sexta-feira, 30 de maio de 2008

a aritmética das nuvens

hoje tive uma troca de mails bem interessante. não interessa o tema, que até era equíneo e eu se sou cavaleiro é mais a puxar para a sua vertente cavalheira.
a dada altura escrevi uma frase que, muito mais tarde e já o e-mail sobrevoara meio-mundo e mais a Lua, fez-me voltar a ela, relê-la e gostá-la, como só se gosta quando se embala escadote acima e trepa-se à primeira nuvem que passe.
assim: "Sonhar é mais de metade do Viver, contas que nunca quero ver alteradas".
se fui mau aluno afinal a culpa não foi minha: as matérias é que estiveram sempre trocadas.

quinta-feira, 29 de maio de 2008


(esta não me sai da cabeça)

Sócrates tem mais medo de Manuel Alegre (ou de Mário Soares) que de toda a Oposição parlamentar junta. são prata da casa - e da com chancela, e poderão "exigir partilhas" na família pelo cansaço em ver e rever que a Herança não está a ser respeitada.
com Manuel Alegre (quiça até Mário Soares...) na Presidência da República, ele não se atrevia a metade do que nos tem feito. porque para isso estaria , e não as faria em Imperial conluio a duo.
agora porque Manuel Alegre não está , e quem lá está é o outro.... essa dava pano para mangas e agora não me apetece. só resmungo que de umbigismos partidários e necessidades de afirmação interna de líderes neófitos está o (nosso) Inferno cheio.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

o preço da "gasosa"...

... está pelas "horas da morte"! neste site podem encontrar-se, concelho a concelho, os postos que vendem os combustíveis mais barato.

baía de Pemba

diz quem a conhece que é uma distinção justa.
sem acreditar, digo: "talvez um dia..."

domingo, 25 de maio de 2008

Cadilhe & o Benfica


interpelado num Grupo MSN e nesta mensagem (a que precede) sobre "e o que é que nós temos a ver com isso", tive de responder que aquele e outros Grupos da mesma temática (a diáspora moçambicana e adjacências) não existem exclusivamente para glorificação saudosista da "marrabenta e do frango assado".

depois, alguém que vive bem longe de cá e a quem respeito, pediu-me para alongar-me mais sobre o tema - até pela sua ignorância face ao mundo de distância que o separa. saiu assim, com correcção mínima (supressão de nome do destinatário):


................................

é tão complicado que até se torna fácil:

o BPN (Banco Português de Negócios) é na estrutura bancária portuguesa um pequeno banco. detido maioritariamente por uma obscura SPN, cuja estrutura accionista ninguém conhece ao certo, excepto que o seu maior accionista conhecido é José Oliveira e Costa, o até à pouco tempo também presidente do banco. um ex-secretário de Estado, já daí reformado.

acontece que o BP (Banco de Portugal) e a CMVM (Comissão de Mercado de Valores Mobiliários) estão - e de há anos... - interessados em saber qual é o tecido e quem são os accionistas-mistério, ou seja os verdadeiros donos do BPN. e já agora as suas contas, para serem auditadas com requintes de esmiúça. pelo CA (Conselho de Administração) deste, BPN, ao longo dos seus mais ou menos dez anos de existência têm passado figuras ilustres do jet-set político nacional, todos com uma constante invaríavel: nenhum lá fica mais de seis meses, vá lá vá lá um ano. Mira Amaral, ex-ministro de vários governos e agora "presidente" dum Banco angolano que cá vai abrir estaminé, é de todos o nome mais sonante. mas há mais, muitos mais... porque é que será que todos 'dão de fróxe' tão depressa, sendo tais cargos tão cheios de mordomias e tão bem remunerados? será porque se apercebem de onde se, ou os, meteram?

acontece que o BP é chato p'ra caraças. e tanto chateou, tanto chateou, que ao J.O. Costa não se lhe viam mais que uma de duas soluções, se não apresentasse os documentos e esclarecimentos solicitados há anos: ou continuava a 'fechar-se em copas' e o próprio BP mexia-se e punha-o na rua, ou demitia-se. escolheu a segunda "por razões de saúde", mas não se esqueceu de deixar o filho no CA, embora não como 1ª figura. para essa é sempre preciso um nome de primeira linha, sonante, bem relacionado e, principalmente, credível nas instituições. afinal trata-se dum Banco e não duma mercearia. entretanto, e nitidamente como situação provisória - tal como o Chalana no Benfica quando o Camacho bateu com a porta - foi promovido a treinador, digo, a presidente, um membro do desagregado CA, por acaso até um conterrâneo nosso, se não erro na grafia do nome Abdool Vakir. enfim, chame-se-lhe 'Chalana' que ele neste contexto não terá verdadeiras razões para se indignar ou ofender.

entretanto continuaram à procura dum 'treinador principal'. a imprensa económica e financeira - como se do Benfica se tratasse - ia avançando nomes, palpites, negas atrás de negas. o último a falar-se, à coisa duma semana e picos atrás, foi o de Miguel Cadilhe, outro ex-ministro e ex mais uma série de coisas prestigiantes e sempre bem remuneradas. enfim, era uma espécie de Erickson e ele até nem disse logo às primeiras "que não". o chato - falaram depois os jornais - é que se descobriu que, aceitando a 'canonização' como presidente do bote em dificuldades, perdia o direito à (uma das várias) reforma vitalícia que tinha como ex-membro dos órgãos doutro banco, este um gigante, o BCP. esteve lá uns tempitos e ganhou o direito a mais uns quase quatro mil euros mensais, a somar aos que haverá de ex-ministro, ex-deputado, ex-quadro do BP, ex-presidente do Int. do Invest. Estrangeiro, tantos ex's que eles são, mas aqueles quase quatro mil euros/mês, vitalícios, fazem-lhe falta. e não esteve com modas, disse que assim não. nem pensar. ainda para mais ao que ia e para onde ia.

bem, afinal mudou de ideias e agora já alinha. certamente que o money não foi problema - afinal trata-se dum Banco, embora mais aparentado com banqueta. e não fica a perder os tais quatro mil ao mês - vitalícios, recordo. aqui, tratando-se de quem se trata, é que é bastante mais inseguro que a 'vitaliciedade' do pagante seja superior à do recebente... mas isso também deve ter sido ponderado, quiça recompensado e feito competente seguro.

agora aguarda-se a posição e decisão do BP. onde, se não erro, também o polivalente dr. Miguel Cadilhe também teve vínculo profissional, antes de ser "chamado a mais alto cargo", ministro das Finanças mais exactamente. mas ele não deve estar preocupado - se os há, os preocupados, estão todos dentro do BPN: desde os empregados aos accionistas conhecidos e desconhecidos: caso o BP, ou a CMVM, levantem problemas, a exemplo por promiscuidade excessiva, - sei lá do que se poderão lembrar os que nos gabinetes de vez em quando lembram-se de parar para pensar e, quem sabe, até consultarem umas leis que já quando aprovadas estavam prematuramente cheias de pó, - e negarem o "entronamento", ele, Cadilhe, que não se preocupe: pode sempre ainda ser chamado para treinador do Benfica se o Quique Flores não ganhar uma catrefa de jogos seguidos. e, lá na 'banqueta', hão-de descobrir um notável desempregado para desenrascar o problema...

isto é Portugal. tu que não vives cá não me admira que desconheças e, provavelmente, até te arrepies. agora quem cá vive... ou só lê 'A Bola' ou a 'Caras', ou está-se nas tintas para o apodrecimento da placenta onde vivemos. até ao dia do parto, e descobrir-se que o nado afinal está morto: sufocou por ignorância conjunta da mãe e do pai e de demais familiares, e desleixo da sociedade em geral - accionistas do BPN e associados de 'futebolês' incluídos.

trocado por miúdos não diverge muito disto, Benfica à parte pois para esse 'cemitério de treinadores' acho que nem o profícuo e prolixo Cadilhe aceitava mais um cargozito, quem sabe outra reforma... ele que delas tanto medo tem de vir a precisá-las e, por isso, não prescinde duma.
excepção à do BCP - trocada a troco de quê? - rima.

afinal a resposta à tal "pergunta dum milhão de dólares" é simples, não é? um abraço de moi.

sábado, 24 de maio de 2008

Cadilhe no BPN

e as inspeções do BP ao BPN? ou Cadilhe vai para lá exactamente para "amansá-las"?
há Bancos e banquetas, há instituições sérias que podem casualmente passar por dificuldades, e há instituições mais que suspeitas por ocultarem sistematicamente dados essenciais ao controle da sua actividade. nestes últimos temos reconhecidamente o BPN.
o que vai para lá fazer Cadilhe? eis a pergunta "dum milhão de dólares"....

sábado, 17 de maio de 2008

quarta-feira, 14 de maio de 2008

(...)

passei por aqui só para dizer Olá!
(sim, sei que tenho "correspondência atrasada"; ao que me lembre, um desafio de "seis coisas que não me importo de..." da IO, e um 'selo da amizade' para redistribuir da Luísa Hingá.
a ambas agradeço a lembrança mas... o je há-de "lá ir", ok? agora agora é que "não dá"... para tudo é preciso disposição e essa, por cá, anda uns furos abaixo)

domingo, 11 de maio de 2008

conta, peso & medida

Não é com quilómetros, metros ou palmos que se mede a distância
entre nós e a solidão.

É mais exacto o baço dos olhos onde o brilho se resguarda,
e do seu opaco turvo avalia-se uma medida
que se aproxime duma possível certeza.
Já agora, meçam-se também os dedos que a escrevem
na tinta mais rude, a que soletra so-li-dão.

Em primeiro temos “so” – filho primogénito do só,
esse nosso vizinho porreiro,
o Senhor Sozinho-Acompanhado.

Segue-se a sílaba “li” – que se lê como se de gritos
não audíveis e medíveis. Tão-pouco lidos e entendidos,
comungados.

E finalmente a última de todas, esta estranha sílaba “dão”.
Inexequível porque esse é tempo e verbo
que se gastou e já não se usa ou mede.
Apenas se escreve e entranha-se no meio das palavras,
onde ganha nova entoação, a de Não.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Jethro Tull


uma vez eu e o Tó fomos até à Namaacha à boleia. ao que íamos não interessa, até porque já prescreveu.

o essencial e que justifica esta "memória" é que levamos um daqueles gravadores portáteis que então existiam, da idade e peso da pedra, tipo caixote como os primeiros telemóveis que por cá apareceram. e levavam seis pilhas e das grandes ainda por cima, ou seja: só a tiracolo e de tantos em tantos quilómetros a carga mudava obrigatoriamente de burro.

pois a verdade é que fartámo-nos de andar, andar, até aparecer uma santa alminha em material rolante que se apiedasse e parásse para uma boleia - as piedosas referências estão contextualizadas e são mais que merecidas, pois os quilómetros "a butes" foram mais que muitos...

bem, e os Jethro Tull? sei lá porquê, por alguma razão foi e o mais certo passa pelo habitual desleixo do "o outro leva, não te rales", nenhum levou cassetes e fomos, estivemos e viemos, sempre a ouvir o 'Aqualung' dos J. Tull, que era a cassete que estava dentro do gravador. Ian Anderson, se não me engano no nome do flautista e vocalista.

podia ter sido pior o que nos tinha calhado, ou até nem lá estar nenhuma. mas a verdade é que eu demorei meses a recuperar da overdose e voltar a ouvi-los...

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Imposto Automóvel - pedido de apreensão de carros online

como é público, a partir deste ano o proprietário registado passa a ser o responsável pelo pagamento do imposto automóvel, mesmo que o tenha vendido há décadas mas o novo proprietário não tenha procedido ao registo da sua compra na Conservatória.

até agora a solução era deslocarmo-nos à antiga DGV, e submetermo-nos a senhas e bichas que nunca mais tinham fim, para pedir a apreensão do carro - única forma de não nos ser exigido o pagamento do imposto dum veículo que já não é nosso.

agora já pode ser feito online. eu acabei de fazê-lo para um carro que vendi há uns 7 anos e que, consultando a minha página pessoal nas 'declarações electrónicas' da DGCI, verifiquei que ainda constava como sendo eu o proprietário. aconselho-vos a fazerem o mesmo: irem verificar que veículos lá constam registados como vosso património.

o acesso ao pedido de apreensão está facilitado pois faz-se com o mesmo sistema das 'declarações electrónicas': username (nº de contribuinte) mais a password pessoal. depois é um mínimo de dados pois basta a matrícula que a marca e o nº do quadro do carro aparecem automaticamente, a morada e o nº do BI, e, no final, imprimir o comprovativo - que é para GUARDAR.

o site é este.

tenham atenção a esta cáca, não vão exigir-vos impostos que pertencem a outro....

terça-feira, 6 de maio de 2008

tá mal!

pois pois... como se trata duma foca e dum pinguim é assunto mui douto e até aparecem cientistas a botar faladura, artigos em revistas daquelas que só os pré-Nobel lêem, etc.
ora um gajo olha com mais emoção para uma ovelhinha, enfim, e há logo aí malta que é capaz de ir chibar-se à GNR, à Quercus, ao raio qu'os parta!
tá mal, pois!

segunda-feira, 5 de maio de 2008

nacional-tabag"ismo"

neste blogue a leitura é sempre um prazer. não só porque 'bela' mas igualmente pela perspicácia, sentido de humor e, às vezes, também saudavelmente cáustica.
leiam este post sobre a perseguição aos fumadores... e digam-me lá se ela não tem inteira razão!
ps: e atenção aos comentários...

domingo, 4 de maio de 2008

Se Calhar...

era uma vez uma, duas, três. juntaram-se e deu nisto.
ah! elas gostam de mirones-comentadores... :-))

sábado, 3 de maio de 2008

MANIFESTO EM DEFESA DA LÍNGUA PORTUGUESA

o texto do Manifesto (que parece-me desnecessário referir, é contra o 'Acordo Ortográfico') tem o teor abaixo:
...................................................
Ex.mo Senhor Presidente da República Portuguesa
Ex.mo Senhor Presidente da Assembleia da República Portuguesa
Ex.mo Senhor Primeiro-Ministro de Portugal
..................................................
1 – O uso oral e escrito da língua portuguesa degradou-se a um ponto de aviltamento inaceitável, porque fere irremediavelmente a nossa identidade multissecular e o riquíssimo legado civilizacional e histórico que recebemos e nos cumpre transmitir aos vindouros. Por culpa dos que a falam e escrevem, em particular os meios de comunicação social; mas ao Estado incumbem as maiores responsabilidades porque desagregou o sistema educacional, hoje sem qualidade, nomeadamente impondo programas da disciplina de Português nos graus básico e secundário sem valor científico nem pedagógico e desprezando o valor da História.Se queremos um Portugal condigno no difícil mundo de hoje, impõe-se que para o seu desenvolvimento sob todos os aspectos se ponha termo a esta situação com a maior urgência e lucidez.
2 – A agravar esta situação, sob o falso pretexto pedagógico de que a simplificação e uniformização linguística favoreceriam o combate ao analfabetismo (o que é historicamente errado), e estreitariam os laços culturais (nada o demonstra), lançou-se o chamado Acordo Ortográfico, pretendendo impor uma reforma da maneira de escrever mal concebida, desconchavada, sem critério de rigor, e nas suas prescrições atentatória da essência da língua e do nosso modelo de cultura. Reforma não só desnecessária mas perniciosa e de custos financeiros não calculados. Quando o que se impunha era recompor essa herança e enriquecê-la, atendendo ao princípio da diversidade, um dos vectores da União Europeia.Lamenta-se que as entidades que assim se arrogam autoridade para manipular a língua (sem que para tal gozem de legitimidade ou tenham competência) não tenham ponderado cuidadosamente os pareceres científicos e técnicos, como, por exemplo, o do Prof. Óscar Lopes, e avancem atabalhoadamente sem consultar escritores, cientistas, historiadores e organizações de criação cultural e investigação científica. Não há uma instituição única que possa substituir-se a toda esta comunidade, e só ampla discussão pública poderia justificar a aprovação de orientações a sugerir aos povos de língua portuguesa.
3 – O Ministério da Educação, porque organiza os diferentes graus de ensino, adopta programas das matérias, forma os professores, não pode limitar-se a aceitar injunções sem legitimidade, baseadas em “acordos” mais do que contestáveis. Tem de assumir uma posição clara de respeito pelas correntes de pensamento que representam a continuidade de um património de tanto valor e para ele contribuam com o progresso da língua dentro dos padrões da lógica, da instrumentalidade e do bom gosto. Sem delongas deve repor o estudo da literatura portuguesa na sua dignidade formativa.O Ministério da Cultura pode facilitar os encontros de escritores, linguistas, historiadores e outros criadores de cultura, e o trabalho de reflexão crítica e construtiva no sentido da maior eficácia instrumental e do aperfeiçoamento formal.
4 – O texto do chamado Acordo sofre de inúmeras imprecisões, erros e ambiguidades – não tem condições para servir de base a qualquer proposta normativa.É inaceitável a supressão da acentuação, bem como das impropriamente chamadas consoantes “mudas” – muitas das quais se lêem ou têm valor etimológico indispensável à boa compreensão das palavras.Não faz sentido o carácter facultativo que no texto do Acordo se prevê em numerosos casos, gerando-se a confusão.Convém que se estudem regras claras para a integração das palavras de outras línguas dos PALOP, de Timor e de outras zonas do mundo onde se fala o Português, na grafia da língua portuguesa.A transcrição de palavras de outras línguas e a sua eventual adaptação ao português devem fazer-se segundo as normas científicas internacionais (caso do árabe, por exemplo).
....................................................
Recusamos deixar-nos enredar em jogos de interesses, que nada leva a crer de proveito para a língua portuguesa. Para o desenvolvimento civilizacional por que os nossos povos anseiam é imperativa a formação de ampla base cultural (e não apenas a erradicação do analfabetismo), solidamente assente na herança que nos coube e construída segundo as linhas mestras do pensamento científico e dos valores da cidadania.
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sexta-feira, 2 de maio de 2008

a crise de, e de, e de, e agora a dos cereais

Os Grupos MSN são micro-comunidades com fartura de sensibilidades, opiniões, momentos de humor e, às vezes, também de irritação. São 'bairros', com os habitantes a tempo inteiro no café comunitário, onde trocam mensagens sobre tudo e mais alguma coisa. Até a namoros e a arrufos já por lá assisti... :-)
Recentemente (e num que não linko pois a sua visualização só é possível a participantes inscritos) e à volta do tema em título, reteve-se-me o olhar e o pensamento numa mensagem/reflexão dum participante, ao caso e de seu nome, Jorge Russel.
Solicitei e obtive autorização para a transcrever para aqui, grato pois com ela o meu blogue fica enriquecido. Ressalvei ao autor que faria uma pequena introdução, e disse-lho assim:
"quanto ao comentário, que será sucinto, apenas dirá que não subscrevo uma parte do texto - Fidel Castro: a mão que escreve bem não lava a outra, que tão mal já o fez - além de, pessoalmente, já não comungar da corrente política nele (texto) implicitamente presente"
Eis o Texto, que em conjunto com vocês passo a reler e meditar:
.....................................................................................................
Nada que não se previsse já.
O aumento do preço do petróleo e a consequente busca de novas formas de energia e de novas fontes de combustíveis, especialmente as formas chamadas de "biocombustíveis" feitas à base de oleaginosas veio desestabilizar o mercado de cereais já de si muito precário.
Por duas razões fundamentais.
A primeira tem a ver com o "desvio" dos cereais que podem servir para o fabrico de óleos vegetais que, posteriormente, podem servir para o fabrico de biodisel.
O milho, por exemplo, que é a base da alimentação de muitos povos, "esfumou-se". Desapareceu. O pouco que aparece no mercado da alimentação, dada a sua escassez, atingiu preços proibitivos e especulativos (a especulação, nas sociedades de consumo capitalistas é parente inevitável da escassez) para os povos que o tem como elemento fundamental. E esses povos são, regra geral, muito pobres e não tem possibilidades aquisitivas.
A fome instala-se assim entre os pobres e desprotegidos.
A segunda razão tem a ver com a procura de outros cereais que preencham a falta dos cereais "desaparecidos".
Como se passa a consumir muito mais quantidade de um determinado cereal, a produção não consegue fazer face à procura e aí o mercado entra em rotura.
Esse determinado cereal passa a ser raro e especulativamente mais caro.
É o caso do arroz. Não servindo para fazer biocombustiveis acaba por desaparecer e encarecer por causa deles!
E quem paga são os desgraçados que não lhe podem chegar!
Curioso é que há cerca de dois ou três anos, Fidel Castro escreveu isto mesmo no Granma, alertando para o facto de se estarem a desviar cereais alimentares para o mercado "envenenado" dos combustíveis e da fome que daí poderia advir.
Claro, como foi o Fidel que escreveu isto, muitos logo se apressaram a criticá-lo.
Afinal ele até tinha razão.
No sistema em que vivemos, o lucro sobrepõem-se à própria vida.
Que importa morrerem uns milhões se produzir biocombustíveis dá bons lucros?
Que importa morrerem uns milhões se a poluição provocada pela produção desenfreada gera milhões de lucros fabulosos?
Assim vai este Mundo dos capitais, das bolsas e dos grandes senhores cheios de Rolls-Royce, palácios, férias na Riviera francesa, Yatches e ilhas privadas.
Mesmo que tudo isto esteja assente sobre milhões de corpos famintos de homens mulheres e crianças.
Viva o capitalismo!
Viva o bezerro de oiro!
Abração.
Jorge

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Vocábulos na Falésia

é quando precisamos gritar e que ecoe,
e os sons calam-se e engolem-se
que se cerram os olhos e dá-se o passo, atrás,
negando em silenciosa cegueira a atracção
duma tela que não soube ser nada,
nem fim, meio ou sequer princípio.

só os olhos não escondem o grito.
em brilho e em lágrima, ou opacos e enxutos,
eles soletram letras que formam a palavra
auxílio, já insignificante: a luz?
termina ao fim da tarde
e o relógio está certo, ao minuto.

(será por isso que nenhum sonhador fá-lo de óculos escuros,
e profere o grito de olhos legíveis, descobertos?)

o Sol põe-se sobre o Mar. há beleza tentadora e
que se aloura, irrecusável.
estão lá as cores todas e há sempre telas virgens nas falésias.
que pena eu não ter crescido para poder pintá-lo
ou apenas cair pelo quadro abaixo, qual fruto
que agora sou, em excesso pré-podre, amadurecido...

por isso grito, ouço-me no silêncio do meu inútil grito.
sem eco nem sonhos porque já mudo.
não me esqueço, e escondo os olhos sob os óculos escuros,
volto as costas à tela e dou o tal passo atrás
- cobarde, já previsto.

sem força, arte ou coragem de pegar no pincel e pintar
os tantos ocasos que já daqui avisto.

domingo, 27 de abril de 2008

hoje...

... é o dia do meu Miguel. ontem 'falamos', teclamos no MSN. agora, aqui, renovo o nosso beijo e desejos de todas as felicidades do mundo. porque as mereces :-)

Filipa, Carla, Carlos e Paula

esta noite

esta noite não sonhei contigo.

adormeci descansado,
convencido que a sombra da almofada a meu lado
eras tu, meu beijo dado.

acordei acreditando qu'o vazio,
era tão provisório como fora tardio
o nosso acordar dos sonhos,
lado-a-lado

sábado, 26 de abril de 2008

acerca do '25'

No Tempo dos Assassinos André Pereira fala sobre a efeméride 25 de Abril. Acertadamente em minha opinião, pesem as evidentes diferenças de idades e das lógicas emoções sentidas.

epistolar para a Terra do Nunca: elogio a Evel Knievel

(…)

Gostava de ir àquele parque das sequóias gigantes, julgo que Yellowstone. E sim, também espraiar a vista pelo Grand Canyon, imaginar-me a ressurreição de Evel Knievel e conseguir saltá-lo, dar um salto gigante e chegar ao outro lado. Qual lado? não sei. Nem me parece ser importante. O salto, esse sim, esse é o marco que separa os formatados dos irredutíveis aldeões 'compagnons de route' do Astérix, chamem-lhes Easy Riders ou, apenas, outro grande sonho que é reler ao vivo Kerouac e fazer (o que sobrou da) a Route 66.

Outros fascínios? ir a Norfolk e 'sacar' o meu filho, dar com ele um pulinho mais abaixo e visitar Cape Canaveral. Depois voltarmos juntos, mais juntos que alguma vez estivemos. Acreditas que a distância aproxima as pessoas? Sim, tu vives na terra das distâncias, essa réplica moderna da Terra do Nunca do Peter, Pan de família e que é tão vasta em que há momentos que me acredito ser parte dela, familiar afastado mas companheiro e solidário nos voos acima de galeras de maléficos Ganchos e com muita, muita alegria. Num voo do Nunca acima da Terra. O Grand Canyon. Nevada e as suas lonjuras intermináveis e, imagino, secas, nudez bela. Ouvir o linguarejar hispânico da Califórnia, sentir o roush sem sono de Manhattan, lamber a gulodice com os melhores bifes do mundo que dizem que só se comem em Chicago. Tanto, tudo aí. Nos aís que há e nenhum aqui, que se veja da minha janela.

‘Sei’ de tudo, soube sempre de ti. Aqui, noutras lonjuras que são e-perto acompanhei e acompanhei-te - qu'o silêncio não precisa de falar, ele soa e até troa quando queremos, desejamos, ouvi-lo, ou ignorar o seu ruído. Há um ano atrás? Mais ou menos. E venceste. Não me admirei e tu provavelmente também não - pese que só quem se vê nas "amarelas" lhes sabe dar valor e o que elas custam. És um vencedor. Sabe-lo. E mais uma vez triunfaste. Agora olho o meu umbigo. Olho e vou agora falar-te dele.

Creio que no outro mail rocei dos meus males, deixa-me contar-te dos outros – que, já o disse a alguém, lavar as lágrimas ajuda a secá-las. Além do Crohn há, houve e provavelmente haverá mais. Tomo drunfos como se fossem smarties. De manhã são nove e às cores, ao longo do dia sei lá mais quantos. Deles, metade é tratamento psiquiátrico, agora em ambulatório. Antes, estive internado na respectiva ala, aquela das portas fechadas à chave, grades nas janelas e olhares perdidos no Nada, onde o resto do mundo não existe fora as refeições e as mistelas a horas certas. Só podia ter uma visita, a minha Webina que sempre me acompanhou, avé santa.

Não trabalho há mais dum ano. Não conseguia e agora já não posso, males próprios dos males e outros filhos de mim, da gota brilhante que era singelo brinco e julgou-se gordo cachucho, jóia soberba demais para ser real. Vivo com dificuldades, mas Vivo. Escrevo a letra em grande pois respeito a verdade da escrita: vivo-a como o meu último amor. Pena é ser um amor de famílias pobres, remediadas, e não ter havido dote nem hoje regulares subornos de satisfeitos sogros. A sua filha, a minha Escrita, Querida Escrita, casou com um Zé Ninguém, e quem tem esse nome não tem nome, donde resulta que quem o tem não consta na folha de remunerações da família, essa longa, extensa fila de cronistas e aparentados que são pagos por darem corda à caneta e divagarem a cavalo em A4 pelas ruas do mundo ou do seu bairro.

Eu também o faço, nem sempre estou fechado em casa a olhar o mundo através da minha janela e, um pouco aqui e ali, sejam os aquis os Grupos MSN e os Blogues, e os alis o jornal local e um ou outro que lá calha e me e-acolhem, lá vai o 'Carlos Gil' aparecendo num canto das páginas do meio. Sei lá se quem lê gosta. Chego a acreditar que sim por mails como o teu, às vezes palavras ao vivo de quem comigo se cruza e me 'reconhece', extraindo-me ao anonimato que hoje defendo com unhas compridas, veras garras. Também porque quem recebe os escritos e decide, decide mantê-los e, aqui e ali, a "coluna do carlos gil" mantém a sua periodicidade. Não paga, fora o adubo às pilosidades no umbigo, as tais a que recentemente senti necessidade de lhes fazer uma depilação rigorosa.

Sabes que gosto mais desta escrita, a epistolar? É mais íntima, solto melhor os sentimentos que quando sei que vai ser pública - a maldita auto-censura do mau escritor. Dos bons nunca serei: afinal praticamente só sei falar de mim e, se ficciono, desajeitado, dou o salto errado e sou atropelado em plena azáfama da NY do meu mundo ou afogo-me nas nuvens que pairam no Canyon - que lá as haverá também alterosas e cinzentas, e tão ácidas como uma big aplle mal mordida. Não sei escrever outro romance que contar de mim: a ficção não é da minha família, quer a de sangue quer a do tardio casamento.

A consolo, apenas invejo os Dan Brown's desse e deste mundo - e aqui há tantos, xiii... - pela independência económica que serem best-sellers lhes dá. Não sou arrogante quando digo que bem mais de metade dos livros que leio são como beber um copo de água do Luso: nem fazem bem nem fazem mal (a frase não é minha, e adorei-a). Mas há a outra, a tal escrita onde refulgem frases daquelas que obrigam a poisar o livro e os olhos vagueiam no horizonte íntimo, a pensá-las: não são água, isso é 'vintage' e é desse néctar que procuro beber para aprender a escrevê-lo. E há-o, encontro-o de vez em quando - não cito nomes pois eles são muitos e invejo-os um a um, a todos: eu, o aprendiz que se julgou de feiticeiro e saio diariamente chamuscado nessa fogueira, neste fogo lento onde o brilho das brasas se chama Escrever, que por vezes aquecem e sentimo-nos bem, mas às vezes excedem-se e criam frieiras nos dedos e eles mal suportam o peso da caneta quando relêem o que foi escrito, mal escrito. Por isso os invejo, e à calosidade que imuniza à dor.

Ambiciono, persigo, aquilo que há quem me diz ser 'escrita poética'. A frase bela, sem rodriginhos ou berloques balzaquianos. O arrumar de letras feliz, explícito e sentido. Legível. Que se leia que quem as escreveu encheu o aparo com a sua melhor tinta, e que ela é 'vintage'. Eis só o que queria, afinal sou Evel Knievel e a minha oculta ambição é saltar o Grand Canyon, esse néctar que Peter Pan conseguiu fabricar, e bebeu-o.

(…)

sexta-feira, 25 de abril de 2008

ábaco da vida

na intimidade da solidão imagino-te
nua, terna
minha.

em silêncio gemido
ejaculo a minha tristeza.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Abril e a pub'

por mail mandam-me o link (se não surgir logo na abertura, clicar em Página Inicial e aparecerá o video "As Marcas de Abril") e pedem-me um comentário. ei-lo, em pontas que é como saiu:
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finalmente vi, e gracias pela lupa com que me habilitaste.

sobre os artistas/pub, designadamente os escritores: eu recordo sempre um que a reportagem não refere: o O'Neill. e dos slogans que lhe são célebres, de todos os mais conhecido o celebérrimo "há mar e mar, há ir e voltar". mas recordo-o - e os 'manuais de pub' idem, também pelos slogans brilhantes que o conservadorismo dos clientes rejeitaram. como o aquando da abertura da primeira linha de Metro em Lisboa, anos 50's, em que ele propôs de imediato na primeira reunião que a agência contratada para a campanha realizou, este: "vá de Metro, satanás!" Brilhante! - mas rejeitado. ou o slogan para a campanha dos colchões Lusospuma: "com um colchão Lusospuma você dá duas como se fossem uma".... igualmente rejeitado. a criatividade, o brilhantismo, - e como é habitual.... - só é reconhecido tardiamente, já quando o legítimo beneficiário nada dela pode aproveitar.

a Pub, hoje, é um mundo espartilhado. hierarquizado. com escadas e escadinhas, sem grandes oportunidades de se ousar escorregar pelo corrimão, informalmente, ignorando a fila de fatos e gravatas todos vestidos de igual, todos com projectos castrados pois de castrados se tratam. quando não o são ainda, rapidamente as megaestruturas das megasempresas tratam de lhes capar o laivo de criatividade individual. há década e meia Portugal descobriu a 'frescura' da Pub brasileira, muito por graça e obra do primeiro emigrante do género que cá aportou com sucesso: o Athaíde (julgo que é assim que se escreve). a Pub brasileira estava - e ainda está, mas com o fosso mais reduzido - a anos-luz da nossa, pra melhor. fresca. inovadora. ousada. afinal capaz de atingir o seu fim primevo que é atrair a atenção do potencial consumidor dum produto, 'gravar-lhe' uma mensagem no subconsciente. amanhã, quando ele entrar numa loja, supermercado, etc, na vitrina expositora do produto que pretende e com as marcas lado a lado,... a 'mensagem' surge-lhe e, se foi forte e simpática, feliz, ele prefere. é assim que funciona. simples.

hoje, creio, se há agências de pub nacionais independentes das multinacionais têm uma quota mais que minoritária de mercado: as Thompson & companhia também já cá chegaram, recrutaram os «cérebros' que lhes interessavam, a troco de soldo e rancho melhorado moldaram-nos a padrões multinacionais, espartilharam e desfizeram a lusa singularidade, que também existia ao caso, a pub do produto genuíno nacional. nesse não se podem aplicar fórmulas importadas, com mínimas adaptações. pelo menos para se conseguir uma campanha feliz, o 'diferente' que faz a diferença. mas não é o que acontece. é a globalização também neste campo, também filha e fruto de "as grandes marcas nacionais" estarem extintas além do nome - quando este restou... - após terem sido absorvidas pelos tentáculos dos gigantes.

Abril? Abril na pub? mitologia. mitologia igual ao Abril político, que dele também restam os foguetes que esta noite se ouvem, os cantos das primeiras páginas dos diários de amanhã, e de x em x tempo ser-nos pedido que colaboremos na manutenção ad eternum da sua mitologia magna, a democracia em versão parlamentar, claro, que da outra já há muito que até a sua campa não recebe flores vivas, extra o conservador e burocrático plástico.

era isto que querias ouvir-me? não sei. foi o que me veio à memória ao ver o documentário. o Grande O'Neill. o Grande Ary. todos esses artistas, doutores em letras das que valem, que mesmo na pub para comporem o orçamento viviam com dificuldades. que o diga a actual mulher do Guterres, a viúva do Alexandre O'Neill. ela conta, ela contou. não era "uma sardinha para três", claro, mas era meio mês a viver de fiados até vir o ordenado ou - festa grande! um cheque extra de direitos de autor ou de prémio por uma campanha excepcional. também se diga que não é mentira que, magnânimo e amigo dos seus amigos tal como eles eram dele, mal esses bónus vinham rapidamente iam, qu'ele a todos convidava a festejar, tal e qual como quando era a vez doutro assim acontecia. pelas tascas da Mouraria, tua vizinha. pelo Bairro Alto, quando ele era o que era e não o plástico d'hoje, turístico e embriagado sem gosto nem proveito. bolas, fizeste-me evocar tanto que não sei além do ter lido e ouvir falar que.... só posso agradecer-te, hoje a 24 e quase a 25. fizeste-me ganhar a noite da liberdade, passe o jargão e viva a publicidade!

posts retirados provisoriamente

por razões "técnicas" retirei provisoriamente alguns posts, recentes. assim que se mostrar viável serão repostos.
os comentários que amavelmente alguns mereceram não são prejudicados e mantêm-se conservados integralmente.
solicito desculpas por eventual incómodo, que acredito ser tão pequeno que até passaria despercebido se não o denunciasse.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

a minha catarse (continuação ad eternum...)

num Grupo MSN uma e-amiga recordou a sua viagem de vinda de Moçambique para Portugal. era jovem e segundo o seu relato eram muitos os jovens no avião, havia violas e houve cantares, e os comissários de bordo foram generosos na distribuição de garrafitas de vinho. foi, segundo contou, a forma possível de 'esquecerem' o acto, a viagem para o desconhecido.
não resisti e contei da minha. assim:
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a minha viagem não foi tão 'alegre'. houve hipótese de haver uma viola mas saiu gorada quando paramos na Beira para "dar boleia" ao Gonzaga que tinha recebido um 24-20, segundo percebi... o seu violão foi-lhe 'apreendido' por um soldado da Frelimo à entrada do avião, sem de nada valerem os seus protestos de que não se tratava dum instrumento lúdico mas sim de trabalho... enfim, o 'Gonzas' veio a refilar até sobrevoarmos Marrocos mais milha menos milha, e não me recordo de quase mais nenhum pormenor, sequer da ementa ou se era 'bar aberto'. vinha calado e sisudo, não conhecia ninguém e ninguém me conhecia - sina que toda a vida me segue e à qual já me habituei.

parámos em Luanda para mudar do 707 para um 747, um Jumbo. era noite e estava um calor asfixiante, aquele ar parado e seco que arde na garganta e empapa a roupa, o nosso avião ficou na placa bem longe da aerogare onde devíamos aguardar pelo transbordo da bagagem e depois embarcarmos para a viagem directa até Lisboa, agora com novos companheiros de viagem, angolanos, ou 'tugas-angolanos melhor dizendo. já não era a "ponte aérea" mas ainda o refugo da mesma. na sala onde fomos fechados estava um calor sufocante, nem uma janela aberta, éramos largamente mais que os lugares sentados disponíveis. para cúmulo estavam lá já há horas, à espera de embarcar no 707 que nos trouxera, passageiros vindos de Lisboa e com destino à ainda LM.

reconheci uma cara, mas o cansaço e o desânimo, o estado d'alma, não estava para palavras quanto mais cumprimentos. e era recíproco, lia-se-lhe nos olhos cansados, no fato amarrotado, no suor que lhe empapava a camisa: um dos meus últimos ex-chefes no Sindicato da Estiva, um conferente da Permar que fora o último presidente do Sindicato nos tempos corporativos, de "comissões administrativas superiormente escolhidas" - que eleições nunca lá conheci em quatro anos de trabalho - antes e depois.... recordo-me perfeitamente do nome dele e de duas particulariedades: José Augusto Pimentel dos Santos, tinha um defeito num braço ao nível da articulação do cotovelo que o fazia, nessa zona, estar sempre afastado do tronco, ou seja tinha um braço "torto". e na caneta usava em exclusivo tinta verde. eu, que trabalhava no escritório, chamara-me logo a atenção esse pormenor pois nunca vira ninguém escrever/assinar sem ser a azul, vá lá a preto. uma excentricidade, que se me fixou e até hoje recordo.

o pior fora a 'viagem' entre o avião, parado a uns bons cem metros da sala da aerogare, e esta. foi feita a pé, cada um carregando a sua bagagem de mão, de cabine, num túnel formado por militares que depois percebi pelo linguarejar e pela tez 'morena', eram soldados cubanos. éramos olhados provocatoriamente, ouviam-se de vez em quando, naquela humilhante caminhar num túnel que nunca mais parecia ter fim, insultos indiscriminados, o tradicional 'colonialistas' e outros que não vale a pena citar. nem o ânimo que era mais desânimo que outra coisa, ou o calor, ou o armamento que os soldados exibiam, nada em nada levou alguém a retrucar. seguimos com o olhar baixo e estivemos encerrados, apinhados numa sala onde a temperatura não era inferior a bem mais de 40º, umas duas asfixiantes horas até que o transbordo da carga fosse feita e tivéssemos ordens de embarcar para a viagem final, um 'non stop' até Lisboa, com música de fundo dos resmungos do Gonzaga. que me lembre mal dormi, terei passado pelas brasas mas a excitação, os nervos, a ansiedade, o conflito interior com a 'fuga' de Moçambique e que estava bem longe de estar aplacado, não me permitiam fechar olhos, serenar.

chegamos à Portela manhã cedo, estavam 7º e pensei que morria de frio. na aerogare estavam uns balcões de atendimento da Cruz Vermelha, ou do IARN, ou seja do que ou de quem fosse, que me deram uma nota de 500$00 e perguntaram-me se precisava de alojamento ou alimentação. eu no bolso trazia a morada da "prima Amélia", em Campo de Ourique, de que não me lembrava nem ela de mim. disse que não, que ia para casa da "prima Amélia". e fui. tomei um táxi e dei-lhe a morada, Rua Adelaide e Sousa e já não me recordo do número, sei que o machimbombo 9 tinha uma paragem em frente. comigo foi assim.

vinte e oito anos depois encontrei o Gonzaga no piano-bar Sinatra que ele então tinha no Estoril, na noite onde lá fizemos a continuação da festa de aniversário do Zé Carlos, de Stº André. reconheci-o, claro que ele a mim não, pois nem eu fora alguma vez à Beira excepto para lhe dar a tal boleia, e também nunca ninguém se lembra de mim. o habitual. perguntei-lhe em que data viera para Pt, batia certo. falei-lhe na viola apreendida já nas escadas para o avião, batia certo. só este frio persistente, este gelo de memórias trinta e dois anos depois não bate certo. e acredito que nunca baterá. é por isso que digo em metáfora que "morri" nessa viagem, a primeira e única vez que me meti num avião - tão má foi a experiência e de tão baixo nível são as suas memórias. 20 para 21 de Janeiro de 76, ou 21 para 22 - já me baralho... e é mero pormenor irrelevante no meio de tanta memória dessa má viagem, se calhar acertada se calhar o maior erro da minha vida.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

'National Geographic' privado*

Todos temos momentos em que o viver se altera radicalmente e a vida, que até aí corria assim, de repente começa a correr assado. Fora a metáfora, há instantes que tudo alteram, o íntimo, a paisagem, as convicções. O primeiro beijo e o seu rubor e sabor, a perda de alguém que nos é querido e a dor da lágrima que decorre da sua ausência, uma mudança de casa e vida que transforma a janela do quarto num quadro de cores radicalmente diferentes; doutras vezes uma desilusão, súbita ou daquelas que com o correr do tempo se vão enraizando até à machadada que a corta e arruma no sótão privado das velharias. De tudo isso todos temos o nosso espólio e disso chama-se crescer, o instante da mítica virgindade perdida num ai e, quando reparamos, estamos grávidos de idade, prontos a parir a saudade dos tempos idos, dos rios que secaram e fizeram-se ruas anónimas, de chilreares que num repente soam e troam sem beleza e, só, em irritante urbana cacofonia. Todos os que no campo cresceram e aprenderam as primeiras regras da vida, disso vivemos e crescemos, e nos torna melancólicos quando uma chuva de saudade lembra a infância sumida algures num tempo que fora mais alegre e feliz, num desses momentos sem pressas e longe das corridas insanas de quem corre por hábito e já sem saber porque é que deixou de ser feliz.

Eram dezassete anos, podia ter sido aos quinze ou aos vinte e um. Mas eram dezassete, idade em que se pensa já ter construído os amigos definitivos, o rio da aldeia corre manso e é eterno o mergulhar nas suas águas, como eterna é a vontade que nada mude e se tenha eternamente dezassete anos, amando assim a riqueza do dia-a-dia despreocupado, o adiar do passo que marca e mata o fim da adolescência e revela o outro mundo, o néon enganoso e duro que faz encarar a vida adulta, ao caso a perda das águas do rio e o cheiro aldeão em que crescera, a saudade dos amigos que deixei de ver e dos pássaros que, de repente, sumiram-se do quadro da janela do meu quarto e em pinceladas de chilreios diariamente me acordavam.

Fui para a cidade. Fui construir a vida de adulto na mítica terra das oportunidades de bons empregos, fartura de tudo e, verifiquei tristemente ao longo dos anos, também ausência de tanto que me era querido. A exemplo, nunca mais fui à pesca como no outro tempo do mundo fazia e adorava fazer, o rio que passa nesta grande aldeia é sujo e cheira mal e por certo os peixes que lá possam sobreviver serão tão feios e sujos que, definitivamente, não quero vê-los e prová-los, menos ainda pescá-los do infeliz mundo onde em pesadelos possam existir. Vejo-os no National Geographic, os olhos adormecem às imagens da caixa mágica e recordam o tempo em que por veredas que só eu e poucos iniciados conhecíamos chegava a plácidos recantos onde o anzol era paciente e num repente ficava mágico, num amadurecer de tardes que também eram mágicas pelo silêncio cúmplice com a natureza, a carícia da água límpida na minha pele jovem, de tudo isso agora me lembro e disso dou conta.

Não há balanços a fazer ou contas a acertar. Cá, na urbanidade, erigi um futuro que na sua modéstia é recheado doutras felicidades; lá, na nostalgia, moram as memórias dum outro que já existiu, faleceu aos dezassete anos ao dar o passo para a realidade que vivo e construí com o esforço do trabalho e a sorte no amor. Lá, algures nas imagens que de vez em quando me correm nos olhos como filme em reprise, mora não a saudade de fadista mas um jovem que morreu. Naturalmente. Afinal é a lei do crescer e no enterro do passado há sempre uma pontinha de dor. Tenho é saudade dos pássaros, do cheiro e do silêncio dos campos, da minha outra janela e muita, muita mesmo, dos peixes das tardes em que não duvidava, parafraseando o Poeta, que o rio que corria na minha aldeia era o rio mais lindo do mundo.


* texto de ficção e não autobiográfico