sábado, 26 de maio de 2007

Euro Milhões

Parece que a estatística aponta o ano 3.024 como aquele em que o Euro Milhões já, matematicamente, saiu a todos os portugueses.
Apetece-me dizer saiam da frente, qu'isto vai ser um bocado chato para as cinzas dos últimos.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Semana Africana em Santarém*

África

"Quando ontem a Milly me telefonou a recordar-me o compromisso de, hoje, ler umas palavras sobre nós e África, estremeci.

Primeiro porque nada tinha alinhavado pois esquecera-me completamente. Depois, enquanto mentalmente ia coleccionando imagens do álbum e pensando em como me ia desenrascar, os olhos encheram-se de cores, vi-me e li-me como nos calções e boné – obrigatório até eu perder os suficientes, vá-se lá saber porquê!..., a pasta escolar debaixo da árvore e de bruços em volta dos berlindes, os carrinhos com um botão colado com chuinga, deslizando invencíveis na borda do passeio. Das mangas roubadas, do tilintar das pedras que caíam nos telhados dos vizinhos, às vezes até no do dono da mangueira e do correr pelos caminhos estreitos, labirintos de areia quente e paredes em caniço que davam para largos onde havia uma cantina que vendia gelo-doce, à porta mamanas a vender amendoim torrado, amendoim com açúcar, maçarocas assadas.

Provavelmente vendiam mais, mas do feijão e das latinhas de azeite Gallo de um litro não me lembro, eu recordo é o sabor das mangas roubadas, dos jogos do paulito e dos pavilhões ao ar livre que eram os passeios depois de jantar, fabulosos jogos de báskett nas melhores tabelas do mundo, aqueles aros de barril pregados onde desse jeito, os jogos dois-a-dois em que se fintava e metia-se golo no buraco da árvore, as noites quentes em intermináveis conversas sentados nos muros, descobrindo a vida e os seus mistérios, eu penso-me quando penso em África vejo o caniço e o cimento, a cidade. Ao pensar ‘Africa e nós’ eu penso-me em miúdo, nela.

Cresci na cidade mais bonita de África, tantos o diziam, e eu que a amei tanto que só hoje o percebo, conheci-lhe sabor limitado, quase todo urbano. Amava percorrer aquela cidade na minha motorizada, o lento passear sob as ramadas das acácias e dos jacarandás, o longo ronco do motor em avenidas sem fim, camisa aberta ao vento e a todos os cheiros que ele, pródigo que era, me trouxesse. Cresci em harmonia, infelizes quedas em curvas onde o óleo dos machibombos o induzia, mas o alcatrão era suave, tanto que se derretia quando o sol africano explodia, naquele seu apogeu que tem o fim mais belo do mundo, o pôr-do-sol no sul de África.

Era um momento sagrado do dia, uma intenção que só não se cumpria se uma emergência acontecesse ou a preguiça encontrasse outra desculpa: ao cair da tarde, no jardim fronteiro ao imponente liceu principal da cidade, na zona alta e lá em baixo a baía e o desconhecido no horizonte, mesmo aos pés e no fundo das barreiras o final da baixa da cidade, a Feira – esse local mágico que acontecia uma vez ao ano e onde se enchiam sacos de plástico de sonhos com rodas para meses, se comiam óptimas bifanas à borla, também o muito verde de matas mantidas para futuros jardins, já um lago e barquinhos, namorados de mão dada.

O Sol, àquela hora e visto dali era mágico, havia labaredas nas nuvens e a água tudo reflectia, o círculo de fogo gritando a paleta de emoções de dizer-se África. Éramos sacerdotes dum ritual irrepetível: também com marca de de época, mas a beleza do beijo final do sol à baía e à cidade era uma carícia especial, e a tela só perdia em beleza para as miúdas da cidade.

O mundo ajusta os seus ciclos e o colonial fechou, o longo tabuleiro mundial ajustou peças e, na revoada formada, fugiu-se-me o pôr-do-sol. Sei lá se fui colono estatisticamente, eu que nasci ‘cá’ mas amei crescer ‘lá’!... ‘colonialista’ em termos de definição clássica não fui, fui tão parvo como me apeteceu e tive quantas paixões como as que me lembrei, joguei à bola no caniço antes de saber andar de mota, cresci feliz à beira duma avenida famosa numa ilha de cimento que me deixava mergulhar as sandálias na areia mole, roubar mangas ou comprá-las, espreitar as prostitutas que aguardavam os militares num famoso dancing-bar quase em frente à minha casa, atirar sacos de água aos machibombos pelas portas inexistentes, e certeiros rolinhos de papel, dardos meticulosamente preparados e projectados por tubos de plástico que se arranjavam ‘nas obras’, foi numa cidade africana que os meus papagaios subiram ao céu, impossível esquecê-lo.

Hesito muitas vezes na distinção entre saudosismo e nostalgia, confesso que receio cair no mar morto do primeiro, e interrogo-me sobre a segunda. No meu caso e no de muitos de vós, quando “pensamos África” associámo-la com duas, três décadas atrás, e tanto que esse tempo é.

Nós não somos os mesmos, se fôssemos outra vez miúdos não tínhamos papagaios senão de plástico, e nas praias do Verão. As pessoas têm todas telemóveis para se chatearem continuamente umas às outras. Também lá, ao que ouço. Então porquê África diferente, porque este sorrir que se formou quando, findo o telefonema, comecei a escrever? sabem, disse-o à pouco, e seria poético demais dizer que a diferença está no por-do-Sol: isso é pouco para contar do dormir numa praia, da interminável savana e do cheiro das queimadas, de como um romance de aventuras sabe melhor lido em África, terra mágica e de mistérios.

Por isso acho que tenho direito à saudade de tê-lo visto naquele jardim e ter-me apaixonado pelas suas cores, ter sentido África no ar quente que me deu o oxigénio, e nas chuvadas de balde das primeiras desilusões nos grandes amores. E à nostalgia de mim, também; da felicidade de ter crescido assim, olho África e o meu passado em harmonia, deixo-a invadir-me pacificamente o quotidiano quando o olhar vagueia, moureja por ancoradouro que traga um sorriso ao crispado dos anos, há um suspiro de memória e um salivar pelo cheiro do milho nas brasas, pelo sabor duma manga verde com sal, há o olhar que se perde e nunca mais se encontra, há esta coisa boa de, aos cinquenta e tais, recordar o jogo do paulito e do n’tchuba, aquele das covinhas e das pedrinhas, o capim que bordejava os carreiros que haveriam de conduzir a algum lado, o cheiro da terra húmida após chuvada.

Não sei se lá voltarei, se calhar para aquilo que fazem os elefantes quando abandonam a manada. A vida trás raízes múltiplas, e quando penso num regresso à África onde vivi odeio imaginar-me turista, um tontinho de máquina fotográfica na mão fotografando as memórias, tão vagas que não reconhece tanto como julgava e, não tarda, está a fotografar cinemas fechados e cafés que hoje são lojas de telemóveis, catedrais, a comprar postais ilustrados.

Mas há cá um canto que bule, que volta não volta enrola o pensamento nas mãos e aquece-o, são os momentos em que a herança cultural africana que me deu um bafo em miúdo espreita, tentadora. Estou bem com o meu passado, olho-o com ternura até. Tão igual ao de qualquer outro miúdo, seja em Santarém seja onde for, com a diferença contada, a cor do pôr-do-sol e a avenida com a areia solta ao lado, o bar em frente e os pirolitos e o gelo-doce, o aventurar para fazer quase duzentos quilómetros em areia numa motorizada para ir a uma praia, o dormir ocasional num recanto ouvindo os sons da noite, poderosos no imaginário. Isto que foi mais-valia do meu início consciente, porque não buscá-lo de novo, nas novas realidades, tal como é novo o Outono quando a idade nele nos mergulha.

Obrigado África, pelo que me deste e continuares no meu imaginário"


Santarém, 25/5/2007"
.................................................................................
* no cine-teatro Sá da Bandeira, às 17 horas

quinta-feira, 24 de maio de 2007

II - Disneylândia e gato ausente

".... olhou-a, os olhos brilhando de desejo, os lábios secos e as mãos crispadas, os músculos tensos, o animal macho emergindo, já rugindo no longo murmúrio que o seu corpo gotejava, ansioso pelo calor corporal sexual. A atmosfera do quarto, àquela meia luz que as discretas cortinas corridas criaram, fazia-a mais bela se possível, a alvura do seu corpo e a ternura ávida do seu sorriso eram os focos, o íman, seu único destino naquele momento em que o mundo se apagava e o zumbido dos carros na avenida, lá tão longe, ainda parecia mais distante.
Não falaram. Para quê? Os corpos gritavam, os braços dela erguidos, suplicantes pelas suas carícias, diziam tudo. As palavras seriam irritas pois só os beijos falavam, no seu húmido calor que incendeia e reincendeia, adormece passados e torna os presentes névoas, nuvens onde se flutua. Os corpos foram glorificados, sugados, lambidos, beijados. Os sussurros ciciados elevavam o prazer em vagas, as mãos eram poucas para sentir, agarrar, acompanhar o desejo e os lábios que, esses, faziam a via sacra dos odores e dos sabores, as línguas sugavam-se e os lábios sorriam, húmidos, brilhando em prata à luz dos corpos que ardiam na fogueira do festim da carne, os poros dilatados para libertarem e absorverem os fluidos, os cheiros, o sorrir que os olhos contavam.
A tarde correu molenga, as carícias e a ternura moderavam os ritmos sapientes, e a fricção corporal íntima soltava-lhes exclamações incontroladas. Ardiam no fogo que tudo lava e descobre, expõe o animal ora sedento ora ronronante, solta o sorrir simples das coisas boas, primitivas, até risadas francas e libertas soaram enquanto os membros inventavam fugas, alternativas, vias, permitiam aos corpos púbicos afundarem-se um no outro, radiantes, felizes, os egos feitos esponjas e, gulosos, sugando as carícias como tesouros, os músculos em espasmos e contracções, o beijo terno autorizando.
Foi mágico. As pernas, ainda enleadas, repousavam, o peito num afã de grito subindo e descendo, oxigénio do viver. Os lábios formulavam beijos e os olhos davam-nos, à claridade que deles voava em brilhos incandescentes juntava-se o aroma macho e fêmeo que pairava e eles absorviam como o complemento do momento do grito, dos dedos cravados em pedido brutal por mais! mais!, dos olhos explodindo em entrega, raiados pela loucura dos amantes, o espasmo corporal, o grito e o desespero do abraço, depois as gotas de suor venceram e vergaram-lhe os troncos, os corpos prostraram-se e os olhos abriram as portas da felicidade, semi-cerrando-se enquanto os últimos raios da realidade fugiam, o quarto e a cama, a janela e a luz, o nada bom inundou-os e a fome saciada adormeceu-os.
Sorria assim o viver quando, em estrondo, a porta abriu-se violentamente e um pincel de violência traçou naquela tela de amor traços brutais. O estremecimento deles, aquele acordar súbito e de terror, foi abafado pela visão das armas nas mãos, os dois adultos que, junto com a criança, tinham violado a mais bela intimidade que lhes dourara o viver. Em inconsciente defesa mútua abraçaram-se, em debalde tentando ocultar o brilho das suas intimidades assim reveladas, ofendidas, ameaçadas pela brutal invasão. Os protestos, débeis, silenciaram-se perante o esgar das máscaras humanas, os revólveres erguidos como a arma que são e não se lhes acredita num filme ou numa notícia.
Surpreendentemente quem parecia comandar o trio era a criança. Teria uns pequeninos anos, proporcionais à fragilidade da sua figura, e envergava roupas a condizer com a idade presumida, nos caracóis loiros uma fita vermelha, ligeiramente solta e precisada da ajuda dum adulto. Porém, quem lhe observasse a face, aliada às palavras que proferia numa linguagem estranha e que não se parecia com nenhum linguarejar que eles conheciam, percebia em estupefacção incrédula que o invólucro era apenas isso, havia um ser alienígena ou diabólico na posse do corpo infantil, cujos bracinhos rechonchudos indicavam ordens, os olhinhos castanhos revelando uma atenção e dureza maníacas, estranhas, em nada parecidas com qualquer outro olhar que recordassem, e isto assustava mais que as armas quando ambos de tanto tomaram realidade.
Que se passava? Quem eram? Que lhes iria acontecer, o que queriam? (...)

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Methisfólis e Maddy (incompleto)

Comecei a escrever apenas pelo prazer de escrever, sem norte ou ideia além da de esticar os dedos. Saiu assim, mistura de encontros clandestinos e gatos solitários, uma criança desaparecida que é encontrada, um olhar ao íntimo nas vésperas dum net encontro. A continuar se a ele voltar, dizem os pontinhos entre parênteses. Nas várias facetas merece final feliz, o gato e Maddy incluídos, eu também, mas não sei se há lenha que chegue para aquecer tanta felicidade.
...........................................................
Sentada numa mesa de canto do bucólico ambiente do bar do hotel àquela hora, nos dedos nervosos rolava o cigarro enquanto se perdia em reflexões tardias pois, facto, comparecera ao encontro. Na coluna de fumo lia o passado, nas coxas sentia o formigueiro da excitação. Claro que era 'errado' e que não devia estar ali. Mal se conheciam e ele era casado. Olhou em volta mais uma vez, no receio de ser reconhecida. Quando entrara não tirara logo os óculos escuros, como pretendendo anonimar-se perante o mundo, provavelmente escondendo-se dela própria. Há quanto tempo o fazia... Depressa mudou de ideias e eles olhavam-na, pousados na mesa, baixa e com o tampo em vidro, madeira sólida e anónima, decoração standard tal como o toque que dera aos olhos e aos lábios quando fora à toilette após pedir o café, no resto na chávena que também a olhava emparceirada aos seus disfarces, os óculos de sol e o maço de tabaco, tentou descobrir borras que lhe adivinhassem o futuro, principalmente que lhe contassem das razões do passado que lhe davam aquele momento de embaraço e de excitação, um 'date' marcado para bar d'hotel, sexo envergonhado disfarçado em e-mails de ardores que lhe conduziram o rubor da aventura àquele momento e local, à névoa que nada lhe contava e às borras ausentes que explicassem os tantos porquês que dessem luz e lógica racional à decisão que tomara: estava ali, comparecera.
Ele telefonara-lhe do rush do trânsito dizendo-lhe do seu atraso, sussurrando-lhe amores mas na voz tilintado o medo por ela desistir a alego do atraso e a irritação pelo engarrafamento que o aprisionava por, já soara entre os irritados condutores que saíram das viaturas, impacientes, e as rádios davam eco constante da notícia do dia, provavelmente razão de atenção nacional e mundial mas evidente incómodo para todos os que sofriam pela interrupção do trânsito nas avenidas centrais da baixa da cidade, face à mega operação policial que decorria a poucos quilómetros dali: a pequena Maggie, a adorável criança inglesa que mobilizara o mundo e todos os corações na sua busca e desejos de ser encontrada 'sã e salva' fora localizada há menos duma hora num hard-rock café, na companhia dum casal de meia idade e pronúncia estrangeira que, confrontados com a suspeita e depois a ira popular, o pandemónio que se estabelecera e os gritos aflitos da menina, agarrada ao pescoço da 'mãe' gritava que queria sair já dali e ir à Disneylândia, tal como lhe prometera o pappy, emboscaram-se os três no primeiro andar quando, na confusão estabelecida - contara uma jornalista mais afoita e afogueada e que fora das primeiras a chegar ao local, não se sabe donde soou o tiro e quem o deu, após a debandada ninguém estava ferido e desconhecia-se se nos ora barricados havia sangues perdidos e a lamentar, quem sabe se uma vida em perigo e Deus haja que não seja a menina...
Afastou esses pensamentos com um gesto rápido e a coluna de fumo encontrou novos caminhos, mais largos qu'as estradas onde o seu desejo nascera, navegara a vela solta e, finalmente, em corrente irresistível a conduzira ao bar do hotel, ao encontro ora atrasado. Fora... buscava a palavra mas hesitava em arranjar sinónimo para o vulcão de emoções que nascera após se terem conhecido pela maior agência sentimental do mundo, a Internet. Não era uma habituée, utilizava-a profissionalmente e para correspondência privada, pouca que nos seus círculos de amizades poucos se tinham entregues a tal paixão - como agora aceitava que era, a suave droga provara-a e gostara do sabor, arregimentara-a para serões que se esticaram a madrugadas, olheiras e muitas, muitas emoções que há tanto estavam guardados no canto para reparações, e tudo nascera dum acaso, como sempre...
Ao princípio fora o verbo, como na lenda. Num mail trocado em razões de serviço, numa manhã em que vira luzes novas no céu da primavera nascente e encantara-se com os pormenores quotidianos àquela luz, enquanto fizer a viagem de autocarro entre a casa onde vivia há três anos, só com o seu gato, Methisfóles, o único animal masculino que tolerava à sua intimidade desde o divórcio, e as horas diárias de solidão compartilhada, lá na agência de viagens. Nessa manhã e sabe-se lá porquê, num mail qualquer que confirmava uma reserva de já não sabia o quê, acrescentou duas linhas que falavam da beleza das flores e das pessoas, do Sol, o céu, contou como o dia estava lindo e de como se sentia feliz. Fê-lo por impulso, arrependeu-se mas claro que já era tarde e o mail assim seguira para um destinatário que, antes do arroba, tinha um nome que lhe era completamente desconhecido. Fora como abrir uma represa, e hoje 'antdinis' bailava em letras de fogo na sua mente quando, mal chegava a casa, corria para o mais recente intruso, o computador, seu companheiro e confidente dos silêncios que albergava nas rotinas de serviços mínimos à existência, á verdadeira vida, aos arrepios e à pele-de-galinha, aos lábios secos e a língua húmida e suplicante, aos olhos que, ávidos, corriam à caixa de correio electrónico na busca de mais um mail, mais palavras de tentação, de incêndio mas igualmente de aplacação aos seu novo imaginário que, virtude do romance, lhe enchia agora as antes monotonias com sonhos e fantasias. A elegância no verbo conduziu-os a uma dança que apagou o mundo.
Depois do verbo houve a carne, e ela falou de forma rude, brutal, inesperada a quem nem a saudade lhe associava. Se dos meses antes do divórcio apenas tivera sexo uma vez com o ex, numa estúpida mas desculpabilizante última 'tentativa de reconciliação - quase que se podia considerar de praxe ao que ouvia a amigas que passaram a sinecura, no longo depois até agora afastara pretendentes, irritara-se com um colega mais insistente e dera-se em lingerie exclusivamente ao gato, e às vezes até menos qu'isso, no tempo do calor que bate a todas as noites sem saber de companhias ou seduções: de 'homens' considerava-se vacinada, abstémia, ouvia com indiferença referências pouco subtis das amigas, círculo que foi rareando por ela nunca aceitar convites de amigos que ela lhe traziam, acreditando-a em carências que, na verdade, não sentia. Até que...
Chegava a envergonhar-se, só em pensar em como a paixão explodira em actos que, antes, lhe eram inimagináveis. Guardava todos os mails trocados, imprimia os dele e lia-os na cama, nas noites mais agitadas buscava os mais sedutores e masturba-se, os pés enrodilhados nos músculos tensos, o frémito subindo e fazendo os dedos morderem os lençóis onde, àquele momento, caía a folha de letras em fogo, as palavras e a tentação, o suspiro de êxtase quando sentia o estremecer do conforto corporal, os músculos relaxavam e ficava quieta, olhos fechados, os lábios pronunciando a longa palavra incompleta do prazer. Methisfóles não aprovava, lia-o nos seus olhos que a fixavam interrogativos enquanto ela deslizava na ilusão. para ele a vida era fácil, sabia das gamelas de água e biscoitos, havia a longa preguiça que o levava dum canto à outro da casa, às janelas, ao enrodilhado no seu sofá preferido, ao desprezo que votara ao intruso após a primeira curiosidade e cheiros, o computador.
o telefone tocou: ele. Atendeu em gesto rápido, já impaciente com a demora, a sala, a televisão que não havia para saber novas da Maddy, o barmen que a olhava como lendo-lhe intenções, as entranhas do café que nada lhe diziam das razões. Sim. Sim. Estava a estacionar num parque próximo, em cinco minutos estaria lá: 'amor, só mais um momento por favor...'. E a menina? - não se conteve e perguntou. Que não, continuava o cerco, disse que ainda se dizia na rádio. Polícias especiais guardavam a zona e vigiavam o prédio do café, aguardava-se a chegada de altas autoridades e de psicólogos, especialistas em situações de raptos e de proto-suicidas. Nada mais sabia, mas logo logo estaria ali, estariam juntos. Quando desligou pensou na síndrome de Estocolomo, a famosa, e da mais incógnita e ainda sem nome que scapasse ao calão e que lhe subia pelo corpo e a fazia arfar, ligeiramente, a expectativa do encontro iminente que lhe deixava os lábios gretados de ansiedade. Passou os dedos pelo cabelo, em mais um último jeito. A mente resfolegava, recusava-se a pensar, a triturar os factos. Assumia só com débeis protestos que o corpo mandava e tinha as rédeas da situação. A carne estalava de desejo, eis e apenas, p'ra quê complicar... Refugiou-se nesta abstracção e acabou por decidir pôr os óculos, que ocultassem os seus olhos que não largavam a porta e não contassem do fogo que neles ardia, não revelassem da noite mal dormida e das voltas na cama, mais longa e só que nunca antes, já de tempos imemoriais...
Eis que



(...)

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Luz


O fogo intenso, quente, ilumina as árvores e revela as seivas, os galhos em brasa, os corpos beijados pelas chamas, troncos, nós, ramos, o nu àquela luz. A chama intemporal da pele quente pelo abraço mordido, lambido, o silêncio húmido do beijo que não apaga mas sim incendeia, a eterna fome de fogo e ternura. O arrepio das chamas mais íntimas e o cérebro iluminado pela única luz, sua lareira privativa quando o sussurro animal emerge e em carícias se brilham, os olhos em fogo e na pele o calor que vem dos corpos que ardem na floresta dos prazeres.

O impossível possível enquanto as chamas galgam todo o horizonte e tudo o mais cega, os corpos empolgam-se em de dois fazerem um, um grito, o maior porque de dois num, duas luzes que explodem quando os corpos, os troncos, cedem à violência das chamas e caiem, quebrados; o grito e o beijo-mor no enlace final, às chamas sucede um manto de névoa e dos olhos escorre a ternura que sobrou. O crepitar agitado da memória do fogo, dois fios de suor que deslizam em galhos ainda enlaçados pelos olhos, esses que viram as chamas e as lamberam, o impossível possível.
.....
Também poderia chamar-lhe ‘borralho’, mas gosto da palavra Luz.

domingo, 20 de maio de 2007

3 vezes

o nervoso miudinho
de me ter zangado com a rima,
fez-me enviar, iguais
três mails dizendo o mesmo,
três vezes mais um poema.

é assim:
estranhas situações ocorrem
nos versos da cyber poesia.
até calha dizer, três vezes,
qu'esta tarde armei-me
em poeta de domingo.

três vezes, o mesmo.
coisas que acontecem aos sonhos
feitos em computador
o programa segue dentro de momentos.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

as estantes nos jardins

Esta notícia deprimiu-me. Pois... não é 'depois' mas sim 'pois' que escrevo, um baque de «quê? de que se fala? ah, pois, já nem me lembrava...»
Num jardim adormecer e envelhecer olhando essa enorme estante onde as lombadas se chamam memórias. Estranhar o Tempo, tão traiçoeiro na falsa lentidão com que corre e faz voar as páginas, e num súbito uma foto uma frase um nome dá um flash e puxa uma recordação, "ah, pois..." Envelhecer num jardim, rima de livros arrumados nas estantes e um embaraçador fio de baba rolando em queixo certamente de barba rala, descuidada na lentidão das tardes, no corpo o aconchego dum sobretudo sobrevivente a invernos e outros escritos; tudo pantufas quentes quando num repente se sabe duma notícia e, 'capa na mão', pensa-se que foi há tanto e há tão pouco, tempo já arquivado em estante passado, adjectivo da família de envelhecer e percebê-lo num repente.
Estou a falar de emoções. Esta notícia deprimiu-me, ainda havia um luto por fazer.
Adenda: o Luis Novais Trigo, do Tugir, dá novas sobre o lançamento.

Charlôt

e-mail recebido agora mesmo, boas oportunidades a divulgar:
UMA MÃO CHEIA DE CHAPLIN
DE 23 A 31 DE MAIO 2007
NO JARDIM REPÚBLICA EM ALMEIRIM
Este ciclo de cinema planificado para ser exibido ao ar-livre é organizada pela Câmara Municipal de Almeirim e tem a sua programação assinada pela Círculo Solar- Maternidade de Ideias. Inteiramente dedicado ao génio de Charlie Chaplin os cinco filmes que enchem esta mão, demonstram bem talento do autor-total. Todos os filme apresentados são realizados, musicados, interpretados pelo próprio Chaplin.
O Jardim República, fica no centro de Almeirim. Charlie Chaplin justifica a viagem e Almeirim vale a visita. A entrada é livre.
....................................................................
PROGRAMAÇÃO:
SESSÃO DE ABERTURA - Quarta-feira 23 de Maio 2007, 21:30h * O Miúdo – 68' – 1921 – filme mudo
Quinta-feira, 24 de Maio 2007, 21:30h * A quimera do Ouro – 92'–1925 – filme mudo
Sábado, 26 de Maio 2007 , 21:30 *O Circo – 96' - 1928 – filme mudo
Quarta-feira 30 de Maio 2007, 21:30 *Tempos modernos – 83' - 1936 – filme mudo
SESSÃO DE ENCERRAMENTO, Quinta-feira, 31 de Maio 2007, 21:30h * O Grande Ditador – 120' – 1940 – filme sonoro

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Honorato e Fidelina

'Honorato' e 'Fidelina' têm tido vida própria e pelos net-grupos os seus autores de vez em quando deixam registos bem humorados acerca do peculiar casal, ele (eu) um pobre desgraçado reformado da Polícia Judiciária e que faz uns biscates como dectective particular, ela ('ela', a desgraçada infiel!) uma matrafona que, descobriu-se, andava a cornear o Honorato com o compadre Ernesto e agora anda com a mala por Malta, ingrata emigração, vidé brasileiras e ucranianas por cá.
Nos últimos dias tem sido o 'Honorato' o maior contribuidor para a saga, e, sem falsas modéstias, ainda não falhou um tiro e tem limpo a vizinhança toda, compadre Ernesto e um entregador de ppizas incluídos. E mete canibais e uma ex-vizinha que foi sindicalista nos inesquecíveis tempos da Comissão para criar o sindicato das prostitutas, há can-can e outras coisas. Devagar devagarinho, para não acordar o Honorato que dorme à janela o sono dos justos e cornudos, irei aqui metendo 'episódios', sem que o sejam formalmente pois a continuidade é aleatória. Está dito, brevemente o primeiro desta 'série'.

terça-feira, 8 de maio de 2007

páginas que me impressionaram

O ritmo narrativo de Truman Capote, a construção do suspense em Patricia Highsmith, a poesia macha de David-Mourão Ferreira, refresco quando muito poeta se lê e tão insonsos; os novos verbos de Mia Couto, a escrita delicada de António Lobo Antunes, quase qualquer poema de Sophia. E mais, mas sou preguiçoso. As páginas fotográficas no 'Albas', Dinis Machado a contar dos camones no Bairro Alto e da trolha que se armou, Cardoso Pires e Baptista Bastos a visitarem Lisboa e eu invejoso de também assim a olhar mas não saber escrevê-lo tão bem. O primeiro livro de contos de Suleiman Cassamo e 'o jogo de Gerard' de Stephen King. 'O Adversário', Emmanuel Carrère, pelo assombro e o porquê presente da primeira à última página. Afinal são muitos, se continuo a passear pelas lombadas vejo ainda mais. Kerouac, o primeiro, claro. Tolkien, como devorei os três calhamaços sem conseguir parar...
Chega: é claramente post só para deixar registo, nada mais a contar. E nem digo que 'leiam, vou ler' pois não é isso que vou fazer: vou sim ler mas é na net e provavelmente muito do que lerei foi por mim escrito: ando com uma febre 'Honorato & Fidelina' e nos últimos dias ao folhetim tenho escrito sem parar, jorro atabalhoado está claro, o melhor mas que obriga a duas releituras para lhe apanhar o fio à meada, tais os atropelos. ´té já, vou até lá para ver como andam as coisas entre aquele par-de-jarras, se já morreu mais alguém ;-)

( Aqui, e espalhado aleatoriamente em diversas colecções de 'mensagens': se as 'abertas' por "webenigma" são minhas e as mais recentes tratarão do tema, há outras por outros abertas onde me alarguei a contar das tristezas e corneaduras, assassinatos e canibalismo, can-can por uma ex-sindicalista e o mais que para lá há. Visita quem quer, para 'escrever' é que é só com ficha preenchida e cartão de sócio na mão, coisa que, por avisada prescrição, não deixa dizer que sim a todos os toc-toc.)

domingo, 6 de maio de 2007

sábado, 5 de maio de 2007

quinta-feira, 3 de maio de 2007

existem vários tipos de desgraçados

Há inúmeros tipos de desgraçados
e é por eles que morro
Existem os que abandonam nas ruas o cachorro
Ah, mas existem piores,
aqueles que recolhem e maltratam
Existem os que abandonam e outros que matam.

Há inúmeros tipos de desgraçados
sob qualquer conceito
Existem os que atiram sem pena no meu peito
Ah, mas existem ainda bem piores,
que matam à míngua
Existem desgraçados que matam com a língua.

Atordoado e confuso
assentei-me sobre o banco da praça
Pensando sobre quão forte era a minha dor
e enorme a minha desgraça
Acariciei o fio da lâmina
certo que sentiria dor quando rasgasse os pulsos
E ali parado permaneci
até que passassem de morte para vida
os meus impulsos

Carlos Bê

direitos de autor

Olha a novidade!... Bem-vindos ao 'mundo real', escribas moçambicanos... e gastou-se em ''duas horas", hein? cala-te boca, cala-te boca que eu até tenho vergonha em falar... :-(

quarta-feira, 2 de maio de 2007

já chegamos à Madeira?

Aqui (jornal Público), à esquerda, coluna "Portugal", e ao fundo da página 13.
O brilhante responsável pelo marketing autárquico local devia... que tal ir plantar tomate, fazer vindimas ou dar serventia, coisinhas assim mais a seu jeito?
(com redireccionamento para este blogue que reproduz a notícia. e entretanto o "prémio" foi - bem! - cancelado... haja uma réstea de lucidez em tanta insensatez)

Ri de quê?

O mundo parece estar virado ao contrário, esquisito, e o Entroncamento dos fenómenos esticou-se para cantos que eram impensáveis.
Hoje contaram-me que o Presidente já riu mais este ano que o Cavaco em dez anos. Também me contaram de que se suspeita em que a moda que se segue será a das autarquias abrirem falência técnica, e as 'Autárquicas' transformarem-se numa "Liga dos Campeões" onde os partidos mais poderosos escolhem a dedo quais as câmaras onde mais devem investir para ganhá-las, i.e. que défices escolhem nesse leilão de falidos, quais clubes de futebol há meia dúzia de anos atrás em que se tornarão as eleições autárquicas, à espera de mecenas que inventem orçamentos providenciais. Vi na TV, literalmente de fugida, o presidente do partido tradicionalmente alternante nos nossos mandos & desmandos dizer que há-de 'pronunciar-se' um dia destes sobre um valente rombo que recebeu no seu casco, com cara de aflito tantos são os torpedos e há tanto tempo que leva com eles, que quem o vê e assim se apieda estranha como não minguou mais e, glu-glu, naufragou. Mas diz que 'agora não fala', acredita-se que um dia destes o fará se não fugir ou for por água abaixo, apeado, tal como aconteceu ao chefe-de-sala do barquito do lado direito que mal se descuidou tinha o retrato desencaixotado à porta da galeria. Depois, sabe-se que o habilidoso que chefia a revolução estatal, Sócrates, poderá ser mais habilidoso que se sabia e ele contava, artes secretas em trepar escadas e muros, sebes sociais e outras esquisitices que vigoram no estratificar contínuo da sociedade e onde ele trepou, ó se trepou. Ele, o do ar evangélico, o tomado pela inspiração e graça fanáticas para moralizar e reestruturar, simplificar e moralizar, embirrou para aí e, afinal, quase que já se sabe da certeza em como ele será mais um filho legítimo da nação.
E o Presidente ri-se, contaram-me, o cuidado de me dizerem das boas cores e do sorriso rasgado, tudo feitos inéditos aos tempos do outro senhor. Ri-se, o Cavaco, contou-me quem reparou. Ri de quê? de prazer onanista por finalmente ter a maior batuta na administração da massa falida? ou será riso de nervoso-miudinho, contas e mais contas e mais contas, contas presidencialistas?

doping

Olá Inês. Digo no post anterior que vou revelar "trechos" dos calores. Água fria... que do íntimo há sabores que só se lêm no brilho dos olhos na mão-dada do cinema, esse mundo de novelas sempre por reescrever, do teu deslizar pelas palavras que, sabes, é olhar que me enlouquece. Que não conto a ninguém ou quero que alguém me veja de olhos no reflexo dum espelho que é opaco, e lá guarda o quanto te desejo à boa e clássica (arrepiante... sente-lo, a tremura da pele...) maneira. Disso não se conta nem se sussurra, não se viola o hímen da correspondência entre a musa e o seu adorador. Não falo nem conto do rubor de te imaginar - qual 'imaginar'! sentir! - olhando uma pausa no rush e sorrindo no recordar que é Musa e há hinos e cornetas quando passa e fica o 'poeta' a suar fininho, que há momentos em que é deliciosamente bom ser-se especial, mesmo que a sorte tenha sido modesta na atribuição do seu vate. O manto de folhas escritas que te incensam e despem, poemam, continuará secreto, e de tais beijos e floreados não há rima que fuja ao sítio onde os deixei: o teu peito, aí atrás dos teus seios, Inês, Inês-retrato vivo de escultura que se ainda não foi feita já a deveria estar e há muito, ou há artistas cegos como soe dizer-se ou és a alienígena perfeita que aterra na vidinha da folha seca, vazia, branca e em branco, tsunami, arquitecta e modelo de castelos, erecções e outras ondas que varrem as folhas áridas, este rubor que dá cor às letras e encaminha os dedos para as teclas menos utilizadas antes deste escalar que é contar-lhe (-te) a festa, baile e orgia que são os dedos a escreverem da paixão do escritor pela sua obsessão e cântaro de tudo, a Musa.
Fim da conversa pública, Inês: vou escrever-te um e-mail, também com o selo beijado na carícia de seres, para meu completo desvario felizmente tu, perturbante Inês, 'a' seres.

musas

Eu tenho uma Musa, de seu nome Inês. Linda, perfeita no pedestral. Inacessível. Bela. Fatal. Bem, fatal fatal não é pois é ficcionada, seu único defeito.
"Escrevo-lhe" de vez em quando. Cartas eróticas, obviamente. Obviamente? sim, claro, musa nos cinquenta's do escritor sujeita-se a cartas de Gomorra, selo lambido e tudo. Delas aqui deixarei trechos, em gota-a-gota confidente.

segunda-feira, 30 de abril de 2007

domingo, 29 de abril de 2007

placa profissional 1

Cruella Torquemada
odontologista

dos domingos

cada vez sinto mais que não tenho jeito para isto. a ler os outros e a voltar com azedume ao meu, 'tadito, coisa mal amanhada que sou em fato às riscas, escritas. e não é só pela 'escrita', é pelas experiências vividas que me fazem cantito sossegado, beco calmo demais e já quase sem centímetros quadrados para contar quando lá ao fundo está a avenida, rica em murais escrevíveis com gosto. goteja, ping-ping, uff cadeira de descansar.
fiz hoje o 'ditado' do tal campeonato e não me saí nada mal, a sério que esperava pior: tive 13 erros, uns parvos mas outros que me deixaram a resmungar num «e porque é que eu não pensei nisto antes, porque é que não sei disto, desta?». já agora conto que a Carla teve doze mas ela anda na escola e eu não, tem tudo fresquinho que nem horta bem regada. mas para aí metade deles não são comuns, ela/eu acertamos alguns que o outro falhou. como disse e repito com alegria "vá lá, vá lá..." :-)
ontem fui ver os "clássicos" à FIL. felizmente as pilhas gastaram-se rapidamente e pude cirandar sem a pose de maluquinho com dez "flashes" em dez pormenores de cada um. ida e vinda, no regresso já num ir directo àqueles que na primeira volta mais interessaram. terei parado de contar aos cinquenta, o elogio que posso em verdade dizer pois para o resto, para além 'deles', sinceramente nada mais vi.
acabei o Oz e o Crighton, 'bom mais' aos dois pois não é o tamanho ou o género que fazem um texto 'marcante'.
a CP está uma merda. último comboio de Lisboa-Santarém, num sábado: 22:56. lá na gare do Oriente, a boa 'meia-hora' de distância de muitos sítios nices em Lisboa. a gare àquela hora é um mundo de pormenores. antes, ao som duns desconhecidos "Anthony & os Jonhsons" uma nuvem dos extremos das ruas em lojas sem céu, o formigar, anthony e fosse quem quer que fosse a pairar, experimentei um 'ipod' e flutuei. por pouca ouvir a música arrepia-me, e formigar na multidão ouvindo a ironia do visto, tudo mudo e só os olhos falam, as montras, a luz, os movimentos. e o som, assim dum extremo até ao outro, depois um banco final. e antes soara uma buzina de barco, um troar insistente, reclamante. o último trem para não sei onde.
ontem, à distância dum banco de cervejaria vi que 'ganhei' mas fiquei na dúvida 'por quantos' e 'como'; soube hoje nos jornais as novas, e das boas como é contado por quem viu: dois a zero e domínio do jogo de fio a pavio, o quarto lugar está só nas suas mãos e é História para um dia. o Futuro tem de ter sempre um início: força, "Belém"! este final de ano é muito mais que "página-e-meia" quando a história deste tempo for escrita. Honra, foi uma equipa criada e mantida para a Honra, bendita equipa.
agora acho que vou ler o 'Pão com Manteiga' e 'o Roque e a Amiga". estão ali a rir-se para mim.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

um ano atrás disse-o assim, incapaz de calar o que sentia mais a saudade. neste aniversário escrevo do silêncio, o silêncio do orgulho por este Homem que me abraça e me beija, falo do tanto crescer, tanta ausência, tanto ano, e lamento ser cruel a vida que afasta quando tanta omissão e lacuna existem por preencher na relação sempre virgem e de reescrita terna, que é a de filho e pai.
à socapa olho-o, fascinado pelo contraste entre a imagem da memória e a realidade que vejo. partiu um jovem com sonhos de homem, quatro anos* maturaram-no e devolveram-mo em rápido empréstimo, assim, sólido, "feito", o "miúdo" ainda espreitando num sorrir expontâneo que porém não engana, o sorrir calmo de homem adulto e feliz. dentro duma semana abala de novo, sei lá mais quantos calendários à conta deste álbum de memórias que me esfalfo a encher com novas imagens. por isso olho e, fora este descuido de vaidade em dia que é de aniversário, guardo o silêncio que este sentimento impõe, tonificado pela distância e o tempo.
vinte e cinco, completos hoje. recordo o dia em que nasceste e (digo-te, Miguel) o que hoje me dá este nó no peito é gémeo do que me fez soltar lágrimas quando soube que o meu 'pilinhas' nascera, então e hoje me ilude imaginando-me o rei do mundo - e se calhar não é ficção, quanto mais olho para ti mais acredito que sim, o sou, o rei mais feliz de todos, teu pai.

* com curta mas extraordinariamente saborosa semana, há tanto tempo como o é há dois anos atrás.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

post "de papá": os filhos bonitos

este post foi 'directo' e nem teve uma verdadeira releitura: os solavancos na redacção/virgulação e algum saltitar de teclado não escondem que o bichinho está cá, e morde.
há pouco reli-o e a vontade que me deu foi de ir já já 'compô-lo'. mas não. fica. o essencial está lá, mal contado mas está lá: falta-lhe é 'suor', trabalho de ginásio ausente mas que não esconde o principal: eu 'sei', eu percebi Montero e Oz, sei como se faz e falta é trabalho, muito trabalho, como se diz em Palmela e nos "círculos profissionais", estabilidade psicológica para cem páginas de seguida, escrita fina à luz da lamparina que, essa, também cá alumia.
quero é que um dia dê luz para contar melhor a do cabelo, se não cai mal insistir: é que eu "vejo-o" mesmo e letra a letra, ou o fumo dum cigarro que espreita naquelas costas voltadas, o bailado dum insecto em volta duma lâmpada ou a épica vida do Antunes, que foi sargento em Transmissões, atacado por um crocodilo na Guiné e divorciou-se da Lurdes mal o último filho se casou, de lá para cá passou a fase do alegre divorciado tão célere que, hoje, resta o elegante lenço ao pescoço enquanto envelhece a jogar dominó na tasca, manchas de gordura no colarinho e, às vezes, até tão bêbado que se inflama pela Lurdes e lamenta pelo crocodilo.
ai fica fica, pois!

com'é?

li esta semana que o glorioso S. L. e Benfica está desejoso de boas compras e olha nada disfarçadamente para Belém, para a tal equipa que era para ser da 'honra' e tem-la em grau que era insuspeito, o virtuoso quarto lugar di-lo: o meu C. F. "Os Beleneneses". ok, é a vida, compra quem pode e muito sonha e vende quem tem e, rasteirinho, precisa é de ganhar umas massas para equilibrar a vidinha.
mas... com'é? as contas do Paulo Madeira, já...?

(pensamento subsidiário ao post anterior)

... e eu por cá lembro-me de Rio Frio e da Ota, lembro-me que quem lixou Rio Frio foram os sobreiros e os passarinhos e a Ota vai lixar-nos é a nós todos, geração que aos vistos parece andar folgada, altruísticamente indiferente e de carteira aberta, surda a todos os pareceres que chamam à Ota de erro, e dos caros, quando comparado com o dito que se lixou, lixou-se e lixa-nos pelos estudos que confirmam que os sobreiros não crescem a norte do Tejo e os pássaros não gostam da zona da Ota para aninhar, restando como alternativa alada para alegrar a zona e a malta esses outros caros e birrentos, pássaros passarões, aviões.
(não vem de agora: já o pensava antes de comprar o calhamaço do MC)

raciocínios e tesuras; Michael Crighton; ambiente - aquecimento global; queda de mitos e pontapé nos ícones; muro de Berlin '89

estou quase no fim do último calhamaço de Michael Chrigton, "Estado de Pânico", guerras do ambiente e muita, muita, boca aberta a muita página: bem esgalhado. tanto que já me deu vontade de comprar meia dúzia para oferecer, não para 'converter' pois eu também não saio dele assim* - já o posso dizer pois estou a meras dezenas de páginas do fim e o "thriller" já se assumiu além do arrojo na abordagem ao tema.
não o faço também porque é caro, é calhamaço e isso tem preço correspondente. mas o gajo é esperto: fosse eu abonado como desejava e estavam garantidas as prendas: eu sozinho comprava-lhe 'meia dúzia', repito que não para descatequizar alguém pois, crescidinhos, da água benta bebe quem quer, mas pelo prazer que eu teria em, sei lá... natal de '70's?, receber uma ficção bem esgalhada, solidamente fundamentada, sobre... novembro de 89...
é isso: aconteceu, facto. e se...?
* extraído do livro, mais palavra menos palavra: "ser contra a pena de morte não é defender a não punição de criminosos"

quarta-feira, 25 de abril de 2007

sociedade unipessoal e ilimitada

eu quero é escrever, conversar contando o que não há lábios que saibam dizer com tanta clareza. sou um deficiente nos relacionamentos e, tendo de tal consciência e desejando redimir-me, escrevo, escrevo sem parar. nem tenho vergonha em contar que gosto mais disso do que de sexo pois sei lá porquê rara já é a queca que me deixe desvairado e a transpirar e, escrevendo, lá saem umas auto-carícias que põem direito o ego e rejuvenescem o tinteiro.
por sugestão fui directo ao terceiro capítulo daquele livrinho pequenino que o jornal Público recentemente ofereceu, de Amos Oz "contra o fanatismo". sorri até mais não - quase que foi visível!... - e lembrei-me, li-me. ainda bem que há quem o conte, Rosa Montero até esticou esticou até fazer o melhor livro que li ao tema: "A Louca da Casa", ainda bem pois eu rasgo papel atrás de papel, também desejoso em contá-lo: nasce, infiltra-se, vicia, e quando reparamos parecemos uns maluquinhos incapazes de olhar o quotidiano sem imaginar romances, tramas e psicodramas, tudo alegremente esbarrotado e naife como são todas as histórias imaginadas só pelo prazer de 'escrever' em contínuo, que importa se o caderno está ou não aberto ou se há pincel para a tela...: não se consegue parar de escrever mesmo quando se anda ao papel literalmente, a olhá-lo como o analfabeto ao palácio: gosta muito mas não sabe como contá-lo. de vez em quando lá calha e metade do idealizado, laboriosamente construído em 'escritas' no momento, olhar a tela e escrevê-la em directo mas com toda a atenção às vírgulas e mudanças de linha, há bocados que ainda são recordados a tempo de chegarem à caneta e nasce post, crónica, contadas ao Mundo as maluqueiras que pensamos e sabemos escrever - principalmente isto, pois se dá prazer queremos que toda a gente saiba como somos felizes!, é natural à auto-estima e também é a desculpa do escritor.
ninguém sabe o quanto está escrito na linha que vai do olhar perdido até à ponta onde se perde, excepto o outro olhar ausente com que acabamos de cruzar a 'nossa' trama idealizada, em que lugar está e que personagem ele é nesta linha interminável que há quando se encontra a resposta ao "porque escreves" e "como o fazes": não se pára, após começado. cada novo texto é uma aventura, um ginásio faustoso onde se exercita a reinvenção do mundo, ao menos na forma de o escrever pois ao mais que ninguém refile se até no pormenor da queda dum cabelo há matéria para uma evasão direito à escrita do seu movimento, gracioso no cair e pousando com a elegência que só um longo cabelo tem, rolando suavemente num cair preguiçoso, hipnotizante para quem o lê, e assim a ficção às vezes manda mais que a vontade, como é possível passar ao lado da riqueza de olhar sem escrevê-lo, incluindo no descrito a parte mais bela, prazer em contá-lo e imaginar o afago que tanto fez suspirar o cabelo que ele desmaiou, os olhos os lábios e depois a mão a recebê-lo em regaço, derretido em minuciosos prazeres por ir contá-lo, letra.
afinal o sorriso valeu a pena, Oz fez-me contar o meu niquito da história. os meus gelados, a minha forma de 'construir', os meus óculos de ver ao perto. como começa? se pensar bem acho que a resposta honesta será a de ter-se lido e gostado de ler, apanhar-se o 'jeito' de encher a tal linha de vazio do olhar perdido na multidão e nela individualizar ligações, juntar-lhe carga que esteja a jeito na memória para encher o cenário, e ninguém imagina o que vai em tráfego no olhar ausente de 'quem escreve' e parece ter morrido em vida, o olhar perdido em nada, no lento e extenso relato da queda dum cabelo, sentido a pele eriçada de prazer em escrevê-lo.
eu avisei que é melhor que sexo, e, mesmo esse, se pensarmos bem no assunto, tem afagos e cabelos insuspeitos tantos quantos forem os possíveis de se acreditar existirem nos olhos semicerrados perdidos na névoa do orgasmo - tal e qual o olhar o nada e a multidão e seus extraordinários dons de pilosidade, em empolgado relato: um suspiro escrito é mais lento que um roçar de lábios, ó que prazer em contá-lo, os lábios lambendo-se para recolher a sensação, os olhos olhando e recriando, escrever.
é tudo. acabei. gostei de estar a escrever isto. a, outra vez. a, quero para sempre.

terça-feira, 24 de abril de 2007

ovnis; feira popular; a Celeste; X-15; Arrabal; ortodoxia frelimista; ganzas;

Num Grupo MSN um amigo abriu uma mensagem onde abordava os mistérios que a arqueologia nos trás (no caso uns intrigantes crâneos humanos moldados em cristal, com presumíveis milhares de anos) e não tardou a abordar-se a velhinha questão dos UFO's, pretexto para eu recordar assim:
..........................................................................................
" eu uma noite, à porta da Feira Popular, vi uns (ou um, já não me lembro bem) "discos voadores". palavra. estava comigo a Celeste mas não posso arrolá-la como testemunha pois há mais de vinte anos que não sei dela. e todos os que estávamos à porta, naquelas noites de verão em que às 'dez' ainda é cedo e faz um calor dos diachos, todos erguemos a pala e apontávamos, as luzes brilhantes lá em cima e que após umas piruetas deram em zarpar como se levassem fogo no rabo. os jornais no dia seguinte falaram nisso, se bem me lembro foram vistos sobre Setúbal e mais tarde no Algarve.
vale o que vale, mas a verdade é que naquele momento a Celeste ficou(-me) secundária e para todos tudo ficou secundário pois não havia quem não olhasse, comentasse, apontasse, os "discos voadores". sei lá o que era, e na ciência aeronáutica (a militar, principalmente essa) fazem maravilhas de que ouvimos falar pelas tvs e jornais, e de fugida e mal. nos USA, anos 50's e 60's, a febre dos "discos voadores" era o prato do dia, quase sempre nos estados do interior, mais desérticos e, claro, onde se situam as enormes pistas para os aviões experimentais. houve nessa época muita experiência acerca de formas revolucionárias, desde as tentativas de criar bombardeiros em forma de asa única, o avião era todo uma asa qual boomerang gigante, até aos do tipo do famoso X-15, um avião foguete. depois houve o Blackbird (SR-71 se não erro) e os tempos também são outros, mais informados, e foi um claro erro deixar de prestar atenção à Celeste em busca do milagre nos céus. talvez daí, sabe-se lá..., a Celeste também foi um disco voador, célere e fugidio, já agora conto essa parte para não ficarem nós por desatar.
quando me der o berro como ao cão do Miguel, a carne é roída num instante e o meu crâneo fica no melhor museu de história natural que há: a Terra, a boa terra, a minúscula para poder haver a outra, a maiúscula de todos nós. ou cremado. suspeito que ninguém irá querer snifar-me como o gajo dos Rolling Stones fez às cinzas do pai. só num filme do Arrabal (cinema Avenida, na Baixa de LM, já finais de '75 se bem me lembro) vi um gajo comer-se a si próprio, no caso manjou uma mão: dava mais jeito de levar à boca e ainda tinha a outra para segurar o prato, que o serrote tinha ele encaixado no crâneo. agora há o Hannibal e mais aquele gajo alemão que os encomendava pela Internet, tal como se faz para uma piza, mas de autofagismo (é assim que se diz, não é?), canibalismo de si mesmo, só me lembro desse. por isso quer as cinzas quer a carne voltam directos à origem, et voilá.
bem, 'tou baralhado. discos-voadores, a Celeste, mais canibalismo e o X-15. e nada em cristal. vou-me"
.......................................................................
bem, tive resposta. nela sou perguntado se a visão dos UFO's não se deveria a "umas passas bem puxadas" (sic) que fizeram confundir as luzes dos carrocéis com outras coisas aladas. e, aproveitando a boleia, o filme do Arrabal foi desancado de alto a baixo pois o meu interlocutor também o tinha visto, mesma época e cinema. enfim, os mimos ao cineasta e à sua obra foram abaixo de cão, coisa tão tal e tal que não me coibi em, brincando, levantar mais um canto ao tapete, que pó por varrer é o que mais por ali há... assim:
.................................................................................
" mais depressa se apanha um ortodoxo que um coxo!

sim, o filme é mesmo esse e sei lá se até na mesma sessão... mas vamos ao que interessa, à semelhança de posições entre a tua "crítica" ao filme do Arrabal e a posição de quem então superentendia na agit-prop & cultura da FRELIMO, que esperneou, ralhou, ameaçou, para que o filme não passasse: esse episódio foi-me contado, e não há muito tempo atrás, pelo então responsável pela ida do filme, inserido em ciclo de cinema alternativo, como o exemplo do primeiro dos muitos desencontros, coacções intelectuais, ameaças veladas e menos veladas que acabaram, logicamente, já anos oitentas bem puxados, que o bom do meu interlocutor levantasse a tenda e abalasse para cá, farto e cansado de ser ameaçado se não cumprisse a cartilha cultural oficial do regime: tu tás igual, meu! mas igual é ao outro, ao que, a seu gosto, só passaria o couraçado Potenkim e o filme da vida do Querido Líder, mais o relato épico da campanha do arroz na província de Xin-xin-Xin!....

das partes que falas e que tanto te impressionaram - as visuais, não me refiro à odora... - eu não me recordo. ando há trinta anos é a recordar-me do man a comer a sua própria mão, foi a cena que se me gravou. por isso volta não volta e quando a conversa resvala para aí, cinema dos 'velhos tempos', vem-me sempre à baila e foi aí que ele me contou a saga vivida para o filme ter passado, ameaçado que esteve até ao próprio dia da sessão em ser 'vetado', ameaças de demissões compulsivas e até dalgumas coisas ditas entredentes e bem piores... uns tempos depois gritadas a bom som, numa espiral de ortodoxia que estrangulava qualquer veleidade 'cultural' ou de 'liberdade de imprensa' que fosse além da dita cartilha "boa", que culminou, como te disse, na total incompatibilidade pessoal e ameaças directas à liberdade (pelo menos) do "perigoso reaccionário" encoberto em capa de "agente cultural". história e estórias, que é destas que se faz a outra, a com agá. reconheçamos que ao menos por estas duas coisas valeu a pena o Arrabal ter visitado a então jovem Revolução Moçambicana: terá sido dos primeiros sinais de que as águas não eram tão mansas e plácidas como se sonhava, e 'chocou' os espectadores - touchée! - ao ponto de três décadas e picos depois ainda ser falado, comentado, à mesa da interminável bula-bula do passado, mérito que em certo a maioria dos filmes que vimos não merece.

depois há os UFO's mais o resto, ganzas e Celeste incluídas. saiba Vossa Senhoria de eriçada barba que o je, ao que se lembre, na noite das aparições nada mais inalou que a suave fragância dos sovacos da Celeste e a pestilência que vinha dos frangos e das sardinhas a assar. no máximo, mas já no limite, concedo que tenha aviado meio maço de Kart, que era então o tabaco que a casa gastava. ganzas nicles, niente, n'a pas de rien. ou então tratrar-se-ia da oficial queima dumas boas toneladas de suruma apreendida, e o manto de fumo psicadélico não só bordejava a Feira Popular e inspirava oníricamente todos os que de nariz no ar olhavam o "fenómeno", como a nuvem do "pão dos deuses" se estendeu para os lados do aeroporto pois, segundo contaram os jornais da manhã, lá na torre também os viram sem que as agulhas se agitassem ou da estática saísse qualquer comunicação: "eles andam aí, eles andam aí..." :-)

enfim, verdade ou mentira nos UFO's, isso não sei. sei e lembro-me é da covinha no queixo da Celeste, dos seus lábios brilhantes, o jeito maroto do seu cabelo, a estonteante anatomia dos seus maravilhosos 'vinte anos'. em seu e meu prejuízo nessa noite 'corri' atrás de discos voadores e, fictícios como são, fizeram perder-se a magia dos encontros, dos 'dates'. no dia seguinte fomos ver um filme musical (Led Zepellin? the Who? já não sei...) ao Nimas e recordo-me de haver uma lágrima silenciosa enquanto lhe segurava a mão, num afago último à noite de paixão perdida algures nos céus da ilusão. coisas da vida, que nem sempre é celestial."

memórias, quem as não tem...

sexta-feira, 20 de abril de 2007

O ruído do aparo; eu e Sócrates, covilhanenses mas parolos; o luxo de ter Sol em Abril como nem os finlandeses nem os chineses têm

Arrasto a caneta em patéticas construções como o rabo preguiçoso arrasta a cadeira, rangidos que incomodam quem tem a delicadeza de ser sem incomodar. Cansa-me escrever muito e gostava de ser poeta porque estes escrevem pouco e muito, precisam de escrever pouco para terem 'muito' escrito. Eu não: zaca-zaca, viro folhas a cuspo de tanto nelas me esconder, chinelo de medida trinta e oito que sonha jogar na NBA e sabe-o assim difícil curto como é, zaca-zaca toca a abastardar a pegada. Vou votar no José Sócrates (seja para que freguesia for e esteja ele em que associação estiver) se se confirmar algum do bruá da Universidade Independente: tenho simpatia por um gajo que é tão nabo e tão esperto que chega a general por artes próprias mas é tão parolo que cai no risco de falsificar o diploma de sargento-ajudante, aspirante a fazer pela ´vidinha’ o melhor que conseguisse se aquilo da Política “não desse certo”.
Que tem isto a ver com Poesia, ou com o meu tamanho de chinelo? o laço é a falsificação do bilhete de identidade. Explico. Como ele sou um parolo, a provar-se que falsifiquei a vida substituindo uma caneta administrativa com alguma arte e engenho – diziam alguns…, por outra em que tais dotes foram sobrestimados, tornando o tal rabo preguiçoso. Daí os rangidos ao arrastar da cadeira que incomodam quem à poesia tem o respeito devido, até pela leitura de muita da sua invejosa, a prosa. Em arrastar para a frente descobri que não é de meu jeito encontrar a pura rima da poesia, mais chiar no erro da obsessão pela rima óbvia, ter ‘diploma’.
Fechar-se-á o círculo se, a serem as coisas assim mais que sugerido é dito, juntando Sócrates a sua cadeira à minha no canto dos poetas falhados, retribuir-me a atenção e simpaticamente comprar-me um livro, cada um na sua parolice e dizendo de sorriso parvo que o que traz no colo são rosas, lindas ideias em flores e escritas, rosas e poemas, senhores.
Tenho dificuldade em avaliar o desempenho do Governo: nota-se que se esforça mas não se vê a rima prometida e, olhando-o, vejo o meu espelho a olhar para mim, tanta boa ideia e intenção mas tanta remela em volta dos olhos, amarelos de tanta ruga olharem; lá no departamento que nos governa cada mês que passa há ministros atrás de ministros que engrossam os já não escondem a cara de desiludidos com o País que era suposto governarem rumo a futuros que, vê-se na falta de sintonia e rima, não são para ele, são-lhe mundos estranhos ao seu pé pequeno e de curto ritmo. Sócrates impinge-nos a falsificação colectiva da identidade, quer transformar este Abril que para nós já é mês de Sol num qualquer calendário ‘moderno’, daqueles da Era da Globalização que dizem que é mais importante o custo da sua edição que a beleza da foto que mostram, banais folhas que se arrancam sem saudade, apenas preocupados que haja outra nova que lhe suceda, e outra, e outra, a sobrevivência. Aterroriza-nos com os rácios de produção finlandeses em tecnologias de ponta e ao dizer aos chineses que a nossa pobreza é um ‘cluster’. Como presidente de junta com uns tostões guardados, nas festividades solta foguetório para que haja bailarico, no discurso fala em um dia se ser uma grande cidade e, no dia seguinte, aperta com os funcionários para ver quem tem a licença do ‘caniche’ em atraso e vai almoçar com os empreiteiros, sonhando a sua freguesia pejada do que não é e, suspeito tal como à minha poesia, nunca será, cidade.
Somos ambos “da Covilhã”: as aspas vêm por mim que, não lá nascido tecnicamente pois razões de precaução aconselharam os meus pais a eu nascer na maternidade Alfredo da Costa, lá vivi do ano zero ao sete, antes de pisar o tombadilho do ‘Infante D.Henrique’, paquete até aos vinte. O Alçada Batista também é da Covilhã mas ao que dele sei tem mais tias e gosta mais delas que eu ou o José Sócrates, e é melhor pessoa que nós: que se saiba, nenhuma delas é imaginária, falsificada como é a política do “engenheiro” e diz-se que o seu diploma também, e já agora o tamanho do meu pé, tropeção e arrastão sem rima, viver diário sem Sol em Abril e Poesia no resto do ano que lhes valham ou o futuro prometido antevendo-se como possível, não se sendo por bilhete de identidade finlandês ou chinês, Poeta ou Escritor: nem todos os beirões triunfam, zaca-zaca a abastardar a pegada, é nas estantes que estão os romances e os livros de História e odeiam-se as rugas do espelho.
Rimar um País com o Mundo como se não houvessem fusos horários, trópicos ou glaciares, é tão utópico ou tinta perdida como acreditar que quem escreve três mil e seiscentos caracteres é um poeta e não um industrial da rima, um prosador. Toda uma fronteira de diferença, toda a arte de em poucas letras soltar um suspiro, a elegância de se saber ser governante da sua própria freguesia e não da sede de concelho ao lado, passem os seus exotismos nórdicos ou orientais que afinal pouco valem ao pé da nossa tipicidade de ter Sol em Abril, medida trinta-e-oito mas quarenta e seis sonhado e portuguesmente bronzeado, passe agora o rangido do aparo que à falta de melhor rima havia de soar.