domingo, 30 de dezembro de 2007
prosa sem poema
sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
desabafo natalício
um bom Natal a todos, pré-arguidos incluídos.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2007
à volta da literatura do Não - "Bartleby & Companhia"
A ideia de rastrear a literatura do Não, a de Bartleby e companhia, nasceu na passada terça-feira no escritório quando me pareceu que a secretária do chefe dizia a alguém pelo telefone:
- O senhor Bartleby está em reunião.
Ri-me sozinho. É difícil imaginar Bartleby reunido com alguém, mergulhado, por exemplo, na pesada atmosfera de um conselho de administração. Mas não é tão difícil - é o que me proponho fazer neste diário de notas de rodapé - reunir um bom punhado de bartlebys, quer dizer, um bom punhado de escritores tocados pelo Mal, pela pulsão negativa.
Claro que ouvi «Bartleby» onde devia ter ouvido o apelido, muito parecido, do meu chefe. Mas a verdade é que este equívoco acabou por ser muito oportuno, pois colocou-me de repente em marcha; depois de vinte e cinco anos de silêncio, decidi por fim voltar a escrever, a escrever sobre os diferentes segredos últimos de alguns dos mais apelativos casos de criadores que renunciaram à escrita.
Disponho-me, pois, a passear pelo labirinto do Não, pelas sendas da mais perturbadora e atraente tendência na qual se encontra o único caminho que resta à autêntica criação literária; uma tendência que pergunta o que é a escrita e onde está, andando à volta da impossibilidade da mesma e dizendo a verdade sobre o estado de prognóstico grave - mas sumamente estimulante - da literatura deste fim de milénio.
Só da pulsão negativa, só do labirinto do Não pode surgir a escrita por vir. Mas como será essa literatura?, perguntou há pouco, com certa malícia. um colega de escritório.
- Não sei - respondi. Se soubesse eu próprio a faria.
Vamos a ver se sou capaz de a fazer. Estou convencido que só do rastreio do labirinto do Não podem surgir os caminhos que restam para a escrita que vem. Vamos a ver se sou capaz de os sugerir. (...)"
do início de "Bartleby & Companhia", Enrique Vila-Matas, editora Assírio & Alvim, 2001, em tradução de José Agostinho Baptista.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
terça-feira, 11 de dezembro de 2007
o fim das Eras
Dieu est un fumeur de havane
Je vois ses nuages gris
Je sais qu'il fume même la nuit
Comme moi ma chérie
Tu n'es qu'en fummeur de gitanes
Je vois tes volutes bleues
Me faire parfois venir les larmes aux yeux
Tu es mon maître après Dieu
Dieu est un fumeur de havane
C'est lui-même qui m'a dit
Que la fumée envoie au paradis
Je le sais ma chérie
Tu n'est qu'un fumeur de gitanes
Sans elles tu es malheureux
Au clair de la lune ouvre les yeux
Pour l'amour de Dieu
Dieu est un fumeur de havane
Tout près de toi loin de lui
J'aimerai te garder toute ma vie
Comprends-moi ma chérie
Tu n'es qu'un fumeur de gitanes
Et la dernière je veux
La voir briller au fond de mes yeux
Aime-moi nom de Dieu
Serge Gainsbourg
"Mon propre rôle II", collection 'Folie', Éditions Denoël, 1987
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
ao José Luis Peixoto
então, alguém que percebe dessa coisa da poda e acredita que há flores garridas onde o então seu "paciente" só vê cinzentos, falou-me nele, no teu poema, até trocando-lhe o nome mas essa foi a pista para encontrá-lo: ele, o João Paulo, o meu mais recente psiquiatra-amigo, falou-me num poema teu de presumido título "morreste-me". e eu vi luz na erva seca onde me esponjava e disse-lhe que não, que o "morreste-me" era realmente um texto teu, José Luis, o teu primeiro editado e em homenagem à morte de teu pai que só podia ser como fora, edição única, 'de Autor', o "mercado" não o tinha ou tivera em pilhas alinhadas, cemitérios de letras, arbustos e outras sombras que tais. e eu tinha um comigo, oferecido por ti.
bem, vamos ao poema, ao teu melhor poema, José Luis Peixoto que provavelmente nunca lerás isto, mas nem o precisas para saberes que - soubeste-o quando ele te nasceu! sim! "enquanto um de nós for vivo, seremos sempre todos". e sabes que mais? apetece-me chorar* quando assim leio:
na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois a minha irmã mais velha
casou-se. depois a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho, mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós for vivo, seremos
sempre cinco.
José Luis Peixoto
sábado, 1 de dezembro de 2007
a dueto
e foi há momentos, e por puro acaso de saltitar de blogue em blogue, que ouvi (e vi o video, que não conhecia) uma das minhas canções 'fétiche' dos anos 60's, Look what they done to my song, Ma?, a voz de Melanie, Melanie que só hoje fiquei a saber que de nome completo é Melanie Shafka (já agora o meu, quase-quase completo é Carlos Gil Barreiros). o meu Obrigado por este Momento ao "Macua".
recomendo - claro! - que sigam o link e... ouçam. mas trago para aqui as letras, soletro em livre adaptação "look what I've done to my self, Ma?", que exerço no pleno direito desta ser uma das minhas canções preferidas quando a madrugada nascia e a voz serenava os ruídos do silêncio, prazer meu.
é também óbvio que este blogue termina aqui, esgotada a sua narcísica origem e diluída a sua sombra.
.............
What have they done to my song, Ma?
Look what they done to my song, Ma
Look what they done to my song
Well it's the only thing that I could do half right
And it's turning out all wrong, Ma
Look what they done to my song
Look what they done to my brain, Ma
Look what they done to my brain
Well they picked it like a chicken bone
And I think I'm half insane, Ma
Look what they done to my song
I wish I could find a good book, to live in
Wish I could find a good book
Well if I could find a real good book
I'd never have to come out and look at
What they done to my song
La da da da da da da da
La da da da da da da da
La da da la da da, la da da da da da
Look what they done to my song
But maybe it'll all be alright, Ma
Maybe it'll all be okay
Well if the people are buying tears
I'll be rich someday, Ma
Look what they done to my song
Ils ont change ma chanson, Ma
Ils ont change ma chanson
C'est la seule chose que je peux faire
Et ce n'est pas bon, Ma
Ils ont change ma chanson
Look what they done to my song, ma
Look what they done to my song. Ma
Well they tied it up in a plastic bag
And turned it upside down
Look what they done do my song
Ils ont change ma chanson, Ma
Ils ont change ma chanson
C'est la seule chose que je peux faire
Et ce n'est pas bon, Ma
Ils ont change ma chanson
Look what they done to my song, ma
Look what they done to my song
It's the only thing I could do alright
and they turned it upside down oh Ma
Look what they done to my song.
Words and Music by Melanie Safka
segunda-feira, 12 de novembro de 2007
segredos do fogo
Penso sempre nos que foram verdadeiramente grandes.
Nos que, mesmo antes de nascer, recordavam a história da alma
Por corredores de luz, onde as horas são sóis
Eternos e musicais, Aqueles cuja deslumbrante ambição
Era que os seus lábios, ainda tocados pelo fogo
Falassem do Espírito, vestido de canção de cima abaixo.
E que entesouraram dos ramos primaveris
Os desejos que caíam sobre o seu corpo como flores em botão.
O principal é nunca olvidar
O deleite essencial do sangue brotado de fontes eternas
Atravessando as rochas em mundos anteriores ao nosso.
Nunca negar o seu prazer à simples luz da manhã
Nem a sua grave demanda de amor ao entardecer.
Nunca permitir que o tráfego gradualmente sufoque,
Com névoa e ruído, a floração do espírito.
Perto da neve, perto do sol, nos cumes mais altos,
Vê como festejam estes nomes a erva ondulante
E os farrapos de nuvens brancas
E os sussurros do vento no céu à escuta.
Os nomes dos que em vida lutarm pela vida,
Dos que tiveram dentro do coração o núcleo de fogo.
Nascidos do sol, caminharam para ele algum tempo
E deixaram a sua marca impressa no vento.
...............
lê-lo-ei em segredo, segredo sonho, queimadura de sonho meu.
sexta-feira, 2 de novembro de 2007
"Rumor de Asas"
domingo, 23 de setembro de 2007
Special One
quinta-feira, 13 de setembro de 2007
terça-feira, 11 de setembro de 2007
correntes de livros
segunda-feira, 10 de setembro de 2007
o negócio da "noite"
a mentalidade
domingo, 9 de setembro de 2007
lidos
pêlos
os livros
e o país?
da pausa
quinta-feira, 23 de agosto de 2007
transgénicos
segunda-feira, 20 de agosto de 2007
comentários
besugo, lolita e alonso
sábado, 11 de agosto de 2007
quando entro num elevador com uma mulher, penso sempre em sexo
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sexta-feira, 10 de agosto de 2007
Magic!
(foto de Fátima Condeço)quinta-feira, 9 de agosto de 2007
à terceira: Mário de Carvalho
terça-feira, 7 de agosto de 2007
interrogo-me
canso-me
domingo, 5 de agosto de 2007
Fórmula 1
sábado, 4 de agosto de 2007
eutanásia
Ontem, quando cheguei, seriam umas onze da noite, como tantas vezes ele veio receber-me, sequioso pelas palavras de carinho que não lhe negava, nunca. Permiti-lhe roçar-se na minha perna mas como sempre não muito pois, abandonado às doenças (e por elas), o pêlo ralo mostrava a pele em úlceras, quistos, um tumor do tamanho duma bola de ténis numa perna. Essa perna que, hoje, há uma hora e picos atrás, eu pisei com a roda do carro – a mesma que, ontem à noite, eu o vi a cheirar quando fechei a porta para as escadas do prédio? – e parti-lha. O uivo foi terrível, terrível. Foi um choque ouvi-lo, mesmo habituado que estava, estávamos, a ouvi-lo gemer toda a noite à porta da casa ‘da dona’, a que «gosta muito de animais» mas que mal a doença de pele lhe apareceu há uns dois ou três anos atrás pô-lo a viver na rua, provavelmente por cautelar receio dela se transmitir aos restantes animais que mantém, encarcerados, num anexo, onde uivam ao calor horas a fio. O olhar dele, a dor dele. O seu gemer, esse ganir de dor. No banco de trás do carro, olhei-o várias vezes enquanto seguíamos para o veterinário. O gemer lento, sofrido, olhava-me e nem sei se me ouvia, ouvia o meu chorar que não conseguia dissimular nas palavras que lhe dava. O olhar dele, as pupilas quase a desaparecerem e o branco assustador, o ganir lento assustador. Não gemia muito, havia silêncio na dor que se lhe via, havia… resignação, talvez. Chorava noites inteiras, lamentava-se à porta da ‘sua casa’ pelas dores e pelo abandono, acredito.
O veterinário disse-me que além da fractura e de tudo o mais à vista haveria provavelmente lesões internas. Houve eutanásia mas não consegui assistir, fiz-lhe uma última festa, um último carinho sem medo de contágios ou do pestilento cheiro de abandonado, e vim cá para fora. Chorei. Sei que hei-de chorar mais quando, estacionando, lembrar-me que nunca mais o verei aproximando-se do carro abanando a cauda, os olhos em mim e o latido de carinho, sempre o roçar tímido e os olhos pedindo uma festa, carinho mútuo que não nos negávamos.