domingo, 9 de setembro de 2007

lidos

as pausas forçadas têm uma óptima vantagem: ajudam a por as leituras mais em dia. li muita coisa boa, felizmente. posso dizer que nestes quinze dias não li um livro mau. óptimo. o realce que deixo é de ter avançado por autores brasileiros "não tradicionais", nomes que me eram desconhecidos e provavelmente a quase todos nós pois, habitualmente, nas livrarias só se encontram os nomes feitos, os tradicionais. valeu a pena, e de que maneira... tanto, que já me reabasteci de mais 'meia dúzia', em tiros no escuro quanto a nomes de autores/títulos: sem medo, a experiência foi muito positiva. lidos: "Capão Pecado", Ferréz; ""O canto da sereia", Nelson Motta; "Curva de Rio Sujo", Joca Reiners Terron.
dos outros, sem surpresas (agrado) o último Le Carré, "O Canto da missão", embora com final um bocadito 'cândido'... deliciei-me - é a expressão! com o "Doutor Pasavento" de Enrique Vila-Matas, livro a que tornarei pois há muito para falar acerca dele, e de como me cruzei com ele/ele. muito mesmo. divertido (e instrutivo...), "contos de colarinho branco", Paulo Morgado: eles andam aí, não passamos a vida a queixar-nos? então 'bora lá aprender "como é que elas se fazem...". li também o "Foi assim", de Zita Seabra. fiquei a saber como foi com ela, ora que já sei de mim. sem surpresas (dela, da praxis do partido ou da ideologia).
o que tenho em mãos: "cartas de Jack London", em laborioso trabalho de tradução de Ana Barradas que serve também uma excelente introdução que vai além de explicatória da sua relação literária com o Autor. estou a folheá-lo sem ordem cronológica, lendo-lhe bocados da vida. há ali pérolas. na pág. 166, a carta "ao editor de Ability":
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Oakland, Califórnia
20 de Fevereiro de 1905
"Caro Senhor:
Sempre que um escritor é sincero acerca de um manuscrito (ou livro) de um autor amigo, perde essa amizade ou vê-a diminuir e desvanecer-se, tornando-se uma sombra do que foi.
Sempre que um escritor é sincero acerca de um manuscrito (ou livro) de um autor que não conhece, ganha um inimigo.
Se o escritor gosta do seu amigo e receia perdê-lo, mente ao amigo.
Mas vale a pena o esforço de mentir a quem não se conhece?
E, já agora, de que serve fazer inimigos?
Além disso, um escritor conhecido é assediado com pedidos de estranhos para ler os seus textos e dar opiniões sobre eles. Ora essa tarefa é de um gabinete literário. Um escritor não é um gabinete literário. Se cometer a tolice de se tornar um gabinete literário, deixará de ser escritor. Não terá tempo para escrever.
Ademais, como gabinete literário caritativo, não receberá nenhum pagamento. Portanto depressa entrará na falência, terá de viver da caridade dos amigos (se ainda não fez deles todos inimigos por usar de sinceridade) e verá a mulher e os filhos seguir melancolicamente o caminho do asilo.
Acho muito bem a simpatia pelos desconhecidos que se esforçam. É bonito... mas há tantos desconhecidos a esforçar-se! Devem ser algo como vários milhões. E a simpatia pode sair muito cara. A simpatia começa em casa. Mais vale ao escritor deixar que essa multidão de desconhecidos se mantenha desconhecida do que permitir que os seus próximos e aqueles que lhe são queridos ocupem enxergas miseráveis e tenham de se entregar a trabalho insano.
Cumprimentos,
Jack London"

pêlos

... e tradições: nada valem: ontem tirei o meu avoengo bigode de trinta e cinco anos, uma cicatriz que estava esquecida revelada. a coisa vai

os livros

tenho dois convites para responder em "corrente" acerca de livros que me foram importantes, e dos seus contrários: aqueles que mais valia nunca os ter aberto. coisa complicada, está-se mesmo a ver. os amores e os ódios são sempre complicados. coisa para responder um pouco mais tarde, embora por impulso era capaz de, já... não, deixa matutar.

e o país?

o telejornal da 1, hoje, foi uma ilha de sanidade. ainda salvará? só só até à próxima Maddie/Casa Pia?
li que o "caso Maddie" é um case study. e o país, este persistente incêndio?

da pausa

doença física e mental. dores e fastio. está explicado

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

transgénicos

Via Água Lisa" do sempre atento João Tunes, chego a uma discussão sem histerismos sobre os alimentos genéticamente modificados, os "transgénicos".
Agora espero é que os verdes verdugos ou 'verdeseufémia' não caiam cá para me destruir a colheita...

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

comentários

um esclarecimento: conhaque é conhaque e blogar é blogar. ademais, irrita-me a escrita em maiúsculas, a mania de que, "berrando", é-se melhor ouvido ou ganha-se o palmo de estatura que (lhes) falta.
visto isto activei a moderação de comentários. é provisório evidentemente: sempre afirmei que não gosto da 'modalidade' quando a encontro e se por enquanto a pratico é com desgosto e por necessidade.

besugo, lolita e alonso

receio que este blogue acabe: há fumos que são sinais. não me recordo de alguma vez lamentar a visita, coisa rara, mesmo contando a ocasional nabice de confundir um Lola T70 com um Porsche Carrera 6, tsss tsss...

sábado, 11 de agosto de 2007

quando entro num elevador com uma mulher, penso sempre em sexo


(estava prometido, 'das ilusões')


quando entro num elevador com uma mulher penso sempre em sexo. tlim, tlim, Pavlov está aos botões e a luxúria sobe prédio acima, quando o par episódico se desfaz as portas fecham-se como se fecha a porta após uma sessão de psicanálise: atarantado, se a tareia foi grande; lesto, se ela foi ainda maior. outra: ao recorrente sexo em avião tenho versão pessoal para ele, o mesmo, mas num TGV. a tocar o apito nas rectas e nas curvas, um urro d'orgasmo que faz as vacas olharem, as campainhas tocarem e as cancelas caírem, piii piii urra que queca-se a quatrocentos à hora. fim de capítulo sexual, mamas rabos e cabinas telefónicas à parte e, agora, iludo-vos iludindo-me noutro prado que, de tema sexo, mesmo em ensaio já percebi que quanto menos se diz mais se sonha, haja Ilusões e t'shirts brancas, alvas, tiradas todas as manhãs da gaveta deste Verão, enormes sobre o corpo das mazelas e outras ternuras diversas, que a bronzeador se esturra e estupidifica no estival salivar corporal, mamas e peitorais, rabos e bíceps, tudo em arremedos de Ilusões em saldos de fim de estação, ano a ano repetidos e onde, julga-se, se vestem os egos para passarem assim-assim, sem destoar das bazófias das férias não tidas ou do romance de praia imaginado.
e há as outras, mas p'ra quê falar nelas? sexo. o sexo é que é e está a dar. não se tem dinheiro e pensa-se nele e em sexo, se o temos pensamos em melhor sexo, pelo menos em mais estrelas no Hotel e em mordomias com morangos no Inverno e champanhe entaçado em umbigos, Murganheira servirá muito bem se os sortudos da Ilusão não forem da casta de maior desbunda, milionários. sexo, sempre. nas rotinas e nas ausências, na barriga cheia e farta, mesmo aí, se se sonham estados de felicidade lá vem o romance, às vezes a espreitar envergonhado e disfarçado de rapidinha com parceiro desconhecido, mistério, o idílico mistério de, olhando o bronze alheio acreditar-se que o nosso seduz, imaginar-se que as paredes e espelho dum elevador contariam do Urro após as portas se abrirem e fecharem, se falassem além do zumbido quando escalam andares e andares, esses onde os corpos de mistério arfaram em recorrente pensamento, que o comboio galgou campos e cidades deixando rasto em sémen de criatividade, orgia dela.
terça-feira vou à consulta, primeira desta ronda que periodicamente se faz as calos e ao fígado, aos sonhos também. sei lá o que pensarei: sei que é uma 'ela' e, fascinante, na psiquiatria não usam farda e estamos em pleno Verão. só desmerece ser no rés-do-chão. depois digo do que pensei, calhando, que botões encontrarei para substituir os do elevador ausente, que mistérios e receitas a taxa moderadora trará. até lá tirem as velhinhas da rua, vigem as estações e apeadeiros e, principalmente, evitem os elevadores: se penso em Ilusões penso em sexo, visto a t'shirt da canícula.
(começou sobre 'Ilusões' mas depois perdi-me, ainda a grade da porta não se fechara e, nos botões, o dedo clicou éne vezes seguidas no andar mais longe, mais alto, mais fundo, e embarquei. fica assim mesmo)

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Magic!

(foto de Fátima Condeço)


É a palavra que me acorre quando penso em ti, "Webita"!
Hoje, 15; antes, catorze anos, onze meses e trezentos e sessenta e quatro dias de felicidade em ter-te, ver-te, crescer-te. Mantém-te igual e verás que os teus passos serão os meus ainda tantos anos de amor, orgulho, confiança, em ti, tua sensibilidade, tua alegria.
Parabéns Carla!

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

à terceira: Mário de Carvalho

Não apreciei por aí além "Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto" e "A inaudita guerra da Avenida Gago Coutinho (e outras histórias)", que me vieram à mão já não sei por que ordem mas há muito tempo, tanto que já não me lembrava deles quando recentemente comprei "Fantasia para dois coronéis e uma piscina" e que me inverteu o interesse pela escrita de Mário de Carvalho: poderosa, um ritmo narrativo forte, viciante para o leitor mas naquela variedade de, a parágrafos tantos, voltar-se atrás para reler a construção da frase, ciumento. O enredo? 'nas tintas p'ra ele': a escrita está a encher-me medidas e a afogar o interesse naquele, secundarizando-o.
Abençoado lapso de memória que me fez reincidir num Autor que, se me lembrasse das duas obras anteriores referidas... não voltaria às minhas mãos. E ainda para mais um quase vizinho: mora em Salvaterra, coisa para uns vinte e tal quilómetros daqui da palhota, sendo que o regionalismo, aqui, assume uma saudável faceta, justa.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

domingo, 5 de agosto de 2007

Fórmula 1

A BMW está a crescer. Não empalideça e numa temporada bem próxima será 'challenger' aos tradicionais. O que é bom, já cansa o mau cheiro que anda lá nos pódios pois, parece com grandes probalidades de ser mesmo assim, roubam-se mutuamente e, quem não o faz, está profundamente interessado em saber como é.
Além do bocejo, está claro.
(calhou falar na bêéme mas porque está mesmo a jeito - mérito próprio)

sábado, 4 de agosto de 2007

eutanásia

Matei o Tico. Há uma hora atrás.
Ontem, quando cheguei, seriam umas onze da noite, como tantas vezes ele veio receber-me, sequioso pelas palavras de carinho que não lhe negava, nunca. Permiti-lhe roçar-se na minha perna mas como sempre não muito pois, abandonado às doenças (e por elas), o pêlo ralo mostrava a pele em úlceras, quistos, um tumor do tamanho duma bola de ténis numa perna. Essa perna que, hoje, há uma hora e picos atrás, eu pisei com a roda do carro – a mesma que, ontem à noite, eu o vi a cheirar quando fechei a porta para as escadas do prédio? – e parti-lha. O uivo foi terrível, terrível. Foi um choque ouvi-lo, mesmo habituado que estava, estávamos, a ouvi-lo gemer toda a noite à porta da casa ‘da dona’, a que «gosta muito de animais» mas que mal a doença de pele lhe apareceu há uns dois ou três anos atrás pô-lo a viver na rua, provavelmente por cautelar receio dela se transmitir aos restantes animais que mantém, encarcerados, num anexo, onde uivam ao calor horas a fio. O olhar dele, a dor dele. O seu gemer, esse ganir de dor. No banco de trás do carro, olhei-o várias vezes enquanto seguíamos para o veterinário. O gemer lento, sofrido, olhava-me e nem sei se me ouvia, ouvia o meu chorar que não conseguia dissimular nas palavras que lhe dava. O olhar dele, as pupilas quase a desaparecerem e o branco assustador, o ganir lento assustador. Não gemia muito, havia silêncio na dor que se lhe via, havia… resignação, talvez. Chorava noites inteiras, lamentava-se à porta da ‘sua casa’ pelas dores e pelo abandono, acredito.
O veterinário disse-me que além da fractura e de tudo o mais à vista haveria provavelmente lesões internas. Houve eutanásia mas não consegui assistir, fiz-lhe uma última festa, um último carinho sem medo de contágios ou do pestilento cheiro de abandonado, e vim cá para fora. Chorei. Sei que hei-de chorar mais quando, estacionando, lembrar-me que nunca mais o verei aproximando-se do carro abanando a cauda, os olhos em mim e o latido de carinho, sempre o roçar tímido e os olhos pedindo uma festa, carinho mútuo que não nos negávamos.
Sinto-me horrível. Não me consola o 'já não sofre mais', não há consolo quando se 'decide' a morte; gostávamos todos do Tico, abandonado por razões cutâneas mas fiel à casa que fora a sua e a cuja porta procurava o alimento que não encontrava nas ruas, carinho. Este sentimento de culpa ficar-me-á perpetuamente, o passeio vazio dele e do seu correr para mim, para 'a festinha', o silêncio que haverá nas noites sem o seu gemer, o seu lamento, irá doer. Lembrá-lo, lembrar-me que fui eu que o matei. Não sei se ele, onde quer que seja o 'céu' dos cães de olhos tristes - que haverá para acreditar-se em repouso aos sofredores -, me perdoará. Sofria muito, mas a morte dói. Muito.

domingo, 29 de julho de 2007

água, muita água

42º em Santarém. em Almeirim estão mais um ou dois, tal como no Inverno estão a menos. o termómetro da cozinha diz que são 34º, reparo a caminho do frigorífico panaceia. água, muita água.
a cadela, a Tufas, estica-se deitada de costas, indolente e desavergonhadamente de perna-aberta, os olhos fechdos que se entreabrem quando passo. enchi a banheira e evadi-me, dourei o calor no fogo lento da imaginação, e refoguei-me de cruzeiro a caminho de férias de panfleto.
de segunda a quarta fujo, fugimos. pelo menos mudamos de calor, não este pasteloso.

breve ensaio sobre a solidão

os estilhaços da paixão magoam mais que os dardos de Cupido. onde é que eu já li isto? que me lembre em lado nenhum, veio-me agora ao pensamento.
quanto mais nos nomadizamos mais interiormente ficamos sedentários. idem, ibidem.

se calhar isto seria um bom começo de ensaio, daqui discorria-se e citava-se, floreava-se, titula-se em mui nobre parangona e põe-se assinatura no fim. ensaio sobre a correlação entre as paixões e as solidões, a sempr'eterna dicotomia humana que, não prescindindo do fogo dos sentimentos resguarda o couro e o cofre das investidas predadoras. predadoras, interrogai-vos? sim, digo: a paixão é predadora, saliva por 'possuir' o bem-amado, é algoz de silêncios e recatos, independências.

o céptico enquanto jovem amou e desejou, perseguiu e cortejou, iniciado nas artes de galanteria fez as rimas mais incríveis para, à guiza de prémio mor, obter atenções e correspondências, sacrifica o seu mundo em nome da mítica 'paixão', droga dura dos sentimentos. em desagravo obtém felicidades que os tempos mostram perenes, risos e estertores que, momentos, só isso duram e na memória fenecem pois ela lembra é dos estilhaços, da implosão íntima de ícones e o longo suspiro pelo estado antes da arte, a saudosa, preciosa, almejada solidão. paixão é dependência e aos cliques de descavilhar de granadas não há heróis ou heroínas, há que buscar nos salvados os restos do Eu, correr cortinas sobre o mundo. a solo.

heis, em crueza e em tosco, retrato de cenário após a fim das ilusões. esta é conhecida, não tem autor além da sapiência das gerações que a repetem desde que os olhos se perdem no horizonte, reclamando eremitismos que o protejam das desilusões: cada Homem é uma ilha. nem atol de lindos corais ou arquipélago de radiosas praias: apenas ilha. a sua. somos sócios do Club Med por falta de fundos e, pudéssemos, comprávamos viagem para ilhas longuínquas, sós. no farnel mais que o prático pois há mais coisas indispensáveis, há silêncios e há momentos, aos mais feridos há o lamber delas, chagas que os estilhaços abrem. falo do amor em versão paixão, mas falaria pelas mesmas palavras de qualquer recanto no mundo além cortinas, do formigar e dos carreiros, em olhos abonados de desilusões. tantos. ardendo em saudade da solidão, vigiando torniquetes onde mais sangrou e, os olhos, sempre esses temerosos da dor.

reclama-se o idílico nas vidas espreitadas em décor. não acreditando nas páginas policromáticas de felicidades imensas, mas invejando-as sempre um pouco, tapa-buracos de solidões. ardendo, no tal fogo lento que arde sem se ver, dizia Camões, poeta que se hoje vivesse se suicidaria. os sorrisos que não temos e, quando em transe e julgando tê-los, foram esgar foram dor: as cicatrizes contam do mapa que os estilhaços desenharam, também das compresas e das cortinas, do placebo de mentir acreditando nas páginas de felicidade alheia, qu'as paixões vêm com rótulo de eternas e, desta vez, na sua composição não haverá anabolizantes que façam mal à saúde, ao Viver. sem corantes nem conservantes, desta vez é que é e não será mais um sonho de plásticos, pfff quando fura e acaba, dardos, torpedos, granadas que explodem no silvo da sua morte. Ilusões.

todo os dias há um barco que parte, e todos os dias procuramos o seu cais. nunca o vemos mas ouve-se o apito quando passa e, em baque, olhamos para o lado para ver se há mais passageiros em terra, se da coincidência de busca de cruzeiros para míticos arquipélagos não há ilhas que se juntem, namorem. que vagueiem nos oceanos dando costa a costa, as areias molhadas e misturadas, o perfeito postal ilustrado. semeiam-se carências e espera-se que nasçam palmeiras, dóiem os olhos quando o recordam no após, na pradaria do silêncio onde correm os que fogem aos predadores e, também, o velocista que temos quando "os estilhaços da paixão dóiem mais que os dardos de Cupido", coisas assim.

a solidão não é auto-suficiente. agiganta-se em temores e rema-se, rema-se para alcançar o porto, aquele donde sai o barco que deixa sinal sonoro e desperta do clorofórmio que se inala. há sempre movimentos de remos, círculos nas águas em volta de nós: boía-se em lagos de imaginação, ricos em contos de fadas e outras adrenalinas mais abastardadas, mexem-se os remos com vagarosas braçadas de esperança: não morri, afinal; os combates perdidos não mataram o gosto à modalidade e, podendo, farnel às costas e adieu Club Med. longe, na ilha mítica, a Solidão.

em final: digavando ao deus-dará cheguei a isto. uma rotunda. tantos caminhos diferentes que partem dum porto só, tantas as teias que se cruzam quando os temas escavam os cantos e descobrem os metais dourados cheios de pó ou, às vezes, verdete e sarro em crostas. servir duas senhoras antagónicas é complicado, paixão e solidão ainda mais. pessoalmente divido-me em acessos de carências afectivas sempre por saciar e longos roncos de silêncio olhando o horizonte da solidão, a tal idílica. o meu pensamento seguiu diversos rumos, espreitou as saídas da rotunda, divaguei. deseremitei-me, vim à vila buscar mantimentos e sentei-me a dois dedos de conversa. hoje de solidões, à próxima em ilusões. para equilibrar.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Ela, Princesa

No último 24 a cidade LM/Maputo fez anos. Também 'minha' embora já não saiba explicar esse sentimento.
Este texto * não é novo. Como eu, como ela afinal. Ela, sempre Princesa.

blogue "A Dupla Personalidade"

quarta-feira, 25 de julho de 2007

:-( e :-)


O título é à boa maneira do nosso "Tal & Qual". Eu não sei se o "Savana" é o "Tal & Qual" de Maputo. O que sei é que não são boas notícias, e com uma periodicidade preocupante.
:-(
Aqui, um Grupo MSN, fala-se no tema e com estas bases de debate, a várias vozes e olhares.
..................................
Entretanto e porque a vida são mesmo dois dias e convém não esquecer as alegrias do já decorrido, lá no mesmo blogue ("Estrada Poeirenta" de António Oliveira) o João Fróis continua a abrir a arca e a provocar gargalhadas! (já agora e que estão com o clic na massa leiam também esta que faz parte da saga...)
:-)
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O jpt leu o meu Xicuembo e deixou nota de quem o entendeu. Nos comentários sanei a discordância apontada. Sendo um livro de memórias que se cruzam com o olhar 'de hoje', hoje, caso pudesse, reescrevia-lhe muitas partes. Claro que não me refiro só à gramática e adjacências que bem necessitadas estão. Sei lá se mal da velhice, mas cada tempo que passa mais amargo fica o remexer no passado. Tenho de acabar com isso, por receita médica.
Ir 'lá'? há poucos dias atrás comentei das minhas angústias acerca duma visita memorabilista. Da insatisfação e temor que assim se torna. Ontem, e a pretexto do aniversário da "nossa cidade", a Madalena do 'Chora-que-logo-bebes' abriu o coração e contou das suas angústias. Minhas, também.
Um dia tenho de resolver 'isto'. Se calhar só tem cura com uma ida, seja qual for o regresso. Ou nem isso.
que 'smiley' meto aqui? :-\

gemadas

As galinhas de Cabo Verde entraram em regime de horas extraordinárias.

terça-feira, 24 de julho de 2007

verde verdugo

nasceu erva rasteira
medrou e fez-se daninha.

moita, arbusto, os ramos cresceram
e ofendeu árvores e fendeu muros,
cujas sombras a protegiam.
sonha-se poderosa raiz,
chama a natureza de toda sua:
julga-se sequóia, Imperial.

estende as folhas e os apêndices
arrogantes - os picos, a todo o quintal.
é de sua Natureza: nasceu rasteira
e essas, míopes, ciúmam-se trepadeiras
- um botânico explicará do porquê
das daninhas serem assim...
mas não é precisa tanta inteligência:
olhe-se-lhe o jardim e vê-se a seiva ruim,
flores artificiais, ódios, e o fel.

nasceu erva rasteira, medrou e fez-se daninha.
nem o verde o oculta, já.

sábado, 21 de julho de 2007

Hoje, aqui

Periodicamente todos temos um sonho mais recorrente.
O meu maior desejo neste momento é ir-me embora de cá, livrar-me e à minha mulher do que ainda nos falta ser vivido neste pesadelo diário, esta desilusão que cresce cada dia mais que passa. E, aos filhos, dar-lhes hipóteses de sanidade que cá dentro serão migalhas, milagre.
É ainda mais triste por ser verdade.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

tags: o post anterior + candidaturas de independentes + romances policiais

'chibata' mesmo metaforicamente é forte, que ainda estão tantos vivos que a conheceram e, pior, ainda conhecem. peço desculpas, usei sem pensar.
fico-me pelo policial negro disfarçado em romance igual. não o le Breton ainda que esse à segunda folha já matou quinze e põe o sobrevivente a caminho do hospital, conduzindo cada vez com mais dificuldade pois as tripas que lhe escorregavam do ventre esfaqueado, iam enrolar-se junto aos pedais e ele estava com pressa. calma. mas Dashiel Hammet concerteza, e amantisado com a tonta paranóica da Patrícia, um monstro novo em cada dia.
a ideia de que não sabemos nada do amanhã, dos amanhãs que vêm depois do hoje, este o que dói e faz pensar que talvez os amanhãs sejam melhores. a esperança. e cada ogre novo que aparece nos hoje que foram esperançosos amanhãs junta-se à matilha dos que já comeram tanta coisa, e que lhes sejam indigestas as tantas nossas desilusões. afinal um policial negro onde, lá pelo segundo ano e picos de mandato já o Primeiro-Autor assassinou pelo-menos-quatro e corrompeu um quarto da polícia, espetou com cenas de sexo tórrido até dizer mais não, daquelas onde - e utilizando uma expressão que um comentador destacou - entra-se em orgias sem ter sido avisado onde somos fornicados e bem fodidos. fica-se a pensar nas páginas seguintes e que novos horrores virão naquele meio-livro e meio-mandato que faltam, a sensação de 'tirem-me deste filme' onde vou ter de lê-lo todo até ao fim, sobrevivem uma sopeira e um polícia de trânsito, tudo o resto esvaído por esventrado, cheio de buracos que nem um passevite, aquela coisa dos ovos estrelados. pesadelos onde há pelourinhos (e lá voltamos à chibata) em que o autor tortura as vítimas-leitores junto com os personagens, sádicos faz-nos temer uma porta aberta ou uma fechada, alternadamente. diverte-se enganando(-nos/-os) nas pistas, nas primeiras folhas, seu início de campanha e de romance que pretende longo, engana-nos dando-nos pistas de felicidade colectiva, meio caminho par se obter a individual. mas logo as páginas derrapam, citam-se outros autores e até se metem académicos à bulha, tal a densidade narrativa que nos diz, muito claramente, que há engano em qualquer coisa pois, afinal, para se atingir o Céu o interrogatório é precedido de penitência e das duras, e o filtro para uma cara genuinamente alegre cada vez está mais fino, menos se vêm quer na rua quer nos espelhos.
autores assim, maníacos do avacalhamento mais sórdido dum simples fim de semana entre três ou quatro amigos - até aí, presume-se sempre, onde um morre ou fica gágá e os outros se engalfinham à vez, até o sacana do escritor-primeiro revelar que os fodidos a final, digo os tas fornicados e não sabiam como lhe calhara este filme pois não era assim que vinha anunciado em cartaz, esses, era um apenas, era o leitor. o leitor único do policial negro em que estamos a páginas tantas duma qualquer parte já adiantada, embalados, um ensaio com citações e listagem de obras consultadas que, fezendo-lhr fé, deixa dúvidas sobre se, afinal, há diferenças entre, exemplo, os pólos e o equador.
hoje há este novo 'refúgio', os "independentes". Lisboa e as para PR estão nas bocas, e os jornais sabem que quem gosta de falar muito compra-os, à procura de inspiração para parangonas pessoais. vai durar: a legislativas são daqui a dois anos e tal como eu há muita gente que não conhece bem a lei eleitoral, a ponto de saber da viabilidade de listas assim e assado, 'cá uma malta fixe', com a diferença que vão mesmo sabê-lo e eu, estando-me nas tintas para fazê-lo, acompanharei o que for tornado público, parangona, da evolução dos magnos estudos.
o que é que eu penso das candidaturas independentes? que só o são até ganharem a consistência de credibilidade suficiente para, por auto necessidade de encontrar grandes pontos de consenso nos seus apoiantes, grávidos de independências com todo o seu bom, mas também há gravidezes do caraças e as independências são solidões, cada louco com sua mania. aí, quando se auto identificam com Grandes Opções e fazem-lhe o resultado passam a designar-se assim ou assado, encontrando familiares e, em novo estatuto, até encontrando velhas amizades e camaradismos, tal identidade aniquila a independência pois, 'agora', o grupo de independentes que concorrera é empossado na perca compulsiva da independência, entrou na estrutura e, para sobreviver, estrutura-se. agora confrades pois jogam um jogo onde as regras são bem claras para os veteranos, alianças que se fazem para uma mais rápida integração, um ganhar de espaços para consolidar e... estruturar, alicerces de condomínios onde pela varanda se vê uma nesga do que existe e assim se rouba horizonte, em vez duma caravana tão independente que, quando calhava e havia gasolina, via-se o pôr-do-Sol com a certeza que os amanhãs o repetiriam, sempre mais belo.
enquanto movimento inicial, sem "curriculum" formado e sem evidentes genéticas que puxam às pernas cruzadas e aos roços por debaixo das mesas, os movimentos "independentes" soam-me bem, tratando-se de concurso onde, por eleição, supõe-se procurar os melhores para gerir o tasco, sabendo-se ele como desleixado e desgrenhado, mau aspecto e até ar de doentio. aí, estando fartos do cardápio ao enjoo e até com recordação de intoxicações alimentares em casas onde era suposto isso nunca acontecer, procura-se alternativas ao indispensável almoço na mesa todos os dias, salta-se de página pois na ementa eleitoral que nos é servida, hoje, o prato-opção "independente" veio para ficar, acredito. excepto se a lei não o permitir para o parlamento, mas, chegando a isso, por certo e "só por causa dos papéis serem precisos" a independência acabava após entusiasmantes ensaios. para rodipiar no baile os cavalheiros têm de comprar um lacinho à jovem que querem enlaçar, é regra que existia nos bailes rurais entre os grupos de moças que vinham fazer as vindimas, os 'ranchos', e o inevitável enxame de motorizadas que circundava e poeirava os barracões das quintas onde se faziam os bailes. a regra era clara e namora-se assim ou não. a outra, a sê-lo assim, não será menos clara no justificar na obrigatoriedade de, "por causa dos papéis", os Independentes passarem a Partido deles, o filho mata a mãe.
há coisa de vinte anos atrás houve a ASDI e o PRD, mas há diferenças com estes movimentos de 'Independentes" que têm surgido com sucesso quando em competição rija, no universo de eleitores a eleição presidencial e, agora, na maior cidade do país, capital do tasco onde se gastam mais pipas de vinho e chouriças, mas com graves problemas de contas com os armazenistas. no meio um meio ensaio, o referendo do aborto onde os suspeito do costume alinharam no lado que saiu vitorisoso, números contados. todos com genética de perna cruzada, adivinho casamento, digo, adivinho união de facto que é um Partido Político. Independentes com sucesso estão 'condenados' a isso, vale agora a ideia de que um dia outros deles se reclamaão 'independentes', com sorte ainda cá andaremos e, quem sabe?, dando razão à reivindicação voltar a acreditar que a independência faz falta e existem muitos mais já a reclamá-lo, 'bora a isso.

sábado, 14 de julho de 2007

a asfixia

Preocupação e indignação. solidarizei-me em comentário.

(links trocados mas vai dar ao mesmo: ambos os posts tratam do mesmo, a amargura de viver hoje, tempos de chibata)

domingo, 8 de julho de 2007

blogspot, hoje

acho que endoidou. esconde os posts, não regista as alterações, está paranóico.
até amanhã, calhando

adenda ao bula-bula de ontem (secção de culinária)

há por aí uma onda de indignação pelos comentários que eu fiz à falta de dotes culinários das donas. até insinuam que eu é só manjar, mas fazer 'tá quieto...
humpff...
.....
Bem, passado o momento do meu exercício do sacro direito à indignação e à defesa das virtudes, há que reconhecer que tenho uma desconfiança epidérmica dos dotes culinários das miúdas da minha geração. Para continuar a ser verdadeiro e, também, para não correr riscos caseiros, adianto que as razões, se as há além das decorrentes de devaneios filo-mnemónicos, não provêm do hoje pois ainda este almoço manjei um caril de arroz com camarões minúsculos que estava que nem ginjas. Com os agradecimentos directos à Webina, ao Modelo, e à loja do Amaral pois eu não mexi uma palha além de fornecer o transporte para o supermercado onde se comprou o frasco de caril e acompanhei-a esta manhã à loja onde compramos o saquito de anões congelados. A rebuscar em traumas pessoais, no máximo recordo o recorrente arroz branco com ovos estrelados que foi o símbolo gastronómico da estrondosa derrota da "primeira volta" mas, idos tantos anos, nem já deverá contar. E quanto a bolos lá calha um de vez em quando e estamos a entrar na época das gelatinas.
É outra coisa. Sempre que conheço alguma rapariga da minha idade não descanso enquanto não consigo saber daquelas artes, se calhar até descuro outras mas a magia dum aroma irresistível impera, imagino-as nuas e de colher em punho, um delicioso avental por causa dos pingos. E um repenicar estaladiço numa frigideira, sinais de fumo duma panela cheia de mistérios ou a cor a dourar dum assado, tudo erotismos gastronómicos. Não consigo evitá-lo. Há vezes em que até sou chato e pergunto pelos temperos e levo como resposta que o tempo de cozedura é que é importante. E eu calo-me logo, lembro-me de mim afoito a inventar receitas mas sempre à rasca com o relógio, com vontade de ter uma cábula escondida que explicasse mistérios como "... quando estiver no ponto..." ou, mero, "após estar pronto, ...". Arroz são oito minutos, fixei. O resto vai a olho e muita fé na sorte. Pois é. Mas os temperos, a verdadeira arte, aí fazem caixinha e não se descosem, ou reduzem tudo à mais desoladora das simplicidades ou dizem isso já ser matéria de 'segredos', intimidades que não se descosem sem adequado namoro, não é coisa que se partilhe assim, 'segredos', lá vem à memória o ditado que diz que ele é a alma do negócio.
Se puxo a conversa para a área dos doces, então, é uma tragédia. Coram, puxam de paixões & razões fundamentalistas em relação à saúde, fazem-me sentir-me aterrorizado a pensar se esta minha amiga um dia chega a ministra, secretária de Estado. Tudo desculpas: fizeram um bolo aos quinze num concurso entre amigas, ou escolar no bom tempo em que havia para elas lavores e culinária, para eles trabalhos manuais, hoje refila-se da cozinha como eu faço mas também parece ser coisa complicada mudar uma lâmpada, arranjar uma fechadura, alegremente fazer um tuning ao carro que fará pensar à vizinhança que, aqueles, enlouqueceram de vez. Depois lá se casaram e lembraram-se do bolo aos quinze, houve meia dúzia de tentativas mas nem melhoraram ou pelo menos insistem: há muito que os bolos que são bolos, gulosos, vêm de fogões familiares, geração sempre a anterior... A minha sogra faz um 'chifon' que a filha bem tenta imitar mas não consegue. Insiste rapariga, insistam mas é todas! o bolo dos quinze não morreu, ressuscitem-no cá p'ra mesa. Por mim prometo arranjar o pé dela e antes do Inverno calefatar melhor as janelas.
E faço um extraordinário esparguete e uns admiráveis ovos, até me parece que já não está nada mau.

Maputo

tá mau, tá...

sábado, 7 de julho de 2007

bula-bula de sábado

As semanas agitam-se em ondas, sendo que a culpa não é só do calor: há conjugações astrais propícias ao rolar de berlindes pela areia procurando o mágico plim! de tocar o outro, a covinha aconchegadora. Começo por onde calha e sigo por onde for calhando:
Fui a um lançamento e trouxe mais que um livro + um autógrafo personalizado: espreitei de longe quem admiro, finalmente conheci um enigma da (minha) net/blogosfera e fiquei contente com isso, mangusso gosta de mangusso. Além dele, verdadeiro Number One da divulgação via Net da cultura moçambicana e seu património, (e defesa...), empatizei no imediato com quem muito me tem feito sorrir ao ler memórias passadas na 'terrinha', tempos de quando eu também jovem e moço: a exemplo leia-se esta, mas é só vasculhar no baú que há por lá muitas mais - e bem escritas, agradável norma que aliás se estende a todo o blogue.
Em véspera partilhara uma sopa da pedra, um peixito grelhado e muita bula-bula com um jovem a quem - juro! - eu e a Webina (minha mulher) acreditávamos, sei lá porquê!..., ter alguns anitos mais daqueles que mostrou, riso fácil e muita simpatia e não o 'circunspecto académico' que o nosso imaginário construíra... Falou-se principalmente da 'terrinha', quer em pormenores menores como divagações acerca da rua tal e prédio tal, a conversa do "lembras-te?", também da literatura que lá vai havendo, da que cá chega e da que não embarcou, e muito de pessoas e de políticas para as pessoas. Foi muito agradável, André, sei que não to disse pois essas coisas não são para se dizer mas, em ti, reencontrei razões para manter a candeia da esperança acesa quando se trata de pensar no futuro do 'nosso' país!
Embora por meritória causa - e força, Marlene! 'verás que verás', tu entendes o que digo!, a pandemia das sopas congeladas em panelões chegou às mães, as ainda salvadoras da estabilidade da diversificação culinária da civilização ocidental, quem nos salva de viver à roda da sandocha e do pastel de bacalhau, McDonald's e Pizza Hut! Estas 'gajas' - no bom termo, please!!! - da minha geração são uma desgraça na cozinha, agravada com a crise de consumíveis e de irreverências que leva a já há umas boas três décadas não conhecer o sabor dum bolo de 'erva', vá lá um 'chifon' quando há festa e o resto vem do supermercado ou da pastelaria... Andaram de alva bata no 'gineceu' e tudo, até se licenciaram melhor que certos engenheiros mas, se cumpriram as suas disciplinas específicas obrigatórias foi coxas nas de artes culinárias e, a benifício de dúvida, talvez com um botão cosido em Lavores Femininos que lhes valeu magros dez valores. Razão que lê-se, por vias que o bom e sabido garfo e cavalheiro ocultou, quando, a fls. 87 do seu magnífico "Cozinha para Homens: a honesta volúpia" (Colares Editora, 1992), Alfredo Saramago conta assim:
"Dizia-se que, para uma refeição ter condições de ser elevada à excelência máxima, deveria ser uma refeição só de homens! Às mulheres ficava reservada a missão de bem fazer cumprir os pedidos vindos da sala de jantar", depois justificando com elegância e galanteria, maila sã verdade: "Não existe machismo nesta prática infelizmente quase a desaparecer. Era uma forma de respeito pela refeição e uma declarada consideração pelas mulheres, era uma prova de que «as atenções não devem ser partilhadas, mas irem por inteiro para o que guarnecia a mesa e não para o que a rodeava»", terminando esta profundidade filosófica com o judicioso comentário: "Os nossos avós sabiam que não era agradável dividir o interesse por uma iguaria e uma mulher. Todos ficavam a perder".
Voilá... hoje vivemos tempos cujas mesas caseiras anunciam a certa proximidade do fim do mundo, impera a massa cozida e com pouquíssimas variantes, o ovo estrelado e... o panelão de sopa no frigorífico, esse símbolo da emancipação ao fogão e aviso gástrico de ruína anunciada da civilização. Como disse, viva a sandocha e o pastel, vivam as pizzas e os frangos assados que quebram a dieta da modernidade. Ufa, esta andava-me cá enrolada, feito arauto sem mandato duma geração sacrificada, por todas as úlceras e suas irascíveis primas eu tinha de desabafar!...
E que mais? mais tudo o que me estou a esquecer, fica para outra vez. Um bom fim-de-semana, saiam, larguem os pc's e vamos apanhar sol na moleirinha, espreitar as miúdas que já se descascam com o calor, procurar uma sombra num jardim ou uma mesa duma esplanada. A canícula é agreste mas nem ainda começou a sério nem é só espinhos: há pólen mágico no ar.
Entretanto, em Inglaterra, Lewis Hamilton dá décima e meia ao bi-campeão em título, equipamentos iguais... até onde irá este puto?
ah! e escrevi um e-mail a uma das pessoas que mais estimo. sem saber se serei compreendido mas desejando profundamente que sim.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

cartas à musa: as letras do silêncio

telefonei-te, Inês. deixei tocar até a minha esperança morrer com a campainha que não paraste, qu'a tua voz não silenciou. eu silenciei-me. emudeci mais umas gramas, estou obeso de solidão: faltas-me, estou gordo, grávido da tua ausência. queria ser capaz de parir o meu amor para que nós, seus pais, o segurássemos nos braços e nos enlevássemos com o carinho que essa criança, esse bébé, nos traria, que nos beijos que lhe dávamos houvesse o sabor a sal daqueles que nos meus sonhos trocamos, que lhe segurássemos as mãozinhas com a ternura que no antes o escrevi e o gerou. queria dizer-te isto mas o telefone não deixou, tocou repetitivo, sempre igual, tão igual que é o silêncio quando não te sinto. e eu não posso parir mais, estou cansado pelas contracções que se agigantaram, pelo toque que se repete sem ser interrompido, pela ausência da tua voz que diga «sim, estou». e eu emudeço, mirro, olho o passado com um sorriso que fica triste quando o pensa ido, perdido lá tão longe, não disfarço ou evito que a lágrima se solte e corra livre onde, antes, os teus dedos me acariciaram, disseram-me «sim, estou» na linguagem mais sensível, a ternura da carícia. quantas vezes (t)o escrevi...
preencho o silêncio com memórias, engano-me julgando-as eternas porque sempre actuais. tudo mentira: eu sou Pedro, não posso parir qualquer "fruto do nosso amor", tu, musa, não ouves na campainha que soa qualquer trinado de amor e cerras o teu útero, recusas parir crianças indesejadas e rasgas na indiferença estes papéis que te escrevo. quem te poderá censurar? nem eu, pai em projecto que fali de intenções e, gasto de sémen não desejado, ouço o trim-trim do silêncio, calo a voz no eco do telefone que não foi atendido, o vazio assume-se e muito lentamente, tal como em filme rodado em câmara lenta vejo a minha mão pousá-lo, emudeçê-lo, calo com um clique os toques sem eco humano, sem a tua voz e sem nenhuma criança que embalemos, ligo o computador e escrevo-te a voz que não consegui que fosse ouvida, as letras do silêncio.

pedro