quinta-feira, 23 de agosto de 2007
transgénicos
segunda-feira, 20 de agosto de 2007
comentários
besugo, lolita e alonso
sábado, 11 de agosto de 2007
quando entro num elevador com uma mulher, penso sempre em sexo
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sexta-feira, 10 de agosto de 2007
Magic!
(foto de Fátima Condeço)quinta-feira, 9 de agosto de 2007
à terceira: Mário de Carvalho
terça-feira, 7 de agosto de 2007
interrogo-me
canso-me
domingo, 5 de agosto de 2007
Fórmula 1
sábado, 4 de agosto de 2007
eutanásia
Ontem, quando cheguei, seriam umas onze da noite, como tantas vezes ele veio receber-me, sequioso pelas palavras de carinho que não lhe negava, nunca. Permiti-lhe roçar-se na minha perna mas como sempre não muito pois, abandonado às doenças (e por elas), o pêlo ralo mostrava a pele em úlceras, quistos, um tumor do tamanho duma bola de ténis numa perna. Essa perna que, hoje, há uma hora e picos atrás, eu pisei com a roda do carro – a mesma que, ontem à noite, eu o vi a cheirar quando fechei a porta para as escadas do prédio? – e parti-lha. O uivo foi terrível, terrível. Foi um choque ouvi-lo, mesmo habituado que estava, estávamos, a ouvi-lo gemer toda a noite à porta da casa ‘da dona’, a que «gosta muito de animais» mas que mal a doença de pele lhe apareceu há uns dois ou três anos atrás pô-lo a viver na rua, provavelmente por cautelar receio dela se transmitir aos restantes animais que mantém, encarcerados, num anexo, onde uivam ao calor horas a fio. O olhar dele, a dor dele. O seu gemer, esse ganir de dor. No banco de trás do carro, olhei-o várias vezes enquanto seguíamos para o veterinário. O gemer lento, sofrido, olhava-me e nem sei se me ouvia, ouvia o meu chorar que não conseguia dissimular nas palavras que lhe dava. O olhar dele, as pupilas quase a desaparecerem e o branco assustador, o ganir lento assustador. Não gemia muito, havia silêncio na dor que se lhe via, havia… resignação, talvez. Chorava noites inteiras, lamentava-se à porta da ‘sua casa’ pelas dores e pelo abandono, acredito.
O veterinário disse-me que além da fractura e de tudo o mais à vista haveria provavelmente lesões internas. Houve eutanásia mas não consegui assistir, fiz-lhe uma última festa, um último carinho sem medo de contágios ou do pestilento cheiro de abandonado, e vim cá para fora. Chorei. Sei que hei-de chorar mais quando, estacionando, lembrar-me que nunca mais o verei aproximando-se do carro abanando a cauda, os olhos em mim e o latido de carinho, sempre o roçar tímido e os olhos pedindo uma festa, carinho mútuo que não nos negávamos.
domingo, 29 de julho de 2007
água, muita água
breve ensaio sobre a solidão
quanto mais nos nomadizamos mais interiormente ficamos sedentários. idem, ibidem.
se calhar isto seria um bom começo de ensaio, daqui discorria-se e citava-se, floreava-se, titula-se em mui nobre parangona e põe-se assinatura no fim. ensaio sobre a correlação entre as paixões e as solidões, a sempr'eterna dicotomia humana que, não prescindindo do fogo dos sentimentos resguarda o couro e o cofre das investidas predadoras. predadoras, interrogai-vos? sim, digo: a paixão é predadora, saliva por 'possuir' o bem-amado, é algoz de silêncios e recatos, independências.
o céptico enquanto jovem amou e desejou, perseguiu e cortejou, iniciado nas artes de galanteria fez as rimas mais incríveis para, à guiza de prémio mor, obter atenções e correspondências, sacrifica o seu mundo em nome da mítica 'paixão', droga dura dos sentimentos. em desagravo obtém felicidades que os tempos mostram perenes, risos e estertores que, momentos, só isso duram e na memória fenecem pois ela lembra é dos estilhaços, da implosão íntima de ícones e o longo suspiro pelo estado antes da arte, a saudosa, preciosa, almejada solidão. paixão é dependência e aos cliques de descavilhar de granadas não há heróis ou heroínas, há que buscar nos salvados os restos do Eu, correr cortinas sobre o mundo. a solo.
heis, em crueza e em tosco, retrato de cenário após a fim das ilusões. esta é conhecida, não tem autor além da sapiência das gerações que a repetem desde que os olhos se perdem no horizonte, reclamando eremitismos que o protejam das desilusões: cada Homem é uma ilha. nem atol de lindos corais ou arquipélago de radiosas praias: apenas ilha. a sua. somos sócios do Club Med por falta de fundos e, pudéssemos, comprávamos viagem para ilhas longuínquas, sós. no farnel mais que o prático pois há mais coisas indispensáveis, há silêncios e há momentos, aos mais feridos há o lamber delas, chagas que os estilhaços abrem. falo do amor em versão paixão, mas falaria pelas mesmas palavras de qualquer recanto no mundo além cortinas, do formigar e dos carreiros, em olhos abonados de desilusões. tantos. ardendo em saudade da solidão, vigiando torniquetes onde mais sangrou e, os olhos, sempre esses temerosos da dor.
reclama-se o idílico nas vidas espreitadas em décor. não acreditando nas páginas policromáticas de felicidades imensas, mas invejando-as sempre um pouco, tapa-buracos de solidões. ardendo, no tal fogo lento que arde sem se ver, dizia Camões, poeta que se hoje vivesse se suicidaria. os sorrisos que não temos e, quando em transe e julgando tê-los, foram esgar foram dor: as cicatrizes contam do mapa que os estilhaços desenharam, também das compresas e das cortinas, do placebo de mentir acreditando nas páginas de felicidade alheia, qu'as paixões vêm com rótulo de eternas e, desta vez, na sua composição não haverá anabolizantes que façam mal à saúde, ao Viver. sem corantes nem conservantes, desta vez é que é e não será mais um sonho de plásticos, pfff quando fura e acaba, dardos, torpedos, granadas que explodem no silvo da sua morte. Ilusões.
todo os dias há um barco que parte, e todos os dias procuramos o seu cais. nunca o vemos mas ouve-se o apito quando passa e, em baque, olhamos para o lado para ver se há mais passageiros em terra, se da coincidência de busca de cruzeiros para míticos arquipélagos não há ilhas que se juntem, namorem. que vagueiem nos oceanos dando costa a costa, as areias molhadas e misturadas, o perfeito postal ilustrado. semeiam-se carências e espera-se que nasçam palmeiras, dóiem os olhos quando o recordam no após, na pradaria do silêncio onde correm os que fogem aos predadores e, também, o velocista que temos quando "os estilhaços da paixão dóiem mais que os dardos de Cupido", coisas assim.
a solidão não é auto-suficiente. agiganta-se em temores e rema-se, rema-se para alcançar o porto, aquele donde sai o barco que deixa sinal sonoro e desperta do clorofórmio que se inala. há sempre movimentos de remos, círculos nas águas em volta de nós: boía-se em lagos de imaginação, ricos em contos de fadas e outras adrenalinas mais abastardadas, mexem-se os remos com vagarosas braçadas de esperança: não morri, afinal; os combates perdidos não mataram o gosto à modalidade e, podendo, farnel às costas e adieu Club Med. longe, na ilha mítica, a Solidão.
em final: digavando ao deus-dará cheguei a isto. uma rotunda. tantos caminhos diferentes que partem dum porto só, tantas as teias que se cruzam quando os temas escavam os cantos e descobrem os metais dourados cheios de pó ou, às vezes, verdete e sarro em crostas. servir duas senhoras antagónicas é complicado, paixão e solidão ainda mais. pessoalmente divido-me em acessos de carências afectivas sempre por saciar e longos roncos de silêncio olhando o horizonte da solidão, a tal idílica. o meu pensamento seguiu diversos rumos, espreitou as saídas da rotunda, divaguei. deseremitei-me, vim à vila buscar mantimentos e sentei-me a dois dedos de conversa. hoje de solidões, à próxima em ilusões. para equilibrar.
quinta-feira, 26 de julho de 2007
Ela, Princesa
quarta-feira, 25 de julho de 2007
:-( e :-)
O título é à boa maneira do nosso "Tal & Qual". Eu não sei se o "Savana" é o "Tal & Qual" de Maputo. O que sei é que não são boas notícias, e com uma periodicidade preocupante.
:-(
Aqui, um Grupo MSN, fala-se no tema e com estas bases de debate, a várias vozes e olhares.
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Entretanto e porque a vida são mesmo dois dias e convém não esquecer as alegrias do já decorrido, lá no mesmo blogue ("Estrada Poeirenta" de António Oliveira) o João Fróis continua a abrir a arca e a provocar gargalhadas! (já agora e que estão com o clic na massa leiam também esta que faz parte da saga...)
:-)
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O jpt leu o meu Xicuembo e deixou nota de quem o entendeu. Nos comentários sanei a discordância apontada. Sendo um livro de memórias que se cruzam com o olhar 'de hoje', hoje, caso pudesse, reescrevia-lhe muitas partes. Claro que não me refiro só à gramática e adjacências que bem necessitadas estão. Sei lá se mal da velhice, mas cada tempo que passa mais amargo fica o remexer no passado. Tenho de acabar com isso, por receita médica.
Ir 'lá'? há poucos dias atrás comentei das minhas angústias acerca duma visita memorabilista. Da insatisfação e temor que assim se torna. Ontem, e a pretexto do aniversário da "nossa cidade", a Madalena do 'Chora-que-logo-bebes' abriu o coração e contou das suas angústias. Minhas, também.
Um dia tenho de resolver 'isto'. Se calhar só tem cura com uma ida, seja qual for o regresso. Ou nem isso.
que 'smiley' meto aqui? :-\
terça-feira, 24 de julho de 2007
verde verdugo
medrou e fez-se daninha.
moita, arbusto, os ramos cresceram
e ofendeu árvores e fendeu muros,
cujas sombras a protegiam.
sonha-se poderosa raiz,
chama a natureza de toda sua:
julga-se sequóia, Imperial.
estende as folhas e os apêndices
arrogantes - os picos, a todo o quintal.
é de sua Natureza: nasceu rasteira
e essas, míopes, ciúmam-se trepadeiras
- um botânico explicará do porquê
das daninhas serem assim...
mas não é precisa tanta inteligência:
olhe-se-lhe o jardim e vê-se a seiva ruim,
flores artificiais, ódios, e o fel.
nasceu erva rasteira, medrou e fez-se daninha.
nem o verde o oculta, já.
sábado, 21 de julho de 2007
Hoje, aqui
Periodicamente todos temos um sonho mais recorrente. O meu maior desejo neste momento é ir-me embora de cá, livrar-me e à minha mulher do que ainda nos falta ser vivido neste pesadelo diário, esta desilusão que cresce cada dia mais que passa. E, aos filhos, dar-lhes hipóteses de sanidade que cá dentro serão migalhas, milagre. É ainda mais triste por ser verdade. |
segunda-feira, 16 de julho de 2007
tags: o post anterior + candidaturas de independentes + romances policiais
sábado, 14 de julho de 2007
a asfixia
(links trocados mas vai dar ao mesmo: ambos os posts tratam do mesmo, a amargura de viver hoje, tempos de chibata)
domingo, 8 de julho de 2007
blogspot, hoje
até amanhã, calhando
adenda ao bula-bula de ontem (secção de culinária)
sábado, 7 de julho de 2007
bula-bula de sábado
segunda-feira, 2 de julho de 2007
cartas à musa: as letras do silêncio
pedro
coisas da vidinha
sábado, 30 de junho de 2007
o Nu engravatado
As camisas dos Andes que se vêm nas barracas de artesanato das feiras, em linho, daquelas às riscas multicolores e algumas com um capuz, mangas largas e muita, muita frescura à vista, mais do que os dois botões de aperto em nó e pauzinho mostram, são muito bonitas e até me admiro em como ainda não tinha pensado nelas para este Verão. Claro que mal falei assim em voz alta, correndo-as satisfeitíssimo com a descoberta e as combinações cromáticas possíveis, recebi pouco entusiasmo. Houve equiparação da menina-dos-meus-olhos a pijama, ou nada encorajadoras além do simpático «sim, não é exactamente feio…», ao certo pensado em versão mais pormenorizada «enfim, ao menos que seja só a camisa e não se lembre do conjunto, calças e sandálias a condizer...», houve um abanar de cabeça que já julgava esquecido desde que meti um brinco na orelha – esquerda, sem confusões, e eu não trouxe nenhuma. Eram a doze euros cada, conta já se vê que boa para acertos a quem levar à variedade, o que até nem é difícil quando tendo-as na mão e os dedos tacteando a textura, dela se extrai sem cerimónia e respeito pela loja mais que um fresco corporal em corte exótico e informal e evola-se uma filosofia de vida, alçam-se asas na frescura garrida duma camisa e, não tarda, está-se a assinar petições para uma magna reunião no green em frente ao Pentágono, baforadas mais esclarecidas e menos voláteis que as do (semi) fracasso de há quarenta anos atrás: uma multidão hippy abancou nos jardins e fumaram quilos de erva em volta do solene monstrengo, convencidíssimos que as ondas mentais e a fumarada que as afina eram suficientes para fazer erguer-se o edifício inteiro - e aquilo dizem que é mais que quarteirão-e-meio... A ideia seria a que, voando, das duas uma: ou os seus generais-habitantes compreendiam que há mais coisas no mundo que papéis e bandeiras e cancelava-se a guerra (Vietnam, então) ou não o percebiam e o calhau subia, subia, desaparecia na estratosfera, out completo que permitia a esperança de, esvaziando-se o cérebro mau, acabarem as maldades no corpo. Já li que há quem ainda jure, quarenta anos depois, que «sim! aquilo levantou pouco mas lá que levantou levantou, foi que eu vi e lembro-me bem...», tal a festança que foi. E ajudou, a fumarada e as boas intenções foram grãos de pó nas cinzas que ajudaram a subir o sentimento nacional anti-guerra, a acção objectivamente poderá ter sido um desastre pois o monstrengo ainda lá está, pedra cal e cruzes e sem vontade nenhuma em levitar para uma visão global do mundo mais esclarecida, mas logisticamente imagino o inverso. Sem o garrido das camisas dos Andes da época, ao que me recordo e as velhas fotografias mostram com muitas cores, feitas vasos de flores e desenhos psicadélicos, os sessentas a virar para os setentas e o velho mundo quase a acabar (vivia o seu apogeu), sem isso ele não se tinha mexido um centímetro. Cinicamente podia acrescentar que os sentimentos anti-guerra são mais fortes quanto àquelas que soam a perdidas mas não o faço, prefiro acreditar que ele até levantou um bocadinho, mais meia camioneta de erva e da boa e tinha mesmo arrebitado, e não tinham advido os tantos sucedâneos que enchem aquelas paredes de mapas. Uma feira e uma noite de Junho, uma barraca de artesanato com camisas lindas, linho do melhor e eu a pensar nas manifs onde não fui pois soube delas tardiamente e interrogo-me se ainda com pulmão para tanto, se ainda há ícones ou réstea de fé neles, se hoje a solidão que enche a Internet de barulho não se lamenta no garrido duma camisa, no sonho duns Andes que não conheço como, afinal, descobri recentemente que não conheci Che mas tive-lhe um poster na sala. Era uma sala de altares, foi há trinta e tal anos atrás e hoje, quando penso em redecorar-me, poucos daqueles posters voltam à parede da sala. Só a doze euros mas eu acabei por não trazer nenhuma, apalpei-as tanto que fiquei com medo de, vestindo-as, a magia perder-se e passarem a mero pijama, dando razão a quem avisa que sonhar demais faz compras carotas. Que fosse pelo fraco modelo que físicamente sou é o que menos me rala; pior, bem pior, seria se descobrisse que ser hippy fora d'época é como camisa andina de barraca de feira, como descobrir que é verdadeira a estalada que nos diz que não vivemos uma época em que sonhar é benquisto, onde uma camisa garrida, exótica, não é vista como mais do que isso. E isso dói, mais a mais a quem dorme nu, hesitando entre baforadas de sonhos que cor terá a realidade para que mexa e levite, como é que se redecora a sala do individualismo, quando é que nos juntamos outra vez e se alguma dia haverá dito que «dessa resultou mesmo, lembras-te?», que não pois já não há posters nas paredes. Uma camisa na mão, dos Andes ao caso. Na tenda ao lado havia estátuas, madeira negra esguiamente padronizada. África. Nem parei, àquela altura já nada me servia e doze euros hoje em dia já não compram quase nada, à mão meia dúzia de pensamentos em textura de linho garrido, cores e cores e quase mais nada, uma vez ou outra um capuz que poderá dar jeito quando há que desligar do mundo, procurar a frescura, levitar, o sonho alvoroçado, a pergunta de porquê ele acontecer quando estamos sozinhos, todos tão longe do green e com uma bonita camisa andina na mão. Foda-se. |
sexta-feira, 29 de junho de 2007
domingo, 17 de junho de 2007
e sabem que mais?
quinta-feira, 7 de junho de 2007
os capítulos morrem de pé
é-se egoísta quando o calor das brasas do borralho faz frieiras, dores que a ânsia de confortos induz quando o coração responde desvairado ao apelo por calor. isso entendo e assim entendo-te quando o teu silêncio me pergunta se chego a pensar em ti, do que desejas e precisas, e eu percebo que as minhas cartas são o teu recreio, não a realidade de após tocar a campainha e guardarem-se os brinquedos, a bola num canto junto ao muro e no chão de cimento o arco imóvel - qu'a cintura esguiou-se e cresceu, engordamos nas necessidades e hoje somos gourmets nos petiscos, é-se egoísta quando se insiste em alíneas da ementa que têm ao lado a cruz terrível do produto esgotado, as dietas necessárias quando há é que diminuir o colesterol que entope as veias do sobreviver. mas nesta última "carta à Musa" vou falar-te noutras coisas, literárias e terríveis:
na pág. 640 do último Crichton canibais ecologistas da polinésia comem Bradley, vivo, a dar conta das facas cortando-o até tudo se apagar. terrível, página e meia que impressiona mais que mil em apologia de exercícios intelectuais para saciar ideologias mal resolvidas. Lecter enquanto jovem (agora Harris, Thomas), fez uma espetada com as bochechas de Dortlich, equilibrada com trufas que estavam a cem francos nos locais de culto de Paris e ele apanha do chão de bosque letão, em volta do pavilhão de caça onde Grutas e os outros comeram a sua irmã pequenina, Mischa. há guerra na literatura. há quem escreva 'terror' com as letras todas em bold e isso vende, consome-se em milhões e milhões, saliva-se por best sellers e encontra-se o choque térmico dum nó do estômago, o frio que se instala e, em comparação enquanto o rosto se crispa mas os olhos não despegam, suaviza o quotidiano quando não se lê a baba de quem escreve, mais repelente que o espelho que nunca olhamos. e, pior porque se fala de livros e isso merece mais respeito que o àqueles que os escreveram, renova-se o compromisso de leitura e há manchas do nosso sangue nas estantes que crescem, às vezes tenho medo de me ler lendo, nem todas as lombadas me merecem olhares indiferentes ou sorrisos de prazer, eu estou escondido em tantas e tantas e escondo-me disso e de mim na secção das puzias e poesias, delicatessen onde te encontrei e faço-te esta gulosa corte.
eu engano-me e sirvo-me escrevendo "a Inês", imortal e renovada senhora das mais românticas ilusões, mães de todas as outras e se a filharada é pequena... às talhadas, aos pedaços, canibal de mim mesmo. sou pior que eles: não me chega a carne inocente da personagem, necrófilo e autofágico lúdico acrescento-lhe a minha, de babete e em beijos e lambidelas amacio-a colada à dela, musa Inês, ferro-lhe dentes roubados e engordo comendo os bocados de mim que mais detesto. sou o meu hit e darei um banquete público quando servir o umbigo, adornado com camarões de promoção fritos e vinho de garrafeira falida, qu'o provarei todo antes das visitas entrarem e verem como quase todo azedou pelas más rolhas que deixaram entrar o ar da realidade. foge de mim, eu não presto.
seduzi-te nas minhas páginas, disse-te todas as palavras de encantar de que me lembrei. houve momentos bonitos, sei. Inês foi rainha e não foi só por um dia, foi uma glória a sua deificação e foi justa, merecida à musa e ao escritor. crescemos juntos, foi lindo o jantar às velas de Carlos-Pedro e a sua Inês. com flores, vendidas num qualquer restaurante do Cais do Sodré por um marroquino com um colete cheio de bolsos de maravilhas a pataco, flores com luzes e rosas de que escolhi duas margaridas e pu-las no teu regaço. tchins-tchins íntimos a que a saudade não será nunca indiferente, mais naquela manhã em que me levantarei antes do dia nascer e irei ver o verde dos campos àquela neblina das primeiras luzes da realidade onde os castelos se desintegram, as românticas muralhas e os altivos torreões, engalanados, agora celas de prisão conquistada com pleno mérito, em pior alternativa muros caiados do cemitério onde jazem as palavras bonitas, as loas, as estantes das ilusões onde lado a lado com a poesia e a metafísica há sempre lugar para um novo livro com veias abertas, a páginas tantas o canibalismo do autor e da personagem, a confusão de identidades onde as belas muralhas não costumam resistir e ruem, nasce a tristeza e seca a flor. crescemos juntos, sobrevive tu enquanto preparo esta espetada de mim, o truque da receita vai além do pau de loureiro e do marisco, ervas finas, ponho-me em saldo e corto lascas da minha melhor chicha, os lábios que te beijaram e os dedos que te escreveram, 'inventaram' - eis o melhor naco, pièce de résistance aos esfomeados da literatura quando esgotadas as palavras belas do enamoramento, Inês abandonada e deixada à vossa mercê por um escritor canalha.
As melhores paixões literárias são sempre as que estão por vir, ainda nem suspeitadas quanto mais delas escritas os primeiros gatafunhos: Inês é eterna para quem acredita em fábulas com musas e outros seres fantásticos, Tolkien dum sorvo e Roberto A. Heinlein, 5 Hugo, noutro. digo dos Hugo porque num universo de tarados ganhar uma medalha de mérito é obra tão difícil como fazer versos que mereçam um prémio de Poesia, ou nas filas de sangue da estante haverem lombadas com marcas de uso, revisita a Capote e a Carrère, à límpida Patricia Highsmith (mordibizei isto, já não há volta a dar-lhe: siga) os autores morrem e continua o ciúme. de não ter morado em Coimbra à rua Guerra Junqueiro e, por isso, apenas por isso, não ter sido um craque como o Assis Pacheco. nem em Benfica e nunca estive em Angola com desejos de me casar como o sacrossanto ALA, rapaz então tão novo e eu agora já tão velho, acentuadamente coxo para me notabilizar em futeboladas de passeio e longe demais para ir aos domingos de manhã brincar com a areia da praia das Maçãs. fiquei bêbado com estas ilusões e querendo continuar a festa descobri que a cortiça que me guardava o vinho o fizera zurrapa em quase todas as garrafas, um pico ácido no travo, vinagre, vinagre e não o néctar da uva dos vinhedos que abundam no campo e na charneca, a ilusão da minha garrafeira cheia mas mal estimada e conservada, zurrapas com rótulos enganadores, escrita fina que quando se leva aos lábios não presta.
é o fim de 'Inês', no cascalho que sobra alguma relva nascerá e, nela, um pouco mais tarde aparecerão flores silvestres, os miosótis de que tanto gostas e que me recusas, para que no meu excesso romântico não os mate, arrancando-o da sua felicidade com raízes profundas, tão profundas como a beleza do mundo, em sacrifício do teu colo, belo sim, mas perene como todas as paixões pois mesmo as literárias têm as suas páginas finais de romance. doravante escreverei folhas onde haverá caldeirões a ferver, vira-se a página com ânsias mórbidas de ver o que acontece quando o olhar do condenado entende que está a olhar para a guilhotina que o irá já já decapitar e cegá-lo, o patíbulo onde o laço o espera e a luz a esvair-se no aperto mortal da forca (sou um óptimo leitor de mim, sossega bela Inês que nunca esgotarei por vontade este filão, egoísta e narcisista como sou)
não quero nesta última 'carta' lembrar momentos e recordar frases como em elogio fúnebre. quero olhar para a estante e ao ver a tua lombada acreditar que no editado estão páginas de paixão, linhas de palavras tão vastas como as carícias que te dei e eu sei que excedi-me, nas epístolas destapei poros ocultos pelo pó dos anos e lambi-te e lambi-me de ponta a ponta. não sou um vaidoso falso pois sei que a minha língua é suave quando soletra com ternura, não tão ágil e sabida como as dos nomes consagrados do voyeurismo literário mas foi suave no cunilingus que te escrevi e dediquei. guarda o teu exemplar, cada página é uma dedicatória à mítica Inês, à musa. no meu há páginas com borrões das lágrimas, das belas lágrimas nascidas por amor. não tarda e outro escritor te encontrará, escreverá novos elogios em novas palavras inventadas. é que, espremida a literatura e exangue o autofagismo do autor e do leitor, sobrevive sempre o amor e há sempre um novo amante de dedos ágeis que o escreva, escrever-te para seduzir-te perpetuando o mais belo mito literário, tão perfeito que há momentos em que Inês salta das folhas e vive lado a lado com o seu criador. reencontrar-nos-emos pois sou um leitor adito, insaciável. o sino soa e os pássaros levantam voo em revoada, o céu é sempre lindo quando o seu chilrear esvoaça.
com muita ternura do que foi teu escriba dedicado, Pedro-carlos