segunda-feira, 16 de julho de 2007

tags: o post anterior + candidaturas de independentes + romances policiais

'chibata' mesmo metaforicamente é forte, que ainda estão tantos vivos que a conheceram e, pior, ainda conhecem. peço desculpas, usei sem pensar.
fico-me pelo policial negro disfarçado em romance igual. não o le Breton ainda que esse à segunda folha já matou quinze e põe o sobrevivente a caminho do hospital, conduzindo cada vez com mais dificuldade pois as tripas que lhe escorregavam do ventre esfaqueado, iam enrolar-se junto aos pedais e ele estava com pressa. calma. mas Dashiel Hammet concerteza, e amantisado com a tonta paranóica da Patrícia, um monstro novo em cada dia.
a ideia de que não sabemos nada do amanhã, dos amanhãs que vêm depois do hoje, este o que dói e faz pensar que talvez os amanhãs sejam melhores. a esperança. e cada ogre novo que aparece nos hoje que foram esperançosos amanhãs junta-se à matilha dos que já comeram tanta coisa, e que lhes sejam indigestas as tantas nossas desilusões. afinal um policial negro onde, lá pelo segundo ano e picos de mandato já o Primeiro-Autor assassinou pelo-menos-quatro e corrompeu um quarto da polícia, espetou com cenas de sexo tórrido até dizer mais não, daquelas onde - e utilizando uma expressão que um comentador destacou - entra-se em orgias sem ter sido avisado onde somos fornicados e bem fodidos. fica-se a pensar nas páginas seguintes e que novos horrores virão naquele meio-livro e meio-mandato que faltam, a sensação de 'tirem-me deste filme' onde vou ter de lê-lo todo até ao fim, sobrevivem uma sopeira e um polícia de trânsito, tudo o resto esvaído por esventrado, cheio de buracos que nem um passevite, aquela coisa dos ovos estrelados. pesadelos onde há pelourinhos (e lá voltamos à chibata) em que o autor tortura as vítimas-leitores junto com os personagens, sádicos faz-nos temer uma porta aberta ou uma fechada, alternadamente. diverte-se enganando(-nos/-os) nas pistas, nas primeiras folhas, seu início de campanha e de romance que pretende longo, engana-nos dando-nos pistas de felicidade colectiva, meio caminho par se obter a individual. mas logo as páginas derrapam, citam-se outros autores e até se metem académicos à bulha, tal a densidade narrativa que nos diz, muito claramente, que há engano em qualquer coisa pois, afinal, para se atingir o Céu o interrogatório é precedido de penitência e das duras, e o filtro para uma cara genuinamente alegre cada vez está mais fino, menos se vêm quer na rua quer nos espelhos.
autores assim, maníacos do avacalhamento mais sórdido dum simples fim de semana entre três ou quatro amigos - até aí, presume-se sempre, onde um morre ou fica gágá e os outros se engalfinham à vez, até o sacana do escritor-primeiro revelar que os fodidos a final, digo os tas fornicados e não sabiam como lhe calhara este filme pois não era assim que vinha anunciado em cartaz, esses, era um apenas, era o leitor. o leitor único do policial negro em que estamos a páginas tantas duma qualquer parte já adiantada, embalados, um ensaio com citações e listagem de obras consultadas que, fezendo-lhr fé, deixa dúvidas sobre se, afinal, há diferenças entre, exemplo, os pólos e o equador.
hoje há este novo 'refúgio', os "independentes". Lisboa e as para PR estão nas bocas, e os jornais sabem que quem gosta de falar muito compra-os, à procura de inspiração para parangonas pessoais. vai durar: a legislativas são daqui a dois anos e tal como eu há muita gente que não conhece bem a lei eleitoral, a ponto de saber da viabilidade de listas assim e assado, 'cá uma malta fixe', com a diferença que vão mesmo sabê-lo e eu, estando-me nas tintas para fazê-lo, acompanharei o que for tornado público, parangona, da evolução dos magnos estudos.
o que é que eu penso das candidaturas independentes? que só o são até ganharem a consistência de credibilidade suficiente para, por auto necessidade de encontrar grandes pontos de consenso nos seus apoiantes, grávidos de independências com todo o seu bom, mas também há gravidezes do caraças e as independências são solidões, cada louco com sua mania. aí, quando se auto identificam com Grandes Opções e fazem-lhe o resultado passam a designar-se assim ou assado, encontrando familiares e, em novo estatuto, até encontrando velhas amizades e camaradismos, tal identidade aniquila a independência pois, 'agora', o grupo de independentes que concorrera é empossado na perca compulsiva da independência, entrou na estrutura e, para sobreviver, estrutura-se. agora confrades pois jogam um jogo onde as regras são bem claras para os veteranos, alianças que se fazem para uma mais rápida integração, um ganhar de espaços para consolidar e... estruturar, alicerces de condomínios onde pela varanda se vê uma nesga do que existe e assim se rouba horizonte, em vez duma caravana tão independente que, quando calhava e havia gasolina, via-se o pôr-do-Sol com a certeza que os amanhãs o repetiriam, sempre mais belo.
enquanto movimento inicial, sem "curriculum" formado e sem evidentes genéticas que puxam às pernas cruzadas e aos roços por debaixo das mesas, os movimentos "independentes" soam-me bem, tratando-se de concurso onde, por eleição, supõe-se procurar os melhores para gerir o tasco, sabendo-se ele como desleixado e desgrenhado, mau aspecto e até ar de doentio. aí, estando fartos do cardápio ao enjoo e até com recordação de intoxicações alimentares em casas onde era suposto isso nunca acontecer, procura-se alternativas ao indispensável almoço na mesa todos os dias, salta-se de página pois na ementa eleitoral que nos é servida, hoje, o prato-opção "independente" veio para ficar, acredito. excepto se a lei não o permitir para o parlamento, mas, chegando a isso, por certo e "só por causa dos papéis serem precisos" a independência acabava após entusiasmantes ensaios. para rodipiar no baile os cavalheiros têm de comprar um lacinho à jovem que querem enlaçar, é regra que existia nos bailes rurais entre os grupos de moças que vinham fazer as vindimas, os 'ranchos', e o inevitável enxame de motorizadas que circundava e poeirava os barracões das quintas onde se faziam os bailes. a regra era clara e namora-se assim ou não. a outra, a sê-lo assim, não será menos clara no justificar na obrigatoriedade de, "por causa dos papéis", os Independentes passarem a Partido deles, o filho mata a mãe.
há coisa de vinte anos atrás houve a ASDI e o PRD, mas há diferenças com estes movimentos de 'Independentes" que têm surgido com sucesso quando em competição rija, no universo de eleitores a eleição presidencial e, agora, na maior cidade do país, capital do tasco onde se gastam mais pipas de vinho e chouriças, mas com graves problemas de contas com os armazenistas. no meio um meio ensaio, o referendo do aborto onde os suspeito do costume alinharam no lado que saiu vitorisoso, números contados. todos com genética de perna cruzada, adivinho casamento, digo, adivinho união de facto que é um Partido Político. Independentes com sucesso estão 'condenados' a isso, vale agora a ideia de que um dia outros deles se reclamaão 'independentes', com sorte ainda cá andaremos e, quem sabe?, dando razão à reivindicação voltar a acreditar que a independência faz falta e existem muitos mais já a reclamá-lo, 'bora a isso.

sábado, 14 de julho de 2007

a asfixia

Preocupação e indignação. solidarizei-me em comentário.

(links trocados mas vai dar ao mesmo: ambos os posts tratam do mesmo, a amargura de viver hoje, tempos de chibata)

domingo, 8 de julho de 2007

blogspot, hoje

acho que endoidou. esconde os posts, não regista as alterações, está paranóico.
até amanhã, calhando

adenda ao bula-bula de ontem (secção de culinária)

há por aí uma onda de indignação pelos comentários que eu fiz à falta de dotes culinários das donas. até insinuam que eu é só manjar, mas fazer 'tá quieto...
humpff...
.....
Bem, passado o momento do meu exercício do sacro direito à indignação e à defesa das virtudes, há que reconhecer que tenho uma desconfiança epidérmica dos dotes culinários das miúdas da minha geração. Para continuar a ser verdadeiro e, também, para não correr riscos caseiros, adianto que as razões, se as há além das decorrentes de devaneios filo-mnemónicos, não provêm do hoje pois ainda este almoço manjei um caril de arroz com camarões minúsculos que estava que nem ginjas. Com os agradecimentos directos à Webina, ao Modelo, e à loja do Amaral pois eu não mexi uma palha além de fornecer o transporte para o supermercado onde se comprou o frasco de caril e acompanhei-a esta manhã à loja onde compramos o saquito de anões congelados. A rebuscar em traumas pessoais, no máximo recordo o recorrente arroz branco com ovos estrelados que foi o símbolo gastronómico da estrondosa derrota da "primeira volta" mas, idos tantos anos, nem já deverá contar. E quanto a bolos lá calha um de vez em quando e estamos a entrar na época das gelatinas.
É outra coisa. Sempre que conheço alguma rapariga da minha idade não descanso enquanto não consigo saber daquelas artes, se calhar até descuro outras mas a magia dum aroma irresistível impera, imagino-as nuas e de colher em punho, um delicioso avental por causa dos pingos. E um repenicar estaladiço numa frigideira, sinais de fumo duma panela cheia de mistérios ou a cor a dourar dum assado, tudo erotismos gastronómicos. Não consigo evitá-lo. Há vezes em que até sou chato e pergunto pelos temperos e levo como resposta que o tempo de cozedura é que é importante. E eu calo-me logo, lembro-me de mim afoito a inventar receitas mas sempre à rasca com o relógio, com vontade de ter uma cábula escondida que explicasse mistérios como "... quando estiver no ponto..." ou, mero, "após estar pronto, ...". Arroz são oito minutos, fixei. O resto vai a olho e muita fé na sorte. Pois é. Mas os temperos, a verdadeira arte, aí fazem caixinha e não se descosem, ou reduzem tudo à mais desoladora das simplicidades ou dizem isso já ser matéria de 'segredos', intimidades que não se descosem sem adequado namoro, não é coisa que se partilhe assim, 'segredos', lá vem à memória o ditado que diz que ele é a alma do negócio.
Se puxo a conversa para a área dos doces, então, é uma tragédia. Coram, puxam de paixões & razões fundamentalistas em relação à saúde, fazem-me sentir-me aterrorizado a pensar se esta minha amiga um dia chega a ministra, secretária de Estado. Tudo desculpas: fizeram um bolo aos quinze num concurso entre amigas, ou escolar no bom tempo em que havia para elas lavores e culinária, para eles trabalhos manuais, hoje refila-se da cozinha como eu faço mas também parece ser coisa complicada mudar uma lâmpada, arranjar uma fechadura, alegremente fazer um tuning ao carro que fará pensar à vizinhança que, aqueles, enlouqueceram de vez. Depois lá se casaram e lembraram-se do bolo aos quinze, houve meia dúzia de tentativas mas nem melhoraram ou pelo menos insistem: há muito que os bolos que são bolos, gulosos, vêm de fogões familiares, geração sempre a anterior... A minha sogra faz um 'chifon' que a filha bem tenta imitar mas não consegue. Insiste rapariga, insistam mas é todas! o bolo dos quinze não morreu, ressuscitem-no cá p'ra mesa. Por mim prometo arranjar o pé dela e antes do Inverno calefatar melhor as janelas.
E faço um extraordinário esparguete e uns admiráveis ovos, até me parece que já não está nada mau.

Maputo

tá mau, tá...

sábado, 7 de julho de 2007

bula-bula de sábado

As semanas agitam-se em ondas, sendo que a culpa não é só do calor: há conjugações astrais propícias ao rolar de berlindes pela areia procurando o mágico plim! de tocar o outro, a covinha aconchegadora. Começo por onde calha e sigo por onde for calhando:
Fui a um lançamento e trouxe mais que um livro + um autógrafo personalizado: espreitei de longe quem admiro, finalmente conheci um enigma da (minha) net/blogosfera e fiquei contente com isso, mangusso gosta de mangusso. Além dele, verdadeiro Number One da divulgação via Net da cultura moçambicana e seu património, (e defesa...), empatizei no imediato com quem muito me tem feito sorrir ao ler memórias passadas na 'terrinha', tempos de quando eu também jovem e moço: a exemplo leia-se esta, mas é só vasculhar no baú que há por lá muitas mais - e bem escritas, agradável norma que aliás se estende a todo o blogue.
Em véspera partilhara uma sopa da pedra, um peixito grelhado e muita bula-bula com um jovem a quem - juro! - eu e a Webina (minha mulher) acreditávamos, sei lá porquê!..., ter alguns anitos mais daqueles que mostrou, riso fácil e muita simpatia e não o 'circunspecto académico' que o nosso imaginário construíra... Falou-se principalmente da 'terrinha', quer em pormenores menores como divagações acerca da rua tal e prédio tal, a conversa do "lembras-te?", também da literatura que lá vai havendo, da que cá chega e da que não embarcou, e muito de pessoas e de políticas para as pessoas. Foi muito agradável, André, sei que não to disse pois essas coisas não são para se dizer mas, em ti, reencontrei razões para manter a candeia da esperança acesa quando se trata de pensar no futuro do 'nosso' país!
Embora por meritória causa - e força, Marlene! 'verás que verás', tu entendes o que digo!, a pandemia das sopas congeladas em panelões chegou às mães, as ainda salvadoras da estabilidade da diversificação culinária da civilização ocidental, quem nos salva de viver à roda da sandocha e do pastel de bacalhau, McDonald's e Pizza Hut! Estas 'gajas' - no bom termo, please!!! - da minha geração são uma desgraça na cozinha, agravada com a crise de consumíveis e de irreverências que leva a já há umas boas três décadas não conhecer o sabor dum bolo de 'erva', vá lá um 'chifon' quando há festa e o resto vem do supermercado ou da pastelaria... Andaram de alva bata no 'gineceu' e tudo, até se licenciaram melhor que certos engenheiros mas, se cumpriram as suas disciplinas específicas obrigatórias foi coxas nas de artes culinárias e, a benifício de dúvida, talvez com um botão cosido em Lavores Femininos que lhes valeu magros dez valores. Razão que lê-se, por vias que o bom e sabido garfo e cavalheiro ocultou, quando, a fls. 87 do seu magnífico "Cozinha para Homens: a honesta volúpia" (Colares Editora, 1992), Alfredo Saramago conta assim:
"Dizia-se que, para uma refeição ter condições de ser elevada à excelência máxima, deveria ser uma refeição só de homens! Às mulheres ficava reservada a missão de bem fazer cumprir os pedidos vindos da sala de jantar", depois justificando com elegância e galanteria, maila sã verdade: "Não existe machismo nesta prática infelizmente quase a desaparecer. Era uma forma de respeito pela refeição e uma declarada consideração pelas mulheres, era uma prova de que «as atenções não devem ser partilhadas, mas irem por inteiro para o que guarnecia a mesa e não para o que a rodeava»", terminando esta profundidade filosófica com o judicioso comentário: "Os nossos avós sabiam que não era agradável dividir o interesse por uma iguaria e uma mulher. Todos ficavam a perder".
Voilá... hoje vivemos tempos cujas mesas caseiras anunciam a certa proximidade do fim do mundo, impera a massa cozida e com pouquíssimas variantes, o ovo estrelado e... o panelão de sopa no frigorífico, esse símbolo da emancipação ao fogão e aviso gástrico de ruína anunciada da civilização. Como disse, viva a sandocha e o pastel, vivam as pizzas e os frangos assados que quebram a dieta da modernidade. Ufa, esta andava-me cá enrolada, feito arauto sem mandato duma geração sacrificada, por todas as úlceras e suas irascíveis primas eu tinha de desabafar!...
E que mais? mais tudo o que me estou a esquecer, fica para outra vez. Um bom fim-de-semana, saiam, larguem os pc's e vamos apanhar sol na moleirinha, espreitar as miúdas que já se descascam com o calor, procurar uma sombra num jardim ou uma mesa duma esplanada. A canícula é agreste mas nem ainda começou a sério nem é só espinhos: há pólen mágico no ar.
Entretanto, em Inglaterra, Lewis Hamilton dá décima e meia ao bi-campeão em título, equipamentos iguais... até onde irá este puto?
ah! e escrevi um e-mail a uma das pessoas que mais estimo. sem saber se serei compreendido mas desejando profundamente que sim.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

cartas à musa: as letras do silêncio

telefonei-te, Inês. deixei tocar até a minha esperança morrer com a campainha que não paraste, qu'a tua voz não silenciou. eu silenciei-me. emudeci mais umas gramas, estou obeso de solidão: faltas-me, estou gordo, grávido da tua ausência. queria ser capaz de parir o meu amor para que nós, seus pais, o segurássemos nos braços e nos enlevássemos com o carinho que essa criança, esse bébé, nos traria, que nos beijos que lhe dávamos houvesse o sabor a sal daqueles que nos meus sonhos trocamos, que lhe segurássemos as mãozinhas com a ternura que no antes o escrevi e o gerou. queria dizer-te isto mas o telefone não deixou, tocou repetitivo, sempre igual, tão igual que é o silêncio quando não te sinto. e eu não posso parir mais, estou cansado pelas contracções que se agigantaram, pelo toque que se repete sem ser interrompido, pela ausência da tua voz que diga «sim, estou». e eu emudeço, mirro, olho o passado com um sorriso que fica triste quando o pensa ido, perdido lá tão longe, não disfarço ou evito que a lágrima se solte e corra livre onde, antes, os teus dedos me acariciaram, disseram-me «sim, estou» na linguagem mais sensível, a ternura da carícia. quantas vezes (t)o escrevi...
preencho o silêncio com memórias, engano-me julgando-as eternas porque sempre actuais. tudo mentira: eu sou Pedro, não posso parir qualquer "fruto do nosso amor", tu, musa, não ouves na campainha que soa qualquer trinado de amor e cerras o teu útero, recusas parir crianças indesejadas e rasgas na indiferença estes papéis que te escrevo. quem te poderá censurar? nem eu, pai em projecto que fali de intenções e, gasto de sémen não desejado, ouço o trim-trim do silêncio, calo a voz no eco do telefone que não foi atendido, o vazio assume-se e muito lentamente, tal como em filme rodado em câmara lenta vejo a minha mão pousá-lo, emudeçê-lo, calo com um clique os toques sem eco humano, sem a tua voz e sem nenhuma criança que embalemos, ligo o computador e escrevo-te a voz que não consegui que fosse ouvida, as letras do silêncio.

pedro

coisas da vidinha

Ando com problemas com as caixas de e-mail. A coisa é tão grave que já chegou... a Cabo Verde!
(cortesia d'O Liberal e do camarada Nuno Rebocho)

sábado, 30 de junho de 2007

o Nu engravatado

As camisas dos Andes que se vêm nas barracas de artesanato das feiras, em linho, daquelas às riscas multicolores e algumas com um capuz, mangas largas e muita, muita frescura à vista, mais do que os dois botões de aperto em nó e pauzinho mostram, são muito bonitas e até me admiro em como ainda não tinha pensado nelas para este Verão.

Claro que mal falei assim em voz alta, correndo-as satisfeitíssimo com a descoberta e as combinações cromáticas possíveis, recebi pouco entusiasmo. Houve equiparação da menina-dos-meus-olhos a pijama, ou nada encorajadoras além do simpático «sim, não é exactamente feio…», ao certo pensado em versão mais pormenorizada «enfim, ao menos que seja só a camisa e não se lembre do conjunto, calças e sandálias a condizer...», houve um abanar de cabeça que já julgava esquecido desde que meti um brinco na orelha – esquerda, sem confusões, e eu não trouxe nenhuma.

Eram a doze euros cada, conta já se vê que boa para acertos a quem levar à variedade, o que até nem é difícil quando tendo-as na mão e os dedos tacteando a textura, dela se extrai sem cerimónia e respeito pela loja mais que um fresco corporal em corte exótico e informal e evola-se uma filosofia de vida, alçam-se asas na frescura garrida duma camisa e, não tarda, está-se a assinar petições para uma magna reunião no green em frente ao Pentágono, baforadas mais esclarecidas e menos voláteis que as do (semi) fracasso de há quarenta anos atrás: uma multidão hippy abancou nos jardins e fumaram quilos de erva em volta do solene monstrengo, convencidíssimos que as ondas mentais e a fumarada que as afina eram suficientes para fazer erguer-se o edifício inteiro - e aquilo dizem que é mais que quarteirão-e-meio... A ideia seria a que, voando, das duas uma: ou os seus generais-habitantes compreendiam que há mais coisas no mundo que papéis e bandeiras e cancelava-se a guerra (Vietnam, então) ou não o percebiam e o calhau subia, subia, desaparecia na estratosfera, out completo que permitia a esperança de, esvaziando-se o cérebro mau, acabarem as maldades no corpo. Já li que há quem ainda jure, quarenta anos depois, que «sim! aquilo levantou pouco mas lá que levantou levantou, foi que eu vi e lembro-me bem...», tal a festança que foi.

E ajudou, a fumarada e as boas intenções foram grãos de pó nas cinzas que ajudaram a subir o sentimento nacional anti-guerra, a acção objectivamente poderá ter sido um desastre pois o monstrengo ainda lá está, pedra cal e cruzes e sem vontade nenhuma em levitar para uma visão global do mundo mais esclarecida, mas logisticamente imagino o inverso. Sem o garrido das camisas dos Andes da época, ao que me recordo e as velhas fotografias mostram com muitas cores, feitas vasos de flores e desenhos psicadélicos, os sessentas a virar para os setentas e o velho mundo quase a acabar (vivia o seu apogeu), sem isso ele não se tinha mexido um centímetro. Cinicamente podia acrescentar que os sentimentos anti-guerra são mais fortes quanto àquelas que soam a perdidas mas não o faço, prefiro acreditar que ele até levantou um bocadinho, mais meia camioneta de erva e da boa e tinha mesmo arrebitado, e não tinham advido os tantos sucedâneos que enchem aquelas paredes de mapas.

Uma feira e uma noite de Junho, uma barraca de artesanato com camisas lindas, linho do melhor e eu a pensar nas manifs onde não fui pois soube delas tardiamente e interrogo-me se ainda com pulmão para tanto, se ainda há ícones ou réstea de fé neles, se hoje a solidão que enche a Internet de barulho não se lamenta no garrido duma camisa, no sonho duns Andes que não conheço como, afinal, descobri recentemente que não conheci Che mas tive-lhe um poster na sala. Era uma sala de altares, foi há trinta e tal anos atrás e hoje, quando penso em redecorar-me, poucos daqueles posters voltam à parede da sala.

Só a doze euros mas eu acabei por não trazer nenhuma, apalpei-as tanto que fiquei com medo de, vestindo-as, a magia perder-se e passarem a mero pijama, dando razão a quem avisa que sonhar demais faz compras carotas. Que fosse pelo fraco modelo que físicamente sou é o que menos me rala; pior, bem pior, seria se descobrisse que ser hippy fora d'época é como camisa andina de barraca de feira, como descobrir que é verdadeira a estalada que nos diz que não vivemos uma época em que sonhar é benquisto, onde uma camisa garrida, exótica, não é vista como mais do que isso. E isso dói, mais a mais a quem dorme nu, hesitando entre baforadas de sonhos que cor terá a realidade para que mexa e levite, como é que se redecora a sala do individualismo, quando é que nos juntamos outra vez e se alguma dia haverá dito que «dessa resultou mesmo, lembras-te?», que não pois já não há posters nas paredes.

Uma camisa na mão, dos Andes ao caso. Na tenda ao lado havia estátuas, madeira negra esguiamente padronizada. África. Nem parei, àquela altura já nada me servia e doze euros hoje em dia já não compram quase nada, à mão meia dúzia de pensamentos em textura de linho garrido, cores e cores e quase mais nada, uma vez ou outra um capuz que poderá dar jeito quando há que desligar do mundo, procurar a frescura, levitar, o sonho alvoroçado, a pergunta de porquê ele acontecer quando estamos sozinhos, todos tão longe do green e com uma bonita camisa andina na mão. Foda-se.

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Um conselho: comprem a Sábado desta quinta-feira, guardem-na onde der mais jeito e vão-se ao livro que vem com ela esta semana: "HOJE NÃO" de José Luis Peixoto, meia dúzia de contos que me eram inéditos pois não sou leitor muito regular do JL. Vão-se até onde quiserem logo no primeiro, pois há aviões no Bairro Alto a cem euros para a Austrália, com sorte meia garrafa de moscatel e um bolo de erva, coisa que hoje não se faz mais e só se comerá quando um janado herdar o McDonald's pois já ninguém sabe cozinhar com criatividade que vá além das ervas aromáticas da avó. Escangalhei-me a rir com os personagens, o epígono do Lobo Antunes, o Zion e mais aquela malta toda, virei-as com aquela empatia com a estória que faz voar a imaginação e vive-se a ficção com alegria. E bem escrito, mas não é assim que deve ser, sempre?
Como com todos, quando o tive nas mãos salteei-o e li bocaditos ao calhas, espreitei o Índice para me identificar com o que estava a ler pois estava a gostar. Depois de ler do tal mítico primeiro beijo, dado numa das passagens subterrâneas da marginal, vejo caírem-lhe os dentes e aquele ser o mote para uma série de contos, e decido de vez ir mesmo para o princípio onde encontro a "Legalize Airlines" e mais uma cambada de tontos que me fez desejar estar no meio deles. Agora voltei à "série dos dentes" e fiz uma pausa para vir cá contar da boa oportunidade, mais a mais porque estes livros vêem como oferta pura a quem compra a revista. E ri-me com o 'estilo ALA', há um conto que ainda não li cujo título é :-) )-: e até há outro que fala numa Joana de olhos verdes. Vale a pena, é mesmo muito boa 'compra' pois não tarda e aparece aí com melhor papel e badanas, e pedem quinze ou vinte €uros por ele.
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Sobre o Euro Milhões: uma história real, e há poucos dias. Falhou por milésimos, mas merece fita de cinema pois o argumento tmbém está lá: o "golpe perfeito", ao caso falamos de trinta e cinco milhões de €uros. Ah, outra coisita: há controle de que números se jogam; normal, para apurar quem ganha; 'esquisito' se serve para extrair padrões de tendências e, até, certezas estatísticas de quem joga o quê e aonde.
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Quanto ao resto, cá se vai andando. Eu continuo sem dizer mal de ninguém além de mim mesmo, não vá levar com um processo: viva o respeitinho, já cá andava a faltar essa para cada vez mais alto se perguntar o que se passa, (ainda...) deixam-me fumar e só mais o quê?
Começo suave: merda! ou eu li mal ou ninguém falou "disto" em campanha eleitoral, houve merda nacional e da grossa nas últimas eleições e toca a correr com esta malta nas próximas, ficam a ver a maioria por um canudo - sem referências, sem referências algumas, saliento, qu'isto de processos judiciais é só chatices e a vida está cara p'ra burros, temos agora a despesa da presidência sei lá de quem, o aeroporto e o TGV, a OPA ao Benfica e não tarda a águia também está no CCB, à trolha com o Mega Ferreira e lado a lado com o Andy Warhol, há muita confusão no ar e, parece, soou-me mas já não me lembro onde ou a quem ou quando, nas comissões políticas muito restritas estão-se nas tintas em perder episodicamente uma fatia do seu eleitorado 'natural', pois está no papo grosso petisco do outro, interesseiro e passageiro e, ao caso, vindo de áreas antes insuspeitas, tão longe de entendimento e acordo ideológico que, afinal, só aparentavam estar: diz-se olhando o enlevo d'hoje.

domingo, 17 de junho de 2007

e sabem que mais?

passo dias inteiros sem me lembrar!... sabe bem, estava com 'overdose'!

quinta-feira, 7 de junho de 2007

os capítulos morrem de pé


é-se egoísta quando o calor das brasas do borralho faz frieiras, dores que a ânsia de confortos induz quando o coração responde desvairado ao apelo por calor. isso entendo e assim entendo-te quando o teu silêncio me pergunta se chego a pensar em ti, do que desejas e precisas, e eu percebo que as minhas cartas são o teu recreio, não a realidade de após tocar a campainha e guardarem-se os brinquedos, a bola num canto junto ao muro e no chão de cimento o arco imóvel - qu'a cintura esguiou-se e cresceu, engordamos nas necessidades e hoje somos gourmets nos petiscos, é-se egoísta quando se insiste em alíneas da ementa que têm ao lado a cruz terrível do produto esgotado, as dietas necessárias quando há é que diminuir o colesterol que entope as veias do sobreviver. mas nesta última "carta à Musa" vou falar-te noutras coisas, literárias e terríveis:

na pág. 640 do último Crichton canibais ecologistas da polinésia comem Bradley, vivo, a dar conta das facas cortando-o até tudo se apagar. terrível, página e meia que impressiona mais que mil em apologia de exercícios intelectuais para saciar ideologias mal resolvidas. Lecter enquanto jovem (agora Harris, Thomas), fez uma espetada com as bochechas de Dortlich, equilibrada com trufas que estavam a cem francos nos locais de culto de Paris e ele apanha do chão de bosque letão, em volta do pavilhão de caça onde Grutas e os outros comeram a sua irmã pequenina, Mischa. há guerra na literatura. há quem escreva 'terror' com as letras todas em bold e isso vende, consome-se em milhões e milhões, saliva-se por best sellers e encontra-se o choque térmico dum nó do estômago, o frio que se instala e, em comparação enquanto o rosto se crispa mas os olhos não despegam, suaviza o quotidiano quando não se lê a baba de quem escreve, mais repelente que o espelho que nunca olhamos. e, pior porque se fala de livros e isso merece mais respeito que o àqueles que os escreveram, renova-se o compromisso de leitura e há manchas do nosso sangue nas estantes que crescem, às vezes tenho medo de me ler lendo, nem todas as lombadas me merecem olhares indiferentes ou sorrisos de prazer, eu estou escondido em tantas e tantas e escondo-me disso e de mim na secção das puzias e poesias, delicatessen onde te encontrei e faço-te esta gulosa corte.

eu engano-me e sirvo-me escrevendo "a Inês", imortal e renovada senhora das mais românticas ilusões, mães de todas as outras e se a filharada é pequena... às talhadas, aos pedaços, canibal de mim mesmo. sou pior que eles: não me chega a carne inocente da personagem, necrófilo e autofágico lúdico acrescento-lhe a minha, de babete e em beijos e lambidelas amacio-a colada à dela, musa Inês, ferro-lhe dentes roubados e engordo comendo os bocados de mim que mais detesto. sou o meu hit e darei um banquete público quando servir o umbigo, adornado com camarões de promoção fritos e vinho de garrafeira falida, qu'o provarei todo antes das visitas entrarem e verem como quase todo azedou pelas más rolhas que deixaram entrar o ar da realidade. foge de mim, eu não presto.

seduzi-te nas minhas páginas, disse-te todas as palavras de encantar de que me lembrei. houve momentos bonitos, sei. Inês foi rainha e não foi só por um dia, foi uma glória a sua deificação e foi justa, merecida à musa e ao escritor. crescemos juntos, foi lindo o jantar às velas de Carlos-Pedro e a sua Inês. com flores, vendidas num qualquer restaurante do Cais do Sodré por um marroquino com um colete cheio de bolsos de maravilhas a pataco, flores com luzes e rosas de que escolhi duas margaridas e pu-las no teu regaço. tchins-tchins íntimos a que a saudade não será nunca indiferente, mais naquela manhã em que me levantarei antes do dia nascer e irei ver o verde dos campos àquela neblina das primeiras luzes da realidade onde os castelos se desintegram, as românticas muralhas e os altivos torreões, engalanados, agora celas de prisão conquistada com pleno mérito, em pior alternativa muros caiados do cemitério onde jazem as palavras bonitas, as loas, as estantes das ilusões onde lado a lado com a poesia e a metafísica há sempre lugar para um novo livro com veias abertas, a páginas tantas o canibalismo do autor e da personagem, a confusão de identidades onde as belas muralhas não costumam resistir e ruem, nasce a tristeza e seca a flor. crescemos juntos, sobrevive tu enquanto preparo esta espetada de mim, o truque da receita vai além do pau de loureiro e do marisco, ervas finas, ponho-me em saldo e corto lascas da minha melhor chicha, os lábios que te beijaram e os dedos que te escreveram, 'inventaram' - eis o melhor naco, pièce de résistance aos esfomeados da literatura quando esgotadas as palavras belas do enamoramento, Inês abandonada e deixada à vossa mercê por um escritor canalha.

As melhores paixões literárias são sempre as que estão por vir, ainda nem suspeitadas quanto mais delas escritas os primeiros gatafunhos: Inês é eterna para quem acredita em fábulas com musas e outros seres fantásticos, Tolkien dum sorvo e Roberto A. Heinlein, 5 Hugo, noutro. digo dos Hugo porque num universo de tarados ganhar uma medalha de mérito é obra tão difícil como fazer versos que mereçam um prémio de Poesia, ou nas filas de sangue da estante haverem lombadas com marcas de uso, revisita a Capote e a Carrère, à límpida Patricia Highsmith (mordibizei isto, já não há volta a dar-lhe: siga) os autores morrem e continua o ciúme. de não ter morado em Coimbra à rua Guerra Junqueiro e, por isso, apenas por isso, não ter sido um craque como o Assis Pacheco. nem em Benfica e nunca estive em Angola com desejos de me casar como o sacrossanto ALA, rapaz então tão novo e eu agora já tão velho, acentuadamente coxo para me notabilizar em futeboladas de passeio e longe demais para ir aos domingos de manhã brincar com a areia da praia das Maçãs. fiquei bêbado com estas ilusões e querendo continuar a festa descobri que a cortiça que me guardava o vinho o fizera zurrapa em quase todas as garrafas, um pico ácido no travo, vinagre, vinagre e não o néctar da uva dos vinhedos que abundam no campo e na charneca, a ilusão da minha garrafeira cheia mas mal estimada e conservada, zurrapas com rótulos enganadores, escrita fina que quando se leva aos lábios não presta.

é o fim de 'Inês', no cascalho que sobra alguma relva nascerá e, nela, um pouco mais tarde aparecerão flores silvestres, os miosótis de que tanto gostas e que me recusas, para que no meu excesso romântico não os mate, arrancando-o da sua felicidade com raízes profundas, tão profundas como a beleza do mundo, em sacrifício do teu colo, belo sim, mas perene como todas as paixões pois mesmo as literárias têm as suas páginas finais de romance. doravante escreverei folhas onde haverá caldeirões a ferver, vira-se a página com ânsias mórbidas de ver o que acontece quando o olhar do condenado entende que está a olhar para a guilhotina que o irá já já decapitar e cegá-lo, o patíbulo onde o laço o espera e a luz a esvair-se no aperto mortal da forca (sou um óptimo leitor de mim, sossega bela Inês que nunca esgotarei por vontade este filão, egoísta e narcisista como sou)

não quero nesta última 'carta' lembrar momentos e recordar frases como em elogio fúnebre. quero olhar para a estante e ao ver a tua lombada acreditar que no editado estão páginas de paixão, linhas de palavras tão vastas como as carícias que te dei e eu sei que excedi-me, nas epístolas destapei poros ocultos pelo pó dos anos e lambi-te e lambi-me de ponta a ponta. não sou um vaidoso falso pois sei que a minha língua é suave quando soletra com ternura, não tão ágil e sabida como as dos nomes consagrados do voyeurismo literário mas foi suave no cunilingus que te escrevi e dediquei. guarda o teu exemplar, cada página é uma dedicatória à mítica Inês, à musa. no meu há páginas com borrões das lágrimas, das belas lágrimas nascidas por amor. não tarda e outro escritor te encontrará, escreverá novos elogios em novas palavras inventadas. é que, espremida a literatura e exangue o autofagismo do autor e do leitor, sobrevive sempre o amor e há sempre um novo amante de dedos ágeis que o escreva, escrever-te para seduzir-te perpetuando o mais belo mito literário, tão perfeito que há momentos em que Inês salta das folhas e vive lado a lado com o seu criador. reencontrar-nos-emos pois sou um leitor adito, insaciável. o sino soa e os pássaros levantam voo em revoada, o céu é sempre lindo quando o seu chilrear esvoaça.

com muita ternura do que foi teu escriba dedicado, Pedro-carlos

terça-feira, 5 de junho de 2007

cartas que voam...

o incomunidades tem sido confidente do namoro literário à musa, não chaperon mas cúmplice do entesoado no teclado.
obrigado companheiros!

cartas a Inês - dos nomes de Ninguém

Era tão fácil chamar-me Pedro como chamar-me Ninguém ou carlos. Quando escrevo a "Inês" não tenho nome, acredito que é o sonho de todos os que julgam haver uma Inês possível, um romance maravilhoso por ler quando a vida os levou, a todos, para as estantes. Um a um jazem lado a lado, lombadas finas e grossas, sonhos encaixilhados em papéis editados, páginas que não escrevemos - esta merda dói, tanto bonito escrito e eu grávido sem parir. Uma vez escrevi um livro. Está lá, ao lado dos outros, coval meu. Os sonhos de ser escritor falecidos no suspiro de cento e quarenta páginas, os calções e as calças à-boca-de-sino pendurados no armário do passado, lombadas de poeira. Agora escrevo na net, organizo uma estante interminável e reorganizo-me a mim. Recorrente. A Inês e o webito, recorrentes. O sorriso do mangusso, também. E a lágrima, quando lhe calha e resvala, corre, desliza num fio agradável para o umbigo onde se aloja e aguarda um beijo doutro sabor. Isto também dói, já agora.
Não tenho história para contar. sequer estórias, falho que ando num teclado que só se eriça quando escrevo 'a ela', bela Inês. Crismei-a assim em impulso quando 'a' conheci, a musa. Se calhar julgo-me castelão e chamo-me de Pedro na inconsciência dos sonhos que me habitam no meu castelo. Ou se calhar não, não tenho nome e não existo, este mail e todos os outros milhares que escrevo são letras no éter, spam entre tanto, maliciosos remetentes que tentam ao calhas furar defesas, encontrar abrigos onde se alojem, o mítico colo que, dizem as velhas sabidas, é o que todos os homens procuram no regaço das mulheres e o sugar dos seios revela-o mais que o disfarça. Se calhar não existo, há uma máquina automática que escreve, escreve, escreve sem parar e cuidar de quê ou a quem, grita e chora, repenica um beijinho e exibe a lágrima alojada no tal cantinho umbilical ansioso do afago duma lambida que lhe prove o sal. Se calhar sou um gajo mal-resolvido sentimentalmente, nostálgico de quando a vida era elegante. E, se calhar, comovo-me e mando outra lágrima a fazer companhia àquela quando assopro as brasas para não as deixar morrer. Se calhar tenho alguma coisa para dizer e não o consigo, assim ficciono que Carlos-Pedro, afinal, não morreu assim há tanto tempo.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Água, é água Inês...

Há chuva no olhar, diluem-se algumas letras na gota intrometida que inicia esta carta. Se não um rio de gotas melancolias mil, precipício onde as ilusões caem em cascata e capitulam em cachão nas águas revoltas, donde sobe uma neblina de gotículas que paira e molha a face enquanto olha-se a espuma das águas que se amansam, finda a fúria e a torrente, secos os lagos além da pradaria onde nasceram os fios dos sonhos, aqueles que não se sabem tecer além dos beijos da imaginação.

Aqueles que não soube enredar, inábil tecelão de rugas e rios de prata, fios de cabelos que se prendem aos dedos como a saudade se cola às memórias. Como a da tua imagem, que paira sempre que a água lava as meninas-do-olhos e vejo-te, espelho de mim, alma dos meus dedos e seu sopro loador. Inábil em contá-lo, inapto em angariar meios de subsistência à paixão que a soe num slow de letras, enlaçadas pela orquestra literária. O dilúvio do amor platónico, a taciturna chuva que molha a folha onde nos criamos e a lava revelando a sua poesia, papel onde nos sentamos e brincamos ao amor à Musa e ao dela ao seu Poeta, ribeiro d’águas juvenis e perenes como se só de ilusões fosse amestrado, e não é. És real Inês, é-lo tanto como é verdadeira a ilusão dum desesperado. Como elas, as águas, que, soltas em catarata molham a aridez da prosa e mostram os dedos enlaçados no límpido da cascata que na folha se desenha, sorriem no louvor à mítica e selam cada envelope com um sorriso lambido. Água, é água Inês… as palavras fugiram para fozes inatingíveis ao toque dos dedos, confluências que ficam além do alcance deste Cupido carteiro, este envelope contínuo que se fecha com um beijo à musa e só é aberto pelos deuses e pelas deusas, esses desconhecidos que moram além das pupilas em que nos reflectimos e pensamos, más discípulas dos códigos simples dos amantes e infiéis espelhos do rol de cores que o íntimo contém desde que a represa abriu as comportas e soltou a solidão, parda na sua plácida prisão de águas paradas.

Adeus Inês. Não tenho o tempo que autoriza a delonga do namoro eterno, urge espreguiçar o pensamento, regressar e repudiar este parapeito epistolar onde te espreito, há contas por encantoar e contos por escrever. Dizem que nasceu a Primavera e eu ainda não fui vê-la, cego pelas lágrimas da paixão ignoro outras rimas além desta cascata de te amar. O verde e o azul do horizonte apagam-se e nos vultos de espuma não vejo mais ninguém, enquanto neste enlaçar de promessas impossíveis avista-se o pingo da lágrima límpida que resvala gotejante do ponteiro, infatigável, nossos segundos de teu reinado. Adeus Inês, a divina. A cascata, a chuva que me faz gritar, o óxido que temo e repudio, o Medo. De ficar assim, para sempre incapaz de parar de te escrever torrentes de fogo e murmúrios, águas revoltas que cegam quando o torvelinho da paixão molha a folha, essa puta literária, esta fábula de realidades ficcionadas que brinca às Ilusões. Fiz-te Musa e encantei-me, galante estendi folhas à carícias dos teus pés, no ímpeto da corrente estendi a passadeira mais bela, o veludo rubro que encaminha pássaros e animais perdidos às muralhas do tal castelo de que se acredita saber o santo e a senha para entrar. Esse, o mesmo que se começa a construir numa praia à beira das ondas, nas margens dum rio ou onde seja que, olhando as mãos, vê-se um balde cheio do mais fino ouro, quilates de sonhos por construir e que não param mais, torres e muralhas que a idade agiganta tanto que se lhe perde o trilho, toc toc deixem-me entrar pois fui o teu criador antes das águas ocultarem o caminho.

Não me apetece falar mais dos teus olhos, resisto. Resisto pois afinal o que me apetece é mergulhar neles e nadar no seu tom, braçadas que me levem ao centro do lago onde nos espelhamos, eu e tu, a musa e o escritor, mitologia que encarno ao ponto da carne estremecer quando te sonho, dos dedos se tactearem na carícia de te escrever. Não, não devo falar mais desse lago de ilusões, as pupilas dos teus olhos e em como elas chispam e raiam quando lhes derramo a torrente deste amor escrito, este afago virgulado em mentiras, estas cartas que escrevo e eu não sou ninguém. Este atrevimento arrogante de ousar que das palavras nasçam realidades, te corporizes e inflames, inundes a realidade, tu que de tua graça és Inês d’Ilusões, casta por ascendentes pergaminhos e ónus de nome próprio, sedutora por apelido e de família vasta, enorme à míngua da minha solidão.

Desencosto a escada da muralha e renuncio ao torreão, procuro no invisível longe a nascente destas gotas e destas cartas, procuro a matriz do sonhador. Desenlaço os dedos e forço as letras na busca de rumos longe do teu corpo, montanha do meu imaginário que alimenta o vale que fiz atelier para a minha escrita. Renego-te, musa. Deixo-te, Inês. Solto-me saudoso da clausura de te amar, a barba molhada na tinta de te escrever, cor de lágrima. Vou procurar no Mundo, virar todas as pedras no caminho e espreitar em todas as moitas, alegrar-me-ei com as flores da Primavera e farei poemas aos pássaros, aos rios, vou perder os meus passos longe de ti, caudal tão forte e eu tão fraco que sou às suas emoções. A partir d’agora prometo que não ousarei mais o beijo tímido que esconde o fogo das paixões. E nem destas até falarei, calo o ardor que me jorra palavras para explicar o inexplicável, a beleza eterna da Musa. Vou abandonar a barca dos sonhos e não passo para o outro lado, não sigo mais o caminho para o Castelo, renuncio aos teus olhos e mato o idílio fictício de vê-los apaixonados. Este rio goteja tanto que me alaga, preciso escapar-lhe, sobreviver, ler nas nuvens e nas árvores doutros encantos que não a tua imagem que me sorve o oxigénio em beijos demais para poderem ser reais, e falta-me mais medo para respirá-la, realidade.

Voltarei à tua margem, sentar-me-ei num troco quebrado e deixo as lágrimas ligarem-se a ti: gosto do sabor da tua tinta. Gosto de ti, Inês. Amo-te antes de sabê-lo e de tu o saberes até, perspicaz como és. Vem dos tempos intemporais, vem do balde de areia e dos castelos, vem do gaiato eterno do teu sorriso – que antes de Carlos e Inês fomos crianças e essas são as mestras da paixão, alquimistas traquinas que d’areia molhada fazem castelos e habitam-nos sem se perderem em caminhos e margens de rios e sem caudais a atravessar. Voltarei a ti e de novo te farei tinteiro, escreverei Inês e colarei uma imagem, uma diva, outra musa. És tão eterna como a água que corre e sei que nunca conseguirei resistir ao apelo do banho do teu calor, ao afago de ternura das cartas secretas e dos beijos roubados, aos dedos entrelaçados e ágeis no desenhar do tema idílio, recorrente ilusão. Girarei o mundo e voltarei ao teu colo, meu ninho criador. Mas agora solto-me, liberto-me da asfixia do amplexo da paixão. É violento este rio, este amar literário, estas folhas d’ilusões escondidas nos recantos do castelo. Aquele, estas muralhas, esta tanta água quando te escrevo.

quinta-feira, 31 de maio de 2007

os joelhos de Inês, à lareira


as chamas viraram brasas, felizmente. é bom o seu calor, não faz feridas como as chamas soltas, inconstantes e alterosas. das brasas todos sabemos: podemos chegar o banco para mais perto da lareira, ajeitar a samarra ou o xaile a proteger as costas e, olhos fixos nas mudanças de cor das brasas fazer conversas de lareira, dizem que das melhores no Inverno. tu aí e eu aqui, cada no seu banco e no braseiro comum, esta ficção de escrevê-lo e confessá-lo, soltar rédeas aos desejos e cada um contar de como comia o outro, canibalismo de quem está farto da fome das iguarias de sentimento, carnívoro de sentires.

vem um calor bom, as faces estão coradas e nas mãos estendidas em carícia respeitosa ao calor do fogo há o brilho da pele mais intenso, vêem-se tendões e veias, dá vontade de chupar-te os dedos. há momentos em que nestas epístolas me sinto um pedinte de afectos e não gosto disso. tenho vinte dedos e uma pila, rabo, boca e nariz à unidade, dois olhos e duas orelhas, tudo usado e com uns anos em cima, dedos amarelos do tabaco incluídos. um formato em padrão e à época, e com um software exclusivo sempre com bug's e páginas 'agarradas', tanto programa útil que armazenei na vida e nunca os utilizei nem sei utilizar, o mundo acaba logo a seguir ao Word, tão grande que ainda não se acabou. seduzo pela letra e sou fraco galanteador na oralidade, acabo de te confessar em conversa de lareira, olhos nas brasas. teus olhos, como me perderia já a falar deles... mas não, qu'o fresco que vem lá de fora não aconselha a despir a samarra e tentar roubar-te um beijo, deixe-se correr a conversa morna, esta preguiça que vem do calor, das tuas mãos que brilham àquela luz e, agora, os teus joelhos bem nítidos, ora que te puseste sentada de lado para melhor olhar para mim. falas-me. estás a perguntar-me coisas e eu, ou porque não sei do que falas e recuso-me a pensar nisso, ou pela maior razão do novo fascínio surgido, os teus joelhos, não te ouço e não percebo patavina, alterno um sorriso concordante com um ar intrigado e super atento, depois em meditação profunda apoio o queixo no punho e olho.... os teus joelhos. assim, as pernas contraídas e cruzadas nos pés mostram a elegância do teu esqueleto, joelho e fémur mais em pormenor. ossudo aquele, prometedoramente longo e almofadado este (está a ficar calor; vou tirar a samarra)

nesta lareira, nesta casa, quantos casais de quantas gerações se sentaram aqui, a olhar troncos que estalam e brasas que aquecem, quantos bancos foram arrastados na procura do conforto um do outro? o passar pelas brasas sonhadoras, aqui literal. certamente muitos e houve Cinderelas e Marias nesse teu canto e com esses joelhos, há aqui um Carlos que olha Inês como outrora houve quem fosse que houve e olhou quem estava, mostrando ela os joelhos tal como tu agora com as pernas das calças arregaçadas. adivinho-te no sorriso indisfarçado que já descobriste que te miro à sucapa, que não estou aqui e já venho. não posso evitar rir-me, apetece-me rir e rio-me, está calor e os teus joelhos são tão bonitos como a covinha que fazes quando ris, como agora, ei-la! raacccc e raaccc, ambos os bancos se arrastaram milímetros ao mesmo tempo e que se multiplicaram numa gargalhada cúmplice e encantada, no abraço ao calor de brasas que estão em ponto, óptimas, um arco íris privado de tons fortes, quentes, calores que nem as carícias que se trocam suavizam, choques de joelhos o teu nu e o meu não mas como se o estivesse, estou, estamos nus e há quanto tempo, não o negues Musa minha...

é um refresco a que sou sôfrego, a tua boca. estamos lambuzados, contentes que nem crianças com este maravilhoso brinquedo, o desejo, a fome sexual. busco-te um peito e na primeira carícia sinto-te o arfar no meu ouvido, a tua mão que me revolve a nuca e excita-me, os teus dedos que mergulham à procura das minhas costas, carne, carne como eu sinto agora o macio a tremer da tua barriga, solta que está a blusa para permitir à mão encontrar melhor os teus seios, que gritam por elas. damo-nos carinho. beijamo-nos, os corpos colando-se e descobrindo-se, a excitação sexual já revelada e imparável. acaricio-te o rabo profundamente, cravo na nádega os dedos e puxo-te, colo-te mais a mim para sentires a minha excitação, gritando por liberdade e exercício do prazer até à exaustão. a minha mão pesquisa dentro do cós das tuas calças simultâneamente à tua, que, impaciente por acariciar-me sobre a roupa, luta com o meu cinto e botões para sentir o meu músculo quente, inflamado pelo sangue e pelo calor de ti.

depois vem o decoro. nada mais há a contar de estórias de lareira assim; há a mitologia e a esperança em, um dia, outro e outra à mesma lareira assim se incendiarem. smack, Inês

quarta-feira, 30 de maio de 2007

quadro de Senhora Após o Banho

"Olá Inês!

Não queres 'escrever'? contar de como é bom piscar o olho, ser galanteada? Tu Musa, és a rainha do meu quotidiano imaginário: sem ti ele não existia, prime, e como sobremesa à vidinha haveria dieta sem o profiteroles perfeito, no ponto, que é loar-te em dedos excitados. Anda, conta de ti, de como desliza na tua pele húmida o vapor d'água quando termina o banho e os mamilos estão rubros de excitação. De como é agradável passar as mãos no cabelo e fechar os olhos, sentindo o arrepio das gotas deslizando nas costas, juntando-se para mergulharem num fio entre as nádegas, vermelhas pela excitação térmica. De como os músculos estão serenos e dengosos após a massagem do chuveiro e ansiosos por uma carícia que não lhe dispensas, enquanto a toalha te percorre a pele, cheirosa e bonita. Conta, musa, conta-me de ti após o banho, que sonhos aquelas paredes poderiam contar se tivessem lábios para te beijar, como eu, senhor do beijo escalado nas paredes do teu Castelo e do meu teclado mas omisso do quadro de Senhora Após o Banho, belle-époque da minha Ilusão. Do cigarro enquanto o espelho devolve o olhar crítico, observador de pontos negros e da patine dos anos, a ternura da ruga beijada em ósculo de homenagem à intemporalidade da sedução do corpo feminino. Conta-me disso, fala-me de ti. Nua ou vestida, no despertar ora resmungão ora sereno, do sol que te cumprimenta quando passeias à cidade a tua graça felina, conta-me do erotismo de gostar de pensá-lo e, inexplicavelmente aos cegos, de vez em quando sorrires ao recordar, imaginar... como eu que te espreito à fechadura vendo-te lamber o corpo no acarinhar da toalha, minhas mãos transmutadas que imaginariamente te acariciam. Conta, anda..."

segunda-feira, 28 de maio de 2007

sábado, 26 de maio de 2007

Euro Milhões

Parece que a estatística aponta o ano 3.024 como aquele em que o Euro Milhões já, matematicamente, saiu a todos os portugueses.
Apetece-me dizer saiam da frente, qu'isto vai ser um bocado chato para as cinzas dos últimos.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Semana Africana em Santarém*

África

"Quando ontem a Milly me telefonou a recordar-me o compromisso de, hoje, ler umas palavras sobre nós e África, estremeci.

Primeiro porque nada tinha alinhavado pois esquecera-me completamente. Depois, enquanto mentalmente ia coleccionando imagens do álbum e pensando em como me ia desenrascar, os olhos encheram-se de cores, vi-me e li-me como nos calções e boné – obrigatório até eu perder os suficientes, vá-se lá saber porquê!..., a pasta escolar debaixo da árvore e de bruços em volta dos berlindes, os carrinhos com um botão colado com chuinga, deslizando invencíveis na borda do passeio. Das mangas roubadas, do tilintar das pedras que caíam nos telhados dos vizinhos, às vezes até no do dono da mangueira e do correr pelos caminhos estreitos, labirintos de areia quente e paredes em caniço que davam para largos onde havia uma cantina que vendia gelo-doce, à porta mamanas a vender amendoim torrado, amendoim com açúcar, maçarocas assadas.

Provavelmente vendiam mais, mas do feijão e das latinhas de azeite Gallo de um litro não me lembro, eu recordo é o sabor das mangas roubadas, dos jogos do paulito e dos pavilhões ao ar livre que eram os passeios depois de jantar, fabulosos jogos de báskett nas melhores tabelas do mundo, aqueles aros de barril pregados onde desse jeito, os jogos dois-a-dois em que se fintava e metia-se golo no buraco da árvore, as noites quentes em intermináveis conversas sentados nos muros, descobrindo a vida e os seus mistérios, eu penso-me quando penso em África vejo o caniço e o cimento, a cidade. Ao pensar ‘Africa e nós’ eu penso-me em miúdo, nela.

Cresci na cidade mais bonita de África, tantos o diziam, e eu que a amei tanto que só hoje o percebo, conheci-lhe sabor limitado, quase todo urbano. Amava percorrer aquela cidade na minha motorizada, o lento passear sob as ramadas das acácias e dos jacarandás, o longo ronco do motor em avenidas sem fim, camisa aberta ao vento e a todos os cheiros que ele, pródigo que era, me trouxesse. Cresci em harmonia, infelizes quedas em curvas onde o óleo dos machibombos o induzia, mas o alcatrão era suave, tanto que se derretia quando o sol africano explodia, naquele seu apogeu que tem o fim mais belo do mundo, o pôr-do-sol no sul de África.

Era um momento sagrado do dia, uma intenção que só não se cumpria se uma emergência acontecesse ou a preguiça encontrasse outra desculpa: ao cair da tarde, no jardim fronteiro ao imponente liceu principal da cidade, na zona alta e lá em baixo a baía e o desconhecido no horizonte, mesmo aos pés e no fundo das barreiras o final da baixa da cidade, a Feira – esse local mágico que acontecia uma vez ao ano e onde se enchiam sacos de plástico de sonhos com rodas para meses, se comiam óptimas bifanas à borla, também o muito verde de matas mantidas para futuros jardins, já um lago e barquinhos, namorados de mão dada.

O Sol, àquela hora e visto dali era mágico, havia labaredas nas nuvens e a água tudo reflectia, o círculo de fogo gritando a paleta de emoções de dizer-se África. Éramos sacerdotes dum ritual irrepetível: também com marca de de época, mas a beleza do beijo final do sol à baía e à cidade era uma carícia especial, e a tela só perdia em beleza para as miúdas da cidade.

O mundo ajusta os seus ciclos e o colonial fechou, o longo tabuleiro mundial ajustou peças e, na revoada formada, fugiu-se-me o pôr-do-sol. Sei lá se fui colono estatisticamente, eu que nasci ‘cá’ mas amei crescer ‘lá’!... ‘colonialista’ em termos de definição clássica não fui, fui tão parvo como me apeteceu e tive quantas paixões como as que me lembrei, joguei à bola no caniço antes de saber andar de mota, cresci feliz à beira duma avenida famosa numa ilha de cimento que me deixava mergulhar as sandálias na areia mole, roubar mangas ou comprá-las, espreitar as prostitutas que aguardavam os militares num famoso dancing-bar quase em frente à minha casa, atirar sacos de água aos machibombos pelas portas inexistentes, e certeiros rolinhos de papel, dardos meticulosamente preparados e projectados por tubos de plástico que se arranjavam ‘nas obras’, foi numa cidade africana que os meus papagaios subiram ao céu, impossível esquecê-lo.

Hesito muitas vezes na distinção entre saudosismo e nostalgia, confesso que receio cair no mar morto do primeiro, e interrogo-me sobre a segunda. No meu caso e no de muitos de vós, quando “pensamos África” associámo-la com duas, três décadas atrás, e tanto que esse tempo é.

Nós não somos os mesmos, se fôssemos outra vez miúdos não tínhamos papagaios senão de plástico, e nas praias do Verão. As pessoas têm todas telemóveis para se chatearem continuamente umas às outras. Também lá, ao que ouço. Então porquê África diferente, porque este sorrir que se formou quando, findo o telefonema, comecei a escrever? sabem, disse-o à pouco, e seria poético demais dizer que a diferença está no por-do-Sol: isso é pouco para contar do dormir numa praia, da interminável savana e do cheiro das queimadas, de como um romance de aventuras sabe melhor lido em África, terra mágica e de mistérios.

Por isso acho que tenho direito à saudade de tê-lo visto naquele jardim e ter-me apaixonado pelas suas cores, ter sentido África no ar quente que me deu o oxigénio, e nas chuvadas de balde das primeiras desilusões nos grandes amores. E à nostalgia de mim, também; da felicidade de ter crescido assim, olho África e o meu passado em harmonia, deixo-a invadir-me pacificamente o quotidiano quando o olhar vagueia, moureja por ancoradouro que traga um sorriso ao crispado dos anos, há um suspiro de memória e um salivar pelo cheiro do milho nas brasas, pelo sabor duma manga verde com sal, há o olhar que se perde e nunca mais se encontra, há esta coisa boa de, aos cinquenta e tais, recordar o jogo do paulito e do n’tchuba, aquele das covinhas e das pedrinhas, o capim que bordejava os carreiros que haveriam de conduzir a algum lado, o cheiro da terra húmida após chuvada.

Não sei se lá voltarei, se calhar para aquilo que fazem os elefantes quando abandonam a manada. A vida trás raízes múltiplas, e quando penso num regresso à África onde vivi odeio imaginar-me turista, um tontinho de máquina fotográfica na mão fotografando as memórias, tão vagas que não reconhece tanto como julgava e, não tarda, está a fotografar cinemas fechados e cafés que hoje são lojas de telemóveis, catedrais, a comprar postais ilustrados.

Mas há cá um canto que bule, que volta não volta enrola o pensamento nas mãos e aquece-o, são os momentos em que a herança cultural africana que me deu um bafo em miúdo espreita, tentadora. Estou bem com o meu passado, olho-o com ternura até. Tão igual ao de qualquer outro miúdo, seja em Santarém seja onde for, com a diferença contada, a cor do pôr-do-sol e a avenida com a areia solta ao lado, o bar em frente e os pirolitos e o gelo-doce, o aventurar para fazer quase duzentos quilómetros em areia numa motorizada para ir a uma praia, o dormir ocasional num recanto ouvindo os sons da noite, poderosos no imaginário. Isto que foi mais-valia do meu início consciente, porque não buscá-lo de novo, nas novas realidades, tal como é novo o Outono quando a idade nele nos mergulha.

Obrigado África, pelo que me deste e continuares no meu imaginário"


Santarém, 25/5/2007"
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* no cine-teatro Sá da Bandeira, às 17 horas

quinta-feira, 24 de maio de 2007

II - Disneylândia e gato ausente

".... olhou-a, os olhos brilhando de desejo, os lábios secos e as mãos crispadas, os músculos tensos, o animal macho emergindo, já rugindo no longo murmúrio que o seu corpo gotejava, ansioso pelo calor corporal sexual. A atmosfera do quarto, àquela meia luz que as discretas cortinas corridas criaram, fazia-a mais bela se possível, a alvura do seu corpo e a ternura ávida do seu sorriso eram os focos, o íman, seu único destino naquele momento em que o mundo se apagava e o zumbido dos carros na avenida, lá tão longe, ainda parecia mais distante.
Não falaram. Para quê? Os corpos gritavam, os braços dela erguidos, suplicantes pelas suas carícias, diziam tudo. As palavras seriam irritas pois só os beijos falavam, no seu húmido calor que incendeia e reincendeia, adormece passados e torna os presentes névoas, nuvens onde se flutua. Os corpos foram glorificados, sugados, lambidos, beijados. Os sussurros ciciados elevavam o prazer em vagas, as mãos eram poucas para sentir, agarrar, acompanhar o desejo e os lábios que, esses, faziam a via sacra dos odores e dos sabores, as línguas sugavam-se e os lábios sorriam, húmidos, brilhando em prata à luz dos corpos que ardiam na fogueira do festim da carne, os poros dilatados para libertarem e absorverem os fluidos, os cheiros, o sorrir que os olhos contavam.
A tarde correu molenga, as carícias e a ternura moderavam os ritmos sapientes, e a fricção corporal íntima soltava-lhes exclamações incontroladas. Ardiam no fogo que tudo lava e descobre, expõe o animal ora sedento ora ronronante, solta o sorrir simples das coisas boas, primitivas, até risadas francas e libertas soaram enquanto os membros inventavam fugas, alternativas, vias, permitiam aos corpos púbicos afundarem-se um no outro, radiantes, felizes, os egos feitos esponjas e, gulosos, sugando as carícias como tesouros, os músculos em espasmos e contracções, o beijo terno autorizando.
Foi mágico. As pernas, ainda enleadas, repousavam, o peito num afã de grito subindo e descendo, oxigénio do viver. Os lábios formulavam beijos e os olhos davam-nos, à claridade que deles voava em brilhos incandescentes juntava-se o aroma macho e fêmeo que pairava e eles absorviam como o complemento do momento do grito, dos dedos cravados em pedido brutal por mais! mais!, dos olhos explodindo em entrega, raiados pela loucura dos amantes, o espasmo corporal, o grito e o desespero do abraço, depois as gotas de suor venceram e vergaram-lhe os troncos, os corpos prostraram-se e os olhos abriram as portas da felicidade, semi-cerrando-se enquanto os últimos raios da realidade fugiam, o quarto e a cama, a janela e a luz, o nada bom inundou-os e a fome saciada adormeceu-os.
Sorria assim o viver quando, em estrondo, a porta abriu-se violentamente e um pincel de violência traçou naquela tela de amor traços brutais. O estremecimento deles, aquele acordar súbito e de terror, foi abafado pela visão das armas nas mãos, os dois adultos que, junto com a criança, tinham violado a mais bela intimidade que lhes dourara o viver. Em inconsciente defesa mútua abraçaram-se, em debalde tentando ocultar o brilho das suas intimidades assim reveladas, ofendidas, ameaçadas pela brutal invasão. Os protestos, débeis, silenciaram-se perante o esgar das máscaras humanas, os revólveres erguidos como a arma que são e não se lhes acredita num filme ou numa notícia.
Surpreendentemente quem parecia comandar o trio era a criança. Teria uns pequeninos anos, proporcionais à fragilidade da sua figura, e envergava roupas a condizer com a idade presumida, nos caracóis loiros uma fita vermelha, ligeiramente solta e precisada da ajuda dum adulto. Porém, quem lhe observasse a face, aliada às palavras que proferia numa linguagem estranha e que não se parecia com nenhum linguarejar que eles conheciam, percebia em estupefacção incrédula que o invólucro era apenas isso, havia um ser alienígena ou diabólico na posse do corpo infantil, cujos bracinhos rechonchudos indicavam ordens, os olhinhos castanhos revelando uma atenção e dureza maníacas, estranhas, em nada parecidas com qualquer outro olhar que recordassem, e isto assustava mais que as armas quando ambos de tanto tomaram realidade.
Que se passava? Quem eram? Que lhes iria acontecer, o que queriam? (...)

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Methisfólis e Maddy (incompleto)

Comecei a escrever apenas pelo prazer de escrever, sem norte ou ideia além da de esticar os dedos. Saiu assim, mistura de encontros clandestinos e gatos solitários, uma criança desaparecida que é encontrada, um olhar ao íntimo nas vésperas dum net encontro. A continuar se a ele voltar, dizem os pontinhos entre parênteses. Nas várias facetas merece final feliz, o gato e Maddy incluídos, eu também, mas não sei se há lenha que chegue para aquecer tanta felicidade.
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Sentada numa mesa de canto do bucólico ambiente do bar do hotel àquela hora, nos dedos nervosos rolava o cigarro enquanto se perdia em reflexões tardias pois, facto, comparecera ao encontro. Na coluna de fumo lia o passado, nas coxas sentia o formigueiro da excitação. Claro que era 'errado' e que não devia estar ali. Mal se conheciam e ele era casado. Olhou em volta mais uma vez, no receio de ser reconhecida. Quando entrara não tirara logo os óculos escuros, como pretendendo anonimar-se perante o mundo, provavelmente escondendo-se dela própria. Há quanto tempo o fazia... Depressa mudou de ideias e eles olhavam-na, pousados na mesa, baixa e com o tampo em vidro, madeira sólida e anónima, decoração standard tal como o toque que dera aos olhos e aos lábios quando fora à toilette após pedir o café, no resto na chávena que também a olhava emparceirada aos seus disfarces, os óculos de sol e o maço de tabaco, tentou descobrir borras que lhe adivinhassem o futuro, principalmente que lhe contassem das razões do passado que lhe davam aquele momento de embaraço e de excitação, um 'date' marcado para bar d'hotel, sexo envergonhado disfarçado em e-mails de ardores que lhe conduziram o rubor da aventura àquele momento e local, à névoa que nada lhe contava e às borras ausentes que explicassem os tantos porquês que dessem luz e lógica racional à decisão que tomara: estava ali, comparecera.
Ele telefonara-lhe do rush do trânsito dizendo-lhe do seu atraso, sussurrando-lhe amores mas na voz tilintado o medo por ela desistir a alego do atraso e a irritação pelo engarrafamento que o aprisionava por, já soara entre os irritados condutores que saíram das viaturas, impacientes, e as rádios davam eco constante da notícia do dia, provavelmente razão de atenção nacional e mundial mas evidente incómodo para todos os que sofriam pela interrupção do trânsito nas avenidas centrais da baixa da cidade, face à mega operação policial que decorria a poucos quilómetros dali: a pequena Maggie, a adorável criança inglesa que mobilizara o mundo e todos os corações na sua busca e desejos de ser encontrada 'sã e salva' fora localizada há menos duma hora num hard-rock café, na companhia dum casal de meia idade e pronúncia estrangeira que, confrontados com a suspeita e depois a ira popular, o pandemónio que se estabelecera e os gritos aflitos da menina, agarrada ao pescoço da 'mãe' gritava que queria sair já dali e ir à Disneylândia, tal como lhe prometera o pappy, emboscaram-se os três no primeiro andar quando, na confusão estabelecida - contara uma jornalista mais afoita e afogueada e que fora das primeiras a chegar ao local, não se sabe donde soou o tiro e quem o deu, após a debandada ninguém estava ferido e desconhecia-se se nos ora barricados havia sangues perdidos e a lamentar, quem sabe se uma vida em perigo e Deus haja que não seja a menina...
Afastou esses pensamentos com um gesto rápido e a coluna de fumo encontrou novos caminhos, mais largos qu'as estradas onde o seu desejo nascera, navegara a vela solta e, finalmente, em corrente irresistível a conduzira ao bar do hotel, ao encontro ora atrasado. Fora... buscava a palavra mas hesitava em arranjar sinónimo para o vulcão de emoções que nascera após se terem conhecido pela maior agência sentimental do mundo, a Internet. Não era uma habituée, utilizava-a profissionalmente e para correspondência privada, pouca que nos seus círculos de amizades poucos se tinham entregues a tal paixão - como agora aceitava que era, a suave droga provara-a e gostara do sabor, arregimentara-a para serões que se esticaram a madrugadas, olheiras e muitas, muitas emoções que há tanto estavam guardados no canto para reparações, e tudo nascera dum acaso, como sempre...
Ao princípio fora o verbo, como na lenda. Num mail trocado em razões de serviço, numa manhã em que vira luzes novas no céu da primavera nascente e encantara-se com os pormenores quotidianos àquela luz, enquanto fizer a viagem de autocarro entre a casa onde vivia há três anos, só com o seu gato, Methisfóles, o único animal masculino que tolerava à sua intimidade desde o divórcio, e as horas diárias de solidão compartilhada, lá na agência de viagens. Nessa manhã e sabe-se lá porquê, num mail qualquer que confirmava uma reserva de já não sabia o quê, acrescentou duas linhas que falavam da beleza das flores e das pessoas, do Sol, o céu, contou como o dia estava lindo e de como se sentia feliz. Fê-lo por impulso, arrependeu-se mas claro que já era tarde e o mail assim seguira para um destinatário que, antes do arroba, tinha um nome que lhe era completamente desconhecido. Fora como abrir uma represa, e hoje 'antdinis' bailava em letras de fogo na sua mente quando, mal chegava a casa, corria para o mais recente intruso, o computador, seu companheiro e confidente dos silêncios que albergava nas rotinas de serviços mínimos à existência, á verdadeira vida, aos arrepios e à pele-de-galinha, aos lábios secos e a língua húmida e suplicante, aos olhos que, ávidos, corriam à caixa de correio electrónico na busca de mais um mail, mais palavras de tentação, de incêndio mas igualmente de aplacação aos seu novo imaginário que, virtude do romance, lhe enchia agora as antes monotonias com sonhos e fantasias. A elegância no verbo conduziu-os a uma dança que apagou o mundo.
Depois do verbo houve a carne, e ela falou de forma rude, brutal, inesperada a quem nem a saudade lhe associava. Se dos meses antes do divórcio apenas tivera sexo uma vez com o ex, numa estúpida mas desculpabilizante última 'tentativa de reconciliação - quase que se podia considerar de praxe ao que ouvia a amigas que passaram a sinecura, no longo depois até agora afastara pretendentes, irritara-se com um colega mais insistente e dera-se em lingerie exclusivamente ao gato, e às vezes até menos qu'isso, no tempo do calor que bate a todas as noites sem saber de companhias ou seduções: de 'homens' considerava-se vacinada, abstémia, ouvia com indiferença referências pouco subtis das amigas, círculo que foi rareando por ela nunca aceitar convites de amigos que ela lhe traziam, acreditando-a em carências que, na verdade, não sentia. Até que...
Chegava a envergonhar-se, só em pensar em como a paixão explodira em actos que, antes, lhe eram inimagináveis. Guardava todos os mails trocados, imprimia os dele e lia-os na cama, nas noites mais agitadas buscava os mais sedutores e masturba-se, os pés enrodilhados nos músculos tensos, o frémito subindo e fazendo os dedos morderem os lençóis onde, àquele momento, caía a folha de letras em fogo, as palavras e a tentação, o suspiro de êxtase quando sentia o estremecer do conforto corporal, os músculos relaxavam e ficava quieta, olhos fechados, os lábios pronunciando a longa palavra incompleta do prazer. Methisfóles não aprovava, lia-o nos seus olhos que a fixavam interrogativos enquanto ela deslizava na ilusão. para ele a vida era fácil, sabia das gamelas de água e biscoitos, havia a longa preguiça que o levava dum canto à outro da casa, às janelas, ao enrodilhado no seu sofá preferido, ao desprezo que votara ao intruso após a primeira curiosidade e cheiros, o computador.
o telefone tocou: ele. Atendeu em gesto rápido, já impaciente com a demora, a sala, a televisão que não havia para saber novas da Maddy, o barmen que a olhava como lendo-lhe intenções, as entranhas do café que nada lhe diziam das razões. Sim. Sim. Estava a estacionar num parque próximo, em cinco minutos estaria lá: 'amor, só mais um momento por favor...'. E a menina? - não se conteve e perguntou. Que não, continuava o cerco, disse que ainda se dizia na rádio. Polícias especiais guardavam a zona e vigiavam o prédio do café, aguardava-se a chegada de altas autoridades e de psicólogos, especialistas em situações de raptos e de proto-suicidas. Nada mais sabia, mas logo logo estaria ali, estariam juntos. Quando desligou pensou na síndrome de Estocolomo, a famosa, e da mais incógnita e ainda sem nome que scapasse ao calão e que lhe subia pelo corpo e a fazia arfar, ligeiramente, a expectativa do encontro iminente que lhe deixava os lábios gretados de ansiedade. Passou os dedos pelo cabelo, em mais um último jeito. A mente resfolegava, recusava-se a pensar, a triturar os factos. Assumia só com débeis protestos que o corpo mandava e tinha as rédeas da situação. A carne estalava de desejo, eis e apenas, p'ra quê complicar... Refugiou-se nesta abstracção e acabou por decidir pôr os óculos, que ocultassem os seus olhos que não largavam a porta e não contassem do fogo que neles ardia, não revelassem da noite mal dormida e das voltas na cama, mais longa e só que nunca antes, já de tempos imemoriais...
Eis que



(...)

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Luz


O fogo intenso, quente, ilumina as árvores e revela as seivas, os galhos em brasa, os corpos beijados pelas chamas, troncos, nós, ramos, o nu àquela luz. A chama intemporal da pele quente pelo abraço mordido, lambido, o silêncio húmido do beijo que não apaga mas sim incendeia, a eterna fome de fogo e ternura. O arrepio das chamas mais íntimas e o cérebro iluminado pela única luz, sua lareira privativa quando o sussurro animal emerge e em carícias se brilham, os olhos em fogo e na pele o calor que vem dos corpos que ardem na floresta dos prazeres.

O impossível possível enquanto as chamas galgam todo o horizonte e tudo o mais cega, os corpos empolgam-se em de dois fazerem um, um grito, o maior porque de dois num, duas luzes que explodem quando os corpos, os troncos, cedem à violência das chamas e caiem, quebrados; o grito e o beijo-mor no enlace final, às chamas sucede um manto de névoa e dos olhos escorre a ternura que sobrou. O crepitar agitado da memória do fogo, dois fios de suor que deslizam em galhos ainda enlaçados pelos olhos, esses que viram as chamas e as lamberam, o impossível possível.
.....
Também poderia chamar-lhe ‘borralho’, mas gosto da palavra Luz.

domingo, 20 de maio de 2007

3 vezes

o nervoso miudinho
de me ter zangado com a rima,
fez-me enviar, iguais
três mails dizendo o mesmo,
três vezes mais um poema.

é assim:
estranhas situações ocorrem
nos versos da cyber poesia.
até calha dizer, três vezes,
qu'esta tarde armei-me
em poeta de domingo.

três vezes, o mesmo.
coisas que acontecem aos sonhos
feitos em computador
o programa segue dentro de momentos.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

as estantes nos jardins

Esta notícia deprimiu-me. Pois... não é 'depois' mas sim 'pois' que escrevo, um baque de «quê? de que se fala? ah, pois, já nem me lembrava...»
Num jardim adormecer e envelhecer olhando essa enorme estante onde as lombadas se chamam memórias. Estranhar o Tempo, tão traiçoeiro na falsa lentidão com que corre e faz voar as páginas, e num súbito uma foto uma frase um nome dá um flash e puxa uma recordação, "ah, pois..." Envelhecer num jardim, rima de livros arrumados nas estantes e um embaraçador fio de baba rolando em queixo certamente de barba rala, descuidada na lentidão das tardes, no corpo o aconchego dum sobretudo sobrevivente a invernos e outros escritos; tudo pantufas quentes quando num repente se sabe duma notícia e, 'capa na mão', pensa-se que foi há tanto e há tão pouco, tempo já arquivado em estante passado, adjectivo da família de envelhecer e percebê-lo num repente.
Estou a falar de emoções. Esta notícia deprimiu-me, ainda havia um luto por fazer.
Adenda: o Luis Novais Trigo, do Tugir, dá novas sobre o lançamento.

Charlôt

e-mail recebido agora mesmo, boas oportunidades a divulgar:
UMA MÃO CHEIA DE CHAPLIN
DE 23 A 31 DE MAIO 2007
NO JARDIM REPÚBLICA EM ALMEIRIM
Este ciclo de cinema planificado para ser exibido ao ar-livre é organizada pela Câmara Municipal de Almeirim e tem a sua programação assinada pela Círculo Solar- Maternidade de Ideias. Inteiramente dedicado ao génio de Charlie Chaplin os cinco filmes que enchem esta mão, demonstram bem talento do autor-total. Todos os filme apresentados são realizados, musicados, interpretados pelo próprio Chaplin.
O Jardim República, fica no centro de Almeirim. Charlie Chaplin justifica a viagem e Almeirim vale a visita. A entrada é livre.
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PROGRAMAÇÃO:
SESSÃO DE ABERTURA - Quarta-feira 23 de Maio 2007, 21:30h * O Miúdo – 68' – 1921 – filme mudo
Quinta-feira, 24 de Maio 2007, 21:30h * A quimera do Ouro – 92'–1925 – filme mudo
Sábado, 26 de Maio 2007 , 21:30 *O Circo – 96' - 1928 – filme mudo
Quarta-feira 30 de Maio 2007, 21:30 *Tempos modernos – 83' - 1936 – filme mudo
SESSÃO DE ENCERRAMENTO, Quinta-feira, 31 de Maio 2007, 21:30h * O Grande Ditador – 120' – 1940 – filme sonoro

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Honorato e Fidelina

'Honorato' e 'Fidelina' têm tido vida própria e pelos net-grupos os seus autores de vez em quando deixam registos bem humorados acerca do peculiar casal, ele (eu) um pobre desgraçado reformado da Polícia Judiciária e que faz uns biscates como dectective particular, ela ('ela', a desgraçada infiel!) uma matrafona que, descobriu-se, andava a cornear o Honorato com o compadre Ernesto e agora anda com a mala por Malta, ingrata emigração, vidé brasileiras e ucranianas por cá.
Nos últimos dias tem sido o 'Honorato' o maior contribuidor para a saga, e, sem falsas modéstias, ainda não falhou um tiro e tem limpo a vizinhança toda, compadre Ernesto e um entregador de ppizas incluídos. E mete canibais e uma ex-vizinha que foi sindicalista nos inesquecíveis tempos da Comissão para criar o sindicato das prostitutas, há can-can e outras coisas. Devagar devagarinho, para não acordar o Honorato que dorme à janela o sono dos justos e cornudos, irei aqui metendo 'episódios', sem que o sejam formalmente pois a continuidade é aleatória. Está dito, brevemente o primeiro desta 'série'.

terça-feira, 8 de maio de 2007

páginas que me impressionaram

O ritmo narrativo de Truman Capote, a construção do suspense em Patricia Highsmith, a poesia macha de David-Mourão Ferreira, refresco quando muito poeta se lê e tão insonsos; os novos verbos de Mia Couto, a escrita delicada de António Lobo Antunes, quase qualquer poema de Sophia. E mais, mas sou preguiçoso. As páginas fotográficas no 'Albas', Dinis Machado a contar dos camones no Bairro Alto e da trolha que se armou, Cardoso Pires e Baptista Bastos a visitarem Lisboa e eu invejoso de também assim a olhar mas não saber escrevê-lo tão bem. O primeiro livro de contos de Suleiman Cassamo e 'o jogo de Gerard' de Stephen King. 'O Adversário', Emmanuel Carrère, pelo assombro e o porquê presente da primeira à última página. Afinal são muitos, se continuo a passear pelas lombadas vejo ainda mais. Kerouac, o primeiro, claro. Tolkien, como devorei os três calhamaços sem conseguir parar...
Chega: é claramente post só para deixar registo, nada mais a contar. E nem digo que 'leiam, vou ler' pois não é isso que vou fazer: vou sim ler mas é na net e provavelmente muito do que lerei foi por mim escrito: ando com uma febre 'Honorato & Fidelina' e nos últimos dias ao folhetim tenho escrito sem parar, jorro atabalhoado está claro, o melhor mas que obriga a duas releituras para lhe apanhar o fio à meada, tais os atropelos. ´té já, vou até lá para ver como andam as coisas entre aquele par-de-jarras, se já morreu mais alguém ;-)

( Aqui, e espalhado aleatoriamente em diversas colecções de 'mensagens': se as 'abertas' por "webenigma" são minhas e as mais recentes tratarão do tema, há outras por outros abertas onde me alarguei a contar das tristezas e corneaduras, assassinatos e canibalismo, can-can por uma ex-sindicalista e o mais que para lá há. Visita quem quer, para 'escrever' é que é só com ficha preenchida e cartão de sócio na mão, coisa que, por avisada prescrição, não deixa dizer que sim a todos os toc-toc.)

domingo, 6 de maio de 2007