sexta-feira, 28 de março de 2008

"Este bairro que habito, esta linha manuscrita"


Eu tenho um bairro onde não habito mas a que chamo meu. Meu, assim em três letras e cada nicho delas ortograficamente cheio de verdade. Meu, porque no meu diário entrecruzar dos seus caminhos, enquanto distribuo envelopes que me são anónimos, sei que levo mais que facturas, contas e continhas às caixas de correio, levo aos corações e esperanças dos habitantes do Meu bairro as notícias há muito esperadas, quiçá também as inesperadas, no meio do montinho de envelopes formatizados em letras comerciais (facturas, quem as não tem? - deveria soar assim a cantiga que fala dos amores e de quem os não tem, era d’eco e coro realisticamente mais verdadeiros…), pois, dizia, no montinho anónimo há sempre lugar a envelopes redigidos à boa e velha maneira, antes dos computadores e, até, das suas avoengas antecessoras, as “máquinas de dactilografia”: à mão, envelopes com nomes e moradas escritos em letras desenhadas com mãos, umas firmes outras trémulas, mãos de gente e não de máquinas, conteúdos por certo mais nobres e válidos que qualquer campanha promocional que queira agitar as gentes do meu bairro.
Sinto-me especialmente responsável nesses momentos, quando, folheando os andares, os esquerdos e os direitos, me calha em mãos um desses mensageiros, não há vez em que não me interrogue sobre se, lá dentro, haverá notícias meramente banais ou o brado escrito dum coração desinquietado. É o meu bairro, são as minhas pessoas, os meus ‘clientes’ que afinal são é meus vizinhos, a quem sou portador de mais, muito mais, que meros extractos bancários dizendo-lhes que só lhes faltam meros vinte e tal anos e tantos meses para acabarem de pagar a hipoteca da sua casa, haja saúde e trabalho e, caso algum deste falhe nem que seja de forma irremediável, há sempre outro envelope com monograma comercial que diz, comunica, alegra, que foi paga mais uma prestação do seguro que tudo segura e cobre, e neste saudável e trabalhoso entretanto não se inibe, e cobra. Esse correio, estes envelopes, são o ‘spam’ – e perdoem-me a figura de estilo analógica!... que me enche a sacola que esvazio nas portas das ruas do meu bairro. E chamo-lhe ‘spam’, emocionalmente sou-lhe insensível ao potencial conteúdo por nenhum deles, nenhuma colecção deles, no meu imaginário valer tanto como um dos tais outros, os mágicos, os de letras resistentemente escritas à mão, personalizadas. Não conheço a maioria dos destinatários, quanto mais dos remetentes… nem é minha missão, afinal eu só devo distribuí-los atempadamente e sem enganos. Porém, com o hábito e o tempo que eu e o meu bairro já entrecruzamos, sei, adivinho sabendo que o coração não me engana, que esta carta que tenho na mão e delicadamente introduzo na ranhura, esta, uma das tais, “à mão”, vindo como vem de terras distantes e sendo como é para a senhora solitária que vive no segundo esquerdo frente, será do seu filho ausente, emigrado, que procurou longe a forma de reduzir o tempo com que o Banco conta escrever-lhe mês a mês a contar-lhe da hipoteca, taxas e juros, anos e anos, anos a mais que a esperança e as cãs que entretanto lhe nascem merecem, como a prata já brilha nos cabelos da senhora sua mãe. Lhes merece, nos merece.
Fico alegre quando assim sonho e fantasio o correio que distribuo, porta a porta distribuo estes sorrisos secretos, arauto que sorri aos seus vizinhos. Moro noutro lugar mas este também é o meu bairro e estes também são os meus vizinhos, a minha gente. Afinal, eles são gémeos.

Imagem daqui

quarta-feira, 5 de março de 2008

o equilíbrio

para contrabalançar o post anterior, aqui vai, à época, "Le Vin" (L´Âme du Vin) de Charles Baudelaire e da sua obra maior "As Flores do Mal" (com tradução de Fernando Pinto do Amaral), Assírio & Alvim, 2ª edição de 1993:
.........
Nas garrafas cantou, uma noite, a alma do vinho:
«Homem, pra ti exalo, ó caro deserdado,
nesta prisão de lacre vermelho e de vidro,
Um canto cheio de luz e fraternidade!
.........
«Sobra a colina em fogo, sei quando é preciso
De esforço, de suor e de sol bem ardente
Pra me engendrar a vida e me criar o espírito;
Porém não quero ser ingrato ou malevolente,
.........
«Porque imensa alegria sinto ao ar caindo
Na goela de um homem plo trabalho
E o seu peito quente é um sepulcro suave
Que me agrada bem mais que as adegas frias.
.........
«Não ouves ressoar os refrãos domingueiros
E no meu peito ansioso a esperança a gorjear?
Cotovelos na mesa e manga arregaçada,
Irás glorificar-me e estarás satisfeito;
.........
«Da tua esposa encantada acenderei os olhos;
Devolverei a força e as cores ao teu filho
E serei pra tão frágil atleta da vida
O óleo que enrijece aos lutadores os músculos.
.........
«Em ti hei-de cair, vegetal ambrosia,
Precioso grão que sempre o eterno Semeador
Lança, pra que do nosso amor nasça a poesia
Que brotará pra Deus como uma rara flor!»

interrogações

(sem primeiras, segundas, ou terceiras intenções: apenas como exemplo do 'sentimento de tragédia' presente no celebrado "Século das Luzes". e pela interrogação, pertinente, sempre pertinente pois claro, pois não haverá 'vivo' racional que não pense no oposto, e na sua potencial filosófica racionalidade.)
..................................................
Então, este Deus que eu sirvo deixa-me sem apoio!
Proíbe as minhas mãos de atentarem contra os meus dias!...
Eh! que crime se pratica perante esse Deus ciumento
Se apressarmos o momento que a todos nos espera?
Então, do cálice amargo de um mal tão durável
Será preciso beber a longos tragos a borra insuportável?
Este corpo vil e mortal será pois tão sagrado
Que o espírito que o guia o não deixa a seu agrado?
...................................................
Voltaire, "Alzira", V, 3, segundo "História do Suicídio", George Minois, Círculo de Leitores, 1999

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

auto-retrato

REFLEXO

O primeiro aspecto a apontar num auto-retrato com o meu nome é o seguinte: nada do que eu possa tentar escrever corresponde inteiramente à verdade. Pela simples razão de que eu ainda não sei quem sou. Consideremos então estas palavras como um reflexo de mim mesma (por mais horrenda que essa ideia possa parecer) mas num espelho que distorce ligeiramente a imagem. Uma fuga à realidade, por assim dizer. Não só pela razão referida, mas também porque a ideia de expor a minha própria análise não me agrada particularmente, eu que sou tão ligada a esse tesouro que é a intimidade do nosso pensamento.
E aqui está a minha primeira característica. Não sei se por receio, vergonha, ou educação em demasia, mas não sou de fazer coisas estapafúrdias nem de falar pelos cotovelos: com excepção de um grupo algo restrito de amigos e familiares, com quem tais acontecimentos, estranhamente, tendem a ser habituais. Chamam-me reservada e tímida aqueles que ainda não fazem parte desse grupo, ou que nunca virão a pertencer. E chamam-me alienada e esquisita os que sempre lá estiveram, e sempre estarão. Sou bastante sociável, mas poucos me conquistaram a ponto de merecerem invadir o que de mais precioso tenho: a minha mente.
Um grande defeito meu é a insegurança. Custa-me muito tomar decisões e penso que é a responsabilidade que me assusta. Dou comigo demasiado preocupada com o futuro e quase que me esqueço de viver o presente, estando sempre um momento adiantada. Sei defender convicções e tenho ideais, mas não vou negar que custou chegar até eles. Escolher não é fácil.
Tenho o dom de saber exactamente como irritar alguém, talento esse que uso para meu divertimento, e, confesso, por capricho. Além de tudo isto, as minhas mãos são feitas de manteiga (provocando-me alguns inconvenientes, e, por vezes, gargalhadas nos espectadores) e os meus pés teimam em chocar com cada peça de mobiliário que encontram e escorregar em qualquer tipo de piso. Como se tudo isto não bastasse, as segundas-feiras servem de pretexto para libertar toda a preguiça que acumulo (que, convenhamos, não é pouca) durante a semana e cuja expressão me é negada.
Vivo constantemente no mundo da Lua. Quer no bom, quer no mau sentido. Permite-me viver grandes aventuras, mas também já me valeu umas quantas desilusões.
A escrita, seja ela de prosa ou poesia, o cheiro da tinta que veste o papel nu, esse sim, um dos meus grandes mundos de fantasia, onde me basta um pequeno movimento para que tudo o que eu quero aconteça. Seja o meu desejo o acariciar uma face, o nascimento de uma planta ou a colisão de duas estrelas, tudo isso me custará não mais que um pequeno conjunto de palavras. É ainda desconhecida magia mais poderosa. O desenho, que achei dentro de mim à medida que me ia conhecendo, tornou-se, também ele, uma parte central da minha vida. Deslumbra-me a capacidade de criar ideias e de desafiá-las num só traço. De fazer transparecer emoções de forma brutal mas indirecta. Agrada-me a complexidade da sua interpretação e das suas infinitas possibilidades. A música, toda ela, uma das mais belas artes, a única que une os homens entre si. Sentir os meus dedos contra as teclas lisas e suaves dum piano dá-me paz interior e ajuda-me a escapar à correria diária, tornando-me alheia ao mundo, deixando-me sozinha com as notas, em intimidade. O teatro, claro, paixão de sempre e para sempre, sem ser preciso acrescentar mais nada – apenas que a minha relação com esta Arte está para além das palavras. A fotografia, uma nova e deliciosa descoberta; e, por último, o cinema, essa forma maravilhosa de viver num oásis durante um par de horas e voltar a repeti-las sempre que quisermos. Enfim, a arte, em geral, é o meio que eu uso para não só sobreviver a este mundo, mas também viver no mundo da imaginação, dos sonhos, do impossível.
A minha vida é feita de paixões. Do enfeitiçar dum sorriso, da troca de um olhar. Posso não saber grande coisa da vida, do que me espera, mas sinto-me bem com isso. Intrigada, pois a minha curiosidade não dorme, mas confortável.
Em suma, este foi um verdadeiro manual de instruções onde também as entrelinhas contam e que me deveria ter acompanhado à nascença. Um auto-retrato de alguém que vê embaciado quando se olha ao espelho e que ainda não sabe quem é. Porque ainda tenho muito para ver, viver e sentir. E porque a vida é feita de mudança. Para melhor, espero.


Carla Barreiros, "Webita", 15 anos


.... mais que "babado" sou tri-orgulhoso: esta, a mais nova, desta forma; mas cada um, os dois mais velhos e cada um à sua maneira, todos me inundam de Orgulho.

auto-retrato da "Webita"

REFLEXO

O primeiro aspecto a apontar num auto-retrato com o meu nome é o seguinte: nada do que eu possa tentar escrever corresponde inteiramente à verdade. Pela simples razão de que eu ainda não sei quem sou. Consideremos então estas palavras como um reflexo de mim mesma (por mais horrenda que essa ideia possa parecer) mas num espelho que distorce ligeiramente a imagem. Uma fuga à realidade, por assim dizer. Não só pela razão referida, mas também porque a ideia de expor a minha própria análise não me agrada particularmente, eu que sou tão ligada a esse tesouro que é a intimidade do nosso pensamento.
E aqui está a minha primeira característica. Não sei se por receio, vergonha, ou educação em demasia, mas não sou de fazer coisas estapafúrdias nem de falar pelos cotovelos: com excepção de um grupo algo restrito de amigos e familiares, com quem tais acontecimentos, estranhamente, tendem a ser habituais. Chamam-me reservada e tímida aqueles que ainda não fazem parte desse grupo, ou que nunca virão a pertencer. E chamam-me alienada e esquisita os que sempre lá estiveram, e sempre estarão. Sou bastante sociável, mas poucos me conquistaram a ponto de merecerem invadir o que de mais precioso tenho: a minha mente.
Um grande defeito meu é a insegurança. Custa-me muito tomar decisões e penso que é a responsabilidade que me assusta. Dou comigo demasiado preocupada com o futuro e quase que me esqueço de viver o presente, estando sempre um momento adiantada. Sei defender convicções e tenho ideais, mas não vou negar que custou chegar até eles. Escolher não é fácil.
Tenho o dom de saber exactamente como irritar alguém, talento esse que uso para meu divertimento, e, confesso, por capricho. Além de tudo isto, as minhas mãos são feitas de manteiga (provocando-me alguns inconvenientes, e, por vezes, gargalhadas nos espectadores) e os meus pés teimam em chocar com cada peça de mobiliário que encontram e escorregar em qualquer tipo de piso. Como se tudo isto não bastasse, as segundas-feiras servem de pretexto para libertar toda a preguiça que acumulo (que, convenhamos, não é pouca) durante a semana e cuja expressão me é negada.
Vivo constantemente no mundo da Lua. Quer no bom, quer no mau sentido. Permite-me viver grandes aventuras, mas também já me valeu umas quantas desilusões.
A escrita, seja ela de prosa ou poesia, o cheiro da tinta que veste o papel nu, esse sim, um dos meus grandes mundos de fantasia, onde me basta um pequeno movimento para que tudo o que eu quero aconteça. Seja o meu desejo o acariciar uma face, o nascimento de uma planta ou a colisão de duas estrelas, tudo isso me custará não mais que um pequeno conjunto de palavras. É ainda desconhecida magia mais poderosa. O desenho, que achei dentro de mim à medida que me ia conhecendo, tornou-se, também ele, uma parte central da minha vida. Deslumbra-me a capacidade de criar ideias e de desafiá-las num só traço. De fazer transparecer emoções de forma brutal mas indirecta. Agrada-me a complexidade da sua interpretação e das suas infinitas possibilidades. A música, toda ela, uma das mais belas artes, a única que une os homens entre si. Sentir os meus dedos contra as teclas lisas e suaves dum piano dá-me paz interior e ajuda-me a escapar à correria diária, tornando-me alheia ao mundo, deixando-me sozinha com as notas, em intimidade. O teatro, claro, paixão de sempre e para sempre, sem ser preciso acrescentar mais nada – apenas que a minha relação com esta Arte está para além das palavras. A fotografia, uma nova e deliciosa descoberta; e, por último, o cinema, essa forma maravilhosa de viver num oásis durante um par de horas e voltar a repeti-las sempre que quisermos. Enfim, a arte, em geral, é o meio que eu uso para não só sobreviver a este mundo, mas também viver no mundo da imaginação, dos sonhos, do impossível.
A minha vida é feita de paixões. Do enfeitiçar dum sorriso, da troca de um olhar. Posso não saber grande coisa da vida, do que me espera, mas sinto-me bem com isso. Intrigada, pois a minha curiosidade não dorme, mas confortável.
Em suma, este foi um verdadeiro manual de instruções onde também as entrelinhas contam e que me deveria ter acompanhado à nascença. Um auto-retrato de alguém que vê embaciado quando se olha ao espelho e que ainda não sabe quem é. Porque ainda tenho muito para ver, viver e sentir. E porque a vida é feita de mudança. Para melhor, espero.
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Carla Barreiros, 15 anos
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.... mais que "babado" sou pai tri-orgulhoso: a mais nova do clã auto-retrata-se assim, nem sei se melhor desenhado se escrito :) sei, sim, que, ano a ano, descoberta em descoberta, vejo-lhe "capacidades artísticas" inatas, a sensibilidade crescendo, e, hoje, a certeza que a sua opção académica pela área 'Artes' foi a correcta. força, miúda! tens dentro de ti tudo o que é necessário; burila-as e afina-as com estudo, trabalho, e terás a tua recompensa, não duvides! como eu, nós tua família, também não o fazemos!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Que estranha, a nossa verdade!
Às vezes, partida a meio,
Minha ilusória unidade,
Pensando, sinto, pensei-o.

Mas quando penso o que penso
Estou-o pensando também.
Na vertigem, não me venço
E recuo e vou além

Daquilo p'ra que há defesa
Feliz quem pode parar
Onde a certeza é certeza
E pensar é só pensar!

Reinaldo Ferreira, "Poemas", 1960

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

literaturas pós-coloniais

Obrigado mufanita.* Também a ti, Macua.
*(parte não publicada na edição de ontem do jornal Público dum depoimento que lhe dei ao tema em título)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

um bom blogue

"Any where out of the world"

Esta vida é um hospital onde cada enfermo está possuído do desejo de mudar de cama. Este queria sofrer defronte do fogão, e aquele crê que se curava ao lado da janela. A mim parece-me que estaria sempre bem no lugar em que não estou, e este problema de mudar-me é uma coisa que não cesso de discutir com a minha alma.
"Dize-me tu, minha alma, pobre alma friorenta, que pensarias tu de viver em Lisboa? Deve lá fazer calor, e podias regalar-te como um lagarto. A cidade ergue-se à beira d'água; dizem que é construída de mármore, e que o povo tem tanto ódio ao vegetal que arranca todas as árvores. Eis uma paisagem a teu gosto; uma paisagem feita de luz e mineral, com o líquido para os reflectir!"
A minha alma não responde.
"Visto que tanto gostas do repouso juntamente com o espectáculo do movimento, queres tu ir viver para a Holanda, essa terra beatificante? Talvez venhas a divertir-te nesse país cujas imagens tantas vezes admiraste nos museus. Que pensarias tu de Roterdão, tu que amas as florestas de mastros, e os navios atracados ao pé das casas?"
A minha alma fica muda.
"Batávia sorrir-te-ia talvez mais? Encontraríamos láo espírito da Europa casado com a beleza tropical".
Nem uma palavra. - Estará morta a minha alma?
"Terás então chegado a tal grau de entorpecimento que não te comprazes senão com o teu mal? Se assim é fujamos para os países que são analogias da morte. - Já sei o que nos convém, pobre alma! Fazemos as malas para Tornéo. Vamos para mais longe ainda, se é possível: instalemo-nos no pólo. Lá o sol mal roça obliquamente pela terra, e as lentas alternativas da luz e da noite suprimem a variedade e aumentam a monotonia, essa metade do nada. Lá poderemos tomar longos banhos de trevas enquanto, para nos divertirem, as auroras boreais nos levarão de tempos a tempos as suas girândulas cor-de-rosa, lembrando reflexos dum fogo de artifício do Inferno!"
Por fim a minha alma explode, e grita-me ajuizadamente: "Seja para onde for! Seja para onde for! contanto que seja para fora deste mundo!"
......... .......... ..........
"O Spleen de Paris", Charles Baudelaire, Ed. Relógio d'Água, 1991

"A sopa e as nuvens"

A minha tontinha bem-amada dava-me de jantar, e pela janela aberta da sala eu contemplava as arquitecturas deambulantes que Deus constrói com os vapores, os maravilhosos edifícios do impalpável. E dizia para comigo, na minha contemplação: "-Todas estas fantasmagorias são quase tão lindas como os olhos da minha bem-amada, a monstruosa tontinha dos olhos verdes."
E de repente recebi uma punhada violenta nas costas, e ouvi uma voz roufenha e adorável, uma voz histérica e como que enrouquecida pela aguardente, a voz da minha querida bem-amadazinha, que dizia: "Então quando vens comer a sopa, seu estupor de traficante de nuvens?"
.......... ............ ...........
"O Spleen de Paris", Charles Baudelaire, Ed. Relógio d'Água, 1991

"As Janelas"

Quem olha do exterior para uma janela aberta nunca vê tantas coisas como quem olha para uma janela cerrada. Não existe objecto mais profundo, mais deslumbrante, do que uma janela alumiada por uma candeia. O que se pode ver à luz do Sol é sempre menos interessante do que o que se passa por trás dum vidro. Nesse buraco negro ou luminoso vive a vida, sonha a vida, sofre a vida.
Para além das vagas dos telhados, distingo uma mulher de meia-idade, já com rugas na face, pobre, sempre vergada sobre qualquer coisa, e que nunca sai de casa: com o seu rosto, com o seu vestido, com os seus gestos, com quase nada, refaço a história dessa mulher, ou antes, a sua lenda e às vezes conto-a a mim mesmo chorando.
Se se tivesse tratado dum pobre velho, eu teria refeito a sua vida com a mesma facilidade.
E deito-me orgulhoso de ter vivido e sofrido pelos outros, que não por mim.
Talvez me digas: "Estás certo que essa lenda seja verdadeira?" Que pode importar-me qual seja a realidade situada para além de mim, se ela me ajudou a viver, a sentir que sou aquilo que sou?
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"O Spleen de Paris", Charles Baudelaire, Ed. Relógio d'Água, 1991

"Embriaga-te"

Devemos andar sempre bêbedos. Tudo se resume nisto: é a única solução. Para não sentires o tremendo fardo do Tempo que te despedaça os ombros e te verga para a terra, deves embriagar-te sem cessar.
Mas com quê? com vinho, poesia ou com a virtude, a teu gosto. Mas embriaga-te.
E se alguma vez, nos degraus dum palácio, sobre as verdes ervas duma vala, na solidão morna do teu quarto, tu acordares com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que se passou, a tudo o que gemeu, a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunta-lhes que horas são: "São horas de te embriagares! Para não seres como os escravos martirizados do Tempo, embriaga-te, embriaga-te sem cessar! Com vinho, com poesia, ou com a virtude, a teu gosto."
......... .......... ...........
"O Spleen de Paris", Charles Baudelaire, Ed. Relógio d'Água, 1991

"O cão e o frasco"

"- Meu lindo cãozinho, meu bom cãozinho, meu querido totó, aproxima-te e vem respeirar um excelente perfume comprado no melhor perfumista da cidade."
E o cão, agitando a cauda, o que é, creio eu, nestes pobres seres, o sinal correspondente ao riso e ao sorriso, aproxima-se e pousa curiosamente o focinho húmido sobre o frasco desarrolhado; depois, recuando com repentino receio, ladra voltado para mim, à maneira de censura.
"- Ah! cachorro execrável, se eu te houvesse presenteado com um pacote de excrementos, tê-lo-ias farejado com delícia e talvez devorado. Assim, também tu, indigno companheiro da minha triste vida, és semelhante ao público, ao qual nunca se podem apresentar perfumes requintados que o exasperam, mas sim porcarias cuidadosamente escolhidas."
......... .......... ..........
"O Spleen de Paris", Charles Baudelaire, Ed. Relógio d'Água, 1991

"O Estrangeiro"

- De quem gostas mais, diz lá, homem enigmático? de teu pai, de tua mãe, de tua irmã, ou de teu irmão?
- Não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
- Dos teus amigos?
- Eis uma expressão cujo sentido até hoje ignorei.
- Da tua pátria?
- Não sei a latitude a que está situada.
- Da beleza?
- Amá-la-ia de boa vontade, divina e imortal.
- Do oiro?
- Odeio-o tanto como vós a Deus.
- Então que amas tu, singular estrangeiro?
- Amo as nuvens... as nuvens que passam.. lá longe... as maravilhosas nuvens!
.......... ......... ..........
"O Spleen de Paris", Charles Baudelaire, Ed. Relógio d'Água, 1991

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

"o resto é letra morta"

como todos os anos - felizmente!... - em alturas de Natal e Ano Novo recebo(emos) montes de e-mails com desejos do melhor que há, bonecada e flores que davam para abrir uma loja chinesa, e das grandes.
há vezes em que aparecem alguns de bom gosto. melhor ainda se são produção própria e não Fw's. deste "ano novo" destaco este mail-poema, vindo de ilhas e coração quentes:
....................................................................
No epicentro do sonho me concentro
com o sentimento sustentado
de quem parte por querer partir
mesmo não chegando a nenhum lado.


Não há aventura
sem loucura e sem ternura

- é a viagem que importa
o resto é letra morta.


Praia, Cabo Verde, Dezembro 2007

Nuno Rebocho
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idem para ti, Nuno. idem para todos os que tremem ao ler poesia, que "o resto é letra morta".

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Para Além da Mágoa: Novos Diálogos Pós-Coloniais

divulgo. embora o meu desejo seja estar presente, o mais certo é não poder fazê-lo. além de divulgar recomendo, pois sei da qualidade da organização (obrigado pelo convite, amiga, mas... entretanto telefono-te)

Colóquio


Para Além da Mágoa: Novos Diálogos Pós-Coloniais


Organizadoras:
Margarida Paredes (Centro de Estudos Africanos, Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa),
Sheila Khan (University of Manchester / Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra)
e
Casa Fernando Pessoa (dir. Francisco José Viegas)


Texto Explicativo do Encontro:

Uma nova geração de escritores tem emergido na narrativa contemporânea com um discurso que procura descolonizar as mágoas, as angústias, e dores que a geração anterior trouxe de África e de Timor. Será necessário, na nossa opinião, pensar e reflectir nestas novas trajectórias de vida e identidades, com um olhar completo. Este acto de olhar, é o projecto de escritores que procuram fazer uma leitura diferente da caminhada histórica, cultural e subjectiva do nosso passado colonial, de um modo criativo, lúcido, e equilibrado. É a língua das águas subterrâneas que enriquecem este mal-estar pós-colonial, por vezes, pejado de sentimentos de perda e de exílio. Acolher e escutar estes novos olhares, estas novas visões em interacção com África e Timor, permite-nos dirigir e mesurar o diálogo que propomos, neste encontro, para além da mágoa.

Objectivos do Encontro:

O que é a literatura pós-colonial de língua portuguesa?
Como é pensada e sentida a história colonial portuguesa, pelos novos escritores?
Uma literatura de luto, ou uma produção de novos sentidos e novos diálogos numa era pós-descolonização?
Será possível falar-se sem receios de uma literatura e de pós-colonialismo luso-afro-brasileiro?



Público Alvo:
Investigadores
Estudantes
Críticos Literários
Jornalistas
Centros de Estudos Africanos
Centros de Estudos Literários
Centros de Investigação
Público em Geral

Lista de Convidados:

Ana Paula Tavares (participação especial da poetisa)
Francisco Camacho
Eduardo Agualusa
Joaquim Arena
Paulo Bandeira Faria
Margarida Paredes
Miguel Gullander
Luís Cardoso


Programa: (22 de Janeiro, 2008)

Manhã:
9:30 – 10:00 – Apresentação do Encontro por Francisco José Viegas e Sheila Khan
10:00 – 12:45 – Das Narrativas do Não-Sofrimento, dos Novos Sentidos sobre a Literatura Pós-Colonial de Língua Portuguesa
Mesa orientada por: Livia Apa (professora universitária, Universidade de Nápoles “L’Orientale” e na Universidade de Roma “La Sapienza”)
10:00 -10:30 – Francisco Camacho
10:30 – 11:00 – Paulo Bandeira Faria
11: 00- 11: 15 – Coffee Break
11: 15 – 11:45 – Joaquim Arena
11:45 – 12:15 – Luís Cardoso
12:15 – 12:45 – Discussão de Ideias e Propostas

Almoço: 12:45 – 14:00

Tarde:
14:00 – 17:15 – Dos diálogos, e de uma Literatura Luso-Afro-Brasileira Pós-Colonial
Mesa orientada por: Inocência Mata (professora universitária, estudiosa de literaturas africanas)
14:00-14:30 – Eduardo Agualusa
14:30 – 15:00 – Margarida Paredes
15:00 – 15:15 – Coffee Break
15:15 – 15:45 – Miguel Gullander
15:45 – 16:15 – Ana Paula Tavares (participação especial da poetisa)
16:30-17:15 – Reflexão Final por Francisco José Viegas (keynote-speaker)

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

uma folha em branco

ando com ganas duma cambalhota literária. estendê-la à minha frente e olhá-la, nua, imaginando-a ansiosa pelos caracteres que a minha caneta pinga por lhe dar. de passar os dedos devagar no seu rebordo, ângulos que enfeitiçam e impelem a ousadias maiores, à carícia na alvura do seu âmago e que rasgo em palavras de ímpeto, os dedos palpitam as letras que vão amá-la, as frases que a ruborizarão, o parêntese que, virada a folha, nos unirá no seu complemento, a continuação.
depois vem o parágrafo. maldito. o olhar dela semi nua, folha falha de tantas letras que ficaram por desenhar. maldito sejas, coitus interruptus, meia folha meia foda, meia vida por escrever e eu impotente para tanto de ti, folha e vida, contar, cambalhotar. maldito.

domingo, 30 de dezembro de 2007

prosa sem poema

fim de ano, gelhas que não se renovam e os novos azulejos dessa monstruosidade dum ano inteirinho que está a chegar, esses, às lascas besuntadas em betume caseiro, esses, os novos, o Novo Ano, lá se irá construíndo tal como a sombra das árvores é certa (mas fugidia)... até que a cortem.
gostavade ser poeta mas não sou e, assim, à bruta, é-me vedado dourar a prosa com as artimanhas alquimísticas que só os iniciados sabem, rimar desgostos com dias e outras tantas noites, e amanhecerem com, no caderno irreal das madrugadas pautadas, o Poema dito e feito. eu não sei. não conheço outra forma de contá-las senão por extenso, e em extenso ex-maiúsculo. eu não sei, até reconheço que nunca soube e, anos a fio, enganei e enganei-me maiusculando que sabia. afinal, minúsculo, e que bem sabe este descanso, esta pantufa de silêncio, leve agitar de asas para não incomodar esse grande senhor, o Verbo, ele e sua corte vociferante, tanta escrita de altifalantes que (se) apregoam como se em feiras se escrevessem saldos por extenso rebuscado, leva dois e paga um, melhor poema não há, senhor!
(tás parvo)
(mas continua)
tanto que aprendi lendo, lendo calado!... lendo-me? sim, também isso. principalmente isso. este raspar agradável de adiposidades, este rever de pele e osso, meus, não botox intelectual ou plásticas culturais. como diria o outro, um bartebly - e como eles são felizes! como ela diria (e disse) a felicidade está nas pequenas coisas, no lavar do carro, na conversa de rame-rame com o vizinho, no sorriso que nasce quando se pousa um bom livro. lendo-me.
fim de ano e amanhã já não poderei escrever fumando, amanhã escondo-me mais os meus vícios, reajusto a fuga às novas condições, legisladas, hipocritamente assumidas. hoje ainda é ano velho e hipocrisias velhas, as gelhas, as palavras velhas, a incapacidade de poetizar. foi bom o Ano. encontrei-me. nem que não seja por mais, por tê-lo começado em maiúsculas e o terminar assim, naturalmente nu em cima da balança, o peso real à vista.
a sombra fica - até que a cortem, que não há árvores eternas.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

desabafo natalício

... e ando eu preocupado com tostões, quando no BCP se esbanjam milhões...

um bom Natal a todos, pré-arguidos incluídos.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

à volta da literatura do Não - "Bartleby & Companhia"

"(...) Há vinte anos, quando era muito jovem, publiquei um romancezinho sobre a impossibilidade do amor. Desde então, por causa de um trauma que já explicarei, não tinha voltado a escrever, pois renunciei radicalmente a fazê-lo, tornei-me um bartleby, e daí o meu interesse, desde há algum tempo, por eles.
Todos conhecemos os bartlebys, esses seres nos quais habita uma profunda negação do mundo. Tomam o seu nome do escrevente Bartleby, esse empregado de escritório de um conto de Herman Melville que nunca foi visto a ler, nem sequer um jornal; que, durante períodos prolongados, fica de pé a olhar para a rua, através da pálida janela que existe atrás de um biombo, na direcção de um muro de tijolo de Wall Street; que nunca bebe cerveja, nem chá, nem café como toda a gente; que nunca foi a parte nenhuma, pois vive no escritório, inclusivamente aos domingos; que nunca disse quem é, nem donde vem, , nem se tem parentes neste mundo; que, quando lhe perguntam onde nasceu ou lhe pedem que conte alguma coisa sobre ele, responde sempre com:
- Preferia não o fazer.
Há algum tempo que persigo o amplo espectro do síndroma de Bartleby na literatura, há algum tempo que estudo a doença, o mal endémico das letras contemporâneas, a pulsão negativa ou a atracção pelo nada que faz que certos criadores, embora tendo uma consciência literária muito exigente (ou talvez precisamente por isso) nunca cheguem a escrever; ou escrevam um ou dois livros e depois renunciem à escrita; ou, depois de avançarem com uma obra fiquem, um dia, literalmente paralisados para sempre.
A ideia de rastrear a literatura do Não, a de Bartleby e companhia, nasceu na passada terça-feira no escritório quando me pareceu que a secretária do chefe dizia a alguém pelo telefone:
- O senhor Bartleby está em reunião.
Ri-me sozinho. É difícil imaginar Bartleby reunido com alguém, mergulhado, por exemplo, na pesada atmosfera de um conselho de administração. Mas não é tão difícil - é o que me proponho fazer neste diário de notas de rodapé - reunir um bom punhado de bartlebys, quer dizer, um bom punhado de escritores tocados pelo Mal, pela pulsão negativa.
Claro que ouvi «Bartleby» onde devia ter ouvido o apelido, muito parecido, do meu chefe. Mas a verdade é que este equívoco acabou por ser muito oportuno, pois colocou-me de repente em marcha; depois de vinte e cinco anos de silêncio, decidi por fim voltar a escrever, a escrever sobre os diferentes segredos últimos de alguns dos mais apelativos casos de criadores que renunciaram à escrita.
Disponho-me, pois, a passear pelo labirinto do Não, pelas sendas da mais perturbadora e atraente tendência na qual se encontra o único caminho que resta à autêntica criação literária; uma tendência que pergunta o que é a escrita e onde está, andando à volta da impossibilidade da mesma e dizendo a verdade sobre o estado de prognóstico grave - mas sumamente estimulante - da literatura deste fim de milénio.
Só da pulsão negativa, só do labirinto do Não pode surgir a escrita por vir. Mas como será essa literatura?, perguntou há pouco, com certa malícia. um colega de escritório.
- Não sei - respondi. Se soubesse eu próprio a faria.
Vamos a ver se sou capaz de a fazer. Estou convencido que só do rastreio do labirinto do Não podem surgir os caminhos que restam para a escrita que vem. Vamos a ver se sou capaz de os sugerir. (...)"


do início de "Bartleby & Companhia", Enrique Vila-Matas, editora Assírio & Alvim, 2001, em tradução de José Agostinho Baptista.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

no JL desta quinzena a não perder a "carta a Mário Cesariny" por quem o conheceu (bem) como poucos: o prof. Perfecto E. Quadrado. ora lê-de:
" (...) Deixaste o cais, Mário, e começaram as rebaixas sobre as rebaixas. Sobre nós todos, a sombra de Elsinor, mas às avessas: não era desta vez Elsinor o castelo, mas sim o seu espaço, o país, o mundo à sua volta, e entre os seus muros era a festa contigo e teus amigos e a troupe de iniciados no prazer e nas dores da aventura da reabilitação do real quotidiano. (...) O tempo piorou, Mário. Alguém atirou um tiro ao ar, e todos começámos a correr sem saber para onde, sem saber porquê nem para quê, sem tempo de reparar no rosto e no sentir dos outros corredores, é de rir às gargalhadas, Mário, esta corrida de loucos guiada por cegos como Shakespeare descrever o prodígio, de cegos conduzidos por loucos, de cadáveres adiados auto-móveis que procriam sem deixar de correr para parte nenhuma (...) e todos a correr, que barulho, Mário, que febre, que cansaço, que aborrecimento. (...)"

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

o fim das Eras

no estertor doutra Liberdade (e já quantas? quantas, que se segue?), agendada para 1 de Janeiro próximo - é assim que se diz, não é? - Serge Gainsbourg prendre la parole:

Dieu est un fumeur de havane
Je vois ses nuages gris
Je sais qu'il fume même la nuit
Comme moi ma chérie

Tu n'es qu'en fummeur de gitanes
Je vois tes volutes bleues
Me faire parfois venir les larmes aux yeux
Tu es mon maître après Dieu

Dieu est un fumeur de havane
C'est lui-même qui m'a dit
Que la fumée envoie au paradis
Je le sais ma chérie

Tu n'est qu'un fumeur de gitanes
Sans elles tu es malheureux
Au clair de la lune ouvre les yeux
Pour l'amour de Dieu

Dieu est un fumeur de havane
Tout près de toi loin de lui
J'aimerai te garder toute ma vie
Comprends-moi ma chérie

Tu n'es qu'un fumeur de gitanes
Et la dernière je veux
La voir briller au fond de mes yeux
Aime-moi nom de Dieu

Serge Gainsbourg
"Mon propre rôle II", collection 'Folie', Éditions Denoël, 1987

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

ao José Luis Peixoto

os arbustos estavam secos e o jardim - que quisera lindo, florido! tinha a sobrevivência mínima onde nem uma flor se via, sem herói ou heroína que se opusesse ao caterpilar que não tardaria a fazer a poda dos ramos secos, dos arbustos secos, da merda de mim, seca.
então, alguém que percebe dessa coisa da poda e acredita que há flores garridas onde o então seu "paciente" só vê cinzentos, falou-me nele, no teu poema, até trocando-lhe o nome mas essa foi a pista para encontrá-lo: ele, o João Paulo, o meu mais recente psiquiatra-amigo, falou-me num poema teu de presumido título "morreste-me". e eu vi luz na erva seca onde me esponjava e disse-lhe que não, que o "morreste-me" era realmente um texto teu, José Luis, o teu primeiro editado e em homenagem à morte de teu pai que só podia ser como fora, edição única, 'de Autor', o "mercado" não o tinha ou tivera em pilhas alinhadas, cemitérios de letras, arbustos e outras sombras que tais. e eu tinha um comigo, oferecido por ti.
mas o "morreste-me" era em prosa e não em poesia. sim, eu lembrava-me. tinhas-mo oferecido já lá vão tantos anos (fui ver: em 2000), as tuas lágrimas eram em prosa, prosa poética e não lágrimas de poesia. e eu tinha mais ''teu", sou teu leitor quando posso: uma orgulhosa 1ª edição do teu 'Nenhum Olhar', uma outra 7ª edição também desse nenhum olhar, rabiscado quando já se assina, e que encontrei perdido entre tantos livros de tantas cores que que não me apetecia trazer nenhum senão o que conhecia e gostara: trouxe então o teu, assinado, 7ª edição, meu duplicado. morta a dedicatória personalizada que - já lá vão sete anos! ainda não havia má tinta no meu tinteiro e o meu jardim era modesto, não o desleixara e mostrava, meio envergonhado meio orgulhoso, 'umas coisas que tinha escrito' aos amigos. tempos de lindo jardim, meu, ainda não invejava as alamedas. de ti, ainda tenho uns contos que vão aparecendo em edições avulsas ('hoje não'; ''minto até ao dizer que minto', etc) e, mais, um livro de poesia pois, tendo com ele chocado numa estante qualquer cheia de folhas secas (já reparaste em como as folhas secam nas estantes?) achei por bem trazê-lo e ler-te, ler a tua poesia pois esse é o jardim que não fenece à presunção e à frase mal parida. ou é ou não é. trouxe o "A criança em ruínas", da 'edições Quasi' e o poema que o dr. João Paulo queria que eu lê-se estava lá, até é contracapa em letras brancas em fundo negro, ramos arbustos folhas, tudo seco, começaram lentamente a desaparecer conforme lia e relia, e hoje até um canto de sol no meu jardim disse-me que, para ela, uma vela acesa é o lugar que não fica vazio numa mesa, a tua mesa, a dela, a que se me desistiu de forçar quando percebi que por muito que seja árido o jardim além da minha janela, tudo seco e tudo sem jeito, há mais lugares à mesa, tua, minha, dela.
bem, vamos ao poema, ao teu melhor poema, José Luis Peixoto que provavelmente nunca lerás isto, mas nem o precisas para saberes que - soubeste-o quando ele te nasceu! sim! "enquanto um de nós for vivo, seremos sempre todos". e sabes que mais? apetece-me chorar* quando assim leio:

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois a minha irmã mais velha
casou-se. depois a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho, mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós for vivo, seremos
sempre cinco.


José Luis Peixoto
*faço-o muitas vezes, já agora. obrigado, José Luis.

sábado, 1 de dezembro de 2007

a dueto

há momentos em que se choca com o passado, os muitos passados que eles são sempre tantos que quando menos esperamos chocam-nos o presente, esteja ele no remanso da areia fina ou em águas de bandeira vermelha... e esses momentos acordam-nos, comovem-nos, mexem connosco. em razões que a outros serão estranhas, coisas 'sem jeito', tonteiras, mas qu'à alma repentinamente acordada trazem o sal duma lágrima, a tal que é a escondida, o parente pobre e com 'ligeiro atraso' que não vem à sala quando há visitas.
e foi há momentos, e por puro acaso de saltitar de blogue em blogue, que ouvi (e vi o video, que não conhecia) uma das minhas canções 'fétiche' dos anos 60's, Look what they done to my song, Ma?, a voz de Melanie, Melanie que só hoje fiquei a saber que de nome completo é Melanie Shafka (já agora o meu, quase-quase completo é Carlos Gil Barreiros). o meu Obrigado por este Momento ao "Macua".
recomendo - claro! - que sigam o link e... ouçam. mas trago para aqui as letras, soletro em livre adaptação "look what I've done to my self, Ma?", que exerço no pleno direito desta ser uma das minhas canções preferidas quando a madrugada nascia e a voz serenava os ruídos do silêncio, prazer meu.
é também óbvio que este blogue termina aqui, esgotada a sua narcísica origem e diluída a sua sombra.
.............
What have they done to my song, Ma?

Look what they done to my song, Ma
Look what they done to my song
Well it's the only thing that I could do half right
And it's turning out all wrong, Ma
Look what they done to my song

Look what they done to my brain, Ma
Look what they done to my brain
Well they picked it like a chicken bone
And I think I'm half insane, Ma
Look what they done to my song

I wish I could find a good book, to live in
Wish I could find a good book
Well if I could find a real good book
I'd never have to come out and look at
What they done to my song

La da da da da da da da
La da da da da da da da

La da da la da da, la da da da da da
Look what they done to my song

But maybe it'll all be alright, Ma
Maybe it'll all be okay
Well if the people are buying tears
I'll be rich someday, Ma
Look what they done to my song

Ils ont change ma chanson, Ma
Ils ont change ma chanson
C'est la seule chose que je peux faire
Et ce n'est pas bon, Ma
Ils ont change ma chanson

Look what they done to my song, ma
Look what they done to my song. Ma
Well they tied it up in a plastic bag
And turned it upside down
Look what they done do my song

Ils ont change ma chanson, Ma
Ils ont change ma chanson
C'est la seule chose que je peux faire
Et ce n'est pas bon, Ma
Ils ont change ma chanson

Look what they done to my song, ma
Look what they done to my song
It's the only thing I could do alright
and they turned it upside down oh Ma
Look what they done to my song.

Words and Music by Melanie Safka

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

segredos do fogo

esta noite iniciei a leitura dum livro que, não por acaso, o título fez fazê-lo meu: "Tocados pelo fogo - a doença maníaco-depressiva e o temperamento artístico", Kay Redfield Jamison, editora Pedra da Lua. não por acaso pois sou assumido maníaco-depressivo e, gostava de ser verdade..., acredito que tenho temperamento artístico.
antes do prefácio vem um poema de Stephen Spender. este:
...................

Penso sempre nos que foram verdadeiramente grandes.
Nos que, mesmo antes de nascer, recordavam a história da alma
Por corredores de luz, onde as horas são sóis
Eternos e musicais, Aqueles cuja deslumbrante ambição
Era que os seus lábios, ainda tocados pelo fogo
Falassem do Espírito, vestido de canção de cima abaixo.
E que entesouraram dos ramos primaveris
Os desejos que caíam sobre o seu corpo como flores em botão.

O principal é nunca olvidar
O deleite essencial do sangue brotado de fontes eternas
Atravessando as rochas em mundos anteriores ao nosso.
Nunca negar o seu prazer à simples luz da manhã
Nem a sua grave demanda de amor ao entardecer.
Nunca permitir que o tráfego gradualmente sufoque,
Com névoa e ruído, a floração do espírito.

Perto da neve, perto do sol, nos cumes mais altos,
Vê como festejam estes nomes a erva ondulante
E os farrapos de nuvens brancas
E os sussurros do vento no céu à escuta.
Os nomes dos que em vida lutarm pela vida,
Dos que tiveram dentro do coração o núcleo de fogo.
Nascidos do sol, caminharam para ele algum tempo
E deixaram a sua marca impressa no vento.

...............
lê-lo-ei em segredo, segredo sonho, queimadura de sonho meu.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

"Rumor de Asas"

Este blogue merece a visita de quem gosta de poesia, a boa. Aquela que quase dez milhões de esforçados poetas não conseguem parila, embora a forniquem sem desânimo... (de mim também falo, poeta-viagra que sou)

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

a esta hora disputa-se, em Paris, o "grande prémio" mais importante do futuro da Fórmula 1.
sem 'pole position' na vergonha de grelha exibida. a visível e a suspeita.
:-(