sculpture could be worth over a million pounds. The mechanical masterpiece was inspired by Picasso's Three Musicians and his portrait of Dora Maar. Andy has done his best to alter all symmetry and says the more you study thecar, the more quirky things you can see. The 44-year-old added: "I decided to try and blur the line between car design and art by using Picasso as inspiration."
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domingo, outubro 19, 2008
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sábado, 18 de outubro de 2008
fim de linhagem

Só uso escrevê-lo quando como agora sinto-me bombeiro-incendiário. Encontrei o protótipo "zero dois" numa garagem que não estava sinalizada e olhando as suas linhas voluptuosas a floresta de utilitários estacionados ardeu uma noite inteira. As horas são fósforos que um a um se tiram de caixas proibidas e conforme nasciam mais os dedos se fizeram lixa e deu-me uma vontade louca de àquela luz ler um livro com contos de fantasmas. Acabei por não o encontrar mas o pesadelo já fora licenciado. Lá vai: sorry. Nem um Morgan se salvou. O fumo cega.
O Autor e proprietário da área ardida agora diga se o ensaio satãnico mereçe Mestrado ou a sinecura académica fica por aqui, Ground Zero particular e mais um diploma sem outra utilidade que a memória futura ou limpar o rabo.
Hoje há cinzas de papiros e de bilhetes-postais por tudo que é canto e cadáveres de arquitectos-paisagistas apodrecem sobre plantas e maquetes de jardins. Do parque habitacional, dos castelos não há pedra sobre pedra que se aproveitem. Do principado? nem rasto, retratos ou esperança dalguma descendência sobrevivente.
Nem conheço escriba que melhor o conte que assim: meio assassinato, meio suicídio. Fim duma dinastia que se extingue mas completa, I, II e III, sem hiatos bastardos alojados em casas de servidores em reinos distantes.
Mas o incendiário sou mesmo eu e não o arquivista do Reino: ele apenas assaca ser desmemoriado e desarrumado o que em nada é desabonatório da bonita caligrafia, mas...
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Carlos Gil
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sábado, outubro 18, 2008
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sexta-feira, 17 de outubro de 2008
o Homem é SÓ um animal mais inteligente que os outros animais...

"(...) o que não nos deixa esquecer como é difícil prever quem é que, em circunstâncias excepcionais, poderá vir a transformar-se num monstro." (pág. 261)
Laurence Rees, "Auschwitz - os nazis e a «solução final»", Booket - Publ. Dom Quixote, 2008
(imagem da capa daqui. gracias)
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sexta-feira, outubro 17, 2008
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quinta-feira, 16 de outubro de 2008
"Winds of change"

Ninguém se apercebe de nada.
Brilha um sol violento como a loucura
e estalam gargalhadas na brancura
violeta do passeio.
É África garrida dos postais,
o fato de linho, o calor obsidiante
e a cerveja bem gelada.
Passam. Passam
e tornam a passar.
Estridem mais gargalhadas,
abrindo uma sobre as outras
como círculos concêntricos.
Os moleques algaraviam, folclóricos,
pelas sombras das esquinas
e no escuro dos portais
adolescentes namoram de mãos dadas.
De facto como é mansa e boa
a Polana
nas suas ruas, túneis de frescura
atapetados de veludo vermelho.
Tudo joga tão certo, tudo está
tão bem
como num filme tecnicolorido.
Passam. Passam
e tornam a passar.
Ninguém se apercebe de nada.
Rui Knopfli
(gamado ao Macua, e a foto veio junta pois ainda havia lugar na pickup.. :)
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Carlos Gil
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quinta-feira, outubro 16, 2008
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Milos Forman no Salão Ritz

O local? algures entre a Praça da Alegria e o Parque Mayer. Recordo-me da larga escadaria frontal com os degraus forrados nem tapete vermelho gasto por gerações de avós a netos de pé leve e corações ardentes, muitas madeiras em talha dourada e os inevitáveis espelhos com as manchas de patina reflectindo o último passar de mão pelos cabelos antes da cortina se abrir e penetrar no semi escuro que aconchega nas mesas espumante barato e whisky rasca. Ao fundo e como cenário, o palco onde a orquestra hesita nota a nota entre morrerem no seu posto e de instrumento em riste ou, se já mortos como os alvos casacos encimados por lacinhos dez centímetros abaixo de rostos dum século indiciam, apenas repetem os acordes em lentos movimentos para contrariarem o rictus mortis que aparentam e assim enganarem algum médico-legista que tenha lá caído para dar um pé de dança.
Soam slows continuamente. As Damas, que em fugazes momentos duma luz indiscreta dum isqueiro fazem suspeitar serem irmãs, filhas mais velhas e uma ou outra até mães da esforçada orquestra que simula em arremedos de acordes que ainda vive e não morreu, elas, as Belas, antecedem em maquilhagem e profundidade de olhar escolas de cinema neo-realistas que Cannes ainda não sonhava premiar, e enquanto sinto o osso da perna da que o destino me sentara ao lado cravar-se na minha, a mão gélida torneando-me o pescoço e a voz que se quereria ciciante murmurar-me ao ouvido em pigarros de catarro de Três-Vintes: "filho, mandas vir outro 'Magos' e depois dançamos?", eu sinto-me não filho mas neto daquele olhar 'femme fatale' de décadas de avanço, que me leva, um, a duma golada beber a minha zurrapa e pedir outra, dois, a pedir ao solícito outra bebida para "a menina" e anuir-lhe que sim, a cabeça para cima e para baixo para se libertar do toque da pele fria que lhe cobre os ossos - sentia-os da falange à falangeta. Se ela e a sua insistente perna me permitissem evadir-me sentir-me-ia outro Milos Forman a filmar o baile dos bombeiros da associação do bairro.
Mas não. É um salão de baile feito casa de alterne, se o alemão ainda não me engana é o velho Salão Ritz e falo do início da década de oitenta do finado. Contar como lá caí era ignorar a música que soava, lenta, repetitiva, esforçada, e seria um desrespeito à estória. Por isso nada de miudezas. Com as goelas e o estômago a arder pela mistela de Sacavém deixei-me conduzir pela mão para a pista onde as luzes baças deixavam ver outros figurantes do sketch surrealista. Bailavam, a ideia era essa e a orquestra sobrevivia para isso e cria em mim que os outros, como eu, sentíamos o dever instintivo de bailar, bailar sempre, porque se a pista se esvaziasse um a um os casacos brancos com lacinhos pretos caíam como folhas fora de prazo tantos os Outonos que já deviam à tumba: sobreviviam porque tocavam, e tocavam para que se bailasse. Ela, a Bela? algo cruzado e esforçado entre a avó anoxérica dum futuro 'Família Adams' e uma vamp fora d'época - havia fascínio no momento que sentia-o como único: desde que subira a escadaria iluminada pelo vetusto lustre e pelo vermelho e ouro da decoração que os gastos espelhos me diziam, mesmo antes da cortina se abrir e penetrar em cena, sabia que vivia um momento que já não existia, não era nem da minha época nem da cidade que lá fora existia, findo o último degrau da escadaria: uma máquina do tempo teleportara-me para um pedaço de celulóide de cinemateca e bebia-o e inalava-o sequioso, bem ciente do privilégio histórico de ser-me propiciado vivê-lo. Se entre mesas divisasse caras conhecidas por fotos de álbum de família, o meu tio Olívio que nos finais de cinquenta's emigrara para o Brasil ou até o meu pai que, rezam os anais da família, fora galã marivialva na sua época lisboeta, não me surpreenderia por aí além. Pensava-o para mim enquanto a mão lhe torneava a cintura de vespa reformada e aspirava o cheiro da laca e de decilitros de perfume que me envolviam na névoa onde bailava um, dois slows.
Soam slows continuamente. As Damas, que em fugazes momentos duma luz indiscreta dum isqueiro fazem suspeitar serem irmãs, filhas mais velhas e uma ou outra até mães da esforçada orquestra que simula em arremedos de acordes que ainda vive e não morreu, elas, as Belas, antecedem em maquilhagem e profundidade de olhar escolas de cinema neo-realistas que Cannes ainda não sonhava premiar, e enquanto sinto o osso da perna da que o destino me sentara ao lado cravar-se na minha, a mão gélida torneando-me o pescoço e a voz que se quereria ciciante murmurar-me ao ouvido em pigarros de catarro de Três-Vintes: "filho, mandas vir outro 'Magos' e depois dançamos?", eu sinto-me não filho mas neto daquele olhar 'femme fatale' de décadas de avanço, que me leva, um, a duma golada beber a minha zurrapa e pedir outra, dois, a pedir ao solícito outra bebida para "a menina" e anuir-lhe que sim, a cabeça para cima e para baixo para se libertar do toque da pele fria que lhe cobre os ossos - sentia-os da falange à falangeta. Se ela e a sua insistente perna me permitissem evadir-me sentir-me-ia outro Milos Forman a filmar o baile dos bombeiros da associação do bairro.
Mas não. É um salão de baile feito casa de alterne, se o alemão ainda não me engana é o velho Salão Ritz e falo do início da década de oitenta do finado. Contar como lá caí era ignorar a música que soava, lenta, repetitiva, esforçada, e seria um desrespeito à estória. Por isso nada de miudezas. Com as goelas e o estômago a arder pela mistela de Sacavém deixei-me conduzir pela mão para a pista onde as luzes baças deixavam ver outros figurantes do sketch surrealista. Bailavam, a ideia era essa e a orquestra sobrevivia para isso e cria em mim que os outros, como eu, sentíamos o dever instintivo de bailar, bailar sempre, porque se a pista se esvaziasse um a um os casacos brancos com lacinhos pretos caíam como folhas fora de prazo tantos os Outonos que já deviam à tumba: sobreviviam porque tocavam, e tocavam para que se bailasse. Ela, a Bela? algo cruzado e esforçado entre a avó anoxérica dum futuro 'Família Adams' e uma vamp fora d'época - havia fascínio no momento que sentia-o como único: desde que subira a escadaria iluminada pelo vetusto lustre e pelo vermelho e ouro da decoração que os gastos espelhos me diziam, mesmo antes da cortina se abrir e penetrar em cena, sabia que vivia um momento que já não existia, não era nem da minha época nem da cidade que lá fora existia, findo o último degrau da escadaria: uma máquina do tempo teleportara-me para um pedaço de celulóide de cinemateca e bebia-o e inalava-o sequioso, bem ciente do privilégio histórico de ser-me propiciado vivê-lo. Se entre mesas divisasse caras conhecidas por fotos de álbum de família, o meu tio Olívio que nos finais de cinquenta's emigrara para o Brasil ou até o meu pai que, rezam os anais da família, fora galã marivialva na sua época lisboeta, não me surpreenderia por aí além. Pensava-o para mim enquanto a mão lhe torneava a cintura de vespa reformada e aspirava o cheiro da laca e de decilitros de perfume que me envolviam na névoa onde bailava um, dois slows.
Noblesse oblige, ousei teclar solidariamente aos colegas de palco um tímido piano nas costas desnudadas, e hérnia dical a hérnia discal acompanhava o ritmo que o palco de mortos-vivos debitava: não havia ritmo para subir uma oitava nem desci qualquer nota de levantar a plateia muito embora o primeiro balcão se esforçasse e se colasse ao meu peito. A Dama, a pista, o décor belle-époque, as luzes e a orquestra em nada ajudavam a um lá bemol maior que soltasse vidas, baladas e ritmos à partenaire ou à assistência. Bailasse, eis o guião da noite no Salão Lisboa, e o escritor não tivera um momento esfiziante quando mo escrevera - pensava.
A orquestra, coitada, faz uma pausa que eu entendi como a sua deixa para oxigenarem a existência. Foi o meu erro pois não a aproveitei e recolhi à mesa, outro 'Magos' e meio copo de tintura de iodo afogado em gelo e fim de tournée...! O Maestro ressuscita e arrasta no seu milagre colegas, instrumentos, imagine-se que até o som: soa um Tango! Esclareçamo-nos desde já: rock é rock e basta abanar o capacete e fazer olhinhos à garina; slow é slow e não fosse a Dama uma madame que me merecia provecto respeito e sabia como me desenrascar. Um e outro são como andar de bicicleta. Mas um tango... isso já é brevet ou carta de patrão da costa! Um Tango, senhores! Não, não estava no guião. Nunca estivera! Mais e para completar: das profundezas avoengas do olhar da Dama emergiu um brilho que em princípio não cataloguei como perigoso mas que o súbito estremeção do até então plácido esqueleto disse-me que para brincadeira já chegava e agora é que se começava a tratar de coisas sérias. Tão sérias foram que nas suas mãos rodopiei como nunca julguei possível, levei baile, bailarico e, acredito, momentos houve em que até dancei o tango guiado pista afora por uma cicerone mista de alucinada rejuvenescida e indefectível à arte. Nos seus braços e em volta do seu corpo fiz de mim o que não sabia estar ao meu alcance, o seu olhar profundo e magnético cravado no seu infante, ordenando e descodificando o que as suas mãos mimavam às minhas em gestos, puxões e impulsos decididos. No palco os mortos ressuscitavam tal como eu. E as cordas trinavam, os metais assopravam, o piano desenfiavasse e desenrascavasse de teias d'aranha. Foi o momento alto da rodagem e o meu excelsus como bailarino e actor.
Quando o realizador disse "corta!" e tive autorização para voltar à mesa, obviamente bebi um duplo. Depois osculei a minha Dama na mão que não segurava a taça e sem mais palavras que as que os meus olhos diziam, e desci a escadaria do tapete vermelho sem olhar para os espelhos: neles, só podia mesmo era estar reflectido Gene Kelly saltitando nos degraus como se chovesse. E chovera... por isso eu cantava!
A orquestra, coitada, faz uma pausa que eu entendi como a sua deixa para oxigenarem a existência. Foi o meu erro pois não a aproveitei e recolhi à mesa, outro 'Magos' e meio copo de tintura de iodo afogado em gelo e fim de tournée...! O Maestro ressuscita e arrasta no seu milagre colegas, instrumentos, imagine-se que até o som: soa um Tango! Esclareçamo-nos desde já: rock é rock e basta abanar o capacete e fazer olhinhos à garina; slow é slow e não fosse a Dama uma madame que me merecia provecto respeito e sabia como me desenrascar. Um e outro são como andar de bicicleta. Mas um tango... isso já é brevet ou carta de patrão da costa! Um Tango, senhores! Não, não estava no guião. Nunca estivera! Mais e para completar: das profundezas avoengas do olhar da Dama emergiu um brilho que em princípio não cataloguei como perigoso mas que o súbito estremeção do até então plácido esqueleto disse-me que para brincadeira já chegava e agora é que se começava a tratar de coisas sérias. Tão sérias foram que nas suas mãos rodopiei como nunca julguei possível, levei baile, bailarico e, acredito, momentos houve em que até dancei o tango guiado pista afora por uma cicerone mista de alucinada rejuvenescida e indefectível à arte. Nos seus braços e em volta do seu corpo fiz de mim o que não sabia estar ao meu alcance, o seu olhar profundo e magnético cravado no seu infante, ordenando e descodificando o que as suas mãos mimavam às minhas em gestos, puxões e impulsos decididos. No palco os mortos ressuscitavam tal como eu. E as cordas trinavam, os metais assopravam, o piano desenfiavasse e desenrascavasse de teias d'aranha. Foi o momento alto da rodagem e o meu excelsus como bailarino e actor.
Quando o realizador disse "corta!" e tive autorização para voltar à mesa, obviamente bebi um duplo. Depois osculei a minha Dama na mão que não segurava a taça e sem mais palavras que as que os meus olhos diziam, e desci a escadaria do tapete vermelho sem olhar para os espelhos: neles, só podia mesmo era estar reflectido Gene Kelly saltitando nos degraus como se chovesse. E chovera... por isso eu cantava!
ADENDA: corrigi o título: Salão Ritz e não Salão Lisboa. a memória tem 'buracos negros' mas felizmente há amigos que com memórias semelhantes no-lo recordam :)
(originalmente publicado aqui - gracias pela oportunidade dum pé-de-dança Hipatia! e ora com ajustes mínimos. foi mesmo uma dança e pêras, como soe dizer-se..! :) a foto tem os créditos referenciados no blogue e post de estreia, aqui. duplas gracias :)
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Carlos Gil
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quinta-feira, outubro 16, 2008
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quarta-feira, 15 de outubro de 2008
A máquina do mundo

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som dos meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado já se carpia.
Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto dos mistérios, nos abismos.
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter suado os já perdera
e nem desejaria recobrá-los
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,
convidando-os a todos, em coorte
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mística das coisas,
assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percurssão
atestasse que alguém, sobre a montanha,
a outro alguém, noturno e miserável
em colóquio se estava dirigindo:
"o que procuraste em ti ou fora de
teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,
olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,
essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, por tão esquivo
se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo."
As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge
distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos
e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber
no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,
e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que tantos
monumentos erguidos à verdade;
e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,
tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.
Mas como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,
a esperança mas mínima - esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios de sol inda se filtra;
como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face
que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,
passasse a comandar minha vontade que,
já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes
em si mesmo abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes dispiciendo
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.
A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.
Carlos Drummond de Andrade
(provavelmente o seu poema meu preferido)
(Post dedicado a quem, também, tão boa Poesia nos tem dado.)
(imagem daqui. gracias)
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Carlos Gil
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quarta-feira, outubro 15, 2008
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Poesia e Cor: Inez Andrade Paes

até eu já estou farto da "Crise". imagino vocês...
por isso, para desenjoar, nada como Poesia. e, falando nela, invocando-a, vou buscar um poema de Inez Andrade Paes, luso-moçambicana como eu mas com acesso às tais linhas invisíveis à Arte das palavras e da cor que eu já desisti de encontrar. invejo-a? não. admiro-a.
CRIAS
criaste montanhas com a solidão
do teu abraço
envolveste as sombras
do teu passado
em fuga perfeita na ira da ventania
bordaste as escarpas
com tesouros brancos
tão frágeis
são
tuas crias
(pintura e poema da citada, descaradamente gamados no seu canto de Encantos.)
por isso, para desenjoar, nada como Poesia. e, falando nela, invocando-a, vou buscar um poema de Inez Andrade Paes, luso-moçambicana como eu mas com acesso às tais linhas invisíveis à Arte das palavras e da cor que eu já desisti de encontrar. invejo-a? não. admiro-a.
CRIAS
criaste montanhas com a solidão
do teu abraço
envolveste as sombras
do teu passado
em fuga perfeita na ira da ventania
bordaste as escarpas
com tesouros brancos
tão frágeis
são
tuas crias
(pintura e poema da citada, descaradamente gamados no seu canto de Encantos.)
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Carlos Gil
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quarta-feira, outubro 15, 2008
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A Crise (IX)...
L'Argent Dette de Paul Grignon (Money as Debt FR) from Bankster on Vimeo.
...explicada à moda do sr. Sarkozy
(recebido por e-mail. thanks "miss Assunto")
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Carlos Gil
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quarta-feira, outubro 15, 2008
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terça-feira, 14 de outubro de 2008
A Crise (VIII)
... e eu sei que a feira de Hell-meirim não se pode comparar com a feira de Sevilha.
ora é isso mesmo!
:(
ora é isso mesmo!
:(
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Carlos Gil
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terça-feira, outubro 14, 2008
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A Crise explicada pelos Grandes aos Pequeninos (VII)

a) Governo português 'injecta' 20 mil milhões de €uros no sistema bancário para...
b) Governo australiano 'injecta' 5 mil milhões de €uros no sistema bancário para...
Dados geo-económicos:
Portugal: (dados também daqui)
população: 10.617.575
área: 92.391 km²
PIB total: USD $223,3 bilhões = 162,5 bilhões €
PIB per capita: USD $21.019 = 15.294 €
esperança de vida: 78,1 anos
alfabetização: 93,8%
Austrália: (dados também daqui)
população: 21.310.000
área: 7.686.850 km²
PIB total: USD $908,8 bilhões = 661 bilhões €
PIB per capita: USD $37.300 = 27.141 €
esperança de vida: 81,53 anos
alfabetização: 99%
"é a economia, estúpidos!" - será só isso, pergunto?
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Carlos Gil
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terça-feira, outubro 14, 2008
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segunda-feira, 13 de outubro de 2008
Formas de combater a Crise - VI
Muito obrigado.
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Carlos Gil
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segunda-feira, outubro 13, 2008
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Formas de combater a Crise - V

Valor de compras supérfluas feitas em shoping centers: escreva o leitor o seu. eu tenho medo do meu.
(aconselho a leitura deste desabafo. não é gaga e fala alto. ainda bem!)
(imagem dum shooping center que não nenhum dos 'nossos', daqui. )
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Carlos Gil
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segunda-feira, outubro 13, 2008
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Formas de combater a Crise - IV

Valor: quem sabe quanto custa um total de 250 deputados? responda quem sabe. já agora porque não são mais 100 ou menos 100.
(imagem do plenário da Assembleia da República cheio, ou quase, gamada aqui. )
Formas de combater a Crise - II
Valor: ponha-o o leitor. se tiver alguma ideia - e convém tê-la, convém tê-la....(Imagem dum TGV que não um dos futuros 'nossos', daqui. Vénia.)
Formas de combater a Crise - I

Valor: escreva-o o leitor. algures no OE há-de lá vir qualquer coisinha, um cheirinho dos zeros que durante 'x' anos virão nos próximos
(Imagem dum que não dos futuros 'nossos' gamada aqui. )
o limbo

Um dos Papas, já não sei se este se o que era seu chefe e patrono, extingiu o limbo, aquela zona dúbia onde não se era nem se deixara de ser: morria-se e não se ia nem para o céu ou para o inferno ou se reencarnava nem que fosse em lagartixa ou couve galega: ficava-se eternamente a pairar, apátrida algures nas nuvens. O limbo. Terra de ninguém além das almas-penadas que lá esperam Visto ou para cima ou para baixo. Como qualquer sala de espera onde se tira uma senha em maquinetas iguais às das casas de frangos assados, cá de baixo olho as nuvens e imagino-o com bancos de plástico incómodos, revistas velhas já sem capas e folhetos que ninguém lê. Uma seca. Não se é nem se deixa de ser. Nem faz nem sai de cima.
Imagine-se um divorciado que ainda vive em casa da ex-mulher, também sua ex-casa, porque o Inverno está à porta e as pontes não se mostram como tecto convidativo. Vive no limbo. Nem já o é nem já o deixou de ser. Ainda mais agora com o Cartão do Cidadão que já não tem 'estado civil' e portanto não pode confortar-se lendo o saudoso e simpático "div." que antes era luz verde para independências diversas. Nem ele salta nem ninguém salta para cima dele. É um híbrido condenado à abstinência sentimental com pena cumprida mas sem o gozo da liberdade. Quem o olha acredita que tem os níveis emocionais e físicos convenientemente usados e atestados por vistoria permanente, e bem pode ele protestar que vazam diariamente e não tarda está ferrugento mas, tss tss, ninguém que tenha oficina acreditada e não clandestina o acredita. Está nas nuvens de senha na mão e não tem a menor ideia de em que número vai e quando saberá se vai para cima ou para baixo, se a senha na mão lhe dirá se desce se sobe: o limbo. O limbo dos 'div.' ainda sem nova casa e que não querem gelar no inverno e congelar os depósitos pretensamente atestados.
Limbo, um problema 'div.' bisneto da crise do sub-prime. Espera-se que o Governo olhe para ele. O Papa já fez a sua parte mas ao que consta e se vê não esvaziou a sala de espera: olho as nuvens e vejo na mão d'alguém, exemplo, a senha nº 15.243, ano de 2008. Sem cunhas e missas à sua alma, nem o céu nem o inferno. O limbo.
(imagem das nuvens, sala de espera do 'limbo', daqui. vénia, claro)
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Carlos Gil
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segunda-feira, outubro 13, 2008
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