segunda-feira, 12 de novembro de 2007

segredos do fogo

esta noite iniciei a leitura dum livro que, não por acaso, o título fez fazê-lo meu: "Tocados pelo fogo - a doença maníaco-depressiva e o temperamento artístico", Kay Redfield Jamison, editora Pedra da Lua. não por acaso pois sou assumido maníaco-depressivo e, gostava de ser verdade..., acredito que tenho temperamento artístico.
antes do prefácio vem um poema de Stephen Spender. este:
...................

Penso sempre nos que foram verdadeiramente grandes.
Nos que, mesmo antes de nascer, recordavam a história da alma
Por corredores de luz, onde as horas são sóis
Eternos e musicais, Aqueles cuja deslumbrante ambição
Era que os seus lábios, ainda tocados pelo fogo
Falassem do Espírito, vestido de canção de cima abaixo.
E que entesouraram dos ramos primaveris
Os desejos que caíam sobre o seu corpo como flores em botão.

O principal é nunca olvidar
O deleite essencial do sangue brotado de fontes eternas
Atravessando as rochas em mundos anteriores ao nosso.
Nunca negar o seu prazer à simples luz da manhã
Nem a sua grave demanda de amor ao entardecer.
Nunca permitir que o tráfego gradualmente sufoque,
Com névoa e ruído, a floração do espírito.

Perto da neve, perto do sol, nos cumes mais altos,
Vê como festejam estes nomes a erva ondulante
E os farrapos de nuvens brancas
E os sussurros do vento no céu à escuta.
Os nomes dos que em vida lutarm pela vida,
Dos que tiveram dentro do coração o núcleo de fogo.
Nascidos do sol, caminharam para ele algum tempo
E deixaram a sua marca impressa no vento.

...............
lê-lo-ei em segredo, segredo sonho, queimadura de sonho meu.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

"Rumor de Asas"

Este blogue merece a visita de quem gosta de poesia, a boa. Aquela que quase dez milhões de esforçados poetas não conseguem parila, embora a forniquem sem desânimo... (de mim também falo, poeta-viagra que sou)

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

a esta hora disputa-se, em Paris, o "grande prémio" mais importante do futuro da Fórmula 1.
sem 'pole position' na vergonha de grelha exibida. a visível e a suspeita.
:-(

terça-feira, 11 de setembro de 2007

correntes de livros

dois blogo-amigos desafiam-me a arrolar os dez livros que mais me agradaram, e o seu inverso: os que mais valia nunca lhes ter posto os olhos em cima. agradar, no sentido de terem sido 'importantes', formativos. desagradar, no potencial de defraudarem sonhos - o que é muito chato - ou distorcerem conceitos de valores, e isso é imperdoável.
não me vou ater ao número (dez), até porque vou relacionar em pura memória, sem ir 'conferir' e perder-me entre lombadas. quando li os convites pensei realmente em fazer uma pesquisa, mas desisti da ideia: não vale a pena, os amores e os ódios se chegam a tão poderoso patamar estão cá gravados. excluo a tralha 'profissional', as teorias de justiça que consumi como quem limpa o cu a meninos, e quanto mais li menos percebi (não, John Rawls não tem nada a haver com isso, o seu 'teoria da justiça' até é um óptimo livro mas muito longe de o incluir nestas listas)
nos 'menos' fujo do romance, da ficção. nos 'mais' ela é inevitável, e muita na "juvenil". por exemplo, li 'Robinson Crusoé' (Defoe) e 'O conde Monte Cristo' (Alex. Dumas) há uns quarenta anos atrás e nunca os esqueci: ensinaram-me a sonhar, viajar nas longas páginas do romance. tenho ternura por eles. há uns trinta, na praia de Milfontes, devorei 'A verdade em segunda mão', Joyce Cary, cheguei ao fim e comecei-o de novo, não há muito tempo andou-me de novo nas mãos: não esqueço Gulley Jimpson e a sua filosofia e praxis libertárias, enquanto 'artista'. noutros registos foram-me importantes (no seu tempo próprio, como contraponto e contra-cultura à então dominante) os textos da 'Internacional Situacionista', diversos, na revista homónima que editaram e que me chegava em douradas mijinhas às mãos revolucionárias-moçambicanas que, então - entrada de leão nos 'menos' - engelhavam o cérebro com os discursos de Enver Hoxha, Kim Il-Sung, Samora Moisés Machel, Vladimir Lenine e o resto da troupe (nestes, elejo como ódio de estimação "A sagrada família", Engels, cujas primeiras vinte páginas li e reli vezes sem conta sem ter conseguido perceber patavina. é o meu avatar de fustração intelectual). da mesma altura, e regressando acima da linha d'água, Wilhem Reich é incontornável. li-o todo e selecciono como bandeira aquele que a é, 'a revolução sexual'. abriu-me horizontes, fez-me seguir e encontrar David Cooper, Marcuse, a "minha biblioteca" começou a ganhar prateleiras de qualidade. a História: uma paixão. a luz que encontrei para melhor a saber ler chama-se 'a nova história' e é de Jacques LeGoff. atrás veio o resto, pelas estruturas aprendi a estruturar o pensamento histórico (gosto de acreditá-lo).
um livro simples, diabolicamente simples, a primeira ficção de qualidade que li quando cheguei a Portugal e me deu "uma porrada na cabeça": 'o que diz Molero', Dinis Machado. a ficção em escrita épica, caoticamente perfeita: o relato da cena de porrada no Bairro Alto entre os índios locais e os marinheiros americanos deveria constar de manuais escolares da disciplina de bem escrever Poruguês, se não está lá (desconfio que não). é livro que já comprei várias vezes pois, perdendo-o em 'emprestanços' - prática que não gosto mas que não nego se o livro é dos bons - rapidamente reponho o stock... faz-me falta, a sua presença é-me reconfortante e tenho alguma angústia, quiçá vergonha íntima até, se entre tanta livralhada sem jeito... ele não está. idem para 'a louca da casa', da espanholita Rosa Montero. lembrei-me dele porque quero incluí-lo no tal 'top ten' e porque, de momento e já há um bom ano, está fora de casa e não há semana em que não me lembre disso. ou regressa (é sempre chato ter de pedir o que já deveria ter sido devolvido) ou compro outro. quem o leu e leu as minhas peneiras e falidas ilusões sabe do que falo. posso ter falhado como 'escritor' mas houve uma altura em que acreditei sê-lo, ou com potencial para sê-lo, no meio de tanta parvoíce havia uma febre de que parecia que só eu lhe sentia a temperatura e, então, Rosa Montero confortou-me, desilusou-me e, mais ainda, ajudou alguém muito próximo de mim a entender-me, inapto e besta em explicar e justificar o que sentia, a febre, é difícil conviver com um doente... 'Crime e Castigo', Dostoievsky. brutal. psicologicamente brutal. tenho um canto especial para ele, até por razões pessoais: li-o aquando tratamento psiquiátrico e como parte dele, e ajudou.
hesito em incluir o 'doutor Pasavento', Enrique Vila-Matas, por poder estar influenciado pelo deleite da sua leitura que é muito recente: acabei-o há dois dias e ainda estou debaixo de choque, sem o distanciamento temporal e mais umas milhas de papel de intervalo para poder situá-lo com justiça. é que, agora, é apenas o melhor romance que li este ano, e já foram muitos e tantos 'bons'. ah! antes que me esqueça: adoro um bom policial. nos diversos géneros, Agatha Christie ('o assassinato de Roger Akroyd', entre todos), Dashiel Hammeth (escolho 'o falcão de Malta'), Patricia Highsmith (a série 'Tom Ripley' serve mas há tantos), etc. mas, a escolher um, fica o 'Rififi', Auguste Lebreton: o perfeito 'romance noir', os estudiosos do género até dizem ser o seu iniciador. já agora, leitura lúdica, na ficção científica não me escapou nenhum do grande Robert H. Heinlein (cinco prémios Hugo, o Nobel do género), e distingo "um estranho numa terra estranha". embora Robert Silverberg seja muito bom e o 'bailado das estrelas' um livro maravilhoso, Heilein tem uma capacidade criativa em sede do fantástico... doutra dimensão.
mas já chega de dizer bem, vamos lá cortar na casaca... quem me conhece sabe que gosto muito da escrita de António Lobo Antunes. além do cronista, maravilhoso mas "crónica" é outro assunto, é do romancista que falo. mas... tentei ler - 2x - 'ontem não te vi em Jerusalém' e não consegui apanhar-lhe o ritmo, as páginas não me agarram. como não o acabei (nem ao meio cheguei...) não deveria falar em desilusão, parece injusto. mas sinto-o como sendo-a pois, dele ALA, as expectativas são sempre grandes, enormes, iguais à minha admiração canina por ele. neste... há qualquer coisa (em mim?) que não está a funcionar. tinha de deixar este registo, metido meio a martelo e de contexto sofrível, mas não podia escapar à deixa para dizê-lo.
quando li os convites para esta corrente calhou o primeiro só aludir aos 'menos' e, ao mesmo tempo, estar a viver uma fase de rejeição profunda em relação ao meu eu, eu enquanto gajo dos cucos, i.e. das escritas. por isso veio-me logo à ideia aproveitar e desabafar, dizer que o livro mais negativo que li, o que mais me prejudicou, foi por mim escrito, por sinal o único: o 'Xicuembo'. cheira a tique de primadona, a arrufo, amuo, cagança e mania, crise intelectualóide de imbecilóide. será, talvez, mas acho que não. aquele livro prejudicou-me como ser humano, fragilizou-me ao destapar tanta imperfeição, ao alimentar tanta ilusão, ao enganar-me tanto. 'Xicuembo' é um relato banal, uma crónica de vida igual à de tantos, elege o narrador a um degrau que ele não subiu nem sabe se o saberá fazer: autor, escritor. não é como 'o que diz Molero' que, poderoso, excessivamente poderoso, estrangulou o Autor para a obra futura, 'castrou-o' como é habitual ler-se. está na estante, está em algumas estantes, mas, na minha, está escondido. longe dos castelos, felizmente, não tenho qualquer orgulho em tê-lo escrito e tomara que nunca mais ninguém me fale nele.
finalmente a poesia, para adoçar o fim do momento musical e antes do regresso à virtualidade: 'vinte poemas de amor e uma canção desesperada', Pablo Neruda. tem de estar na lista, em qualquer boa lista. li-o nas areias da praia da Costa do Sol, percebem? já agora, da mesma praia, 'karingana ua karingana', de José Craveirinha. claro.
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obrigado pela deixa e oportunidade, João Tunes e jpt (em duplicado). passo a bola à Clara, à IO, à Theo, ao Zé Carlos, e não a passo ao Zé Paulo porque alguém já lha passou.
:-)

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

o negócio da "noite"

relato da insegurança da segurança da noite, os bois pelos nomes. a realidade por detrás do sangue que os écãns contam. as razões dele, e as razões do silêncio peçonhento.
pelo meu vizinho e colega blogger, Barão da Tróia, de Almeirim.

a mentalidade

segundo estas declarações, o porta-voz da PJ para o "caso Maddie" acha que a deslocação dos novos arquidos para a sua residência habitual, legal e formalmente autorizada, é uma (nova) dificuldade para as investigações - que se imagina deseje sejam processualmente céleres, tal e qual a investigação tem sido. e a luminária pormenoriza:
a) porque obriga ao cumprimento de prazos legais (boa, esta... é só chatices)
b) como têem advogado constituído, as convocatórias serão feitas através dele (mais chatices e a vida está cheia de impecilhos, não é senhor inspector?)
eu tenho medo de gente desta.

domingo, 9 de setembro de 2007

lidos

as pausas forçadas têm uma óptima vantagem: ajudam a por as leituras mais em dia. li muita coisa boa, felizmente. posso dizer que nestes quinze dias não li um livro mau. óptimo. o realce que deixo é de ter avançado por autores brasileiros "não tradicionais", nomes que me eram desconhecidos e provavelmente a quase todos nós pois, habitualmente, nas livrarias só se encontram os nomes feitos, os tradicionais. valeu a pena, e de que maneira... tanto, que já me reabasteci de mais 'meia dúzia', em tiros no escuro quanto a nomes de autores/títulos: sem medo, a experiência foi muito positiva. lidos: "Capão Pecado", Ferréz; ""O canto da sereia", Nelson Motta; "Curva de Rio Sujo", Joca Reiners Terron.
dos outros, sem surpresas (agrado) o último Le Carré, "O Canto da missão", embora com final um bocadito 'cândido'... deliciei-me - é a expressão! com o "Doutor Pasavento" de Enrique Vila-Matas, livro a que tornarei pois há muito para falar acerca dele, e de como me cruzei com ele/ele. muito mesmo. divertido (e instrutivo...), "contos de colarinho branco", Paulo Morgado: eles andam aí, não passamos a vida a queixar-nos? então 'bora lá aprender "como é que elas se fazem...". li também o "Foi assim", de Zita Seabra. fiquei a saber como foi com ela, ora que já sei de mim. sem surpresas (dela, da praxis do partido ou da ideologia).
o que tenho em mãos: "cartas de Jack London", em laborioso trabalho de tradução de Ana Barradas que serve também uma excelente introdução que vai além de explicatória da sua relação literária com o Autor. estou a folheá-lo sem ordem cronológica, lendo-lhe bocados da vida. há ali pérolas. na pág. 166, a carta "ao editor de Ability":
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Oakland, Califórnia
20 de Fevereiro de 1905
"Caro Senhor:
Sempre que um escritor é sincero acerca de um manuscrito (ou livro) de um autor amigo, perde essa amizade ou vê-a diminuir e desvanecer-se, tornando-se uma sombra do que foi.
Sempre que um escritor é sincero acerca de um manuscrito (ou livro) de um autor que não conhece, ganha um inimigo.
Se o escritor gosta do seu amigo e receia perdê-lo, mente ao amigo.
Mas vale a pena o esforço de mentir a quem não se conhece?
E, já agora, de que serve fazer inimigos?
Além disso, um escritor conhecido é assediado com pedidos de estranhos para ler os seus textos e dar opiniões sobre eles. Ora essa tarefa é de um gabinete literário. Um escritor não é um gabinete literário. Se cometer a tolice de se tornar um gabinete literário, deixará de ser escritor. Não terá tempo para escrever.
Ademais, como gabinete literário caritativo, não receberá nenhum pagamento. Portanto depressa entrará na falência, terá de viver da caridade dos amigos (se ainda não fez deles todos inimigos por usar de sinceridade) e verá a mulher e os filhos seguir melancolicamente o caminho do asilo.
Acho muito bem a simpatia pelos desconhecidos que se esforçam. É bonito... mas há tantos desconhecidos a esforçar-se! Devem ser algo como vários milhões. E a simpatia pode sair muito cara. A simpatia começa em casa. Mais vale ao escritor deixar que essa multidão de desconhecidos se mantenha desconhecida do que permitir que os seus próximos e aqueles que lhe são queridos ocupem enxergas miseráveis e tenham de se entregar a trabalho insano.
Cumprimentos,
Jack London"

pêlos

... e tradições: nada valem: ontem tirei o meu avoengo bigode de trinta e cinco anos, uma cicatriz que estava esquecida revelada. a coisa vai

os livros

tenho dois convites para responder em "corrente" acerca de livros que me foram importantes, e dos seus contrários: aqueles que mais valia nunca os ter aberto. coisa complicada, está-se mesmo a ver. os amores e os ódios são sempre complicados. coisa para responder um pouco mais tarde, embora por impulso era capaz de, já... não, deixa matutar.

e o país?

o telejornal da 1, hoje, foi uma ilha de sanidade. ainda salvará? só só até à próxima Maddie/Casa Pia?
li que o "caso Maddie" é um case study. e o país, este persistente incêndio?

da pausa

doença física e mental. dores e fastio. está explicado

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

transgénicos

Via Água Lisa" do sempre atento João Tunes, chego a uma discussão sem histerismos sobre os alimentos genéticamente modificados, os "transgénicos".
Agora espero é que os verdes verdugos ou 'verdeseufémia' não caiam cá para me destruir a colheita...

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

comentários

um esclarecimento: conhaque é conhaque e blogar é blogar. ademais, irrita-me a escrita em maiúsculas, a mania de que, "berrando", é-se melhor ouvido ou ganha-se o palmo de estatura que (lhes) falta.
visto isto activei a moderação de comentários. é provisório evidentemente: sempre afirmei que não gosto da 'modalidade' quando a encontro e se por enquanto a pratico é com desgosto e por necessidade.

besugo, lolita e alonso

receio que este blogue acabe: há fumos que são sinais. não me recordo de alguma vez lamentar a visita, coisa rara, mesmo contando a ocasional nabice de confundir um Lola T70 com um Porsche Carrera 6, tsss tsss...

sábado, 11 de agosto de 2007

quando entro num elevador com uma mulher, penso sempre em sexo


(estava prometido, 'das ilusões')


quando entro num elevador com uma mulher penso sempre em sexo. tlim, tlim, Pavlov está aos botões e a luxúria sobe prédio acima, quando o par episódico se desfaz as portas fecham-se como se fecha a porta após uma sessão de psicanálise: atarantado, se a tareia foi grande; lesto, se ela foi ainda maior. outra: ao recorrente sexo em avião tenho versão pessoal para ele, o mesmo, mas num TGV. a tocar o apito nas rectas e nas curvas, um urro d'orgasmo que faz as vacas olharem, as campainhas tocarem e as cancelas caírem, piii piii urra que queca-se a quatrocentos à hora. fim de capítulo sexual, mamas rabos e cabinas telefónicas à parte e, agora, iludo-vos iludindo-me noutro prado que, de tema sexo, mesmo em ensaio já percebi que quanto menos se diz mais se sonha, haja Ilusões e t'shirts brancas, alvas, tiradas todas as manhãs da gaveta deste Verão, enormes sobre o corpo das mazelas e outras ternuras diversas, que a bronzeador se esturra e estupidifica no estival salivar corporal, mamas e peitorais, rabos e bíceps, tudo em arremedos de Ilusões em saldos de fim de estação, ano a ano repetidos e onde, julga-se, se vestem os egos para passarem assim-assim, sem destoar das bazófias das férias não tidas ou do romance de praia imaginado.
e há as outras, mas p'ra quê falar nelas? sexo. o sexo é que é e está a dar. não se tem dinheiro e pensa-se nele e em sexo, se o temos pensamos em melhor sexo, pelo menos em mais estrelas no Hotel e em mordomias com morangos no Inverno e champanhe entaçado em umbigos, Murganheira servirá muito bem se os sortudos da Ilusão não forem da casta de maior desbunda, milionários. sexo, sempre. nas rotinas e nas ausências, na barriga cheia e farta, mesmo aí, se se sonham estados de felicidade lá vem o romance, às vezes a espreitar envergonhado e disfarçado de rapidinha com parceiro desconhecido, mistério, o idílico mistério de, olhando o bronze alheio acreditar-se que o nosso seduz, imaginar-se que as paredes e espelho dum elevador contariam do Urro após as portas se abrirem e fecharem, se falassem além do zumbido quando escalam andares e andares, esses onde os corpos de mistério arfaram em recorrente pensamento, que o comboio galgou campos e cidades deixando rasto em sémen de criatividade, orgia dela.
terça-feira vou à consulta, primeira desta ronda que periodicamente se faz as calos e ao fígado, aos sonhos também. sei lá o que pensarei: sei que é uma 'ela' e, fascinante, na psiquiatria não usam farda e estamos em pleno Verão. só desmerece ser no rés-do-chão. depois digo do que pensei, calhando, que botões encontrarei para substituir os do elevador ausente, que mistérios e receitas a taxa moderadora trará. até lá tirem as velhinhas da rua, vigem as estações e apeadeiros e, principalmente, evitem os elevadores: se penso em Ilusões penso em sexo, visto a t'shirt da canícula.
(começou sobre 'Ilusões' mas depois perdi-me, ainda a grade da porta não se fechara e, nos botões, o dedo clicou éne vezes seguidas no andar mais longe, mais alto, mais fundo, e embarquei. fica assim mesmo)

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Magic!

(foto de Fátima Condeço)


É a palavra que me acorre quando penso em ti, "Webita"!
Hoje, 15; antes, catorze anos, onze meses e trezentos e sessenta e quatro dias de felicidade em ter-te, ver-te, crescer-te. Mantém-te igual e verás que os teus passos serão os meus ainda tantos anos de amor, orgulho, confiança, em ti, tua sensibilidade, tua alegria.
Parabéns Carla!

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

à terceira: Mário de Carvalho

Não apreciei por aí além "Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto" e "A inaudita guerra da Avenida Gago Coutinho (e outras histórias)", que me vieram à mão já não sei por que ordem mas há muito tempo, tanto que já não me lembrava deles quando recentemente comprei "Fantasia para dois coronéis e uma piscina" e que me inverteu o interesse pela escrita de Mário de Carvalho: poderosa, um ritmo narrativo forte, viciante para o leitor mas naquela variedade de, a parágrafos tantos, voltar-se atrás para reler a construção da frase, ciumento. O enredo? 'nas tintas p'ra ele': a escrita está a encher-me medidas e a afogar o interesse naquele, secundarizando-o.
Abençoado lapso de memória que me fez reincidir num Autor que, se me lembrasse das duas obras anteriores referidas... não voltaria às minhas mãos. E ainda para mais um quase vizinho: mora em Salvaterra, coisa para uns vinte e tal quilómetros daqui da palhota, sendo que o regionalismo, aqui, assume uma saudável faceta, justa.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

domingo, 5 de agosto de 2007

Fórmula 1

A BMW está a crescer. Não empalideça e numa temporada bem próxima será 'challenger' aos tradicionais. O que é bom, já cansa o mau cheiro que anda lá nos pódios pois, parece com grandes probalidades de ser mesmo assim, roubam-se mutuamente e, quem não o faz, está profundamente interessado em saber como é.
Além do bocejo, está claro.
(calhou falar na bêéme mas porque está mesmo a jeito - mérito próprio)

sábado, 4 de agosto de 2007

eutanásia

Matei o Tico. Há uma hora atrás.
Ontem, quando cheguei, seriam umas onze da noite, como tantas vezes ele veio receber-me, sequioso pelas palavras de carinho que não lhe negava, nunca. Permiti-lhe roçar-se na minha perna mas como sempre não muito pois, abandonado às doenças (e por elas), o pêlo ralo mostrava a pele em úlceras, quistos, um tumor do tamanho duma bola de ténis numa perna. Essa perna que, hoje, há uma hora e picos atrás, eu pisei com a roda do carro – a mesma que, ontem à noite, eu o vi a cheirar quando fechei a porta para as escadas do prédio? – e parti-lha. O uivo foi terrível, terrível. Foi um choque ouvi-lo, mesmo habituado que estava, estávamos, a ouvi-lo gemer toda a noite à porta da casa ‘da dona’, a que «gosta muito de animais» mas que mal a doença de pele lhe apareceu há uns dois ou três anos atrás pô-lo a viver na rua, provavelmente por cautelar receio dela se transmitir aos restantes animais que mantém, encarcerados, num anexo, onde uivam ao calor horas a fio. O olhar dele, a dor dele. O seu gemer, esse ganir de dor. No banco de trás do carro, olhei-o várias vezes enquanto seguíamos para o veterinário. O gemer lento, sofrido, olhava-me e nem sei se me ouvia, ouvia o meu chorar que não conseguia dissimular nas palavras que lhe dava. O olhar dele, as pupilas quase a desaparecerem e o branco assustador, o ganir lento assustador. Não gemia muito, havia silêncio na dor que se lhe via, havia… resignação, talvez. Chorava noites inteiras, lamentava-se à porta da ‘sua casa’ pelas dores e pelo abandono, acredito.
O veterinário disse-me que além da fractura e de tudo o mais à vista haveria provavelmente lesões internas. Houve eutanásia mas não consegui assistir, fiz-lhe uma última festa, um último carinho sem medo de contágios ou do pestilento cheiro de abandonado, e vim cá para fora. Chorei. Sei que hei-de chorar mais quando, estacionando, lembrar-me que nunca mais o verei aproximando-se do carro abanando a cauda, os olhos em mim e o latido de carinho, sempre o roçar tímido e os olhos pedindo uma festa, carinho mútuo que não nos negávamos.
Sinto-me horrível. Não me consola o 'já não sofre mais', não há consolo quando se 'decide' a morte; gostávamos todos do Tico, abandonado por razões cutâneas mas fiel à casa que fora a sua e a cuja porta procurava o alimento que não encontrava nas ruas, carinho. Este sentimento de culpa ficar-me-á perpetuamente, o passeio vazio dele e do seu correr para mim, para 'a festinha', o silêncio que haverá nas noites sem o seu gemer, o seu lamento, irá doer. Lembrá-lo, lembrar-me que fui eu que o matei. Não sei se ele, onde quer que seja o 'céu' dos cães de olhos tristes - que haverá para acreditar-se em repouso aos sofredores -, me perdoará. Sofria muito, mas a morte dói. Muito.

domingo, 29 de julho de 2007

água, muita água

42º em Santarém. em Almeirim estão mais um ou dois, tal como no Inverno estão a menos. o termómetro da cozinha diz que são 34º, reparo a caminho do frigorífico panaceia. água, muita água.
a cadela, a Tufas, estica-se deitada de costas, indolente e desavergonhadamente de perna-aberta, os olhos fechdos que se entreabrem quando passo. enchi a banheira e evadi-me, dourei o calor no fogo lento da imaginação, e refoguei-me de cruzeiro a caminho de férias de panfleto.
de segunda a quarta fujo, fugimos. pelo menos mudamos de calor, não este pasteloso.

breve ensaio sobre a solidão

os estilhaços da paixão magoam mais que os dardos de Cupido. onde é que eu já li isto? que me lembre em lado nenhum, veio-me agora ao pensamento.
quanto mais nos nomadizamos mais interiormente ficamos sedentários. idem, ibidem.

se calhar isto seria um bom começo de ensaio, daqui discorria-se e citava-se, floreava-se, titula-se em mui nobre parangona e põe-se assinatura no fim. ensaio sobre a correlação entre as paixões e as solidões, a sempr'eterna dicotomia humana que, não prescindindo do fogo dos sentimentos resguarda o couro e o cofre das investidas predadoras. predadoras, interrogai-vos? sim, digo: a paixão é predadora, saliva por 'possuir' o bem-amado, é algoz de silêncios e recatos, independências.

o céptico enquanto jovem amou e desejou, perseguiu e cortejou, iniciado nas artes de galanteria fez as rimas mais incríveis para, à guiza de prémio mor, obter atenções e correspondências, sacrifica o seu mundo em nome da mítica 'paixão', droga dura dos sentimentos. em desagravo obtém felicidades que os tempos mostram perenes, risos e estertores que, momentos, só isso duram e na memória fenecem pois ela lembra é dos estilhaços, da implosão íntima de ícones e o longo suspiro pelo estado antes da arte, a saudosa, preciosa, almejada solidão. paixão é dependência e aos cliques de descavilhar de granadas não há heróis ou heroínas, há que buscar nos salvados os restos do Eu, correr cortinas sobre o mundo. a solo.

heis, em crueza e em tosco, retrato de cenário após a fim das ilusões. esta é conhecida, não tem autor além da sapiência das gerações que a repetem desde que os olhos se perdem no horizonte, reclamando eremitismos que o protejam das desilusões: cada Homem é uma ilha. nem atol de lindos corais ou arquipélago de radiosas praias: apenas ilha. a sua. somos sócios do Club Med por falta de fundos e, pudéssemos, comprávamos viagem para ilhas longuínquas, sós. no farnel mais que o prático pois há mais coisas indispensáveis, há silêncios e há momentos, aos mais feridos há o lamber delas, chagas que os estilhaços abrem. falo do amor em versão paixão, mas falaria pelas mesmas palavras de qualquer recanto no mundo além cortinas, do formigar e dos carreiros, em olhos abonados de desilusões. tantos. ardendo em saudade da solidão, vigiando torniquetes onde mais sangrou e, os olhos, sempre esses temerosos da dor.

reclama-se o idílico nas vidas espreitadas em décor. não acreditando nas páginas policromáticas de felicidades imensas, mas invejando-as sempre um pouco, tapa-buracos de solidões. ardendo, no tal fogo lento que arde sem se ver, dizia Camões, poeta que se hoje vivesse se suicidaria. os sorrisos que não temos e, quando em transe e julgando tê-los, foram esgar foram dor: as cicatrizes contam do mapa que os estilhaços desenharam, também das compresas e das cortinas, do placebo de mentir acreditando nas páginas de felicidade alheia, qu'as paixões vêm com rótulo de eternas e, desta vez, na sua composição não haverá anabolizantes que façam mal à saúde, ao Viver. sem corantes nem conservantes, desta vez é que é e não será mais um sonho de plásticos, pfff quando fura e acaba, dardos, torpedos, granadas que explodem no silvo da sua morte. Ilusões.

todo os dias há um barco que parte, e todos os dias procuramos o seu cais. nunca o vemos mas ouve-se o apito quando passa e, em baque, olhamos para o lado para ver se há mais passageiros em terra, se da coincidência de busca de cruzeiros para míticos arquipélagos não há ilhas que se juntem, namorem. que vagueiem nos oceanos dando costa a costa, as areias molhadas e misturadas, o perfeito postal ilustrado. semeiam-se carências e espera-se que nasçam palmeiras, dóiem os olhos quando o recordam no após, na pradaria do silêncio onde correm os que fogem aos predadores e, também, o velocista que temos quando "os estilhaços da paixão dóiem mais que os dardos de Cupido", coisas assim.

a solidão não é auto-suficiente. agiganta-se em temores e rema-se, rema-se para alcançar o porto, aquele donde sai o barco que deixa sinal sonoro e desperta do clorofórmio que se inala. há sempre movimentos de remos, círculos nas águas em volta de nós: boía-se em lagos de imaginação, ricos em contos de fadas e outras adrenalinas mais abastardadas, mexem-se os remos com vagarosas braçadas de esperança: não morri, afinal; os combates perdidos não mataram o gosto à modalidade e, podendo, farnel às costas e adieu Club Med. longe, na ilha mítica, a Solidão.

em final: digavando ao deus-dará cheguei a isto. uma rotunda. tantos caminhos diferentes que partem dum porto só, tantas as teias que se cruzam quando os temas escavam os cantos e descobrem os metais dourados cheios de pó ou, às vezes, verdete e sarro em crostas. servir duas senhoras antagónicas é complicado, paixão e solidão ainda mais. pessoalmente divido-me em acessos de carências afectivas sempre por saciar e longos roncos de silêncio olhando o horizonte da solidão, a tal idílica. o meu pensamento seguiu diversos rumos, espreitou as saídas da rotunda, divaguei. deseremitei-me, vim à vila buscar mantimentos e sentei-me a dois dedos de conversa. hoje de solidões, à próxima em ilusões. para equilibrar.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Ela, Princesa

No último 24 a cidade LM/Maputo fez anos. Também 'minha' embora já não saiba explicar esse sentimento.
Este texto * não é novo. Como eu, como ela afinal. Ela, sempre Princesa.

blogue "A Dupla Personalidade"

quarta-feira, 25 de julho de 2007

:-( e :-)


O título é à boa maneira do nosso "Tal & Qual". Eu não sei se o "Savana" é o "Tal & Qual" de Maputo. O que sei é que não são boas notícias, e com uma periodicidade preocupante.
:-(
Aqui, um Grupo MSN, fala-se no tema e com estas bases de debate, a várias vozes e olhares.
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Entretanto e porque a vida são mesmo dois dias e convém não esquecer as alegrias do já decorrido, lá no mesmo blogue ("Estrada Poeirenta" de António Oliveira) o João Fróis continua a abrir a arca e a provocar gargalhadas! (já agora e que estão com o clic na massa leiam também esta que faz parte da saga...)
:-)
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O jpt leu o meu Xicuembo e deixou nota de quem o entendeu. Nos comentários sanei a discordância apontada. Sendo um livro de memórias que se cruzam com o olhar 'de hoje', hoje, caso pudesse, reescrevia-lhe muitas partes. Claro que não me refiro só à gramática e adjacências que bem necessitadas estão. Sei lá se mal da velhice, mas cada tempo que passa mais amargo fica o remexer no passado. Tenho de acabar com isso, por receita médica.
Ir 'lá'? há poucos dias atrás comentei das minhas angústias acerca duma visita memorabilista. Da insatisfação e temor que assim se torna. Ontem, e a pretexto do aniversário da "nossa cidade", a Madalena do 'Chora-que-logo-bebes' abriu o coração e contou das suas angústias. Minhas, também.
Um dia tenho de resolver 'isto'. Se calhar só tem cura com uma ida, seja qual for o regresso. Ou nem isso.
que 'smiley' meto aqui? :-\

gemadas

As galinhas de Cabo Verde entraram em regime de horas extraordinárias.

terça-feira, 24 de julho de 2007

verde verdugo

nasceu erva rasteira
medrou e fez-se daninha.

moita, arbusto, os ramos cresceram
e ofendeu árvores e fendeu muros,
cujas sombras a protegiam.
sonha-se poderosa raiz,
chama a natureza de toda sua:
julga-se sequóia, Imperial.

estende as folhas e os apêndices
arrogantes - os picos, a todo o quintal.
é de sua Natureza: nasceu rasteira
e essas, míopes, ciúmam-se trepadeiras
- um botânico explicará do porquê
das daninhas serem assim...
mas não é precisa tanta inteligência:
olhe-se-lhe o jardim e vê-se a seiva ruim,
flores artificiais, ódios, e o fel.

nasceu erva rasteira, medrou e fez-se daninha.
nem o verde o oculta, já.

sábado, 21 de julho de 2007

Hoje, aqui

Periodicamente todos temos um sonho mais recorrente.
O meu maior desejo neste momento é ir-me embora de cá, livrar-me e à minha mulher do que ainda nos falta ser vivido neste pesadelo diário, esta desilusão que cresce cada dia mais que passa. E, aos filhos, dar-lhes hipóteses de sanidade que cá dentro serão migalhas, milagre.
É ainda mais triste por ser verdade.