domingo, 8 de julho de 2007
blogspot, hoje
até amanhã, calhando
adenda ao bula-bula de ontem (secção de culinária)
sábado, 7 de julho de 2007
bula-bula de sábado
segunda-feira, 2 de julho de 2007
cartas à musa: as letras do silêncio
pedro
coisas da vidinha
sábado, 30 de junho de 2007
o Nu engravatado
As camisas dos Andes que se vêm nas barracas de artesanato das feiras, em linho, daquelas às riscas multicolores e algumas com um capuz, mangas largas e muita, muita frescura à vista, mais do que os dois botões de aperto em nó e pauzinho mostram, são muito bonitas e até me admiro em como ainda não tinha pensado nelas para este Verão. Claro que mal falei assim em voz alta, correndo-as satisfeitíssimo com a descoberta e as combinações cromáticas possíveis, recebi pouco entusiasmo. Houve equiparação da menina-dos-meus-olhos a pijama, ou nada encorajadoras além do simpático «sim, não é exactamente feio…», ao certo pensado em versão mais pormenorizada «enfim, ao menos que seja só a camisa e não se lembre do conjunto, calças e sandálias a condizer...», houve um abanar de cabeça que já julgava esquecido desde que meti um brinco na orelha – esquerda, sem confusões, e eu não trouxe nenhuma. Eram a doze euros cada, conta já se vê que boa para acertos a quem levar à variedade, o que até nem é difícil quando tendo-as na mão e os dedos tacteando a textura, dela se extrai sem cerimónia e respeito pela loja mais que um fresco corporal em corte exótico e informal e evola-se uma filosofia de vida, alçam-se asas na frescura garrida duma camisa e, não tarda, está-se a assinar petições para uma magna reunião no green em frente ao Pentágono, baforadas mais esclarecidas e menos voláteis que as do (semi) fracasso de há quarenta anos atrás: uma multidão hippy abancou nos jardins e fumaram quilos de erva em volta do solene monstrengo, convencidíssimos que as ondas mentais e a fumarada que as afina eram suficientes para fazer erguer-se o edifício inteiro - e aquilo dizem que é mais que quarteirão-e-meio... A ideia seria a que, voando, das duas uma: ou os seus generais-habitantes compreendiam que há mais coisas no mundo que papéis e bandeiras e cancelava-se a guerra (Vietnam, então) ou não o percebiam e o calhau subia, subia, desaparecia na estratosfera, out completo que permitia a esperança de, esvaziando-se o cérebro mau, acabarem as maldades no corpo. Já li que há quem ainda jure, quarenta anos depois, que «sim! aquilo levantou pouco mas lá que levantou levantou, foi que eu vi e lembro-me bem...», tal a festança que foi. E ajudou, a fumarada e as boas intenções foram grãos de pó nas cinzas que ajudaram a subir o sentimento nacional anti-guerra, a acção objectivamente poderá ter sido um desastre pois o monstrengo ainda lá está, pedra cal e cruzes e sem vontade nenhuma em levitar para uma visão global do mundo mais esclarecida, mas logisticamente imagino o inverso. Sem o garrido das camisas dos Andes da época, ao que me recordo e as velhas fotografias mostram com muitas cores, feitas vasos de flores e desenhos psicadélicos, os sessentas a virar para os setentas e o velho mundo quase a acabar (vivia o seu apogeu), sem isso ele não se tinha mexido um centímetro. Cinicamente podia acrescentar que os sentimentos anti-guerra são mais fortes quanto àquelas que soam a perdidas mas não o faço, prefiro acreditar que ele até levantou um bocadinho, mais meia camioneta de erva e da boa e tinha mesmo arrebitado, e não tinham advido os tantos sucedâneos que enchem aquelas paredes de mapas. Uma feira e uma noite de Junho, uma barraca de artesanato com camisas lindas, linho do melhor e eu a pensar nas manifs onde não fui pois soube delas tardiamente e interrogo-me se ainda com pulmão para tanto, se ainda há ícones ou réstea de fé neles, se hoje a solidão que enche a Internet de barulho não se lamenta no garrido duma camisa, no sonho duns Andes que não conheço como, afinal, descobri recentemente que não conheci Che mas tive-lhe um poster na sala. Era uma sala de altares, foi há trinta e tal anos atrás e hoje, quando penso em redecorar-me, poucos daqueles posters voltam à parede da sala. Só a doze euros mas eu acabei por não trazer nenhuma, apalpei-as tanto que fiquei com medo de, vestindo-as, a magia perder-se e passarem a mero pijama, dando razão a quem avisa que sonhar demais faz compras carotas. Que fosse pelo fraco modelo que físicamente sou é o que menos me rala; pior, bem pior, seria se descobrisse que ser hippy fora d'época é como camisa andina de barraca de feira, como descobrir que é verdadeira a estalada que nos diz que não vivemos uma época em que sonhar é benquisto, onde uma camisa garrida, exótica, não é vista como mais do que isso. E isso dói, mais a mais a quem dorme nu, hesitando entre baforadas de sonhos que cor terá a realidade para que mexa e levite, como é que se redecora a sala do individualismo, quando é que nos juntamos outra vez e se alguma dia haverá dito que «dessa resultou mesmo, lembras-te?», que não pois já não há posters nas paredes. Uma camisa na mão, dos Andes ao caso. Na tenda ao lado havia estátuas, madeira negra esguiamente padronizada. África. Nem parei, àquela altura já nada me servia e doze euros hoje em dia já não compram quase nada, à mão meia dúzia de pensamentos em textura de linho garrido, cores e cores e quase mais nada, uma vez ou outra um capuz que poderá dar jeito quando há que desligar do mundo, procurar a frescura, levitar, o sonho alvoroçado, a pergunta de porquê ele acontecer quando estamos sozinhos, todos tão longe do green e com uma bonita camisa andina na mão. Foda-se. |
sexta-feira, 29 de junho de 2007
domingo, 17 de junho de 2007
e sabem que mais?
quinta-feira, 7 de junho de 2007
os capítulos morrem de pé
é-se egoísta quando o calor das brasas do borralho faz frieiras, dores que a ânsia de confortos induz quando o coração responde desvairado ao apelo por calor. isso entendo e assim entendo-te quando o teu silêncio me pergunta se chego a pensar em ti, do que desejas e precisas, e eu percebo que as minhas cartas são o teu recreio, não a realidade de após tocar a campainha e guardarem-se os brinquedos, a bola num canto junto ao muro e no chão de cimento o arco imóvel - qu'a cintura esguiou-se e cresceu, engordamos nas necessidades e hoje somos gourmets nos petiscos, é-se egoísta quando se insiste em alíneas da ementa que têm ao lado a cruz terrível do produto esgotado, as dietas necessárias quando há é que diminuir o colesterol que entope as veias do sobreviver. mas nesta última "carta à Musa" vou falar-te noutras coisas, literárias e terríveis:
na pág. 640 do último Crichton canibais ecologistas da polinésia comem Bradley, vivo, a dar conta das facas cortando-o até tudo se apagar. terrível, página e meia que impressiona mais que mil em apologia de exercícios intelectuais para saciar ideologias mal resolvidas. Lecter enquanto jovem (agora Harris, Thomas), fez uma espetada com as bochechas de Dortlich, equilibrada com trufas que estavam a cem francos nos locais de culto de Paris e ele apanha do chão de bosque letão, em volta do pavilhão de caça onde Grutas e os outros comeram a sua irmã pequenina, Mischa. há guerra na literatura. há quem escreva 'terror' com as letras todas em bold e isso vende, consome-se em milhões e milhões, saliva-se por best sellers e encontra-se o choque térmico dum nó do estômago, o frio que se instala e, em comparação enquanto o rosto se crispa mas os olhos não despegam, suaviza o quotidiano quando não se lê a baba de quem escreve, mais repelente que o espelho que nunca olhamos. e, pior porque se fala de livros e isso merece mais respeito que o àqueles que os escreveram, renova-se o compromisso de leitura e há manchas do nosso sangue nas estantes que crescem, às vezes tenho medo de me ler lendo, nem todas as lombadas me merecem olhares indiferentes ou sorrisos de prazer, eu estou escondido em tantas e tantas e escondo-me disso e de mim na secção das puzias e poesias, delicatessen onde te encontrei e faço-te esta gulosa corte.
eu engano-me e sirvo-me escrevendo "a Inês", imortal e renovada senhora das mais românticas ilusões, mães de todas as outras e se a filharada é pequena... às talhadas, aos pedaços, canibal de mim mesmo. sou pior que eles: não me chega a carne inocente da personagem, necrófilo e autofágico lúdico acrescento-lhe a minha, de babete e em beijos e lambidelas amacio-a colada à dela, musa Inês, ferro-lhe dentes roubados e engordo comendo os bocados de mim que mais detesto. sou o meu hit e darei um banquete público quando servir o umbigo, adornado com camarões de promoção fritos e vinho de garrafeira falida, qu'o provarei todo antes das visitas entrarem e verem como quase todo azedou pelas más rolhas que deixaram entrar o ar da realidade. foge de mim, eu não presto.
seduzi-te nas minhas páginas, disse-te todas as palavras de encantar de que me lembrei. houve momentos bonitos, sei. Inês foi rainha e não foi só por um dia, foi uma glória a sua deificação e foi justa, merecida à musa e ao escritor. crescemos juntos, foi lindo o jantar às velas de Carlos-Pedro e a sua Inês. com flores, vendidas num qualquer restaurante do Cais do Sodré por um marroquino com um colete cheio de bolsos de maravilhas a pataco, flores com luzes e rosas de que escolhi duas margaridas e pu-las no teu regaço. tchins-tchins íntimos a que a saudade não será nunca indiferente, mais naquela manhã em que me levantarei antes do dia nascer e irei ver o verde dos campos àquela neblina das primeiras luzes da realidade onde os castelos se desintegram, as românticas muralhas e os altivos torreões, engalanados, agora celas de prisão conquistada com pleno mérito, em pior alternativa muros caiados do cemitério onde jazem as palavras bonitas, as loas, as estantes das ilusões onde lado a lado com a poesia e a metafísica há sempre lugar para um novo livro com veias abertas, a páginas tantas o canibalismo do autor e da personagem, a confusão de identidades onde as belas muralhas não costumam resistir e ruem, nasce a tristeza e seca a flor. crescemos juntos, sobrevive tu enquanto preparo esta espetada de mim, o truque da receita vai além do pau de loureiro e do marisco, ervas finas, ponho-me em saldo e corto lascas da minha melhor chicha, os lábios que te beijaram e os dedos que te escreveram, 'inventaram' - eis o melhor naco, pièce de résistance aos esfomeados da literatura quando esgotadas as palavras belas do enamoramento, Inês abandonada e deixada à vossa mercê por um escritor canalha.
As melhores paixões literárias são sempre as que estão por vir, ainda nem suspeitadas quanto mais delas escritas os primeiros gatafunhos: Inês é eterna para quem acredita em fábulas com musas e outros seres fantásticos, Tolkien dum sorvo e Roberto A. Heinlein, 5 Hugo, noutro. digo dos Hugo porque num universo de tarados ganhar uma medalha de mérito é obra tão difícil como fazer versos que mereçam um prémio de Poesia, ou nas filas de sangue da estante haverem lombadas com marcas de uso, revisita a Capote e a Carrère, à límpida Patricia Highsmith (mordibizei isto, já não há volta a dar-lhe: siga) os autores morrem e continua o ciúme. de não ter morado em Coimbra à rua Guerra Junqueiro e, por isso, apenas por isso, não ter sido um craque como o Assis Pacheco. nem em Benfica e nunca estive em Angola com desejos de me casar como o sacrossanto ALA, rapaz então tão novo e eu agora já tão velho, acentuadamente coxo para me notabilizar em futeboladas de passeio e longe demais para ir aos domingos de manhã brincar com a areia da praia das Maçãs. fiquei bêbado com estas ilusões e querendo continuar a festa descobri que a cortiça que me guardava o vinho o fizera zurrapa em quase todas as garrafas, um pico ácido no travo, vinagre, vinagre e não o néctar da uva dos vinhedos que abundam no campo e na charneca, a ilusão da minha garrafeira cheia mas mal estimada e conservada, zurrapas com rótulos enganadores, escrita fina que quando se leva aos lábios não presta.
é o fim de 'Inês', no cascalho que sobra alguma relva nascerá e, nela, um pouco mais tarde aparecerão flores silvestres, os miosótis de que tanto gostas e que me recusas, para que no meu excesso romântico não os mate, arrancando-o da sua felicidade com raízes profundas, tão profundas como a beleza do mundo, em sacrifício do teu colo, belo sim, mas perene como todas as paixões pois mesmo as literárias têm as suas páginas finais de romance. doravante escreverei folhas onde haverá caldeirões a ferver, vira-se a página com ânsias mórbidas de ver o que acontece quando o olhar do condenado entende que está a olhar para a guilhotina que o irá já já decapitar e cegá-lo, o patíbulo onde o laço o espera e a luz a esvair-se no aperto mortal da forca (sou um óptimo leitor de mim, sossega bela Inês que nunca esgotarei por vontade este filão, egoísta e narcisista como sou)
não quero nesta última 'carta' lembrar momentos e recordar frases como em elogio fúnebre. quero olhar para a estante e ao ver a tua lombada acreditar que no editado estão páginas de paixão, linhas de palavras tão vastas como as carícias que te dei e eu sei que excedi-me, nas epístolas destapei poros ocultos pelo pó dos anos e lambi-te e lambi-me de ponta a ponta. não sou um vaidoso falso pois sei que a minha língua é suave quando soletra com ternura, não tão ágil e sabida como as dos nomes consagrados do voyeurismo literário mas foi suave no cunilingus que te escrevi e dediquei. guarda o teu exemplar, cada página é uma dedicatória à mítica Inês, à musa. no meu há páginas com borrões das lágrimas, das belas lágrimas nascidas por amor. não tarda e outro escritor te encontrará, escreverá novos elogios em novas palavras inventadas. é que, espremida a literatura e exangue o autofagismo do autor e do leitor, sobrevive sempre o amor e há sempre um novo amante de dedos ágeis que o escreva, escrever-te para seduzir-te perpetuando o mais belo mito literário, tão perfeito que há momentos em que Inês salta das folhas e vive lado a lado com o seu criador. reencontrar-nos-emos pois sou um leitor adito, insaciável. o sino soa e os pássaros levantam voo em revoada, o céu é sempre lindo quando o seu chilrear esvoaça.
com muita ternura do que foi teu escriba dedicado, Pedro-carlos
terça-feira, 5 de junho de 2007
cartas que voam...
cartas a Inês - dos nomes de Ninguém
Não tenho história para contar. sequer estórias, falho que ando num teclado que só se eriça quando escrevo 'a ela', bela Inês. Crismei-a assim em impulso quando 'a' conheci, a musa. Se calhar julgo-me castelão e chamo-me de Pedro na inconsciência dos sonhos que me habitam no meu castelo. Ou se calhar não, não tenho nome e não existo, este mail e todos os outros milhares que escrevo são letras no éter, spam entre tanto, maliciosos remetentes que tentam ao calhas furar defesas, encontrar abrigos onde se alojem, o mítico colo que, dizem as velhas sabidas, é o que todos os homens procuram no regaço das mulheres e o sugar dos seios revela-o mais que o disfarça. Se calhar não existo, há uma máquina automática que escreve, escreve, escreve sem parar e cuidar de quê ou a quem, grita e chora, repenica um beijinho e exibe a lágrima alojada no tal cantinho umbilical ansioso do afago duma lambida que lhe prove o sal. Se calhar sou um gajo mal-resolvido sentimentalmente, nostálgico de quando a vida era elegante. E, se calhar, comovo-me e mando outra lágrima a fazer companhia àquela quando assopro as brasas para não as deixar morrer. Se calhar tenho alguma coisa para dizer e não o consigo, assim ficciono que Carlos-Pedro, afinal, não morreu assim há tanto tempo.
sexta-feira, 1 de junho de 2007
Água, é água Inês...
Aqueles que não soube enredar, inábil tecelão de rugas e rios de prata, fios de cabelos que se prendem aos dedos como a saudade se cola às memórias. Como a da tua imagem, que paira sempre que a água lava as meninas-do-olhos e vejo-te, espelho de mim, alma dos meus dedos e seu sopro loador. Inábil em contá-lo, inapto em angariar meios de subsistência à paixão que a soe num slow de letras, enlaçadas pela orquestra literária. O dilúvio do amor platónico, a taciturna chuva que molha a folha onde nos criamos e a lava revelando a sua poesia, papel onde nos sentamos e brincamos ao amor à Musa e ao dela ao seu Poeta, ribeiro d’águas juvenis e perenes como se só de ilusões fosse amestrado, e não é. És real Inês, é-lo tanto como é verdadeira a ilusão dum desesperado. Como elas, as águas, que, soltas em catarata molham a aridez da prosa e mostram os dedos enlaçados no límpido da cascata que na folha se desenha, sorriem no louvor à mítica e selam cada envelope com um sorriso lambido. Água, é água Inês… as palavras fugiram para fozes inatingíveis ao toque dos dedos, confluências que ficam além do alcance deste Cupido carteiro, este envelope contínuo que se fecha com um beijo à musa e só é aberto pelos deuses e pelas deusas, esses desconhecidos que moram além das pupilas em que nos reflectimos e pensamos, más discípulas dos códigos simples dos amantes e infiéis espelhos do rol de cores que o íntimo contém desde que a represa abriu as comportas e soltou a solidão, parda na sua plácida prisão de águas paradas.
Adeus Inês. Não tenho o tempo que autoriza a delonga do namoro eterno, urge espreguiçar o pensamento, regressar e repudiar este parapeito epistolar onde te espreito, há contas por encantoar e contos por escrever. Dizem que nasceu a Primavera e eu ainda não fui vê-la, cego pelas lágrimas da paixão ignoro outras rimas além desta cascata de te amar. O verde e o azul do horizonte apagam-se e nos vultos de espuma não vejo mais ninguém, enquanto neste enlaçar de promessas impossíveis avista-se o pingo da lágrima límpida que resvala gotejante do ponteiro, infatigável, nossos segundos de teu reinado. Adeus Inês, a divina. A cascata, a chuva que me faz gritar, o óxido que temo e repudio, o Medo. De ficar assim, para sempre incapaz de parar de te escrever torrentes de fogo e murmúrios, águas revoltas que cegam quando o torvelinho da paixão molha a folha, essa puta literária, esta fábula de realidades ficcionadas que brinca às Ilusões. Fiz-te Musa e encantei-me, galante estendi folhas à carícias dos teus pés, no ímpeto da corrente estendi a passadeira mais bela, o veludo rubro que encaminha pássaros e animais perdidos às muralhas do tal castelo de que se acredita saber o santo e a senha para entrar. Esse, o mesmo que se começa a construir numa praia à beira das ondas, nas margens dum rio ou onde seja que, olhando as mãos, vê-se um balde cheio do mais fino ouro, quilates de sonhos por construir e que não param mais, torres e muralhas que a idade agiganta tanto que se lhe perde o trilho, toc toc deixem-me entrar pois fui o teu criador antes das águas ocultarem o caminho.
Não me apetece falar mais dos teus olhos, resisto. Resisto pois afinal o que me apetece é mergulhar neles e nadar no seu tom, braçadas que me levem ao centro do lago onde nos espelhamos, eu e tu, a musa e o escritor, mitologia que encarno ao ponto da carne estremecer quando te sonho, dos dedos se tactearem na carícia de te escrever. Não, não devo falar mais desse lago de ilusões, as pupilas dos teus olhos e em como elas chispam e raiam quando lhes derramo a torrente deste amor escrito, este afago virgulado em mentiras, estas cartas que escrevo e eu não sou ninguém. Este atrevimento arrogante de ousar que das palavras nasçam realidades, te corporizes e inflames, inundes a realidade, tu que de tua graça és Inês d’Ilusões, casta por ascendentes pergaminhos e ónus de nome próprio, sedutora por apelido e de família vasta, enorme à míngua da minha solidão.
Desencosto a escada da muralha e renuncio ao torreão, procuro no invisível longe a nascente destas gotas e destas cartas, procuro a matriz do sonhador. Desenlaço os dedos e forço as letras na busca de rumos longe do teu corpo, montanha do meu imaginário que alimenta o vale que fiz atelier para a minha escrita. Renego-te, musa. Deixo-te, Inês. Solto-me saudoso da clausura de te amar, a barba molhada na tinta de te escrever, cor de lágrima. Vou procurar no Mundo, virar todas as pedras no caminho e espreitar em todas as moitas, alegrar-me-ei com as flores da Primavera e farei poemas aos pássaros, aos rios, vou perder os meus passos longe de ti, caudal tão forte e eu tão fraco que sou às suas emoções. A partir d’agora prometo que não ousarei mais o beijo tímido que esconde o fogo das paixões. E nem destas até falarei, calo o ardor que me jorra palavras para explicar o inexplicável, a beleza eterna da Musa. Vou abandonar a barca dos sonhos e não passo para o outro lado, não sigo mais o caminho para o Castelo, renuncio aos teus olhos e mato o idílio fictício de vê-los apaixonados. Este rio goteja tanto que me alaga, preciso escapar-lhe, sobreviver, ler nas nuvens e nas árvores doutros encantos que não a tua imagem que me sorve o oxigénio em beijos demais para poderem ser reais, e falta-me mais medo para respirá-la, realidade.
Voltarei à tua margem, sentar-me-ei num troco quebrado e deixo as lágrimas ligarem-se a ti: gosto do sabor da tua tinta. Gosto de ti, Inês. Amo-te antes de sabê-lo e de tu o saberes até, perspicaz como és. Vem dos tempos intemporais, vem do balde de areia e dos castelos, vem do gaiato eterno do teu sorriso – que antes de Carlos e Inês fomos crianças e essas são as mestras da paixão, alquimistas traquinas que d’areia molhada fazem castelos e habitam-nos sem se perderem em caminhos e margens de rios e sem caudais a atravessar. Voltarei a ti e de novo te farei tinteiro, escreverei Inês e colarei uma imagem, uma diva, outra musa. És tão eterna como a água que corre e sei que nunca conseguirei resistir ao apelo do banho do teu calor, ao afago de ternura das cartas secretas e dos beijos roubados, aos dedos entrelaçados e ágeis no desenhar do tema idílio, recorrente ilusão. Girarei o mundo e voltarei ao teu colo, meu ninho criador. Mas agora solto-me, liberto-me da asfixia do amplexo da paixão. É violento este rio, este amar literário, estas folhas d’ilusões escondidas nos recantos do castelo. Aquele, estas muralhas, esta tanta água quando te escrevo.
quinta-feira, 31 de maio de 2007
os joelhos de Inês, à lareira
as chamas viraram brasas, felizmente. é bom o seu calor, não faz feridas como as chamas soltas, inconstantes e alterosas. das brasas todos sabemos: podemos chegar o banco para mais perto da lareira, ajeitar a samarra ou o xaile a proteger as costas e, olhos fixos nas mudanças de cor das brasas fazer conversas de lareira, dizem que das melhores no Inverno. tu aí e eu aqui, cada no seu banco e no braseiro comum, esta ficção de escrevê-lo e confessá-lo, soltar rédeas aos desejos e cada um contar de como comia o outro, canibalismo de quem está farto da fome das iguarias de sentimento, carnívoro de sentires.
vem um calor bom, as faces estão coradas e nas mãos estendidas em carícia respeitosa ao calor do fogo há o brilho da pele mais intenso, vêem-se tendões e veias, dá vontade de chupar-te os dedos. há momentos em que nestas epístolas me sinto um pedinte de afectos e não gosto disso. tenho vinte dedos e uma pila, rabo, boca e nariz à unidade, dois olhos e duas orelhas, tudo usado e com uns anos em cima, dedos amarelos do tabaco incluídos. um formato em padrão e à época, e com um software exclusivo sempre com bug's e páginas 'agarradas', tanto programa útil que armazenei na vida e nunca os utilizei nem sei utilizar, o mundo acaba logo a seguir ao Word, tão grande que ainda não se acabou. seduzo pela letra e sou fraco galanteador na oralidade, acabo de te confessar em conversa de lareira, olhos nas brasas. teus olhos, como me perderia já a falar deles... mas não, qu'o fresco que vem lá de fora não aconselha a despir a samarra e tentar roubar-te um beijo, deixe-se correr a conversa morna, esta preguiça que vem do calor, das tuas mãos que brilham àquela luz e, agora, os teus joelhos bem nítidos, ora que te puseste sentada de lado para melhor olhar para mim. falas-me. estás a perguntar-me coisas e eu, ou porque não sei do que falas e recuso-me a pensar nisso, ou pela maior razão do novo fascínio surgido, os teus joelhos, não te ouço e não percebo patavina, alterno um sorriso concordante com um ar intrigado e super atento, depois em meditação profunda apoio o queixo no punho e olho.... os teus joelhos. assim, as pernas contraídas e cruzadas nos pés mostram a elegância do teu esqueleto, joelho e fémur mais em pormenor. ossudo aquele, prometedoramente longo e almofadado este (está a ficar calor; vou tirar a samarra)
nesta lareira, nesta casa, quantos casais de quantas gerações se sentaram aqui, a olhar troncos que estalam e brasas que aquecem, quantos bancos foram arrastados na procura do conforto um do outro? o passar pelas brasas sonhadoras, aqui literal. certamente muitos e houve Cinderelas e Marias nesse teu canto e com esses joelhos, há aqui um Carlos que olha Inês como outrora houve quem fosse que houve e olhou quem estava, mostrando ela os joelhos tal como tu agora com as pernas das calças arregaçadas. adivinho-te no sorriso indisfarçado que já descobriste que te miro à sucapa, que não estou aqui e já venho. não posso evitar rir-me, apetece-me rir e rio-me, está calor e os teus joelhos são tão bonitos como a covinha que fazes quando ris, como agora, ei-la! raacccc e raaccc, ambos os bancos se arrastaram milímetros ao mesmo tempo e que se multiplicaram numa gargalhada cúmplice e encantada, no abraço ao calor de brasas que estão em ponto, óptimas, um arco íris privado de tons fortes, quentes, calores que nem as carícias que se trocam suavizam, choques de joelhos o teu nu e o meu não mas como se o estivesse, estou, estamos nus e há quanto tempo, não o negues Musa minha...
é um refresco a que sou sôfrego, a tua boca. estamos lambuzados, contentes que nem crianças com este maravilhoso brinquedo, o desejo, a fome sexual. busco-te um peito e na primeira carícia sinto-te o arfar no meu ouvido, a tua mão que me revolve a nuca e excita-me, os teus dedos que mergulham à procura das minhas costas, carne, carne como eu sinto agora o macio a tremer da tua barriga, solta que está a blusa para permitir à mão encontrar melhor os teus seios, que gritam por elas. damo-nos carinho. beijamo-nos, os corpos colando-se e descobrindo-se, a excitação sexual já revelada e imparável. acaricio-te o rabo profundamente, cravo na nádega os dedos e puxo-te, colo-te mais a mim para sentires a minha excitação, gritando por liberdade e exercício do prazer até à exaustão. a minha mão pesquisa dentro do cós das tuas calças simultâneamente à tua, que, impaciente por acariciar-me sobre a roupa, luta com o meu cinto e botões para sentir o meu músculo quente, inflamado pelo sangue e pelo calor de ti.
depois vem o decoro. nada mais há a contar de estórias de lareira assim; há a mitologia e a esperança em, um dia, outro e outra à mesma lareira assim se incendiarem. smack, Inês
quarta-feira, 30 de maio de 2007
quadro de Senhora Após o Banho
Não queres 'escrever'? contar de como é bom piscar o olho, ser galanteada? Tu Musa, és a rainha do meu quotidiano imaginário: sem ti ele não existia, prime, e como sobremesa à vidinha haveria dieta sem o profiteroles perfeito, no ponto, que é loar-te em dedos excitados. Anda, conta de ti, de como desliza na tua pele húmida o vapor d'água quando termina o banho e os mamilos estão rubros de excitação. De como é agradável passar as mãos no cabelo e fechar os olhos, sentindo o arrepio das gotas deslizando nas costas, juntando-se para mergulharem num fio entre as nádegas, vermelhas pela excitação térmica. De como os músculos estão serenos e dengosos após a massagem do chuveiro e ansiosos por uma carícia que não lhe dispensas, enquanto a toalha te percorre a pele, cheirosa e bonita. Conta, musa, conta-me de ti após o banho, que sonhos aquelas paredes poderiam contar se tivessem lábios para te beijar, como eu, senhor do beijo escalado nas paredes do teu Castelo e do meu teclado mas omisso do quadro de Senhora Após o Banho, belle-époque da minha Ilusão. Do cigarro enquanto o espelho devolve o olhar crítico, observador de pontos negros e da patine dos anos, a ternura da ruga beijada em ósculo de homenagem à intemporalidade da sedução do corpo feminino. Conta-me disso, fala-me de ti. Nua ou vestida, no despertar ora resmungão ora sereno, do sol que te cumprimenta quando passeias à cidade a tua graça felina, conta-me do erotismo de gostar de pensá-lo e, inexplicavelmente aos cegos, de vez em quando sorrires ao recordar, imaginar... como eu que te espreito à fechadura vendo-te lamber o corpo no acarinhar da toalha, minhas mãos transmutadas que imaginariamente te acariciam. Conta, anda..."
segunda-feira, 28 de maio de 2007
requiem do caneco
sábado, 26 de maio de 2007
Euro Milhões
sexta-feira, 25 de maio de 2007
Semana Africana em Santarém*
"Quando ontem a Milly me telefonou a recordar-me o compromisso de, hoje, ler umas palavras sobre nós e África, estremeci.
Primeiro porque nada tinha alinhavado pois esquecera-me completamente. Depois, enquanto mentalmente ia coleccionando imagens do álbum e pensando em como me ia desenrascar, os olhos encheram-se de cores, vi-me e li-me como nos calções e boné – obrigatório até eu perder os suficientes, vá-se lá saber porquê!..., a pasta escolar debaixo da árvore e de bruços em volta dos berlindes, os carrinhos com um botão colado com chuinga, deslizando invencíveis na borda do passeio. Das mangas roubadas, do tilintar das pedras que caíam nos telhados dos vizinhos, às vezes até no do dono da mangueira e do correr pelos caminhos estreitos, labirintos de areia quente e paredes em caniço que davam para largos onde havia uma cantina que vendia gelo-doce, à porta mamanas a vender amendoim torrado, amendoim com açúcar, maçarocas assadas.
Provavelmente vendiam mais, mas do feijão e das latinhas de azeite Gallo de um litro não me lembro, eu recordo é o sabor das mangas roubadas, dos jogos do paulito e dos pavilhões ao ar livre que eram os passeios depois de jantar, fabulosos jogos de báskett nas melhores tabelas do mundo, aqueles aros de barril pregados onde desse jeito, os jogos dois-a-dois em que se fintava e metia-se golo no buraco da árvore, as noites quentes em intermináveis conversas sentados nos muros, descobrindo a vida e os seus mistérios, eu penso-me quando penso em África vejo o caniço e o cimento, a cidade. Ao pensar ‘Africa e nós’ eu penso-me em miúdo, nela.
Cresci na cidade mais bonita de África, tantos o diziam, e eu que a amei tanto que só hoje o percebo, conheci-lhe sabor limitado, quase todo urbano. Amava percorrer aquela cidade na minha motorizada, o lento passear sob as ramadas das acácias e dos jacarandás, o longo ronco do motor em avenidas sem fim, camisa aberta ao vento e a todos os cheiros que ele, pródigo que era, me trouxesse. Cresci em harmonia, infelizes quedas em curvas onde o óleo dos machibombos o induzia, mas o alcatrão era suave, tanto que se derretia quando o sol africano explodia, naquele seu apogeu que tem o fim mais belo do mundo, o pôr-do-sol no sul de África.
Era um momento sagrado do dia, uma intenção que só não se cumpria se uma emergência acontecesse ou a preguiça encontrasse outra desculpa: ao cair da tarde, no jardim fronteiro ao imponente liceu principal da cidade, na zona alta e lá em baixo a baía e o desconhecido no horizonte, mesmo aos pés e no fundo das barreiras o final da baixa da cidade, a Feira – esse local mágico que acontecia uma vez ao ano e onde se enchiam sacos de plástico de sonhos com rodas para meses, se comiam óptimas bifanas à borla, também o muito verde de matas mantidas para futuros jardins, já um lago e barquinhos, namorados de mão dada.
O Sol, àquela hora e visto dali era mágico, havia labaredas nas nuvens e a água tudo reflectia, o círculo de fogo gritando a paleta de emoções de dizer-se África. Éramos sacerdotes dum ritual irrepetível: também com marca de de época, mas a beleza do beijo final do sol à baía e à cidade era uma carícia especial, e a tela só perdia em beleza para as miúdas da cidade.
O mundo ajusta os seus ciclos e o colonial fechou, o longo tabuleiro mundial ajustou peças e, na revoada formada, fugiu-se-me o pôr-do-sol. Sei lá se fui colono estatisticamente, eu que nasci ‘cá’ mas amei crescer ‘lá’!... ‘colonialista’ em termos de definição clássica não fui, fui tão parvo como me apeteceu e tive quantas paixões como as que me lembrei, joguei à bola no caniço antes de saber andar de mota, cresci feliz à beira duma avenida famosa numa ilha de cimento que me deixava mergulhar as sandálias na areia mole, roubar mangas ou comprá-las, espreitar as prostitutas que aguardavam os militares num famoso dancing-bar quase em frente à minha casa, atirar sacos de água aos machibombos pelas portas inexistentes, e certeiros rolinhos de papel, dardos meticulosamente preparados e projectados por tubos de plástico que se arranjavam ‘nas obras’, foi numa cidade africana que os meus papagaios subiram ao céu, impossível esquecê-lo.
Hesito muitas vezes na distinção entre saudosismo e nostalgia, confesso que receio cair no mar morto do primeiro, e interrogo-me sobre a segunda. No meu caso e no de muitos de vós, quando “pensamos África” associámo-la com duas, três décadas atrás, e tanto que esse tempo é.
Nós não somos os mesmos, se fôssemos outra vez miúdos não tínhamos papagaios senão de plástico, e nas praias do Verão. As pessoas têm todas telemóveis para se chatearem continuamente umas às outras. Também lá, ao que ouço. Então porquê África diferente, porque este sorrir que se formou quando, findo o telefonema, comecei a escrever? sabem, disse-o à pouco, e seria poético demais dizer que a diferença está no por-do-Sol: isso é pouco para contar do dormir numa praia, da interminável savana e do cheiro das queimadas, de como um romance de aventuras sabe melhor lido em África, terra mágica e de mistérios.
Por isso acho que tenho direito à saudade de tê-lo visto naquele jardim e ter-me apaixonado pelas suas cores, ter sentido África no ar quente que me deu o oxigénio, e nas chuvadas de balde das primeiras desilusões nos grandes amores. E à nostalgia de mim, também; da felicidade de ter crescido assim, olho África e o meu passado em harmonia, deixo-a invadir-me pacificamente o quotidiano quando o olhar vagueia, moureja por ancoradouro que traga um sorriso ao crispado dos anos, há um suspiro de memória e um salivar pelo cheiro do milho nas brasas, pelo sabor duma manga verde com sal, há o olhar que se perde e nunca mais se encontra, há esta coisa boa de, aos cinquenta e tais, recordar o jogo do paulito e do n’tchuba, aquele das covinhas e das pedrinhas, o capim que bordejava os carreiros que haveriam de conduzir a algum lado, o cheiro da terra húmida após chuvada.
Não sei se lá voltarei, se calhar para aquilo que fazem os elefantes quando abandonam a manada. A vida trás raízes múltiplas, e quando penso num regresso à África onde vivi odeio imaginar-me turista, um tontinho de máquina fotográfica na mão fotografando as memórias, tão vagas que não reconhece tanto como julgava e, não tarda, está a fotografar cinemas fechados e cafés que hoje são lojas de telemóveis, catedrais, a comprar postais ilustrados.
Mas há cá um canto que bule, que volta não volta enrola o pensamento nas mãos e aquece-o, são os momentos em que a herança cultural africana que me deu um bafo em miúdo espreita, tentadora. Estou bem com o meu passado, olho-o com ternura até. Tão igual ao de qualquer outro miúdo, seja em Santarém seja onde for, com a diferença contada, a cor do pôr-do-sol e a avenida com a areia solta ao lado, o bar em frente e os pirolitos e o gelo-doce, o aventurar para fazer quase duzentos quilómetros em areia numa motorizada para ir a uma praia, o dormir ocasional num recanto ouvindo os sons da noite, poderosos no imaginário. Isto que foi mais-valia do meu início consciente, porque não buscá-lo de novo, nas novas realidades, tal como é novo o Outono quando a idade nele nos mergulha.
Obrigado África, pelo que me deste e continuares no meu imaginário"
Santarém, 25/5/2007"
quinta-feira, 24 de maio de 2007
II - Disneylândia e gato ausente
Não falaram. Para quê? Os corpos gritavam, os braços dela erguidos, suplicantes pelas suas carícias, diziam tudo. As palavras seriam irritas pois só os beijos falavam, no seu húmido calor que incendeia e reincendeia, adormece passados e torna os presentes névoas, nuvens onde se flutua. Os corpos foram glorificados, sugados, lambidos, beijados. Os sussurros ciciados elevavam o prazer em vagas, as mãos eram poucas para sentir, agarrar, acompanhar o desejo e os lábios que, esses, faziam a via sacra dos odores e dos sabores, as línguas sugavam-se e os lábios sorriam, húmidos, brilhando em prata à luz dos corpos que ardiam na fogueira do festim da carne, os poros dilatados para libertarem e absorverem os fluidos, os cheiros, o sorrir que os olhos contavam.
A tarde correu molenga, as carícias e a ternura moderavam os ritmos sapientes, e a fricção corporal íntima soltava-lhes exclamações incontroladas. Ardiam no fogo que tudo lava e descobre, expõe o animal ora sedento ora ronronante, solta o sorrir simples das coisas boas, primitivas, até risadas francas e libertas soaram enquanto os membros inventavam fugas, alternativas, vias, permitiam aos corpos púbicos afundarem-se um no outro, radiantes, felizes, os egos feitos esponjas e, gulosos, sugando as carícias como tesouros, os músculos em espasmos e contracções, o beijo terno autorizando.
Foi mágico. As pernas, ainda enleadas, repousavam, o peito num afã de grito subindo e descendo, oxigénio do viver. Os lábios formulavam beijos e os olhos davam-nos, à claridade que deles voava em brilhos incandescentes juntava-se o aroma macho e fêmeo que pairava e eles absorviam como o complemento do momento do grito, dos dedos cravados em pedido brutal por mais! mais!, dos olhos explodindo em entrega, raiados pela loucura dos amantes, o espasmo corporal, o grito e o desespero do abraço, depois as gotas de suor venceram e vergaram-lhe os troncos, os corpos prostraram-se e os olhos abriram as portas da felicidade, semi-cerrando-se enquanto os últimos raios da realidade fugiam, o quarto e a cama, a janela e a luz, o nada bom inundou-os e a fome saciada adormeceu-os.
Sorria assim o viver quando, em estrondo, a porta abriu-se violentamente e um pincel de violência traçou naquela tela de amor traços brutais. O estremecimento deles, aquele acordar súbito e de terror, foi abafado pela visão das armas nas mãos, os dois adultos que, junto com a criança, tinham violado a mais bela intimidade que lhes dourara o viver. Em inconsciente defesa mútua abraçaram-se, em debalde tentando ocultar o brilho das suas intimidades assim reveladas, ofendidas, ameaçadas pela brutal invasão. Os protestos, débeis, silenciaram-se perante o esgar das máscaras humanas, os revólveres erguidos como a arma que são e não se lhes acredita num filme ou numa notícia.
Surpreendentemente quem parecia comandar o trio era a criança. Teria uns pequeninos anos, proporcionais à fragilidade da sua figura, e envergava roupas a condizer com a idade presumida, nos caracóis loiros uma fita vermelha, ligeiramente solta e precisada da ajuda dum adulto. Porém, quem lhe observasse a face, aliada às palavras que proferia numa linguagem estranha e que não se parecia com nenhum linguarejar que eles conheciam, percebia em estupefacção incrédula que o invólucro era apenas isso, havia um ser alienígena ou diabólico na posse do corpo infantil, cujos bracinhos rechonchudos indicavam ordens, os olhinhos castanhos revelando uma atenção e dureza maníacas, estranhas, em nada parecidas com qualquer outro olhar que recordassem, e isto assustava mais que as armas quando ambos de tanto tomaram realidade.
Que se passava? Quem eram? Que lhes iria acontecer, o que queriam? (...)
quarta-feira, 23 de maio de 2007
Methisfólis e Maddy (incompleto)
Ele telefonara-lhe do rush do trânsito dizendo-lhe do seu atraso, sussurrando-lhe amores mas na voz tilintado o medo por ela desistir a alego do atraso e a irritação pelo engarrafamento que o aprisionava por, já soara entre os irritados condutores que saíram das viaturas, impacientes, e as rádios davam eco constante da notícia do dia, provavelmente razão de atenção nacional e mundial mas evidente incómodo para todos os que sofriam pela interrupção do trânsito nas avenidas centrais da baixa da cidade, face à mega operação policial que decorria a poucos quilómetros dali: a pequena Maggie, a adorável criança inglesa que mobilizara o mundo e todos os corações na sua busca e desejos de ser encontrada 'sã e salva' fora localizada há menos duma hora num hard-rock café, na companhia dum casal de meia idade e pronúncia estrangeira que, confrontados com a suspeita e depois a ira popular, o pandemónio que se estabelecera e os gritos aflitos da menina, agarrada ao pescoço da 'mãe' gritava que queria sair já dali e ir à Disneylândia, tal como lhe prometera o pappy, emboscaram-se os três no primeiro andar quando, na confusão estabelecida - contara uma jornalista mais afoita e afogueada e que fora das primeiras a chegar ao local, não se sabe donde soou o tiro e quem o deu, após a debandada ninguém estava ferido e desconhecia-se se nos ora barricados havia sangues perdidos e a lamentar, quem sabe se uma vida em perigo e Deus haja que não seja a menina...
Afastou esses pensamentos com um gesto rápido e a coluna de fumo encontrou novos caminhos, mais largos qu'as estradas onde o seu desejo nascera, navegara a vela solta e, finalmente, em corrente irresistível a conduzira ao bar do hotel, ao encontro ora atrasado. Fora... buscava a palavra mas hesitava em arranjar sinónimo para o vulcão de emoções que nascera após se terem conhecido pela maior agência sentimental do mundo, a Internet. Não era uma habituée, utilizava-a profissionalmente e para correspondência privada, pouca que nos seus círculos de amizades poucos se tinham entregues a tal paixão - como agora aceitava que era, a suave droga provara-a e gostara do sabor, arregimentara-a para serões que se esticaram a madrugadas, olheiras e muitas, muitas emoções que há tanto estavam guardados no canto para reparações, e tudo nascera dum acaso, como sempre...
Ao princípio fora o verbo, como na lenda. Num mail trocado em razões de serviço, numa manhã em que vira luzes novas no céu da primavera nascente e encantara-se com os pormenores quotidianos àquela luz, enquanto fizer a viagem de autocarro entre a casa onde vivia há três anos, só com o seu gato, Methisfóles, o único animal masculino que tolerava à sua intimidade desde o divórcio, e as horas diárias de solidão compartilhada, lá na agência de viagens. Nessa manhã e sabe-se lá porquê, num mail qualquer que confirmava uma reserva de já não sabia o quê, acrescentou duas linhas que falavam da beleza das flores e das pessoas, do Sol, o céu, contou como o dia estava lindo e de como se sentia feliz. Fê-lo por impulso, arrependeu-se mas claro que já era tarde e o mail assim seguira para um destinatário que, antes do arroba, tinha um nome que lhe era completamente desconhecido. Fora como abrir uma represa, e hoje 'antdinis' bailava em letras de fogo na sua mente quando, mal chegava a casa, corria para o mais recente intruso, o computador, seu companheiro e confidente dos silêncios que albergava nas rotinas de serviços mínimos à existência, á verdadeira vida, aos arrepios e à pele-de-galinha, aos lábios secos e a língua húmida e suplicante, aos olhos que, ávidos, corriam à caixa de correio electrónico na busca de mais um mail, mais palavras de tentação, de incêndio mas igualmente de aplacação aos seu novo imaginário que, virtude do romance, lhe enchia agora as antes monotonias com sonhos e fantasias. A elegância no verbo conduziu-os a uma dança que apagou o mundo.
Depois do verbo houve a carne, e ela falou de forma rude, brutal, inesperada a quem nem a saudade lhe associava. Se dos meses antes do divórcio apenas tivera sexo uma vez com o ex, numa estúpida mas desculpabilizante última 'tentativa de reconciliação - quase que se podia considerar de praxe ao que ouvia a amigas que passaram a sinecura, no longo depois até agora afastara pretendentes, irritara-se com um colega mais insistente e dera-se em lingerie exclusivamente ao gato, e às vezes até menos qu'isso, no tempo do calor que bate a todas as noites sem saber de companhias ou seduções: de 'homens' considerava-se vacinada, abstémia, ouvia com indiferença referências pouco subtis das amigas, círculo que foi rareando por ela nunca aceitar convites de amigos que ela lhe traziam, acreditando-a em carências que, na verdade, não sentia. Até que...
Chegava a envergonhar-se, só em pensar em como a paixão explodira em actos que, antes, lhe eram inimagináveis. Guardava todos os mails trocados, imprimia os dele e lia-os na cama, nas noites mais agitadas buscava os mais sedutores e masturba-se, os pés enrodilhados nos músculos tensos, o frémito subindo e fazendo os dedos morderem os lençóis onde, àquele momento, caía a folha de letras em fogo, as palavras e a tentação, o suspiro de êxtase quando sentia o estremecer do conforto corporal, os músculos relaxavam e ficava quieta, olhos fechados, os lábios pronunciando a longa palavra incompleta do prazer. Methisfóles não aprovava, lia-o nos seus olhos que a fixavam interrogativos enquanto ela deslizava na ilusão. para ele a vida era fácil, sabia das gamelas de água e biscoitos, havia a longa preguiça que o levava dum canto à outro da casa, às janelas, ao enrodilhado no seu sofá preferido, ao desprezo que votara ao intruso após a primeira curiosidade e cheiros, o computador.
o telefone tocou: ele. Atendeu em gesto rápido, já impaciente com a demora, a sala, a televisão que não havia para saber novas da Maddy, o barmen que a olhava como lendo-lhe intenções, as entranhas do café que nada lhe diziam das razões. Sim. Sim. Estava a estacionar num parque próximo, em cinco minutos estaria lá: 'amor, só mais um momento por favor...'. E a menina? - não se conteve e perguntou. Que não, continuava o cerco, disse que ainda se dizia na rádio. Polícias especiais guardavam a zona e vigiavam o prédio do café, aguardava-se a chegada de altas autoridades e de psicólogos, especialistas em situações de raptos e de proto-suicidas. Nada mais sabia, mas logo logo estaria ali, estariam juntos. Quando desligou pensou na síndrome de Estocolomo, a famosa, e da mais incógnita e ainda sem nome que scapasse ao calão e que lhe subia pelo corpo e a fazia arfar, ligeiramente, a expectativa do encontro iminente que lhe deixava os lábios gretados de ansiedade. Passou os dedos pelo cabelo, em mais um último jeito. A mente resfolegava, recusava-se a pensar, a triturar os factos. Assumia só com débeis protestos que o corpo mandava e tinha as rédeas da situação. A carne estalava de desejo, eis e apenas, p'ra quê complicar... Refugiou-se nesta abstracção e acabou por decidir pôr os óculos, que ocultassem os seus olhos que não largavam a porta e não contassem do fogo que neles ardia, não revelassem da noite mal dormida e das voltas na cama, mais longa e só que nunca antes, já de tempos imemoriais...
(...)
segunda-feira, 21 de maio de 2007
Luz
O fogo intenso, quente, ilumina as árvores e revela as seivas, os galhos em brasa, os corpos beijados pelas chamas, troncos, nós, ramos, o nu àquela luz. A chama intemporal da pele quente pelo abraço mordido, lambido, o silêncio húmido do beijo que não apaga mas sim incendeia, a eterna fome de fogo e ternura. O arrepio das chamas mais íntimas e o cérebro iluminado pela única luz, sua lareira privativa quando o sussurro animal emerge e em carícias se brilham, os olhos em fogo e na pele o calor que vem dos corpos que ardem na floresta dos prazeres.
O impossível possível enquanto as chamas galgam todo o horizonte e tudo o mais cega, os corpos empolgam-se em de dois fazerem um, um grito, o maior porque de dois num, duas luzes que explodem quando os corpos, os troncos, cedem à violência das chamas e caiem, quebrados; o grito e o beijo-mor no enlace final, às chamas sucede um manto de névoa e dos olhos escorre a ternura que sobrou. O crepitar agitado da memória do fogo, dois fios de suor que deslizam em galhos ainda enlaçados pelos olhos, esses que viram as chamas e as lamberam, o impossível possível.
Também poderia chamar-lhe ‘borralho’, mas gosto da palavra Luz.
domingo, 20 de maio de 2007
3 vezes
de me ter zangado com a rima,
fez-me enviar, iguais
três mails dizendo o mesmo,
três vezes mais um poema.
é assim:
estranhas situações ocorrem
nos versos da cyber poesia.
até calha dizer, três vezes,
qu'esta tarde armei-me
em poeta de domingo.
três vezes, o mesmo.
coisas que acontecem aos sonhos
feitos em computador
sexta-feira, 11 de maio de 2007
as estantes nos jardins
Charlôt
quinta-feira, 10 de maio de 2007
Honorato e Fidelina
terça-feira, 8 de maio de 2007
páginas que me impressionaram
domingo, 6 de maio de 2007
livros que não esqueço
sábado, 5 de maio de 2007
quinta-feira, 3 de maio de 2007
existem vários tipos de desgraçados
e é por eles que morro
Existem os que abandonam nas ruas o cachorro
Ah, mas existem piores,
aqueles que recolhem e maltratam
Existem os que abandonam e outros que matam.
Há inúmeros tipos de desgraçados
sob qualquer conceito
Existem os que atiram sem pena no meu peito
Ah, mas existem ainda bem piores,
que matam à míngua
Existem desgraçados que matam com a língua.
Atordoado e confuso
assentei-me sobre o banco da praça
Pensando sobre quão forte era a minha dor
e enorme a minha desgraça
Acariciei o fio da lâmina
certo que sentiria dor quando rasgasse os pulsos
E ali parado permaneci
até que passassem de morte para vida
os meus impulsos
Carlos Bê