quinta-feira, 24 de abril de 2008

Abril e a pub'

por mail mandam-me o link (se não surgir logo na abertura, clicar em Página Inicial e aparecerá o video "As Marcas de Abril") e pedem-me um comentário. ei-lo, em pontas que é como saiu:
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finalmente vi, e gracias pela lupa com que me habilitaste.

sobre os artistas/pub, designadamente os escritores: eu recordo sempre um que a reportagem não refere: o O'Neill. e dos slogans que lhe são célebres, de todos os mais conhecido o celebérrimo "há mar e mar, há ir e voltar". mas recordo-o - e os 'manuais de pub' idem, também pelos slogans brilhantes que o conservadorismo dos clientes rejeitaram. como o aquando da abertura da primeira linha de Metro em Lisboa, anos 50's, em que ele propôs de imediato na primeira reunião que a agência contratada para a campanha realizou, este: "vá de Metro, satanás!" Brilhante! - mas rejeitado. ou o slogan para a campanha dos colchões Lusospuma: "com um colchão Lusospuma você dá duas como se fossem uma".... igualmente rejeitado. a criatividade, o brilhantismo, - e como é habitual.... - só é reconhecido tardiamente, já quando o legítimo beneficiário nada dela pode aproveitar.

a Pub, hoje, é um mundo espartilhado. hierarquizado. com escadas e escadinhas, sem grandes oportunidades de se ousar escorregar pelo corrimão, informalmente, ignorando a fila de fatos e gravatas todos vestidos de igual, todos com projectos castrados pois de castrados se tratam. quando não o são ainda, rapidamente as megaestruturas das megasempresas tratam de lhes capar o laivo de criatividade individual. há década e meia Portugal descobriu a 'frescura' da Pub brasileira, muito por graça e obra do primeiro emigrante do género que cá aportou com sucesso: o Athaíde (julgo que é assim que se escreve). a Pub brasileira estava - e ainda está, mas com o fosso mais reduzido - a anos-luz da nossa, pra melhor. fresca. inovadora. ousada. afinal capaz de atingir o seu fim primevo que é atrair a atenção do potencial consumidor dum produto, 'gravar-lhe' uma mensagem no subconsciente. amanhã, quando ele entrar numa loja, supermercado, etc, na vitrina expositora do produto que pretende e com as marcas lado a lado,... a 'mensagem' surge-lhe e, se foi forte e simpática, feliz, ele prefere. é assim que funciona. simples.

hoje, creio, se há agências de pub nacionais independentes das multinacionais têm uma quota mais que minoritária de mercado: as Thompson & companhia também já cá chegaram, recrutaram os «cérebros' que lhes interessavam, a troco de soldo e rancho melhorado moldaram-nos a padrões multinacionais, espartilharam e desfizeram a lusa singularidade, que também existia ao caso, a pub do produto genuíno nacional. nesse não se podem aplicar fórmulas importadas, com mínimas adaptações. pelo menos para se conseguir uma campanha feliz, o 'diferente' que faz a diferença. mas não é o que acontece. é a globalização também neste campo, também filha e fruto de "as grandes marcas nacionais" estarem extintas além do nome - quando este restou... - após terem sido absorvidas pelos tentáculos dos gigantes.

Abril? Abril na pub? mitologia. mitologia igual ao Abril político, que dele também restam os foguetes que esta noite se ouvem, os cantos das primeiras páginas dos diários de amanhã, e de x em x tempo ser-nos pedido que colaboremos na manutenção ad eternum da sua mitologia magna, a democracia em versão parlamentar, claro, que da outra já há muito que até a sua campa não recebe flores vivas, extra o conservador e burocrático plástico.

era isto que querias ouvir-me? não sei. foi o que me veio à memória ao ver o documentário. o Grande O'Neill. o Grande Ary. todos esses artistas, doutores em letras das que valem, que mesmo na pub para comporem o orçamento viviam com dificuldades. que o diga a actual mulher do Guterres, a viúva do Alexandre O'Neill. ela conta, ela contou. não era "uma sardinha para três", claro, mas era meio mês a viver de fiados até vir o ordenado ou - festa grande! um cheque extra de direitos de autor ou de prémio por uma campanha excepcional. também se diga que não é mentira que, magnânimo e amigo dos seus amigos tal como eles eram dele, mal esses bónus vinham rapidamente iam, qu'ele a todos convidava a festejar, tal e qual como quando era a vez doutro assim acontecia. pelas tascas da Mouraria, tua vizinha. pelo Bairro Alto, quando ele era o que era e não o plástico d'hoje, turístico e embriagado sem gosto nem proveito. bolas, fizeste-me evocar tanto que não sei além do ter lido e ouvir falar que.... só posso agradecer-te, hoje a 24 e quase a 25. fizeste-me ganhar a noite da liberdade, passe o jargão e viva a publicidade!

posts retirados provisoriamente

por razões "técnicas" retirei provisoriamente alguns posts, recentes. assim que se mostrar viável serão repostos.
os comentários que amavelmente alguns mereceram não são prejudicados e mantêm-se conservados integralmente.
solicito desculpas por eventual incómodo, que acredito ser tão pequeno que até passaria despercebido se não o denunciasse.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

a minha catarse (continuação ad eternum...)

num Grupo MSN uma e-amiga recordou a sua viagem de vinda de Moçambique para Portugal. era jovem e segundo o seu relato eram muitos os jovens no avião, havia violas e houve cantares, e os comissários de bordo foram generosos na distribuição de garrafitas de vinho. foi, segundo contou, a forma possível de 'esquecerem' o acto, a viagem para o desconhecido.
não resisti e contei da minha. assim:
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a minha viagem não foi tão 'alegre'. houve hipótese de haver uma viola mas saiu gorada quando paramos na Beira para "dar boleia" ao Gonzaga que tinha recebido um 24-20, segundo percebi... o seu violão foi-lhe 'apreendido' por um soldado da Frelimo à entrada do avião, sem de nada valerem os seus protestos de que não se tratava dum instrumento lúdico mas sim de trabalho... enfim, o 'Gonzas' veio a refilar até sobrevoarmos Marrocos mais milha menos milha, e não me recordo de quase mais nenhum pormenor, sequer da ementa ou se era 'bar aberto'. vinha calado e sisudo, não conhecia ninguém e ninguém me conhecia - sina que toda a vida me segue e à qual já me habituei.

parámos em Luanda para mudar do 707 para um 747, um Jumbo. era noite e estava um calor asfixiante, aquele ar parado e seco que arde na garganta e empapa a roupa, o nosso avião ficou na placa bem longe da aerogare onde devíamos aguardar pelo transbordo da bagagem e depois embarcarmos para a viagem directa até Lisboa, agora com novos companheiros de viagem, angolanos, ou 'tugas-angolanos melhor dizendo. já não era a "ponte aérea" mas ainda o refugo da mesma. na sala onde fomos fechados estava um calor sufocante, nem uma janela aberta, éramos largamente mais que os lugares sentados disponíveis. para cúmulo estavam lá já há horas, à espera de embarcar no 707 que nos trouxera, passageiros vindos de Lisboa e com destino à ainda LM.

reconheci uma cara, mas o cansaço e o desânimo, o estado d'alma, não estava para palavras quanto mais cumprimentos. e era recíproco, lia-se-lhe nos olhos cansados, no fato amarrotado, no suor que lhe empapava a camisa: um dos meus últimos ex-chefes no Sindicato da Estiva, um conferente da Permar que fora o último presidente do Sindicato nos tempos corporativos, de "comissões administrativas superiormente escolhidas" - que eleições nunca lá conheci em quatro anos de trabalho - antes e depois.... recordo-me perfeitamente do nome dele e de duas particulariedades: José Augusto Pimentel dos Santos, tinha um defeito num braço ao nível da articulação do cotovelo que o fazia, nessa zona, estar sempre afastado do tronco, ou seja tinha um braço "torto". e na caneta usava em exclusivo tinta verde. eu, que trabalhava no escritório, chamara-me logo a atenção esse pormenor pois nunca vira ninguém escrever/assinar sem ser a azul, vá lá a preto. uma excentricidade, que se me fixou e até hoje recordo.

o pior fora a 'viagem' entre o avião, parado a uns bons cem metros da sala da aerogare, e esta. foi feita a pé, cada um carregando a sua bagagem de mão, de cabine, num túnel formado por militares que depois percebi pelo linguarejar e pela tez 'morena', eram soldados cubanos. éramos olhados provocatoriamente, ouviam-se de vez em quando, naquela humilhante caminhar num túnel que nunca mais parecia ter fim, insultos indiscriminados, o tradicional 'colonialistas' e outros que não vale a pena citar. nem o ânimo que era mais desânimo que outra coisa, ou o calor, ou o armamento que os soldados exibiam, nada em nada levou alguém a retrucar. seguimos com o olhar baixo e estivemos encerrados, apinhados numa sala onde a temperatura não era inferior a bem mais de 40º, umas duas asfixiantes horas até que o transbordo da carga fosse feita e tivéssemos ordens de embarcar para a viagem final, um 'non stop' até Lisboa, com música de fundo dos resmungos do Gonzaga. que me lembre mal dormi, terei passado pelas brasas mas a excitação, os nervos, a ansiedade, o conflito interior com a 'fuga' de Moçambique e que estava bem longe de estar aplacado, não me permitiam fechar olhos, serenar.

chegamos à Portela manhã cedo, estavam 7º e pensei que morria de frio. na aerogare estavam uns balcões de atendimento da Cruz Vermelha, ou do IARN, ou seja do que ou de quem fosse, que me deram uma nota de 500$00 e perguntaram-me se precisava de alojamento ou alimentação. eu no bolso trazia a morada da "prima Amélia", em Campo de Ourique, de que não me lembrava nem ela de mim. disse que não, que ia para casa da "prima Amélia". e fui. tomei um táxi e dei-lhe a morada, Rua Adelaide e Sousa e já não me recordo do número, sei que o machimbombo 9 tinha uma paragem em frente. comigo foi assim.

vinte e oito anos depois encontrei o Gonzaga no piano-bar Sinatra que ele então tinha no Estoril, na noite onde lá fizemos a continuação da festa de aniversário do Zé Carlos, de Stº André. reconheci-o, claro que ele a mim não, pois nem eu fora alguma vez à Beira excepto para lhe dar a tal boleia, e também nunca ninguém se lembra de mim. o habitual. perguntei-lhe em que data viera para Pt, batia certo. falei-lhe na viola apreendida já nas escadas para o avião, batia certo. só este frio persistente, este gelo de memórias trinta e dois anos depois não bate certo. e acredito que nunca baterá. é por isso que digo em metáfora que "morri" nessa viagem, a primeira e única vez que me meti num avião - tão má foi a experiência e de tão baixo nível são as suas memórias. 20 para 21 de Janeiro de 76, ou 21 para 22 - já me baralho... e é mero pormenor irrelevante no meio de tanta memória dessa má viagem, se calhar acertada se calhar o maior erro da minha vida.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

'National Geographic' privado*

Todos temos momentos em que o viver se altera radicalmente e a vida, que até aí corria assim, de repente começa a correr assado. Fora a metáfora, há instantes que tudo alteram, o íntimo, a paisagem, as convicções. O primeiro beijo e o seu rubor e sabor, a perda de alguém que nos é querido e a dor da lágrima que decorre da sua ausência, uma mudança de casa e vida que transforma a janela do quarto num quadro de cores radicalmente diferentes; doutras vezes uma desilusão, súbita ou daquelas que com o correr do tempo se vão enraizando até à machadada que a corta e arruma no sótão privado das velharias. De tudo isso todos temos o nosso espólio e disso chama-se crescer, o instante da mítica virgindade perdida num ai e, quando reparamos, estamos grávidos de idade, prontos a parir a saudade dos tempos idos, dos rios que secaram e fizeram-se ruas anónimas, de chilreares que num repente soam e troam sem beleza e, só, em irritante urbana cacofonia. Todos os que no campo cresceram e aprenderam as primeiras regras da vida, disso vivemos e crescemos, e nos torna melancólicos quando uma chuva de saudade lembra a infância sumida algures num tempo que fora mais alegre e feliz, num desses momentos sem pressas e longe das corridas insanas de quem corre por hábito e já sem saber porque é que deixou de ser feliz.

Eram dezassete anos, podia ter sido aos quinze ou aos vinte e um. Mas eram dezassete, idade em que se pensa já ter construído os amigos definitivos, o rio da aldeia corre manso e é eterno o mergulhar nas suas águas, como eterna é a vontade que nada mude e se tenha eternamente dezassete anos, amando assim a riqueza do dia-a-dia despreocupado, o adiar do passo que marca e mata o fim da adolescência e revela o outro mundo, o néon enganoso e duro que faz encarar a vida adulta, ao caso a perda das águas do rio e o cheiro aldeão em que crescera, a saudade dos amigos que deixei de ver e dos pássaros que, de repente, sumiram-se do quadro da janela do meu quarto e em pinceladas de chilreios diariamente me acordavam.

Fui para a cidade. Fui construir a vida de adulto na mítica terra das oportunidades de bons empregos, fartura de tudo e, verifiquei tristemente ao longo dos anos, também ausência de tanto que me era querido. A exemplo, nunca mais fui à pesca como no outro tempo do mundo fazia e adorava fazer, o rio que passa nesta grande aldeia é sujo e cheira mal e por certo os peixes que lá possam sobreviver serão tão feios e sujos que, definitivamente, não quero vê-los e prová-los, menos ainda pescá-los do infeliz mundo onde em pesadelos possam existir. Vejo-os no National Geographic, os olhos adormecem às imagens da caixa mágica e recordam o tempo em que por veredas que só eu e poucos iniciados conhecíamos chegava a plácidos recantos onde o anzol era paciente e num repente ficava mágico, num amadurecer de tardes que também eram mágicas pelo silêncio cúmplice com a natureza, a carícia da água límpida na minha pele jovem, de tudo isso agora me lembro e disso dou conta.

Não há balanços a fazer ou contas a acertar. Cá, na urbanidade, erigi um futuro que na sua modéstia é recheado doutras felicidades; lá, na nostalgia, moram as memórias dum outro que já existiu, faleceu aos dezassete anos ao dar o passo para a realidade que vivo e construí com o esforço do trabalho e a sorte no amor. Lá, algures nas imagens que de vez em quando me correm nos olhos como filme em reprise, mora não a saudade de fadista mas um jovem que morreu. Naturalmente. Afinal é a lei do crescer e no enterro do passado há sempre uma pontinha de dor. Tenho é saudade dos pássaros, do cheiro e do silêncio dos campos, da minha outra janela e muita, muita mesmo, dos peixes das tardes em que não duvidava, parafraseando o Poeta, que o rio que corria na minha aldeia era o rio mais lindo do mundo.


* texto de ficção e não autobiográfico

quarta-feira, 16 de abril de 2008

o fim do éden?

deixei de fumar. ou estou a. intenção, necessidade. é a segunda tentativa que inicio, gostava de terminá-la com sucesso. trinta e seis anos de nicotina e adjacências, contínuos, é um bom bocado de tempo. excessivo.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

"O texto mais calado"

o único adjectivo que me surgiu quando terminei de lê-lo: lindo!

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Porque sujaram as nuvens, porquê?

Tanto tempo depois e o que restou dá-se por nome tristeza e nada mais há quando paro o dia que me rodeia e penso em muito tempo atrás, tanto que era jovem e acreditava que sê-lo-ia para sempre tal como o sonho embala e alinda as ilusões fazendo-as eternas. Minto por omissão deliberada: há mais que tristeza, há fiozinhos mal amarrados que, hoje como ontem e como sempre desde então, provocam-me mal-estar quando me enleiam os pensamentos, aquele incómodo íntimo que as decepções, as desilusões não resolvidas trazem e se carregam no silêncio que mais pesa, a mágoa, a tal mágoa que nasce porque as ilusões terminam e o céu se acinzenta e se envelhece, num repente que não avisa de chegada, suavizando-a, e percebe-se o engano de ter acreditado que se seria jovem para sempre. É como uma dor, uma moínha constante que dá sinal de si quando leio, penso ou sinto o céu e as nuvens que idolatrei, e uma chuva de tristeza molha-me trinta e tal anos de memórias, data e marco que separou as águas entre continentes, na viagem matou um jovem e cristalizou a esperança, fê-la peça de museu a visitar em momentos nostálgicos, apenas, somente recordações.
Sinto-me órfão dum futuro que me foi prometido e dia-a-dia levou machadadas tão dolorosas que me fizeram desiludido fugitivo do que cobicei ser, da eterna juventude que acreditei merecer viver. Que acreditei, oh se acreditei… Essa dor não passa, passam é os anos que não a envelhecem, persiste a tristeza por ter sido jovem e ter assim acreditado o futuro, afinal vão e não infindo como o contavam e eu sonhava, sonhava e confiei até vir a dor, esta sem nome que lhe chame além de tristeza, ou mágoa, afinal apenas o tempo em que o céu se virou tanto que até os continentes mudaram, molharam-se-me as esperanças e nasceu um feio verdete na ilusão da eterna juventude que definitivamente a matou, surgiram os nós das memórias mal amarradas e disso tudo hoje, trinta e tal anos depois, lamento e conto.
Acreditei. Como podia não tê-lo feito? nunca nada nem ninguém me fizera assim sonhar, fora assim tocado e, qual ansioso noivo, suspirava e gemia no nosso namoro a céu aberto, esse mais puro e lindo do que alguma vez o vira, matizes que enfeitiçavam. Amantizamo-nos com o enlevo das juras de amantes, mas na hora do altar um de nós ou mesmo os dois não comparecemos, a memória já não o recorda com triste precisão. A paixão definhou e a tristeza não é bem-vinda a essa cerimónia. Falta mútua, fim de namoro sem culpas ou culpados individuais, fora o céu que se acinzentara e perdera o fulgor que era, fora, o seu maior fascínio.
Tanto tempo depois e o que restou dá-se por nome tristeza, e nada mais há quando paro o dia que me rodeia e penso que aqui envelheço quando houve tempos e tempos, ilusões de céus eternamente jovens. Dói, trinta e tal anos depois.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Eu tenho uma amante *

Bela, belíssima. A mais bela das amantes por que se murmura quando percebemos que nos falta paixão à vida, mais bela e perfeita que qualquer namorada de outro por quem se suspire.
Visitámo-nos ocasionalmente e sempre de fugida. Claro que pela pressa e pelo segredo são momentos tensos em que a paixão contida e silenciada nas ausências explode, e muito do ardor sensual perde-se na urgência animal da posse mútua. No meio da ânsia de amor a que nos entregamos, em que as carnes são violentadas na busca do êxtase por que os amantes reclamam, lá no meio desses momentos há por vezes tempo para soltar carícias suaves, afagos, e dedilha-se música terna que sobe as escalas que só nós conhecemos. Soam então carrilhões de timbre mágico e eu e a minha amante nele deslizamos, nus de tudo que vá mais longe do nosso enlevo, entregues e possuídos, insanos amantes que se devoram na frugalidade do seu segredo.
Exaurida a paixão da carne que jaz dormente, dorida, num dorido agradável de saciado, sossegamos nuvens e entrelaçamos sonhos no mirar mútuo, e os dedos ainda com as marcas vincadas da paixão acariciam-se, tocam e beijam os momentos em que nos fundimos e geramos o Ser da nossa paixão, amantes, recordo. Correm ao de leve os contornos mais queridos, aqui e ali o pormenor que enlouquece e soltou em fúria a paixão bruta, animal, os lábios soletram os segredos, pára o tempo e de nós só brota auréola magna, a beleza dos amantes secretos, de todos os mais belos e perfeitos.
Eu tenho uma amante, para ela escrevo e por ela sou escrito, eu tenho uma amante a quem entre segredos públicos e beijos secretos chamo de Querida, Querida Escrita.
* post já com 'anos', ora repetido porque gosto dele

As vagas que vão e vêm

Uma margem, um rio, e eu ali. Na sua beira, acocorado e sentindo a aspereza das pedras que atiro à agua, uma a uma, ritualmente. Olhando os círculos concêntricos que no esverdeado sujo se formam e crescem, alargam-se até desaparecerem no passear das águas, ao inverso das minhas reflexões que giram em círculos cada vez mais pequenos até restar um ponto negro final, minúsculo, nele cabendo o gigantismo da persistente interrogação que me trouxe à solidão do recanto além do salgueiral que bordeja o caminho rural. A dúvida. A sensação crítica dos próprios actos, talvez aquilo que é vulgo chamar-se de dúvidas de consciência. Nem as águas que correm mansamente, nem os círculos que lhes provoco e nelas se esvaem trazem quer resposta quer alívio, quer a luz, o sinal, que se diz encontrar-se quando nos evadimos a tudo o mais e nos refugiamos para, com sorte, solidão e suor cerebral, pensarmos até encontrar as respostas exigidas.

Mais uma pedra, mecanicamente alimento movimentos contra natura às águas, como impondo-lhes a minha presença e, assim, forçando-as, delas extrair o momento, a inspiração, que do verdete que as suja me surja a luz que esclareça e apague, afogue, o tormento da dúvida que para a solidão me caminhou. Me caminhou, encaminhou. Porque os passos que me afastaram da vila e me fizeram mergulhar no campo circundante, que me conduziram a este oásis de nada nem ninguém além de mim e das pedrinhas em que voam as minhas interrogações, esses passos foram agitados, o caminhar foi inseguro e errante, tão vagueante como fugidia é a resposta à dúvida que me corrói o viver e alimenta o braço que, sem cessar, atira às mudas águas o grito das interrogações, mil e uma pedras que tão poucas são para a resposta que não se encontra no ondear que ciclicamente vem e morre a meus pés. O isolamento não me responde mesmo quando o chamo, o invoco, o reclamo e dele me aposso como áugure privado, vaticinador dos caminhos certos a escolher quando as encruzilhadas são dúbias.

Ergo-me porque se acabaram as pedras, nada mais há a atirar e nada mais há a extrair do rio que não me responde. Não é neste recanto, no falso isolamento e na vã ilusão que induz que se decide, que decido, que sopeso e acho o resultado mais justo, a decisão que as águas não trazem: elas correm livres, conspurcadas por impurezas múltiplas e agitadas pelo meu insano bombardear de pedras e tormentos pessoais, elas seguem o seu caminho ignorando-me e deixando-me solitário na margem, uma igual a tantas que no seu curso conhece e acaricia, mas desconhecendo e ignorando com altivez quem, nelas, ousa perturbá-las com questões que lhe são estranhas e para quem o seu curso e o caudal que nele as encaminha, não têm respostas: as questões filosóficas dos humanos são-lhe alheias, e delas trate quem da ética e seu parentesco tem de tratar: os próprios, pais naturais da dúvida e responsáveis pela sua educação, consequência.

Ergo-me e regresso, atravesso os salgueiros que me esconderam sem me esconder à razão da minha fuga, regresso aos campos e atravesso-os em passos de retorno, ora firmes, altivos na certeza encontrada de que as respostas e os caminhos certos encontram-se não nos concêntricos círculos que nada mais fazem que agitar águas que correm livres e, assim falsamente, ocultar a realidade, a convicção e a certeza de se estar a agir correctamente. Seja qual for a enigmática pergunta ou a dor do flagelo, é cabo que se atravessa e estrada que se trilha seguindo o caminho apontado pela bússola interior, dita e crismada de consciência.

Atrás ficou o rio, talvez não indiferente a eu ter encontrado o meu caminho.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

da água e do vinho

.... e, obviamente, mais, muito mais. ou não fosse o jpt a "falar" e recordar aos esquecidos/distraídos que há mais mundos que o nosso, gordinho e pequenino.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

nojo!

Existem 'petições' na Internet por tudo o que é 'causa', muitas delas fruto de humores de momento mas a maior parte justas e muitas, pelas indignidades denunciadas, justíssimas.
Esta é uma delas, das OBRIGATÓRIAS para quem ainda não desceu a níveis bestiais de insensibilidade.
Por favor leiam, quem quiser e tiver estômago (ou duvidar) siga os links lá inseridos e veja as fotografias do assassinato dum animal em "nome da arte" e, POR FAVOR, assinem, ajudem a impedir que volte a acontecer, seja a que pretexto for - menos ainda sob capa de "arte".
Deste acto ao eugenismo nazi só vai um passo, um pequeno e silencioso passo... não o permitas por omissão, comodismo ou outra 'desculpa' qualquer - qu'essa é setenta anos velha e deu no que se sabe!

terça-feira, 1 de abril de 2008

"Se mentes?"

A Inês fala de sementes e pergunta-nos se mentimos, hoje dia delas. Tomara mais sementes destas, diárias.

sexta-feira, 28 de março de 2008

"Este bairro que habito, esta linha manuscrita"


Eu tenho um bairro onde não habito mas a que chamo meu. Meu, assim em três letras e cada nicho delas ortograficamente cheio de verdade. Meu, porque no meu diário entrecruzar dos seus caminhos, enquanto distribuo envelopes que me são anónimos, sei que levo mais que facturas, contas e continhas às caixas de correio, levo aos corações e esperanças dos habitantes do Meu bairro as notícias há muito esperadas, quiçá também as inesperadas, no meio do montinho de envelopes formatizados em letras comerciais (facturas, quem as não tem? - deveria soar assim a cantiga que fala dos amores e de quem os não tem, era d’eco e coro realisticamente mais verdadeiros…), pois, dizia, no montinho anónimo há sempre lugar a envelopes redigidos à boa e velha maneira, antes dos computadores e, até, das suas avoengas antecessoras, as “máquinas de dactilografia”: à mão, envelopes com nomes e moradas escritos em letras desenhadas com mãos, umas firmes outras trémulas, mãos de gente e não de máquinas, conteúdos por certo mais nobres e válidos que qualquer campanha promocional que queira agitar as gentes do meu bairro.
Sinto-me especialmente responsável nesses momentos, quando, folheando os andares, os esquerdos e os direitos, me calha em mãos um desses mensageiros, não há vez em que não me interrogue sobre se, lá dentro, haverá notícias meramente banais ou o brado escrito dum coração desinquietado. É o meu bairro, são as minhas pessoas, os meus ‘clientes’ que afinal são é meus vizinhos, a quem sou portador de mais, muito mais, que meros extractos bancários dizendo-lhes que só lhes faltam meros vinte e tal anos e tantos meses para acabarem de pagar a hipoteca da sua casa, haja saúde e trabalho e, caso algum deste falhe nem que seja de forma irremediável, há sempre outro envelope com monograma comercial que diz, comunica, alegra, que foi paga mais uma prestação do seguro que tudo segura e cobre, e neste saudável e trabalhoso entretanto não se inibe, e cobra. Esse correio, estes envelopes, são o ‘spam’ – e perdoem-me a figura de estilo analógica!... que me enche a sacola que esvazio nas portas das ruas do meu bairro. E chamo-lhe ‘spam’, emocionalmente sou-lhe insensível ao potencial conteúdo por nenhum deles, nenhuma colecção deles, no meu imaginário valer tanto como um dos tais outros, os mágicos, os de letras resistentemente escritas à mão, personalizadas. Não conheço a maioria dos destinatários, quanto mais dos remetentes… nem é minha missão, afinal eu só devo distribuí-los atempadamente e sem enganos. Porém, com o hábito e o tempo que eu e o meu bairro já entrecruzamos, sei, adivinho sabendo que o coração não me engana, que esta carta que tenho na mão e delicadamente introduzo na ranhura, esta, uma das tais, “à mão”, vindo como vem de terras distantes e sendo como é para a senhora solitária que vive no segundo esquerdo frente, será do seu filho ausente, emigrado, que procurou longe a forma de reduzir o tempo com que o Banco conta escrever-lhe mês a mês a contar-lhe da hipoteca, taxas e juros, anos e anos, anos a mais que a esperança e as cãs que entretanto lhe nascem merecem, como a prata já brilha nos cabelos da senhora sua mãe. Lhes merece, nos merece.
Fico alegre quando assim sonho e fantasio o correio que distribuo, porta a porta distribuo estes sorrisos secretos, arauto que sorri aos seus vizinhos. Moro noutro lugar mas este também é o meu bairro e estes também são os meus vizinhos, a minha gente. Afinal, eles são gémeos.

Imagem daqui

quarta-feira, 5 de março de 2008

o equilíbrio

para contrabalançar o post anterior, aqui vai, à época, "Le Vin" (L´Âme du Vin) de Charles Baudelaire e da sua obra maior "As Flores do Mal" (com tradução de Fernando Pinto do Amaral), Assírio & Alvim, 2ª edição de 1993:
.........
Nas garrafas cantou, uma noite, a alma do vinho:
«Homem, pra ti exalo, ó caro deserdado,
nesta prisão de lacre vermelho e de vidro,
Um canto cheio de luz e fraternidade!
.........
«Sobra a colina em fogo, sei quando é preciso
De esforço, de suor e de sol bem ardente
Pra me engendrar a vida e me criar o espírito;
Porém não quero ser ingrato ou malevolente,
.........
«Porque imensa alegria sinto ao ar caindo
Na goela de um homem plo trabalho
E o seu peito quente é um sepulcro suave
Que me agrada bem mais que as adegas frias.
.........
«Não ouves ressoar os refrãos domingueiros
E no meu peito ansioso a esperança a gorjear?
Cotovelos na mesa e manga arregaçada,
Irás glorificar-me e estarás satisfeito;
.........
«Da tua esposa encantada acenderei os olhos;
Devolverei a força e as cores ao teu filho
E serei pra tão frágil atleta da vida
O óleo que enrijece aos lutadores os músculos.
.........
«Em ti hei-de cair, vegetal ambrosia,
Precioso grão que sempre o eterno Semeador
Lança, pra que do nosso amor nasça a poesia
Que brotará pra Deus como uma rara flor!»

interrogações

(sem primeiras, segundas, ou terceiras intenções: apenas como exemplo do 'sentimento de tragédia' presente no celebrado "Século das Luzes". e pela interrogação, pertinente, sempre pertinente pois claro, pois não haverá 'vivo' racional que não pense no oposto, e na sua potencial filosófica racionalidade.)
..................................................
Então, este Deus que eu sirvo deixa-me sem apoio!
Proíbe as minhas mãos de atentarem contra os meus dias!...
Eh! que crime se pratica perante esse Deus ciumento
Se apressarmos o momento que a todos nos espera?
Então, do cálice amargo de um mal tão durável
Será preciso beber a longos tragos a borra insuportável?
Este corpo vil e mortal será pois tão sagrado
Que o espírito que o guia o não deixa a seu agrado?
...................................................
Voltaire, "Alzira", V, 3, segundo "História do Suicídio", George Minois, Círculo de Leitores, 1999

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

auto-retrato

REFLEXO

O primeiro aspecto a apontar num auto-retrato com o meu nome é o seguinte: nada do que eu possa tentar escrever corresponde inteiramente à verdade. Pela simples razão de que eu ainda não sei quem sou. Consideremos então estas palavras como um reflexo de mim mesma (por mais horrenda que essa ideia possa parecer) mas num espelho que distorce ligeiramente a imagem. Uma fuga à realidade, por assim dizer. Não só pela razão referida, mas também porque a ideia de expor a minha própria análise não me agrada particularmente, eu que sou tão ligada a esse tesouro que é a intimidade do nosso pensamento.
E aqui está a minha primeira característica. Não sei se por receio, vergonha, ou educação em demasia, mas não sou de fazer coisas estapafúrdias nem de falar pelos cotovelos: com excepção de um grupo algo restrito de amigos e familiares, com quem tais acontecimentos, estranhamente, tendem a ser habituais. Chamam-me reservada e tímida aqueles que ainda não fazem parte desse grupo, ou que nunca virão a pertencer. E chamam-me alienada e esquisita os que sempre lá estiveram, e sempre estarão. Sou bastante sociável, mas poucos me conquistaram a ponto de merecerem invadir o que de mais precioso tenho: a minha mente.
Um grande defeito meu é a insegurança. Custa-me muito tomar decisões e penso que é a responsabilidade que me assusta. Dou comigo demasiado preocupada com o futuro e quase que me esqueço de viver o presente, estando sempre um momento adiantada. Sei defender convicções e tenho ideais, mas não vou negar que custou chegar até eles. Escolher não é fácil.
Tenho o dom de saber exactamente como irritar alguém, talento esse que uso para meu divertimento, e, confesso, por capricho. Além de tudo isto, as minhas mãos são feitas de manteiga (provocando-me alguns inconvenientes, e, por vezes, gargalhadas nos espectadores) e os meus pés teimam em chocar com cada peça de mobiliário que encontram e escorregar em qualquer tipo de piso. Como se tudo isto não bastasse, as segundas-feiras servem de pretexto para libertar toda a preguiça que acumulo (que, convenhamos, não é pouca) durante a semana e cuja expressão me é negada.
Vivo constantemente no mundo da Lua. Quer no bom, quer no mau sentido. Permite-me viver grandes aventuras, mas também já me valeu umas quantas desilusões.
A escrita, seja ela de prosa ou poesia, o cheiro da tinta que veste o papel nu, esse sim, um dos meus grandes mundos de fantasia, onde me basta um pequeno movimento para que tudo o que eu quero aconteça. Seja o meu desejo o acariciar uma face, o nascimento de uma planta ou a colisão de duas estrelas, tudo isso me custará não mais que um pequeno conjunto de palavras. É ainda desconhecida magia mais poderosa. O desenho, que achei dentro de mim à medida que me ia conhecendo, tornou-se, também ele, uma parte central da minha vida. Deslumbra-me a capacidade de criar ideias e de desafiá-las num só traço. De fazer transparecer emoções de forma brutal mas indirecta. Agrada-me a complexidade da sua interpretação e das suas infinitas possibilidades. A música, toda ela, uma das mais belas artes, a única que une os homens entre si. Sentir os meus dedos contra as teclas lisas e suaves dum piano dá-me paz interior e ajuda-me a escapar à correria diária, tornando-me alheia ao mundo, deixando-me sozinha com as notas, em intimidade. O teatro, claro, paixão de sempre e para sempre, sem ser preciso acrescentar mais nada – apenas que a minha relação com esta Arte está para além das palavras. A fotografia, uma nova e deliciosa descoberta; e, por último, o cinema, essa forma maravilhosa de viver num oásis durante um par de horas e voltar a repeti-las sempre que quisermos. Enfim, a arte, em geral, é o meio que eu uso para não só sobreviver a este mundo, mas também viver no mundo da imaginação, dos sonhos, do impossível.
A minha vida é feita de paixões. Do enfeitiçar dum sorriso, da troca de um olhar. Posso não saber grande coisa da vida, do que me espera, mas sinto-me bem com isso. Intrigada, pois a minha curiosidade não dorme, mas confortável.
Em suma, este foi um verdadeiro manual de instruções onde também as entrelinhas contam e que me deveria ter acompanhado à nascença. Um auto-retrato de alguém que vê embaciado quando se olha ao espelho e que ainda não sabe quem é. Porque ainda tenho muito para ver, viver e sentir. E porque a vida é feita de mudança. Para melhor, espero.


Carla Barreiros, "Webita", 15 anos


.... mais que "babado" sou tri-orgulhoso: esta, a mais nova, desta forma; mas cada um, os dois mais velhos e cada um à sua maneira, todos me inundam de Orgulho.

auto-retrato da "Webita"

REFLEXO

O primeiro aspecto a apontar num auto-retrato com o meu nome é o seguinte: nada do que eu possa tentar escrever corresponde inteiramente à verdade. Pela simples razão de que eu ainda não sei quem sou. Consideremos então estas palavras como um reflexo de mim mesma (por mais horrenda que essa ideia possa parecer) mas num espelho que distorce ligeiramente a imagem. Uma fuga à realidade, por assim dizer. Não só pela razão referida, mas também porque a ideia de expor a minha própria análise não me agrada particularmente, eu que sou tão ligada a esse tesouro que é a intimidade do nosso pensamento.
E aqui está a minha primeira característica. Não sei se por receio, vergonha, ou educação em demasia, mas não sou de fazer coisas estapafúrdias nem de falar pelos cotovelos: com excepção de um grupo algo restrito de amigos e familiares, com quem tais acontecimentos, estranhamente, tendem a ser habituais. Chamam-me reservada e tímida aqueles que ainda não fazem parte desse grupo, ou que nunca virão a pertencer. E chamam-me alienada e esquisita os que sempre lá estiveram, e sempre estarão. Sou bastante sociável, mas poucos me conquistaram a ponto de merecerem invadir o que de mais precioso tenho: a minha mente.
Um grande defeito meu é a insegurança. Custa-me muito tomar decisões e penso que é a responsabilidade que me assusta. Dou comigo demasiado preocupada com o futuro e quase que me esqueço de viver o presente, estando sempre um momento adiantada. Sei defender convicções e tenho ideais, mas não vou negar que custou chegar até eles. Escolher não é fácil.
Tenho o dom de saber exactamente como irritar alguém, talento esse que uso para meu divertimento, e, confesso, por capricho. Além de tudo isto, as minhas mãos são feitas de manteiga (provocando-me alguns inconvenientes, e, por vezes, gargalhadas nos espectadores) e os meus pés teimam em chocar com cada peça de mobiliário que encontram e escorregar em qualquer tipo de piso. Como se tudo isto não bastasse, as segundas-feiras servem de pretexto para libertar toda a preguiça que acumulo (que, convenhamos, não é pouca) durante a semana e cuja expressão me é negada.
Vivo constantemente no mundo da Lua. Quer no bom, quer no mau sentido. Permite-me viver grandes aventuras, mas também já me valeu umas quantas desilusões.
A escrita, seja ela de prosa ou poesia, o cheiro da tinta que veste o papel nu, esse sim, um dos meus grandes mundos de fantasia, onde me basta um pequeno movimento para que tudo o que eu quero aconteça. Seja o meu desejo o acariciar uma face, o nascimento de uma planta ou a colisão de duas estrelas, tudo isso me custará não mais que um pequeno conjunto de palavras. É ainda desconhecida magia mais poderosa. O desenho, que achei dentro de mim à medida que me ia conhecendo, tornou-se, também ele, uma parte central da minha vida. Deslumbra-me a capacidade de criar ideias e de desafiá-las num só traço. De fazer transparecer emoções de forma brutal mas indirecta. Agrada-me a complexidade da sua interpretação e das suas infinitas possibilidades. A música, toda ela, uma das mais belas artes, a única que une os homens entre si. Sentir os meus dedos contra as teclas lisas e suaves dum piano dá-me paz interior e ajuda-me a escapar à correria diária, tornando-me alheia ao mundo, deixando-me sozinha com as notas, em intimidade. O teatro, claro, paixão de sempre e para sempre, sem ser preciso acrescentar mais nada – apenas que a minha relação com esta Arte está para além das palavras. A fotografia, uma nova e deliciosa descoberta; e, por último, o cinema, essa forma maravilhosa de viver num oásis durante um par de horas e voltar a repeti-las sempre que quisermos. Enfim, a arte, em geral, é o meio que eu uso para não só sobreviver a este mundo, mas também viver no mundo da imaginação, dos sonhos, do impossível.
A minha vida é feita de paixões. Do enfeitiçar dum sorriso, da troca de um olhar. Posso não saber grande coisa da vida, do que me espera, mas sinto-me bem com isso. Intrigada, pois a minha curiosidade não dorme, mas confortável.
Em suma, este foi um verdadeiro manual de instruções onde também as entrelinhas contam e que me deveria ter acompanhado à nascença. Um auto-retrato de alguém que vê embaciado quando se olha ao espelho e que ainda não sabe quem é. Porque ainda tenho muito para ver, viver e sentir. E porque a vida é feita de mudança. Para melhor, espero.
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Carla Barreiros, 15 anos
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.... mais que "babado" sou pai tri-orgulhoso: a mais nova do clã auto-retrata-se assim, nem sei se melhor desenhado se escrito :) sei, sim, que, ano a ano, descoberta em descoberta, vejo-lhe "capacidades artísticas" inatas, a sensibilidade crescendo, e, hoje, a certeza que a sua opção académica pela área 'Artes' foi a correcta. força, miúda! tens dentro de ti tudo o que é necessário; burila-as e afina-as com estudo, trabalho, e terás a tua recompensa, não duvides! como eu, nós tua família, também não o fazemos!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Que estranha, a nossa verdade!
Às vezes, partida a meio,
Minha ilusória unidade,
Pensando, sinto, pensei-o.

Mas quando penso o que penso
Estou-o pensando também.
Na vertigem, não me venço
E recuo e vou além

Daquilo p'ra que há defesa
Feliz quem pode parar
Onde a certeza é certeza
E pensar é só pensar!

Reinaldo Ferreira, "Poemas", 1960

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

literaturas pós-coloniais

Obrigado mufanita.* Também a ti, Macua.
*(parte não publicada na edição de ontem do jornal Público dum depoimento que lhe dei ao tema em título)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

um bom blogue

"Any where out of the world"

Esta vida é um hospital onde cada enfermo está possuído do desejo de mudar de cama. Este queria sofrer defronte do fogão, e aquele crê que se curava ao lado da janela. A mim parece-me que estaria sempre bem no lugar em que não estou, e este problema de mudar-me é uma coisa que não cesso de discutir com a minha alma.
"Dize-me tu, minha alma, pobre alma friorenta, que pensarias tu de viver em Lisboa? Deve lá fazer calor, e podias regalar-te como um lagarto. A cidade ergue-se à beira d'água; dizem que é construída de mármore, e que o povo tem tanto ódio ao vegetal que arranca todas as árvores. Eis uma paisagem a teu gosto; uma paisagem feita de luz e mineral, com o líquido para os reflectir!"
A minha alma não responde.
"Visto que tanto gostas do repouso juntamente com o espectáculo do movimento, queres tu ir viver para a Holanda, essa terra beatificante? Talvez venhas a divertir-te nesse país cujas imagens tantas vezes admiraste nos museus. Que pensarias tu de Roterdão, tu que amas as florestas de mastros, e os navios atracados ao pé das casas?"
A minha alma fica muda.
"Batávia sorrir-te-ia talvez mais? Encontraríamos láo espírito da Europa casado com a beleza tropical".
Nem uma palavra. - Estará morta a minha alma?
"Terás então chegado a tal grau de entorpecimento que não te comprazes senão com o teu mal? Se assim é fujamos para os países que são analogias da morte. - Já sei o que nos convém, pobre alma! Fazemos as malas para Tornéo. Vamos para mais longe ainda, se é possível: instalemo-nos no pólo. Lá o sol mal roça obliquamente pela terra, e as lentas alternativas da luz e da noite suprimem a variedade e aumentam a monotonia, essa metade do nada. Lá poderemos tomar longos banhos de trevas enquanto, para nos divertirem, as auroras boreais nos levarão de tempos a tempos as suas girândulas cor-de-rosa, lembrando reflexos dum fogo de artifício do Inferno!"
Por fim a minha alma explode, e grita-me ajuizadamente: "Seja para onde for! Seja para onde for! contanto que seja para fora deste mundo!"
......... .......... ..........
"O Spleen de Paris", Charles Baudelaire, Ed. Relógio d'Água, 1991

"A sopa e as nuvens"

A minha tontinha bem-amada dava-me de jantar, e pela janela aberta da sala eu contemplava as arquitecturas deambulantes que Deus constrói com os vapores, os maravilhosos edifícios do impalpável. E dizia para comigo, na minha contemplação: "-Todas estas fantasmagorias são quase tão lindas como os olhos da minha bem-amada, a monstruosa tontinha dos olhos verdes."
E de repente recebi uma punhada violenta nas costas, e ouvi uma voz roufenha e adorável, uma voz histérica e como que enrouquecida pela aguardente, a voz da minha querida bem-amadazinha, que dizia: "Então quando vens comer a sopa, seu estupor de traficante de nuvens?"
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"O Spleen de Paris", Charles Baudelaire, Ed. Relógio d'Água, 1991

"As Janelas"

Quem olha do exterior para uma janela aberta nunca vê tantas coisas como quem olha para uma janela cerrada. Não existe objecto mais profundo, mais deslumbrante, do que uma janela alumiada por uma candeia. O que se pode ver à luz do Sol é sempre menos interessante do que o que se passa por trás dum vidro. Nesse buraco negro ou luminoso vive a vida, sonha a vida, sofre a vida.
Para além das vagas dos telhados, distingo uma mulher de meia-idade, já com rugas na face, pobre, sempre vergada sobre qualquer coisa, e que nunca sai de casa: com o seu rosto, com o seu vestido, com os seus gestos, com quase nada, refaço a história dessa mulher, ou antes, a sua lenda e às vezes conto-a a mim mesmo chorando.
Se se tivesse tratado dum pobre velho, eu teria refeito a sua vida com a mesma facilidade.
E deito-me orgulhoso de ter vivido e sofrido pelos outros, que não por mim.
Talvez me digas: "Estás certo que essa lenda seja verdadeira?" Que pode importar-me qual seja a realidade situada para além de mim, se ela me ajudou a viver, a sentir que sou aquilo que sou?
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"O Spleen de Paris", Charles Baudelaire, Ed. Relógio d'Água, 1991

"Embriaga-te"

Devemos andar sempre bêbedos. Tudo se resume nisto: é a única solução. Para não sentires o tremendo fardo do Tempo que te despedaça os ombros e te verga para a terra, deves embriagar-te sem cessar.
Mas com quê? com vinho, poesia ou com a virtude, a teu gosto. Mas embriaga-te.
E se alguma vez, nos degraus dum palácio, sobre as verdes ervas duma vala, na solidão morna do teu quarto, tu acordares com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que se passou, a tudo o que gemeu, a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunta-lhes que horas são: "São horas de te embriagares! Para não seres como os escravos martirizados do Tempo, embriaga-te, embriaga-te sem cessar! Com vinho, com poesia, ou com a virtude, a teu gosto."
......... .......... ...........
"O Spleen de Paris", Charles Baudelaire, Ed. Relógio d'Água, 1991

"O cão e o frasco"

"- Meu lindo cãozinho, meu bom cãozinho, meu querido totó, aproxima-te e vem respeirar um excelente perfume comprado no melhor perfumista da cidade."
E o cão, agitando a cauda, o que é, creio eu, nestes pobres seres, o sinal correspondente ao riso e ao sorriso, aproxima-se e pousa curiosamente o focinho húmido sobre o frasco desarrolhado; depois, recuando com repentino receio, ladra voltado para mim, à maneira de censura.
"- Ah! cachorro execrável, se eu te houvesse presenteado com um pacote de excrementos, tê-lo-ias farejado com delícia e talvez devorado. Assim, também tu, indigno companheiro da minha triste vida, és semelhante ao público, ao qual nunca se podem apresentar perfumes requintados que o exasperam, mas sim porcarias cuidadosamente escolhidas."
......... .......... ..........
"O Spleen de Paris", Charles Baudelaire, Ed. Relógio d'Água, 1991

"O Estrangeiro"

- De quem gostas mais, diz lá, homem enigmático? de teu pai, de tua mãe, de tua irmã, ou de teu irmão?
- Não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
- Dos teus amigos?
- Eis uma expressão cujo sentido até hoje ignorei.
- Da tua pátria?
- Não sei a latitude a que está situada.
- Da beleza?
- Amá-la-ia de boa vontade, divina e imortal.
- Do oiro?
- Odeio-o tanto como vós a Deus.
- Então que amas tu, singular estrangeiro?
- Amo as nuvens... as nuvens que passam.. lá longe... as maravilhosas nuvens!
.......... ......... ..........
"O Spleen de Paris", Charles Baudelaire, Ed. Relógio d'Água, 1991

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

"o resto é letra morta"

como todos os anos - felizmente!... - em alturas de Natal e Ano Novo recebo(emos) montes de e-mails com desejos do melhor que há, bonecada e flores que davam para abrir uma loja chinesa, e das grandes.
há vezes em que aparecem alguns de bom gosto. melhor ainda se são produção própria e não Fw's. deste "ano novo" destaco este mail-poema, vindo de ilhas e coração quentes:
....................................................................
No epicentro do sonho me concentro
com o sentimento sustentado
de quem parte por querer partir
mesmo não chegando a nenhum lado.


Não há aventura
sem loucura e sem ternura

- é a viagem que importa
o resto é letra morta.


Praia, Cabo Verde, Dezembro 2007

Nuno Rebocho
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idem para ti, Nuno. idem para todos os que tremem ao ler poesia, que "o resto é letra morta".

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Para Além da Mágoa: Novos Diálogos Pós-Coloniais

divulgo. embora o meu desejo seja estar presente, o mais certo é não poder fazê-lo. além de divulgar recomendo, pois sei da qualidade da organização (obrigado pelo convite, amiga, mas... entretanto telefono-te)

Colóquio


Para Além da Mágoa: Novos Diálogos Pós-Coloniais


Organizadoras:
Margarida Paredes (Centro de Estudos Africanos, Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa),
Sheila Khan (University of Manchester / Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra)
e
Casa Fernando Pessoa (dir. Francisco José Viegas)


Texto Explicativo do Encontro:

Uma nova geração de escritores tem emergido na narrativa contemporânea com um discurso que procura descolonizar as mágoas, as angústias, e dores que a geração anterior trouxe de África e de Timor. Será necessário, na nossa opinião, pensar e reflectir nestas novas trajectórias de vida e identidades, com um olhar completo. Este acto de olhar, é o projecto de escritores que procuram fazer uma leitura diferente da caminhada histórica, cultural e subjectiva do nosso passado colonial, de um modo criativo, lúcido, e equilibrado. É a língua das águas subterrâneas que enriquecem este mal-estar pós-colonial, por vezes, pejado de sentimentos de perda e de exílio. Acolher e escutar estes novos olhares, estas novas visões em interacção com África e Timor, permite-nos dirigir e mesurar o diálogo que propomos, neste encontro, para além da mágoa.

Objectivos do Encontro:

O que é a literatura pós-colonial de língua portuguesa?
Como é pensada e sentida a história colonial portuguesa, pelos novos escritores?
Uma literatura de luto, ou uma produção de novos sentidos e novos diálogos numa era pós-descolonização?
Será possível falar-se sem receios de uma literatura e de pós-colonialismo luso-afro-brasileiro?



Público Alvo:
Investigadores
Estudantes
Críticos Literários
Jornalistas
Centros de Estudos Africanos
Centros de Estudos Literários
Centros de Investigação
Público em Geral

Lista de Convidados:

Ana Paula Tavares (participação especial da poetisa)
Francisco Camacho
Eduardo Agualusa
Joaquim Arena
Paulo Bandeira Faria
Margarida Paredes
Miguel Gullander
Luís Cardoso


Programa: (22 de Janeiro, 2008)

Manhã:
9:30 – 10:00 – Apresentação do Encontro por Francisco José Viegas e Sheila Khan
10:00 – 12:45 – Das Narrativas do Não-Sofrimento, dos Novos Sentidos sobre a Literatura Pós-Colonial de Língua Portuguesa
Mesa orientada por: Livia Apa (professora universitária, Universidade de Nápoles “L’Orientale” e na Universidade de Roma “La Sapienza”)
10:00 -10:30 – Francisco Camacho
10:30 – 11:00 – Paulo Bandeira Faria
11: 00- 11: 15 – Coffee Break
11: 15 – 11:45 – Joaquim Arena
11:45 – 12:15 – Luís Cardoso
12:15 – 12:45 – Discussão de Ideias e Propostas

Almoço: 12:45 – 14:00

Tarde:
14:00 – 17:15 – Dos diálogos, e de uma Literatura Luso-Afro-Brasileira Pós-Colonial
Mesa orientada por: Inocência Mata (professora universitária, estudiosa de literaturas africanas)
14:00-14:30 – Eduardo Agualusa
14:30 – 15:00 – Margarida Paredes
15:00 – 15:15 – Coffee Break
15:15 – 15:45 – Miguel Gullander
15:45 – 16:15 – Ana Paula Tavares (participação especial da poetisa)
16:30-17:15 – Reflexão Final por Francisco José Viegas (keynote-speaker)